terça-feira, 28 de agosto de 2012

Eh Coda ...

               Para além do aparentemente eterno rosário de lamentações de artistas que não aceitam críticas honestas, caso estas lhes sejam desfavoráveis, e do ego inflado de críticos que dedicam sua verve a tentar derrubar auto-intitulados ícones de seus pedestais de barro muitas vezes de forma gratuita, apenas para testar seu poder como “formador de opinião” – ou que simplesmente sucumbem à “brodagem” e apresentam-se como aquele novo partido que se diz sem ideologia, incolor, inodoro e sem gosto – quero aqui deixar registradas minhas impressões sobre o disco e o show da última sexta feira de Vicente Coda e a Paraphernalia - com um desde já manifesto desejo de ser honesto sem ser injusto. Endurecer, pero sin perder La ternura ...

               Conheci Vicente Coda em algum momento da década de noventa do século passado num show na extinta Organtecc, loja de skate situada na Avenida Barão de Maruim que eventualmente abria sua pista para apresentações de artistas alternativos locais. Já no primeiro encontro me pareceu uma figura, no mínimo, excêntrica -vestia uma touca e um colar com um CD pendurado no pescoço, um figurino “exótico” mesmo para aqueles tempos de “funk metal”. A primeira impressão se confirmava a cada novo encontro, nos quais ele estava sempre com um novo projeto em mente e meio que “atirando para todos os lados”, ora no campo da musica, ora das artes plásticas, ora na literatura – esta última, que eu saiba, ficou apenas na intenção.

               Coda é, com orgulho (ele sempre frisa), pioneiro do cenário “roqueiro” local, que nasceu (ou renasceu, não sei, não conheço nada do rock sergipano pré-anos 80) na onda “new wave” que sacudiu o Brasil com a redemocratização, na metade da década de oitenta. Foi um dos fundadores da Karne Krua, pioneira banda punk sergipana que é, atualmente, a mais antiga em atuação ininterrupta (nunca parou) no nordeste. Sempre inquieto, logo cedo abandonou os limites do rock baseado nos três acordes básicos em prol de algo mais experimental, fundando bandas como Fome Africana, Blow up, Sopro da Arte, orelha de Van Gogh (nome emprestado de um antigo grupo baiano)e, agora, a “paraphernalia”.

               Com o tempo e a convivência – nem sempre tranqüila, vez por outra nos estranhamos - aprendi a, no mínimo, respeitar a perseverança e a força de vontade de Vicente Coda. Acho que nunca conheci, em toda a minha vida, alguém que acreditasse tanto em seu próprio trabalho. Gostando ou não do que ele faz, é preciso reconhecer que ele é “gente que faz”. E isso já é muito, neste cenário cultural desértico em que vivemos. Não foi diferente com seu novo projeto, cuja gênese acompanhei e posso testemunhar que já nasceu sob o signo do experimentalismo hermético, com um espírito de “foda-se”. “É para poucos mesmo”, ele não cansava de repetir.

               Não sei se é para mim. Em termos de cultura “Beatnik”, sou quase um neófito. Ouço falar desde que me conheço como gente, mas só fui conhecer com alguma profundidade recentemente, quando finalmente li “on the Road”, a Bíblia beat escrita por Jack Kerouac. Gostei muito, mas talvez fique só nisto mesmo. Eu reconheço: sou limitado e tenho dificuldade em ler poesia, o que certamente me manterá afastado de boa parte da produção desta turma – e taalvez, por tabela, da inteira compreensão da obra de Vicente Coda.

               Devo dizer, no entanto, que me surpreendi com o resultado final de seu ousado (ou pretensioso, dependendo do ponto de vista) CD duplo, “A Viagem de Christine ao Universo da Beat Gemeration”. Para além do título pomposo e da mistura aparentemente sem pé nem cabeça da História de Alice no país das maravilhas com a daqueles intelectuais drogados e largados, “siderados” e sexualmente liberados, certamente muito à frente do seu tempo, há uma boa produção, com bons arranjos emoldurando faixas que geralmente são, não sei se propositalmente ou fruto da personalidade ansiosa e inquieta de seu autor, apenas esboços de músicas e/ou poemas musicados.

               Se eu dissesse que já ouvi o disco inteiro, na sequencia e de cabo a rabo, de uma vez só, como Vicente me recomendou, estaria mentindo. Mas no que ouvi, encontrei bons momentos, principalmente na percussão eletrônica pesada mesclada a fraseados de violão e bons riffs de guitarra de algumas faixas – não me perguntem qual, por favor, é complicado! Não me confundam!  Já a voz continua sendo um problema, como também o são algumas letras demasiadamente carregadas de clichês ...       

               Ou não! Vicente Coda acha que pode cantar, e porque não poderia? Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Ele quis, correu atrás e fez! Fez inclusive um, com o perdão do linguajar chulo, “puta show”, sexta-feira passada, no Teatro Atheneu. “Whit a little help” from many friends, é preciso frisar, mas fez! Acreditou e fez. Eu, que tenho o costume de valorizar aqueles que vivem aquilo em que acreditam, fiz questão de prestigiar. Fui lá, comprei meu ingresso, sentei na minha confortável cadeira (uma delícia o teatro depois de reformado, poltronas fofinhas e ar condicionado geladinho) e me diverti entre amigos, dentro e fora do palco.

               Achei a primeira parte do show, em alguns momentos, bem chata, mas aos poucos, à medida que o espetáculo evoluía rumo a passagens menos “herméticas” e mais musicais/teatrais, fui me deixando envolver pelo clima de celebração valorizado pela boa produção e, mais uma vez, pelo evidente talento de todos os que contribuíram para a empreitada. Viajei nos solos de guitarra de Cleo, nas batidas disparadas pelo DJ Leo Levi, na percussão de Ton-Toy, nas levadas de baixo de João Valiatti, nas cordas de Constantino (em dueto com Silvio Campos), nos sopros envenenados de José Gentil, nos backing vocais oníricos da musa Alice Nou, nas intervenções de atores espalhados pela platéia e no belo dueto entre dois dos fundadores do rock sergipano, Luiz Eduardo, da Crove (Horrorshow) e Silvio “suburbano”, “Imperador do Hard Core” e membro fundador da Karne Krua, da Maquina Blues, Words Guerrilla, Sartana, Logorreia, Casca Grossa, Cruz da Donzela e ET Cetera ...

               Viajei porque é uma viagem. Embarquei porque quis embarcar. Quem não quiser, não precisa. Ninguém é forçado a nada – ou, pelo menos, não deveria.

               Achei o disco interessante.

               Gostei do show.

               É isso.

               A. 


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

1912 - PITANGAS BRAVAS - O Anjo pornográfico

Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa.  Nasci menino, hei de morrer menino.  E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista.  Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.

Nelson Rodrigues.

