sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ZONS 2014, o festival.

Arte por toda parte.
O Zons é um projeto vitorioso! Está conseguindo, aos poucos, romper a velha lógica de que não seria possível viabilizar a produção de cultura alternativa, em nosso estado, de forma minimamente estruturada, com qualidade e “profissionalismo”, longe dos esquemas viciados do mercado e do setor público/estatal. Ano passado conseguiu o feito de ser o primeiro projeto sergipano a ser aprovado no sistema colaborativo, via “catarse”. Com isso viabilizou os recursos que precisava para a produção de um filme – primoroso, um belíssimo registro para a posteridade - e de um festival inteiramente dedicado à música sergipana que passa ao largo da grande mídia e dos grandes eventos do calendário cultural oficial. Este ano repetiu o feito, com um valor substancialmente maior. O filme ainda está em fase de produção, mas o festival aconteceu no último sábado, dia 13 de dezembro do ano da graça de 2014 – e foi um sucesso!

As apresentações começaram às 14H. Cheguei por volta das 16:30, a tempo de ver a Skabong fazer a festa do público, ainda em pequeno numero, presente. Clima bom, fim de tarde, sol se pondo entre os coqueiros. O local escolhido para abrigar o evento contribuía: espaçoso, aconchegante e bem decorado.  Um tanto quanto distante, para os padrões aracajuanos, mas nada que uma carona amiga não resolvesse.

Na sequencia tivemos o “tropical punk” nervoso da Renegades, sempre competente e energético. Ótima “pegada” em excelentes composições próprias intercaladas com alguns covers – do Husker Du e dos Ramones. O som estava ótimo e a banda afiadíssima – já são alguns bons anos de palco nas costas, inclusive com um giro pelo circuito de “squats” da Europa feito de forma 100% independente. Totalmente “Do it yourself”. Era o rock muito bem representado no zons, que se caracteriza, também, pela diversidade de ritmos ...

Diversidade que “deu as caras” logo na sequencia, com a MPB “ácida” de Alex Santanna – algo próximo ao que gente como Moacir Franco e Jards Macalé costumavam fazer nos anos 70. Bom show, com boas composições, ótimas letras e uma perfomance visceral, acompanhado de uma ótima banda. O que já explicitava outra característica da noite que deixava no ar uma exclamação que não saía de minha cabeça: COMO TEM GENTE TALENTOSA AQUI EM NOSSA TERRA. Creio em Deus pai! Talento pra todo lado, inclusive entre o público, com muita gente boa registrando tudo – as excelente fotos que ilustram esta matéria, por exemplo, são de Saulo Coelho Nunes.

A diversidade se manifestou não penas no aspecto musical, mas em todas as atividades - e foram muitas – que se desenvolveram ao longo do festival. Uma rápida volta pela chácara deixava você de cara com pessoas, literalmente, pintando e ... fazendo pole dance! Sim, no intervalo entre as apresentações musicais tivemos, dentre outras coisas, uma belíssima exibição de pole dance, outra de dança contemporânea e uma peça teatral do grupo Caixa Cênica. Havia também uma lanchonete servindo comida vegetariana, algo indispensável dada a distancia do local e o longo período de tempo que ficariam por ali os que se dispusessem a ver tudo que a noite teria a oferecer . Este foi, no entanto, o ponto fraco da estrutura: o pessoal não conseguia dar conta da demanda, nem parecia ter muita disposição e/ou paciência para explicar as dificuldades a quem estava esperando com fome. Já que estava de carro e a noite seria longa, preferi me deslocar até a Atalaia para comer, o que me fez perder pelo menos um show, da Coutto Orquestra.

Vi antes, no entanto, Polayne, com sua perfomance teatral super elaborada e seus trinados sofisticados com bem colocadas citações ao Cocteau Twins e ao Led Zeppelin, além de uma versão de um clássico do pós punk brasileiro safra década de 1980, “Armadilha”, da banda brasiliense Finis Africae. Bom show – saltando aos ouvidos, mais uma vez, a extrema competência dos músicos! Destaque para a participação especial do grupo de percussão Burundanga.

E cheguei a tempo de ver uma sensacional apresentação da Plástico Lunar, extremamente enriquecida por um show de malabares com fogo executado pela dançarina Monique Leal e pela presença, no palco, de dois grandes guitarristas convidados: Melcíades, da Máquina Blues, e Julico, da Baggios – que tocou na banda por um longo e produtivo período e de cuja falta eles, sejamos sinceros, ainda não se recuperaram. Não por falta de competência dos caras - é que Julico é acima da média, e é naturalmente difícil substituir um musico de sua envergadura. Plástico com Julico é outra coisa, e isso fica claro na nítida empolgação de todos, que não se cansavam de se derramar em rasgados elogios.

Finalizando a noite, o reggae roots classudo e tocado com um feeling sobrenatural da Reação.  Mais que um show, uma verdadeira celebração, comandada por dois caras que estão, certamente, entre os melhores compositores e “front men” do estilo. Assim como a Plástico é, com toda a certeza, uma das melhores bandas de rock atualmente em atividade no Brasil – e é uma pena que a grande maioria do restante do Brasil não saiba disso – o mesmo pode ser dito da Reação, na seara do reggae.

No entanto, não vi a apresentação deles até o fim devido ao adiantado da noite – já passavam das três da manhã e eu estava lá desde as quatro e meia da tarde! Quase 12 horas ininterruptas de arte sergipana de primeiríssima qualidade, apresentada numa estrutura impecável e com uma boa presença de público. Tudo produzido de forma independente e colaborativa. De lavar a alma!

Parabéns a todos os envolvidos – na produção e na viabilização do projeto.

Que venha o filme!

E os zons 2015 ...

A

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Dilma chorou

(#)O CAPITÃO BENONI DE ARRUDA ALBERNAZ TINHA 37 ANOS, SOBRANCELHA ARQUEADA, RISO DE ESCÁRNIO E FAZIA JURAS DE AMOR À PÁTRIA ENQUANTO SOCAVA E QUEBRAVA OS DENTES DA FUTURA PRESIDENTE DO BRASIL DILMA VANA ROUSSEFF, NA ÉPOCA COM 23 ANOS

Ele era o chefe da equipe A de interrogatório preliminar da Operação Bandeirante (Oban) quando Dilma foi presa, em janeiro de 1970. Em novembro daquele ano, seria registrado o 43º entre os 58 elogios que Albernaz recebeu nos 27 anos de serviços prestados ao Exército.

“Oficial capaz, disciplinado e leal, sempre demonstrou perfeito sincronismo com a filosofia que rege o funcionamento do Comando do Exército: honestidade, trabalho e respeito ao homem”, escreveu seu comandante na Oban, o tenente-coronel Waldyr Coelho, chamado por Dilma e por colegas de cela de “major Linguinha”, por causa da língua presa que tinha.

Um torturador com diploma do Mérito Policial

Depois de 15 anos, os caminhos percorridos por Albernaz não o levaram à condição de herói nacional, como ele imaginava. Registro bem diferente foi associado a seu nome na sentença do Conselho de Justiça Militar em que foi condenado a um ano e seis meses de prisão por falsidade ideológica. “Ética, moral, prestígio, apreço, credibilidade e estima são valores que o militar deve desfrutar junto à sociedade e ao povo de seu país. A fé militar e o prestígio moral das instituições militares restaram danificadas pelo comportamento do réu”, concluiu o presidente do conselho, João Baptista Lopes.

A prensa nada tinha a ver com as sessões de tortura comandadas por Albernaz na Oban. Sua agressividade parecia se encaixar como luva na estrutura criada para exterminar opositores do regime. Apenas um ano depois de torturar Dilma e pelo menos outras três dezenas de opositores, ele recebeu das mãos do então governador de São Paulo, Abreu Sodré, o diploma da Cruz do Mérito Policial.

Filho de militar que representou o Brasil na 2ª Guerra Mundial, Albernaz nasceu em São Paulo e seguiu a carreira do pai. Classificou-se em 107º lugar na turma de 119 aspirantes a oficial de artilharia em 1956, mesmo ano em que se casou. Serviu no Mato Grosso do Sul antes de ser transferido para Barueri, em São Paulo, no início dos anos de 1960.

Tinha fixação pela organização de paradas de 7 de setembro. Estava na guarda do QG do Exército na capital paulista, em fevereiro de 1962, quando o comandante foi alvo de atentado à bala. Conseguiu correr atrás do autor e o espancou. Virou pupilo do general Nelson de Mello, que mais tarde viraria ministro da Guerra no governo de João Goulart.

Estava em férias na noite do golpe militar de 1964 e, ainda assim, apresentou-se espontaneamente para o serviço. Em 1969, representou o comando de sua unidade na posse do secretário de Segurança Pública de São Paulo, o general Olavo Viana Moog, um dos futuros comandantes do grupo que exterminou a Guerrilha do Araguaia.

Neste mesmo ano foi convocado pelo general Aloysio Guedes Pereira para servir na recém-criada Oban, centro de investigações montado pelo Exército para combater a esquerda armada. Foi lá que Dilma o conheceu.

“Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Começava a te interrogar; se não gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau de arara”, disse a presidente em depoimento dado, no início dos anos 2000, para o livro Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf Carvalho.

Em 2001, em relato à Comissão de Direitos Humanos de Minas Gerais, Dilma afirmou que já tinha levado socos ao ser interrogada em Juiz de Fora (MG), em maio de 1970, e que seu dente “se deslocou e apodreceu”. No mesmo depoimento, ela explicou: “Mais tarde, quando voltei para São Paulo, Albernaz completou o serviço com socos, arrancando meu dente.”

Telefone de magneto era usado para choques elétricos

Albernaz era conhecido por se divertir dizendo aos presos que, por ser muito burro, precisava ouvir respostas claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado para “falar com Fidel Castro”, metáfora para a aplicação de choques elétricos, segundo relato de Elio Gaspari no livro A ditadura escancarada.

“Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa”, explicava às vítimas. Uma delas foi o coordenador do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, primeiro preso a desaparecer após a edição do AI5.

O mesmo general que convocara Albernaz para a Oban anos depois assinou relatório informando que Jonas “evadiu-se na ocasião em que foi conduzido para indicar um aparelho da ALN”. Depois de 30 anos, O Globo noticiaria a existência de um relatório em que militares admitem a morte do guerrilheiro em decorrência de “ferimentos recebidos”.

“Albernaz era um homem terrível, o torturador mais famoso da Oban naquela época”, confirmou ao Globo Carlos Araújo, ex-marido de Dilma, que foi preso alguns meses depois dela e submetido aos mesmos procedimentos da ex-mulher.

Renegado pelo Exército e atolado em dívidas

O trabalho na Operação Oban fez com que Benoni Albernaz caísse em desgraça na própria família. Aposentado e dono de uma fazenda em Catalão (GO), o pai se chateava ao saber do comportamento do filho: “Ele usava o poder que tinha para extorquir as pessoas, e o pai ficava triste. Sempre foi uma família esquisita, muito desunida”, conta a dona de casa Maria Lázara, de 60 anos, irmã de criação do capitão.

“Olha, acho que uma vez ele caiu do cavalo numa parada militar, antes da ditadura, e o cavalo pisou na nuca dele. A partir daí, ele não ficou bom da cabeça”, supõe a prima Noemia da Gama Albernaz, que hoje vive em Cuiabá.

