quinta-feira, 30 de abril de 2015

50 Anos de mentira e manipulação ...

Era para ser uma festa de arromba, com eventos se sucedendo em todo o país. Grande parte do que a TV Globo preparou para comemorar seu cinquentenário, a ser completado no domingo (26/4), está mantido, mas, sem dúvida, não terá o mesmo brilho de outras épocas. Depois dos problemas verificados durante a sessão solene da Câmara dos Deputados em homenagem à emissora, em que três militantes em prol da democratização da comunicação tiveram que ser retirados por seguranças, as festas em locais abertos ou de acesso público estão sendo repensadas. Os cuidados se justificam.
Nunca a audiência da TV Globo, centro do império da família Marinho, esteve tão baixa. O Jornal Nacional, seu principal informativo, que chegou a ter 85% de audiência, agora não passa dos 20%. Suas novelas do horário nobre estão perdendo público para similares da TV Record. No dia 1º de abril aconteceram atos em prol da cassação da concessão da emissora em diversas cidades brasileiras. O realizado no Rio de Janeiro, em frente à sua sede, no Jardim Botânico, foi o mais expressivo e contou com 10 mil pessoas. Número infinitamente maior participou, no mesmo horário, do tuitaço e faceboquiaço “Foraglobogolpista”.
Artistas globais e a viúva de Roberto Marinho integram a relação de suspeitos de crimes de evasão fiscal e serão alvo de investigação pela CPI do Senado, criada para analisar a lista de mais de oito mil brasileiros que têm depósitos em contas secretas na filial do banco HSBC, na Suíça. Este escândalo internacional envolve milhares de pessoas em diversos países. A diferença é que fora do Brasil o assunto tem tido destaque e é coberto diuturnamente, enquanto aqui, a mídia, Globo à frente, prefere ignorá-lo ou abordá-lo parcialmente.
Além disso, o conglomerado teria sonegado o Imposto de Renda ao usar um paraíso fiscal para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo Fifa de 2002. Após o término das investigações, em outubro de 2006, a Receita Federal quis cobrar multa de R$ 615 milhões da emissora. No entanto, semanas depois o processo desapareceu da sede da Receita no Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, uma funcionária da Receita foi condenada pela Justiça a quatro anos de prisão como responsável pelo sumiço. No processo, ela afirmou ter agido por livre e espontânea vontade.
Nem mesmo a campanha filantrópica “Criança Esperança”, promovida em parceria com a Unesco, se viu livre de críticas. Um documento datado de 15 de setembro de 2006, liberado pelo site WikiLeaks em 2013, cita que a Rede Globo repassou à Unesco apenas 10% do valor arrecadado desde 1986 com a campanha (à época R$ 94,8 milhões). A emissora garante “desconhecer” essa informação e afirma que “todo o dinheiro arrecadado pela campanha é depositado diretamente na conta da Unesco”.
Como se tudo isso não bastasse, ao assumir a postura pró-tucanos durante a campanha eleitoral de 2014, a emissora perdeu parte da régia publicidade oficial com que sempre foi contemplada. O governo não anuncia mais na TV Globo e nem na revista Veja e, pelo menos até o momento, não há indícios de que o quadro esteja prestes a se alterar. Motivos que têm levado cada dia mais repórteres e equipes da emissora a serem alvo de protestos e recebidos aos gritos de “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”
Os protestos contra a Rede Globo, pelo visto, vão continuar e existem pelo menos 10 razões para que os setores comprometidos com a democratização da mídia no Brasil não tenham nada a comemorar neste cinquentenário.
1. Canal 4 estava prometido à Rádio Nacional
Em meados de 1950, Roberto Marinho era apenas um entre os vários empresários da comunicação no país. O magnata da época atendia pelo nome de Assis Chateaubriand e detinha a maior cadeia de jornais, rádios e duas emissoras nascentes de televisão. A rádio líder absoluta de audiência e mais querida do Brasil era a Nacional, a PR-8 do Rio de Janeiro, de propriedade do governo federal. O sucesso da Nacional era tamanho que animou seus dirigentes a solicitar que o então presidente da República lhe concedesse um canal de TV. Constava do currículo da Rádio Nacional já ter feito experiências pioneiras na área, ao ocupar o canal 4 para televisionar (como se dizia na época) dois dos seus programas.
O presidente da República era Juscelino Kubitschek, que considerou justa a reivindicação, uma decorrência natural da liderança da emissora. Na publicação de final de ano em 1956, a direção da Rádio Nacional anunciava para “breve” a entrada no ar da sua emissora, a TV Nacional, canal 4, conforme compromisso assumido por Juscelino. As concessões de canais de rádio e TV eram atribuições exclusivas do ocupante do Executivo Federal.
Os meses se passaram e Juscelino ”esqueceu-se” da promessa. No final de 1957, para surpresa da direção da Rádio Nacional, o canal 4 que lhes fora prometido acabou concedido para a inexpressiva Rádio Globo, de Roberto Marinho. A decisão foi condicionada por pressões diretas de Chateaubriand, que aceitava qualquer coisa menos que a Rádio Nacional ingressasse no segmento televisivo, temendo as consequências disso para seus negócios. Neste contexto, o canal ir para Roberto Marinho era um mal menor.
O Brasil perdeu assim a chance histórica de ter, no nascedouro, duas modalidades de televisão: a comercial, representada pelas emissoras de Chateaubriand, e a estatal voltada para o interesse público como seria a da Rádio Nacional.
2. Acordo com a Time-Life feriu interesses nacionais
Ao contrário da Rádio Nacional, que dispunha de todas as condições para colocar no ar sua emissora de TV, a de Roberto Marinho precisou aguardar alguns anos. Para a implantação da TV Globo, a partir de 1961, foi decisivo o apoio do capital internacional, representado pelo gigante da mídia norte-americana Time-Life. A emissora começou a operar de forma discreta em 26 de abril de 1965 e seus primeiros meses foram um fracasso em termos de audiência.
Em junho de 1962, Marinho passou a ser apoiado com milhões de dólares, num episódio que a emissora ainda hoje sustenta que se tratou apenas de “um contrato de cooperação técnica”. A realidade, fartamente documentada por Daniel Herz, em sua obra já clássica A história secreta da Rede Globo (1995), prova o contrário. Roberto Marinho e o grupo Time-Life contraíram um vínculo institucional de tal monta que os tornou sócios, o que era vedado pela Constituição brasileira. Foi este vínculo que assegurou à Globo o impulso financeiro, técnico e administrativo para alcançar o poderio que veio a ter.
A importância da ligação com os norte-americanos, nos primórdios da emissora, pode ser avaliada pela declaração do engenheiro Herbert Fiúza, que integrou a sua primeira equipe técnica: “A Globo era inspirada numa estação de Indianápolis, a WFBM. E o engenheiro de lá foi quem montou tudo, porque a gente não sabia nada”.
Chateaubriand, que antes havia ficado satisfeito em inviabilizar o canal de TV para a Rádio Nacional, percebeu o risco que suas emissoras passavam a correr. Tanto que dedicou ao “Caso Globo/Time-Life” nada menos do que 50 artigos, todos atacando Roberto Marinho e acusando-o de receber, na época, US$ 5 milhões, repassados em três parcelas, o que representava “uma ofensiva externa contra os competidores internos” (Morais, 1994, p.667).
A repercussão dessas denúncias foi tamanha que a CPI criada pelo Congresso Nacional para apurá-las acabou descobrindo que a TV Globo mantinha não um, mas dois contratos com o grupo Time-Life. Em um deles, os norte-americanos tinham participação de 49%. Em outras palavras, não se tratava de contrato, mas de sociedade. A CPI pôs fim à sociedade. Mas, ao invés de sair penalizada do episódio, a Globo foi duplamente beneficiada: Roberto Marinho ficou com o controle total da emissora e os militares, então no poder, não tomaram qualquer providência contra ela. A TV Globo poderia ter tido sua concessão cassada.
3. O apoio à ditadura militar (1964-1985)
Nos anos 1960, o Brasil era visto pelos Estados Unidos como sua área de influência direta. E a TV Globo foi fundamental para trazer para cá o way of life norte-americano juntamente com o seu modelo de televisão. A TV comercial, um dos tipos de emissora existentes no mundo, adquire aqui o status de única modalidade de TV. Não por acaso, Murilo Ramos (2000, p.126) caracteriza o surgimento da TV Globo como sendo “a primeira onda de globalização da televisão brasileira”, que, concentrada num único grupo local, monopolizou a audiência e teve forte impacto político e eleitoral ao longo das décadas seguintes.
Durante quase 20 anos, TV Globo e governos militares viveram uma espécie de simbiose. Os militares, satisfeitos por verem nas telas da Globo apenas imagens e textos elogiosos ao “país que vai para a frente”, retribuíam com mais e mais benesses e privilégios para a emissora. A partir de dezembro de 1968, com a edição do AI-5, o país mergulhou no “golpe dentro do golpe”, com prisão e perseguição a todos os considerados inimigos e adversários do regime e a adoção de censura prévia aos veículos de comunicação.
A TV Globo enfrentou alguns casos de censura oficial em suas telenovelas, mas o que prevaleceu na emissora foi o apoio incondicional de sua direção aos militares no poder e a autocensura por parte da maioria de seus funcionários.
Ainda hoje não falta quem se recorde de situações patéticas em que o então apresentador do Jornal Nacional, Cid Moreira, mostrava aos milhares de telespectadores brasileiros cenas de um país que se constituía “em verdadeira ilha de tranquilidade”, enquanto centenas de militantes de esquerda eram perseguidos, presos, torturados ou mortos nas prisões da ditadura. Some-se a isso que a TV Globo sempre se esmerou em criminalizar quaisquer movimentos populares.
4. O combate permanente às TVs Educativas
Desde 1950 que as elevadas taxas de analfabetismo vigentes no Brasil eram uma preocupação constante para setores nacionalistas e de esquerda. Uma vez no poder, algumas alas militares viram na radiodifusão um caminho para combater a subversão e, ao mesmo tempo, promover a integração nacional. O resultado disso foi que, em 1965, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) solicita ao Conselho Nacional de Telecomunicações a reserva de 48 canais de VHF e 50 de UHV especificamente para a televisão educativa.
O número era dos mais significativos e poderia ter representado o começo de canais voltados para os interesses da população, a exemplo do que já acontecia em outras partes do mundo. Pouco depois do decreto ser publicado, Roberto Marinho começa a agir para reduzir sua eficácia. E, na prática, conseguiu seu intento. O decreto-lei nº 236, de março de 1967, se, por um lado, formalizava a existência das emissoras educativas, por outro criava uma série de obstáculos para que funcionassem. O artigo 13, por exemplo, obrigava essas emissoras a transmitir apenas “aulas, conferências, palestras e debates”, ao mesmo tempo em que proibia qualquer tipo de propaganda ou patrocínio a seus programas. Traduzindo: as TVs Educativas estavam condenadas à programação monótona e à falta crônica de recursos.
Como se isso não bastasse, o artigo seguinte fechava o cerco a essas emissoras, determinando que somente pudessem executar o serviço de televisão educativa a União, os estados, municípios e territórios, as universidades brasileiras e alguns tipos de fundações. Ficavam de foram, por exemplo, sindicatos e as mais diversas entidades da sociedade civil.
Dez anos após este decreto-lei, apenas seis emissoras educativas tinham sido criadas no país, número muito distante dos 98 canais disponíveis. As emissoras educativas não conseguiam avançar, esbarrando na legislação que lhes obrigava a viver exclusivamente do minguado orçamento oficial, ao passo que as televisões comerciais, em especial a Globo, experimentavam crescimento sem precedentes. Crescimento que contribuiu para cristalizar, em parcela da população brasileira, a convicção de que a emissora de Roberto Marinho era sinônimo de qualidade.
5. O programa global de telecursos
Oficialmente, o projeto tinha o nome de Educação Continuada por Multimeios e envolvia um convênio entre a Secretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional (Subin) da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, o BID, a Fundação Roberto Marinho (FRM) e a Fundação Universidade de Brasília (FUB). Aparentemente, o seu objetivo era nobre: “O atendimento à educação de população de baixa renda do país, mediante a utilização e métodos não tradicionais de ensino”.