No Brasil de 1912, se havia uma cidade adormecida, ideal para se viver ou morrer de tédio ou velhice, esta era o Recife em que nasceu Nelson Rodrigues. O cenário podia lembrar Veneza, mas a atmosfera estava mais para a Verona de “Romeu e Julieta”, com seus arranca-rabos entre Capuletos e Montéquios. No dia 23 de agosto daquele ano, por exemplo, enquanto Nelson abria os olhos para a realidade além-útero e se sentia expulso do paraíso materno, a política pernambucana ardia em labaredas e o sangue respingava sobre o rio Capibaribe.

Duas facções terçavam bigodes nas ruas: de um lado, a dos caciques políticos Rosa e Silva e Estácio Coimbra, recém-apeados do poder pelo marechal Hermes da Fonseca, presidente da República; de outro, a do novo governador, o general Emídio Dantas Barreto. E não se tratava de uma guerra entre blocos de sombrinhas e guarda-chuvas, embora o sucesso musical do ano fosse o frevo “Vassourinhas”, uma homenagem a Dantas Barreto. Os partidários das duas facções, muito mais realistas que os reis, competiam em violência, intrigas e golpes baixos — uma maneira suave de dizer, em português claro, que queriam trucidar-se mutuamente.
Com o agravante de que, como em qualquer luta política de província, os inimigos se esbarravam a toda hora no botequim, na barbearia ou no bumba-meu-boi, e o ódio recíproco já chegara ao ponto de alimentar-se da própria bílis. Se se perguntasse a alguém por que a rixa começara, ninguém mais teria a mínima idéia.
Naquele momento eram os homens de Dantas que estavam no poder e detinham a chave do paiol. Mas o outro lado ainda conservava os seus ninhos de armas e, com isso, emboscadas e tiroteios estavam se tomando perigosamente corriqueiros no Recife. Mesmo que fosse apartidário (esqueça; isso era quase impossível), um inocente transeunte que cruzasse a praça da Independência podia ver-se, de repente, apanhado entre dois fogos. E o jornalista Mário Rodrigues, pai de Nelson, podia ser acusado de tudo, menos de apartidário. Ou de inocente.
Um ano antes, em 1911, quando Nelson ainda não tinha sido sequer concebido e Rosa e Silva dava as ordens no Palácio do Campo das Princesas, Mário Rodrigues atravessou a praça em missão política para Dantas Barreto. Na verdade, tal missão consistia prosaicamente em passar um telegrama ao marechal Hermes contra Estácio Coimbra — mas um telegrama de Mário Rodrigues podia fazer mais estragos do que os beijos de Mata Hari a serviço do Kaiser.
Seja como for, Mário Rodrigues estava sozinho e desarmado no meio da praça quase deserta. Ao ver o jornalista de bandeja para uma tocaia que lhes parecia cair do céu, quarenta ou cinqüenta soldados da força estadual de Rosa e Silva, postados nos oitões do “Diário de Pernambuco”, cuspiram suas carabinas contra ele. Centenas de tiros foram disparados — e, incrivelmente, nenhum o atingiu. A pontaria dos cabras era tão horrenda que Mário Rodrigues teve tempo de jogar-se ao chão e esgueirar-se de gatinhas entre os coches e bondes estacionados em greve na praça. Quase levou a breca.
Outro mais sensato teria morrido de susto e se evaporado do Recife enquanto a situação continuasse quente — mas não Mário Rodrigues. Assim que se viu a salvo, deu “bananas” para seus agressores e apenas tomou mais cuidado nos meses seguintes. E, depois da intervenção federal, parte do risco acabou — porque, agora, as forças do Estado tinham de defender Dantas Barreto, novo ocupante do palácio.
Mas os adversários de Mário Rodrigues, na situação ou na oposição, tinham todos os motivos do mundo para querer silenciá-lo ou, no mínimo, quebrar-lhe a perna e alguns dentes. Panfletário impenitente, ele aliava a contundência quase suicida de seu ídolo Edmundo Bittencourt, diretor do novo jornal carioca “Correio da Manhã”, à exuberância condoreira do estilo de Euclides da Cunha em “Os sertões”. Em 1911 Mário colocara toda a sua pesada munição verbal a favor de Dantas Barreto. Escrevia o diabo contra Estácio Coimbra, chamando-o de estafermo para baixo nas páginas do “Jornal da República”, fundado por ele, Mário, com o dinheiro de Dantas. Não satisfeito, candidatara-se a deputado estadual pelo dantismo e fora eleito — e o resultado era o de que, agora, dava duplos motivos para ser adorado pelos correligionários e detestado pelos demais: como jornalista e como político. Era uma lenda viva que muitos queriam ver morta. Sabendo disto, desfilava pela Assembléia Legislativa com um revólver no cinto. Só que, bem ao seu estilo, sem balas.
Quando Mário nasceu, em 1885, já havia outro Rodrigues legendário no Recife: seu próprio pai Francisco Rodrigues, um corretor de terrenos e imóveis, reconhecível à distância pela barba e pelos cabelos vermelhos que lhe valiam o apelido de “Barba de fogo”. Francisco “Barba de fogo” era famoso pela audácia nos negócios e pela facilidade de multiplicar dinheiro, mas principalmente pela sua desvairada militância sexual — uma obsessão que seu casamento com dona Adelaide, fina dama da sociedade local, não perturbava nem um pouco. E nem podia perturbar porque, com pouco tempo de casados, Adelaide convencera-se de que, quando se tratava de atirar-se sobre qualquer mulher que lhe passasse à frente — solteira, casada ou viúva, linda, mais ou menos ou um bucho —, “Barba de fogo” precisava de dez para segurar.
Sem opções outras, Adelaide pesou os prós (pai amantíssimo, marido generoso) e os contras do marido (fauno insaciável), concluiu que ele era exemplar nos aspectos mais importantes e, num gesto de enorme renúncia, liberou-o para ter as amantes que quisesse. Com o que, para inveja dos homens do Recife, “Barba de fogo” tornou-se o único adúltero da cidade com “habeas corpus” fornecido pela própria esposa.
Ninguém consegue calcular o número de filhos que “Barba de fogo” teve fora do casamento, mas os oficiais, com dona Adelaide, foram três: Augusto, Maria e o caçula Mário. Todos podiam ser considerados acima de inteligentes, mas Mário surpreendeu a família ao aprender a ler e a escrever quase na primeira chupeta. A partir daí, sentou-se, cruzou as pernas e tornou-se um leitor compulsivo de jornais. Aos cinco anos, quando criou manualmente um jornalzinho — em tudo parecido com um jornal de verdade —, os parentes não acrescentaram ao fato um mísero ponto de exclamação. Acharam normal. De onde surgiu em Mário a fascinação infantil pelo jornal, não se sabe, mas, de certa forma, esta fascinação (infantil, quero dizer) nunca o abandonou.
Foi então que, em 1891, quando Mário tinha seis anos, Adelaide e “Barba de fogo” tomaram um navio vindo do Rio, que passara pelo Recife a caminho da Europa, e foram para Heidelberg, na Alemanha. Sem data para voltar. As crianças ficaram aos cuidados de um parente de sua mãe, um médico, doutor Coelho Leite. Ninguém sabia direito o que “Barba de fogo” e sua mulher tinham ido fazer na Alemanha, embora sua condição financeira lhes permitisse ir até a China, se lhes desse na telha. Coelho Leite achava que sabia: “Barba de fogo” teria câncer, provavelmente na laringe, e Recife não era a cidade ideal para tratá-lo. Heidelberg, com suas clínicas e hospitais de que falava o “Almanaque Capivarol”, talvez fosse.