Albernaz deixou a Oban em fevereiro de 1971, quando o aparelho já havia se transformado no DOI-Codi. Por três vezes tentou fazer o curso de operações na selva, mas teve a matrícula recusada. Foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul, passando da caça a comunistas às operações de rotina em estradas de fronteira. O Exército tentava renegá-lo. Em março de 1974, foi internado em Porto Alegre, vítima de envenenamento.

Albernaz tinha problemas com dinheiro. Foi denunciado pelo menos cinco vezes por fazer dívidas com recrutas e não pagá-los, apesar das advertências de seus superiores. Estava lotado no setor medalhístico da Divisão de Finanças do Exército, em Brasília, quando foi declarado inabilitado para promoções, por não satisfazer a dois requisitos: “conceito profissional” e “conceito moral”. Em março de 1977, o presidente Ernesto Geisel o transferiu para a reserva.

Em um escritório no centro de São Paulo, passou a coagir clientes a comprar terrenos vestido com farda falsificada de coronel, embora tivesse sido transferido para a reserva como major, e dizendo-se integrante do SNI. “Você é uma estrela de nossa bandeira. Vamos investir juntos, ombro a ombro, peito aberto”, dizia aos clientes, segundo registros de reclamação levadas ao Exército, pistas que levariam a sua condenação por falsidade ideológica.

Em 1980, intermediou transações de ouro de baixa qualidade no Pará, vendendo como vantagem seu acesso aos garimpos. Nunca foi responsabilizado pelo espancamento, por encomenda, de um feirante de origem japonesa. “Se não pagar agora, vai preso para o Dops”, ameaçou, já em 1979, quando não mais pertencia ao Exército. O agredido foi à delegacia prestar queixa e, ao saber disso, Albernaz baixou no local. “Sou amigo íntimo do presidente da República, foi ele quem me deu isso”, falou ao delegado, mostrando a pistola Smith & Wesson. “Na lista de torturadores, sou o número 2.”

No fim dos anos de 1980, Albernaz estava atolado em dívidas. Não conseguiu pagar a hipoteca e foi acionado pelo menos quatro vezes em ações de execução extrajudicial. Sofreu um infarto quando estava no apartamento da namorada, nos Jardins, em São Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Exército. Deixou três filhos e herança de R$8,4 mil para cada, resgatados 15 anos após sua morte, quando fizeram o inventário. Nenhum deles quis falar ao Globo.

“Siga em frente com seu trabalho, que a gente está seguindo em frente aqui também”, disse o filho Roberto, dentista, desligando o telefone.

“Isso é coisa do passado, gostaria que não me incomodasse, completou a também dentista Márcia Albernaz.

“Esquece nossa família, vai ser melhor para você”, disse Benoni Júnior, médico do Exército.


(*)Confissões inéditas de Dilma - "As marcas da tortura sou eu"

Em outubro de 2001, nove anos antes de ser eleita presidente, Dilma Rousseff revelou, em depoimento ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais, detalhes do sofrimento vivido nos porões da ditadura em Juiz de Fora. Até então, nem os companheiros de luta sabiam que Esteia, seu codinome na militância, tinha sido torturada na cidade mineira, onde ficou encarcerada por dois meses, em 1972. Só era sabido o tempo de prisão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os documentos, só agora revelados, mofavam em uma sala do conselho e trazem revelações emocionantes da hoje chefe de Estado: "Eles queriam o concreto. "Você fica aqui pensando. Daqui a pouco, eu volto e vamos começar uma sessão de tortura". A pior coisa é esperar por tortura".

"Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu"

Sandra Kiefer

Belo Horizonte — Dilma chorou. Essa é uma das lembranças mais vivas na memória do filósofo Robson Sávio, que, ao lado de uma outra voluntária do Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), foi ao Rio Grande do Sul coletar o testemunho da então secretária de Minas e Energia daquele estado sobre a tortura que sofrera nos anos de chumbo. Com fama de durona, moradora do Bairro da Tristeza, Dilma tirou a máscara e voltou a ter 22 anos de idade. Revelou, em primeira mão, que as torturas físicas em Juiz de Fora foram acrescidas de ameaças de dano físico deformador: "Geralmente me ameaçavam de ferimentos na face".

Não eram somente ameaças. Segundo fez constar no depoimento pessoal, Dilma revelou, pela primeira vez, ter levado socos no maxilar, que podem explicar o motivo de a presidente ter os dentes levemente projetados para fora. "Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu", disse. Para passar a dor de dente, ela tomava Novalgina em gotas, de vez em quando, na prisão. "Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz (o implacável capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo) completou o serviço com um soco, arrancando o dente", completou.

Mais tarde, durante a campanha presidencial, em 2009, Dilma faria pelo menos três correções de ordem estética para se candidatar, que incluíram uma plástica facial, a troca dos óculos por lentes de contato e a chance de, finalmente, realinhar a arcada dentária. Na mesma época, Dilma combateu e venceu um câncer no sistema linfático. Guerreira, a presidenta suavizou as marcas deixadas pelo passado na pele. Não tocou, porém, nas marcas impressas na alma. "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim", definiu Dilma, em 2001, no depoimento emocionado à comissão mineira, 11 anos antes de ser criada a Comissão Nacional da Verdade, em maio, 13 anos depois da Constituição Cidadã de 1988.

Fuga pela Rua Goiás - "Eu comecei a ser procurada em Minas Gerais nos dias seguintes à prisão de Angelo Pessuti. Eu morava no Edifício Solar, com meu marido, Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, e numa noite, no final de dezembro de 1968, o apartamento foi cercado e conseguimos fugir, na madrugada. O porteiro disse aos policiais do DOPS de Minas Gerais que não estávamos em casa. Fugimos pela garagem que dá para a rua do fundo, a Rua Goiás".

Ligações com Angelo - "Fui interrogada dentro da Oban por policiais mineiros que interrogavam sobre processo na auditoria de Juiz de Fora e estavam muito interessados em saber meus contatos com Angelo Pessuti, que, segundo eles, já preso, mantinha comigo um conjunto de contatos para que eu viabilizasse sua fuga. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava, pois tinha saído de BH no início de 1969 e isso era no início de 1970. Desconhecia as tentativas de fuga de Angelo Pessuti, mas eles supuseram que se tratava de uma mentira, talvez uma das coisas mais difíceis de você ser no interrogatório é inocente. Você não sabe nem do que se trata".

Local da tortura - "Acredito hoje ter sido por isto que fui levada no dia 18 de maio de 1970 para MG, especificamente para Juiz de Fora, sob a alegação de que ia prestar esclarecimentos no processo que ocorria na 4ª CJM. Mas, depois do depoimento, eu fui levada (ou melhor, teria de ser levada para SP), mas fui colocada num local (encapuzada) que sobre ele tinha várias suposições: ou era uma instalação do Exército ou Delegacia de Polícia. Mas acho que não era do Exército, pois depois estive no QG do Exército e não era lá. Nesse lugar fiquei sendo interrogada sistematicamente. Não era sobretudo sobre minha militância em MG. Supuseram que, tendo apreendido documentos do Ângelo (Pessuti) que integram o processo, achavam que nossa organização tinha contatos com a PM ou PC mineira que possibilitassem fugas de presos. Acredito ter sido por isso que a tortura foi muito intensa, pois não era presa recente; não tinha "pontos" e "aparelhos" para entregar".

Dente podre - "Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para SP, o Albernaz (capitão Alberto Albernaz) completou o serviço com um soco, arrancando o dente".

Pau-de-arara - "...Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque. Começava assim: "em 1968 o que você estava fazendo?" e acabava no Angelo Pessuti e sua fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau-de-arara, o que a gente não aguenta muito tempo".

Palmatória - "Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador "experiente", ele te bota no pau-de-arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em SP usaram pouco esse "método". No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito"

Tortura psicológica - "Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças. Eles interrogavam assim: "me dá o contato da organização com a polícia?" Eles queriam o concreto. "Você fica aqui pensando, daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura". A pior coisa é esperar por tortura. Depois (vinham) as ameaças: "Eu vou esquecer a mão em você. Você vai ficar deformada e ninguém vai te querer. Ninguém vai saber que você está aqui. Você vai virar um "presunto" e ninguém vai saber". Em SP me ameaçaram de fuzilamento e fizeram a encenação. Em Minas não lembro, pois os lugares se confundem um pouco".

Sequelas - "Acho que nenhum de nós consegue explicar a sequela: a gente sempre vai ser diferente. No caso específico da época, acho que ajudou o fato de sermos mais novos; agora, ser mais novo tem uma desvantagem: o impacto é muito grande. Mesmo que a gente consiga suportar a vida melhor quando se é jovem, fisicamente, a médio prazo, o efeito na gente é maior por sermos mais jovens. Quando se tem 20 anos, o efeito é mais profundo, no entanto, é mais fácil aguentar no imediato".

Sozinha na cela - "Dentro da Barão de Mesquita (RJ), ninguém via ninguém. Havia um buraquinho, na porta, por onde se acendia cigarro. Na Oban, as mulheres ficavam junto às celas de tortura. Em MG, sempre ficava sozinha, exceto quando fui a julgamento, quando fiquei com a Terezinha. Na ida e na vinda todas as mulheres presas no Tiradentes sabiam que estavam presas: uma, por exemplo, Maria Celeste Martins, e Idoina de Souza Rangel, de São Paulo".

Visita da mãe - "Em MG, estava sozinha. Não via gente. (A solidão) Era parte integrante da tortura. Mas a minha mãe me visitava às vezes, porém, não nos piores momentos. Minha mãe sabia que estava presa, mas eles não a deixavam me ver. Mas a doutora Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada, me viu em SP, logo após a minha chegada de Minas. Hoje ela mora no Rio e posso contatá-la".

Cena da bomba - "Em MG, fiquei só com a Terezinha. Uma bomba foi jogada na nossa cela. Voltei em janeiro de 1972 para Juiz de Fora (nunca me levaram para BH). Quando voltei para o julgamento, me colocaram numa cela, na 4ª Cia. de Polícia do Exército, 4ª RM, lá apareceu outra vez o Dops que me interrogava. Mas foi um interrogatório bem mais leve. Fiquei esperando o interrogatório bem mais leve. Fiquei esperando o julgamento lá dentro".

Frio de cão - "Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Um frio de cão. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogênio, pois estavam treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas e fomos para o hospital. Tive o "prazer" de conhecer o Comandante General Sylvio Frota, que posteriormente, me colocará na lista dos infiltrados no poder público, me levando a perder o emprego".

Motivos - "Quando eu tinha hemorragia, na primeira vez foi na Oban (...) foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não bater naquele dia. Em MG, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois paravam. Acho que tem registros disso no final da minha prisão, pois fiz um tratamento no Hospital das Clínicas".

Morte e solidão - "Fiquei presa três anos. O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente o resto da vida"

Marcas da tortura - "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim"

Num primeiro momento, Dilma se recusou a entrar com pedido de reparação. Só depois, com a insistência de antigos companheiros, decidiu falar sobre a tortura. O depoimento de Dilma Rousseff é parte do processo aberto em março de 2001 no Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), criado por determinação do então governador Itamar Franco para indenizar presos políticos mineiros. O nome de Dilma foi o 12º da primeira leva de 53 militantes a receber R$ 30 mil a título de reparação por torturas impostas por agentes do Estado. Na documentação, consta que o valor foi depositado na conta de Dilma em março de 2002, exatos 10 anos e dois meses antes da instalação da Comissão Nacional da Verdade. Recentemente, ainda foi paga a indenização pelo Conedh do Rio de Janeiro, reivindicada em 2004. A presidente divulgou que vai doar a importância de R$ 20 mil ao Tortura Nunca Mais.