Na versão inicial, o convênio tinha 15 cláusulas, com a FRM assumindo a condição de entidade executora e a FUB a de sua coexecutora. Na prática, o convênio ficou conhecido como Programa Global de Telecursos e atendia exclusivamente aos interesses da FRM. Através dele, a FRM pretendia, sem qualquer custo, apoderar-se do milionário “negócio” da teleducação no Brasil. Para tanto, esperava contar com recursos nacionais e internacionais inicialmente da ordem de US$ 5 milhões embutidos em um pacote de U$S 20 milhões solicitados pela Subin ao BID, no início de 1982.
A parceria com a FUB era importante por ela ser uma entidade voltada para o ensino público e estar isenta de impostos para a importação dos equipamentos necessários à montagem de um centro de produção televisiva a custo zero. Em outras palavras, a FRM pretendia tornar-se a administradora da verba (nacional e internacional) destinada às televisões educativas no Brasil, geridas pela Funtevê, entidade governamental. Imediatamente, a Funtevê deixou nítido que o convênio exorbitava as competências da FRM e da própria UnB. É importante assinalar que pela UnB um dos raros entusiastas deste convênio era o seu então reitor, capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo.
A discussão em torno deste convênio e da tentativa das Organizações Globo de apropriarem-se dos recursos destinados às TVs educativas brasileiras ganham a imprensa nacional no final de 1982 e início de 1983. Matéria publicada pelo jornal Folha de S.Paulo (17/04/1983), sob o título de “Globo poderá monopolizar teleducação”, tratava o assunto em forma de denúncia. O “tiroteio” entre os jornais Globo e Folha de S.Paulo durou vários meses e o convênio, que acabou não sendo assinado, só foi sepultado três anos depois, com o fim do regime militar. Sem muita cerimônia, o então secretário-executivo da FRM, José Carlos Magaldi, chegou a admitir que “é óbvio que não fazemos teleducação por patriotismo”.
Esta não foi a primeira e nem a última tentativa das Organizações Globo de se apoderarem da teleducação no Brasil. Aliás, a FRM tem, nos dias atuais, representado o Brasil em vários fóruns internacionais sobre educação e teleducação. O MEC sabe disso?
6. O caso Proconsult e o combate a Leonel Brizola
Antes dos petistas, Leonel Brizola foi um dos políticos brasileiros mais combatidos pela TV Globo e por seu fundador, Roberto Marinho. Marinho nunca o perdoou pelo fato de ter comandado a Rede da Legalidade, nome que receberam as emissoras de rádio que, quando da renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961, passaram a defender a posse de seu vice, João Goulart. Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, era cunhado de Goulart.
Com a vitória do golpe civil-militar de 1964, Brizola foi para o exílio e só pode retornar ao Brasil com a anistia, em 1979. Político com fortes compromissos populares, em 1982 disputou o governo do Rio de Janeiro, pelo PDT, partido criado por ele.
O caso Proconsult foi uma tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a vitória de Brizola. Consistia em um sistema informatizado de apuração dos votos, feito pela empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores do regime militar. A mecânica da fraude consistia em transferir votos nulos ou em branco para que fossem contabilizados para o candidato apoiado pelas forças situacionistas, Moreira Franco, do então PDS.
As regras da eleição de 1982 impunham que todos os votos (de vereador a presidente da República) fossem em um mesmo partido. Portanto, estimava-se um alto índice de votos nulos. Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática, que divergiam completamente do resultado oficial. Outra fonte que obtinha resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do Brasil. Roberto Marinho foi acusado de participar no caso.
A fraude foi extensamente denunciada pelo Jornal do Brasil, na época o principal concorrente de O Globo no Rio e relatada posteriormente pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim, Maria Helena Passos e Eliakim Araújo no livro Plim Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral (Conrad Editores, 2005). Devido à participação de Marinho no caso, a tentativa de fraude é analisada no documentário britânico Beyond Citizen Kane, de 1993. A TV Globo, por sua vez, defendeu-se argumentando que não havia contratado a Proconsult e que baseava a totalização dos votos daquela eleição na totalização própria que O Globo estava fazendo.
Em 1994, Brizola venceu novamente Roberto Marinho e a TV Globo ao obter, na Justiça, direito de resposta na emissora. Em 15 de março, um constrangido Cid Moreira (que por 27 anos esteve à frente da bancada do Jornal Nacional) leu texto de 440 palavras que a Justiça obrigou a TV Globo a divulgar em seu telejornal mais nobre.
Foram cerca de três minutos nos quais Cid Moreira, a cara do JN, incorporou Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, no mais célebre e então inédito direito de resposta, que abriu caminho para que outros cidadãos buscassem amparo legal contra barbaridades cometidas pela mídia brasileira.
7. Ignorou as Diretas-Já
O PMDB lançou, em dezembro de 1983, uma campanha nacional em apoio à emenda do seu deputado Dante de Oliveira (MT) que restabelecia as eleições diretas no país com o slogan “Diretas-Já”. O primeiro grande comício aconteceu em São Paulo, em 25 de janeiro do ano seguinte, e coincidiu com o 430º aniversário da cidade. A TV Globo ignorou o comício que reuniu milhares de pessoas na Praça da Sé. Reportagem do Fantástico sobre o assunto falava apenas em comemorações do aniversário de São Paulo. Omissões semelhantes aconteceram em relação a outros comícios pelas Diretas-Já em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.
De acordo com o ex-vice-presidente das Organizações Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista ao jornalista Roberto Dávila, na TV Cultura, em dezembro de 2005, foi o próprio Roberto Marinho quem determinou a censura ao primeiro grande comício da campanha pelas Diretas-Já. Segundo Boni, àquela altura “o doutor Roberto não queria que se falasse em Diretas-Já” e decidiu que o evento da Praça da Sé fosse transmitido “sem nenhuma participação de nenhum dos discursantes”. Para Boni, aliás, no caso das Diretas-Já houve uma censura dupla na Globo: “Primeiro, uma censura da censura; depois, uma censura do doutor Roberto”.
A versão de Boni é diferente da que aparece no livro Jornal Nacional – A Notícia Faz História, publicado pela Jorge Zahar em 2004, e que representa a versão da própria Globo para a história de seu jornalismo. O texto não faz referência alguma a uma intervenção direta de censura por parte de Roberto Marinho. Aliás, a Globo vem tentando reescrever a sua história e, ao mesmo tempo, reescrever a própria história brasileira. Isto fica nítido, por exemplo, quando se compara a história brasileira com a versão que é publicada pela Globo através dos verbetes do Memória Globo. Pelo visto, a emissora aposta na falta de memória e na pouca leitura da maioria dos brasileiros para emplacar a sua versão dos fatos. Foi a partir da campanha das Diretas-Já que teve início a utilização, pelos diversos movimentos populares, do bordão “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo”.
8. Manipulação do debate Collor x Lula
Na eleição de 1989, a primeira pelo voto direto para presidente da República desde 1964, a TV Globo manipulou o debate entre o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e o do PRN, Fernando Collor. O debate era o último e decisivo antes da eleição. No telejornal da hora do almoço, a TV Globo fez uma edição equilibrada do debate. Para o Jornal Nacional, houve instruções para mudar tudo e detonar Lula. Foram escolhidos os piores momentos de Lula e os melhores de Collor. Ainda foram divulgadas pesquisas feitas por telefone segundo as quais Collor havia vencido. Além disso, o jornalista Alexandre Garcia leu um editorial nitidamente contra Lula e o PT.
Desde então, pesquisas e estudos sobre este “caso clássico de manipulação da mídia” têm sido feitas no Brasil, destacando-se as realizadas pelo sociólogo, jornalista e professor aposentado da UnB Venício A. Lima.
Apesar dos esforços da TV Globo para manter a versão de que a edição deste debate foi equilibrada, novamente seu ex-diretor José Bonifácio Sobrinho contribuiu para derrubá-la. Depois de abordar o assunto em entrevistas à imprensa, por ocasião do lançamento de seu livro de memórias, o ex-dirigente global deu entrevista à própria GloboNews, canal pago da emissora, na qual admitiu, para o jornalista Geneton Moraes Neto, que, durante os debates da campanha presidencial transmitidos pela Globo em 1989, tentou ajudar o candidato alagoano. Para muitos, Boni só fez esta “revelação bombástica”, que quase todos já sabiam, para tentar promover seu livro.
9. Contra a democratização da mídia
Todos os países democráticos possuem regulação para rádio e televisão. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a mídia e sua regulação caminharam juntas. O mesmo pode ser dito em relação aos Estados Unidos, França, Itália e Japão. Nestes países, tão admirados pelas elites brasileiras, nunca ninguém fez qualquer vínculo entre regulação e censura, simplesmente porque ele não existe. No Brasil, onde a mídia em geral e a audiovisual em particular vive numa espécie de paraíso desregulamentado, toda vez que um governo tenta implementar o que existe no resto do mundo é acusado de ditatorial e de querer implantar a censura.
Quando, em 2004, o governo do presidente Lula enviou ao Congresso Nacional projeto de lei criando o Conselho Nacional de Jornalismo, uma espécie de primeiro passo para esta regulação, foi duramente criticado pela mídia comercial, TV Globo à frente. Desde sempre, as Organizações Globo foram contrárias a qualquer legislação que restringisse o poder absoluto que desfruta a mídia no Brasil. Prova disso é que os dispositivos do Capítulo V da Constituição brasileira, que trata da Comunicação Social, continuam até hoje sem regulamentação.
Entre outros aspectos, o Capítulo V proíbe monopólios e oligopólios por parte dos meios de comunicação, determina que a programação das emissoras de rádio e TV deva dar preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. O capítulo enfatiza, ainda, que as emissoras e rádio e TV devem promover a cultura nacional e regional, além de estimularem a produção independente. Todos esses aspectos mostram como a TV Globo está na contramão de tudo o que significa uma comunicação democrática e plural.
Aliás, os compromissos dos mais diversos movimentos sociais brasileiros com a regulação da mídia foram reafirmados durante o 2º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, promovido pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, de 10 a 12 de abril, em Belo Horizonte. O evento reuniu 682 participantes entre ativistas, estudantes, militantes, jornalistas, estudiosos, pesquisadores, representantes de entidades e coletivos de todo o Brasil. Presente ao encontro esteve também o canadense Toby Mendel, consultor da Unesco e diretor-executivo do Centro de Direitos e Democracia.
A carta final do encontro, intitulada “Regula Já! Por mais democracia e mais direitos”, disponível na página da entidade (www.fndc.org.br), reafirma “a luta pela democratização da comunicação como pauta aglutinadora e transversal, além de conclamar as entidades e ativistas a unirem forças para pressionar o governo a abrir diálogo com a sociedade sobre a necessidade de regular democraticamente o setor de comunicação do país”.
10. Golpismo
Para vários pesquisadores e estudiosos sobre movimentos sociais no Brasil, a mídia, em especial a TV Globo, tem tido um papel protagonista nas manifestações contra a presidente Dilma Rousseff. Alguns chegam mesmo a afirmar que dificilmente essas manifestações teriam repercussão se não fosse o empenho Rede Globo (saiba mais aqui). Em outras palavras, a Rede Globo, tão avessa à cobertura de qualquer movimento popular, entrou de cabeça na transmissão destas manifestações. 
por Ângela Carrato
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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Adriano Stevenson is a punk rocker

