terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"Sina" em glorioso vinil ...

““Enceguerado”. Movido por um desejo irracional, sem fundamentos, indomável. Ímpeto que não conhece bem ou mal – estende a mão a um Zé Ninguém, passa a rasteira noutro amigo, se desculpa e alega que o amor mata diariamente. Numa cidade pacata por natureza, um homem caindo de velho senta na porta de casa todas as tardes para ouvir as histórias trazidas pela brisa. Ela sopra “fuga”. Brisa que amansa e atiça. Uma intelectual se entrega à religião; o garoto troca o futebol pelos acordes envenenados do blues; o papudinho abraça a garrafa; o pescador joga a rede na esperança de estrelas e acordes. É sempre a brisa. Brisa que pariu “Baggios”, “Zorrões”, “Leões”. Sonhadores, almas em busca, vítimas do mapa rasgado na palma da mão direita. A vida é um nó cego, não desata por força da insistência. Somos todos reféns da própria SINA.”

O belíssimo texto acima, sem indicação de autoria, está no também plasticamente belo encarte da versão em vinil de “sina”, segundo disco da banda sergipana de blues/rock The Baggios. Estou com o bolachão, verdinho, em mãos. Depois de apreciar mais uma vez a capa, excelente trabalho da dupla “snapic” tendo o maluco beleza Agapito e a estação de trem desativada de São Christóvão como modelos, repouso-o no prato de meu 3em1 velho de guerra, que tantas alegrias me proporcionou nesses mais de 20 anos de uso ininterrupto, sem nunca precisar de pausa para conserto, e conduzo o braço com a agulha aos primeiros sulcos, que me disseram o seguinte:

Uma batida percussiva ao mesmo tempo tribal e moderna abre “Afro” – e o disco – como que avisando ao ouvinte que a mesma banda estava de volta, mas com vários “algo” a mais. Nem tanto no ritmo, que continua deliciosamente calcado no blues com sotaque brasileiro e, quiçá, nordestino. E SERGIPANO, ouso dizer! Me causou estranheza à primeira ouvida, mas isto é, muitas vezes, um bom sinal. Foi o caso, aqui. Está totalmente assimilada e é, sem sombra de dúvidas, uma belíssima musica.

É seguida por “Blues do aperreio”, mais na linha do que os Baggios vêm desenvolvendo já há mais de uma década como sonoridade. E por “Sem condição”, o primeiro “single” – uma pepita lapidada com esmero à base de riffs de guitarra poderosíssimos acompanhados por uma bateria potente e precisa. Perfeita.

Em “Salomé me disse”, mais um pouco de estranheza: Em ritmo de valsa, Julico desfia mais uma de suas letras sobre perdas amorosas, aqui num clima de “mea culpa”. Se é um pedido de desculpas por algo, fosse eu a Salomé do título, teria chorado ao ouvir. E perdoado, evidentemente.

E então temos “sina”, a música, cuja letra – todas elas, pelo menos aparentemente, autobiográficas e/ou confessionais – emula a de “o azar me consome”: fala das desventuras de quem quer apenas ser honesto num mundo cheio de perfídia e falsidade. Mas sem melancolia ou baixo astral. O clima está mais para o confronto, a persistência. Ele não vai desistir, apesar das coisas não darem certo para ele, em muitos momentos.

Fechando com chave de ouro o lado A – lembrem-se, estou resenhando o vinil! – “Esturra leão” e seus sensacionais arranjos de sopro. Aqui Julico discorre sobre outro tema recorrente em suas letras: o retrato das figuras folclóricas das Terras do Cacique Serigy. “Leão”, segundo me consta – não o conheço – é um personagem real – e fascinante, a julgar pelo que está escrito. Fugiu de Estância – cidade sergipana bastante citada na literatura de Jorge Amado, que costumava passar férias por lá – depois de confessar ter assassinado e enterrado sua amada. Seu pedido de perdão hoje ecoa nos sulcos do vinil, cujo primeiro lado se encerra num “fade” sensacional. Perfeito.

Numa bem sacada noção de continuidade, o lado B começa focando em outro “figura”, “Zorrão”. Também fascinante, deu até vontade de conhecer. A segunda, “Vagabundo arrependido”, é uma espécie de segunda parte de “Salomé me disse”, já que tem praticamente o mesmo ritmo. Gostei. Rebuscado, parece coisa de disco conceitual.

Depois de “De malas prontas” – mais um tema recorrente, a partida, quase sempre triste – o disco se encerra com uma sequencia de três músicas praticamente perfeitas: “Domingo”, com seu delicioso ritmo “roots” arrastado; “Tardes amenas”, com um sensacional arranjo de órgão de Rafael Ramos; e “Descalso”, levado na base da viola e do “slide guitar”. De bônus, uma emocionante homenagem ao Baggio, andarilho da cidade histórica de São Cristóvão, onde Julico, o mentor da parada, ainda reside.

E é isso. Nada mais a declarar sobre esta pequena obra-prima do rock independente – MESMO! – brasileiro. Um chute no saco da mediocridade que impera ao nosso redor.

Quem ainda não conhece está TOTALMENTE por fora ...


por Adelvan

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HOw cAn yOu Be sUre Today?

Foi uma festa simples, como sempre. “Indie”, “underground”, “alternativa”. Nem tão estranha, nem com gente tão esquisita. Poderia ter sido morna. Mas não foi. Nunca é. Porque a banda é foda, um verdadeiro clássico do rock sergipano, e aproveita a ocasião estratégica – férias, festas de fim de ano - pra reunir as pessoas que cresceram embaladas por seus discos e que hoje estão morando fora, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, numa grande celebração.

O show deste ano em especial trouxe lembranças para os um pouco mais velhos que a maioria dos presentes, a velha guarda da velha guarda, digamos assim, porque eles tocariam pela primeira vez na íntegra e ao vivo o primeiro disco, “Waking up... waking down”. Foi lançado há 15 anos, numa época em que a internet ainda era uma coisa distante, da qual eu, pessoalmente, já tinha ouvido falar, mas não tinha tido nenhum contato, e a maioria dos presentes – a “geração” de fãs mais fiéis da snooze - ainda era novinho(a) demais pra ir a shows de rock. Antes do “Rock-se”, festival divisor de águas que aconteceu naquele mesmo ano de 1998, só que no final. Me lembrou, por exemplo, a festa de despedida de Daniel, o hoje falecido guitarrista do então “Power trio”, na casa dos Irmãos “snoozers”. Antológica. Ou a vez em que nos reunimos todos num domingo à noite, na mesma “Casa dos vinhos”, para assistir à estréia do clip de “Life is good” no célebre LADO B da MTV, apresentado pelo “reverendo” Fábio Massari.

E foi lindo. Bom público, empolgado, como sempre, e banda afiada, em formato de quarteto – com Duardo na outra guitarra – desfilando clássico atrás de clássico. Com direito a encerramento apoteótico com a primeira música da primeira demo tocada como se tivesse sido composta ontem.

Abrindo a noite tivemos “Os Adolescentes da Vovó” com um ótimo show de covers que contemplou a íntegra do clássico “Badwagonesque”, do Teenage Fanclub, e um “revival” da Road To Joy, excelente banda local que teve vida curta porém gloriosa e é um dos maiores potenciais não-realizados da cena local.

Só faltou mesmo o ventilador. Na próxima vou levar o meu. Prometo compartilhar com todos.


Foto por Julio Andrade, da The Baggios
Calor do CARAAAALHOOOOOO !!!!!!!!!!

Ah: faltou Mauro “space boy” gritando por “Jesus Christ”, também, mas Luiz deu conta do recado com louvor.


"Give me the gun my friend".

A.

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

VIVA TROTSKI!

“Durante quarenta e três anos de minha vida consciente fui revolucionário e durante quarenta e dois lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse de começar tudo de novo eu tentaria evitar um ou outro erro, mas o curso principal de minha vida continuaria inalterado. Morrerei como revolucionário proletário, como marxista, como materialista dialético e, consequentemente, como um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardorosa, na verdade é hoje mais forte do que nos dias de minha juventude. Natascha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro céu azul, e por todos os lados, a luz solar. A vida é bela! Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência, e possam gozá–lá plenamente.” – Trotski, em seu testamento.

A morte ocorreu em 21 de agosto de 1940, às 7 horas e 25 minutos. A autópsia mostrou um cérebro “de dimensões extraordinárias” pesando 4 quilos e 777 gramas. “Também o coração era muito grande”.

Em 22 de agosto, de acordo com um costume mexicano, um grande cortejo fúnebre marchou lentamente atrás do caixão, carregando o corpo de Trotski pelas principais ruas da cidade, e também pelos subúrbios proletários, onde multidões andrajosas e descalças enchiam as ruas. Os trotskistas norte-americanos quiseram levar o corpo para os Estados Unidos, mas o Departamento de Estado recusou o visto até mesmo ao morto. Durante cinco dias o corpo ficou em exposição e cerca de trezentas mil pessoas desfilaram ante ele, enquanto nas ruas soava o Gran corrido de Leon Trotski, balada folclórica composta por um poeta anônimo.

Em 27 de agosto o corpo foi cremado e as cinzas enterradas nos terrenos da “pequena fortaleza” de Coyoacán. Uma pedra retangular branca foi colocada sobre a sepultura e uma bandeira vermelha desdobrada sobre ela.

Natália (Sedova, viúva de Trotski) continuaria vivendo na mesma casa por outros 20 anos, e todas as manhãs, ao se levantar, seus olhos se voltavam para a pedra branca no pátio.

“Trotski, o profeta banido”, de Isaac Deutscher
Tradução de Waltensir Dutra
Editora Civilização Brasileira
Rio de Janeiro
2006

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal com o juiz Dredd ...

Tivemos, eu e os fãs de quadrinhos "adultos", um inesperado presente de natal este ano: a Editora Mythos colocou nas bancas um especial natalino da revista Juiz Dredd! Me fez lembrar os tempos em que acompanhava TODAS as publicações de super-heróis da Abril nos anos 80, inclusive "Grandes Heróis Marvel número 2, o Natal do Homem Aranha", provavelmente o primeiro "gibi" do tipo que li na vida.

A edição veio no mesmo formato e qualidade da revista mensal: grande, "magazine" mesmo - o que a faz se destacar mas ao mesmo tempo ficar isolada das demais publicações de quadrinhos na maioria das bancas, portanto fique ligado! Começa com uma boa história magnificamente desenhada Jim Murray e prosegue alternando-se entre coisas novas e mais antigas escritas e desenhadas por gente do quilate de Alan Moore - num interessante conto de ficção científica de apenas duas páginas, em preto e branco - Mark Millar, Garth Ennis - num argumento que revisita o velho conto de natal de Charles Dickens, só que com um nível de violência e a infâmia que só ele é capaz de acrescentar sem soar "forçado", apelativo - John Wagner, Al Ewing - que escreveu uma das histórias mais criativas, na qual você tem que, supostamente, avançar ou retornar nos quadros de acordo com suas escolhas, o que permite uma inédita identificação com o protagonista - e um jovem Steve Dillon em início de carreira.

Não espere nada muito rebuscado ou profundo nos roteiros: as histórias são curtas e, em todo o caso, não é esta a proposta do personagem em si, um dos mais "casca-grossa" e politicamente incorretos dos quadrinhos, disputando pau a pau com Lobo, "o maioral". Criatividade, no entanto, transborda pelas páginas. A diversão baseada no humor negro e o banquete visual proporcionado pelos excelentes desenhistas também são garantidos. Não é por acaso que o personagem faz tanto sucesso mundo afora: já foi tema de uma musica, "I Am the law", da banda de thrash metal Anthrax, e de duas adaptações para o cinema - uma - horrível - estrelada por Sylvester Stallone e outra - não vi ainda - por Karl Urban. A publicação na qual estreou, 2000 AD, é publicada SEMANALMENTE desde 1977! São 1.861 edições regulares ...

Além disso o personagem hoje tem sua própria revista, "Judge Dredd Megazine", atualmente no número 343. No Brasil foi publicado pela EBAL em "Capitão Z Apresenta: Ano 2000" e em "crossovers" com personagens mais famosos por aqui, como o Batman. A revista própria, mensal, começou a sair este ano e tem uma boa distribuição em bancas. Está na sétima edição.

O Juiz Dredd foi criado por John Wagner e Carlos Ezquerra. É um oficial da lei de uma violenta cidade do futuro onde a função acumula os cargos de policial, juiz, júri e executor (quando necessário). É tudo o que o Justiceiro, da Marvel, gostaria de ser - mas não é ...