“Barba de fogo” nunca voltou ao Recife. Fosse qual fosse sua doença, morreu poucos meses depois, em 1892, e foi enterrado lá mesmo, em Heidelberg. Adelaide não pôde trazer para o Recife o corpo do marido. Em compensação, trouxe uma canastra com uma coleção de pinturas em porcelana, que aprendera a fazer enquanto ele agonizava — e, mais importante, trazia no ventre outro filho de “Barba de fogo”.
Mas este filho não chegaria a nascer. No dia do parto, que seria feito pelo doutor Coelho Leite, a criança se recusou a sair. Mãe e médico lutaram durante horas pela criança, com sofrimentos inenarráveis para Adelaide. Finalmente, quando os músculos de Adelaide desistiram e mãe e filho iam morrer, só havia uma solução: a cesariana, uma cirurgia de que se ouvia falar — algo que parecia do outro mundo — e que nunca fora praticada no Recife. Coelho Leite queria fazê-la, mas, diz a história, nenhum outro médico ou enfermeira da cidade atreveu-se a ajudá-lo.
A cirurgia não foi feita e Adelaide morreu entre gritos desesperados de “Me salvem!” e “Não quero morrer!”.

Enterrados “Barba de fogo” e Adelaide num espaço de meses, três crianças restaram órfãs ao céu do Recife. Coelho Leite ficou como tutor de Augusto, Maria, Mário e do dinheiro supostamente considerável que “Barba de fogo” havia deixado. Mas esse dinheiro só era considerável nas mãos de “Barba de fogo” — ou então, como acreditavam os Rodrigues, o gato comera. Mário era um que tinha certeza. Coelho Leite fornecia-lhes as mesadas aos tostões, alegando que o câncer devorara também o dinheiro de “Barba de fogo” em Heidelberg. Alegou também que, pouco antes de morrer, Adelaide lhe passara uma caderneta que encontrara entre as coisas do marido. Ali estavam registradas todas as mulheres com quem ele tinha ido para a cama — centenas, quase mil, entre profissionais e amadoras. “Barba de fogo” era minucioso: especificava nome, cor dos olhos, tipo de seios etc., e quanto gastara com cada uma delas. O total daria para comprar a Ponte Giratória do Recife. Agora não chegava para comprar um patinete.
Mário Rodrigues nunca ficou muito convencido disso. Quando fez quinze anos em 1900, e já com a barba cerrada demais para continuar esmolando ao tutor, abriu mão de ajuda. Largou os estudos no fim do ginásio e enfrentou o batente. Entre outros biscates, foi pastor de cabras, sendo premiado com uma febre palustre que lhe arruinou o fígado pelo resto dos 44 anos que iria viver.
Mas Mário Rodrigues não era homem para ficar pastoreando cabras, vadias ou não. Era poeta, com uma produção de trovas e sonetos que, se publicados, dariam para vergar prateleiras. A poesia nunca lhe dera um colarinho limpo, mas propiciou-lhe uma intimidade com as palavras que o despachou rapidamente para o endereço certo: o “Jornal de Recife”. Ao estilo da imprensa romântica da virada do século, começou como revisor, mas quem o conhecia sabia que em dois tempos Mário seria promovido à redação. Levou só um tempo: menos de um ano.
Ele era baixo, robusto, compacto e tinha uma invejável fartura de cabelos pretos — inclusive nas sobrancelhas, que podiam ser penteadas com um ancinho. Difícil que uma mulher o chamasse de bonito, mas sua personalidade forte transbordava dos ternos bem cortados e devia fazê-lo parecer um homem atraente. O temperamento era desigual, sujeito a fúrias demolidoras e surtos idem de ternura, ambos assustadores pelo exagero. Sua capacidade de fazer amigos era tão grande quanto a de atrair inimigos. Aos amigos, tudo: era capaz de fechar bares apinhados e pagar para uma multidão. Aos inimigos, justiça — e Mário Rodrigues em campanha não tinha limites para sua agressividade. O fígado em pandarecos não o impedia de tomar cerveja como se o planeta fosse interromper brevemente o plantio de cevada.
Era muito inteligente. Leitor voraz, capaz de memorizar parágrafos inteiros à primeira leitura. Poderia ter sido o mais brilhante debatedor político de seu tempo se não fosse por um incômodo detalhe: era gago. Nos acessos de ira, a capacidade de articulação não acompanhava a velocidade de seu raciocínio — a gagueira tomava as rédeas e isso o deixava ainda mais apoplético. Dai porque, escrevendo, fosse invencível. Não era um homem de ideologia. Como panfletário, a política seria para ele uma questão de fortes simpatias ou antipatias pessoais — algumas tão repentinas que seus adversários veriam nessas transições a cor do dinheiro. Em resposta Mário Rodrigues impunha códigos de honra tão rigorosos para os mortais comuns que devia ser impossível — até para ele — cumpri-los.
Em 1903 conheceu Maria Esther e sinos soaram em seus corações. Se não se casassem morriam. Mário Rodrigues tinha apenas dezoito anos e Maria Esther, quinze, mas casamentos tão precoces eram comuns na “belle époque” nordestina. (Sim, houve uma.) Os dois só não dispararam alegremente para a igreja porque a menina, filha da severa e bem-sucedida família Falcão, encontrou forte oposição doméstica. Seu pai, João Marinho Falcão, funcionário do Governo, não via em Mário Rodrigues o partido ideal para entregar-lhe a filha então única. E a mãe, dona Ana Esther (protestante em último grau), desconfiava de que ele não fosse um homem assim tão temente ao Senhor. (Lembrar que, como filho de Francisco “Barba de fogo’ Mário Rodrigues era suspeito em princípio. Não se sabia de que, mas era.) E havia ainda uma sinuosa campanha das primas de Maria Esther contra esse casamento — embora, como ela descobriria depois, apenas porque elas também haviam ficado de olho no jornalista.
           Mas os Falcão não contavam com os recursos de Mário Rodrigues para vencer aquela resistência. Sua primeira providência foi ler toda a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, e decorar versículos, páginas e livros quase inteiros dos dois Testamentos. E, se houvesse um terceiro, ele o leria também. Como se sua aparente conversão não fosse suficiente para converter a ele a família, Mário Rodrigues passou a acompanhar Maria Esther e seus pais aos cultos da Igreja Batista e a cantar hinos. Em pouco tempo, ele próprio estava no púlpito, pregando com uma veemência de assustar os pecadores — e olhem que era gago. Não chegou a se tornar pastor, mas seus sermões transpiravam uma autoridade e convicção que surpreendiam até a ele.
Estava ganha a parada: um ano depois, em 1904, casou-se com Maria Esther — e, já na lua-de-mel, pareceu natural que as exigências de sustentar uma casa o fossem afastando aos poucos das atividades na igreja. Até que nunca mais apareceu por lá.