O promotor de Justiça de Juiz de Fora (MG), Antônio Aurélio Silva, foi o relator do processo de Dilma por Minas. Avesso a entrevistas, diz apenas que o processo correu à revelia da presidente, que inicialmente resistiu a entrar com pedido de reparação por ter sofrido tortura. Sua inscrição foi feita sob pressão de representantes mineiros do grupo Tortura Nunca Mais. Eles conseguiram colher a assinatura da mãe dela, Dilma Jane. "No primeiro momento, Dilma foi contra, mas depois entendeu a importância histórica do ato e acabou colaborando no processo", afirma.

Até então, o episódio da tortura de Dilma em Minas permanecia desconhecido entre os próprios militantes estudantis de esquerda de Belo Horizonte, acusados de subversão na época da ditadura. "Não sabia que ela tinha sido torturada em Juiz de Fora", surpreende-se Gilberto Vasconcelos, o Ivo, presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Uberaba e principal contato da organização Colina na cidade. Em janeiro de 1972, Gilberto foi transferido de São Paulo para Juiz de Fora com Dilma, dentro do mesmo camburão. "Não posso testemunhar sobre a tortura de Dilma em Juiz de Fora, porque, chegando lá, fomos separados e não tive mais contato com ela. Só voltaria a vê-la no dia do julgamento", completa.

Aquele abraço

Gilberto é conterrâneo de Dilma. Na época, ela tinha 22 anos e ele, 23. Ambos militavam no setor estudantil da organização de luta armada Colina, batizada em homenagem às montanhas de Minas. Mais tarde, na clandestinidade, os dois se tornariam amigos de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, de codinome Breno, que chegaria a ser dirigente nacional da VAR-Palmares. "Não há melhor lugar para se esconder do que na praia. Ficávamos eu, ela e o Beto sentados na praia, cantando as músicas da revolução. Um dia, chegou o Beto cantando "Aquele abraço", do Gilberto Gil, que eu nunca tinha ouvido. Dilma cantou junto. Ela gostava de cantar e isso nos unia além das convicções ideológicas", lembra.

Em fevereiro de 1971, Beto seria morto em combate, assassinado com três tiros na Casa da Morte de Petrópolis, no Rio, segundo consta no livro "A vida quer é coragem", lançado em janeiro por Ricardo Amaral, ex-assessor de imprensa de Dilma, que trabalhou em Belo Horizonte como repórter do antigo Diário do Comércio. Em homenagem ao amigo de lutas, Gilberto batizou seus filhos como Beto e Breno.

Duas perguntas para//Gilberto Vasconcelos

Como foi sua passagem por São Paulo? "Eu já estava no presídio Tiradentes. Uns seis meses depois, chegou o Max, codinome do Carlos Franklin Paixão Araújo, pai da filha de Dilma. Nós ficamos presos na mesma cela, no mesmo beliche durante um ano e meio. O Max se comunicava com ela através de bilhetinhos escritos com caneta Bic de ponta fina e enrolados no durex, escondidos na obturação do dente. O dentista era um preso político e fazia a troca dos papeizinhos entre a ala feminina e a masculina. Ele era apaixonado pela Dilma e os dois se gostavam mesmo."

E quanto à jovem militante Dilma? "Não estou cometendo nenhuma inconfidência, pois os dois são grandes amigos até hoje, isso é notório. Max sempre foi um cara extraordinário, de raciocínio rápido. Engraçado como as pessoas mudam pouco com o tempo. Estive com Max no casamento da Paula (filha de Dilma), em Porto Alegre, e ele continua do mesmo jeito. Dilma também. Ela estava cercada de amigos e me tirou para dançar na festa. Apesar de ter uma imagem que não reflete isso, é uma pessoa sensível, carinhosa, afável e uma das pessoas mais generosas que conheço. Muito antes de ela se tornar ministra, de ser presidente, sempre disse isso."

A tortura de Estela contada por Dilma

A presidente Dilma Vana Rousseff foi torturada nos porões da ditadura em Juiz de Fora, Zona da Mata mineira, e não apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro, como se pensava até agora. Em Minas, ela foi colocada no pau de arara, apanhou de palmatória, levou choques e socos que causaram problemas graves na sua arcada dentária. É o que revelam documentos obtidos com exclusividade pelo Estado de Minas , que até então mofavam na última sala do Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG). As instalações do conselho ocupam o quinto andar do Edifício Maletta, no Centro de Belo Horizonte. Um tanto decadente, sujeito a incêndios e infiltrações, o velho Maletta foi reduto da militância estudantil nas décadas de 1960 e 70.

Perdido entre caixas-arquivo de papelão, empilhadas até o teto, repousa o depoimento pessoal de Dilma, o único que mereceu uma cópia xerox entre os mais de 700 processos de presos políticos mineiros analisados pelo Conedh-MG. Pela primeira vez na história, vem à tona o testemunho de Dilma relatando todo o sofrimento vivido em Minas na pele da militante política de codinomes Estela, Stela, Vanda, Luíza, Mariza e também Ana (menos conhecido, que ressurge neste processo mineiro). Ela contava então com 22 anos e militava no setor estudantil do Comando de Libertação Nacional (Colina), que mais tarde se fundiria com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), dando origem à VAR-Palmares.

As terríveis sessões de tortura enfrentadas pela então jovem estudante subversiva já foram ditas e repisadas ao longo dos últimos anos, mas os relatos sempre se referiam ao eixo Rio-São Paulo, envolvendo a Operação Bandeirantes, a temida Oban de São Paulo, e a cargeragem na capital fluminense. Já o episódio da tortura sofrida por Dilma em Minas, onde, segundo ela própria, exerceu 90% de sua militância durante a ditadura, tinha ficado no esquecimento. Até agora.

Com a palavra, a presidente: "Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. Geralmente, o básico era o choque". Ela continua: "(...) se o interrogatório é de longa duração, com interrogador experiente, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes usava palmatória; usaram em mim muita palmatória. Em São Paulo, usaram pouco este "método".

Dilma foi transferida em janeiro de 1972 para Juiz de Fora, ficando presa possivelmente no quartel da Polícia do Exército, a 4ª Companhia da PE. Nesse ponto do depoimento, falham as memórias do cárcere de Dilma e ela crava apenas não ter sido levada ao Departamento de Ordem e Política Social (Dops) de BH. Como já era presa antiga, a militante deveria ter ido a Juiz de Fora somente para ser ouvida pela auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar (CJM). Dilma pensou que, como havia ocorrido das outras vezes, estava vindo de São Paulo a Minas para a nova fase do julgamento no processo mineiro. Chegando a Juiz de Fora, porém, ela afirma ter sido novamente torturada e submetida a péssimas condições carcerárias, possivelmente por dois meses.

Nesse período, foi mantida na clandestinidade e jogada em uma cela, onde permaneceu na maior parte do tempo sozinha e em outra na companhia de uma única presa, Terezinha, de identidade desconhecida. Dilma voltou a apanhar dos agentes da repressão em Minas porque havia a suspeita de que Estela teria organizado, no fim de 1969, um plano para dar fuga a Ângelo Pezzuti, ex-companheiro da organização Colina, que havia sido preso na ex-Colônia Magalhães Pinto, hoje Penitenciária de Neves. Os militares haviam conseguido interceptar bilhetinhos trocados entre Estela (Stela nos bilhetes, codinome de Dilma) e Cabral (Ângelo), contendo inclusive o croqui do mapa do presídio, desenhado à mão.

Seja por discrição ou por precaução, Dilma sempre evitou falar sobre a tortura. Não consta o depoimento dela nos arquivos do grupo Tortura Nunca Mais, nem no livro Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf, de 1998. Só mais tarde, em 2003, ele conseguiria que Dilma contasse detalhes sobre a tortura que sofrera nas prisões do Rio e de São Paulo. Em 2005, trechos da entrevista foram publicados. Naquela época, a então ministra acabava de ser indicada para ocupar a Casa Civil.

O relato pessoal de Dilma, que agora se torna público, é anterior a isso. Data de 25 de outubro de 2001, quando ela ainda era secretária das Minas e Energia no Rio Grande do Sul, filiada ao PDT e nem sonhava em ocupar a cadeira da Presidência da República. Diante do jovem filósofo Robson Sávio, que atuava na coordenação da Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura (Ceivt) do Conedh-MG, sem remuneração, Dilma revelou pormenores das sessões de humilhação sofridas em Minas. "O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida", disse.

Apesar de ser ainda apenas a secretária das Minas e Energia, a postura de Dilma impressionou Robson: "A secretária tinha fama de durona. Ela já chegou ao corredor com um jeito impositivo, firme, muito decidida. À medida que foi contando os fatos no seu depoimento, ela foi se emocionando. Nós interrompemos o depoimento e ela deixou a sala com uma postura diferente em relação ao momento em que entrou. Saiu cabisbaixa", conta ele, que teve três dias de prazo para colher sete depoimentos na capital gaúcha. Na avaliação de Robson, Dilma teve uma postura humilde para a época ao concordar em prestar depoimento perante a comissão. "Com ou sem o depoimento dela, a comissão iria aprovar a indenização de qualquer jeito, porque já tinha provas suficientes. Mas a gente insistia em colher os testemunhos, pois tinha a noção de estar fazendo algo histórico", afirma o filósofo.

(+)DISCURSO DE DILMA AO RECEBER O RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO DA VERDADE

O relatório que a Comissão Nacional da Verdade apresenta para nós aqui hoje, torna público, é resultado, como eles disseram, de 2 anos e 7 meses de intenso trabalho. Eu, ao receber esse relatório, tenho certeza que ele encerra uma etapa e ao mesmo tempo começa uma nova etapa e demarca um novo tempo.

Sua apresentação simultânea ao governo federal e à sociedade brasileira evidencia a autonomia assegurada pela legislação à Comissão Nacional da Verdade, que atuou sem interferência governamental ou de qualquer outra espécie. A comissão nacional da verdade é uma iniciativa do estado brasileiro e não apenas um ato de governo. Por isso, os seus trabalhos têm de ser considerados por todas as entidades, não só do estado brasileiro, mas também pela sociedade.

Eu estou certa que os trabalhos produzidos pela comissão resultam do seu esforço para atingir seus três objetivos mais importantes: a procura da verdade factual, o respeito à memória histórica e o estímulo, por isso, a reconciliação do país consigo mesmo por meio da informação e do conhecimento. Nós, do governo federal, vamos nos debruçar sobre o relatório. Vamos olhar as recomendações e as propostas da Comissão e delas tirar todas as consequências necessárias.

Repito aqui o que disse quando do lançamento da Comissão da Verdade: nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas duras, por meio de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais, que estão muitos deles traduzidos na Constituição de 1988. Assim como respeitamos e reverenciamos e sempre o faremos, todos os que lutaram pela democracia, todos que tombaram nessa luta de resistência enfrentando bravamente a truculência ilegal do estado, e nós jamais poderemos deixar de enaltecer esses lutadores e lutadoras, também reconhecemos e valorizamos os pactos políticos que nos levaram à redemocratização.

Nós que amamos tanto a democracia esperamos que a ampla divulgação deste relatório permita reafirmar a prioridade que devemos dar às liberdades democráticas, assim como a absoluta aversão que devemos manifestar sempre aos autoritarismos e às ditaduras de qualquer espécie.