A Mythos Editora, empresa irmã do estúdio Art & Comics International, foi criada em 1996 e estreou na área de quadrinhos com títulos da DC Comics e outras editoras, além da linha italiana Sergio Bonelli Editore (de TEX), que herdou da Editora Globo no final de 1998. Atualmente também é a casa de Conan e Hellboy. Além das publicações próprias é, desde janeiro de 2002, a produtora dos títulos da Panini Comics no Brasil.

Juiz Dredd Especial de Natal
Mythos Editora
Roteiro: John Wagner, Alan Grant, Garth Ennis, Mark Millar e Al Ewing
Arte: Jim Murray, Steve Dillon, John Higgins, Carlos Ezquerra, Jesus Redondo e Dave Taylor
Formato Magazine
68 páginas
R$ 10,90

A

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domingo, 22 de dezembro de 2013

Leonardo Padura, duas entrevistas.

(1) Socialista Morena– Como foi possível que os cubanos até recentemente não soubessem nada de Trotski?
Leonardo Padura – Não se sabia praticamente nada porque se aplicou aqui a mesma política da União Soviética. Havia uma aliança tão estreita que não podia ser diferente. Trotski era o inimigo inominável. Não se publicavam obras dele nem sobre ele, ninguém sabia quem era realmente. Só há poucos anos, quando, em algumas feiras literárias, a editora norte-americana Pathfinder, que é trotskista, trouxe alguns livros dele, e uma editora argentina trouxe sua biografia, é que a informação passou a circular mais. Mas foi com o meu romance que os cubanos o conheceram. 

SM – Seu próprio interesse por Trotski começou como?
LP – Na época da universidade ouvi falar algo, mas não se mencionava ele nas aulas. Esse fato aumentou ainda mais minha curiosidade a respeito de Trotski, e, em 1989, na primeira vez que fui ao México, conheci a casa dele em Coyoacán. Fiquei muito emocionado. Era um lugar escuro, sombrio… Claro que nem imaginava que um dia iria escrever um livro a seu respeito. Uns anos depois dessa visita, soube que Mercader viveu em Cuba, mas ninguém tampouco falava disso. Em 2005, 2006, quando decidi escrever o romance, procurei alguém que sabia que o conhecera pessoalmente e a resposta que recebi foi um rotundo “não”. 

SM – O que há de ficção e realidade na trama?
LP – Há muito dos dois. A vida de Trotski está toda biografada, cada minuto de sua vida, então tem muito de investigação histórica nas cenas narradas. Com Mercader é diferente porque se conhece muito pouco da vida dele. Sua vida é uma mentira, uma criação dos órgãos de inteligência soviéticos. O terceiro protagonista, o cubano que conduz a narrativa, também está documentado. Tudo que acontece com ele aconteceu com pessoas da minha geração. 

SM – Se deixa notar no livro que você sente simpatia por Trotski…
LP – Creio que existe uma simpatia natural pelos derrotados, pelos que perderam. Além disso, como Trotski tem a figura de Stalin como antagonista, ele se torna um dos personagens mais simpáticos do mundo… Stalin é monstruoso. Trotski manteve sempre esse pensamento utópico de que a revolução era possível. 

SM – Me parece uma pena que os cubanos não tenham conhecido o outro lado dessa história.
LP – Sim, é um personagem que talvez pudesse dar aos cubanos uma alternativa de pensamento socialista. 

SM – Há quem ache que não faria diferença se fosse Trotski o vencedor diante de Stalin. Você concorda?
LP – Essa seria uma especulação histórica e a história se analisa com o que ocorreu, não com o que poderia ter ocorrido. Trotski talvez pudesse fazer a mesma política, mas talvez não achasse necessário matar 20 milhões de pessoas para isso. Trotski era um político, Stalin era um psicopata. Trotski poderia ser duro, reprimir, mas não de uma maneira doentia. 

SM – Você se incomoda de falar sobre a política em seu país?
LP – Eu sempre prefiro falar de literatura, mas no caso de Cuba é inevitável. É um país onde existe um governo e um partido que são a mesma coisa e onde todas as decisões são políticas, então é impossível não falar. 

SM – Há mais liberdade hoje em Cuba?
LP – Há mais do que há alguns anos. Há alguns anos eu não poderia ter publicado este livro, por exemplo. O que não quer dizer que haja absoluta liberdade de expressão, continua existindo censura. Em nível econômico houve muitas mudanças importantes, imprescindíveis. Chegamos a um ponto de imobilismo e crise insustentáveis. Se está movimentando economicamente o país. Mas as mudanças têm que ser mais profundas. Tem de haver mais abertura comercial, mais convênios com investidores estrangeiros, porque o país não tem capital para se modernizar. Tem que ter também mais espaço para a crítica, um diálogo crítico mais aberto para que se possa encontrar soluções, chegar ao consenso. 

SM – O caminho está aberto?
LP – Está demarcado, mas a entrada é muito estreita… O modelo está mudando, mas tem que mudar muito mais para que as pessoas que pensam diferente também tenham direito à opinião.