Perdeu-se uma vocação evangélica, certamente de ocasião, mas, contra todas as expectativas, Maria Esther ganhou um marido de sonho. Mário Rodrigues exercia suas funções conjugais com uma freqüência de tirar o fôlego. E, em muitos sentidos, foi impecável: retomou os estudos, aprendeu francês, entrou para a Faculdade de Direito do Recife e, em meio a toda a barafunda política, formou-se em 1909 como primeiro da turma — uma turma que tinha, em sua lista de chamada, o futuro escritor e diplomata Gilberto Amado. (O qual já se julgava Gilberto Amado, com todas as pompas a que um Gilberto Amado tinha direito.) Pois Gilberto Amado teve de contentar-se em ser o segundo da turma. Ao primeiro, que foi Mário Rodrigues, coube um prêmio de viagem à Argentina e ao Chile. Viajou como advogado, mas, longe de procurar seus colegas de toga, preferiu a companhia dos jornalistas: visitou jornais e revistas de Buenos Aires e Santiago, muito mais avançados e agressivos que os nossos, aprendeu como funcionavam, trocou idéias e fez amizades. Na volta, iria aplicar tudo isto aqui. E começou logo, ao juntar-se a Dantas Barreto e fundar o “Jornal da República”.
Enquanto conciliava o jornal, a política e os estudos, fez também a sua parte para cumprir o projeto que Maria Esther se impusera como mãe: o de ter doze filhos!
Nesse aspecto, eles foram avassaladores. Uma a uma, as crianças não paravam de nascer: Milton, em 1905; Roberto, em 1906; Mário Filho, em 1908; Stella, em 1910; Nelson, em 1912; Joffre, em 1915. Roído de ciúmes, Mário Rodrigues não acreditava na objetividade profissional dos obstetras ou ginecologistas e só admitia que Maria Esther fizesse seus partos com a doutora Amélia, a única médica do Recife. Se dependesse da doutora, Maria Esther pararia nos seis. Segundo a médica (uma otimista nata), seis filhos eram o que o corpo de uma mulher podia suportar sem perder a graça e a firmeza das linhas. “A partir daí, lavo minhas mãos”, dizia. Mas, nisto, quem não acreditava era Maria Esther — porque, nos anos seguintes, quando se mudassem para o Rio, ela teria outros oito, num deslumbrante total de catorze filhos.

Maria Esther tinha seus motivos para não temer uma gravidez atrás da outra. Numa época em que a medicina ainda guardava estreitas relações com o ofício de barbeiro e muitos partos eram um risco para a mãe, os dela eram suaves como seda e seus seis primeiros filhos tinham saído perfeitos. Seguiam até uma espécie de padrão quanto à cor do cabelo. O primeiro, Milton, era ruivo como o avô “Barba de fogo”; o segundo, Roberto, era moreno como o pai; o terceiro, Mário Filho, era de novo ruivo; pela ordem, Stella deveria ser morena, mas nasceu com cabelo vermelho; Nelson, a seguir, nasceu loiríssimo e assim ficou até quase os dez anos, quando seu cabelo escureceu e ele se incorporou ao time dos morenos; o sexto, Joffre, restabeleceu a linha vermelha. E eram fortes como o diabo: Milton tivera tifo e Nelson, aos dois anos, coqueluche, mas o resto foram “galos” e lombrigas.
No Recife, exceto por ver o marido apostando diariamente a vida em seus editoriais no “Jornal da República”, tudo era ainda ouro sobre azul para Maria Esther. Moravam numa ampla casa alugada na rua Doutor João Ramos, na Capunga, perto do Derby. No verão de 1915, Mário arrendou uma mansão na rua do Sol, em Olinda, a um quarteirão da praia do Farol, onde passaram a temporada. De dia, alugavam cavalos para cavalgar na areia, entre as pitangueiras anãs. A noite, contratavam orquestras para animar suas festas. Casais dançavam quadrilha e se excitavam nos breves instantes em que seus corpos se roçavam. Nelson tinha menos de três anos, mas não se iluda: nada lhe escapava.
Ele ganhara esse nome em homenagem ao almirante inglês Lord Nelson, vencedor da batalha de Trafalgar, em 1805. Seu irmão seguinte, Joffre, também era uma homenagem militar de Mário Rodrigues: ao marechal francês Joseph Joffre, vencedor da batalha do Mame, em 1915. Não se conclua por isso que Mário Rodrigues fosse um militarista, que não era — o que admirava nesses soldados era a audácia de arriscar estratégias suicidas e, afinal, vitoriosas. Na sucessão presidencial de 1910, marcada pela campanha civilista de Rui Barbosa contra o marechal Hermes, ele trabalhara por Rui. Mas agora estava ao lado de um soldado, o general Dantas Barreto, o qual, modestamente, também se considerava um herói militar: voluntário da guerra do Paraguai, veterano da campanha de Canudos e ex-ministro da Guerra do marechal Hermes. Mário Rodrigues via em Dantas uma predestinação guerreira de macho pernambucano e estava disposto a segui-lo até o fim.