Nós que acreditamos na verdade esperamos que este relatório contribua para que fantasmas de um passado doloroso e triste não possam mais se proteger nas sombras do silêncio e da omissão.

Na cerimônia de instalação da Comissão Nacional da Verdade, em maio de 2012, eu disse que a ignorância sobre a história não pacifica, pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. Disse que a desinformação não ajuda a apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância.

Afirmei ainda que o Brasil merecia a verdade, que as novas gerações mereciam a verdade, e, sobretudo, mereciam a verdade aqueles que perderam familiares, parentes, amigos, companheiros e que continuam sofrendo… continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia.

Estou certa que vocês, integrantes da Comissão Nacional da Verdade, cumpriram ao longo destes 31 meses sua missão, pois se empenharam em pesquisar, em indagar, em ouvir e em conhecer a nossa história. Trouxeram à luz, sem medo, o tempo oculto pelo arbítrio e pela violência. O trabalho de vocês reforça os sentimentos que manifestei naquela ocasião: quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la.

Por isso, queria fazer aqui o agradecimento aos homens e mulheres livres que integraram a Comissão e que nos propiciam esse encontro com a verdade de uma nação inteira. Queria cumprimentar Pedro Dallari, Rosa Maria Cardoso da Cunha, Maria Rita Kehl, Paulo Sérgio Pinheiro, José Carlos Dias, José Paulo Cavalcanti Filho e a dois ex-membros: Gilson Dipp e Cláudio Fonteles.

Queria também fazer o reconhecimento aos homens a às mulheres livres que relataram a verdade para a Comissão, contribuindo assim para que o Brasil se encontre consigo mesmo. Sobretudo, em nome do estado Brasileiro e em meu nome, presto homenagem e manifesto caloroso agradecimento aos familiares dos mortos e desaparecidos. Aqueles que, com determinação, com coragem e enorme generosidade, aceitaram testemunhar e contar suas histórias e as histórias dos parentes, amigos, companheiros que viveram tempos de morte, de dor, sofrimento, e por isso, grandes perdas.

Os membros da Comissão, bem como sua equipe, trabalharam com grande dedicação. Atuaram movidos pela consciência de que tinham um papel fundamental a cumprir para promover o nosso reencontro. Trazem vocês todos da Comissão, todos os que auxiliaram, todos aqueles que pelo Brasil inteiro os apoiaram, um grande benefício ao Brasil e ao nosso povo, ao nos assegurar a memória histórica.

O trabalho dessa Comissão faz crescer a possibilidade de o Brasil ter um futuro plenamente democrático e livre de ameaças autoritárias. São gestos como estes que constroem, sim, a democracia. O relatório que hoje se torna público, e a atuação das comissões estaduais, serão um ponto de partida para um país melhor.

A busca da verdade histórica é uma forma de construir a democracia e zelar pela sua preservação. Com a criação desta Comissão, o Brasil demonstrou a importância do conhecimento deste período para não mais deixá-lo se repetir. Nós devemos isso às gerações, como a minha, que sofreram suas terríveis consequências. Mas, sobretudo, devemos isso à maioria da população brasileira que, nascida após o final do último regime autoritário, não teve acesso integral à verdade histórica. É sobretudo a essas gerações e às gerações futuras que a Comissão Nacional da Verdade presta o inestimável serviço da verdade histórica. Conhecer a história é condição imprescindível para poder construí-la melhor.

A partir de agora, todos os brasileiros, terão acesso fácil, via internet, ao relatório desta comissão e às informações relevantes, sobre tudo que aconteceu naquele período. A verdade não significa revanchismo. A verdade não deve ser motivo para ódio ou acerto de contas. A verdade liberta todos nós do que ficou por dizer, por explicar, por saber. Liberta daquilo que permaneceu oculto, de lugares que nós não sabemos aonde foram depositados os corpos de muitas pessoas. Mas faz com que agora tudo possa ser dito, explicado e sabido. A verdade produz consciência, aprendizado, conhecimento e respeito. A verdade significa, acima de tudo, a oportunidade de fazer um encontro com nós mesmos, com a nossa história e do nosso povo com a sua história.

A verdade é uma homenagem a um Brasil que já trilha três décadas de um caminho democrático. E que empenharemos todas forças de todos nós para que assim persista.

Hoje, o mundo celebra o dia Internacional dos Direitos Humanos, em homenagem à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que completa 66 anos de existência. Tornar público este relatório nesta data é um tributo a todas as mulheres e homens do mundo que lutaram pela liberdade e pela democracia e, com essa luta, ajudaram a construir marcos civilizatórios e tornaram a humanidade melhor.

Parabéns à Comissão Nacional da Verdade. Parabéns a todos que contribuíram para a produção deste relatório. O Brasil, certamente, saberá reconhecer a importância deste trabalho que torna a nossa democracia ainda mais forte.

Muito obrigada.

# O GLOBO, via http://pocos10.com.br/?p=16948
* CORREIO BRAZILIENSE
+ Folha

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MARANHÃO 2014

José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o ex-presidente da República e hoje senador pelo Amapá José Sarney, é homem temente a Deus. Como todo domingo, o de 5 de outubro passado amanhecia com sua coluna semanal estampada no jornal O Estado do Maranhão, de propriedade do político desde 1973. Nela, citando a defesa da democracia feita por Abraham Lincoln – “Governo do povo, para o povo e pelo povo” –, ele elaborava a figura de um Pôncio Pilatos contemporâneo, bombardeado por informações da rede virtual.

“Com o avanço das comunicações em tempo real, é mais fácil você ser enganado e não saber onde está a verdade, porque são tantas as verdades que se publicam sobre pessoas e fatos que a própria verdade desaparece. Calculem se Pilatos tivesse naquele tempo blogueiros, sites, Facebook, WhatsApp e essa parafernália toda, o que ele não teria dito sobre a verdade, quando, duvidando da palavra de Deus, perguntava: ‘O que é a verdade?’”, escreveu Sarney, empregando cinco vezes o termo “verdade” em apenas duas frases. Sobre o processo eleitoral deste ano no Maranhão, pontificava: “Mentiu-se sem recato.” Ele, porém, perdoava os mentirosos. “Cristo disse aos homens: ‘Perdoai seus inimigos.’” E, como se já tivesse ciência da derrota iminente, Sarney finalizava: “É a democracia que sofre esses desvios, mas é um processo de aprendizagem.”

Naquele domingo do primeiro turno das eleições, o grupo político comandado pelo mais longevo político brasileiro foi fragorosamente derrotado nas urnas, após cinco décadas de hegemonia no estado do Maranhão, quebrada apenas no curto período de 2007 a 2009, quando Jackson Lago, do PDT, foi governador. Cassado sob a acusação de abuso do poder econômico e político, Lago entregou o palácio de volta ao clã, depositando-o nos braços de Roseana Sarney, a primogênita do ex-presidente que havia ficado em segundo lugar no pleito.

No mês que antecedeu o desfecho eleitoral, Sarney, aos 84 anos, encarnou como nunca a personalidade de oligarca todo-poderoso que lhe imputam os adversários. Em meados de setembro, num comício do candidato a governador Edison Lobão Filho, do PMDB, que ele apoiou, assumiu-se dono do Maranhão: “Quase tudo que tem na nossa terra, que eles dizem e que falam mal, foi feito e passou pelas minhas mãos. Até mesmo esses inimigos meus. Todos passaram pelas minhas mãos. Não tem um que não tivesse me bajulado. Não tem um que não tivesse quase... se eu pedisse, eles iam lamber meus pés.” Na internet – a mesma que embasbaca o Pilatos moderno de Sarney –, há fotos e vídeos desse comício em São Luís que comprovam o baixíssimo comparecimento dos ludovicenses, como são chamados os moradores da capital.

O velho Sarney, que naquele dia lutou para controlar longos engasgos durante a fala – “Isso não é velhice, é vontade de falar mais alto” –, mantém o mesmo timbre e entonação do jovem deputado federal de 35 anos eleito governador e filmado por Glauber Rocha no documentário de curta-metragem Maranhão 66.

À época, Sarney havia ajudado a articular a “Bossa Nova” da UDN, ala “modernizadora” que dera suporte a Jânio Quadros na Presidência. Poucos dias antes do golpe de 1964, ele defendeu a democracia em discurso na Câmara. Mas não custou a se adaptar aos novos donos do poder. Em 1965, nas últimas eleições diretas para governador antes de um jejum que se estenderia até 1982, com o apoio do marechal Castello Branco disputou o governo maranhense, prometendo acabar com a pobreza e banir a oligarquia de Vitorino Freire, soberana havia quase três décadas. Logo depois, com a instauração do bipartidarismo, migrou para a Arena, a legenda de sustentação do regime. O jovem Glauber o filmou na posse, ovacionado pelo povo.

José Sarney, que adotou o prenome do pai – Sarney de Araújo Costa – como sobrenome na campanha de 1965, já não seduz multidões. Em junho último, anunciou que não concorreria mais a nenhum cargo eletivo. Seu atual mandato termina em 31 de janeiro de 2015. É o quinto no Senado e o terceiro pelo Amapá – ele disputou a eleição de 1990 no estado recém-criado, devido a divergências com correligionários maranhenses e à baixíssima popularidade depois que deixou a Presidência. Sarney negou que o repúdio do eleitorado tenha pesado em sua decisão, a qual atribuiu à idade e à necessidade de cuidar da mulher, Marly, já que ambos estão “bastante idosos”. Ele não quis receber a piauí para esta reportagem.


Maria Izabel Lopes da Silva, zeladora do único posto de saúde da Vila Sarney, bairro da periferia de São Luís, aparenta muito mais que seus 65 anos. Os cabelos são grisalhos, e a pele morena do rosto exibe sulcos profundos esculpidos pelo sol. Ela vive há 44 anos no bairro de 4 mil pessoas – é uma das moradoras mais antigas. Sentada na varanda da casa de uma amiga, contou sua história enquanto esfregava os pés nos chinelos gastos e enroscava as mãos para aplacar a tensão de ser entrevistada.

“Isso aqui foi uma invasão. Era só roça, só mato, casa era de palha. Quando vim para cá tinha Tonho Márcio, Tatiana e a Mari”, disse, enumerando a prole. “Depois que cheguei tive Kelly e Daniela. Não tinha casa, não. A gente morava com o que a gente arranjava. Tinha uma casinha alugada por 7 cruzeiros.”

A Vila Sarney fica a quase 20 quilômetros do Centro de São Luís. Ali, veem-se crianças de fralda brincando descalças nas ruas de terra, esgoto a céu aberto, panelas em fogões improvisados de tijolo, ainda algumas casinhas de palha de babaçu, terrenos repletos de lixo, jumentos esquálidos, pôsteres dos dois candidatos ao governo estadual neste ano, Lobão Filho e Flávio Dino, do PCdoB, e adultos pobres e ressabiados diante de forasteiros.

Era como se Glauber tivesse passado por ali instantes antes. Em 1966, consagrado depois de dirigir Deus e o Diabo na Terra do Sol, ele foi contratado para filmar a cerimônia de posse do governo de estado. Em Maranhão 66, ouve-se a voz de Sarney discursando, enquanto a câmera percorre celas de uma delegacia, um sanatório de tuberculosos vomitando sangue (havia epidemia na época), doentes com malária e outras cenas da pobreza extrema no Maranhão. Três planos dessa filmagem foram utilizados no clássico Terra em Transe, de 1967.