(2) O homem é tranquilo, mas deixa escapar algum “que merda” de vez em quando, principalmente quando fala da liberdade crítica e, nesse momento, seu semblante se faz mais enérgico. A Leonardo Padura (Havana, 1955) os cubanos se aproximam para perguntar por Mario Conde, seu personagem de policial negro, como se fosse alguém de carne e osso. Outros, dentro e fora de Cuba, continuam intrigados pelo livro El hombre que amaba a los perros, publicado pela Editora Tusquets em 2009. O fio condutor é a perseguição de León Trotsky até seu assassinato no México, mas a novela excede longamente o magnicídio cometido por Stalin. Um dos grandes temas do livro é o fanatismo. O de Stalin, que manda assassinar León Trotsky. O de Kotov, encarregado pela KGB de conceber o plano e executá-lo. E o de Ramón Mercader, que o assassina. O que é um fanático?
–A exacerbação de uma ideia, de um sentimento ou de uma preferência. O fanatismo esportivo é o primeiro que vem à mente. É o mais massivo, mas pode ser o menos problemático. Já o fanatismo político sim pode ser muito daninho. Acho que as pessoas têm o direito de ter uma crença política, sempre e quando essa ideia política não seja agressiva, prejudicial. Tampouco lesiva da dignidade, da liberdade ou da integridade de outra pessoa. Tu podes ser de esquerda ou de direita, ou mais comunista ou menos comunista, mas não tens direito a impor-te aos demais e, do teu fanatismo, da tua crença absoluta, conceber que os demais devem pensar igual a ti.
A esquerda tem uma forma própria de fanatismo?
– Há uma forma de fanatismo socialista ou comunista que é muito complicada: a ideia de que, por teu bem, tens que ser obediente e tens que aceitar a opinião da maioria. Isso vai contra a liberdade de opção. No livro, Trotsky também é outro fanático.
Por quê?
– Até o final de sua vida teve apenas uma convicção e não mudou. Inclusive foi capaz de sacrificar a sua família. Estava tão convencido de que o socialismo era a solução para os problemas da humanidade, que nem sequer quando pôde comprovar que a prática socialista à maneira de Stalin, que foi a única que se pôs em prática, podia levar aos desastres e aos crimes que levou, mudou de ideia. Era anti-stalinista, mas nunca deixou de ser um comunista convencido e o escreveu e o expressou.
Coloco-me como advogado do diabo e digo: “Stalin foi a deformação monstruosa de uma essência nobre”. E posso dizer o mesmo do próprio Lênin.
–Também se pode dizer, e tens razão ao dizê-lo. O que acontece é que toda a razão e todas as verdades podem ser relativas, discutidas. E a posição de advogado do diabo te da a vantagem de poder encontrar o ângulo do qual uma verdade pode parecer absoluta ou uma afirmação pode ser rebatida. Mas sim, acho que, em essência, Trotsky foi também um fanático e que Stalin não foi só uma ideia, mas uma prática.
Sabemos o final do homem que amava os cachorros. Trotsky será assassinado. Mas, inclusive sabendo, o efeito é desesperante para o leitor: é a história de uma vítima perpétua.
E como seriam os fanatismos de Stalin, de Kotov e de Mercader?
– O de Stalin, doentio. Era um homem doente de poder que se achava um predestinado. O de Kotov é um fanatismo cínico: sabia o que estava fazendo, porque o estava fazendo. Obedecia, mas sempre com uma posição na qual sabia que estava transgredindo determinados princípios. Ramón ostenta um fanatismo obediente, quase canino, e que os cachorros me perdoem. O de Ramón é um fanatismo simples, tanto que no final, Iván duvida se deve sentir compaixão por ele ou não. Pergunta-se se este homem não havia sido tão vítima como o próprio Trotsky, que ele havia vitimado. Essa foi também minha dúvida.
Ainda o é?
– Veja bem, não tenho uma resposta definitiva, apesar de ter convivido com este personagem cinco anos, investigando e escrevendo. Acho que isso faz mais interessante o personagem. Humanamente, a opção de Mercader não tem perdão. É possível compadecer-se de um pecador, de um assassino, mas também tem que ter uma análise diferente quando está frente a culpas, não?
Falavas, recém, da investigação.
– O livro me obrigou a um estudo muito profundo de fenômenos históricos que se revisaram a partir dos anos 90. Também o fato de que Ramón Mercader fosse um personagem histórico sem história me obrigou a completar a imagem de Ramón lendo pelos arredores para ter uma ideia de onde estava, de como podia comportar-se, de que coisas haviam acontecido com ele... E fechei o período de investigação no momento em que Ramón assassina Trotsky. O trotskismo é um fenômeno que, em suas origens, inclusive, não existia. Era uma invenção de Stalin, que o necessitava para converter Trotsky no inimigo.
Em que medida o fanatismo de Stalin, que definias como doentio, era doença ou era sistema?
– Era as duas coisas. Stalin, de sua convicção, sua experiência, seu fanatismo, de sua crença e da situação histórica em que chega a ter a possibilidade de armar-se de poder na URSS, cria um sistema que não só tem um fundamento filosófico no marxismo ou nas contribuições do leninismo. É praticamente construído pelo pensamento e pela obra de Stalin. São chaves todos os processos que começam a ocorrer desde 1929: a coletivização, a própria perseguição de Trotsky e de todos os velhos bolcheviques, estivessem ou não, em seu pensamento, mais próximos a Trotsky ou a Stalin. Também assassinou stalinistas. Stalin não era nenhum pensador. Queria sê-lo: escrevia livros, filosofava, fazia teorias e estudava a linguística. Tentava ser como Lênin e Trotsky, queria ser culto. Mas a cultura se negava pela fanatização e pela criminalização a que submeteu a sociedade soviética.
Ou seja, que Stalin não sentia culpa nem esgrimia uma atitude cínica
– O cinismo supõe um olhar um pouco distante das coisas. Kotov o tinha. E ao mesmo tempo era uma destas criaturas que assumem a função de carrasco social com uma tranquilidade e uma rapidez tremendas. Houve muitos como ele. Orlov, por exemplo. É interessante que Kotov entra na proto-KGB dos primeiros tempos porque lhe davam uma quota adicional de cigarros e um par de botas e porque também lhe concediam licença para matar. Depois vai trabalhar no estrangeiro e se cultiva. É um homem de grande inteligência. O plano para assassinar Trotsky foi um dos mais elaborados e mais rebuscados que se possam imaginar. Quando veio a morte de Stalin e o encarceram, vive doze anos em uma espécie de gulag para agentes da KGB. Nunca perdeu o cinismo e tampouco perdeu algo que talvez seja o único que o humaniza: seu desejo de seguir vivendo. Há um elemento histórico real e é que, em um campo de concentração, foi operado a sangue frio, sem anestesia, de câncer de cólon. E sobreviveu.
Fica claro que “O homem que amava...” não é um livro de história. Como te chega isso? Que ruído te produz a tensão entre a História e a história que você conta? Falando de Tinissima, seu livro sobre Tina Modotti, Elena Poniatowska me disse em uma entrevista que ela primeiro investigava muito porque era um hábito jornalístico do qual não podia desprender-se.
– A investigação é uma disciplina que me atrai muitíssimo e desfruto cada vez mais, tanto da investigação como da escrita. Na escrita tenho absoluta liberdade. Na investigação tens a liberdade de escolher o que outros te propõem. Na investigação, os descobrimentos têm um atrativo muito grande e a gente vai mudando os preconceitos graças às evidências. Nesta história específica, como no caso da história de Tina, acontece algo que complica a relação do investigador com os fatos. Enquanto lia autores e testemunhos, eu tinha a convicção de que podiam estar mentindo. O assassinato de Trotsky e seus arredores estão cheios de mentiras. Tantas que se escreveu uma história, que depois foi reescrita, se continuará reescrevendo e se poderá voltar a reescrever na medida em que apareçam documentos, evidências e análises que permitam ter outra perspectiva. Por isso, neste caso, sempre se tinha que suspeitar da fonte, e isso fazia tudo mais atrativo.
No momento de escrever, como você faz para se desprender da investigação?
– É difícil. Tens que desprender-te da investigação e começar a ter um enfoque de fora para fazer teu exercício como romancista. De todas as formas, há um processo em minha escrita que me leva a fazê-lo, e é que a primeira versão que eu escrevo de meu romance está muito apegada à investigação. Mas, a partir daí, eu prescindo da investigação. Já sei que tenho datas que coincidem historicamente, lugares nos quais estão os personagens que coincidem com a realidade e tenho montada uma trama que historicamente se sustenta. Mas a partir daí começo a reescrever o livro, a fazer versões do romance e, no final, chega o ponto em que estou tão longe que inclusive me custa saber se o que estou dizendo é uma verdade historicamente comprovada ou se é uma verdade novelesca.
Nesse ponto terminaste
– Não, os romances nunca se terminam. Abandonam-se. Chega um ponto em que estás tão cansado dessa história, que te dizes “até aqui cheguei”.
Voltando ao grande tema do fanatismo, em que fanatismo pensou antes de escrever?
– Pensei muito nos fanatismos religiosos. Como uma pessoa, por uma crença religiosa, pode chegar a fazer o mesmo que faz Ramón Mercader? Existem pessoas que, por acreditarem em Deus ou por crerem no mundo melhor, são capazes de assassinar outros. Inevitavelmente, o fanatismo nos conduz ao fundamentalismo. Um fundamentalista é alguém que crê que é dono da verdade e, por essa verdade, é capaz de fazer qualquer coisa, inclusive as que a maioria das pessoas considera eticamente reprováveis.
Matar
– Entre outras coisas.
E morrer?
– A cultura da morte é muito mais complicada e é também parte do fanatismo. No caso específico cubano, por exemplo, no hino nacional se canta à morte. Morrer pela pátria é viver.
Mas ali existe uma concepção romântica
– Claro, é a época. Talvez a decisão do indivíduo, da imolação, pode ter um elemento, como tu dizes, perfeitamente romântico, no sentido histórico, mas no sentido contemporâneo também, que o faz menos agressivo. Não é o mesmo tu decidindo por tua vida que se tu decidires pelas vidas dos outros.
Ao falar do comportamento canino de Mercader, você pediu perdão aos cachorros. Como são teus cachorros? Os reais, digo.
– Tive tantos cachorros na minha vida... Uns duraram muitos anos, outros menos. Uns chegaram pequenos, outros adultos. Uns foram recolhidos das ruas, outros decidiram que a casa onde queriam morar era a minha casa. Quase nenhum de alguma raça legítima. Todos eles bastardos. Enquanto escrevia este romance, tinha dois. Uma cadela que morreu há cinco meses, Natalia. E não por Natalia Sedova, a mulher de Trotsky. Era uma senhora gorda que dormia todo o tempo no sofá, muito placidamente. E, desde antes de Natalia, temos um cachorro que tem dezesseis anos agora, que se chama “Chorizo” e que foi como uma criança em minha casa, e agora é uma criança que se tornou um ancião, e é um ancião em tudo, mas tratamos de dar a melhor vida possível aos nossos cachorros.
Cuba é o cenário fixo sobre o qual gira o romance. Como é a tua Cuba real?
– Sou essencialmente crítico com respeito à realidade cubana. Isto significa que tenho uma responsabilidade, porque posso usar a palavra e que a minha palavra seja lida. Tenho que cumprir com essa responsabilidade civil, intelectual e cidadã. Supostamente Cuba é um país socialista, o direito à palavra é fundamental. No caso cubano todos, querendo ou não, tivemos que participar nas vicissitudes da vida cubana. Eu, com 16 anos, estava em um campo de cana, cortando cana para o grande salto econômico do país. Cumpri meus 30 anos na Angola, na guerra, como correspondente civil. Ao lado da minha cama tinha um AK-47 com quatro carregadores para se, em algum momento, acontecesse qualquer coisa. Nos cinco anos do período especial, até 1995, quando deixei de trabalhar na revista e já fiquei trabalhando em casa, ia e vinha do trabalho de bicicleta, com chuva, sol, calor ou frio, 20 km de ida e 20 de volta. Fizemos todos esses sacrifícios durante todos esses anos, e decidimos permanecer em Cuba. Se os sacrifícios não me dão direito a falar sobre Cuba, que merda pode me dar direito de falar sobre meu país? Portanto, acho que se pode fazer essa crítica e inclusive se pode ser muito duro nessa crítica. Os governos não são infalíveis, sejam socialistas, comunistas, se chame Fidel Castro, Raúl Castro, ou como quer que se chame, e se tem que ter direito a essa opinião, e eu o pratico.
Termine de contar isto: “Decidimos permanecer”
– Sim, porque foi uma decisão pensada. No princípio dos anos noventa, a situação em Cuba estava em umas condições que o mais lógico era deixar o país. Não sabíamos se no dia seguinte íamos comer algo, se íamos ter eletricidade, o que ia acontecer com a vida e com tudo o que constitui a existência das pessoas. E eu, racionalmente, decidi permanecer em Cuba. Estive nos Estados Unidos, na França, na Espanha, na Itália. Disse: “Não, eu fico aqui porque sou um escritor cubano e quero escrever sobre Cuba, e quero fazer minha carreira aqui, apesar dessas dificuldades”. A partir de certo momento, tive possibilidades econômicas muito superiores ao resto da sociedade cubana, mas foi resultado de meu trabalho. Não foi algo que me caiu do céu. Tenho que mandar dinheiro ao meu irmão de Miami, não é ele que me manda. E tudo isso faz com que, apesar de que minha situação econômica mude, minha posição civil continue sendo a mesma e minha posição política também. Não milito nem nunca militei em um partido. Não sou militante de nenhum partido, nem oficial nem da dissidência porque, sobretudo, lutei pela minha independência, e desde essa independência quero expressar minha crítica com respeito à realidade cubana e inclusive ao governo cubano.
Por que a realidade cubana tem aspectos, em seu juízo, tão críticos e realidades como a formação de médicos muito competentes? Não só a Bolívia e a Venezuela apelam aos médicos cubanos. O Brasil acaba de firmar um acordo para receber seis mil médicos em planos de ajuda
– Sem dúvida Cuba é um país muito peculiar, desde suas origens. E a revolução potencializou essa peculiaridade cubana. É verdade que em Cuba existem planos sociais que permitiram que a pobreza, ainda que generalizada, não seja miséria. Em Cuba não morre ninguém de fome. Conseguiu-se que a medicina seja universal e gratuita. Às vezes te custa mais conseguir uma aspirina que uma ressonância magnética. Essas contradições são muito visíveis em Cuba. E não se pode discutir que houve uma grande quantidade de progressos sociais com respeito à mulher, ao negro, ainda que o tema do negro continue sendo um assunto que não se resolveu completamente em Cuba. Não há discriminação racial, mas o racismo é algo que está na mente das pessoas. Superaram-se, afortunadamente, políticas restritivas aos homossexuais e aos crentes. Eu lembro que, há muitos anos, havia um jogador de beisebol que era católico e, quando ia bater, fazia um movimento estranho. Era porque estava se benzendo e não podia fazê-lo abertamente. Agora não. Agora é comum os os atletas se benzerem. Todos andam com seu colar no pescoço ou uma pulseira. E os homossexuais fazem sua vida da maneira que querem.
Ou seja, não há sanção do Estado, mas sim social
– Com respeito à homossexualidade, sim. Em um país onde o pensamento religioso é muito heterodoxo, mas cuja base é católica, e também em um país machista, é complicado temas como homossexualidade ou racismo. Mas tudo isso deveria ser acompanhado ou tem que ser acompanhado de uma maior liberdade individual. Agora, por sorte, foi aprovada a lei que autoriza os cubanos a viajar livremente. Também se pode vender a casa a quem queira. Mas ainda faltam espaços de expressão, de liberdade. A palavra “dissidência” se carregou de um significado muito pejorativo. Um dos vazios fundamentais é o que produz a inexistência de uma imprensa normal. Não chega com certos blogs.
Existe alguma pesquisa que indique tendências de voto para Raúl Castro se as eleições fossem como em outros países da América Latina?
–Não. Mas acho que o consenso em torno de Raúl Castro é maior hoje que há cinco ou seis anos. Eliminou restrições e reconheceu que quem exerce o poder não deve ser eterno. Em uma idade bastante avançada descobriu, mas pelo menos descobriu, que somente haja dois períodos de cinco anos. Como está no segundo mandato, Cuba está começando a viver um último período de um Castro no governo. Assim que teremos um futuro um pouco difuso, um pouco difícil de poder desenhar frente a nós. O atual vice-presidente cubano, que se supõe que seja o primeiro presidente pós-Castro, Miguel Díaz-Canel, ultimamente fez três ou quatro declarações muito esperançadoras: falou, por exemplo, do tema da imprensa e da necessidade de lutar contra o silêncio. Porque em Cuba tudo se cozinha de maneira misteriosa, em nível de governo. Não se faz política. E eu não acho que fazer política seja só sair pelos bairros dando bonés e bandeirinhas, mas também convencer as pessoas de um programa de governo com o qual se sintam identificadas. O fato de que uma pessoa como Yoani Sánchez tenha saído de Cuba, tenha feito seu giro pelo mundo e espero, possa regressar a Cuba normalmente, é uma mudança social e política inimaginável. E acho que isso é importante, porque significa a possibilidade de que cada cubano tenha seu espaço. Existe algo que sempre está no fundo da questão do futuro de Cuba e é a relação com os Estados Unidos. Esse é um ponto álgido que não se pode desestimar, porque é uma relação traumática desde o século XIX. E a política norte-americana tem sido, e é neste momento, muito torpe. Um governo norte-americano com um mínimo de inteligência o que deveria fazer é levantar o embargo e dizer: “Vamos ver o que acontece”. Esse é um tema que está gravitando sobre a realidade de Cuba e que vai definir muito como será o futuro cubano.
Qual é sua relação com os leitores cubanos?
– Muito intensa. Devo ter sido o escritor que mais vezes ganhou o prêmio dos leitores que se dá nas bibliotecas públicas de Cuba por votação. Com respeito às novelas de Mario Conde, há uma identificação absoluta, tanto que Conde deixou de ser um personagem para converter-se em uma pessoa. Me perguntam por Mario Conde como se fosse alguém que vive comigo. Se casou? Não se casou? Continua vendendo livros velhos? E quando volta? Com El hombre que amaba a los perros aconteceu algo diferente: foi uma relação mais cerebral. Tenho em casa várias mensagens que me chegaram por e-mail que me agradecem por haver escrito a novela. Diziam-me que, graças ao livro, haviam tido ideia, não somente do que havia acontecido fora de Cuba, mas do que havia acontecido com suas próprias vidas sem que eles soubessem. Esse sentimento de gratidão é a maior recompensa que se pode receber por parte dos leitores.
Os ajudaste a viver?
– Os ajudei a entender.

(1) "Socialista Morena", Cynara Menezes
(2) [Martín Granovsky – Página 12]
Tradução de Libório Junior
Diário da Liberdade
Carta Maior

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Burying my dreams ...

Em “Burying my dreams”, EP 7 polegadas lançado recentemente pela banda santista No Sense, pioneira do grindcore em terras tupiniquins, tudo é “old school”. A começar pela capa, que nos remete à do clássico eterno “scum”, do Napalm Death: um desenho da morte carregando as cabeças dos membros da banda – deduzi pela silhueta de uma delas, de bigodão e óculos escuros, o visual usual de Paulinho, baterista. O próprio formato do disco, em si, o bom e velho "compacto", é típico de quem não se rende completamente às dinâmicas da “modernidade”. Destinado a colecionadores, àqueles que amam mesmo a música e não se contentam em tê-la armazenada numa pasta em seu HD.

E é realmente gostoso abrir a capa, tirar de lá a bolachinha, apreciar o selinho com o já clássico logo “zoado”, pousar suavemente a agulha, ouvir o barulhinho da poeira nos sulcos e sentir, finalmente, o som explodir nos auto-falantes. E aí sim, vamos ao que interessa: o som!


Continua muito bom. A primeira faixa é bem minimalista: quando parece que a música vai começar, ela termina. E dá lugar a uma um pouco mais elaborada, no sentido “No Sense” do termo: “Spilling the holy shit”. Boa letra, muito bem encaixada na melodia. E, acompanhando pelo encarte, dá pra notar que Marly pronuncia perfeitamente as palavras, por trás do vocal “gutural”. Marly que, diga-se de passagem, está ainda melhor, como vocalista, que na primeira fase da banda, do início dos anos 1990.