           De repente, bomba no governo Dantas Barreto. Um dos favoritos do general, o chefe político Manuel Borba, dono dos votos do interior, rompeu espetacularmente com o líder em 1915 e lançou-se candidato à sua sucessão ao governo de Pernambuco. O dantismo, com Mário Rodrigues à frente, passou a considerá-lo um traidor, não só de Dantas, mas de Pernambuco inteiro — e, desfraldando esse exagero como uma bandeira, partiu para a guerra contra Manuel Borba. Até o ódio a Estácio Coimbra ficou em segundo plano. Mas Manuel Borba não era Estácio Coimbra. Conhecia o dantismo por dentro e concentrou seus ataques nas cabeças coroadas. Entre elas, a de Mário Rodrigues.
Os borbistas revelaram que ele tinha um cargo no governo — de curador de ausentes, responsável por intermediar contratos entre partes ausentes e o poder público — e insinuaram que, nessa função, ele devia receber muitos “presentes”. Mário Rodrigues podia ter-se defendido alegando, por exemplo, que não recebera esse cargo de Dantas, mas de um governador anterior, Herculano Bandeira. O que era verdade. Em vez disso, prestou contas, pediu demissão e, como contaria depois um amigo seu, o escritor Humberto de Campos, “enojado, limpou as mãos no focinho dos inimigos e foi embora para o Rio de Janeiro”.
O chão do Recife estava fugindo sob os pés de Mário Rodrigues. No último ano do governo Dantas, as coisas pareciam pretas para o dantismo e, em conseqüência, para Mário Rodrigues. O “Jornal da República” era o único jornal que ainda apoiava Dantas Barreto. Era natural que, para tirar-lhe o resto de chão, a imprensa inimiga fuzilasse diariamente o “Jornal da República” e seu diretor. Mário Rodrigues gostava de polêmicas, mas aquela era uma guerra de muitos contra um — e perdida, porque Dantas já não tinha com ele a opinião pública. Até a letra do frevo “Vassourinhas” fora mudada. Quando Dantas saísse do palácio, o “Jornal da República” ficaria de cuecas. Pois, desta vez, foi Maria Esther quem enxergou longe. Combinando sua intuição feminina com uma bela percepção do óbvio, começou a insistir com seu marido em que o futuro estava na Capital Federal — o Rio de Janeiro.

Mário Rodrigues tomou o vapor do Lloyd Brasileiro, deixou mulher, filhos e até o resto de seu mandato de deputado no Recife, e veio tentativamente para o Rio em fins de 1915. Seus únicos contatos na cidade eram os jovens Olegário e José Mariano Filho, filhos do herói abolicionista e republicano José Mariano, também de Pernambuco. Eles se davam com Edmundo Bittencourt, o proprietário do “Correio da Manhã”, e acolheram Mário Rodrigues enquanto tentavam que Edmundo o contratasse. Mas, nos primeiros meses, Edmundo não se interessou. Não que Mário Rodrigues parecesse muito preocupado. No Rio, uma cidade nova em folha depois da gigantesca reurbanização realizada pelo pref eito Pereira Passos, ele sentia no ar a rósea proximidade do verdadeiro poder e o perfume (nem tão próximo assim) das mulheres cariocas — as quais, como escreveu depois, andavam pelas ruas “esmagando almas”.
Mas a situação que deixara para trás, no Recife, não era tão rósea ou perfumada. O inimigo Manuel Borba vencera as eleições, o dantismo estava miseravelmente por baixo e seu irmão Augusto escreveu-lhe uma carta furibunda. Que voltasse imediatamente para o Recife, reassumisse o mandato e combatesse Manuel Borba com todos os dentes. Augusto tinha ascendência sobre Mário. Poucos anos mais velho, fora o seu apoio contra as sovinices do tutor Coelho Leite depois da morte de seus pais. O próprio Augusto, com grande tenacidade, formara-se em odontologia, mas torrava tudo o que ganhava em obras de arte cujo valor ninguém sabia ao certo.
Assim, Mário Rodrigues tomou o vapor de volta para o Recife e, em fevereiro de 1916, retomou o seu lugar na Assembléia pernambucana. Mas as coisas agora eram diferentes. Seu líder Dantas Barreto passara por cima de todos os cadáveres de 1911 e aliara-se ao ex-arquiinimigo Estácio Coimbra. O “Jornal da República” tornara-se o arauto dessa aliança. Mário Rodrigues sentiu-se pessoalmente traído. Não tinha como combater Manuel Borba naquela situação. Além do mais, Maria Esther não se conformava com a sua volta ao Recife — para ela uma cidade sinônima de instabilidade e incerteza. Obrigou-o a voltar para o Rio. Quando estivesse instalado e com emprego, mandasse-a chamar que ela seguiria com as crianças. E, então, Mário Rodrigues tomou mais uma vez o vapor para a capital. Ainda não sabia, mas deixara Maria Esther grávida de novo.
No Rio, desta vez, as coisas prometiam dar certo. José Mariano Filho conseguiu-lhe o emprego com Edmundo Bittencourt e Mário Rodrigues tornou-se redator parlamentar do “Correio da Manhã”. Isto significava cobrir o Congresso e tornar-se íntimo das qualidades e defeitos dos políticos nacionais. Qualidades e defeitos que, aliás, se revelavam muito menos no Palácio Monroe, onde funcionava o Senado, do que no cabaré “Assyrio”, ali ao lado, onde os políticos, juntamente com diplomatas e banqueiros, jantavam lagostas com champanhe entre belas mulheres que dançavam o “one step”.
Como se tivesse bicho-carpinteiro, Mário Rodrigues não se limitou ao trabalho no “Correio da Manhã”. Por fora, passou a mandar colaborações políticas para o “Jornal de Recife”. Um desses artigos foi que o salvou quando, poucos meses depois de contratado pelo “Correio da Manhã”, ele se desentendeu com o alagoano Costa Rego, poderoso secretário do jornal e braço direito de Edmundo Bittencourt. Costa Rego demitiu-o — e no pior momento possível: Mário acabara de receber um telegrama de Maria Esther informando-o de que vendera tudo no Recife e que estava embarcando com os filhos para o Rio.
Mário Rodrigues estava hospedado na casa de Olegário Mariano e de sua mulher Maria Clara em Botafogo. Sozinho no Rio, aquele era um arranjo conveniente para ele, sem ser um estorvo para Olegário e Maria Clara. Mas onde se instalar de repente com a mulher, seis filhos (um de colo, Joffre) e outro a caminho, como agora ele sabia? E, o que era pior, dramaticamente desempregado. Esta era a situação naquele julho de 1916 quando Mário Rodrigues foi com Olegário ao Cais Pharoux, na praça Quinze, esperar o vapor do Lloyd que trazia sua família.
Contra a vontade de seu cunhado Augusto, que a chamara de louca, Maria Esther vendera móveis e jóias para comprar as passagens e sustentar a si e as crianças durante a viagem — seis ou sete dias no mar, costeando o litoral e parando para despejar e recolher gente em Maceió, Aracaju, Salvador, ilhéus, Vitória e, finalmente, Rio. Entre refeições e gorjetas no navio, gastara o resto do dinheiro e chegara aqui sem um níquel. Mas Olegário Mariano foi magnífico. Acolheu todo mundo em sua casa, cama e mesa incluídas, desde que Mário Rodrigues não demorasse a tomar providências para empregar-se de novo e instalar-se em algum lugar. E bom notar que Olegário, com um ou dois livros publicados, ainda não era o “poeta das cigarras” — que só se tornaria em 1920 com o sucesso de seu poema “As últimas cigarras” — e muito menos fora eleito o “príncipe dos poetas brasileiros”, o que só viria a acontecer em 1926. Tinha seus recursos, mas não o suficiente para incorporar, por muito tempo, oito bocas pernambucanas à sua mesa.
Foi quando o acaso interferiu para envernizar a imagem de Mário Rodrigues junto a Edmundo Bittencourt e fazer com que ele fosse readmitido no “Correio da Manhã”. Um desses acasos tão felizes que fazem suspeitar de caso pensado. Uma de suas colaborações para o “Jornal de Recife” intitulava-se “A rapsódia de um panfletário” e era uma ode a Edmundo. Num trecho da matéria, reportando-se a antigas campanhas jornalísticas do ex-patrão, Mário Rodrigues escrevia: “Os artigos desse bravo, loucamente bravo nos seus impulsos de repúblico e nas suas revoltas de homem de bem, logo ribombaram como trovões contra a pederneira, para acordar a sociedade pusilânime, suicida num atascal de vilipêndio”. (Euclides da Cunha faria melhor?) E mais adiante: “A homens desse quilate não farei nunca a injúria de um cumprimento banal”.
José Mariano Filho fez com que o artigo de Mário Rodrigues chegasse ao conhecimento de Edmundo, e as portas do “Correio da Manhã” lhe foram abertas de novo. Reincorporado às suas funções de redator parlamentar, Mário Rodrigues finalmente pôs-se em campo em busca de uma casa para a familia. Encontrou-a na Aldeia Campista, um simpático arrabalde residencial espremido entre o Andaraí, a Tijuca, o Maracanã e Vila Isabel, na Zona Norte. Não era chique como as Laranjeiras, mas era o que ele podia pagar. Alugou-a, a 120 mil réis por mês, com o aval dos Mariano. Com vales do “Correio” e empréstimos de Olegário, comprou os tarecos essenciais para mobiliá-la. Um mês depois que a mulher e os filhos haviam desembarcado no Cais Pharoux, Mário Rodrigues pôs todo mundo num carro de praça em Botafogo.
Ele foi na frente com o chofer. Nos dois bancos de trás do velho “Hudson” de sete lugares (um banco de frente para o outro), viajaram Joffre no colo de Maria Esther, Nelson no de Milton e mais Stella, Mário Filho e Roberto. Uma hora depois, o carro chegou à Aldeia Campista e estacionou na esquina da rua Alegre com a Santa Luisa, ao lado de uma farmácia. Da janela, os vizinhos repararam no casal e na escadinha de filhos desembarcando e desaparecendo pela porta do nº 135 da rua Alegre.
O gramofone da casa ao lado tocava um big sucesso da época: a valsa da opereta “O conde de Luxemburgo”, de Franz Lehar.