A expectativa de vida média no estado era então de 29 anos. Sessenta por cento das crianças de 7 a 14 anos estavam fora da escola e 25% da população era vítima da malária. Embora em anos recentes o Maranhão tenha acompanhado a tendência de redução da miséria no Brasil e no Nordeste, ainda é um dos estados mais pobres do país. De acordo com dados do IBGE, a renda mensal do trabalhador maranhense é de 807 reais, pouco mais da metade da média nacional, de 1 527 reais; 18,5% da população com mais de 15 anos é analfabeta (a média nacional é 8,3%), e apenas 13,2% das casas estão ligadas à rede de esgoto (no país, o percentual é 64,3%).

“Botaram esse nome aqui porque Sarney era governador. Nome ruim, né?”, disse dona Izabel, buscando minha cumplicidade. Vila Roseana Sarney, Vila Edison Lobão, Vila Sarney Filho, Vila Cafeteira são algumas das várias regiões da periferia de São Luís. Líderes comunitários explicaram que, originalmente, bairros nascidos de invasões foram assim batizados numa estratégia dos moradores para se proteger do despejo. Os sem-teto imaginavam que os homenageados, geralmente políticos no poder, ficariam constrangidos de enviar a polícia para retirar as pessoas do local, diante da possibilidade de manchetes como “Governadora manda tirar sem-teto da Vila Roseana Sarney”.

Dona Izabel nasceu em Porto Rico, no interior do estado, e foi para a capital na década de 60. Não tinha título de eleitor quando Sarney se elegeu governador, mas disse que votou nele anos mais tarde. “Votei para presidente”, contou. Mas equivocou-se: ele nunca concorreu ao cargo mais alto da República. No final da ditadura, Sarney desembarcou da base governista para ser candidato a vice da chapa da oposição que disputaria a eleição indireta no Congresso. Acabou assumindo o Planalto em março de 1985 graças à morte inesperada de Tancredo Neves.

“Ele fez muitas obras. O que eu vi de Sarney, o que eu me lembro, assim, não foi serviço ruim, não, foi serviço bom”, descreveu Izabel. A conversa foi em 13 de agosto, dia em que morreu Eduardo Campos, o presidenciável do PSB. Comovida com a tragédia, ela contou que já estava decidida a votar nele, mas, diante da perda, iria de Marina Silva. A escolha para governador ainda não estava amadurecida.

Naquele dia, uma mulher – cujo nome dona Izabel não soube dizer – tinha aparecido no posto de saúde afirmando que todos os empregos estariam ameaçados se Flávio Dino vencesse. Perguntei se ela havia acreditado nisso, e ela desconversou. Contou que uma amiga precisava terminar de construir sua casa e a eleição vinha a calhar: era o momento ideal para pedir ajuda a algum político, negociando o voto por um punhado de tijolos. Em seguida, falou sobre os problemas do posto de saúde. “Só tem uma médica, não tem geladeira para vacinas, não tem geladeira na cozinha”; sobre as “crianças jogadas na rua” porque faltam creches no bairro; sobre “a venda de drogas que está geral”. Encerrei a conversa sem ter alguma pista do candidato de dona Izabel.


“Esta é a ponte José Sarney, mas todos a conhecem como ponte do São Francisco. Aqui é a tevê de Sarney. Esse aqui é o ‘Sudam Tower’, o prédio que Jorge Murad [empresário casado com Roseana], segundo dizem, construiu com dinheiro desviado da Sudam.” Num dia no final de julho, sentado no banco do passageiro de uma caminhonete preta com os vidros laterais cobertos de adesivos de campanha, Flávio Dino apontava para cada canto de São Luís que lembrava o poderio de José Sarney.

Além do Sistema Mirante, seu império midiático no estado, os Sarney têm forte influência em setores empresariais. Fernando, o filho do meio, é o que mais se destaca nos negócios. Já foi citado na Operação Faktor, da Polícia Federal, que apurava lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão irregular em empresas como a Gráfica Escolar, a TV Mirante e a São Luís Factoring – das quais ele e a mulher, Teresa Murad Sarney, irmã de Jorge Murad, constam como acionistas. O empresário nega todas as acusações e tem se recusado a dar entrevistas sobre o assunto. Também é conhecida a ingerência do clã na Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S.A.,empresa pública ligada ao Ministério dos Transportes. Denúncias envolvendo as construtoras Constran e Lupama também atingiram a família, mas nenhuma investigação foi concluída.

Ex-juiz federal, ex-deputado federal e ex-presidente da Embratur no governo de Dilma Rousseff, Flávio Dino, de 46 anos, estava a caminho de um hotel onde se reuniria com movimentos sociais para lançar o “Pacto por um IDH justo”.

O candidato passou a campanha lembrando que no Maranhão o Índice de Desenvolvimento Humano, que considera indicadores de renda, educação e saúde, é o segundo pior do país, só ultrapassado por Alagoas. Os integrantes do chamado Grupo Sarney rebateram a tese desqualificando o conceito de IDH – “esse índice criado pelos Estados Unidos” – e enfatizando que a economia do Maranhão cresceu 10,3% em 2011 (último ano para o qual há dados disponíveis), sendo um dos estados do Nordeste de maior desenvolvimento no período recente. A eleição virou uma briga de siglas: IDH versus PIB.

Fiel escudeiro de Sarney, o senador João Alberto é presidente licenciado do PMDB no Maranhão, estado que governou de 1990 a 1991. Em seu escritório, em São Luís, explicou-me por que não fazia sentido a tese de Dino a respeito da pobreza do estado: “Esse índice aí de medir a dificuldade da população foi feito pelos Estados Unidos. Aqui encontramos um contraponto cultural. Você entra no campo, vê uma casinha de palha. Mas o sujeito tem 200 cabeças de gado. Aí botam lá que é pobreza absoluta. Mas não é. Um gado bonito à beça. E o dono? Está lá numa casinha de palha. Até boa, com o proprietário lá dentro.” Com a voz mansa e trejeitos que remetem ao personagem Odorico Paraguaçu, de Dias Gomes, o senador afirmou que considera o Maranhão um estado em desenvolvimento. “Dificilmente você não encontra aqui, mesmo numas dessas casinhas de palha, uma televisão, uma geladeira, um rádio.”



Na noite em que assinaria o “Pacto por um IDH justo”, Dino também mostrou a área conhecida como “Península”, à beira da praia: condomínios luxuosos gigantescos que começaram a ser erguidos em meados da década de 90. Antes do evento, conversamos no comitê central de sua campanha, no centro histórico da capital. Ali perto havia outros dois comitês: o da militância petista com Dino, pintado de vermelho, com uma foto enorme da presidente Dilma Rousseff na entrada; e o de Dino com o PSB, que na época ainda exibia a foto de um sorridente Eduardo Campos. Comitês do PSDB espalhados pela cidade também estampavam Dino ao lado de Aécio Neves.

O candidato do PCdoB passou a campanha se justificando por apoiar todos os presidenciáveis e não declarar voto em nenhum deles. “Essa aliança ampla não é algo clandestino nem oportunista. É explícita e tem uma razão de ser: nós estamos enfrentando o político mais longevo da história republicana, equiparado somente a dom Pedro II. Então a gente precisa.” A estratégia surtiu efeito. Dino venceu no primeiro turno com 63,52% dos votos válidos, contra 33,69% de Lobão Filho – cujo pai é o ministro das Minas e Energia do governo Dilma.

Derrotado em duas eleições majoritárias anteriores no estado – em 2008 perdeu a Prefeitura de São Luís e em 2010 por muito pouco não levou Roseana a um segundo turno –, Dino só conseguiu se eleger graças à união de nove partidos e de todas as forças de oposição a Sarney. Boa parte de seus apoiadores é de fato de ex-bajuladores que já lamberam os pés do patriarca e agora estão dispostos a mudanças.

A adesão de políticos rompidos com Sarney e a simpatia de parte do empresariado, que reclama de privilégios a grupos econômicos ligados à família do ex-presidente, permitiram ao candidato do PCdoB fazer uma campanha competitiva. Nas duas prestações de contas parciais, ele declarou ter recebido aproximadamente 10 milhões de reais em contribuições. A construtora OAS foi uma das grandes doadoras, com mais de 3 milhões de reais. Lobão Filho declarou ter recebido cerca de 5 milhões em doações, mas sua previsão inicial de gastos era de 50 milhões.

Em 2013, Dino começou a percorrer o interior para se tornar mais conhecido, em jornadas chamadas “Diálogos do Maranhão”, de formato semelhante às Caravanas da Cidadania de Lula, de 1993 a 1996. Ex-petista – foi filiado ao partido de 1987 a 1994 –, o candidato não buscou o apoio formal do PT para a eleição deste ano. Sabia que o amor recente de Luiz Inácio Lula da Silva por Sarney seria, mais uma vez, obstáculo intransponível para uma união formal.

“A direção nacional do PT vê a aliança nacional com o PMDB como a chave da governabilidade, quase como um dogma de fé. Na medida em que é um dogma de fé, você tem que rezar para os santos acoplados a esse dogma, entre os quais está o Sarney”, definiu, enquanto tentava equilibrar o corpanzil numa cadeira do comitê e controlar o suadouro provocado pelo calor maranhense.



A fidelidade de Lula a Sarney tem origem no início do governo do petista. Eleito presidente do Senado em 2003, o peemedebista era fundamental para a governabilidade. Um ministro de Lula e de Dilma disse, reservadamente, que Sarney tem “aura de estadista, é tranquilo no trato e apaziguador”. Essa postura, continuou, foi crucial para a aprovação das reformas tributária e da Previdência no Congresso em 2003, quando não havia aliança formal entre o PT e o PMDB.

Com a crise do mensalão em 2005 e o risco de impeachment, Sarney passou a ser um elemento-chave para domar o Congresso. O presidente do Senado – que é também o presidente do Legislativo – tem um peso decisivo no sistema político brasileiro: controla as sabatinas de dirigentes do Banco Central e de agências reguladoras, tem sob seu crivo nomeações para instituições públicas e de embaixadores, e, sobretudo, pode fazer andar ou barrar processos de cassação de mandatos dos presidentes.

Lula passou a reverenciar o mesmo Sarney que, nos primeiros anos da Nova República, personificava o diabo para o PT. “Na hora em que a teta da vaca estava cheia de leite, ele mamou. Na hora em que secou, ele pulou fora”, disse Lula sobre o então presidente na campanha de 1989, em debate televisivo com Fernando Collor de Mello. Na ocasião, bradava ser “adversário ideológico e político de Sarney”.

Já em 2006, houve uma divisão entre Lula e o PT do Maranhão. No primeiro turno, o partido concorreu ao governo estadual com a candidata a vice na chapa do PSB. A propaganda eleitoral usou imagens de um comício de 2000 em Imperatriz, em que Lula esbravejava contra os Sarney: “Quando vejo na imprensa de São Paulo a pesquisa dizendo que a Roseana é uma governadora aceita pelo povo do Maranhão, [...] fico imaginando por que ela aparece bem nas pesquisas. Sabe por quê? Porque a Globo é do pai dela, o SBT é do Lobão, a Bandeirantes é de não sei de quem. Vocês veem a televisão falando bem deles o tempo inteiro.” No segundo turno, entretanto, enquanto os petistas maranhenses ficaram com o pedetista Jackson Lago, Lula apoiou Roseana, que concorria pelo PFL.

