sexta-feira, 23 de julho de 2010

De "boas intenções" o inferno está cheio ...


A chuva diminuiu, os rios baixaram, o pior já passou e, como de praxe, a imprensa já parte para outros assuntos, de preferência trágicos, como o Caso Mércia, o Caso Bruno ou qualquer outro "caso" que não envolva gente "sem a menor importancia" que mora escondida numa biboca qualquer. Mas será que o pior já passou mesmo ? Para as populações que perderam tudo na enchente, que não entendem que o que aconteceu com eles é muito mais fruto de políticas habitacionais equivocadas, ou mais frequentemente da completa falta de qualquer ação prática eficiente para resolver o problema, o pior ainda está por acontecer. Porque agora eles têm que tocar a vida, que já era difícil, contando apenas com a tão propagada "solidariedade" do povo brasileiro, que costuma se mobilizar muito bem para dar esmolas, mas fica totalmente inerte quanto à muito mais producente questão da mobilização social, da cobrança de políticas REALMENTE tranformadoras. Acredito que o povo brasileiro é, provavelmente, um dos menos politizados do mundo.

Mas os problemas referentes à próxima copa do mundo, aí sim, todo mundo discute. Parece muito mais importante saber se os aeroportos estarão em perfeito funcionamento e os meagaestádios estarão prontos para o mundial da FIFA do que garantir que o povo do sertão nordestino tenha onde morar com alguma dignidade nos próximos 4 anos (lembrei-me agora da felicidade de uma senhora ao receber uma singela barraca para morar dia destes na televisão. É assim mesmo, quem nunca teve nada se contenta com muito pouco). O povo da África do Sul já deve ter notado que a Copa do mundo não mudou em absolutamente nada sua vida, que continua praticamente a mesma desde o fim do apartheid, cuja única consequencia visível foi a inclusão de alguns pretos no clube da elite econômica do país. Vejo muito mais semelhanças do que gostaria entre o CNA (Congresso Nacional Africano), partido liderado por Mandela que governa a nação mais rica do continente (por incrível que pareça) desde o fim do regime de segragação racial e o nosso Partido dos Trabalhadores. Ambos nasceram cheios de boas intenções, mas ao "chegarem lá" se renderam à "realpolitik" e apenas administraram o "satus quo" de maneira ligeiramente mais eficiente do que os abutres que os precederam.

Espero que eu esteja enganado, até porque acredito que o choro do presidente Lula diante das câmeras de TV anteontem no Jornal da Record foi sincero - ele chorou ao recordar de ter recebido uma comissão de catadores de material reciclável e ter ouvido deles que só o fato de estarem sendo recebidos pelo presidente da república dentro do palácio do planalto já era, para eles, uma grande mudança. Acredito realmente que Lula é sincero, mas de boas intenções, todos sabem, o inferno está cheio.

Abaixo, um excelente texto sobre o assunto.

A.

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África do Sul antecipa horizonte desanimador para 2014 - Não é do real interesse de nenhum dos entes envolvidos na organização do evento promover reais avanços na vida cotidiana do país

Por Gabriel Brito

Terminada a grande festa do futebol, é hora de se despedir dos convidados, limpar o salão e fazer um balanço do evento mais mobilizador da humanidade. Conquistada ineditamente pela Espanha, a primeira Copa do Mundo em solo africano deixou boas lembranças esportivas e indeléveis marcas no país sede, algumas para orgulho do povo local, muitas para seu desespero.

De olho na próxima edição, daqui a quatro anos no Brasil, somos obrigados a realizar algumas reflexões acerca do que significou para a África do Sul ser sede do mundial e o que tende a ser o certame verde e amarelo, especialmente no que se refere ao tão propalado legado para a nação que eventos de tal monta são capazes, ao menos no papel, de proporcionar.

"A verdade é que o Estado não ataca os problemas de fundo porque, provavelmente, quaisquer progressos substantivos nesse sentido viriam a suscitar a questão das relações entre as classes e o próprio modo de produção", escreveu o economista Patrick Bond, que ao lado de outros docentes, pesquisadores e membros da Universidade de Kwa-Zulu Natal manteve na internet o Observatório da Copa do Mundo.

Com essa afirmação, o professor, implacável crítico dos donos deste grande circo, aponta diretamente para o fato de que não é do real interesse de nenhum dos entes envolvidos na organização do evento – FIFA, governos e patrocinadores – promover reais avanços na vida cotidiana do país. Menos ainda referenciados na justiça e progresso social.

Just for business - A Copa de 2010 escancarou ao mundo que o futebol é comandado por homens de negócio que não perdoam nem as mazelas de um país atrasado para fazer a única coisa que julgam necessária à vida, obviamente o incessante business. Em um mundo em que a maior parte das relações sociais e humanas é calcada pelos interesses de maximização de ganhos via mercado, não havia possibilidade de o futebol manter-se descolado de tal lógica. Logo, foi inevitável o encontro do esporte mais popular (e rentável) do mundo com aves de rapina das mais diversas procedências.

O governo calcula que, com a Copa, foram criados cerca de 130 mil empregos, número insuficiente para fazer frente à fatura passada pela crise financeira de 2008. "As estatísticas da África do Sul anunciaram, na semana passada, que mais 79.000 empregos foram perdidos no último trimestre, crescendo para quase um milhão o número de demissões desde que estourou a crise mundial em 2008", contrapõe Bond.

Somado a outros fatores, qualquer espectador minimamente atento percebe que a grande motivação por trás do planejamento do evento é a cadeia de negócios e empresas envolvidos na mesma engrenagem, simbolizada pelos estádios hipermodernos que se configuram como autênticas ilhas de suntuosidade em meio à pobreza dominante no país, tal qual os ainda brancos bairros de elite.

Durante os anos de preparação da Copa, o governo sul-africano bateu na tecla do desenvolvimento que 64 partidas seriam capazes de garantir ao país, elevando o nível de vida da nação recentemente libertada do jugo racista. Com isso, fermentou o sentimento de frustração que agora atinge milhões de sul-africanos, que não somente ficaram a ver navios em termos de progresso, como tiveram suas vidas ainda mais infernizadas.

Num país que estima os estrangeiros entre 3 e 8 milhões (!), não é possível saber ao certo quantas pessoas foram deslocadas para locais ainda mais precários que suas moradias anteriores, mas certamente se contam às dezenas de milhares, visto que tais expulsões (ao melhor estilo apartheid) ocorreram em praticamente todas as obras de estádios.

Por conta da truculência do governo local na condução do mundial, não faltaram conflitos violentos entre os que eram expulsos de suas regiões e a polícia. No entanto, trata-se do país que estatisticamente mais promove protestos sociais no mundo, talvez a grande herança das lutas lideradas por Mandela, o que torna difícil esconder do planeta tantas feridas. Nem mesmo com o vergonhoso estado de sítio informal imposto aos moradores de áreas mais pobres e afastadas, que tiveram seu acesso às grandes cidades dificultado ao máximo, foi possível dissimular o caldeirão que faz o país fervilhar.

Longe de resolvidas, agravaram-se as injustiças - Na Cidade do Cabo, uma das mais movimentadas em termos de lutas sociais, chegou-se ao ponto de se encher de tapumes a estrada que liga o aeroporto ao campo, de modo a esconder os precaríssimos assentamentos de pessoas que foram morar ali exatamente por conta da construção do Green Point.

"Além disso, a Copa do Mundo da FIFA impactou negativamente em nossas comunidades, já que não temos permissão para trabalhar perto dos estádios, fan parks ou outras áreas turísticas. Os pobres não são excluídos só dos espaços econômicos, mas também de nossas casas, sendo realocados para townships (definição local para guetos) como Blikkiesdorp, longe do centro, das oportunidades de emprego e dos olhos dos turistas", expressou o Abahlali baseMjondolo, movimento de luta pela terra fundado em 2005 e que já desfruta de forte presença na população, a ponto de ter organizado um ‘mundial paralelo’, a Copa do Mundo do Povo Pobre, idealizada ao lado de outros movimentos que passaram o mês da Copa promovendo a campanha ‘anti-exclusão’.

"Essa Copa do Mundo do Povo Pobre foi feita porque nos sentimos excluídos da Copa do Mundo da FIFA. Vemos que o governo colocou enormes quantias de dinheiro na construção do Green Point e em melhorias do Athlone Stadium, mas nós, comunidades pobres, não nos beneficiamos de nenhum desses investimentos. As partidas são jogadas na cidade, mas não temos ingressos e nem transporte para poder presenciar os eventos", explicam.

Porém, como já dito em matéria deste Correio, os senhores do futebol sabiam perfeitamente de todas as injustiças que seus interesses financeiros imporiam a muitos sul-africanos. Como também avisara Patrick Bond, isso ocorre pelo fato de o evento estar intrincado ao modelo neoliberal de produção e consumo, voltado a gerar grandes rendimentos aos empreendedores, especialmente em obras de infra-estrutura, mas negligenciando completamente a contrapartida do beneficio social, comunitário.

E como manda o receituário desse modelo de economia e sociedade, o trabalhador sul-africano que prestou serviço ao Comitê Organizador Local (que assumia as responsabilidades do dia a dia do torneio, enquanto a FIFA contava dinheiro) na organização e logística da Copa foi super-explorado em sua jornada laboral e, ainda por cima, enganado em relação aos valores a serem pagos. A segurança de todos os setores do mundial terminou a cargo da polícia local, pois quem prestou serviço à Stalion (contratada pela FIFA) abandonou o barco após sucessivos embustes.

Além disso, a FIFA impõe enormes barreiras de isolamento a fim de beneficiar seus patrocinadores, garantindo total exclusividade aos seus parceiros comerciais em seus respectivos ramos de atuação. "Não sou KFC, não sou Mcdonalds, por isso não posso estar lá dentro trabalhando. Eu também queria estar legalizada, mas não dá", lamentou uma vendedora de lanches de Johanesburgo, momentos antes de Espanha e Paraguai, às câmeras da ESPN Brasil.

Agora, a festa acabou e de fato ela foi um sucesso para seus patronos (e alguma festa o povo local também pôde fazer, afinal, quem é de ferro?). A FIFA anunciou no dia seguinte ao título espanhol que a competição lhe rendeu lucros de 6 bilhões de reais, dobro do registrado na Alemanha-2006, o que dá idéia de como a espiral de exploração comercial não encontra limites no futebol. Fora isso, podem-se levantar questionamentos sobre a moralidade de um governo bancar sozinho os 8 bilhões de reais que custaram a Copa ao mesmo tempo em que não leva um naco dos lucros por ela gerados. A máxima gratificação da entidade comandada há 12 anos por Joseph Blatter foi a cobertura dos custos de funcionamento do Comitê Organizador (cerca de 1% do lucro auferido).