INTRODUÇÃO

Esta é uma biografia de Nelson Rodrigues, não um estudo crítico. Aqui se encontrará onde, quando, como e por que Nelson escreveu todas as suas peças, romances, contos e crônicas, mas não espere “análises” ou “interpretações”. O que se conta em “O anjo pornográfico” é a espantosa vida de um homem — um escritor a quem uma espécie de imã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel.
Se a narrativa de “O anjo pornográfico” lembra às vezes um romance é porque não há outra maneira de contar a história de Nelson Rodrigues e de sua família. Ela é mais trágica e rocambolesca do que qualquer uma de suas histórias, e tão fascinante quanto. ~ quase inacreditável que o que se vai ler aconteceu de verdade no espaço de uma única vida. (Daí por que quando Nelson morreu em 1980, aos 68 anos, muitos achassem que ele era séculos mais velho.)
Esta não é também uma biografia crítica, no sentido de que, quando Nelson escrever, por exemplo, “Vestido de noiva”, irei interromper a história para teorizar sobre o significado profundo dessa peça ou qualquer outra. (Para isso, os interessados devem dirigir-se aos definitivos prefácios de Sábato Magaldi, que iluminam os quatro volumes do “Teatro completo” de Nelson Rodrigues, vide bibliografia.) No caso de “Vestido de noiva” (e das outras peças), o que eu queria saber era o que aconteceu antes, durante e depois da montagem, na platéia, no palco, nos bastidores e como isso se refletiu na vida de Nelson.
Mesmo porque o teatro nem sempre foi o palco principal de Nelson Rodrigues. Talvez nunca o tenha sido. Esse, se houve um, foi o jornal. Pode ter sido também a rua (ou a própria cidade do Rio de Janeiro), embora poucos brasileiros, exceto datilógrafos profissionais, tenham passado tantas horas atrás de uma máquina de escrever. (Nelson “escreveu” até durante os delírios provocados por insuficiência respiratória.)
Apesar de sua fenomenal produção, o único nicho em que ele passou a ser unanimemente aceito (e, mesmo assim, de uns tempos para cá) é o do teatro. Poucos sabem que o restante dessa produção, esgotado há décadas, é tão genial quanto seu teatro. (E os que sabem não se conformam com que o mundo não saiba.) A reabilitação está próxima, com sua publicação pela Companhia das Letras.
Durante muitos anos, Nelson Rodrigues carregou a fama de “tarado”. Em seus anos finais, a de “reacionário”. Ninguém foi mais perseguido: a direita, a esquerda, a censura, os críticos, os católicos (de todas as tinturas) e, muitas vezes, as platéias — todos, em alguma época, viram nele o anjo do mal, um câncer a ser extirpado da sociedade brasileira. E, olhe, quase conseguiram.
Mas, ao mesmo tempo em que queriam “caçá-lo a pauladas, como a uma ratazana prenhe”, havia também muitos para quem parecia impossível admirar Nelson Rodrigues o suficiente. Mesmo os seus piores inimigos nunca lhe negaram o talento — e não foram poucos os que o chamaram de gênio. Há quem arrisque até explicações espíritas para certos lampejos de Nelson. Para alguns, era um santo; para outros, um canalha; para todos, sempre, uma surpresa ambulante. Mas, como se verá, ninguém o conheceu direito.

por Ruy Castro

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Marte atacado – e outras histórias ...


Ray Bradbury morreu e de repente eu me dei conta de que ainda não havia lido sua outra obra-prima, “As Crônicas Marcianas”. Resgatei meu exemplar da “crítica roedora dos ratos” e, assim que pus os olhos sobre as primeiras páginas, senti que estava diante de algo realmente especial. Não conseguia mais parar: poucas vezes uma leitura me foi tão agradável. Seu texto é fluido, poético e extremamente imaginativo – o cara REALMENTE sabe como contar uma história que fisga o leitor e prende sua atenção. Não por acaso foi um dos roteiristas da célebre séria de TV “Além da Imaginação”.