Adriano Stevenson é gente que faz! Guitarrista e compositor de punk rocks desde meados da década de 80 do século passado – sim, somos pessoas do século passado – segue firme com a Rotten Flies, da Paraíba, compondo e tocando e viajando e “fanzinando”. E irradiando som e fúria pelas ondas do rádio. Às quintas feiras, a partir das 20:00, via Tabajara FM, de João Pessoa. Ou em sua caixa postal, via correios, através do jornal “Microfonia”. Ou num palco precário de algum clube imundo, nas quebradas do “underground”. Ou não – às vezes rolam umas produções “decentes” ...

"Saco de Gilete", o mais recente lançamento da Rotten Flies, parece ter funcionado - a julgar pelo conteúdo de algumas letras e pelas entrevistas e declarações que li sobre o disco - como uma espécie de "volta por cima" da banda depois de uma fase conturbada. Fale um pouco sobre isso, a nova formação e a gestação do álbum.
Sabe aquela máxima: "Passaria por tudo novamente". Nem fudendo passaria por tudo novamente! Foi a gestação mais complicada, até porque o nome não era Saco de Gilete, era outra concepção, outra visão, e na real, todo mundo da banda já tava de saco cheio. Eis que, num mar revolto, aparece o cara que entra no barco pra somar. Falo de Francisquinho, vocal que veio com idéias e atitudes. Deu no que deu!  Francisquinho é o cara que tem a frase certa na hora certa, foi a tampa e a panela, o cocô e a privada.

Satisfeitos com o resultado final, em termos técnicos e artísticos? E a repercussão, como tem sido? 
Quando estávamos terminando a mix e master, comentamos: “Caralho, isso ta foda!” Não posso esquecer o nome de Marcelinho Macêdo, produtor local que entendeu a parada e fez acontecer. Saquei que o negócio pegou , quando fui pro Ugra Fest em São Paulo e lá passei alguns CDs pro pessoal do Ódio Social, então os caras ficaram nossos amigos desde criancinha. Recentemente, em São Paulo e Curitiba, tivemos uma repercussão muito boa! Mas a pergunta inicial era "Satisfeitos com o resultado final?" Sim, totalmente.