Dessa forma, a expectativa que ronda o país é a da explosão de uma nova onda de diversas violências e protestos sociais. Está claro para os cidadãos sul-africanos que o governo pode realizar investimentos maciços quando interessa, inclusive dispensando auxílio da iniciativa privada, de modo que será muito difícil controlar a frustração de uma população que, além de tudo, foi afastada do próprio evento em si.

O pior pode estar por vir - "O CNA, partido que liderou todo o processo de libertação nacional, tornou-se, ao fim destes anos de poder, um perigo evidente para a integridade da sociedade sul-africana. Em vez de um projeto político coletivo de transformação da sociedade, é hoje um instrumento de ‘progresso pessoal’ de uma elite, com o conseqüente agravamento das desigualdades", escreveu Richard Pithouse, do South African Civil Society Information Service. Alguma semelhança com a próxima sede da Copa e sua atual força política dominante?

Com a saída do país dos holofotes do mundo, e o desaparecimento do gigantesco policiamento, teme-se pelo ressurgimento de ondas de violência contra trabalhadores de países vizinhos que tentam ganhar a vida na mais desenvolvida nação do continente. Como citado acima, sem sequer haver controle do número de imigrantes, não se pode mensurar o grau de estragos que poderiam provocar, mas diversos trabalhadores moçambicanos, zimbabuanos, nigerianos, já declararam receio pelos próximos tempos.

De acordo com estudos do Africa Peer Review Mechanism, "a xenofobia contra outros africanos está neste momento crescendo e tem de ser sufocada no ovo". Em 2008, ataques contra negros de outros países deixaram 60 mortos, configurando uma enorme assombração para o devir.

Se alguma tragédia do gênero vier a se confirmar, será duplamente desgraçada, pois se os pobres de diferentes países se matam por se verem como inimigos, competidores, o sistema que os condena fica isento de ser mais profundamente questionado como verdadeiro progenitor de toda injustiça. "Um olhar mais cuidadoso em relação às ondas de violência xenófoba joga luz sobre os nossos mais incuráveis problemas, que são os da exclusão econômica", pondera Glenn Ashton, escritor e pesquisador sul-africano.

"O que estamos enfrentando não é xenofobia, mas conseqüência da pobreza e da falta de transformações econômicas progressistas desde 1994. Assim como os protestos pelos serviços básicos ocorrem por conta da incapacidade das autoridades em atender os desejos e necessidades dos mais marginalizados setores sociais, nós podemos afirmar com igual firmeza que essas esporádicas ondas de xenofobia são apenas outro aspecto do mesmo problema", completa.

Assim como o Pan do Rio em 2007, a Copa do Mundo não deixou legado algum ao povo local, apenas decepções e muitas contas a pagar depois de um mês de inesquecível e anestesiante festança. Em ambos os casos, isolou-se a pobreza dos olhos do mundo e gastou-se muito dinheiro além do previsto, com fortes rastros de corrupção. E a previsão orçamentária para a Copa verde e amarela já é quatro vezes superior à edição deste ano.

Como mostraram diversos estudos econômicos, uma Copa do Mundo tem poucas chances de fazer o PIB de um país variar acima de 1%. A lição que devemos trazer da África do Sul (fora a de nunca mais inventar Dungas) é a de que um evento esportivo, por maior que seja, não é capaz de resolver os grandes gargalos de uma nação. Quando essa nação é endemicamente corrupta e conduz desde já a organização da próxima edição com muitos erros, atrasos, falta de transparência e democracia, podemos ter certeza de que não serão apenas Neymar, Messi, Villa, Robben e Muller que farão muitos ‘gols’ pelos campos do país do futebol.

Fonte: Envolverde

quinta-feira, 22 de julho de 2010

The Baggios - O Azar me consome

Eu já sabia !!! – quando eu soube que os Baggios iriam gravar seu primeiro disco “oficial” em São Paulo, num estúdio bacana e com auxílio “luxuoso”, o que veio à mente foi o mais óbvio dos pensamentos: “vem coisa muito boa por aí”. Expectativa corroborada pelas imagens, em fotos e videos, das atividades no estúdio, divulgadas pelo Orkut e youtube: Julico feliz “feito pinto no lixo” em meio a muitas guitarras, Perninha ajustando as peles da bateria com a ajuda do nosso “unforgettable” Babalu ... Pois bem, parte da expectativa se confirma hoje, com o lançamento virtual do primeiro single deste tão esperado “debut”. Trata-se de 3 músicas sendo que a primeira, “o azar me consome”, segue a velha escola do blues-rock com a já bem conhecida pegada da dupla infernal sergipana. Grande riff, grande perfomance vocal de Julico, com muita personalidade. Lá pelo meio da musica, uma paradinha a la White Stripes, com a diferença que Perninha é muito mais baterista que a gordinha simpática parceira de Jack White. No mais, duas novidades muito bem vindas: The Baggios tocando Cramps – tai uma boa idéia, com o perdão dos publicitários que inventaram o bordão para a “caninha 51”, e um som acústico, mais puxado para o folk, remetendo ao que de melhor foi feito no rock brasileiro dos anos 70, com direito a flautas e “slide guitar”. A letra e o vocal remetem a um Raul Seixas repaginado, mais “bluesy”. Valeu também o bom e velho barulhinho de agulha no vinil na abertura e encerramento.

Excelente “disco”, como era de se esperar.

por Adelvan Kenobi

Download do single:
http://www.mediafire.com/?l2y4nz2ynwkqyzc

Contatos:
juliododges@hotmail.com
gabriel.perninhacarvalho@gmail.com

Páginas na Web:

•Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=11476690
•Trama Virtual: http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?idp=831640
•MySpace: http://www.myspace.com/baggios
•Fotolog: http://www.fotolog.com/the_baggios
•YouTube: http://www.youtube.com/thebaggios
•Twitter: http://www.twitter.com/thebaggios

Letras:


01- O Azar me Consome (2:30)


As coisas não tão dando certo pra mim
As coisas não tão dando certo pra mim
Mas não vou desistir
Se eu não for...
Vai saber o motivo

As coisas não tão dando certo pra mim
As coisas não tão dando certo pra mim
Mas não vou desistir
Se eu não for
Sabe lá o motivo

Eu na esquina e um guarda a me parar
Procurando, mas com nada pra achar
O que vocês enxergam em mim
O que vocês enxergam em mim
Seja o que for, Seja o que for
Sabe lá o motivo


02- Can't Find My Mind (2:36)


I've got a black skin suit
Alligator shoes
Now I found success
And I paid my dues

Well everything is fine
But I can't find my mind

I've got a crystal ball
And a divining rod
Magnifying glass
And a pack of dogs

I looked up my sign
But I can't find my mind

Oh I hold alone
I had a private eye
Turnin a (?)
With the FBI
No matter what I do
I still can't find a clue


03- Canção dos Velhos Tempos (Jam Version) (4:16)


Veja quanto gente
Quanta histórias
Quanta coisa pra contar

O mal que eu poderia ter causado
Hoje sei como evitar

Bom estar do outro lado
Pra mais fácil entender
Poderia estar cansado
Mergulhado em mil porquês

Na canção dos velhos tempos
Que me dá vontade de chorar
NOta-se a dor e o sofrimento
Que o tal teve que passar

Estou em outra estação
Decidindo pra onde ir
Garanti meu ganha pão
Ahhhhhh!!

12 Microresenhas do que tenho visto na tela grande ...

O Golpista do ano, de Glenn Ficarra e John Requa - Se você já tinha se impressionado com as peripécias do vigarista de “catch me if you can”, filmado por Steven Spilberg, vai custar a acreditar no que faz o protagonista deste “golpista do ano”, nome que “I Love you Phillip Morris” ganhou no Brasil. E você não precisaria acreditar, a não ser por um pequeno detalhe: é tudo verdade. Bom, pelo menos é o que andam falando por aí e o filme afirma categoricamente já em seus créditos iniciais. Jim Carrey interpreta um cara comum que, depois de sobreviver a um acidente, resolve que vai ser quem ele realmente é e levar a vida que acha que merece ter, ou seja: gay, muito gay, gay ao extremo, e rico. Muito rico. Carrey está ótimo no papel, fica mais engraçado à medida que vai amadurecendo e se tornando menos “careteiro”. Rodrigo Santoro aparece pouco, ao contrário do que insinua o cartaz brasileiro, onde ele tem o mesmo destaque que os dois astros principais – além de Carrey, Ewan McGregor, igualmente perfeito como o Phillip Morris do título original, vítima de um amor doentio por um tremendo cafajeste e cara-de-pau, talvez o maior que o cinema já retratou – mas que já estaria perdoado apenas pelo fato de ter feito o então governador do Texas, George W. Bush, também conhecido como “A Besta”, de idiota. O filme não é uma comedia rasgada do início ao fim, embora tenha cenas muito engraçadas, especialmente em sua primeira metade. Vale a pena uma sessão.

Nota: 7

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Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi – Sergio Bianchi em mais uma certeira “dedada” na ferida exposta da situação social caótica em que o Brasil permanece, “deitado eternamente” em berço nada explêndido. Aqui vemos a “sinuca de bico” das “pessoas de bem” que são obrigadas a conviver, nas periferias das grandes cidades (é São Paulo, mas poderia ser qualquer outra), com a criminalidade que se aloja, no caso literalmente, na casa ao lado. Válter (Marat Descartes) é (ou pelo menos tenta ser) o “macho alfa” da casa sitiada pela inesperada e pra lá de desconfortável presença de novos inquilinos de seu vizinho, um senhor separado que tenta viver com alguma dignidade apesar de ter que dividir o mesmo espaço com um bando de marginais totalmente sem escrúpulos com atitudes suspeitas e/ou escancaradamente inconvenientes, como o desagradável hábito de promover verdadeiros “bailes funks” regados a musica alta, palavrões, bebida e sexo. Um filme tenso e realista, com excelentes interpretações de todo o elenco.

Nota: 8



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Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas – Apesar da grande interpretação de parte do elenco, como Paulo José, de contar com a presença, mesmo que como coadjuvante, de uma de minhas musas, Leandra Leal, e de ter uma direção de fotografia excelente que, além de capturar algumas das “paisagens” de concreto do Distrito Federal por ângulos inusitados, consegue o feito de deixar a população da cidade totalmente fora dos enquadramentos, este filme é péssimo. Uma gigantesca punheta intelectual totalmente sem pé nem cabeça, com diálogos e situações non sense aparentemente sem nenhuma conexão entre si. Não entendi, nem tive vontade de entender. Não recomendo.