Não se pode dizer o mesmo da faixa título, “Burying my dreams”, que vem a seguir: eu, pelo menos, não consegui acompanhar a letra pelo encarte. Ok, tá na tradição do estilo: até hoje me lembro que precisei de umas três audições pra sacar que Lee Dorian não pronuncia praticamente nada do que está escrito no encarte de “From slavement to obliteration”.

O lado B é ainda mais “enxuto”: começa com outro som curtinho e minimalista e prossegue com outra mais elaborada, só que desta vez com uma novidade: a letra é em português! E ficou bacana. Deu um toque mais “brasileiro”, realmente, à banda, lembrando os primórdios do metal em terras tupiniquins. E acaba por enfatizar o fato de que o No Sense é, realmente, uma espécie de “protótipo” de banda grind por aqui, ao unir o “sotaque” metálico, presente principalmente nos riffs e na afinação da guitarra, à estrutura das musicas em si, sempre enxutas, sem “gorduras”. Punk.

Encerrando o disco, outra tradição: uma “musiquinha” vapt vupt, “ignorance and death”, onde só a frase é pronunciada sobre um “papôco” instrumental. Pode soar meio clichê, mas acaba reforçando ainda mais o caráter “tradicional”, “old school”, da bolachinha.

Vida de vocalista de grindcore é difícil como o que ...
Conheci o No Sense em seus primórdios, ainda no início dos anos 1990, quando ouvi falar de uma banda “grind” da baixada santista que tinha uma garota de apenas 13 anos nos vocais. Só isso já era mais do que suficiente para chamar a atenção, mas ao ouvir a primeira demo fiquei impressionado: faziam um som que ia além do barulho pelo barulho e conseguiam compor bem com arranjos criativos. Virou “Cult”. Lembro que o primeiro EP que chegou na Lokaos – loja de Silvio, da Karne Krua, especializada em rock “underground” – foi disputado a tapas por aqui. Eu ganhei a disputa, e guardo até hoje o “troféu”. Depois lançaram um “full lenght”, “Cerebral cacophony”, ainda mais brutal e “anti-musica”, pela tradicional gravadora Cogumelo, de Belo Horizonte.

Acabei virando amigo dos caras – principalmente de Marly e de Ângelo, então guitarrista - , porque no underground é assim: “no gods, no masters, only friends”. Bom, nem sempre – friends. O fato é que eu sempre dava uma descida a Santos quando ia a São Paulo para vê-los. Não esqueço um fim de semana que passei na casa do Ângelo onde experimentei pela primeira vez as delícias da comida vegetariana. Despedi-me dele num domingo: eu ia voltar pra casa de minha tia em São Paulo, ele ia ajudar a organizar um protesto em frente ao Mcdonalds.

Inesquecível também o dia em que perdi o show do Nirvana porque me desencontrei da garota que havia comprado meus ingressos devido a um engarrafamento que peguei na subida da serra – havia descido pra ver um ensaio do No Sense. Não me arrependo, foi excelente o ensaio, tenho as fotos até hoje. Mas perder o show do Nirvana foi traumático ...

A banda acabou logo depois mas, para surpresa geral, voltou com força total, já no século XXI, e segue firme fazendo shows e lançando discos – antes deste compacto lançaram o EP “Obey”, em CD. Seu próximo lançamento será a reedição da primeira demo-tape em vinil, num split dividido com os cearences do Obskure.

Imperdível!

A

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

África do Sul na encruzilhada ...

Foto de Mauro Pimentel
Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial e sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.

Mas será essa a história completa? Dois fatos são sistematicamente apagados nessa visão celebratória. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical do passado está sendo gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria outra vez esteja crescendo entre os sul-africanos pretos e pobres

A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos econômico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direção do socialismo seria possibilidade real?

É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas há um grão de verdade no famoso “hino ao dinheiro” do seu romance A revolta de Atlas: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de todo bem, você pede por sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, tornam-se os homens ferramentas de outros homens. Sangue, chicotes e armas de fogo ou dólares. Faça sua escolha – não há outra.” Não disse Marx algo semelhante em sua conhecida fórmula de como, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”? (O capital, p.147)

Na economia de mercado, acontece de relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é diretamente exercida e deixa de ser visível como tal. O que é problemático é a premissa subjacente de Rand: de que a única escolha é entre relações diretas ou indiretas de dominação e exploração, com qualquer outra alternativa dispensada como utópica. No entanto, deve-se ter em mente que o momento de verdade da (se não por isso, ridiculamente ideológica) alegação de Rand: a grande lição do socialismo de estado foi efetivamente a de que uma abolição direta da propriedade privada e da troca regulada pelo mercado carente de formas concretas de regulação social do processo de produção necessariamente ressuscita relações diretas de servidão e dominação. Se apenas extinguirmos o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de organização comunista da produção e da troca, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração direta pelo mercado.

A regra geral é que, quando começa uma revolta contra um regime opressor semidemocrático, como aconteceu no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo. Mas adiante gradualmente vamos nos deparando com escolhas mais difíceis: quando nossa revolta é bem sucedida no alcance de seu objetivo direto, passamos a nos dar conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) perdura sob nova roupagem. A ideologia dominante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar a essa conclusão radical. Começam a nos dizer que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia.

Num plano diretamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levante popular em restrições capitalistas-parlamentares palatáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também em outros lugares. Nessa precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe.

Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e nos focar em todas as promessas não cumpridas infladas sob sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar de sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que seu triunfo político e sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.

*Publicado originalmente no New York Times, em 06/12/2013. Esta é uma tradução ampliada e cotejada daquela feita por Vila Vudu, no redecastorphoto.

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London.

Do Blog da Editora Boitempo.

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O grande símbolo da resistência ao apartheid racial morreu no dia 5 de dezembro passado. Quando penso em Nelson Mandela logo me vem à mente a icônica imagem do dia de sua libertação. Após 27 anos de encarceramento, emergiu um sorridente herói do povo, cumprimentando com seu punho direito erguido a massa que o acolheu como o incontestável guardião dos sonhos de sua emancipação. É difícil descrever a sensação que tive quando assisti pela TV esta cena. Foi um momento glorioso daquilo que Walter Benjamin chamou de “tradição dos oprimidos”: subitamente, o caudaloso fluxo da dominação detem-se por um instante, deixando antever a ainda nebulosa fisionomia da liberdade vindoura.

Fora da prisão, Mandela liderou a negociação estabelecida com o Estado fascista que sepultou o apartheid racial. O empenho pacificador demonstrado durante a transição democrática garantiu-lhe o prêmio Nobel da Paz de 1993. Por isso, pode parecer fácil escrever sobre ele. Bastaria, por exemplo, elogiar sua sublime disposição de perdoar os opressores brancos. Aliás, é exatamente isso que tem feito toda a imprensa mundial. No entanto, gostaria de destacar um outro ângulo, ou seja, o projeto político que, ao sair da prisão, ele afiançou. No final dos anos 1980, tão logo o Partido Nacional, com o domínio dos africânderes no governo, percebeu que iria ser derrotado pela resistência mais ou menos inorgânica de toda a sociedade civil sul-africana, iniciou-se um processo de negociação entre os fascistas e o maior partido anti-apartheid, isto é, o Congresso Nacional Africano (ANC). Ao longo de alguns poucos anos, o pacto social que deu origem à nova África do Sul foi urdido.

Conforme os termos do acordo, as tradicionais classes dominantes brancas manteriam o domínio e a propriedade de todos os setores econômicos estratégicos, transferindo progressivamente para o ANC o controle do aparelho de Estado. Enquanto os ativos financeiros das principais empresas do país migravam para Londres em um avassalador movimento de fuga de capitais que acentuou a dominação econômica branca, o Partido Comunista Sul-Africano (SACP), o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) e o ANC formavam a coalizão conhecida como “Aliança Tripartite” que se transformou em uma poderosa máquina eleitoral, criando as condições para o estabelecimento de uma durável hegemonia alicerçada na “fusão” das principais forças anti-apartheid com o aparelho estatal.

Assim, sedimentou-se, em 1996, um modelo de (sub-)desenvolvimento capaz de combinar uma agenda neoliberal conhecida como “Growth, Employment and Redistribution” (GEAR) com algumas reformas pontuais cujo produto mais saliente foi a exacerbação das desigualdades de raça, de gênero e de classe social.[1] A partir de então, privatizações, cortes de gastos estatais e moderação salarial, combinaram-se com, por exemplo, a incorporação dos negros ao sistema público de saúde… O apartheid racial foi substituído por um apartheid social alimentado pela exploração da maioria dos trabalhadores negros. Mandela foi o grande fiador desta “revolução passiva”. Apenas um negro educado vivendo em um país dominado por brancos, um príncipe xhosa vivendo em um país de maioria zulu, um líder mundialmente admirado vivendo em um país carente de aceitação internacional, poderia dirigir este processo.

Após a transição para a democracia parlamentar, o ANC lançou, no início dos anos 2000, o Black Economic Empowerment, programa conhecido como “BEE”. Tratava-se de um programa para diminuir as disparidades sócio-econômicas existentes entre os diferentes grupos raciais por meio da incorporação de negros e de não brancos ao staff administrativo das empresas sul-africanas. Com essa política, o país testemunhou o surgimento de uma afluente elite econômica negra, conhecida como “Black Diamonds”, que acumulou imenso poder e riqueza devido à intimidade com o governo. Assim, ex-militantes sindicais comunistas tornaram-se sócios de empresas de mineração e ex-lideranças do ANC transformaram-se em mega-investidores financeiros. Dispensável dizer que escândalos de corrupção envolvendo altos executivos e políticos tornaram-se usuais.

Uma expressão curiosa surgiu para descrever a atual estrutura classista da África do Sul: “sociedade cappuccino”. Trata-se de uma menção à existência de uma larga base negra sobre a qual repousa uma “espuma” branca encimada por uma finíssima camada de chocolate em pó. O resultado? Da 90º posição no ranking da desigualdade, em 1994, ano da eleição presidencial de Mandela, a África do Sul ocupa atualmente a 121º posição. Não admira que neste tipo de sociedade tensões étnicas e sociais descambem rapidamente para a violência xenofóbica: a taxa de criminalidade do país está entre as 15 piores do mundo e a expectativa de vida da população é de apenas 53 anos.[2]

Ano passado, ao trocar alguns dólares no aeroporto de Johannesburgo percebi que a efígie de Mandela estampava as novas cédulas de rands. O “Pai da Pátria” aparecia sorrindo discretamente em todas as notas, não importando o valor. “A revolução passiva sul-africana está concluída”, pensei… No caminho para o hotel, fui informado que 36 mineiros haviam sido barbaramente assassinados há pouco pela polícia no acampamento de Marikana, nas cercanias de Rustemburgo, durante uma greve. Também soube que, em uníssono, a Aliança Tripartite estava improvisando argumentos a fim de justificar o massacre. Separadas por apenas 180 km, a distância entre Marikana e Sharpeville não poderia ser maior…

Tudo isso faz parte da herança deixada pelo maior símbolo da resistência ao apartheid racial. Como decifrá-la? Em 1963, ao ser condenado à morte no Julgamento de Rivonia, Mandela era um homem disposto a arriscar a própria vida pela libertação de seu povo. Por ser o comandante em chefe da ala armada de seu partido ele ficou quase três décadas encarcerado e merece nosso mais profundo respeito. No entanto, é necessário reconhecer que, na atual luta contra o apartheid social, os trabalhadores negros sul-africanos enfrentam sozinhos uma hegemonia deletéria que Mandela não economizou esforços para fortalecer. Para muito além da santificação do grande líder, algum dia, uma África do Sul emancipada saberá reconhecer e superar os limites deste legado contraditório.

Notas:

[1] Ver Patrick Bond, The Elite Transition: From Apartheid to Neoliberalism in South Africa, Pluto Press, 2000.

[2] Ver Karl von Holdt et alii, The smoke that calls: Insurgent citizenship and the struggle for a place in the new South Africa, Society, Work and Development Institute, 2011.

Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de "Por uma sociologia pública" (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e "A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial" (São Paulo, Xamã, 2003).

Do Blog da Editora Boitempo

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Situado na rota comercial para as Índias, o sul da África foi colonizado por holandeses, aos quais vieram se juntar flamengos, alemães e franceses. Foram eles que, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, haviam montado um posto de abastecimento para suas fragatas, em meados do século xvii, e deram origem aos africâneres, chamados pejorativamente de bôeres. Desde o seu estabelecimento na região, travaram inúmeras disputas com os nativos por terra e gado. Ainda que os africâneres tivessem se apropriado de boa parte do território, as tribos nativas permaneceram independentes. Os escravos vinham da Indonésia, colônia holandesa.