Tratam-se de contos com narrativas independentes que, lidos em conjunto, formam um rico painel que discorre sobre uma fictícia colonização do planeta Marte pelos seres humanos da terra. O texto é pontuado por agudas observações sobre o espírito humano, como a arrogância, o egoísmo e o racismo - que se manifesta em toda a sua plenitude quando os negros do sul norteamericano resolvem partir rumo à nova fronteira; a avareza e o medo do desconhecido, retratada na figura do soldado que resolve montar uma banquinha de cachorro quente para atender às necessidades dos recém chegados e, por pura ignorância, acaba entrando em choque com os nativos;  ou a luxúria, sentimento que impele o último homem de marte ao encontro da última mulher marciana, num dos mais divertidos episódios.

Não é, no entanto, uma obra maniqueísta. Para além dos nossos defeitos, somos também apresentados como criaturas frágeis à procura de um novo lar – alguns dispostos a compartilhá-lo ou, depois da constatação de que isto não seria possível (os habitantes de Marte acabam sucumbindo a contaminações trazidas pelos humanos), impedir que a colonização avance – é o caso do personagem do aqueólogo Spender, que entra em conflito com seus companheiros da Quarta expedição. Ou do perito literário William Stendahl, que, imbuído de um espírito libertário que clama por vingança pela devastação da cultura na terra, prepara uma armadilha para os censores burocratas baseada nos livros de Edgar Allan Poe. Ou ainda do casal que alimenta a esperança do retorno de seu filho falecido na figura de um nativo telepata com os sentidos empáticos ampliados.

A telepatia, por sinal, é a principal característica dos habitantes originais do planeta. Através dela, eles são capazes de manipular a mente humana e confundi-la ao ponto de distorcer sua frágil noção de realidade – sem conseguir, no entanto, impedir seu avanço e resistir ao seus instintos belicistas. Há de se frisar, neste ponto, que o livro foi escrito no auge da guerra fria, quando a completa obliteração da civilização humana era uma ameaça que pairava de forma palpável sobre nossas cabeças.

Um clássico absoluto.

Obra-prima.

“Uma Breve História do mundo”, de H. G. Wells – Comprei e comecei a ler este volume da coleção “pocket” da LP&M de forma despretensiosa, apenas porque iria a um consultório médico e precisava de algo que me distraísse e me livrasse das “Caras” e “Veja”s que invariavelmente estão disponíveis por lá. Não sabia nada a respeito (a não ser o resumo informativo da quarta capa) e, portanto, não nutria maiores expectativas – até porque seria o primeiro livro que eu leria do autor, H. G. Wells, mais conhecido como um pioneiro da ficção científica. Me surpreendi! Trata-se de um excelente panorama da evolução humana em sua passagem pelo terceiro planeta do sistema solar – começando do princípio, da formação da terra, em si, passando pelo nascimento dos primeiros seres vivos, dos dinossauros, dos antepassados do homem e do surgimento da civilização até a data em que o livro foi escrito – 1922. Os últimos tópicos abordados são, portanto, a Revolução russa e a primeira guerra mundial, que no texto é chamada apenas de Grande Guerra, já que o autor não teria como saber que haveria uma segunda – muito embora, surpreendentemente, faça quase que uma previsão do futuro ao analisar os fatos e constatar que os conflitos que deflagraram a luta não haviam sido equacionados, o que provavelmente levaria o mundo a um novo confronto generalizado.

Surpreendentemente lúcidas e atuais, também, são suas análises sobre os motivos por trás de fatos históricos como a Guerra de Secessão americana, a revolução industrial, a revolução Francesa, a independência e a formação dos Estados Unidos da América, dentre outros. Há, inclusive, idéias ousadas, como a de que César, o célebre general romano que, involuntariamente (ou não) transformou a então republica no império que todos conhecemos, não era assim tão genial quanto nos foi levado a acreditar pela propaganda comandada por seu sucessor, Augusto, bem como de que o legado da Civilização romana foi importante no sentido de que organizou melhor o mundo, política e economicamente, mas não se compara com a herança cultural por nós herdada dos gregos - de quem os romanos eram também tributários, neste aspecto.

Igualmente interessante e inédita, pelo menos para mim, o destaque que o autor dá a uma época em especial, o Século VI a.C., no qual, em suas palavras, “a humanidade chegou à adolescência”. Nele viveram personagens como o profeta Isaías, Heráclito de Éfaso, Lao Tsé, Confucio, Gautama Buda e um tal Imperador Asoka, do qual eu confesso que nunca havia ouvido falar, mas que mereceu um capítulo à parte por sua sabedoria e por ter completado a conquista da península indiana. No século VI a.C., segundo Wells, “em todos os cantos da terra os homens estavam se libertando das tradições de realezas e sacerdócios e sacrifícios de sangue e fazendo as mais penetrantes perguntas”.

Há de se destacar, também, a fluência do texto e o tom épico/aventuresco da narrativa, que amarra os fatos de forma objetiva e sem didatismos ou academicismos, conseguindo nos transmitir, por exemplo, a surpresa com a qual os comandantes do mundo foram pegos pela ousadia de um desconhecido líder árabe chamado Maomé, que havia enviado emissários por todo o globo conclamando-os para que se curvassem diante de seu Deus, igualmente desconhecido – mas não por muito tempo, evidentemente. Ou sua observação de como a invenção do motor a vapor transformou o mundo ao encurtar as distancias, o que foi fundamental, por exemplo, para a formação de uma nação como os Estados Unidos da América.

Altamente recomendável para os que ainda não entenderam que a História é, acima de tudo, uma grande aventura – e vivida por todos nós, individual e coletivamente.

Excelente.

“O Homem do Castelo Alto”, de Phillip K. Dick – Um romance novelesco que se passa numa realidade alternativa onde o terceiro reich havia ganhado a segunda grande guerra e, portanto, dominava o mundo, tanto econômica quanto culturalmente, mas que vai aos poucos evoluindo rumo a um delírio que torna impossível ao leitor discernir entre a fantasia e a realidade – mesmo aquela fantasiosa na qual o livro, habilmente, nos faz mergulhar.

Excelente.

“On the Road – Na Estrada”, de Jack Kerouac – Este é um daqueles da séria “para ler antes de morrer”. Numa narrativa frenética impulsionada pelo ritmo alucinado e pela personalidade magnética de Dean Moriarty, o autor nos faz acompanhá-lo num infinito vai-e-vem pelas estradas americanas do final dos anos 40 e início dos cinqüenta em pequenas histórias regadas a sexo, drogas, jazz e Bebop. O comportamento libertário era, realmente, pra lá de ousado para a época e, não por acaso, influenciou boa parte da cultura pop subseqüente. As histórias são divertidas e o texto é bem escrito. Apenas as passagens por Denver são um tanto quanto maçantes.

Ótimo.

“O Apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger – Talvez eu tenha lido este livro na idade errada, já que não entendi muito bem o que há de tão especial na história sem graça de um garoto resmungão que foge da escola e vaga sem rumo por Nova Iorque odiando a tudo e a todos. Só li até o fim porque é muito bem escrito – e também porque, a exemplo dos garotos de South Park em um de seus melhores episódios, queria ver onde iria dar tudo aquilo. Não deu em nada.