Nota: 2,5
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Como treinar o seu dragão, de Dean DeBlois e Chris Sanders – Desenho animado da Dreamworks que se passa numa aldeia viking assolada por ataques de dragões. O garoto Soluço acaba se tornando amigo da mais perigosa das feras, um “Fúria da noite”, e ajudando seu povo a se livrar definitivamente da ameaça. Excelentes efeitos especiais e inúmeras situações divertidas. Diversão garantida e de qualidade “para toda a família”. Assista, sem medo de ser feliz.

Nota: 7,5

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Fúria de Titãs, de Louis Leterrier – Refilmagem totalmente sem graça do último filme que contou com a arte do grande mestre dos efeitos especiais, Ray Harryhausen. O original é um daqueles clássicos dos bons tempos da “Sessão da tarde” que fazia a alegria da molecada. O atual também pode fazer a alegria da molecada mais descerebrada, mas eu particularmente achei um lixo, com péssimas interpretações e argumento e roteiro horríveis. Os efeitos especiais são bons, mas efeitos especiais, DEFINITIVAMENTE, não sustentam um filme – vide Transformers.

Nota: 3

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Um Homem sério, dos Irmãos Cohen – Mais uma divertida “comédia de erros” da mesma dupla que nos presenteou com os seminais “Fargo”, “onde os fracos não tem vez” e “gosto de sangue”. Nada dá certo na vida de Larry Gopnik, um judeu de meia-idade que tem sua vida colocada de pernas pro ar quando sua mulher anuncia que vai se separar dele. Uma série de situações absurdas e absolutamente hilárias se sucedem, num encadeamento inteligente e bem amarrado que culmina numa cena em que um grande e velho sábio judeu dá conselhos inspirados na letra de “somebody to love”, do Jefferson Airplane. Só vendo mesmo pra entender – ou não, mas a diversão é garantida.

Nota: 8

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Mother, de Bong Joon-ho – Novo filme do criador do melhor “filme de monstro” do século XXI, “O Hospedeiro”. Aqui, uma mãe se empenha em defender seu filho, doente mental, de uma acusação de homicídio. A dúvida se mantém até o final, e no processo vamos aos poucos reconstituindo, junto com os personagens, o que se passou naquela fatídica noite em que uma adolescente promíscua foi estuprada e morta a pedradas num barracão imundo. Drama e suspense na dose certa, muito bem filmado e interpretado. Recomendo muito.

Nota: 8

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O Lobisomen, de Joe Johnston – Bela refilmagem do clássico de horror da universal de 1941, com Benício Del Toro no papel principal. Eficiente em recriar a atmosfera gótica e sombria original, com a adição de efeitos especiais modernos e alguma dose de carnificina ao gosto dos novos tempos. O argumento é simples, até mesmo banal, mas não deixa de ser eficiente, apesar de ter uma série de pontos fracos, como a interpretação no “piloto automático” de um irreconhecível Anthony Hopkins num dos papéis principais. Não é um filme brilhante, mas é divertido. No final das contas, periga ser o melhor sobre os homens que viram lobos sob a luz da lua cheia desde o clássico “Um lobisomem americano em Londres”.

Nota: 6,5

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Quincas Berro DÁgua, de Sérgio Machado – Adaptação mediana de um dos livros mais populares de Jorge Amado. Poderia ter rendido muito mais, tendo em vista que contou com o suporte financeiro das organizações Globo e um elenco “estelar”, com Paulo José à frente. Um dos problemas deve ter sido justamente a intenção de fazer uma fita “para toda a família”, o que sabotou o espírito anárquico e sacana da obra original. Decepcionante NÃO VER ver Mariana Ximenes se entregando aos prazeres da carne numa das cenas finais.

Nota: 6

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Sherlock Holmes, de Guy Ritchie – Bastante divertida esta nova adaptação das aventuras do mais famoso detetive da literatura. Excelente fotografia, excelentes interpretações de Robert Downey Jr. como Sherlock Holmes e Jude Law no papel de um Otis bem menos coadjuvante que o usual. Guy Ritchie, uma das revelações do cinema alternativo dos anos 90, se dá bem aqui ao inaugurar o que provavelmente se tornará uma nova franquia bem-sucedida.

Nota: 7

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Mary e Max - Uma amizade diferente, de Adam Elliot - Cativante trabalho na tradicional técnica de "stop motion" com massinhas. Conta a história da improvável amizade entre Mary (voz de Toni Collette), uma menina gordinha e solitária de oito anos que vive nos subúrbios de Melbourne, Australia, e Max Horovitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um homem de 44 anos, obeso e judeu, que vive com Síndrome de Asperger no caos de Nova York. Uma viagem de 20 anos entre dois continentes que explora a amizade, o autismo, o alcoolismo, de onde vêm os bebês, a obesidade, a cleptomania, a diferença sexual, a confiança, diferenças religiosas e muito mais. A mensagem é clara: aquela pessoa esquisita que mora do seu lado e com a qual você não quer se relacionar também é um ser humano e merece, no mínimo, respeito.

Nota: 9

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Sex and the city 2, de Michael Patrick King – Vendo este filme cheguei a me questionar se a série é realmente tão boa quanto eu me lembrava ou se tudo não foi um gigantesco engano. Tudo aqui é muito exagerado, fake, brega – eu acho as roupas usadas por Carrie Bradshow bregas. Foda-se se são de grifes famosas ou de grandes estilistas, a maioria é ridícula. E a própria Carrie, que já não era nem de longe meu personagem favorito, se tornou uma chata de galocha, a típica casada entediada que implica com tudo e nunca está satisfeita com nada. Já minha personagem favorita (minha e da torcida do flamengo, porque o povo gosta mesmo é da sacanagem, não tem jeito), Samantha, continua divertida, mas um tanto quanto vulgar e exagerada. Já está mais do que na hora de passar a régua nessa história – pra mim, pelo menos, já deu. Qualquer dia revejo a séria pra confirmar se era mesmo essas cocadas todas, mas um episodio 3, no cinema, não contará com a minha presença, podem ter certeza – e tenho plena consciência de que não fará falta.

Nota: 3,5

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Revolução dos bichos


Em plena crise, a mitologia grega cria um novo "herói da resistência" - A Grécia pode estar quebrada. Mas a mitologia grega acabou de enriquecer o mundo com a história de Kanellos, o cão trotskista. Desde Cérbero, o guardião do inferno, não vinha lá das bandas de Atenas uma entidade canina de tamanha importância, capaz de ofuscar os cortes de salários, aumentos de impostos e outros pratos feitos da crise financeira nas páginas do jornal inglês The Guardian, o primeiro órgão de imprensa a cobrir amplamente a presença de Kanellos em manifestações de rua contra a atual política de aperto fiscal.

Nas fotografias, o vira-lata dava mesmo a impressão de estar em todas. Havia flagrantes de Kanellos latindo de focinho aberto para pelotões de soldados encolhidos atrás de escudos, máscaras contra gases e capacetes. Cenas em que ele encara uma nuvem de gás lacrimogêneo, como se não passasse de gelo-seco em arena de circo. Ou desfila olimpicamente diante de um canhão de água pressurizada, desses que dispersam multidões. E atravessa, como indômito guerreiro, as fogueiras e os destroços das barricadas estudantis, rompe a dentadas cordões de isolamento, corre atrás das motocicletas de policiais ou beberica, no calçamento de Sintagma, a praça do Parlamento e dos tradicionais quebra-quebras, o leite derramado num protesto por fazendeiros. Sempre ao lado do povo e contra o tacão das autoridades.

Segundo o Guardian, Kanellos não dá trégua ao governo grego há pelo menos dois anos. Sem dúvida isso lhe garantiu um lugar no panteão dos heróis mitológicos, já que o animal, em si, morreu em 2008, de velhice, derrotado pela artrite, depois que seus aliados políticos na universidade fizeram uma subscrição para lhe doar uma cadeira de rodas feita sob medida para cachorros com necessidades especiais. Foi enterrado "com honras de inimigo de Estado", na feliz expressão dos estudantes presentes ao funeral. E virou tema de uma canção, cuja letra, em grego, não deixa dúvidas de que se trata de "uma música para um cão chamado Kanellos".

Pois então, quem seria o impostor das fotos recentes? Tratar-se-ia de um certo Loukanikos - ou Louk, para os correspondentes estrangeiros. Ao que tudo indica, ele é o novo herdeiro de uma dinastia que, a rigor, não começa com Kanellos. Antes dele houve Skaby, a quem o poeta Yannis Ritsos dedicou versos, prometendo revê-lo "em marchas e protestos". E ninguém se esquece de Papitsa, a cadela negra que os correspondentes internacionais tornaram famosa ao flagrarem-na numa greve de portuários contra armadores chineses carregando na boca um estandarte com as palavras Esmague o Capitalismo!

E o pior é que sobre o pedigree revolucionário de Loukanikos pairam algumas dúvidas. Os atenienses não sabem se ele é um cachorro só, ou muitos - uma verdadeira matilha de sósias do primeiro e único Kanellos, se é que houve mesmo um primeiro e único Kanellos. O nome de batismo se refere à pelagem cor de canela, quase um uniforme do vira-lata grego. A coleira azul no pescoço - que Kanellos e todos os seus sósias parecem trazer ao pescoço - também não serve para identificar o cão, a menos que seja lida bem de perto, coisa que um repórter dificilmente se arriscará a fazer no meio de um corre-corre. Quem tiver a pachorra, ou a coragem, de apurar o que está lá escrito, verá que se trata apenas da informação de que o cão é um macho vacinado, castrado e devolvido à rua pelo poder público. A medida faz parte de um programa de controle populacional adotado às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2004, quando o comitê julgou que não ficava bem uma cidade prestes a receber o mundo ter tantos cachorros perambulando à larga. Decidiram reprimir a cachorrada. Vai ver que vem daí a adesão dos vira-latas à revolução permanente.

Fonte: piauí

terça-feira, 20 de julho de 2010

Feliz Dia do amigo

(wikipedia): O Dia Internacional do Amigo, celebrado a 20 de julho, foi primeiramente adotado em Buenos Aires, na Argentina, com o Decreto nº 235/79, sendo que foi gradualmente adotado em outras partes do mundo. A data foi criada pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro. Ele se inspirou na chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, considerando a conquista não somente uma vitória científica, como também uma oportunidade de se fazer amigos em outras partes do universo. Assim, durante um ano, o argentino divulgou o lema "Meu amigo é meu mestre, meu discípulo é meu companheiro". Aos poucos a data foi sendo adotada em outros países e hoje, em quase todo o mundo, o dia 20 de julho é o Dia do Amigo, é quando as pessoas trocam presentes, se abraçam e declaram sua amizade umas as outras, na teoria.

No Brasil, o dia do amigo é comemorado oficialmente em 18 de abril. Em 20 de julho é comemorado o dia da amizade, mas atualmente o país também vem adotando a data internacional.








quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pioneirismo é isso aí ...