Em 2010, o presidente não permitiu que essa divisão voltasse a ocorrer e entrou logo de cabeça na campanha de Roseana ao governo do estado. O PT nacional interveio para impedir que militantes e filiados declarassem apoio a Flávio Dino. Em um de seus últimos programas eleitorais, Roseana foi a Brasília, “convidada” pelo então presidente, que a “entrevistou” sobre a campanha. O colóquio durou quase seis minutos no horário eleitoral gratuito. Dino e toda a oposição não têm dúvidas de que foi Lula quem evitou um segundo turno no Maranhão naquele ano.

Roseana concluía seu terceiro mandato – ela foi eleita três vezes desde 1994, mas governou por dois anos depois da cassação de Jackson Lago. Num evento político ao lado da governadora, no final de 2010, Lula exaltou-se com um repórter que lhe perguntou se ele era grato ao apoio da “oligarquia Sarney”, mandando-o “fazer psicanálise para diminuir um pouco desse preconceito”.

E continuou: “O Sarney não é o meu presidente do Senado. Ele é o seu. Ele é o presidente do Senado deste país. Então, se você tiver que fazer algum protesto, vá para o Amapá e proteste contra o povo que elegeu o Sarney. [...] Na medida em que a pessoa é eleita e toma posse, ela passa a ser uma instituição, e ela tem de ser respeitada.”

No ano anterior, em 2009, quando explodiram denúncias sobre os “atos secretos” do Senado – ações administrativas sigilosas que beneficiaram funcionários, parentes e os próprios parlamentares, incluindo no período em que Sarney presidia a instituição –, Lula evitou prejulgamentos, mas deu um salvo-conduto ao amigo: “Penso que o Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.” Em seu blog, Sarney afirma que apenas 1,68% dos atos, denunciados inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo, aconteceram em sua gestão.

Os petistas não se esquecem de quando Lula convidou Sarney para ir com ele a São Bernardo do Campo, depois da posse de Dilma Rousseff, em 1º de janeiro de 2011. Militantes e eleitores aguardavam na porta do prédio o ilustre morador. Conclamado a discursar – e passando pelo embaraço de ouvir algumas vaias –, o senador, depois de frisar a relevância histórica daquele momento em que um presidente prestigiava outro, definiu Lula como “um homem de grande densidade humana e generoso, que mudou o patamar do Brasil”.



“Há uma identidade muito grande entre eles. Zé Sarney, como Lula, teve infância muito doída, muito sofrida. Veio do interior do Maranhão. Evidentemente, depois a vida dele tomou um rumo diferente da de Lula. Mas ele conhece a pobreza como o Lula conheceu. Ele sabe das dificuldades. Isso dá uma certa identidade”, definiu o deputado federal Sarney Filho, do PV. Caçula da família, ele herdou o apelido que o pai tinha na infância: Zequinha. Eleito para o nono mandato de deputado federal e engajado em causas ambientais, Zequinha disse que a preocupação com o combate à pobreza também uniu Lula e seu pai. “O Programa do Leite [criado por Sarney quando presidente] foi o primeiro grande programa de combate à desnutrição reconhecido pela ONU.”

Por fim, ele listou a razão mais flagrante para a sintonia entre os dois: “Num momento difícil do Lula ele foi firme e, ao contrário de muitos outros, ficou com Lula. E isso gerou um sentimento de agradecimento. Ele não apoiou o mensalão; ele apoiou o Lula dizendo que ele não podia ser julgado pelo mensalão. Ele era presidente do Congresso e não levou adiante, arquivou os pedidos de impeachment.”

Zequinha Sarney só deu entrevista depois das eleições, já em Brasília. Ele passou a campanha à reeleição viajando pelo interior do estado, e os assessores não divulgavam sua agenda com antecedência. No seu comitê em São Luís, havia nas paredes verdes uma série de certificados da área ambiental, medalhas e homenagens – alguns recebidos na época em que foi ministro do Meio Ambiente de Fernando Henrique Cardoso.

Bem-humorado, o deputado admitiu que pode vir a disputar um mandato de senador, mas enfatizou não ter “pretensão nenhuma” de herdar o chamado Grupo Sarney. “Sou líder do Partido Verde, coordenador da bancada ambientalista, tenho um trabalho de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, enfrentamentos grandes com o setor ruralista. O que me move na política e tem me mantido até hoje é essa causa. Manter grupo não faz parte das minhas ambições. Minha ambição política é de, no máximo, defender a biodiversidade”, concluiu, com uma risada.

Num acesso de sinceridade, reconheceu que a vitória de Flávio Dino representa uma “mudança radical” na política maranhense: “O Grupo Sarney não vai existir mais. A Roseana desistiu da política e ele [o pai] já saiu. Acho que agora é uma nova realidade, novas forças políticas, o que é saudável.”

Zequinha também parece ficar à margem das denúncias de corrupção que rondam a família. Comentou que o Caso Lunus já foi esclarecido no Supremo Tribunal Federal, com a absolvição de sua irmã. A Lunus, empresa de Jorge Murad, marido de Roseana, foi alvo de uma ação da Polícia Federal, que lá encontrou 1,34 milhão em espécie – suspeita de caixa dois. A empresa era ainda sócia oculta num projeto financiado pela Sudam sobre o qual pairava a suposição de desvio de 15 milhões de reais em recursos públicos. O episódio tirou Roseana da disputa presidencial de 2002.

Atualmente, a mais fragorosa denúncia da República, a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, atinge o PMDB. Em Brasília, especula-se que as investigações sobre o pagamento de propinas por empresas que prestam serviço à estatal poderão macular membros do Grupo Sarney. “Como eu tenho absoluta certeza, absoluta certeza, de nenhum envolvimento de familiar meu nessas questões, eu deixo que eles se defendam. Deixa correr, a Justiça vai decidir. Até agora José Sarney não está em nada disso aí. Você ouviu o nome dele em alguma coisa dessas aí?”

Quando questionei Zequinha Sarney sobre a derrota no estado por uma margem tão ampla, ele tratou do assunto com naturalidade, ponderando que o Grupo Sarney já havia perdido anteriormente para Jackson Lago: “Ciclos se renovam, até pela própria vida, que é finita. Você não tem como manter [o poder] indefinidamente.”

Com apenas 48 463 votos, o filho de Zequinha, Adriano Sarney, foi eleito deputado estadual no Maranhão – o 13º mais votado entre os 42 que conseguiram uma cadeira na Assembleia (o primeiro teve 99 252 votos). Adriano também está no PV. Não esconde o sobrenome, mas parece não tirar muito proveito dele. “Não sou mais um; sou um a mais” foi seu slogan de campanha. Zequinha Sarney quis evitar que o filho representasse a esperança de perpetuação do clã.

“Agora é uma nova realidade. Ele sofreu influência grande minha nas questões ambientais, está entrando com 34 anos, tem sólida formação intelectual, mestrado na Sorbonne, pós-graduação em Harvard. Não acho também que ele vá substituir... Essa questão de grupo, como eu te falei, já acabou, não existe mais. Então ele vai cuidar da vida dele. Eu não vou interferir, não, como meu pai nunca interferiu na minha.”

Como o melhor exemplo do perfil “democrático” do pai, Zequinha recorda o fato de ter votado a favor das eleições diretas, em 1984, enquanto Sarney e a Arena foram contra. Sobre a possibilidade de o pai mudar de ideia e voltar à política, foi direto: “Ele tem 84 anos, não tem mais idade, não tem como. Só se descobrirem um remédio para a imortalidade. Aí ele volta”, gargalhou.



Com a saída de Lula, Sarney perdeu prestígio na Esplanada. Um dirigente nacional do PT definiu a convivência da presidente Dilma Rousseff com o senador: “Ela sempre o recebeu a contragosto. Nunca teve boa relação com ele; tinha até uma certa rejeição. Mas o tolerava e cumpria um ritual institucional. Uma relação totalmente diferente da que Sarney e Lula tiveram.”

Numa conversa em julho, em Brasília, um outro integrante da cúpula do partido analisou a força de Sarney na coalizão de governo atual. “No fim do mandato da Dilma ele estava fora da presidência do Senado e o mecanismo de poder já não era o mesmo. A oligarquia Sarney no Maranhão está sem vigor, como é sabido”, disse. O PMDB, continuou, é “uma soma de chefetes regionais”, e os nomes fortes do momento são Renan Calheiros, que preside o Senado, e Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara. “Nenhum dos dois está sob a asa de Sarney.” Por fim, confidenciou-me: “Em tese, sabemos que o Flávio Dino é o melhor candidato.”

O PT nacional, porém, não podia externar oficialmente essa posição nem durante nem após a vitória de Dino. Nos bastidores, o PCdoB dava como certo que Dilma não gravaria depoimentos favoráveis a Lobão Filho. “Já o Lula é mais sem-vergonha”, disse-me, desabrido, um aliado de Dino no Maranhão. De fato, Lula gravou um depoimento que foi ao ar na reta final da propaganda eleitoral do peemedebista. Dilma, que nutre certa simpatia por Dino, não mexeu uma palha. O candidato do Grupo Sarney usou na tevê imagens e declarações da presidente quando ela criticou, numa entrevista coletiva, o suposto uso político da Polícia Federal na campanha.

Lobão Filho foi alvo de uma inspeção da PF no aeroporto de Imperatriz depois que uma denúncia anônima informou que ele transportava dinheiro em seu jatinho. Nada foi encontrado, e o constrangimento que sofreu provocou uma crise nacional. O vice-presidente da República e comandante nacional do PMDB, Michel Temer, vociferou contra ações políticas da PF. Dilma foi obrigada a pedir uma investigação sobre o caso para acalmar os ânimos dos peemedebistas maranhenses na reta final do primeiro turno. E assim acabou aparecendo no programa de Lobão Filho.



O ministro Edison Lobão exibe como prova da “intimidade” com o poder três fotos em que aparece com a presidente Dilma Rousseff, numa das quais olha risonho para a câmera, o rostinho colado no dela. Todas estão sobre a mesa de seu gabinete em Brasília. Ele me fez ver um gráfico colorido, pregado no corredor do Ministério de Minas e Energia, que mostra o aumento da oferta de energia e de linhas de transmissão nos governos de Lula e de Dilma. Assegurou que havia megawatts para ninguém botar defeito, sem o menor risco de racionamento de energia, ao contrário do que o PSDB tentou alardear em sua campanha.

Lobão evoca um personagem de desenho animado, com o cabelo acaju já escasseando, corpo longilíneo, voz rouca e bochechas um tanto afundadas. Numa tarde de julho em Brasília, na sala ao lado de seu gabinete, onde uma foto enorme da usina de Itaipu captura a atenção, ele falou sobre seu vínculo político com Sarney. Lembrou a amizade construída com o “líder de grande parte da UDN na década de 50” e a sua atuação no partido da ditadura, a Arena. “Somos amigos há 213, 214 anos.”

O PDS, ramificação da Arena que surgiu com o fim do bipartidarismo, em 1979, havia decidido apoiar a candidatura indireta de Paulo Maluf à Presidência e o grupo do Maranhão “torcia para que Sarney fosse o vice dele”, contou o ministro. “Mas nesse meio tempo ele já conversava com Tancredo e nós não sabíamos.” Sarney pulou da canoa quando percebeu que ela ia furar, e “nós ficamos do outro lado, um pouco sem entender nada. Estávamos aqui, não fomos convidados para ir para lá, então ficamos aqui mesmo”, disse Lobão.