Estou acompanhando e vejo que vocês têm feito shows para além das fronteiras paraibanas, inclusive no sudeste do país. Está mais fácil fazer isso? Com base em sua experiência ao longo dos anos, consegue fazer um paralelo entre as dificuldades de uma banda "underground" para viajar ontem e hoje? A internet facilita? Até que ponto? Porque se por um lado agiliza os contatos, por outro deixa tudo ainda mais disperso e confuso, fora de foco...

Está mais fácil sim, a internet ajuda, não preciso mais colocar cola na superfície do selo (os caras que manuseavam cartas entenderão), a resposta é instantânea. Quanto às dificuldades, são mais de logística do que financeira, se tiver um integrante na banda que não quer, não pode ou que não está nem ai (o que chamamos aqui em Jampa de “empatafoda”) não vai virar. Isso independe de período, tanto ontem como hoje, o que tem que haver é vontade, o resto é correr atrás. Nesse rolê que demos no sudeste do país, por sorte, tudo foi amarrado e os caras que nos recepcionaram deram 110% de atenção, não houve roubada. A gente sabe que isso pode acontecer, mas a diferença é que hoje a roubada é compartilhada nas redes sociais, o nome do cidadão vira poleiro de galinheiro.

Já têm planos para o futuro? Já têm músicas novas compostas? Planejam lançá-las de que forma? O que pensam do dilema pelo qual passam muitas bandas hoje em dia, sobre lançar seu trabalho em CD, vinil ou apenas de forma "virtual", na internet? E como lidam com as novas estratégias para a divulgação de sua musica neste "admirável mundo novo" de comunicação instantânea e digital em que vivemos?
Não dou crédito para bandas que lançam virtualmente, hoje tá mais fácil lançar o material físico. Foda era nos anos 90 lançar um LP ou EP (vide Cambio Negro/Karne Krua/Discarga Violenta)! O negócio era trabalho de estivador, agora tá bem mais fácil. Atualmente usamos a mídia digital (principalmente para divulgação e comunicação), mas continuamos a enviar material físico. A Rotten Flies grava esse ano um LP, na realidade começou com a idéia de um EP, mas apareceu mais músicas e mais selos pra segurar a parada, vamos cair pra dentro.

Aproveitando o gancho: tem vendido bem, o disco? E os outros lançamentos do selo Microfonia, têm se pagado?
O Saco de Gilete tá sendo bem distribuído, tem quem pense que a gente é uma banda nova (acho isso ótimo). Os outros lançamentos, alguns sim, eles se pagam, outros não, mas quero deixar claro que a coisa funciona se a banda estiver tocando. Banda tem que gravar, lançar e pegar a estrada, aí a coisa gira.

Conte-nos um pouco sobre a história da Rotten Flies: quantos anos, quantas fases, quantos "perrengues", quantos prazeres. Fale-nos sobre "a dor e a delícia" (ui, Caetano!) de ser o que é - uma banda de Hard Core UNDERGROUND em atividade no nordeste do Brasil...
Vamos la ... Rotten Flies - completa esse ano 25 anos de atividades, muitos perrengues e bota perrengues nisso, prazeres, vixe... um bocado, se não tivesse essa parte , eu parava. Dia desses estava ai em “Buracaju” assistindo a Karne Krua, pensei comigo: Ah, o Silvio tá ali com 59 anos (NOTA DO BLOG: Ô EXAGERO, ele tá com 51. Olha aí, “sub”, ta querendo te dar mais anos do que já tem) e pula que nem uma criança. Se ele pode, eu posso também! Na frente de Silvio “Suburbano” (NOTA DO BLOG: este era o pseudônimo que Silvio usava nos primórdios da Karne Krua) eu sou um bebê (risos). Tenho só 43. Mas falando sério (ui, Roberto!) (NOTA DO BLOG: ui, gostei.) o combustível da banda é um pouco daqueles pirralhos de 16 anos que ainda permanecem putos e desconfiados de tudo.

Além da banda você tem outros projetos em plena atividade, notadamente um programa de rádio, o "Jardim Elétrico", e o jornal/selo "Microfonia",  ambos tocados em parceria com Olga Costa. Como se deu esse encontro de vocês dois? E como tem se desenvolvido, está dentro do que vocês planejaram? Ou não planejaram nada, apenas "aconteceu"?
Olga é jornalista e figura conhecida aqui em Jampa. Ela tinha uma loja de CDs chamada Paralelos Records, na qual eu não ia, pois o atendimento dela era péssimo, tão ruim que a loja fechou! (risos). Anos depois, a encontrei na Música Urbana, loja do nosso parceiro Robério Rodrigues, equivalente à Freedom de Aracaju. Conversávamos muito sobre zines, da falta que o mesmo fazia devido à migração de muitos zineiros para o mundo digital e como a gente tem em comum a vontade de nadar contra a corrente, surgiu o  Microfonia (periódico bimestral), que foi planejado, sim. O restante veio acontecendo sem muito planejamento. Nos anos 90 eu tive um selo chamado Cactus Discos. Em 1995 parei com essa atividade. Quando criamos o jornal/zine, resolvemos incorporar o selo ao jornal. O programa Jardim Elétrico já era pilotado por Everaldo Pontes e Olga desde 84.

Especificamente sobre o programa de rádio, ainda vale a pena fazer, em tempos de internet? Não seria o radio uma "midia morta"? Creio que não, mas gostaria de saber sua opinião...
Eu não tenho a dimensão exata do quanto a gente é ouvido em rádio. Eu caí nessa meio que de pára-quedas. Fui fazer uma participação, (nesse dia Everaldo faltou ao programa), gostaram do resultado e acabei ficando. O próprio Everaldo disse pra mim: Vai lá e se diverte. Eu respondi: Mermão, eu não tenho know-how pra coisa. Ele respondeu na bucha: "Tem sim!". Teve um dia que rolou o maior cacete entre eu e Olga no programa, foi ai que eu saquei que essa mídia funciona, a audiência subiu igual foguete. Não que eu me importe com audiência.

Antes da Rotten Flies você fez parte da formação de pelo menos duas outras bandas importantes para o cenário punk/hard core do nordeste, mais especificamente do Rio Grande do Norte - aliás, você é de lá ou é paraibano? - a Discarga Violenta e a Devastação. Fale um pouco de sua passagem por estes dois grupos.
Sou potiguar, “papa-jerimum”, como dizia minha mãe! Eu sempre fui o guitarrista reserva (só tem tu, vai tu mesmo), na Devastação foi assim, na Rotten Flies também. No Discarga Violenta foi diferente, a gente começou junto. Jean, vocalista da Devastação, me convidou para substituir Rômulo, que chegou a tocar no Festcore (Festival Punk de Aracaju). (NOTA DO BLOG: primeiro festival exclusivamente dedicado ao punk e ao Hard Core da cidade, que aconteceu na metade da década de 1980, produzido pelo pessoal da Karne Krua com bandas de várias partes do país, incluindo a Delinquentes, de Belém do Pará – que é longe pra cacete! Ok, Natal também não é ali na esquina ...). Ainda peguei o III Encontro Anti-Nuclear, produzido por Nino (Cambio Negro). Ele ainda tem o vídeo da Devastação comigo na guitarra, preciso pegá-lo. Devastação foi um puta aprendizado! Hoje o trabalho que faço com a Rotten Flies é muito calcado nessa época. Vendo em retrospecto, entendo a escolha de Jean em ser professor, naquela época o cara já chegava no point com zines, fitas e outras publicações para a alegria da punkarada. O cara já tinha na veia o didatismo. No Discarga Violenta, eram três pirralhos que queriam fazer muito barulho... conseguimos, fizemos muito barulho em todos os sentidos.

Por fim, nos fale sobre os primórdios: como começou seu interesse pela cultura punk underground e seus derivados? O que te levou por este caminho? Imagino que tinha, por aí, as mesmas dificuldades que nós, por aqui, em termos, principalmente, de informação, naqueles tempos "analógicos" em que tudo tinha que ser resolvido por telefone ou por carta...
Estamos falando de 1985, quando o rock nacional estava a toda. Correndo por fora, a New Face, Wob Bop, Baratos Afins, o subterrâneo sempre me chamou a atenção. No ano seguinte o RDP lançou Descanse em Paz, consigo uns Coléras, e outras coisas, conheci uns malucos no colégio que gostavam de punk/HC, não deu outra, vida entortada. Me apresentaram Sopa D'osso(NOTA DO BLOG: ativista punk e anarquista, uma figura importante – e lendária – do cenário local), que depois de vinte anos entrevistei pro Jornal Microfonia. Correspondências, muitas correspondências com o Brasil todo. Cartas, zines, fitas, LPs, a era de ouro. O que mudou? Só a perspectiva.