Porn Marins: O alter ego do personagem Zé do Caixão nunca gostou muito de fazer coisas que pessoas normais fazem. Em 1963, José Mojica Marins resolveu introduzir o terror no cinema num país onde o gênero pouco tinha sido visitado — e, de certo modo, deu certo. Depois, no filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, criou um inferno tão atípico onde, acreditem, nevava; e até o coisa ruim estranhou quando viu flocos de gelo em seu lar. Neve no pretenso reino das chamas? Vai entender. Em meio à ditadura militar, meados de 1967, fez testes do além na TV, exibindo em rede nacional aspirantes a ator beijando caveiras, comendo baratas e outras fanfarras. Marins é de longe doido varrido.

Quando figurou no cinema pornô não foi diferente. Os primeiros dois filmes do gênero em que participou da direção, A Quinta Dimensão do Sexo (1983) e O Filho do Sexo Explícito (1984), tiveram lá suas peculiaridades, mas nada tão assombroso. Foi no terceiro longa que ele passou para o lado negro da força.

Bem vindo ao Zôo: O amigo Mario Lima novamente convida Mojica para dirigir uma nova empreitada: 24 Horas de Sexo Explícito. A história, se é que existe, perpassa por três atores pornôs que resolvem fazer uma maratona com 24 horas de sexo. Para não ficar na mesmice, Mojica convenceu o parceiro a utilizarem um cachorro nas filmagens. O argumento era que as atrizes do longa eram tão feias, que seria necessário chamar outro elemento para dar cara ao filme. E foi isso que aconteceu. O que Mojica vislumbrava não era novidade no Brasil, vez que Jean Garret já havia feito, em 1977, um filme onde um cavalo lambia os seios da atriz Helena Ramos. Mas isso foi fichinha se comparado à proposta de 24 Horas.

Recrutando bons atores: Jack era um pastor alemão famoso entre as cadelas locais por sua virilidade. Os dois diretores de 24 Horas não pestanejaram em trazê-lo para a equipe. O argumento inicial era que o cão desse apenas algumas lambidelas na atriz Vânia Bournier. Contudo, durante as filmagens, o Rocco do mundo animal se empolgou tanto que Mojica acabou convencendo a parceira do cão a simular uma cena de penetração. Jack não titubeou e mandou ver.

O sexo animal deu certo. Mario Lima ganhou uma fortuna, Jack ficou famoso, passando a figurar até nas páginas do jornal Notícias Populares e Mojica, como sempre, recebeu apenas seu salário de diretor e ficou duro — sem conotações sexuais aqui. O sucesso do filme deu margem a outros diretores da Boca, que começaram a transformar o entorno cinematográfico numa verdadeira arca de Noé. O diretor Juan Bajon, recordista das peripécias animais no cinema, filmou em dois anos onze longas animais: Sexo a Cavalo, Meu Marido — Meu Cavalo, Seduzida pelo Cavalo, A Garota do Cavalo, Loucas por Cavalos, Mulheres e Cavalos, Duas Mulheres e um Pônei, Júlia e os Pôneis, Viciadas em Cavalos, Tudo por um Cavalo e, finalmente, Um Homem, uma Mulher e um Cavalo.

O mais triste foi o fim de Jack. O cão apareceu morto por envenenamento poucas semanas depois. Há uma anedota de que o crime fora cometido pelo dono de Jack — que o matou após vê-lo uivando e atacando por trás sua própria esposa. Mojica perdeu seu melhor ator, mas continuou atuante no pornô, contratando outros animais.

Fonte: http://descidaaoinferno.blogspot.com

por Dênis Matos

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Antes de tudo, um forte

Lembro-me da cara de espanto de um amigo carioca quando o apresentei, numa feirinha de artesanato na Orla de Atalaia, à neta de Lampião, Vera Ferreira, que lá estava vendendo camisetas. Ele parece nem ter acreditado muito, mas tirou uma foto pra garantir. A familia de Lampião mora há muitos anos aqui, em Aracaju, meio que no anonimato, para se resguardar do preconceito que ainda cerca a imagem de seu lendário patriarca. Mesmo hoje tem como figura pública e conhecida de todos apenas Vera Ferreira, que é uma verdadeira guardiã da memória de seus avós, sempre à frente de eventos os mais diversos com o objetivo de discutir e preservar a História do cangaço.

Passados muitos e muitos anos de sua morte, a figura de Virgulino Ferreira da Silva ainda é mítica e suscinta polêmicas acaloradas - para uns, um bandido desalmado que matava a sangue frio, para outros, um guerrilheiro do povo, brilhante estrategista militar e líder informal de uma resistência não-organizada ao status quo de sua época. Lampião é, assim como vários outros personagens de nossa história (Getulio Vargas e Luiz Carlos Prestes, por exemplo), um personagem complexo, de cuja personalidade não pode-se tirar nenhuma conclusão a partir de um ponto de partida maniqueista. A meu ver, ele foi um produto do meio, o que pode ser constatado na barbaridade patrocinada pelas autoridades legais retratada na foto abaixo em que sua cabeça e as dos demais membros degolados de seu bando é exibida em praça pública: o sertão nordestino foi (e em grande medida ainda é) o nosso "faroeste", uma "terra sem lei", brutalizada, "onde os fracos não tem vez". Nunca se chegou a nada com essa velha discussão de se Lampião foi um herói ou um fascínora. Provavelmente foi ambos, ao mesmo tempo. O que importa é que é um personagem importante de nossa história, dono de uma inteligencia intuitiva impar que gerou toda uma rica cultura em torno do cangaço, com seus trajes e costumes tão característicos (chegaram a inventar uma dança, o "xaxado"). Abaixo, reproduzo uma bela matéria sobre o assunto que saiu na Revista Carta Capital dessa semana.

a.



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A octogenária Alzira Marques recorda os bailes animados organizados pelo rei do cangaço

Por Denize Guedes*

Noite de sábado para domingo, fim de setembro de 1936. Faltava só passar o pó no rosto, espalhar o perfume atrás da orelha e calçar as alpercatas. Cabelos negros e encaracolados na altura da cintura, dentro do seu melhor vestido, a menina de 12 anos, que, se os pais se descuidassem, trocava o estudo pela dança, estava pronta para o seu primeiro baile no alto sertão sergipano com o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Não havia escolha, só mesmo confiar na bênção da tia de criação antes de sair de casa engolindo o medo.

“Eles mandavam apanhar a gente. Vinha aquela ordem e tinha de cumprir. Se não, causava prejuízo depois”, conta Alzira Marques, que completa 86 anos em agosto. Ela lembra detalhes das incontáveis festas cangaceiras a que foi em fazendas que já não existem mais e que deram lugar à planejada Canindé de São Francisco, com o início da construção da hidrelétrica do Xingó, em 1987. Canindé Velho, como a sertaneja chama o local onde nasceu, à beira do Velho Chico, foi demolida por conta da usina, hoje fonte de renda para a cidade – atrai quase 200 mil turistas por ano com o Cânion do Xingó.

O auge de Lampião em Sergipe vai de 1934 a 1938, quando o cangaceiro foi morto ao lado de Maria Bonita e outros nove do bando, em 28 de julho, na Grota do Angico, município de Poço Redondo. “Este é o estado onde ele encontrava mais proteção, aliando-se aos poderosos locais, como o coronel Hercílio Porfírio de Britto, que dominava Canindé como se fosse um feudo”, explica Jairo Luiz Oliveira, da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço. “São os chamados coiteiros (quem dava proteção ao cangaço), políticos de Lampião. Melhor ser seu amigo que inimigo.”

Foi nas terras de Porfírio de Britto que Alzira mais arrastou as sandálias. “Na primeira vez, encontrei Dulce, que foi criada comigo em Canindé Velho e tinha virado mulher do cangaceiro Criança. Eles também eram de muito respeito e nunca buliram com gente minha. Pronto, não tive mais medo”, relembra. Temporada de baile era fim de mês, quando as volantes da Bahia e Pernambuco – as polícias mais algozes no rastro de Lampião – voltavam a seus estados para receber o soldo. “Aí os cangaceiros viam o Sertão mais livre para fazer festa”, diz.

Dia de dança, Alzira tinha de sair e voltar à noite para não levantar a suspeita dos vizinhos. Às 22 horas, punha-se a andar 2 quilômetros até o local onde um coiteiro escondia os cavalos. Outras meninas iam junto. Montavam e seguiam morro acima por uns 15 minutos. “Quando a gente chegava, ia direto dançar o xaxado, forró, o que fosse, até 4 horas da manhã.” Mesmo caminho de volta, chegava com um agrado do rei do cangaço: uma nota de 20 mil réis. “Era tanto do dinheiro, mais de 300 reais na época de hoje. Dava tudo para minha tia.”

Apesar de festeiro, não era sempre que o líder do bando dava o ar da graça. Quando ia, porém, não se fazia de rogado: no mato à luz de candeeiro, onde o arrasta-pé comia solto, brilhantina no cabelo, dançava com as moças do baile sem sair da linha. Média de 20 homens para 15 mulheres. “Ninguém era besta de mexer com a gente. Eles nos respeitavam demais. Lampião era o que mais recomendava: ‘Olha o respeito!’” Maria Bonita – que para Alzira “não era lá essa boniteza, Maria de Pancada era mais bonita” – não tinha ciúme.

O cangaceiro mais conhecido do Brasil gostava de cantar e levava jeito para compor. Quem não se embalou ao som de Olé, mulher rendeira / Olé, mulhé rendá? Ou de Acorda, Maria Bonita / Levanta, vai fazer o café? Alzira conta que era comum ele pedir ao sanfoneiro Né Pereira – outro intimado do povoado – para tocar essas canções, enquanto ele mesmo cantava. “Letra e música dele, além de ser um exímio tocador de sanfona”, confirma Oliveira.

Os bailes eram como banquetes. “Tinha comida e bebida de toda qualidade. Peixe, galinha, porco, carneiro, coalhada, bolo, cachaça limpa”, diz Alzira. Outro ponto que se notava era o aroma: os cangaceiros, que podiam passar até 20 dias sem tomar banho, gostavam de se perfumar. O coronel Audálio Tenório, de Águas Belas (PE), chegou a dar caixas de Fleurs d’Amour, da marca francesa Roger & Gallet, para Lampião. “Era perfume do bom, mas misturado com suor. Subia um cheiro afetado. A gente dançava porque era bom”, afirma a senhora, que se entrosava mais com Santa Cruz e Cruzeiro.

Mais de 70 anos depois, Alzira ainda sonha com aquelas noites e sente falta da convivência com os amigos: muitas festas aconteciam em Feliz Deserto, fazenda que Manuel Marques, seu então futuro sogro, tomava conta. Não raro, o brilho da prata e do ouro das correntes, pulseiras e anéis dos cangaceiros visitam sua memória, assim como a imagem de Lampião lendo a Bíblia num canto da festa. “Ele era muito religioso.” No seu pé de ouvido fica o xa-xa-xá das sandálias contra o chão, som que deu nome ao xaxado, segundo Câmara Cascudo, ritmo tipicamente cangaceiro que não se dança em par.