Apesar das leves ironias sobre o oportunismo de Sarney, o ministro afirmou que a amizade entre eles “não foi ferida” e que a convivência partidária foi “retomada”. Anos mais tarde, em 1991, Lobão foi escolhido pelo grupo de Sarney para ser o candidato ao governo do estado – Zequinha declinara –, e foi eleito. “No meu governo, Sarney nunca quis mandar e nunca mandou. Não tinha nem uma secretaria”, afirmou. Os ex-aliados que hoje se tornaram inimigos figadais do Grupo Sarney, uma lista significativa, alegam que o ex-presidente queria ter controle sobre todos os atos. O que seria uma injustiça com o democrata Sarney, frisou Lobão.

A conversa foi interrompida quando o telefone tocou e o vice-presidente Michel Temer convocou com urgência o ministro ao Palácio do Jaburu. Voltamos a nos encontrar no apartamento dele em São Luís, em agosto, diante da vista da baía de São Marcos. Na imensa sala de estar, mais uma infinidade de fotos, essas da família. Certo de que o filho venceria o pleito, Lobão revelou não acreditar que Sarney deixará a política, renúncia impossível para quem tem a vocação. “Getúlio saiu e sua casa em São Borja estava sempre cheia... De Gaulle, Lula, Fernando Henrique... No Instituto Lula tem até fila. Assim será Sarney. Ele nunca teve um revés. São sessenta anos de vitórias políticas.” O próprio Sarney, na coluna de junho em que anunciou que não disputará mais eleições, fez questão de deixar a dúvida no ar: “Não vou abandonar a política. Ela [...] só tem uma porta, a da entrada.”

Flávio Dino observou cada lance da paulatina perda do poder político regional e nacional do oligarca. Segundo Dino, setores do PT chegaram a insinuar uma composição entre ele e  Sarney neste ano, a ponto de a sondagem ter chegado aos ouvidos da cúpula do PCdoB. Ele resistiu: se tem sido crítico contumaz de Sarney desde 1984, quando militava no movimento estudantil, como explicar uma aliança?

Sem o cabresto de Lula, porém, o PT deixou a campanha correr mais solta no Maranhão. A direção nacional divulgou uma resolução impedindo o partido de indicar o vice na chapa de Lobão Filho. O partido, ainda que envergonhado, dava início à retirada, desembarcando do projeto Sarney no estado. Entre as muitas metamorfoses de Lula, a aliança com Sarney talvez tenha sido a que mais encabulou o PT. A militância respirou aliviada quando o pacto arrefeceu.

No início da campanha, perguntei a Flávio Dino sobre a decisão de Sarney de abandonar a política. Para ele, a “saída de cena” é parcial e motivada pelas circunstâncias – perda de apoio local, temor de, na velhice, sofrer uma derrota pessoal inédita e desgaste do clã. “É uma decisão mais técnica, mais operacional, mais prática do que propriamente uma opção teórica ou ideológica. Eu não acho que Sarney tenha se convertido à ideia da alternância no poder. Acho que é apenas uma contingência, uma imposição da realidade.”

Três meses antes de ser eleito, Dino falava da hegemonia Sarney com lucidez: “É evidente que a corrente política que eles representam, tanto no Amapá quanto aqui, sobreviverá, independentemente do resultado da eleição. A corrente política deles expressa aspectos sociais, eles têm poderio econômico, midiático. Claro que terão continuidade nesse sentido. O que está em disputa é saber o nível de hegemonia que eles terão, o nível de predomínio.”



O telefone toca e uma dona de casa atende esbaforida.

Alô? Oi, Gorete, sou eu [...]O quê? Programa de político? Tô vendo, sim. Ai, Gorete, tem aquele comunista que eu nem escuto mais. Que o homem só reclama, só reclama. E tem o outro, como é o nome do outro? Isso, Lobão Filho.

A cena da amiga de Gorete foi a mais repetida na propaganda eleitoral de Lobão Filho, a de mais apelo para atacar o “comunista” Flávio Dino. O comunismo do adversário, tomado como pecha, foi evocado à exaustão pelo Grupo Sarney. Mais um pouco e a amiga de Gorete não mencionava a notória prática bolchevique de comer criancinhas. “O Maranhão comunista é a mudança que desejam”, escreveu Sarney em julho, em sua coluna dominical. “Uma doutrina que tem 150 anos e já morreu.”

A estratégia ficou ainda mais clara quando Flávio Dino foi entrevistado na TV Mirante, da família Sarney desde 1987, quando ainda era afiliada do SBT– nos anos 90, passou a ser afiliada da Rede Globo. As perguntas sobre o estatuto do PCdoB consumiram mais da metade do tempo da entrevista.

“O estatuto do Partido Comunista do Brasil é muito claro, e eu anotei, candidato: ‘Os mandatos eletivos alcançados sob a legenda do PCdoB pertencem ao coletivo partidário [...].’ Isso significa que, se o senhor for eleito, vai ter que submeter suas decisões ao comitê central. Vai ser assim?”, perguntou o âncora. “Claro que não [...]. Nenhum governador pode ser governador de um pequeno grupo, de uma família ou de um partido. Você tem que ser governador de todos”, respondeu Dino.

“O estatuto ainda deixa muito claro que os comunistas visam à conquista do poder pelo proletariado [...]. Se o senhor for eleito, vai implantar o comunismo no Maranhão?”, insistiu o apresentador. “Eu sou um democrata, o meu partido defende a democracia. E eu não entendo, Sidney, por que tanta perseguição, que tem inclusive um sabor de ditadura militar. Esse tempo passou, a ditadura faz cinquenta anos, o partido foi legalizado há trinta anos e causa muita estranheza tanto ao Brasil quanto ao Maranhão tanta perseguição e tanto ódio a um partido que serve ao país”, retrucou Flávio Dino, sem alterar a expressão e o tom de voz.

A cinco dias da eleição, Lobão Filho, conhecido no Maranhão como Edinho ou Lobinho, falou com jornalistas no estúdio da TV Mirante, ao final do último debate da campanha. Questionei o senador – ele assumiu a vaga por ser suplente do pai – sobre o que ele entendia do termo “comunismo” e por que o usava de forma tão depreciativa. Depois de pegar meu crachá para verificar meu nome e o veículo em que trabalho, respondeu, educadamente, com seu vozeirão de locutor de rádio.

“Pois muito bem, vou lhe responder agora. O fato de ele estar no Partido Comunista do Brasil o faz um comunista. Correto? Muito bem. Eu já disse na televisão que eu não acredito no comunismo. E como é que eu entendo o comunismo: intervenção do Estado no mercado, por aumento da máquina pública e pela interferência maciça do Estado em todos os setores de gestão pública. Pensamos completamente diferente. Eu venho do mercado, sou empreendedor. Entendo que o Estado tem que ser reduzido [...]. Mas, se você ouvir o Flávio Dino falando, pensa que ele é empresário, um homem do mercado. Um discurso completamente diferente do comunismo.”

Lobão Filho disse ainda que, se eu lhe apresentasse um único modelo comunista exitoso, ele se renderia. “Agora nós vamos ter no Maranhão o único estado brasileiro administrado por um comunista?” Flávio Dino foi o primeiro governador eleito pelo PCdoB.

O controle midiático é uma vertente forte do poder do Grupo Sarney – algo que o resultado da eleição, obviamente, não consegue minar. Em um mapeamento feito no primeiro semestre de 2014, a pesquisadora maranhense Pâmela Pinto, da Universidade Federal Fluminense, identificou pelo menos 37 tevês e rádios AM e FM em nome de parentes diretos de José Sarney. Pâmela, estudiosa das mídias regionais, em sua tese de mestrado fez uma análise da imprensa à época do Caso Lunus.

“Todas as principais emissoras do Maranhão estão comprometidas politicamente. Há um domínio dos grandes grupos de comunicação por políticos, e isso influencia a política porque colocam os respectivos adversários sob constante ataque”, disse a pesquisadora.

A TV Mirante tem uma audiência de 5 milhões de pessoas no Maranhão. O estado tem 6,85 milhões de habitantes. “Se considerarmos o alto índice de analfabetismo no Maranhão, a tevê se consolida, sim, como a fonte primária de informação para a grande maioria dos maranhenses”, disse Pâmela. O jornal O Estado do Maranhão é o líder em circulação no estado.

Um dos aspectos mais controvertidos do mandato de José Sarney na Presidência da República foi o rateio de concessões de radiodifusão durante as votações da Assembleia Nacional Constituinte. De 15 de março de 1985 a 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição, Sarney outorgou 1 028 concessões. O número ganha ainda mais expressão quando comparado ao de emissoras de rádio e tevê distribuídas pelo Executivo entre 1934 a 1979: 1 483 concessões.

Em 1994, o pesquisador Paulino Motter concluiu um levantamento dos votos dos parlamentares da Constituinte que receberam concessões no período, estudo que integra sua tese de mestrado pela Universidade de Brasília e referência no assunto: “Dos 91 constituintes que foram premiados com pelo menos uma concessão de rádio ou televisão, 84 (92,3%) votaram a favor do presidencialismo e 82 (90,1%) votaram a favor do mandato de cinco anos.” Na época, Sarney lutava contra a redução do seu mandato para quatro anos e se opunha ao parlamentarismo.

Motter ainda salientou que o número de parlamentares que receberam concessões poderia ser infinitamente maior, já que era impossível identificar emissoras que estavam em nome de “terceiros” – parentes ou laranjas dos políticos –, segundo ele uma prática comum. “Nesse caso, a comprovação do vínculo é muito mais difícil, tarefa que este trabalho não deu conta de realizar.”

Estudos como o de Motter apontam a gênese de um “coronelismo eletrônico” regional com fortes poderes para determinar resultados eleitorais. Na década de 90, a repórter Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, levantou que, das 57 emissoras de rádio e televisão do Maranhão, vinte pertenciam a parentes e amigos de José Sarney e outras quinze estavam sob o controle de aliados políticos dele, como Edison Lobão. Lobão Filho é proprietário da TV Difusora do Maranhão, afiliada do SBT. Em sua declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral, o senador também lista participação nas rádios Curima, Guajajara de Barra do Corda e na TV Norte Sul. O senador eleito Roberto Rocha, do PSB, aliado de Dino, também controla meios de comunicação no estado. No ranking dos dez políticos com o maior número de concessões de rádios e tevês feito pelo site Donos da Mídia, Rocha aparece em quarto lugar, com cinco outorgas, sendo uma delas a da TV Cidade, afiliada da Record.

Não há nenhuma veleidade de isenção na mídia do Maranhão. Se O Estado do Maranhão cobriu a campanha ressaltando atos e frases de Lobão Filho, o oposicionista Jornal Pequenos e mostrou impiedoso com o peemedebista e favorável a Flávio Dino. A despeito do nome, O Imparcial, jornal dos Diários Associados para o qual o jovem Sarney escreveu no passado, fez uma cobertura que pendia para o candidato apoiado pelo ex-presidente.

Costuma-se dizer que no Maranhão há apenas duas estações: o inverno e o inferno. O cair da tarde da quarta-feira, 1º de outubro – último dia da propaganda eleitoral gratuita na televisão para candidatos estaduais –, comprovava a inclemência do sol. O prédio de quatro andares onde funcionava a produtora da campanha de Lobão Filho, com vidros espelhados, tinha ao menos uma dádiva: ar-condicionado. Recebida pelo marqueteiro Antonio Melo, perguntei logo se haveria alterações no programa eleitoral da noite. Na véspera, no debate da TV Mirante, o candidato, cheio de mistério, disse aos jornalistas que era “muito importante” que todos assistissem ao último programa.