Uma última pergunta: "Stevenson" é pseudônimo ou sobrenome?
Mainha adora Robert Louis Stevenson, portanto me deu o nome em homenagem ao escritor de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Meus filhos também levam o Stevenson. Eu particularmente sou um pouco médico e monstro, quando sou bom, sou bom, quando sou ruim, sou ótimo.

Adelvan perguntou.
Adriano respondeu.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Os verdadeiros donos do mundo

Este ano (2014), um grupo de 130 pessoas se reuniu em Copenhague, capital da Dinamarca. Discutiram assuntos como economia global, mudanças climáticas, guerras. Fizeram previsões, debateram, traçaram estratégias. Parecia uma assembleia da ONU. Mas era um encontro do Grupo de Bilderberg: organização criada em 1954 para reunir as pessoas mais poderosas do planeta. Seu encontro anual, que não é aberto a ninguém da imprensa, reúne multibilionários e chefes de Estado e de Exércitos (este ano, os destaques foram o líder supremo da OTAN, aliança militar presente em 28 países, e o diretor-geral da NSA, a superagência de espionagem americana). "Estamos falando de uma rede global, mais poderosa do que qualquer país, e determinada a controlar a humanidade", diz o russo Daniel Estulin, autor de um livro sobre o grupo. Ele pode estar exagerando um pouco. Mas é fato que os ultrarricos nunca tiveram tanta força. A economia mundial patina e não consegue se recuperar da megacrise de 2008, a maior dos últimos 80 anos. Ela começou com quebras de grandes bancos nos EUA, que deixaram um rombo estimado em US$ 2,7 trilhões, e se espalhou pelo planeta, gerando grandes ondas de desemprego e recessão - da qual as principais economias do mundo ainda não se recuperaram. Mas mesmo assim, em plena tempestade, o número de bilionários dobrou. Agora um pequeno grupo, com as 67 pessoas mais ricas do mundo, tem tanto dinheiro quanto os 3,5 bilhões de humanos mais pobres. É como se, financeiramente, metade do planeta coubesse dentro de um ônibus. A desigualdade de renda explodiu, e está se aproximando dos níveis que antecederam a Primeira Guerra Mundial. E isso tende a ser um problema para quase todo mundo.

Mas antes: como chegamos a esse ponto? Afinal, se o mundo está em crise, todos perdem, certo? Mais ou menos. Na verdade, as crises têm o poder de concentrar renda, deixar os ricos mais ricos. E é fácil entender o porquê. Quando as coisas apertam, pessoas e empresas são obrigadas a se desfazer do seu patrimônio. Vendem imóveis pela metade do preço, liquidam ações por menos do que valem e, claro, saem perdendo. Quem ganha são uns poucos - que têm dinheiro para comprar tudo isso. "Para cada novo milionário, há muito mais gente que perde dinheiro. Em geral, quem mais sofre são os pobres e a classe média", diz Rodolfo Olivo, professor de finanças da USP. Os mais ricos compraram ações e empresas pagando pouco, logo no estouro da crise, e ganharam com isso. De 2009 para cá o índice Dow Jones, que mede as principais ações das bolsas americanas, subiu 149%.

Ao mesmo tempo em que aumentava a concentração de renda, a crise emperrou as economias e instigou movimentos como o Occupy Wall Street - que começou como um protesto de 100 mil pessoas no centro financeiro de Nova York e chegou a 1.500 cidades pelo mundo. Tudo isso teve uma consequência inédita: fez um livro de economia virar best -seller. O Capital no Século XXI, escrito pelo economista francês Thomas Piketty, é um catatau de quase 700 páginas, que analisa as economias de 20 países ao longo de mais de um século. É denso, complexo, difícil de ler. Mas se tornou número 1 na Europa e nos EUA, com centenas de milhares de cópias vendidas. No Brasil, foi lançado em novembro e imediatamente alcançou o segundo lugar (só perdendo para a biografia do líder religioso Edir Macedo). Piketty tem chamado a atenção - e causado furor - porque demonstrou, com estatísticas, que a desigualdade social está aumentando. E apresentou uma explicação para esse fenômeno.

O contraste entre ricos e pobres não surge do nada. Ele vem de uma força elementar: a diferença entre o capital e o trabalho. O capital (dinheiro, imóveis, fábricas, ações, bens) pode ser investido e gerar mais capital. Já o trabalho não tem esse poder multiplicador. E aí, diz Piketty, r > g. Essa fórmula, que foi inventada por ele, é bem simples. O "r" é o ganho médio que o capital consegue obter em um ano, por meio de investimentos. Já o "g" representa a taxa de crescimento da economia. Ou seja: se r é maior que g, quem tem capital para investir sempre ganha mais do que a economia como um todo. E fica com uma fatia cada vez maior do bolo. Já quem trabalha e recebe salário, ou seja a maioria das pessoas, fica com menos. E como dizia o refrão daquela música, "o de cima sobe e o de baixo desce".

Nem sempre foi assim. Entre as décadas de 1950 e 1970, o processo foi inverso. O crescimento da economia era maior que o ganho dos investimentos (ou seja, g > r). O mercado financeiro lucrava menos do que a `economia real¿, embalada pela reconstrução da Europa e a explosão de prosperidade nos EUA. A desigualdade diminuiu. Mas a onda virou, e a distância entre ricos e pobres voltou a crescer.

No final dos anos 70, os presidentes das 350 maiores companhias do mundo ganhavam, em média, 30 a 40 vezes mais que os funcionários de base. Hoje, a diferença de salário entre o presidente e o peão passa de 300 vezes. Nos Estados Unidos, o salário médio dos trabalhadores encolheu de US$ 4 mil para US$ 2.750 (em valores reais, descontando a inflação do período) entre 1978 e 2010. Já a remuneração do 1% mais rico disparou: foi de US$ 25 mil para US$ 83 mil.

No Brasil, a concentração de renda caiu nos últimos 20 anos. Mas ainda é brutal. Somos o 13º país mais desigual do mundo (veja quadro na página 40), só perdendo para nações muito pobres, como Botsuana, Namíbia e Haiti. "Quanto maior é a desigualdade, mais altas são as taxas de homicídio, de uso de drogas, mortalidade infantil, doenças psiquiátricas e até de obesidade", diz Richard Wilkinson, diretor da ONG britânica The Equality Trust. Reduzir a diferença entre ricos e pobres não é apenas uma questão humanitária ou ideológica. É importante para a saúde da própria economia. E quem diz isso não são pregadores esquerdistas: é o Fundo Monetário Internacional, que publicou um estudo mostrando como a desigualdade extrema tende a gerar crises, e o World Economic Forum - que reúne 700 líderes econômicos globais e este ano elegeu a desigualdade como o grande problema do mundo atual. Até o papa Francisco andou palpitando a respeito: para ele, a desigualdade "provocará uma explosão da violência" no mundo se não for contida.

O DINHEIRO NO PODER - Os donos do mundo aproveitaram a crise e exploraram a diferença entre capital e trabalho para aumentar suas fortunas. Mas também podem recorrer a outros meios, como a política. A história está recheada de casos de multibilionários que usaram suas fortunas para moldar o destino da humanidade - e ficaram ainda mais ricos fazendo isso. No século 19, o banqueiro Nathan Rothschild foi o grande instigador da derrota de Napoleão na batalha de Waterloo. Ele comprou a maior parte dos títulos emitidos pelo Exército inglês para financiar a guerra. Cheio de dinheiro, e portanto de armas, o Exército foi ao front e venceu. Rothschild foi a primeira pessoa na Inglaterra a ficar sabendo. Sem avisar ninguém, saiu vendendo seus títulos. Os outros investidores acharam que a Inglaterra tinha perdido a guerra, e também venderam os titulos que possuíam. Isso derrubou os preços deles. Rothschild aproveitou para recomprar tudo, pagando baratíssimo. No dia seguinte, quando o resto do país foi informado da vitória, o valor dos papéis disparou. E Rothschild multiplicou sua fortuna em 20 vezes. Ela chegou a US$ 350 bilhões, em valores atuais. Dá mais de quatro Bill Gates.