Testemunha de um período importante da história do País, conta que nunca teve vontade de entrar para o cangaço nem considerava Lampião bandido: “Não era ladrão, ele pedia e pagava, fosse por uma criação, por um almoço. Agora, se bulissem com ele, matava mesmo”. Na cidade é conhecida como a Rainha do Xaxado. No último São João, que antecipou as comemorações do centenário de nascimento de Maria Bonita (8/3/1911), foi uma das homenageadas.

Balançando-se na rede na entrada de sua casa, satisfeita com os dez filhos, 40 netos e 37 bisnetos, Alzira aponta para um dos locais onde dançou com Lampião: uns 100 metros adiante, a Rádio Xingó FM. “Continua lugar de música.” Mas e Lampião, dançava bem? “Ah, ele dançava bom.”

*A repórter viajou a convite do Ministério do Turismo e da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa).

terça-feira, 13 de julho de 2010

I sold my soul for rock 'n' roll


Por conta da passagem do "Dia do rock" foi-me solicitado um depoimento a ser publicado por Rian "Calango Doido" no Jornal do Dia daqui de Aracaju. Abaixo, o texto na íntegra.

Foto: Programa de rock, por Michael Meneses

Texto: Adelvan Kenobi

Em termos de rock and roll, eu costumo dizer que sou da geração “Rock in rio/Revista Bizz”. Em 1985, ano da primeira edição do rock in rio, eu morava em Itabaiana, agreste sergipano, a 52 km da capital. Dá pra imaginar que era um tanto quanto escassa a informação sobre o mundo do rock que chegava até lá na época. Por isso foi tão importante aquele festival já que, afinal, foi promovido pela maior emissora de televisão do país, uma verdadeira “teletela” a lá 1984 de George Orwell espalhada por todos os lares de nossa nação tropical supostamente abençoada por Deus e verdadeiramente bonita por natureza. Através da tela da globo eu tive meu primeiro contato com o Heavy Metal e a New Wave, pude perceber que aquele mundo era bem mais amplo do que eu imaginava e era dividido nos mais diversos estilos, gêneros e “movimentos”. Bateu a curiosidade e eu pude me aprofundar através da leitura da Bizz, que por muito tempo foi a maior revista sobre música do Brasil, e era publicada por outro gigante das comunicações, o Grupo Abril. Nos anos 80 eles davam muito espaço para o rock, inclusive ao rock independente. Pelas páginas da Bizz eu travei contato com o universo alternativo, algo que não fazia a mínima idéia que existisse: Fellini, Mercenárias, Akira S, a vanguarda paulistana, enfim, e o universo do rock pesado, do hardcore e do heavy Metal, Ratos de porão, sepultura, Korzus, Olho Seco, etc, etc, etc. Tudo aquilo me fascinou muito. Foi identificação total, amora à primeira vista e, posteriormente, “ouvida”, quando eu finalmente tomei coragem e gastei meu surrado dinheirinho com o LP “Descanse em paz” do RDP, que tinha uma foto horrível de uma mulher morta por espancamento na capa e que eu usava pra assustar minha irmã menor quando eu estava com raiva dela.

Minha vida mudou. Eu era um jovem reprimido e introspectivo, pseudo-moralista, extremamente religioso (por puro medo do castigo, da punição). O rock, com seu espírito libertário e contestador, me fez desatar essas amarras e me transformar, na medida do possível (nunca é totalmente possível), num “espírito livre”. Meus primeiros discos, de uma coleção que só recentemente parou de crescer, graças à internet, foi “Viva, ao vivo”, do Camisa de Vênus, “Vivendo e não aprendendo”, do Ira!, e “Somewhere in time” do Iron Maiden. Comecei a produzir um fanzine (revista artesanal publicada por fãs), sem nem ter idéia do que era um fanzine, pra mim o que eu estava fazendo era uma “apostila”. Sylvio, da Karne krua, entrou em contato comigo e me colocou a par de toda a movimentação que existia em torno daquilo, à margem da mídia convencional, via troca de cartas, publicações e fitas demo pelo correio. Nos anos 90 me envolvi completamente com aquele universo, e graças a ele pude fazer amigos e viajar por quase todo o Brasil. Acompanhei de perto o nascimento, crescimento, recrudescimento, renascimento, o vai-e-vem, enfim, da pequena porém consistente cena local, produzindo ou ajudando a produzir shows e divulgado as bandas sergipanas através do meu fanzine. Fui proprietário de uma loja especializada (a Lokaos, fundada originalmente por Silvio) e integrei eu mesmo uma banda, a 120 Dias de Sodoma, como vocalista que não sabia cantar de uma banda que não sabia tocar. Foi divertido.

Está sendo divertido. Hoje não sou mais “fanzineiro”, mas procuro ajudar no que posso através do programa de rádio que produzo, o “programa de rock”, que vai ao ar toda sexta-feira, às 20h, pela 104,9 FM. Uma coisa que tenho notado é que hoje em dia ouço mais rock do que quando era mais jovem. Tem jeito não, quanto mais o tempo passa, mais “roqueiro” eu fico. Acho que vou morrer roqueiro. Aproveito então para fazer um apelo público à minha família: para que troquem o tradicional crucifixo por uma guitarra elétrica como ornamento do meu túmulo.

Amém.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Onde nascem os monstros ...


A vida de um ex-soldado em Gori, cidade natal de Josef Stalin

Por Maurício Horta

Fonte: Carta Capital

Este é o poema A Manhã, o primeiro de Josef Stalin. Suas belas descrições da paisagem georgiana estão na antologia infantil Língua Materna, e até hoje são recitadas com orgulho pelos estudantes de Gori”, diz a matrona Olga Topchshivili, de pesada maquiagem e tom professoral, enquanto guia cinco americanos e um casal chinês pelos escuros corredores acarpetados em vermelho do Museu Estatal de Stalin. “Traduzi-lo? Ah, é muito complexo... Mas você pode comprar a coleção de poemas em nossa lojinha.”

Estamos na cidade natal de Stalin, o último lugar onde a imagem do generalíssimo é abertamente cultuada. E não é só no museu vazio. Se em Moscou suas estátuas estão confinadas ao Cemitério dos Monumentos Derrubados, em Gori ela permanece ereta a 12 metros de altura, de costas para a prefeitura e de frente para um minicassino, na avenida principal da cidade: Stalinis Gamziri. (No dia 25 de junho, a estátua foi retirada. A operação, realizada na madrugada, procurou evitar protestos da população.)

“Aqui mostramos sua vida pessoal”, segue Olga, fazendo com seu indicador um círculo no ar, em torno das paredes cobertas por imagens do bigodudo, desde os tempos de seminarista em Tbilisi até seu mórbido retrato deitado no caixão. De repente, sua voz muda para um tom mais baixo: estamos diante da foto do soldado Yakov, o filho rejeitado do ditador. “Os nazistas o capturaram e o ofereceram em troca de um marechal. Mas para Stalin todos eram igualmente filhos seus, e ele jamais trocaria um soldado por um marechal.” Um segundo de silêncio e a guia volta ao tom de ditado ortográfico. “Esta é sua filha Svetlana, que se exilou nos EUA 1967, após queimar seu passaporte soviético. Mas ela pôde voltar a Tbilisi em 1984, quando visitou este museu várias vezes.”

A independência da Geórgia, em 1991, foi seguida pela destruição de símbolos soviéticos por todo o país, menos em Gori. Para seus moradores, a memória de seu mais notório cidadão faz a cidadezinha de 50 mil habitantes parecer mais que uma pequena estrada que liga a capital Tbilisi aos portos no Mar Negro. Com Stalin, Gori entra para a história, e por isso os mais velhos fazem vistas grossas para seus expurgos e continuam a dedicar a ele o primeiro brinde no bar. Com os jovens é diferente. Tudo o que querem é estar longe das páginas dos livros de história ou dos jornais.

“Dane-se Stalin, dane-se Saakashvili, dane-se este lugar”, e o ex-soldado Giga Gogilashvili, de 27 anos, bate os copos cheios de vodca com o amigo armênio Eduard, inclinados contra a parede de sua casa, pontilhada por tiros de metralhadora. Na madrugada de 8 de agosto de 2008, o presidente georgiano Mikhail Saakashvili, um pró-EUA que busca a entrada do país na Otan (Aliança Militar Ocidental), ordenou um ataque-surpresa contra sua região separatista Ossétia do Sul, 30 quilômetros ao norte daqui.

Quando Giga atravessou naquele dia os 500 metros que separam sua casa da base militar de Gori, sabia que entrava numa guerra perdida: bastaram dois dias para a cidade ser ocupada pela Rússia, aliada dos separatistas ossetas, e competir com a Olimpíada de Pequim pela atenção do mundo.
Emasculados pelo poderio russo, soldados georgianos correram para se esconder nas casas de Gori. O pai de Giga escondeu cinco deles em seu porão, enquanto atendia aos pedidos de vodca dos soldados russos. Para muitos, já era tarde demais, e, quando soube que 13 dos mortos eram seus amigos de infância, Giga decidiu desertar. “O filho de um tinha nascido três dias antes da guerra. E outro deixou a mulher grávida. Então disse ao meu major que não iria ser mais a mulher de Saakashvili.”

O sonho de Giga é migrar para o Canadá, onde vive seu melhor amigo, ou juntar-se ao irmão, que desde a guerra mora ilegalmente na Alemanha. Como foi preso, precisa esperar mais três anos para poder sair do país. Enquanto isso, está solteiro e, como 16,4% dos georgianos, desempregado, bem longe de suas duas paixões: mulheres e Mercedes. “Não sei qual eu amo mais.”

A culpa não é apenas da guerra, que diminuiu em 7% o PIB georgiano: o crescimento econômico de mais de 10% nos anos anteriores, resultado de reformas liberalizantes de Saakashvili, podem ter feito sedãs de luxo alemães pipocarem nas ruas de Tbilisi, mas o declínio pós-soviético continua intacto em cidades como Gori, ignoradas pelos barões das importações e pelo turismo.

Para se iludir um pouco, Giga senta-se todo dia em frente à televisão na casa dos pais, mudando do canal pornô russo para transmissões do Campeonato Alemão de Turismo (DTM). Porém, basta gritar “dane-se, BMW”, e – puf – a energia cai mais uma vez. Volta então o bordão “dane-se Gori, dane-se a Geórgia” e Giga, frustrado, sai de casa para pegar uma garrafa de vodca na mercearia vizinha – a conta fica para a mãe, a professora Tamara, que sustenta a família dando aulas de inglês. Na testa do rapaz, uma cicatriz lembra não a guerra nem a prisão, mas um acidente de carro quando ele e os amigos dirigiam bêbados por Gori. No cair da tarde da cidade interiorana, esses amigos passam para dizer olá, e se unem para mais um brinde.