Em 1860, no quadro das disputas imperialistas europeias, os ingleses desembarcaram com artilharia pesada, canhões e soldados para dominar o sul da África. Entraram em conflito com os africâneres e os nativos. Os xhosas resistiram por mais de dez anos e os zulus, em uma batalha sangrenta, chegaram a vencer os britânicos. Vinte anos depois, foram definitivamente derrotados. Os ingleses trouxeram escravos da Índia.

Nessa época, um jovem brincava no jardim de sua casa quando achou uma pedra enorme e brilhante. Era um diamante de quase 22 quilates. No ano seguinte, um pastor encontrou um de 87 quilates. O feito provocou uma migração em massa. Em menos de dois anos, mais de 50 mil pessoas chegaram à região.

Foi quando três ingleses - Cecil Rhodes, Charles Rudd e Barney Barnato - se embrenharam na exploração de minas de pedras preciosas. Começaram alugando bombas de água para os escavadores, e pouco a pouco foram adquirindo pequenas cotas nos lucros. Assim nasceu a De Beers, hoje sob o comando do grupo Oppenheimer, que há quase 130 anos domina o mercado mundial de diamantes.

Com o território dominado, africâneres e britânicos se entenderam e proclamaram a União Sul-Africana. Foram promulgadas as primeiras leis de segregação racial, como o passaporte que restringia o ir e vir dos negros e os proibia de comprar terras fora das reservas tribais. Mas foi só no final da década de 1940, quando o Partido Nacional ganhou as eleições, que se montou o regime do apartheid, da separação racial. O casamento inter-racial virou crime. As escolas e bairros foram divididos. Os negros perderam o direito de votar, ter propriedades e de frequentar praias, piscinas, cinemas e hospitais destinados aos brancos. O Partido Nacional criou também os bantustões - dez nações tribais pretensamente autônomas, instaladas em áreas descontínuas correspondentes a apenas 13% do território nacional.

No livro The Afrikaners: Biography of a People [Os Africâneres: Biografia de um Povo], o historiador Hermann Giliomee coloca a seguinte questão: como um povo educado no Iluminismo e na piedade cristã edificou uma nação com base na exploração racial? A resposta, diz ele, seria a vontade dos africâneres em preservar a identidade. Nas colônias que se tornaram independentes a partir do século xix, os europeus derrotados desenvolveram três estratégias: voltaram às metrópoles, se acomodaram ao novo poder ou então continuaram mandando, por meio dos governantes em exercício. Na África do Sul, os africâneres foram minoria populacional e classe dominante por quase 350 anos. Não se consideravam um poder exterior porque não tinham para onde retornar. A integração racial, no seu modo de ver, significava suicídio.

A África do Sul lembra o Brasil. Joanesburgo é uma metrópole parecida com São Paulo. Pretória é um centro governamental como Brasília. E a Cidade do Cabo, com suas montanhas à beira-mar evoca imediatamente o Rio. Aqui, 50% da população é composta por negros e pardos, que engrossam a base da pirâmide social, em oposição aos brancos que dominam o topo. A semelhança entre os povos também é grande.

Como a maioria dos brasileiros, os sul-africanos são expansivos, alegres e falam alto. Há detalhes diferentes. Nas áreas ricas das grandes cidades sul-africanas as ruas são mais limpas que as do Leblon ou dos Jardins, é raro ver pichação em muros, os prédios são bem conservados, a frota de transporte público parece nova. E há disparidades significativas: não há no Brasil um restaurante como o 8@The Towers, no bairro de Sandton. Ele é um ponto de encontro dos diamantes negros de Joanesburgo.

Da varanda do restaurante, via-se a frota dos clientes: um Hummer, três bmw e dois Jaguar. Na parede principal, lia-se "Veuve Clicquot" em letras garrafais. Os garçons, assim como 90% dos frequentadores, eram negros e tinham a cabeça raspada. Os fregueses estavam de terno escuro com gravata rosa ou vinho. As mulheres usavam saltos altíssimos, perucas de cabelos lisos e vestidos curtos, colados em corpos torneados a alface e malhação.

Sentados em um sofá baixo, um casal pediu a segunda garrafa de Dom Pérignon. Aos 25 anos, Lungu (que não quis dizer o sobrenome) disse ser montador de filmes para a televisão. A moça, praticamente deitada em seu colo, também não quis se identificar, mas informou ser uma "modelo muito famosa". Novelas e seriados das emissoras de tevê retratam os novos ricos como hedonistas profissionais. Eles sempre aparecem bebendo uísque doze anos ou conhaque, usando grifes de luxo, jogando golfe ou dirigindo carrões importados. Quase nenhum trabalha.

Lungu contou que seu tio havia sido guarda-costas de um "importante membro do cna" e que a família havia entrado no ramo de exportação depois do fim do apartheid. Durante o regime viviam em Soweto, a cidade negra no subúrbio de Joanesburgo, onde seu pai trabalhava como motorista e a mãe era dona de casa.

"Essa insistência de ficar falando em problemas de raça na África do Sul é coisa dos brancos", disse Lungu enquanto a modelo se servia de mais um pouco de champanhe. "Isso é um problema que ficou para trás. Eu não tenho problema algum com raça. Os brancos é que têm." Em cima da mesa, um jornal estava aberto na página de uma notícia impensável até pouco tempo atrás: a foto de uma trombada entre uma Ferrari e um Lamborghini, cujos donos, e não os motoristas, eram negros.

Havia apenas duas mesas ocupadas no 8@The Towers por brancos e nenhuma com brancos e negros. Na maioria dos restaurantes ainda é assim. A não ser que o encontro seja uma reunião de trabalho, negros e brancos frequentam o mesmo espaço, mas não se misturam. Casais multirraciais são raríssimos. Em vinte dias, vi dois. Em um deles, a moça era australiana.

Fundado em 1912, o Congresso Nacional Africano foi o primeiro partido a se propor a representar a maioria negra. Reunia uma parte das elites tribais, intelectuais brancos contrários à segregação racial existente e uma classe média negra formada por advogados, professores, comerciantes, médicos e engenheiros. Não era um partido de base popular, que se organizava nos sindicatos. Quando o Partido Nacional aprofundou a diferenciação salarial nas indústrias, em detrimento dos negros, as organizações operárias, com o Partido Comunista à frente, se aproximaram do cna. Mas, até o final dos anos 40, o partido não tinha maior expressão.

Uma nova geração de líderes, formada por Nelson Mandela, Oliver Tambo e Walter Sisulu deu vida nova ao partido ao criar a sua Liga da Juventude, que atuava nos sindicatos e fazia agitação nas cidades usando táticas de desobediência civil usadas por Mahatma Gandhi na Índia. Em 1955, o cna aprovou o documento que orientou a sua luta durante os próximos quarenta anos, a Carta da Liberdade. Ele declarava que a África do Sul "pertence a quem nela vive, negros e brancos, e que nenhum governo pode proclamar sua autoridade com base na justiça, a não ser que esteja baseado na vontade do povo."

O governo branco reagiu acusando o partido de ser comunista e passou a prender e processar os seus líderes. Em1960, uma manifestação pacífica para protestar contra a obrigatoriedade de os negros portarem passaportes internos foi reprimida pela polícia com selvageria - 67 pessoas, entre elas dez crianças, e todas negras, foram mortas a tiros.

Colocado na ilegalidade, e integrando a vaga terceiro-mundista que se espalhou pelas colônias africanas, o cna adotou a luta armada. Formou-se o Umkhonto we Sizwe (A Lança da Nação), o braço armado do partido, que tinha como objetivo "revidar com todos os nossos meios e forças em defesa do nosso povo, do nosso futuro e da nossa liberdade". Um dos seus dirigentes era Nelson Mandela. Em um ano e meio, a nova organização fez mais de 200 atos de sabotagem (sem vítimas fatais). De seu lado, o governo instituiu a pena de morte para conspiração e sabotagem, e tornou legal a prisão por até noventa dias sem necessidade de acusação formal.

Mandela foi preso e, com outros sete líderes, foi condenado à prisão perpétua no presídio da ilha Robben. Boa parte dos dirigentes do cna partiu para o exílio na Suazilândia, Lesoto e Zâmbia, onde montaram campos de treinamento armado, em parte financiados pela União Soviética. Mesmo assim, internamente, a mobilização contra o apartheid prosseguiu, organizada por operários, estudantes e universitários com pouco ou nenhum contato com os líderes exilados. Da prisão, Mandela enviou uma mensagem à militância: "Tornem esse país ingovernável."

A África do Sul, progressivamente, de fato se tornou ingovernável. Graças às denúncias, à propaganda e às ações políticas do cna no exterior, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, o regime do apartheid passou a ser visto como moralmente funesto. Com base nesse sentimento, grandes empresas e conglomerados multinacionais foram obrigados a limitar o comércio com o governo do Partido Nacional. A África do Sul não podia participar de olimpíadas nem de Copas do Mundo de futebol. Atos públicos, concertos de rock, boicotes a quem contribuía com o apartheid (foi o caso da Land Rover, que fornecia furgões à polícia sul-africana) e abaixo-assinados reivindicavam a liberdade de Mandela e o fim do apartheid.

Nesse aspecto, nenhum movimento de libertação nacional foi tão bem sucedido, a partir dos anos 70, quanto o Congresso Nacional Africano - se compararmos, por exemplo, à Organização para a Libertação da Palestina, a olp de Yasser Arafat. Regionalmente, o governo sul-africano também sofreu revezes: na guerra civil em Angola, foi derrotado pelas tropas cubanas e subsaarianas. A África do Sul havia se tornado uma ilha. E dentro da ilha, as manifestações antirracistas só faziam aumentar.

Em uma quarta-feira de fevereiro, os jornais noticiavam nada menos do que dezesseis manifestações violentas em favelas sul-africanas. As imagens de pneus queimando, moradores correndo e a polícia armando barricadas lembravam as dos conflitos da época do apartheid. Os manifestantes pediam água, luz e saneamento. Como o governo ampliou o acesso à eletricidade sem investir no setor elétrico, os apagões são frequentes. Recentemente, havia sido autorizado um aumento de 25% nas tarifas. Como a inadimplência é alta, a energia é cortada com frequência. 

Elias Motsoaledi foi um militante do Congresso Nacional Africano assassinado em 1994. Hoje ele dá nome a uma das 182 favelas ao redor de Joanesburgo. Ali, vivem 30 mil pessoas em barracos construídos com telhas de alumínio e pedaços de madeira sobre chão de terra batida. Em um início de manhã, Cat Qobongwane, de 28 anos, que mora há sete em Elias Motsoaledi, usava uma camisa polo listrada de vermelho e azul, bermuda cáqui e botas creme com meias até a canela. Ele é magro, baixo e cultiva um cavanhaque à D'Artagnan.

O esgoto corria a céu aberto, havia lixo em terrenos baldios e algumas crianças soltavam pipas. "Os políticos só aparecem às vésperas das eleições", disse. Ele explicou que a comunidade era "autogovernável. Cada casa tem um apito. Se há algum crime, tocamos o apito e as outras pessoas vêm. Problemas, resolvemos por aqui mesmo."    

Outros moradores também faziam as vezes de guias para turistas com máquinas fotográficas e filmadoras, levados à favela por motoristas contratados em hotéis de luxo, que cobram 180 reais por um "passeio turístico a Soweto". (No Rio, uma visita à Rocinha custa 100 reais.) Na porta de uma das quatro casas que ocupavam um pequeno terreno, cinco mulheres conversavam. Uma delas amamentava um bebê. Cat insistiu para que eu entrasse na casa de uma delas para "conhecer um barraco por dentro". As mulheres não disfarçaram o desconforto. Quando ele chamou pela dona, ela bufou e gritou palavras em zulu.

Era uma construção de dois cômodos, com paredes de madeira e restos de papelão, e carpete fazendo as vezes de chão, onde moravam três adultos e cinco crianças. Havia um fogão a gás, uma fruteira com uma dúzia de batatas escuras e baldes com água. No outro cômodo, um colchão de casal estava abarrotado de sacolas, caixas e pacotes que chegavam quase no teto. Ao lado, uma bacia, onde todos tomavam banho. A mulher disse que estava bem, ali. "O governo está prometendo melhorias. Muita coisa já ficou melhor, eu vou esperando", disse.

A intenção do governo é que cada quatro barracos de uma favela dividam um tanque com água encanada e um sanitário com descarga. Em muitas delas, existe a torneira, mas não o encanamento. A privada fica em uma casinha de madeira que lembra uma cabine telefônica, com uma chave pendurada na porta. O chão era de terra batida e, em vez de papel higiênico, havia pedaços de jornal rasgados. Aquele era partilhado por 23 pessoas.