Hoje, a influência dos überricos na política é mais sutil, mas igualmente forte. Um bom exemplo é o Tea Party, que surgiu nos Estados Unidos em 2009 - à primeira vista, como movimento popular. De repente, milhares de americanos estavam nas ruas para protestar contra coisas que os incomodavam. Só que ninguém estava reclamando da falta de saúde ou educação, ou de 20 centavos a mais na passagem do ônibus. As reivindicações eram mais ao gosto de empresários e banqueiros: redução de impostos, liberação nas emissões de CO2 (que, segundo o Tea Party, não é o responsável pelo aquecimento global) e fim do sistema de saúde gratuito que Barack Obama tentava implantar nos EUA.

Com inclinações tão ostensivas, era difícil que a máscara não caísse. A imprensa americana logo descobriu que, na verdade, o Tea Party tinha sido criado e era financiado pelos irmãos David e Charles Koch - que estão entre as dez pessoas mais ricas do mundo. Só neste ano, eles já compraram 43.900 espaços publicitários em TVs e rádios dos Estados Unidos para difundir mensagens políticas e apoiar determinados candidatos. Quando foram flagrados como criadores do movimento, os irmãos Koch não se abalaram. Admitiram tudo, e disseram que seu objetivo é melhorar a "qualidade de vida" da sociedade.

No Brasil, são notórios os casos de empresas ou de milionários que dão dinheiro para financiar partidos políticos: são as controversas doações de campanha. Nas últimas eleições, elas ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão, segundo o TSE. As dez empresas que mais doaram (JBS, Bradesco, Itaú, OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, UTC Engenharia, Queiroz Galvão, Vale e Ambev) financiaram 70% de todos os deputados federais eleitos - 360 de 513, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo.

As doações são permitidas por lei. Mas podem causar distorções. Imagine que você foi eleito deputado. Certo dia, sua secretária avisa que há duas pessoas esperando você. Uma é um cidadão qualquer. A outra é um empresário que doou alguns milhões para a sua campanha (e de cuja ajuda você vai precisar na próxima eleição). "Quem você se sentiria mais pressionado a receber?", pergunta Claudio Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil. "Os grandes doadores exercem uma pressão muito maior sobre os políticos." Uma possível saída seria limitar ou proibir as doações privadas e financiar as campanhas com dinheiro público, como já acontece em países como Suécia e França. Isso ajudaria a conter a influência dos empresários. Mas a medida também tem seu lado polêmico, pois consumiria recursos públicos. O valor do financiamento poderia ser fixado por lei, obrigando as campanhas a gastar menos do que hoje. Isso enfrentaria grande resistência da classe política, e o financiamento público não é uma panaceia - pois candidatos mal-intencionados sempre poderiam receber dinheiro por fora, por meio de caixa 2.

De toda forma, quem tem força econômica nem sempre precisa manipular os políticos. Às vezes, pode obrigá-los a fazer as coisas. Como o megainvestidor George Soros, 24º. homem mais rico do mundo. Ele fez fortuna comprando e vendendo ações e títulos do mercado financeiro - doa a quem doer. Sua maior demonstração de poder foi a quebra do Banco da Inglaterra. O banco, que foi fundado no século 17, é o equivalente inglês ao nosso Banco Central. Controla a economia e a moeda. Em 1992, a Inglaterra tinha feito um pacto com outros países da Europa. Ela se comprometeu a manter sua moeda, a libra esterlina, numa cotação igual ou superior a 2,77 marcos alemães (o euro ainda não existia). Se o valor caísse abaixo disso, o Banco da Inglaterra era obrigado a intervir. O objetivo era reduzir as oscilações econômicas na Europa. Mas Soros viu nisso uma grande oportunidade para lucrar.

Sem chamar a atenção, ele foi pegando empréstimos e comprando libras esterlinas. Acumulou o equivalente a US$ 10 bilhões. Aí, no dia 16 de setembro de 1992, vendeu todas. Jogou tudo de uma vez no mercado. Como havia excesso de libras, a cotação delas despencou. Em pânico, o Banco da Inglaterra tentou aumentar os juros e comprar libras para defender a moeda. Mas Soros era mais forte. O governo inglês foi obrigado a abaixar a cabeça e aceitar a desvalorização da libra. No dia seguinte Soros recomprou, pagando menos, tudo o que tinha vendido - e ganhou US$ 1 bilhão com isso. O episódio ficou conhecido como "Quarta-feira Negra". "Os grandes acertos de Soros foram saber quem iria perder", escreve o historiador Niall Ferguson em A Ascensão do Dinheiro - A História Financeira do Mundo (Editora Planeta). Naquela ocasião, o perdedor foi a Inglaterra. Mas não foi o único caso do tipo. Esse jogo, em que grandes investidores forçam os países a desvalorizar suas moedas, começou na Tailândia, se espalhou por vários países da Ásia, chegou à Rússia e veio parar no Brasil. Em 1999, depois de sofrer um ataque similar, o Banco Central foi obrigado a abandonar o sistema de bandas cambiais, que estipulava uma variação máxima para a cotação do real.

E aí está outro problema da superconcentração de renda: ela permite que megainvestidores, como Soros, tenham força para mexer com a moeda de um país inteiro. Hoje, estima-se que haja mais de US$ 600 trilhões aplicados no mercado financeiro, dez vezes mais do que na chamada "economia real". O dinheiro que fica dentro do mercado, e não é investido em empresas e projetos, só serve para fabricar mais dinheiro. Não movimenta a economia. "Não contribui para a inovação, a capacidade empresarial, a criação de empregos", diz o economista Evilásio Salvador, professor da Universidade de Brasília.

A UNIÃO FAZ A FORÇA - Os ultrarricos nem sempre exercem seu poder na política, ou no mercado financeiro. Eles também influem sobre as coisas que você compra. Os produtos e serviços são fornecidos por um número cada vez menor de empresas - porque elas estão se juntando umas às outras. Entre 2002 e 2005, o Brasil teve uma média de 384 fusões e aquisições por ano, segundo estudo da consultoria Price Waterhouse Coopers (PwC). De 2006 a 2009, essa média subiu para 646. De 2010 a 2013, chegou a 783. A concentração empresarial está acontecendo no mundo inteiro, em todos os setores da economia. Por exemplo: no final dos anos 50, a França tinha 20 montadoras de automóveis. Hoje, apenas duas (Renault e Peugeot-Citroën), que foram absorvendo as demais. Na Itália, eram 19. Hoje, só uma (Fiat). Pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, em Zurique, estudaram as 43 mil maiores empresas do mundo - e mapearam todas as relações entre elas. Descobriram que um grupo muito pequeno manda numa parte enorme da economia global. "1% das empresas controla 40% de toda a rede", diz James Glattfelder, um dos autores do estudo.

A concentração empresarial não é necessariamente ruim, mas pode ser. Imagine se só existisse uma marca de creme dental, por exemplo. Ela poderia cobrar bem caro e você seria obrigado a pagar, porque precisa escovar os dentes. Na prática, isso não tem acontecido. O mercado brasileiro de cerveja, por exemplo, é dominado pela AmBev (que tem 67,5%). Ela surgiu da fusão entre Brahma e Antarctica, as duas maiores cervejarias do País. Mas desde que foi criada, em 1999, os reajustes no preço da cerveja estiveram próximos da inflação, sem aumentos abusivos. "Hoje a concorrência é muito maior do que no passado", diz o economista Rogério Gollo, especialista em fusões e aquisições da PwC. Com os carros, aconteceu a mesma coisa. Mesmo havendo menos fabricantes, os preços não subiram. A concentração empresarial não está doendo no seu bolso, pelo menos não ainda. Mas uma coisa está.

EFEITO MATEUS - Os impostos. Quando pensamos neles, costumamos pensar no governo: o dinheiro que ele arrecada e os serviços públicos, como saúde e educação, que fornece em troca. O que pouca gente sabe é que, no Brasil, os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que o resto da sociedade. Soa incrível, mas é verdade. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra o que acontece. Uma pessoa que ganha dois salários mínimos por mês gasta 53,9% da sua renda com impostos, que estão embutidos nos produtos que ela compra. Tem de trabalhar 197 dias por ano só para pagar impostos. Já alguém que recebe 30 salários mínimos paga apenas 29% - e trabalha 106 dias, quase a metade do tempo, para sustentar o governo (veja quadro na página ao lado).

Isso acontece porque, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, os impostos brasileiros estão mais concentrados nos produtos que as pessoas compram, e não no dinheiro que elas ganham. E essa característica é uma máquina de produzir desigualdade: porque os impostos tomam mais dinheiro daqueles que menos têm. "Isso onera os mais pobres, tornando-os mais pobres ainda", diz Evilásio Salvador, da Universidade de Brasília. É o que os economistas chamam de Efeito Mateus (uma referência à passagem bíblica Mateus 25, 14-30: "Porque àquele que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado").