“Deixa eu dizer uma coisa. Stalin foi um monstro. Quando fugiu da Sibéria, matou e comeu dois colegas para sobreviver no caminho. E Saakashvili é um maldito pederasta que matou seu povo numa guerra idiota. Está vendo? Deste lugar não sai nada de bom”, diz Giga. Um suspiro e então as garrafas se esvaziam. Eduard, que não precisou ir para a guerra, cantarola uma triste canção armênia, abraça o amigo e beija sua bochecha, num ato de fraternidade masculina. Suas pernas se trançam, os dois caem no chão e Giga corta seu supercílio esquerdo, gargalhando até sua mãe correr atrás da algazarra inebriada e sentenciar. “Chega por hoje, vocês beberam demais.” Com o olhar grave e destreza trazida pela prática, ela pega o filho pelo braço e o bota para dormir.

De manhã, Tamara amanhece sorridente. Entre um gole e outro de café instantâneo brasileiro, ela pinta suas pálpebras com sombra azul para ir à escola dar aula, enquanto seu marido, desempregado, apaga na casa os vestígios da guerra numa reforma que já dura dois anos. Ela sabe que, quando acordar, o filho vai curar a ressaca com mais uma garrafa de cerveja, mas ela não pode pensar nisso a toda hora. “Tem mais algo que eu possa fazer por você?”, pergunta. “Oh, meu filho, isso é horroroso, mas, sim, posso traduzir.” Pega o livreto com o poema de Stalin e com um carregado sotaque britânico declama: “O rouxinol diz com sua suave voz – seja coberta de flores, amável terra (...) e que você, oh georgiano, traga a felicidade à pátria mãe”.

+ Sobre a Geórgia:

A Geórgia (em georgiano: საქართველო, transl. Sakartvelo) é uma pequena república do Cáucaso localizada na fronteira entre Europa e Ásia. Limita a norte e a leste com a Rússia, a leste e a sul com o Azerbaijão, a sul com a Arménia e a Turquia e a oeste com o mar Negro. Sua capital é Tbilisi, também conhecida em português como Tíflis.

Considerada uma nação transcontinental, a Geórgia é membro do Conselho da Europa desde 27 de abril de 1999. O país se integrou à Comunidade de Estados Independentes em 1994, mas o seu parlamento aprovou por unanimidade em 14 de agosto de 2008 a sua saída da comunidade, devido ao apoio militar russo às causas de independência da Abecásia e da Ossétia do Sul.

Conflitos separatistas - O processo de paz entre o governo e os separatistas da Ossétia do Sul e da Abecásia não avança em 2000. O presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, controla as rebeliões com a garantia de lealdade à Federação Russa, de onde lhe vem o apoio militar. Mas a ofensiva de Moscou na vizinha Chechênia, em 1999, atrapalha as relações com os russos, que acusam a Geórgia de apoiar os rebeldes chechenos.

* Ossétia do Sul - os ossetas são um povo de origem persa que se misturaram com os eslavos a partir do século XVII, e cujo território foi dividido administrativamente entre as repúblicas soviéticas da Rússia e da Geórgia durante o regime stalinista (1924-1953). Em 1990, a Ossétia do Sul declarou sua independência, primeiro passo para integrar-se à república russa da Ossétia do Norte. A Geórgia tornou-se independente da União Soviética em 1991 e lançou uma ofensiva militar contra os ossetas. Os choques terminam depois da mediação da Federação Russa, em 1992, e da criação de uma força de paz integrada por russos, ossetas e georgianos. O conflito caminhava para uma solução pacífica, sem status político definido para a região, até agosto de 2008, quando forças georgianas entraram no território osseta, o que levou a intervenção russa na região, que acabou por envolver não só os dois países em conflito, mas também os Estados Unidos e a União Européia, parceiros da Geórgia.
* Abecásia - Habitada por maioria de etnia abecásia até os anos trinta, quando Josef Stálin envia para a região milhares de georgianos. A Geórgia não reconhece o movimento separatista dos abecásios, alegando que são minoria (18%). Mas os rebeldes criam a República Autônoma da Abecásia, em 1992, o que deu início aos conflitos. Um cessar-fogo foi alcançado em 1993, seguido do envio de uma força de paz da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e de uma missão de observadores da ONU em 1994. Mesmo assim, há freqüentes irrupções de violência. Em outubro de 1999, o governo abecásio promoveu um referendo sobre a independência, que obteve 97% de apoio, mas não foi reconhecido pela Geórgia. A ONU e a Federação Russa prorrogaram para 2000 sua permanência na área.

Em julho de 2008, iniciaram-se as hostilidades entre a Geórgia e as forças armadas da Ossétia do Sul, no confronto que ficou conhecido como Guerra na Ossétia do Sul em 2008. Este rapidamente evoluiu para uma guerra em grande escala entre a Geórgia, por um lado, e a Rússia, Ossétia e separatistas da Abecásia, por outro. Na noite de 7 de agosto, as forças armadas georgianas começaram a atacar a Ossétia do Sul, apoiadas pela artilharia e lança-foguetes múltiplos [4] [5] O ataque a Tskhinvali (Ossétia do Sul), tem início na sexta-feira, 08 de agosto. Após isso, a Rússia entrou no conflito em apoio à Ossétia do Sul e a guerra estendeu-se por alguns dias. A Rússia lançou o reconhecimento internacional da independência de Abecásia e Ossétia do Sul, sendo o primeiro país a reconhecer a sua independência.

Em novembro de 1989, a Ossétia do Sul declara sua autonomia em relação à República Socialista Soviética Georgiana, detonando um conflito de três meses. A Geórgia e a Ossétia do Sul dão início a um novo conflito armado que inicia-se em 1990 e dura até 1992, ano em que Rússia, Geórgia e Ossétia do Sul acertam a criação de uma força de paz.

A tensão seguinte está relacionada com o beneplácito que a OTAN deu à Geórgia e à Ucrânia para entrarem nessa organização, contudo não ficou estabelecida nenhuma data para a sua adesão.

No mês de Abril de 2008, houve uma escalada da tensão com o suposto abate de um avião tripulado sobre a Ossétia do Sul, acontecimento denunciado pela Geórgia, mas negado pela Rússia. Seguidamente houve outros incidentes aéreos, assim como acusações cruzadas de provocações.

Nos últimos anos a zona tem aumentado a sua importância estratégica na rota do transporte energético, rivalizando a Rússia e o ocidente a sua influência na zona (não esquecer que os Estados Unidos da América têm 120 instrutores militares para treinar o exército georgiano. Os Estados Unidos da América afirmaram que não estão implicados no conflito, porém a Geórgia é o terceiro país com mais tropas no Iraque).

A Geórgia, por seu turno, diz que pretende manter a soberania daquela região separatista, visto ser um território internacionalmente reconhecido como da Geórgia.

Em Agosto de 2008, a situação destabilizou-se, Tskhinvali, a capital osseta, é palco de intensos tiroteios por parte dos franco-atiradores georgianos, incluindo lança-granadas. Durante a noite de 7 de Agosto para 8 de Agosto de 2008, as forças armadas da Geórgia começaram uma ofensiva, que segundo as autoridades da Ossétia do Sul constitui a declaração de guerra.

Geórgia começou a atacar a capital Tskhinvali, e várias localidades que a rodeiam com sistemas múltiplos de lançamento de foguetes BM-21 "Grad", tanques e aviões de combate. A Ossétia do Sul e Rússia denunciaram uma eventual limpeza étnica. Segundo alguns relatos, os georgianos não teriam deixado actuar as ambulâncias. Um comboio com ajuda humanitária teria sido atacado. A Geórgia mobiliza os seus reservistas e decide convocar mesmo alguns militares que se encontravam estacionados no Iraque.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas convocado urgentemente pela Rússia não conseguiu chegar a nenhuma declaração. Os Estados Unidos da América e a União Europeia, entre outros, pedem uma solução pacífica.

Alguns analistas em diplomacia internacional acreditam que este conflito foi planeado/planejado pela Geórgia para poder ingressar na OTAN, já que para ser membro desta organização um estado não pode ter problemas territoriais não solucionados. Segundo estes mesmos especialistas, a Abecásia é o próximo alvo da Geórgia.

A Rússia justificou o envio de blindados sob a alegação de que pretende defender as populações e cidadãos russos da Ossétia do Sul, havendo registos de pelo menos 10 mortos e 30 feridos do lado russo. A Rússia acusou mesmo as forças de paz tropas georgianas de atacarem companheiros russos.

No dia 9 de agosto de 2008, o Conselho de Segurança das Nações Unidas não chegou a acordo para tomar uma decisão. Os Estados Unidos afirmaram em 10 de Agosto que se a Rússia prosseguir a ofensiva na Geórgia, as relações entre os dois países poderão ser afetadas[1] Os Estados Unidos afirmaram ainda que irão propor uma resolução ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que condena a ofensiva russa propor uma resolução ao Conselho de Segurança da ONU, ainda este domingo, onde vão condenar o «assalto» russo contra a Geórgia.

«Vamos propor uma resolução que torna claro que as acções russas na Geórgia são inaceitáveis para a comunidade internacional e onde vamos condenar este assalto militar», afirmou Richard Grenell, porta-voz da delegação dos EUA na ONU.[1] O encarregado de negócios russo nos Estados Unidos da América não tem planos para invadir a Geórgia, mas o que é facto é que já havia informações e relatos de que isso estaria a acontecer.

No dia 6 de agosto de 2008, o presidente georgiano afirmou ter ordenado um cessar-fogo unilateral, apesar de poucas horas depois se tenham iniciado os combates com o bombardeamento da capital, Tskhinvali quinta-feira (7 de Agosto de 2008). As autoridades da Ossétia do sul afirmaram que os bombardeios de 7 e 8 de Agosto teriam provocado 15 mortos. As autoridades georgianas afirmam que aviões russos bombardearam a 8 de Agosto de 2008 posições georgianas em Gori e Kareli. Fontes georgianas afirmam que em 8 de Agosto de 2008 entraram na capital, apesar de as autoridades da Ossétia do Sul afirmarem exactamente o contrário: ou seja quem controla são elas e não os georgianos.

Fontes georgianas afirmam que aviões russos atacaram a base aérea em Vaziani, nos arredores de Tbilissi, afirmando que a Rússia está a transportar a guerra para o território da Geórgia. A Geórgia entretanto declarou cessar-fogo entre as 11 e 14 horas locais do dia 8 de Agosto de 2008. A Geórgia reclama a intervenção dos Estados Unidos da América.