Elias Motsoaledi estava sem eletricidade. Ao constatar a imensa quantidade de ligações ilegais, o governo mandou cortar todo o fornecimento de energia. À noite, os moradores se viravam com velas, lampiões a parafina e lanternas.

Mesmo não sendo o voto obrigatório, quase todos os moradores tinham título de eleitor e votavam no cna, disse Cat Qobongwane. Perguntei se ele se incomodava com o fato de a vida dos negros ligados ao governo ter melhorado muito mais do que as dos moradores de favelas. "Eu vou achar ruim que um negro ficou rico? Pelo contrário, eu também quero ficar", disse. Andando para a entrada da favela, ele continuou: "Mas se continuarem a nos deixar sem luz, eles vão ver o que vai acontecer nas próximas eleições." Despedimo-nos e ele me pediu 70 reais. Explicou: "Isso faz parte do acordo com todos que moram aqui. O turista vê a casa das pessoas, paga e o dinheiro vai para a comunidade. Só fico com 5%."

No final de março, depois de mais um protesto, o governo religou a luz, mas informou que, se alguma ligação clandestina fosse descoberta, o fornecimento seria interrompido novamente. Na mesma semana, noticiou-se mais um escândalo: a Eskom, a empresa estatal elétrica, mantinha contratos irregulares com 138 empresas privadas para as quais fornecia energia a preços baixíssimos.

Às vésperas de completar 92 anos, Nelson Rolihlahla Mandela é o político vivo mais respeitado do mundo. Na África do Sul, só setores da extrema esquerda e uns poucos africâneres lhe fazem restrições. De uma linhagem aristocrática, ele perdeu o pai ainda criança e foi morar na tenda do chefe de sua tribo, os thembu. Foi o primeiro de sua família a ir à escola, uma instituição privada que atendia a realeza tribal. Era um aluno aplicado, metódico e um orador nato.

Mandela renunciou à liderança de seu clã quando soube que um casamento lhe havia sido arranjado. Expulso da faculdade por ter se envolvido em um boicote contra a política universitária do governo, mudou-se para Joanesburgo, onde trabalhou numa imobiliária e terminou o curso de direito por correspondência. Ali conheceu Walter Sisulu, com quem fundou o primeiro escritório negro de advocacia do país. O prédio onde trabalharam corre o risco de ser demolido até abril para dar lugar a um estacionamento. Sisulu o convenceu a militar no Congresso Nacional Africano.

Mandela tinha características que o diferenciavam dos líderes do partido. Além do carisma e da modéstia, deixava transparecer uma ausência de qualquer sentimento de vingança em relação aos brancos. Demonstrava uma confiança inabalável em si próprio, tinha o dom de ouvir e uma memória prodigiosa. Tais atributos o levaram à liderança do partido e, depois de passar por um treinamento militar na Argélia e na Etiópia, à coordenação da guerrilha do cna. Depois de quinze meses de perseguição, foi capturado e condenado à prisão perpétua por atividades subversivas.

O prisioneiro passava o tempo entre trabalhos forçados, leitura e meditação. Era autorizado a receber visitas apenas a cada seis meses. Suportou as frequentes prisões da mulher e a morte mal explicada, em um acidente de carro, de seu filho do primeiro casamento. Casou-se três vezes. A primeira com Evelyn Ntoko Mase, da qual se divorciou em 1957, depois de treze anos de casamento, e com quem nunca mais teve contato. Em seguida, conheceu a assistente social Winnie Madikizela, 18 anos mais jovem, com quem ficou por 37 anos, sendo que quase três décadas se relacionando através do vidro da prisão da ilha Robben. O casal se divorciou em 1996 depois que divergências políticas e pessoais vieram a público. Em seu octogésimo aniversário, Mandela casou-se com Graça Machel, viúva de Samora Machel, líder da independência e primeiro presidente de Moçambique.

O movimento para sua libertação tomou proporções mundiais e a frase "Free Mandela" estampava broches, camisetas, agendas, bandeiras e guardanapos. Quando sua casa foi atacada pela polícia, congressistas norte-americanos se cotizaram para reconstruí-la. Seu aniversario de 70 anos, quando ainda estava preso, foi comemorado em comícios combinados em mais de vinte países.

O governo branco se reuniu com Mandela em 47 ocasiões. Por seis vezes propôs libertá-lo em troca do compromisso do cna de abandonar a luta armada. Recusou todas. "Não posso e não farei nenhuma concessão num momento em que eu e meu povo não somos livres. A sua liberdade e a minha não podem vir separadas", escreveu em 1985, numa carta a sua filha. Quem cedeu foi Frederick de Klerk. Em 2 de fevereiro de 1990, o presidente anunciou à estarrecida tribo branca que as coisas nunca mais seriam como antes. Nove dias depois, Mandela foi solto.

Para o historiador Allister Sparks, a libertação de Mandela, a legalização e a desmontagem do apartheid foram uma "revolta negociada". Na época, o Salomon Brothers, o grande banco americano de investimentos, classificou o processo como "o mais substancial realinhamento de poder político, militar, social e econômico jamais acertado numa mesa de negociações, em lugar do campo de batalha, incluindo o Oriente Médio, a Europa Oriental e a ex-União Soviética". Anos antes da saída de Mandela da cadeia, dirigentes do cna e do Partido Comunista se encontravam regularmente com diplomatas americanos que serviam na África do Sul.

Mas houve outras cláusulas na "revolta negociada". Elas me foram expostas pelo economista Michael Kahn, um dos diretores do Conselho de Pesquisas em Ciências Humanas, durante um almoço na Cidade do Cabo: "O apartheid só acabou quando os brancos tiveram a certeza de que nada mudaria para eles, como de fato ocorreu." Na transição, acertou-se que o ministro das Finanças e o presidente do Banco Central do governo do apartheid seriam mantidos durante o mandato de Mandela. O cna também concordou que De Klerk fosse o vice-presidente. E garantiu o direito à propriedade privada (para evitar a desapropriação das terras dos brancos, como havia acontecido no Zimbábue) e se comprometeu a honrar as dívidas interna e externa e os empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional. Tudo foi cumprido.

Num artigo publicado em piauí, intitulado "Hegemonia às avessas", o sociólogo Francisco de Oliveira traçou um paralelo entre os governos do Congresso Nacional Africano e do Partido dos Trabalhadores. Ambos expressariam a dificuldade das classes dominantes dos dois países em exercer o poder diretamente. Só os representantes dos oprimidos, pt e cna, teriam autoridade política para tanto, com o objetivo de manter o sistema econômico e político. Ambos precisaram renegar partes significativas da sua história. Desenvolveram simultaneamente políticas assistenciais de compensação, enquanto garantiam a continuidade macroeconômica. Tornaram-se, assim, partidos da ordem.

Se a Carta à Liberdade foi o resumo das aspirações do cna durante quase meio século, o Programa de Desenvolvimento e Reconstrução representou o projeto a ser implantado quando ele chegasse ao poder. Mandela sintetizou o programa em seu slogan de campanha: "Uma vida melhor para todos." O plano previa a construção de milhares de casas populares, hospitais, escolas, a criação de empregos e a estatização das minas e dos bancos do país. "Era o desenho de uma sociedade socialista com a riqueza distribuída entre a maioria, que era a dos menos favorecidos", explicou-me Patrick Bond, um dos seus autores.

O Programa, no entanto, não saiu do papel. "Um dia, o governo apareceu com outro programa chamado Crescimento, Emprego e Redistribuição, e enterrou para sempre o projeto original", disse Bond. "Desde então, o cna nunca mais foi o mesmo." O novo plano previa privatizações, redução do déficit fiscal e juros altos. "Durante muitos meses, executivos do Banco Mundial faziam visitas à África do Sul. O fmi condicionou um empréstimo ao país ao compromisso de uma política salarial austera e corte de custos", afirmou o professor.

Foram lançados nos últimos meses quatro cartapácios sobre a história do pós-apartheid escritos por jornalistas e historiadores sul-africanos de renome. Em comum, têm o fato de reservar a Mandela um papel secundário na história e jogar luz sobre um personagem enigmático: seu sucessor, Thabo Mbeki. Se Mandela evitou que o fim do apartheid desse origem a uma guerra civil - é o argumento comum a vários ensaios da série -, foram as ideias de Mbeki que orientaram as políticas do cna nos últimos vinte anos.

Primeiro como vice de Mandela, cargo que dividiu com De Klerk, e depois como presidente efetivo entre 2000 e 2008, Mbeki teve como objetivo primordial a recuperação econômica. E conseguiu: no seu governo, a África do Sul cresceu em média 5% ao ano. Já a política social que implementou foi desastrosa, sobretudo no que diz respeito à epidemia da Aids.

  Thabo Mbeki é filho de uma professora comunista e de um militante histórico do Congresso Nacional Africano que ficou preso com Mandela por quase trinta anos. Desde cedo, aprendeu que não deveria confiar em brancos ou em alguém que não fosse do cna. Foi o partido que financiou seus estudos, transferiu-o para a Tanzânia e depois determinou que estudasse economia na Universidade de Sussex, na Inglaterra. Foi o segundo estudante negro da instituição.

Ali adquiriu gostos mundanos como fumar cachimbo, usar ternos de tweed e citar poetas britânicos. E começou a formar sua visão política de culto ao individualismo, desprezo pelo populismo, e a noção de que se deveria fazer o certo para o povo, mesmo que ele não percebesse. Em 1969, quando foi mandado para um curso de liderança ideológica no Instituto Lênin, na União Soviética, tornou-se um crítico exacerbado do modo de vida ocidental.

Morou depois na Zâmbia, em Botsuana, na Suazilândia e na Nigéria, mas viajava boa parte do tempo pela Europa e pelos Estados Unidos, na condição de responsável pela propaganda e porta-voz do cna. Durante 28 anos não pôs os pés na África do Sul, criando uma distância que seu biógrafo Mark Gevisser chamou de "desconexão permanente". Enquanto a maioria dos jovens líderes do cna se formou nos movimentos estudantis, sindicais e em associações de combate ao apartheid, Mbeki foi lapidado em reuniões fechadas, em aparelhos partidários e na segurança do exílio.

"Mbeki era pelo povo, mas não era do povo", escreveu Gevisser. Isso explicaria o seu desconforto em lidar com os conterrâneos, ao mesmo tempo em que parecia tomado pela ideia de que a África, e ele mesmo, eram vítimas de conspirações. Ele foi uma figura central na negociação da transição. As reuniões com o fmi e o Banco Mundial só ocorriam em sua presença, o "homem de Sussex" do cna, como diziam seus interlocutores. Foi dele a ideia de trocar o reformismo do Programa de Desenvolvimento e Reconstrução pelo neoliberalismo do plano de Crescimento, Emprego e Redistribuição.

Mas como um militante do aparelho do cna, com curso na União Soviética, abandonou os princípios socialistas em favor de uma política de submissão ao mercado? Gevisser diz que a sua estadia no Instituto Lênin foi fundamental, mas num sentido inverso ao esperado: Mbeki teria percebido os problemas do sistema soviético e abandonou todas as ideias reformistas e socializantes. Mas manteve a visão aparelhista e conspiratória.

Era previsível que, à época do apartheid, o governo pouco se interessasse pela Aids, doença que atingia basicamente negros e pobres, e pouco fizesse para enfrentá-la. A maneira que Mbeki tratou a epidemia foi ainda mais chocante. Para ele, havia uma conspiração dos brancos imperialistas e dos laboratórios estrangeiros baseada numa visão racista sobre os hábitos sexuais dos negros. Mbeki chegou a dizer que era a pobreza (má nutrição e falta de água potável) e não o hiv, a causa da doença. Recusava-se a fornecer tratamento para os doentes e acusou os negros que tomavam os coquetéis de azt como "fracos de cabeça".

Para aplacar os críticos, Mbeki nomeou um comitê que incluía representantes de organizações não governamentais, jornalistas e sanitaristas para debater as causas da Aids. O comitê, escolhido a dedo, apegou-se ao trabalho de um bioquímico americano, Peter Duesberg, cuja tese era de que a Aids era um conjunto de doenças, sem ligação umas com as outras, resultado do uso de drogas ilícitas e de medicamentos.       

Em 1997, Mbeki procurou seus camaradas de direção do Congresso Nacional Africano para falar sobre o Virodene. Uma médica portuguesa lhe dissera ter descoberto uma droga que impedia a reprodução do vírus hiv. O medicamento, testado sem o consentimento dos pacientes, teria feito com que eles recuperassem o peso e melhorado o aspecto geral.