Na propaganda eleitoral do horário do almoço daquela quarta-feira, Lobão Filho havia feito uma associação indireta entre a onda de violência no Maranhão (incêndios de ônibus e saques) e seu adversário Flávio Dino. Invocou, mais uma vez, um polêmico vídeo de autoria desconhecida em que um detento do Complexo Penitenciário de Pedrinhas acusava Dino de ter ligações com uma facção criminosa, o Bonde dos 40, e de ser o mandante do assalto a um carro-forte.

Pedrinhas havia destruído a popularidade da governadora Roseana. Sessenta presos morreram assassinados no presídio em 2013; neste ano, foram mais dezenove mortes (duas delas suicídios, segundo o governo estadual). Na campanha de Lobinho, a proposta que mais teve respaldo popular foi “implodir Pedrinhas”.

O marqueteiro respondeu afirmativamente à pergunta e assinalou: “Acabamos de entregar ao Tribunal Regional Eleitoral. O limite era às 17 horas.” Ele explicou que foram inseridas cenas dos dois ônibus incendiados naquele dia – conforme os relatos, os incêndios ocorreram por volta do meio-dia, e as empresas, temerosas, suspenderam a circulação de veículos, deixando 300 mil passageiros sem transporte em São Luís. E como conseguiram as imagens? Pego de surpresa, Melo disse que um passante gravou as cenas e as entregou à campanha. “Já está tudo certo para a noite, ministro. Tranquilo”, disse Antonio Melo a Lobão, que o contatou pelo celular enquanto conversávamos.

O esforço, porém, foi em vão. Flávio Dino conseguiu direito de resposta contra as insinuações feitas pela campanha de Lobinho na propaganda do meio-dia. À noite, ele ocupou boa parte do programa do peemedebista. Não foi possível ver as cenas dos ônibus incendiados no horário eleitoral.

A gravação com a fala do presidiário de Pedrinhas causou controvérsia na campanha maranhense. O vídeo foi originalmente veiculado em meados de setembro pela TV Difusora, de Lobão Filho. O jornal de Sarney repercutiu. “Vídeo que cita Dino muda rumo da campanha”, anunciou em manchete. Já eleito, Flávio Dino me disse, numa conversa por telefone, que esse foi o episódio que mais lhe causou preocupação na reta final de campanha. “Com muita agilidade conseguimos desmontar aquela farsa e evitar o pior, que provavelmente seria o assassinato do preso em Pedrinhas, para que soasse como queima de arquivo.”

A equipe de Dino pediu proteção ao preso e uma investigação do Ministério Público Federal e da Polícia Federal sobre o fato – procedimento também adotado pela equipe de Lobão Filho. O preso, em depoimento à Polícia Civil e depois à PF, admitiu ter acusado Dino em troca de dinheiro e da promessa de regalias por parte do diretor do presídio. Dois diretores de Pedrinhas foram temporariamente afastados de seus cargos pelo governo Roseana. O jornal de Sarney não citou o conteúdo do depoimento, alegando que estava sob sigilo. No mesmo dia, jornais nacionais, como O Globo, traziam trechos do que declarou o presidiário.

“O resultado da eleição não anistia pecados. Vamos levar esse caso adiante, até como prova do cinismo da política e do vale-tudo eleitoral”, disse Dino. O inquérito ainda não foi concluído pela Polícia Federal. No encontro na produtora, o marqueteiro de Lobão Filho minimizou as palavras do detento. “Existem dois depoimentos do preso. Só o de depois que vale? Flávio Dino quer que se acredite só na segunda versão.” Negou que pretendessem mostrar o vídeo do presidiário no horário eleitoral. “Nunca, nunca, nunca... Para nós não havia o menor interesse na divulgação. Não achamos que aquilo nos ajudasse na campanha”, disse Antonio Melo.

No caminho para o Convento das Mercês, no centro histórico de São Luís, o taxista desfiou um rosário de lamúrias. “O maranhense se vende por lata de óleo, dona. E esse homem não morre. Isso só acaba se morre. E o pior é que, quando não é ele, são outros dele. Tenho fé de que um dia isso aqui muda. Só não sei é se vou estar vivo pra ver.” Ele me desaconselhou a caminhar pelas ruelas do local. “Tá tudo abandonado, cheio de drogados.”

De fato, alguns dos magníficos casarões históricos com fachadas de azulejos franceses, quase todos em estado deplorável, foram dominados por usuários de crack. O taxista me deixou dentro do pátio do convento, uma construção do século XVII, de 5 800 metros quadrados e tombada pelo Patrimônio Histórico da União em 1974.

Depois que o visitante se identifica no livro à entrada, ele é conduzido ao 1º andar da Fundação da Memória Republicana Brasileira, ou FMRB, a ex-Fundação Sarney. Recentemente, por meio de uma lei assinada por Roseana Sarney e aprovada pela Assembleia Legislativa em 2012, a instituição mudou de nome e de estatuto – antes era privada, agora é pública.

O convento passou por uma reforma de três anos, concluída em 1990. Em seguida, abrigou a Fundação Sarney.
O ex-presidente entregou à instituição objetos pessoais, condecorações, trajes oficiais, peças de arte e presentes que recebeu durante seu mandato. O site da FMRB informa que o acervo contém “5 mil peças museológicas”, além de fotografias, material audiovisual, edições de livros raros e cópias de documentos presidenciais.

O nome de José Sarney aparece com destaque e é identificado como patrono na entrada da sala central, que reúne breves currículos e dados históricos dos presidentes desde a República Velha. Há telas multimídia e é possível selecionar o período que se quer conhecer melhor. Sarney foi o presidente que encarou as “grandes tarefas” de “reconstruir a democracia e enfrentar a crise inflacionária” – esta momentaneamente sufocada pelo Plano Cruzado, que naufragou antes do fim do seu mandato. O museu ensina ainda que o então presidente, um intelectual, destacou-se pela criação do Ministério da Cultura, por ter reatado relações diplomáticas com Cuba e negociado a criação do Mercosul.

Não havia mais ninguém nas salas. O silêncio só foi quebrado com a chegada de crianças da Escola Municipal Emílio Garrastazu Médici, todas de blusinhas azuis, que invadiram a galeria de fotos da posse dos presidentes. Na sala dedicada exclusivamente a Sarney, há farto material sobre os anos em que governou o Maranhão e ocupou a Esplanada. Num dos depoimentos gravados, Sarney afirma que em seu mandato de presidente “ocorreu uma distribuição de renda que até então não tinha havido no Brasil”. E ilustra: “Até hoje passo na rua e alguém me diz: foi no seu tempo que eu comprei meu liquidificador.”

Agora pública, a FMRB está subordinada à Secretaria de Educação e se mantém com verbas do estado. Tem 46 funcionários e um orçamento anual estimado em 3,48 milhões. De outubro de 2012 até 30 de setembro último, recebeu 52 891 visitantes.

No dia em que fui ao convento, procurei em vão pela salinha que uma reportagem da Folha de S.Paulo em 2013 dizia abrigar telas de Sarney e integrantes de sua família vestidos como santos. Quando já estava de saída, avistei o tesouro. De longe consegui vislumbrar Roseana paramentada de freira. Fui em direção à sala, e uma funcionária da Fundação repentinamente se colocou à minha frente. “Essa sala não é aberta à visitação. Vai haver uma reunião ali agora”, disse. Enquanto ela falava, outro funcionário corria para fechar as portas e vetar a visão das imagens. As telas que associam o clã Sarney a um poder sacrossanto continuam lá.

Alvo de denúncias de irregularidades – entre elas desvio de verbas de patrocínio da Petrobras e o pagamento a empresas-fantasmas –, a Fundação reverbera as polêmicas sobre o poder do Grupo Sarney e a confluência entre público e privado. Em agosto de 2004, o Ministério Público Federal no Maranhão propôs ação civil pública contestando a doação do Convento das Mercês, um bem público tombado, para “uma pessoa jurídica de direito privado”. Em 2009, a Justiça Federal determinou a reincorporação do patrimônio ao estado. Mas o governo estadual recorreu e a ação agora tramita no Tribunal Regional Federal de Brasília. A Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão também ajuizou uma ação direta de inconstitucionalidade em 2011, questionando a estatização da Fundação Sarney.

O conselheiro da OAB Rodrigo Lago acompanhou o caso de perto: “Esse processo de estatização violou princípios republicanos. O conselho curador da Fundação tem onze membros, sendo que dois deles são sempre indicados por Sarney. Ele tem direito vitalício de fazer a indicação e, pasme, isso é hereditário. Se ele vier a falecer, o direito é transmitido a seus herdeiros.” Lago vai se afastar da OAB e assumir uma secretaria no governo de Flávio Dino, a de Transparência e Controle, uma promessa de campanha.

A ação da OAB foi julgada improcedente pelo Tribunal de Justiça do Maranhão em 2013, mas o Ministério Público recorreu ao Supremo. O PPS também questiona no STF a mudança de estatuto da Fundação Sarney. Tendo por relator o ministro Dias Toffoli, o caso está parado desde agosto de 2013. Nenhuma das duas ações no Supremo foi julgada. Quando questionei o advogado sobre a possibilidade de Flávio Dino fazer mudanças na Fundação, ele foi realista: “O cenário não é nada animador. O governador tomará posse, mas não pode mandar num órgão que é controlado por Sarney. É o resquício de um regime monárquico. No Império os palácios pertenciam a dom Pedro e a seus herdeiros. É uma imoralidade.”

Já eleito, Flávio Dino declarou que não procederá a uma caça às bruxas contra o Grupo Sarney, nem fará auditoria geral nas contas do estado. “Mas vamos rever contratos superfaturados, obras-fantasmas. É fazer o que a lei manda. Simples assim. Não vou pedir para ninguém prevaricar.” Sobre a fundação que tem o acervo de Sarney, disse que é legítimo que ela exista, desde que seja privada. “O que não é razoável é que recursos públicos sejam usados para mantê-la. Isso não pode e não vai acontecer”, afirmou.

O Maranhão foi o estado que deu a Dilma a melhor votação proporcional no segundo turno, 78,76%, e a petista ficará em débito com o clã Sarney. Um dia depois de eleita, ela telefonou a Roseana para agradecer “aos maranhenses”. O ex-presidente declarou o voto em Dilma na sua coluna de 26 de outubro no Estado do Maranhão – embora imagens da TV Amapá tenham suscitado dúvidas sobre os números digitados por ele na urna. A fim de neutralizar a aliança do Grupo Sarney com a cúpula petista, Dino convidou o PT para integrar seu governo. Já dá a composição como certa.

Em 1966, o governador Newton Bello, representante da oligarquia Vitorino Freire, derrotada na eleição de 1965, recusou-se a passar a faixa a José Sarney. João Figueiredo repetiu o gesto quando Sarney chegou ao Palácio do Planalto.

Flávio Dino não deverá receber a faixa das mãos da governadora Roseana Sarney no dia 1º de janeiro de 2015. Ela avisou que vai tirar um sabático no próximo ano e sinalizou aos aliados que deverá renunciar ao cargo ainda neste mês, ou pedir uma licença. Não quer estar presente na cerimônia de posse do adversário.

por Malu Delgado

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