O Ministro da Reintegração da Geórgia afirmou que as suas tropas controlavam totalmente a cidade de Tskhinvali, a capital, dando um ultimato até às 16 horas do dia 8 de Agosto de 2008 para que os ossetas deponham as armas. As autoridades russas afirmam que a capital foi totalmente destruída pelos georgianos e que há centenas de civis mortos, segundo afirma o líder osseta Eduard Kokoiti.

A Geórgia afirmou, a 10 de Agosto de 2008 que vários locais dentro de seu território e fora do território da Ossétia do Sul foram atacadas por tropas russas, entre eles o próprio Aeroporto Internacional de Tblisi, facto testemunhado por fontes da Reuters, mas rejeitado pela Rússia.

No dia 11 de agosto, a Rússia rejeita uma proposta de cessar-fogo feita pela Geórgia e disse também que sequer consideraria um documento pedindo uma trégua neste momento. Segundo informações de forças de paz na Ossétia do Sul, a Geórgia continua a usar força militar e, com isso, não podemos considerar esse documento", disse um porta-voz do Kremlin a jornalistas

Fonte: Wikipedia

Anvil: The Story of ...

Não sou fã de Heavy Metal, apesar de ser fã de alguns dos clássicos do Heavy Metal, como Judas Priest, Black Sabbath, Megadeth e Slayer. Talvez por isso algumas bandas do chamado “segundo escalão”, que fazem com competência o que se propõem a fazer mas não “reinventaram a roda”, por assim dizer, tenham passado totalmente batidas para mim – já ouvi falar da maioria, mas nunca tive a curiosidade de parar para escutar pra valer. Justamente porque não sou um “headbanger”.

Uma destas bandas é o Anvil. Alguns amigos têm me recomendado com insistência um documentário feito recentemente sobre eles por Sacha Gervasi, um antigo roadie do grupo. Acabei convencido a assistir com o argumento de que, mais do que a História da banda em si, o filme discorre sobre o amor pela arte, um sentimento tão forte que faz com que um grupo de amigos consiga ficar juntos por mais de 30 anos passando por todo tipo de dificuldades pelo simples prazer de tocar, por acreditarem no que fazem. Parece bonito e, como pude constatar ontem ao ver, finalmente, o filme, é.

O Anvil despontou nos anos 80 como uma das grandes promessas da então emergente nova cena do metal, o que pode ser visto logo na abertura do documentário, em que os vemos tocando ao lado de grandes nomes como Scorpions e Bon Jovi. Na sequencia, pra não deixar nenhuma dúvida, somos bombardeados por uma série de depoimentos de superastros “acima de qualquer suspeita” enaltecendo as qualidades do grupo: Lars Ulrich do Metallica, Tom Araya do Slayer, Slash do Guns and Roses e até Lemmy, do Motorhead. Quem sou eu pra falar que é ruim uma banda de rock que Lemmy diz que é legal ? Ok então, Anvil é, no mínimo, uma boa banda de Heavy Metal, mas é também uma banda que não “aconteceu” – teve seu momento de brilho mas não vendeu milhões de discos nem conseguiu manter uma carreira estável. Como conseqüência, o brilho logo se apagou e a vida os jogou de volta à dura realidade dos seres humanos comuns, que têm que trabalhar duro no dia-a-dia para garantir o ganha-pão e sustentar a si próprio e às suas famílias (os caras têm mais de 50 anos e são todos casados e com filhos).

O diretor não faz rodeios e não tarda em mostrar a rotina nada glamourosoo dos dois membros-fundadores da banda atualmente: Steve "Lips" Kudlow , o guitarrista/vocalista, trabalha como motorista entregando merenda escolar, e Robb Reiner, o baterista, é carpinteiro. Mas eles nunca desistiram do sonho de se tornar “rockstars”, e a fita os captura justamente em mais uma das muitas tentativas frustradas de “chegar lá”, desta vez através de um suposto “novo gás” proporcionado por uma nova “manager” que monta uma turnê européia para eles. É tocante ver os olhos de “Lips” brilhando de empolgação ao ler a lista de países onde irão tocar, para logo em seguida assistir a uma decepção atrás da outra, com publico mirrado (muito embora, na maioria das vezes, empolgado), produção desencontrada, calotes e longas esperas dormindo no chão de aerportos e estações de trem.

Não é pra qualquer um suportar isso com mais de 50 anos de idade, pode ter certeza. A todo momento você pensa que eles vão desistir, mas olha lá o teimoso do Lips mandando uma fita demo (!!!! – sim, posso estar enganado, mas o que eu vi ele embrulhando e mandando pelo correio para um renomado produtor inglês me pareceu uma daquelas pra lá de ultrapassadas fitas k-7) e, pasmem, conseguindo um retorno do tal produtor. Vemos então mais uma vez um avião decolando de Toronto, Canadá, sua terra natal (nessa hora me pego pensando como esses caras fudidos conseguem viajar assim tão fácil pelo mundo afora, mas então me lembro que eles são cidadãos do primeiríssimo mundo e se meu amigo Panço, morador da Vila da Penha no Rio de Janeiro e guitarrista de uma banda assumidamente “underground” consegue, porque eles não conseguiriam?), rumo a Londres. O cara, que já trabalhou com Judas Priest e Thin Lizzy, dentre outros, concorda em produzir o novo disco do Anvil, mas o preço é salgado. Lips consegue um empréstimo (ah, a família ...) e assim gravam seu décimo terceiro álbum, não sem uma série de rusgas e muito, muito estresse no processo.

Neste momento é impossível não comparar o filme com “some kind of monster”, do Metallica, e se chocar com realidades tão diferentes – rockstars com crises existenciais mesmo nadando em dinheiro chegam ao cúmulo de fazer terapia de grupo em público, como que para justificar mais um álbum fraco. Ok, “dinheiro não compra felicidade” e os ricos também têm o direito de ter suas paranóias, mas como bem disse o grande Kerry King numa entrevista que reproduzimos alguns posts abaixo, tem coisas que NÃO PRECISAM vir a público. É chato, e por conseqüência o documentário do Metallica é chato, parece uma infinita sucessão de discussões e bater de portas sem sentido. Aos olhos de qualquer um, e principalmente se comparado às dificuldades reais que caras como os do Anvil passam, o Metallica não tem do que reclamar, pelo menos não assim, na frente de todos.

O filme do Anvil não é chato. É emocionante. Você torce pelos caras, mesmo que você também não goste do som que eles fazem. Por que é real, dá pra sentir – "tá na veia". Eles têm aquele sonho de “rockstar” que perseguem obsessivamente mas acabam se divertindo no processo, porque no final das contas o objetivo final é mostrar sua arte, na qual acreditam acima de tudo, ao máximo de gente possível. Se a intenção fosse apenas ganhar dinheiro já teriam desistido há muito tempo.

E é gratificante saber que a jornada termina com um final feliz, apesar dos pesares. Pelo menos por uma noite, no distante Japão, onde não pisavam há mais de 20 anos, as expectativas não são frustradas e eles, finalmente, tocam para uma platéia lotada e empolgada. E seguem em frente, preparando seu décimo quarto álbum de estúdio.

Vale muito a pena assitir. Recomendo.

Por Adelvan Kenobi.

RIP Harvey Pekar


O quadrinista norte-americano Harvey Pekar, autor de "Anti-Herói Americano", morreu aos 70 anos nesta segunda-feira (12) nos Estados Unidos. Pekar foi encontrado morto por sua mulher, Joyce Brabner, na madrugada de hoje na casa do casal, em Cleveland Heights, Ohio, informou o portal "Cleveland.com".

A causa da morte ainda deve ser revelada. Pekar e sua mulher escreveram "Our Cancer Year" (Nosso Ano do Câncer, em tradução livre), após o quadrinista ser diagnosticado com câncer linfático em 1990.

Filho de imigrantes poloneses nascido no dia 8 de outubro de 1939, o roteirista tornou-se bastante popular quando sua série de HQ, publicada inicialmente em 1976, foi adaptada para o cinema em 2003, com Paul Giamatti no papel de Pekar. O trabalho, inclusive, conquistou o Grande Prêmio do Júri de drama no Festival de Sundance.

Vencedor do prestigiado prêmio literário American Book Award em 1987, "Anti-Herói Americano" mostra um retrato do autor, seu pessimismo crônico -- e cômico --, sua relação com amigos, com sua mulher e sua rotina como arquivista de hospital e colecionador de discos de vinil.

Pekar fazia as histórias e as entregava a amigos desenhistas como Robert Crumb, que colaborou com os quadrinhos do autor e é fã declarado de seu trabalho. Eles se conheceram em 1962, quando Crumb ainda estava começando a explorar as possibilidades das HQs.

Uma das parcerias com Crumb se deu no roteiro autobiográfico "Bob & Harv: Dois Heróis Anti-Americanos". A obra foi indicada ao grande Prêmio do 37º Festival de Quadrinhos de Angoulême, um dos mais prestigiados do mundo, que aconteceu em janeiro deste ano na região central da França.

"The Beats", um dos últimos álbuns que ele ajudou a roteirizar, sobre a geração beat, tem previsão de ser lançado no Brasil no segundo semestre deste ano, anunciou nesta segunda (12) a editora Saraiva.

Fonte: UOL

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Mundo é um grande prostíbulo.

Fruto de uma investigação, um ex-empregado de um banco denuncia o negócio planetário do tráfico sexual e a vida atroz das cerca de um milhão de mulheres escravizadas para exercer a prostituição. A reportagem é de Lola Galán, publicada no jornal El País, 30-05-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As meninas e jovens que se oferecem por umas poucas rúpias nos prostíbulos gigantescos de Kamathipura e Falkland Road, em Mumbai, não são muito diferentes das adolescentes do Leste Europeu encerradas em clubes noturnos em Mestre, perto de Veneza. Ou das jovens nigerianas detidas, sob ameaça de morte, em cortiços perdidos entre as estufas de Almería, na Espanha, como as que a polícia libertou há alguns dias.

Umas e outras são escravas sexuais. Um termo aparentemente defasado em pleno século XXI, que descreve, infelizmente, uma realidade nada infrequente. Mais de um milhão de adolescentes e de mulheres jovens alimentam hoje esse sórdido negócio que proporciona aos que o exploram milhares de milhões de euros de lucro por ano. Mulheres vendidas, enganadas ou raptadas pelos próprios grupos mafiosos que controlam o tráfico sexual.