Mbeki anunciou que a África do Sul havia descoberto a cura da Aids. Era a oportunidade, ele disse, de os africanos se livrarem das amarras da "caridade internacional", uma causa histórica da subjugação dos negros. Menos de três meses depois, descobriu-se que o medicamento era altamente tóxico e provocava a falência do fígado, e dos rins. Mbeki se recusou a desculpar-se e, simplesmente, parou de falar do Virodene.

Anos depois, soube-se que vários empresários ligados ao cna e a Mbeki - entre eles, Max Maisela, seu principal consultor quando vice-presidente - haviam investido milhões de dólares no Virodene. Um estudo da Harvard School of Public Health estimou que a política de Mbeki resultou em 330 mil mortes pelo hiv, entre 2000 e 2005.

A questão racial era sempre alardeada por Mbeki. Quando uma jornalista branca, Charlene Smith, foi à televisão contar ter sido estuprada em sua casa por três homens, ele a acusou de perpetuar a imagem do negro como predador sexual, incapaz de controlar seus instintos. Também usou o racismo para justificar a escolha da Alemanha, e não da África do Sul, para sediar a Copa do Mundo de 2002.

A jornalista Karabo Keepile, do semanário Mail & Guardian, havia me proposto uma caminhada até o restaurante em um centro comercial no bairro de Rosebank, em Joanesburgo. Anoitecia, e o trajeto parecia longo. Perguntei se havia algum perigo em andarmos sozinhas e mencionei estatísticas recentes. Estupros, 100 por dia. Assaltos, 700. Assassinatos, 50. Ela sorriu. "Não, comigo você está tranquila", disse. Pedi que explicasse melhor.

"A violência aqui é igual a qualquer lugar do mundo", disse Karabo Keepile. "A diferença é que ela sempre ficou restrita às favelas, e agora se tornou perceptível por estar batendo na porta dos brancos. Você tem que andar aqui com os cuidados que andaria em Nova York ou no Rio de Janeiro."

No ano passado houve 125 estupros para cada 100 mil habitantes. Calcula-se que, para cada queixa registrada, há outras 35 vítimas que preferem manter-se em silêncio. Ainda assim, chega-se à estatística estarrecedora de um ataque a cada vinte segundos. Quase 10% das alunas sul-africanas já foram violentadas por seus próprios professores nos banheiros das escolas. Nos Estados Unidos, a média é de 39 para cada 100 mil, número compatível ao brasileiro.

Estudiosos do tema atribuem a "cultura do estupro" a uma série de fatores combinados: rápido crescimento da população, desemprego galopante, desconfiança na polícia (que ainda é identificada como força repressora racista), pobreza, sentimento de posse tribal em relação à mulher e ignorância. Ainda há quem acredite que ter relações sexuais com uma criança ou com um bebê é capaz de destruir o vírus da Aids.

Em 2001, Mbeki resolveu reequipar suas Forças Armadas. A licitação, de 5 bilhões de dólares, para a compra de jatos, submarinos e corvetas, foi ganha por um consórcio espanhol. Mas o contrato foi fechado com um grupo alemão. Quando suspeitas de corrupção chegaram perto do governo, ele demitiu o vice-presidente Jacob Zuma, seu amigo de trinta anos, que foi acusado de receber propina. Mbeki estava isolado e com a popularidade decrescente, enquanto Zuma, um demagogo afável e agregador, era o favorito para sucedê-lo na Presidência.

Pouco depois, outra acusação levou Zuma aos tribunais. A filha de um amigo, portadora do vírus hiv, disse ter sido estuprada por ele dentro de sua casa. No julgamento, Zuma disse que, como zulu, tinha a obrigação de satisfazer as mulheres. E que o comprimento da saia da moça era sinal do que ela estava lhe pedindo. Quando foi indagado se havia se protegido durante a relação sexual, ele respondeu ter tomado "uma chuveirada", o que diminuía os riscos da propagação da doença.

Durante as investigações sobre os casos, no entanto, descobriu-se que Zuma havia sido monitorado pela Receita Federal e pelo Serviço de Inteligência. Como era vice-presidente, a medida só era possível com a autorização do presidente. Era a prova que Zuma precisava para atribuir a Mbeki uma conspiração para afastá-lo do poder.

A situação logo se inverteu. Diversos grupos de interesse - que em algum momento passaram a atacar Mbeki, fosse por suas medidas, seu modo centralizado de governar, ou até mesmo por sua antipatia pessoal - uniram-se em torno de Zuma. Mbeki foi humilhado e desacreditado. Afastado da direção do CNA, renunciou, em seguida, à Presidência. Desde então, tornou-se um pária no partido ao qual dedicou meio século de sua vida.

A Constituição promulgada depois da eleição de Mandela baniu a segregação racial. Foi proibida a obrigatoriedade de as crianças serem registradas, na certidão de nascimento, como branca, negra, mestiça ou amarela. Mas a política mais ambiciosa do cna para atenuar as desigualdades impostas pelo apartheid obrigou os sul-africanos a serem identificados novamente pela cor da pele.

O Black Economic Empowerement (Fortalecimento Econômico Negro), que todos chamam de bee, previa que todas as empresas que quisessem fazer algum tipo de negócio com o governo deveriam ter em seus quadros funcionários negros e mestiços. Era o momento da compensação. Colocado em prática em 2003, o plano de ação afirmativa tinha como objetivo fazer com que o mercado absorvesse milhões de cidadãos colocados à margem durante décadas. As empresas que cumprissem determinadas metas de inclusão e promoção de negros ganhavam mais pontos, o que as deixava em melhor posição em licitações, contratos e parcerias com o governo.

O bee trazia embutido dois preceitos. Primeiro, o de aumentar os postos de trabalho para os trabalhadores negros pobres. O segundo era de forçar e acelerar, por meio das promoções de negros no interior da hierarquia das empresas, a formação de uma nova classe média. Os executivos negros poderiam, ainda, montar novas empresas, que contratariam preferencialmente negros.

Muitos empresários brancos, porém, passaram a nomear jardineiros ou motoristas como vice-presidentes de suas empresas. Isso fazia com que a pontuação do bee disparasse e eles levassem os contratos. Como a fiscalização era praticamente inexistente, explodiu o número de prepostos negros à frente de empresas já estabelecidas, e também de companhias moldadas exclusivamente pelos critérios do bee, unicamente para ganhar concorrências

A idéia do bee não partiu do Congresso Nacional Africano. Ela foi inventada em 1992, dois anos depois da libertação de Mandela, pela New Africa Investments Limited, uma empresa branca. Segundo o analista político Moelesti Mbeki (irmão do ex-presidente Thabo Mbeki e um dos maiores críticos do CNA), o empresariado tinha o objetivo de cooptar a nata dos movimentos de resistência, "literalmente, comprando-os com ações de empresas sem qualquer custo". Para os oligarcas, o valor era pífio. Para os militantes, era um meio de subir na vida.

E, de fato, vários dirigentes e quadros do Congresso Nacional Africano mudaram de ramo. Tornaram-se homens de negócios, sócios e donos de empresas que detinham boa parte dos contratos do governo. Cyril Ramphosa, ex-secretário-geral do partido, e Tokyo Sewale, ministro da Habitação Popular, integram a casta dos diamantes negros.

Outra vantagem para os brancos era mostrar que o cna poderia abandonar os planos de estatização, já que conseguia parcerias com empresas estabelecidas no mercado, e com negros nos seus quadros. O bee também permitia que os empresários brancos tivessem trânsito no governo, prioridade nos contratos e proteção contra os concorrentes estrangeiros.

O programa não produziu uma geração empreendedora. "O recado que se passa para os negros é que você não precisa se esforçar, correr riscos, já que os brancos vão te colocar como sócio de uma companhia", defende Moelesti Mbeki. Menos de 1% das empresas na África do Sul estão nas mãos de negros.

O Instituto Unilever de Marketing Estratégico, ligado à Universidade da Cidade do Cabo, estima que 2,5 milhões de negros tenham casa própria, carro e microondas. Num estudo denso e elogiado, o sociólogo Lawrence Schlemmer avaliou que os novos ricos são 330 mil, menos de 1% dos negros do país.

No ano passado, o jornalista e escritor inglês R. W. Johnson, correspondente do Sunday Times e colaborador da London Review of Books, nadava no lago em frente a sua casa de veraneio, na província de KwaZulu-Natal, quando sentiu um raspão nos dedos do pé esquerdo. Saiu da água e viu que sangrava. Meia hora depois, deu entrada em um hospital praticamente morto. Contraíra uma bactéria raríssima e mortal na água poluída. Para salvá-lo, os médicos tiveram que amputar sua perna esquerda acima do joelho. Os dedos do pé direito ficaram necrosados e o movimento da mão esquerda, comprometido.

Em uma manhã de fevereiro, sua mulher, Irina, professora universitária russa, abriu a porta da casa deles em Constantia, a meia hora da Cidade do Cabo. Eles moram numa região de colinas floridas, de onde se tem uma magnífica vista de vinícolas. Johnson tem 67 anos e mora na África do Sul desde os 13. Foi com dificuldade que manobrou a cadeira de rodas até a mesa abarrotada de recortes de jornais e revistas.

Intelectuais de esquerda consideram R. W. Johnson conservador e racista, mas ele rebate as críticas dizendo ser um dos "poucos a ter coragem de dizer o que todo mundo pensa". Suas opiniões costumam ser baseadas em fatos e estatísticas, que pontuam as 700 páginas de seu livro mais recente, South Africa's Brave New World [África do Sul: Admirável Mundo Novo].

"Todo o imaginário criado em torno do cna - a prisão de seus líderes, as mortes na resistência, o sonho de um governo para o povo - colocou o partido acima do bem e do mal", disse. "Mas o fato é que, quando chegaram ao poder, mostraram o que eram: inexperientes e incompetentes, além de terem rapidamente caído na corrupção", falou.

Ele contou o caso da filha de sua ex-empregada, Carolyn, para ilustrar a tênue linha que separa o público do privado nas relações dos políticos do cna. A moça, pobre, fora estuprada duas vezes na adolescência. Anos depois, Johnson soube que ela havia engravidado de um figurão do partido. Telefonou para ela e perguntou como podia ajudá-la. Ela lhe disse que não precisava nada: havia sido nomeada chefe do departamento de distribuição de livros didáticos de toda a região de Limpopo. "Carolyn mal sabe escrever o próprio nome", disse. "Então, imagine o que nos reserva o futuro desse país".

Irina trouxe chá e biscoitos e Johnson continuou: "A elite do CNA é hoje de milionários, incluindo Mandela, que enriqueceram fazendo negócios dentro do governo. Como um homem que saiu da prisão sem um centavo, hoje tem mansões em Moçambique, Joanesburgo e Cidade do Cabo? Por que ninguém investiga isso?"

Para ele, o bee é, em termos lógicos, uma sandice. "Ação afirmativa faz sentido para ajudar uma minoria e não 80% da população", disse. "O que ocorre é que o Estado vira um refém. Nos Estados Unidos, ação afirmativa é para uma minoria desassistida. Política para a maioria não pode ser a de exceção. Ter dois quintos da sociedade dependendo da ajuda do governo e apenas 5 milhões de brancos pagando imposto de renda, é a prova de que esse país ainda terá muitos problemas pela frente."

Perguntei a Johnson o que mudara na vida dos brancos desde a chegada do cna ao poder. "O crime entrou na vida dos brancos e eles perderam a rede que garantia seu futuro", constatou. "E, o que é mais grave: um jovem branco de 15 anos, que nem sabe o que foi apartheid, não vai ter emprego na África do Sul."

Foi o que quase aconteceu com a capitã Renate Barnard. Com vinte anos de trabalho na polícia nacional, a capitã  se candidatou a uma promoção por duas vezes no ano passado. Foi preterida em ambas, apesar de um comitê tê-la recomendado como melhor candidata à vaga. Em março, o Tribunal Superior do Trabalho lhe deu ganho de causa no processo em que ela acusava seus chefes de "racismo às avessas". Ela disse aos jornais: "Sou uma profissional excelente, sacrifiquei minha vida e a da minha família todos esses anos pelo meu trabalho, e não me escolheram porque sou branca." Segundo seus advogados, o veredicto dava nova "direção às ações afirmativas" no país.

Uma empregada negra uniformizada e de turbante na cabeça atravessou a sala. Quando ela cruzou o corredor, Johnson retomou seu raciocínio. "Essa ideia de que 'agora é a nossa vez', que é a hora da revanche, está muito presente", disse. Ele contou que, quando convida amigos negros para jantar, "eles assumem que sou eu quem vai pagar a conta". Mencionou ainda o caso de um conhecido do Congresso Nacional Africano, a quem ele havia ajudado a arrumar uma bolsa de estudos em Oxford. "Ele jamais me ligou para agradecer", comentou. "E não é uma questão de ser educado ou não. Ele simplesmente acha que era minha obrigação fazer isso."