Inverter essa lógica é difícil - afinal, os mais ricos têm poder para pressionar os políticos. Mas até alguns deles se dizem dispostos a mudar. O megainvestidor Warren Buffet, terceiro homem mais rico do mundo, sugeriu um plano ao presidente dos EUA. A proposta, que ficou conhecida como "The Buffett Rule" (Regra Buffett), criava um imposto de renda de pelo menos 30% sobre quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano. Isso só afetaria 0,3% das pessoas. Mas arrecadaria US$ 36 bilhões. É um oceano de dinheiro (mais que todo o orçamento do Ministério da Educação brasileiro). A proposta foi à votação no Congresso, e perdeu. Segundo uma pesquisa da CNN, 72% dos americanos eram a favor dela.

Se nada mudar, a desigualdade no mundo tende a continuar crescendo (pois r > g, lembra?). É difícil prever as consequências disso. Mas uma delas pode ser a radicalização política. Um estudo feito por três universidades americanas (Columbia, Houston e Princeton) constatou que, quanto maior a desigualdade econômica num país, mais forte tende a ser a divisão entre os seus grupos de esquerda e de direita. E a história sugere que a superconcentração de recursos pode acabar em algum tipo de tumulto.

Já aconteceu. Houve um país que passou por um processo muito forte, e muito acelerado, de concentração de renda. Em apenas cinco anos, a fatia do bolo pertencente ao 1% mais rico cresceu 50%. A renda das demais pessoas caiu a ponto de prejudicar sua alimentação - e aumentar a mortalidade infantil em 16% em determinadas regiões do país. Seu líder fazia discursos cada vez mais inflamados, nos quais se dizia "inimigo do capitalismo". Essa nação era a Alemanha. Seu líder, Adolf Hitler. A consequência, a Segunda Guerra Mundial.

por Ricardo Lacerda
e Robson Pandolfi

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Os 67 ultrarricos:

(1) Bill Gates, US$ 80,9 BI - Microsoft - EUA
(2) Carlos Slim Helu & família, US$ 78,7 BI - América Móvil - México
(3) Warren Buffett, US$ 68,4 BI - Berkshire Hathaway (investimentos) - EUA
(4) Amancio Ortega, US$ 58,1 BI - Zara - Espanha
(5) Larry Ellison, US$ 48,8 BI - Oracle (software) - EUA
(6) Charles Koch, US$ 41,9 BI - Koch Industries (energia) - EUA
(7) David Koch, US$ 41,9 BI - Koch Industries - EUA
(8) Christy Walton & família, US$ 37,9 BI - Walmart - EUA
(9) Jim Walton, US$ 36,6 BI - Walmart - EUA
(10) Mark Zuckerberg, US$ 35,5 BI - Facebook - EUA
(11) Alice Walton, US$ 35,1 BI - Walmart - EUA
(12) S. Robson Walton, US$ 35,1 BI - Walmart - EUA
(13) Michael Bloomberg, US$ 34,5 BI - Bloomberg (mídia) - EUA
(14) Liliane Bettencourt & família, US$ 34.2 BI - L¿Oreal - França
(15) Sheldon Adelson, US$ 32,1 BI - dono de cassinos - EUA
(16) Li Ka-shing, US$ 31,3 BI - portos e empresas de plástico - Hong Kong
(17) Stefan Persson, US$ 30,4 BI - H&M (roupas) - Suécia
(18) Bernard Arnault & família, US$ 30,2 BI - LVMH (Louis Vuitton) - França
(19) Larry Page, US$ 29,9 BI - Google - EUA
(20) Sergey Brin, US$ 29,5 BI - Google - EUA
(21) Jeff Bezos, US$ 26,9 BI - Amazon - EUA
(22) Carl Icahn, US$ 25,5 BI - investidor - EUA
(23) Michele Ferrero & família, US$ 25 BI - Grupo Ferrero (chocolates) - Itália
(24) George Soros, US$ 24 BI - investidor - EUA
(25) David Thomson & família, US$ 24 BI - Thomson Reuters (mídia) - Canadá
(26) Forrest Mars Jr., US$ 23,1 BI - Mars INC. (CHOCOLATES) - EUA
(27) Jacqueline Mars, US$ 23,1 BI - Mars Inc. - EUA
(28) John Mars, US$ 23,1 BI - Mars Inc. - EUA
(29) Aliko Dangote, US$ 23 BI - Dangote Group (açúcar) - Nigéria
(30) Lee Shau Kee, US$ 22,4 BI - dono de hotéis e imóveis - Hong Kong
(31) Steve Ballmer, US$ 22,3 BI - Microsoft - EUA
(32) Mukesh Ambani, US$ 21,8 BI - Reliance Industries (energia e telecom) - Índia
(33) Al-Waleed Bin Talal Alsaud, US$ 21,5 BI - família real - Arábia Saudita
(34) Jorge Paulo Lemann, US$ 21,5 BI - 3G Capital (controladora da ambev) - Brasil
(35) Phil Knight, US$ 21,4 BI - Nike - EUA
(36) Michael Del, US$ 21,1 BI - Dell - EUA
(37) Jack Ma, US$ 21 BI - Alibaba Group (comércio eletrônico) - China
(38) Len Blavatnik, US$ 19,7 BI - investidor - EUA
(39) Dilip Shanghvi, US$ 17,9 BI - Sun Pharmaceutical Industries - Índia
(40) Leonardo Del Vecchio, US$ 17,8 BI - Luxottica (óculos) - Itália
(41) Alisher Usmanov, US$ 17,5 BI - USM Holdings (mineração) - Rússia
(42) Tadashi Yanai & família, US$ 17,1 BI - Fast Retailing (varejo) - Japão
(43) Paul Allen, US$ 17 BI - Microsoft - EUA
(44) Masayoshi Son, US$ 16,8 BI - Softbank - Japão
(45) Michael Otto & família, US$ 16,6 BI - Otto GmbH & Co (varejo) - Alemanha
(46) Laurene Powell Jobs & família, US$ 16,6 BI - Apple, Disney - EUA
(47) Theo Albrecht Jr & família, US$ 16,5 BI - Trader Joe¿s (varejo) - Alemanha
(48) Charles Ergen, US$ 16,2 BI - Dish Network (TV por assinatura) - EUA
(49) Robin Li, US$ 16,1 BI - Baidu (internet) - China
(50) Gina Rinehart, US$ 15,9 BI - Hancock Prospecting (minérios) - Austrália
(51) Anne Cox Chambers, US$ 15,8 BI - Cox Enterprises (mídia) - EUA
(52) Mikhail Fridman, US$ 15,7 BI - Alfa-Bank - Rússia
(53) Joseph Safra, US$ 15,5 BI - Banco Safra - Brasil
(54) Viktor Vekselberg, US$ 15,4 BI - Renova Group (energia e telecom) - Rússia
(55) Susanne Klatten, US$ 15,3 BI - BMW - Alemanha
(56) Donald Bren, US$ 15,3 BI - Irvine Company (imóveis) - EUA
(57) Ray Dalio, US$ 15,2 BI - Bridgewater Associates (investimentos) - EUA
(58) Luis Carlos Sarmiento, US$ 15,1 BI - Grupo Aval (banco) - Colômbia
(59) Pallonji Mistry, US$ 15,1 BI - Shapoorji Pallonji Group (construção) - Índia/Irlanda
(60) Azim Premji, US$ 15,1 BI - Wipro (tecnologia) - Índia
(61) German Larrea Mota Velasco & família, US$ 14,8 BI - Grupo Mexico (mineração) - México
(62) Dieter Schwarz, US$ 14,7 BI - Schwarz Group (varejo) - Alemanha
(63) Ma Huateng, US$ 14,7 BI - Tencent (internet) - China
(64) Harold Hamm, US$ 14,6 BI - Continental Resources (energia) - EUA
(65) Lui Che Woo, US$ 14,5 BI - Galaxy Entertainment (hotéis e casinos) - Hong Kong
(66) Thomas & Raymond Kwok & família, US$ 14,5 BI - Sun Hung Kai (imóveis)Properties - Hong Kong
(67) Lakshmi Mittal, US$ 14,5 BI - ArcelorMittal (mineração e aço) - Índia

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segunda-feira, 6 de abril de 2015