Como se desenvolve o tráfico de mulheres no mundo global? Quem são suas vítimas e quem são os carrascos? "As vítimas são mulheres jovens, pobres, muitas pertencem a minorias étnicas, ou vêm de países instáveis e estão desesperadas para emigrar. Os campos de refugiados também são um campo propício para recrutá-las", explica Siddharth Kara, na conversa telefônica de sua casa em Los Angeles. Ele é autor de um livro sobre o assunto, "Tráfico sexual. El negocio de la esclavitud moderna", publicado pela Alianza Editorial. Kara, de 35 anos, ex-empregado do banco de negócios Merrill Lynch, deixou seu lucrativo trabalho para iniciar, no ano 2000, uma série de viagens pelo mundo que o levariam ao coração do tráfico sexual através de três continentes.

Nos países do sul e do leste da Ásia, nos Estados Unidos, no leste da Europa, nos Bálcãs e na Itália, Kara teve contato com escravas, assistentes sociais, intermediários e alguns traficantes. O resultado desse amplo trabalho de campo é o livro sobre esse negócio desumano, que analisa os aspectos econômicos sem esquecer o drama profundo das jovens exploradas.

Dramas como o de Mallaika, uma ex-escrava sexual que Kara encontrou em Mumbai. Casada aos 13 anos, após dar a luz à dois filhos mortos, o marido a vendeu a um intermediário quando ela tinha recém completado 16 anos. Mallaika trabalhou toda a sua juventude como escrava sexual, obrigada a satisfazer a dezenas de clientes por dia. No gigantesco bordel, imperava a lei mais brutal. Todos os dias, escravas como ela morriam violentamente. Depois, ela passou a trabalhar como prostituta pelo sistema indiano de adhiya. A metade do que ela ganhava era para o dono do prostíbulo. Infectada pelo vírus da Aids quando Kara a encontrou, Mallaika estava consciente de que seus dias estavam contados.

Free the Slaves - Siddharth Kara, membro da direção da ONG Free the Slaves, criada em 2000 por um grupo de intelectuais para lutar contra a escravidão, conta que seu interesse pelo assunto surgiu quando era estudante na Universidade de Duke (Carolina do Norte). Em 1995, Kara passou algumas semanas no campo de refugiados de Novo Mesto (Eslovênia). Ali, uma jovem bósnia lhe contou que soldados sérvios raptaram algumas de suas companheiras e as levaram a prostíbulos de Belgrado.

Essa lembrança nunca lhe abandonou. E, no ano 2000, com alguma coisa de dinheiro economizado, uma simples mochila, uma câmera de fotos e um gravador, lançou-se à aventura de ver com seus próprios olhos a natureza do tráfico de mulheres. "Calculo que agora mesmo haja em torno de 1,3 milhões de escravos sexuais, a maioria mulheres e meninas", diz Kara. "Mas não devemos esquecer que são muitas mais as pessoas escravizadas no negócio da prostituição".

Kara acredita que uma das razões do auge desse comércio é a sua rentabilidade, só superada pelo tráfico de drogas. Mas com um risco muito menor. Por que os mafiosos que controlam o tráfico sexual correm menos risco de ser detidos? "Há várias razões. A corrupção policial, a dos guardas da fronteira, a do sistema judicial. Também não há fundos para atender as escravas que conseguem se libertar, e é difícil que elas denunciem os traficantes. Além disso, as forças encarregadas de lutar contra essa chaga não têm meios, nem estão coordenadas globalmente".

Quando Siddharth Kara iniciou sua investigação, ele se deparou com o fato de não haver dados nem evidências testemunhais do tráfico. "Dedicavam-lhe muito pouca atenção. Nem sequer na imprensa. Hoje, há mais interesse, mas nem sempre é um interesse sadio. Há jornalistas e membros de ONGs que só querem contar histórias sensacionalistas para construir suas próprias carreiras. Além disso, os recursos econômicos são limitados. Por não sei qual razão, a luta contra o tráfico de mulheres está subordinada a outros problemas, como o terrorismo, o tráfico de drogas, ou a imigração. Além de haver uma apatia institucional histórica na hora de reconhecer as dimensões desse problema e de lhe dar uma solução. Seguramente, como as mulheres ainda são discriminadas no mundo, elas recebem uma atenção menor".

Dramas pessoais - A vida das escravas sexuais está dominada por um mesmo horror, seja no Oriente ou no Ocidente, no Norte ou no Sul. Kara entrevistou jovens que sobrevivem meio drogadas nos prostíbulos mais sujos de Mumbai e meninas do Leste Europeu obrigadas a ficar nas ruas de Roma e encontrou trágicas semelhanças.

"Poderia parecer mais sórdida a situação das escravas sexuais na Índia, mas o trato que essas jovens recebem tem aspectos comuns em ambos os países. Todas sofrem contínua violência, são torturadas e ameaçadas constantemente e obrigadas a ter relações sexuais com dezenas de indivíduos por dia. Na Índia, a prostituição está proibida, e tudo é feito às escondidas, enquanto que na Itália a prostituição de rua é autorizada, salvo para as menores de idade".

Na cidade santa de Benarés, Kara se encontrou com Devika, uma adolescente com uma história estremecedora. "Quando eu tinha 13 anos, um dia um homem, ao qual eu conhecia pelo nome de Raj, me abordou a caminho da escola. Me pegou pela mãe e me disse que me mataria se eu gritasse pedindo ajuda. Ele me levou para a sua casa e me violentou. Abusava de mim todos os dias e trazia outros homens para que tivessem relações sexuais comigo". Até ser resgatada, Davika passou meses trabalhando na casa-prostíbulo de Raj, que a obrigava a ter relações sexuais com mais de 20 homens por dia.

Sua história, com exceção das enormes distâncias culturais e geográficas, parece-se à de Tatyana, uma menina moldava de 18 anos que passou 26 meses como escrava sexual na Itália.

O erro de Tatyana (os nomes que Kara cita em seu livro não são autênticos) foi se apresentar ao anúncio publicado por um jornal de sua cidade natal, Chisinau (Moldávia), no qual se solicitavam jovens para trabalhar no serviço doméstico na Itália. "Assim que saí de casa, meus companheiros me violentaram e depois me mantiveram vários dias sem comer", relata no livro. Sua primeira parada foi na Sérvia, onde foi comprada por traficantes albaneses. Mais tarde, foi vendida novamente para a Albânia. Dali passou para a Grécia, onde os mafiosos que a acompanhavam colocaram-na em um barco rumo à Itália. "Ali, os albaneses a colocaram no porta-malas de seu carro", relata Kara em seu livro, "e a levaram diretamente para Milão, onde foi vendida ao proprietário de um clube noturno". Todas as noites, ela tinha que deitar com os clientes e satisfazê-los sexualmente. "Quando eu não queria beber, o proprietário injetava tranquilizantes para animais em mim".

A oferta de escravas sexuais na Itália é tão abundante que os preços do ato sexual reduziram-se pela metade. A clientela se multiplicou. Hoje em dia, constata Kara em seu livro, "frequentar prostíbulos está cada vez mais integrado na cultura italiana". Depois de serem exploradas nos bares de Roma, Turim, Mestre ou Milão, muitas dessas mulheres são enviadas para outros países da Europa onde seu calvário continua.

Clientes não lhes faltam. Segundo Kara, no mundo inteiro, entre 6% e 9% dos homens maiores de 18 anos compram sexo de escravas pelo menos uma vez por ano. Seja por entretenimento, por impulsos violentos ou por qualquer outro propósito, ele reconhece que não há canto do mundo onde os homens não recorrem aos prostíbulos. Os Estados Unidos, com leis proibicionistas muito restritas e implacavelmente aplicadas, é um dos lugares onde o comércio sexual parece ter menos êxito. Mas não deixa de ser uma exceção.

O que caracteriza os consumidores desse sexo barato? "Não sou a pessoa indicada para responder essa pergunta. É verdade que alguns homens o consomem sem maiores problemas de consciência. Há razões biológicas, sociais, não sei. Obviamente, sem homens dispostos a pagar por sexo, não existiria essa escravidão. Mas nem todos os homens são responsáveis por ela. Só uma pequena parte".

Entre os clientes de imundos salões de massagem, ou das prostitutas de rua, estão os imigrantes, que chegam, muitas vezes sozinhos, a um país desconhecidos e hostil. "A globalização foi um agravante enorme. O tráfico de seres humanos é uma das consequências mais horríveis do capitalismo global, que gerou enormes desigualdades econômicas. Porque se produz uma transferência clara de riqueza e de recursos das economias pobres para as ricas junto com outro fenômeno, o da falta de direitos humanos nos países em desenvolvimento".

O papel negativo da religião - E a religião? Tem algum papel nesse fenômeno? Kara, que viajou várias vezes para a Tailância, outro país com maior oferta de escravas sexuais e prostitutas menores de idade, cita o budismo theravada, religião oficial, como uma das últimas razões do desprezo para com a mulher, considerada como uma reencarnação inferior ao homem.

Mas o hinduísmo também não é mais compassivo com as mulheres, nem os ritos africanos. As mulheres nigerianas pegas pelo tráfico muitas vezes aceitam condições de vida terríveis sem se queixar, por temor aos ritos Ju ju, aos quais estão submetidas. "Existe ainda uma opressão bastante generalizada das mulheres por parte dos homens. E a religião é um meio a mais para submetê-las. Não é culpa da religião em si, mas sim do uso que se faz dela", diz Kara.

O autor de "Tráfico sexual" acompanhou com interesse as leis liberalizadoras da prostituição em alguns países europeus, caso da Holanda. E não parece convencido de que sirvam para erradicar o tráfico de mulheres. "A legalização da prostituição é ruim porque é utilizada como uma tela, uma vitrine atrás da qual se desenvolve o mesmo comércio sexual com escravas nas condições mais terríveis".

Siddharth Kara relata em seu livro seus percursos pelos bairros mais degradados de Bangkok, onde abundam os prostíbulos imundos. Ali, encontram-se autênticas escravas, adolescentes que cobram apenas quatro euros pela hora de sexo, e onde a atmosfera é deprimente e sórdida a extremos inauditos. Também existem prostíbulos suntuosos para os turistas ricos e homens de negócios que chegam ao país em busca precisamente disso. Lugares de luxo para os ricos e barracos para os pobres. Sexo pago para todos. Até os escravos trazidos da Birmânia, de Laos e de Cambodja, para construir rodovias e edifícios de moradias, recebiam um salário minúsculo, "com o qual podiam se permitir o sexo com escravas", indica Kara.

Frente a esse panorama desolador, o autor propõe, mais do que soluções, novos enfoques para o problema. O primordial, em sua opinião, é tornar a vida de traficantes e exploradores muito mais difícil. Que as máfias não operem com a impunidade atual, que sofram perseguição e prisão. Que a colheita anual de escravas seja cada vez mais incerta e escassa. E uma maior conscientização dos clientes? Siddharth Kara considera isso menos factível. Enquanto a oferta exista, a demanda nunca irá decair.

Fonte: IHU