O Congresso Nacional Africano tem quase 70% das cadeiras no Parlamento. É apoiado pelas duas maiores forças da esquerda, a Cosatu, a maior central sindical, e pelo Partido Comunista. A Aliança Democrática, que venceu as eleições na província da Cidade do Cabo, a única a não ser governada pelo cna, é acusada sistematicamente pelo governo de ser um partido branco e racista. O passado de luta antiapartheid da governadora Helen Zille é ignorado. Políticos negros de outros partidos são chamados pelos militantes do cna de cocos: pretos por fora e brancos por dentro.

Em um fim de tarde, num restaurante ao lado do Parlamento, na Cidade do Cabo, o deputado Philip Dexter, do Congresso do Povo, o Cope, tomava vinho branco com gelo (como é de praxe em todo o país) com outros seis companheiros de partido. Formado em 2008, o Cope é uma espécie de psol. Ele agrupa militantes que, insatisfeitos com os rumos tomados pelo Congresso Nacional Africano, criaram uma nova legenda. Dexter e os amigos discutiam a formação de um novo sindicato para concorrer com a Cosatu, que, segundo eles, é "cúmplice das vilanias do governo". Imaginavam arrebanhar cerca de 1,5 milhão de trabalhadores que "não se sentem representados pelo cna". Chamavam-se de "camarada" e citavam Marx e Lênin.

Dexter é branco, tem os olhos verdes e o cabelo frisado. Na paleta sul-africana, é considerado mestiço. Usa óculos de armação preta pesada e gravata vermelha com estampa pouco discreta. Foi casado com uma brasileira e tem um filho que mora em Florianópolis. "Aqui não é mais possível falar em esquerda e direita", ele me disse. "O cna não representa mais o povo. Como você pode achar que esses sujeitos com bmws, quatro ou cinco mansões, são a cara da maioria pobre sul-africana?"

Juntou-se à mesa outro deputado, Willie Madisha, um clone do ator Lázaro Ramos, ex-presidente da Cosatu. Nos anos 80, Madisha conheceu Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, a quem disse admirar: "Ele fez do Brasil uma potência e ainda está melhorando a vida dos pobres."

Na véspera, o governo havia anunciado as metas para o orçamento de 2010. Uma delas era ampliar a distribuição de benefícios para jovens de até 18 anos, mas se manteve a estrutura assistencialista. "Nem o governo do Bush faria algo tão de direita", brincou Madisha. Do outro lado da mesa, Dexter disse: "Houve progressos, como os benefícios sociais, mas, do jeito que foi feito, eles tornam o cidadão dependente do Estado. Esse populismo tem similaridades com o que ocorre na Venezuela. É um cesarismo presidencial travestido numa retórica de esquerda. Pensam na luta de classes em termos tão rudimentares e falam em estatização não para distribuir riqueza, mas para concentrar mais poder."

A mesa se serviu de mais vinho e gelo e Dexter continuou: "A classe mais perigosa é a burguesia. Porque ela só quer o poder para proteger o seu poder. E o cna virou um partido burguês." Seus camaradas balançaram a cabeça, concordando.

Quando entrei no táxi, o motorista avistou os parlamentares, que também estavam na calçada, e perguntou se "aquele era o pessoal do Cope". E comentou: "Essa gente só quer cargo no governo. Eles acham que vão acabar com o cna e ficar com os cargos. Não querem dar uma oportunidade ao cna, que está tentando fazer as coisas, construir casas. Eles vão ter muito poder sempre, porque eles são gente nossa."



Presidente da Liga da Juventude do cna, cargo já ocupado por Mandela, Julius Malema é o deleite de cartunistas e chargistas. Aos 27 anos, ele se tornou uma das figuras mais expressivas do Congresso Nacional Africano por seu discurso nacionalista, agressivo e de ataque aos brancos. Desconhecido há dois anos, Malema ganhou projeção por ter sido peça fundamental na articulação para eleger Jacob Zuma, que o carrega para quase todos os eventos e sempre sai em sua defesa quando é atacado.

Com um salário de 5 mil reais, Malema é dono de duas casas avaliadas em 1,5 milhão de reais (pagas em dinheiro vivo), tem um Mercedes, um Aston Martin e um Range Rover. Usa um relógio Breitling de 60 mil reais e só se veste com jeans Diesel e camisas Gucci, mesmo quando visita favelas.

Uma reportagem do jornal The Star mostrou que Malema é sócio oculto de mais de dez empresas, todas elas com contratos com o governo. Soube-se que também não declara imposto de renda. Todas as vezes que foi confrontado com o fato, Malena deu a mesma resposta: "Isso é coisa de brancos racistas que não aguentam ver um negro ser bem-sucedido." A popularidade de Malema cresce a cada pesquisa, sobretudo entre a população mais carente. Comentaristas políticos o consideram um candidato potencial à sucessão do presidente Zuma, em 2012.

As denúncias de corrupção entre membros do cna explodiram nos últimos meses. O governador de Limpopo teve que renunciar depois que foi descoberto que sua mulher e filha ganharam a maior licitação da província. Publicou-se também que o ministro das Comunicações, há dez meses, gastava 1 mil dólares por dia (da verba de representação) para dormir em hotéis de luxo. Justificou-se dizendo que não haviam lhe comprado um colchão decente para o apartamento funcional do governo.

Frente aos escândalos, o presidente Zuma prometeu abrir suas contas pessoais. O governo gastava 4 milhões de reais por ano em despesas com as três primeiras-damas (Zuma é polígamo). Sobre os gastos de seus vinte filhos ainda não se sabe quem os financia.

"Muitos integrantes do cna são contrários às investigações de corrupção no governo porque muitos deles estão envolvidos", disse-me Patrick Craven, um inglês magro e grisalho, de aparência pouco amistosa, porta-voz da Cosatu há 22 anos. A central sindical, que fica em um prédio decadente no centro de Joanesburgo, apoia o governo, mas lhe faz críticas pontuais. Ela quer que os políticos tornem públicos seus bens e contas bancárias. "O que a esquerda não entende é que o problema não é a Cosatu ou o Partido Comunista: é o próprio cna. Eles vão explodir", comentou.



Às nove de uma manhã de quarta-feira, o ministro de Indústria e Comércio, Rob Davies, um irlandês barbudo e de expressão grave, tomou a palavra no seminário "bee: uma boa tentativa de compensação ou não?", na Câmara de Comércio da Cidade do Cabo, e disse ao auditório lotado: "Temos que admitir que o bee não está dando certo."

Durante mais de duas horas, Davies falou sobre as distorções do programa. Teve que responder por que não havia um padrão de exigência nas licitações. Explicou a razão de o governo continuar a selecionar empresas sem expertise nas áreas que pretendem atuar. E comentou a denúncia de que um certificado bee pode ser comprado por 300 dólares.

Ele se saía razoavelmente bem até que uma mulher branca, de cabelo vermelho, levantou a mão dizendo que ia fazer uma pergunta "como cidadã": "Quero saber o que o governo me sugere dizer a um branco pobre que se sente discriminado por não ter os mesmos direitos de um negro que também é pobre." Houve silêncio e muitos ouvintes se mexeram nas cadeiras. "Não há discriminação", respondeu o ministro. "Só entendemos que os negros têm uma desvantagem maior." A meu lado, um senhor branco comentou: "A nação arco-íris virou nação cappuccino: muito preto embaixo, uma espuminha de brancos por cima e um polvilhado de diamantes negros no topo."

Depois da conferência, o presidente da Câmara de Comércio da Cidade do Cabo, Yusuf Emeran, um descendente de indianos, me disse: "O bee é um equívoco. Nada mudou no mundo corporativo nesses últimos quinze anos. Os brancos continuam sendo os donos de tudo. O que mudou foi que os nossos militantes se tornaram milionários."

Yusuf Emeran se servia de café com bolinhos quando me contou sua história. "Fui membro do cna por 56 anos. Lutamos pela democracia para que todos pudessem votar. Passei metade na minha vida no exílio, em nome de um projeto maior. E eu digo a você: esse não é mais o cna dos nossos sonhos. Eles venderam o sonho e eu decidi que não voto mais", afirmou. Ele passou 32 anos no exílio. Fixou-se na maior parte do tempo na Inglaterra, onde ganhou dinheiro com uma empresa de saneamento. De volta à África do Sul, ficou ainda mais rico. Sua empresa é responsável pelo fornecimento de água filtrada em quase toda a província do Cabo.

"Podem falar o que quiser, mas antes do cna chegar ao poder as pessoas tinham que andar 12 quilômetros para pegar água, elas não tinham eletricidade nem teto, e hoje elas têm", disse-me Moloto Mothapo. Ele é o porta-voz da bancada do Congresso Nacional Africano no Parlamento. "O povo reconhece isso. Então, temos certeza que vão sempre votar no cna porque foi o partido que mudou a vida das pessoas."

Moloto Mothapo é alto e magro como uma escultura de Giacometti, só que com óculos de grossa armação azul. Ele acha que as denúncias de corrupção são exageradas: "Isso não é privilégio desse país. Em todo lugar onde as pessoas têm conexão com o poder, elas querem se meter nas licitações públicas. Mas estamos criando mecanismos para combater esse problema, é um dos pontos do nosso programa de metas."

Seu celular tocava a cada cinco minutos e ele parecia enfadado em ter que dar explicações sobre o comportamento dos políticos do partido, no qual milita desde os 14 anos. "O problema é que a imprensa aqui exagera, apura mal e, quando erra, publica uma retratação mínima", disse. E a seguir fez uma queixa parecida com as que são feitas do outro lado do Atlântico: "Tanta coisa boa que o governo está fazendo e eles só focam no negativo."

Do lado de fora, em frente ao portão principal do Parlamento, cerca de trinta moradores do assentamento de Khayelitsha, a 30 quilômetros da Cidade do Cabo, cantavam músicas em zulu e carregavam cartolinas com frases como “Abaixo a corrupção”. O líder da manifestação, Xolila Ngenkaza, me disse: “Nós votamos no cna, mas eles se esqueceram totalmente de nós.”

Segundo Ngenkaza, o governo só construiu metade das casas que prometera. E só receberam moradias novas aqueles que conheciam alguém do cna. Ou então, ele disse, “os que pagaram propina à construtora que é responsável pelas obras.”



Órfão de pai, criado pela mãe, empregada doméstica, Jacob Zuma ingressou na ala militar do Congresso Nacional Africano aos 17 anos. Passou dez anos preso na ilha Robben com Mandela, onde aprendeu a ler e a falar inglês. Ao ser solto, exilou-se na Zâmbia, onde se tornou chefe do serviço secreto do cna. Em 1999, foi nomeado vice-presidente de Mbeki por insistência de Mandela, que achava que a chapa deveria ser composta com um representante dos zulus – a etnia mais numerosa e pobre do país. Tanto Mandela como Mbeki são xhosa.

Na presidência, Zuma nomeou um ministro de um partido branco e nomeou uma autoridade reconhecida para enfrentar a Aids. E manteve a política econômica intacta. Sua origem pobre faz com que o povo se identifique com ele. Enquanto Mbeki citava Shakespeare em seus discursos, Zuma beija eleitores, usa roupas tribais de vez em quando, dança e canta Lethu mshini wami, uma canção da época da guerrilha do cna que quer dizer “Traga a minha metralhadora.”

Há pouco, sua vida sexual voltou às manchetes. Zuma engravidara a filha de um amigo e o bebê nasceu poucas semanas antes de seu quinto casamento. Novamente, disse que isso é comum na cultura zulu.

Zuma fala o que a plateia quer ouvir e evita entrar em discussões polêmicas. Quando assumiu o governo, prometeu criar 500 mil empregos até o final do ano e 4 milhões até 2014. Como vai fazer isso, não explicou. Para seus admiradores, ele é o primeiro presidente “verdadeiramente africano”, já que Mandela era uma figura mundial e Mbeki passou a maior parte da vida e de seu governo no exterior. O arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, no entanto, disse que a eleição de Zuma foi “um desastre para a história do cna”.

 “Zuma conseguiu fazer com que os pobres sintam que são ouvidos, e os ricos sintam que não serão prejudicados por serem ricos”, disse-me Gugu Msibi, diretora do departamento de relações governamentais da Ernst &Young, no refeitório da empresa, em Joanesburgo. “Passar essa segurança para o mercado e para a população é um dom. É o melhor cenário possível.”

por Daniela Pinheiro

Abril de 2010


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