H. P. Lovecraft

H. P. Lovecraft está em alta no mercado editorial brasileiro: uma biografia (A VIDA DE HP LOVECRAFT, de S. T. Joshi, 16x23cm, 446 páginas, brochura) e uma coletânea (OS MELHORES CONTOS DE HP LOVECRAFT, 16x23cm, 742 páginas, brochura) com seus melhores textos acabam de ser lançadas pela editoraHedra, com venda exclusiva na Livraria Cultura. Leitura de primeira, recomendadíssima, mas volumosa – e cara. Uma boa opção para quem tem pouco tempo e/ou recursos é recorrer à sempre providencial coleção de livros de bolso da editora L&PM, de Porto Alegre. Saiu no final do ano passado mais uma edição dedicada ao autor, encabeçada por um de seus contos mais clássicos – “Nas Montanhas da Loucura e Outras Historias de Terror”, 17,6x10,6cm, 272 páginas. Trata de uma expedição à Antártida empreendida por cientistas que se deparam com horrores ocultos oriundos de uma civilização alienígena há muito esquecida. Flerta com a ficção científica, o que faz com que inevitavelmente alguns trechos, como os que descrevem a geografia do continente gelado, então praticamente inexplorado, e os métodos utilizados para as viagens espaciais, soem um tanto quanto datados e inverossímeis à luz do conhecimento que temos hoje em dia, mas são imensamente imaginativos e certamente causaram grande impacto na época em que foi escrito – foi publicado originalmente em fascículos pela revista Weird Tales em 1931. Completando o livrinho, duas histórias “de assombração” que lidam com alguns dos mitos mais recorrentes do gênero, como a bruxaria e o vampirismo, e um conto curto que volta ao tema da exploração do oculto.

Howard Phillips Lovecraft é o legítimo sucessor do maior de todos os escritores da literatura de horror gótica, Edgar Allan Poe. Enriqueceu seu legado com elementos de exploração científica, utilizando-se, por exemplo, de teorias como a relatividade e a física quântica para imaginar o além como uma miríade de dimensões paralelas e desconhecidas.


Era também fascinado por mitos ancestrais e influenciou decisivamente a cultura pop do século XX, apesar de sua declarada aversão ao ritmo frenético da sociedade industrial.

A.

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domingo, 5 de abril de 2015

HEIL CLINT !!!

Achei justa a premiação de Birdman como melhor filme no oscar deste ano. Alejandro González Iñárritu vê coroada uma carreira brilhante que começou com uma espécie de trilogia de histórias com tramas paralelas – Amores brutos, 21 gramas e Babel. Deu uma “escorregada” com o chatíssimo Biutiful mas se redimiu com louvor ao dirigir esta brilhante crítica ao mundo da industria do entretenimento, que suga a alma de todos que dela participam, na frente ou por trás das telas - e dos palcos. Torcia também por "Boyhood", mas "tá valendo" ...

Por outro lado, não gostei do resultado do melhor filme estrangeiro. "Ida" é bom, mas "Relatos Selvagens" é melhor. O primeiro é intimista e introspectivo - conta, numa bela fotografia em preto e branco, a história de uma freira polonesa que começa a se descobrir ao desenterrar alguns fantasmas do passado de sua família - e do país. O segundo é quente, vibrante, pulsante - latino! São pequenas cronicas de situações-limite narradas em tom farsesco, mas sempre com um fundo de verdade ou verossimilhança. Trata a vida como ela é: um dantesco teatro do absurdo. Mas com bom humor, o que faz toda a diferença.

Em todo caso, é interessante notar como a premiação do Oscar está se descolando da preferência do público. Dos indicados a melhor filme deste ano de 2015 apenas um é sucesso de bilheteria: “Sniper Americano”, que se tornou um fenômeno e já é considerada a produção do gênero – guerra – mais bem sucedida da história.

INFELIZMENTE, porque se trata, na verdade, de uma abjeta propaganda belicista e protofascista que se dedica, de forma absolutamente desonesta, a glorificar um psicopata. Desonesta porque omite informações cruciais para justificar o injustificável: num momento estamos diante da comoção do personagem principal, um cowboy texano fracassado criado no fundamentalismo religioso , com as imagens dos ataques às torres gêmeas. Na cena seguinte já o vemos no Iraque, dando cobertura às tropas invasoras como atirador de elite ...

Acontece que uma coisa não tem nada a ver com a outra! É público e notório que Bush, o presidente de então – republicano, mesmo partido do diretor, Clint Eastwood - utilizou-se de pelo menos duas mentiras para realizar seu intento: a suposta existência de um arsenal de armas de destruição em massa, nunca encontrado, e as conexões do governo de Saddan Hussein com organizações terroristas, também nunca comprovadas. Muito pelo contrário: Saddan era inimigo jurado de morte da Al Qaeda, já que mantinha com mãos de ferro um regime ditatorial, mas laico, num território cobiçado pela “jihad”. Sua queda, aliada à crise provocada pela guerra civil na Síria, abriu espaço para o terror absoluto personificado no Estado Islâmico.

De posse dessa informação, que é pública e notória, mas que as pessoas podem muito bem ter esquecido – vivemos na era da distração, ninguém mais presta atenção nem lembra de nada – não faz o menor sentido a história de bandidos contra “mocinhos” que vemos na tela. Se pelo menos o filme fosse, REALMENTE, muito bom, ainda teríamos algo a se comemorar. Mas não é o caso. No geral, é competente, claro, afinal Clint é um “senhor” diretor, com um extenso currículo que pesa a seu favor, neste quesito. Mas não é nada demais. Eu, particularmente, achei chatíssimo: uma sucessão infinita de cenas de ação manjadas com dramalhões familiares chorosos e personagens pra lá de caricatos, feitos sob medida para provocar repulsa e empatia na platéia amorfa. Com direito, inclusive, a uma cena “chave” em que a nítida utilização de um boneco substituindo um bebê quebra todo o impacto dramático. Já tinha lido numa resenha e confirmei na sessão – lotada! – em que assisti: todo mundo nota! Chega a ser vexaminoso ...

Enfim, passe longe! Se você, por algum motivo, quer ver uma obra de arte com viés ideológico de extrema direita que valha a pena, do ponto de vista estético e/ou artístico, fique com alguma reprise dos clássicos de Leni Riefensthal ou de David Wark Griffith. As cenas finais de Sniper Americano, que mostram imagens reais do sepultamento do "herói", até lembram os desfiles retratados no célebre documentário nazista "O Triunfo da Vontade". Mas as semelhanças param por aí. O filme da diretora preferida de Hitler é reconhecidamente um clássico. O de Clint é um lixo. O triunfo da mediocridade.

Passou do tempo de se aposentar, caubói ...




quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Luta Armada contra a ditadura foi legítima defesa

O terrorismo político entrou na política brasileira na década de 60 pelas mãos da direita. Antes mesmo da deposição de João Goulart, e sem nenhuma relação direta com as conspirações para derrubá-lo, militantes da extrema direita e oficiais do exército atacaram a tiros o congresso da UNE que se realizava em julho de 1962 no hotel Quitandinha, em Petrópolis. Dois automóveis dispararam contra estudantes que estavam nos jardins, ferindo dois deles. A operação foi creditada ao Movimento Anti-Comunista, o MAC, e dela participou um major do Exército. Desde 1963 existia em São Paulo um Comando de Caça aos Comunistas, o CCC, formado por jovens ligados a políticos conservadores e a militares que a essa altura tangenciavam conspirações. Davam-se muito mais a tumultos, estorvando ou impedindo conferências de políticos governistas, do que a atentados. O MAC, apesar da notoriedade adquirida pelo ataque de Quitandinha, era mais conhecido pelas suas pichações garrafais nos muros de edifícios da Zona Sul do Rio de Janeiro do que por reais enfrentamentos.

Na radicalização anterior a abril de 1964 as coisas mudaram. Como dissera o industrial Jorge Bhering de Mattos, diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro: "Armai-vos uns aos outros porque nós já estamos armados". Só no Rio de Janeiro acharam-se cinco depósitos de armas. (...)

Até março de 1964 conceberam-se pelo menos três atentados contra João Goulart. O primeiro veio à cabeça do tenente-coronel Roberto Hipólito da Costa, comandante da Base Aérea de Fortaleza, em 1963. Tratava-se de abater o Viscount presidencial quando ele fosse ao nordeste. Outro foi descoberto e desativado pelo general Antonio Carlos Muricy no dia 11 de março. Um major havia reunido gasolina e oficiais para incendiar o palanque do comício da Central, no dia 13, com o presidente de República e a cúpula do governo em cima. Muricy, o conspirador que duas semanas depois comandaria as tropas mineiras rebeladas, dissuadiu o major. O terceiro ocorreria durante o comício de Jango em Belo Horizonte, marcado para o dia 16 de abril. Nesse dia o alvo já estava em Montevidéu. (...)

"A Direita se arma"

em "A Ditadura Envergonhada"

por Elio Gaspari

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