Bom.

“Sandman”, de Neil Gaiman – E eis que, 20 anos depois, eu consegui: li, até o final, a saga de Sandman, obra-prima que Neil Gaiman escreveu entre os anos de 1988 e 1996. 20 anos porque foi aproximadamente este o tempo transcorrido entre o fim da distribuição das revistas em minha cidade, mo início dos anos 90, e a leitura da última página da edição de luxo em capa dura publicada pela Conrad que eu havia adquirido já há alguns anos. No final das contas, descobri que já havia conhecido as melhores histórias, como as dos arcos “A Casa de Bonecas”, “Um jogo de você” e, especialmente,  “Estação das Brumas”, no qual Lúcifer decide abandonar seus domínios, iniciando uma acirrada disputa pelas chaves do inferno, agora de posse do “Lorde Moldador”.

Foi muito bom acompanhar a narrativa até o fim e conhecer melhor personagens fascinantes como Desejo e Delírio, além, claro, da simpatissíssima Morte, pela qual eu já havia me apaixonado desde a primeira vez em que pus os olhos em sua edição de estréia, “O som de suas asas”. A leitura “compacta” nos proporciona, também, uma melhor compreensão da narrativa, amarrada aqui e ali por fatos que se conectam entre os arcos de forma brilhante.

O fim é um tanto quanto anticlimático, mas não chega a ser decepcionante, e acontece na verdade no penúltimo volume – não por acaso o maior de todos. O último é, apenas, um grande epílogo, que serve basicamente para nos deixar com gosto de “quero mais” - necessidade parcialmente suprida ao longo dos anos pela série “Sandman apesenta” e por algumas edições especiais esporádicas.

A lamentar, apenas, a tinta na qual foi impressa a obra, que tem colado as páginas com o passar do tempo, causando um estrago considerável durante o esforço para abri-las ...

Excelente.

“Calafrio, 20 anos depois” – diversos autores. – Esta revista de horror genuinamente brasileira marcou uma parte de minha infância e adolescencia. Foi publicada em 52 edições entre os anos de 1981 e 1992 por Rodolfo Zalla, um mito da HQ nacional.

Surpreendentemente, a revista voltou a circular a partir de agosto de 2011, o que me fez adquirir, finalmente, a edição especial lançada em 2002 pela Opera Graphica. Vale pelo saudosismo, mas a verdade é que a esmagadora maioria dos roteiros é fraquíssima, beirando a infantilidade, e pior: alguns contém gritantes erros de português. Salvam-se apenas as histórias assinadas pelos mestres Mozart Couto e Flavio Colin. Muito bom, também, o extenso texto introdutório assinado por Gonçalo Jr. que conta toda a luta heróica da Editora para se manter viva ao longo de sucessivos e desastrosos planos econômicos fracassados.

Fraca.

“Yeshuah – Assim em cima assim embaixo”, de Laudo Ferreira – Vasculhando as estantes das sessões de quadrinhos das livrarias de São Paulo me deparei com esta pequena obra-prima semi-desconhecida. Trata-se de uma visão bastante particular sobre a vida de Cristo, mesclando realismo histórico com passagens místicas e metafísicas. A idéia não é nova, evidentemente – Scorcese já havia feito o mesmo no cinema e Saramago na literatura – mas isto não diminui o resultado final, que é muito bem escrito, pesquisado e magnificamente ilustrado. Há continuações, preciso lê-las ...

Excelente.

“O paraíso de Zahra”, de Amir e Khalil  – Espécie de continuação informal da já clássica “Persépolis”, esta graphic novel discorre sobre a procura de uma mãe por seu filho, desaparecido nos protestos que se seguiram à reeleição, supostamente fraudulenta, do presidente iraniano Ahmadinejad. É uma via-crucis kafkiana por um pesadelo burocrático que expõe, basicamente, a mesma situação absurda denunciada no livro de Marjane Satrapi. A narrativa flui perfeitamente embalada pelos belíssimos e detalhados desenhos de Khalil (os autores usaram pseudônimos para não serem identificados) neste que tem tudo para ser, também, uma pequena obra-prima, a exemplo de seu par mais famoso – sobre o qual discorreremos a seguir.

O livro é acompanhado ainda de um glossário que explica diversas expressões árabes, apresenta as principais figuras políticas e religiosas do país e alguns textos e discussões sobre o Irã contemporâneo e os fatos retratados na história. Termina com uma chocante lista de 16.901 nomes, o Memorial Omid, de todos aqueles executados durante o período da República Islâmica do Irã.

O paraíso de Zahra é, também, o nome do principal cemitério de Teerã.
 
Ótimo.

“Persépolis”, de Marjani Satrapi – Autobiografia de uma iraniana que nasceu em família liberal e cresceu sob o obscurantismo da revolução fundamentalista islâmica. Simbiose perfeita entre narrativa pessoal e análise política, conquistou o mundo com sua prosa quase sempre bem-humorada, apesar do tema pesado – pois não há como não rir de situações absurdas como a que relata uma orientação dos “guardas da revolução” para que a garota não corra atrás de um ônibus perdido, pois isso a faz movimentar os quadris de forma insinuante, ao que ela responde que bastaria que eles não ficassem olhando tanto para a sua bunda. Ou o comercio clandestino de música pop ocidental através de fitas k7 que faz de Marjani, secretamente, uma punk fã do Iron Maiden. O clima só se torna realmente sorumbático em momentos dos quais não há, absolutamente, do que rir, como a época em que a autora viveu nas ruas depois de uma desilusão amorosa que a jogou numa depressão profunda.

Excelente.

“Daytripper”, de Fábio Moon e Gabriel Bá – Confesso que nunca fui muito fã dos textos das graphic novels produzidas pelos irmãos Moon e Bá. Os desenhos, por outro lado, são excelentes. Minha impressão não foi mudada por esta nova obra, aclamadíssima em todo o mundo e publicada pela Vertigo em edição luxuosa, com direito a capa dura e papel couchê.

São pequenas histórias que se cruzam e levam a diferentes rumos na vida (e na morte) do personagem principal, a partir de decisões que ele pode ou não tomar. O mais interessante é que tudo se passa no Brasil, e é bem raro ver nosso país retratado em quadrinhos numa edição tão bem cuidada.

O prefácio é assinado por Craig Thompson, autor do premiado “Retalhos”.

Bom.

“Local – ponto de partida”, de Brian Wood e Ryan Kelly – A partir de uma decisão difícil tomada pela personagem principal, Megan McKeenan, somos lançados numa jornada dividida em capítulos autocontidos, independentes entre si, que se desenrolam em diferentes cidades dos Estados Unidos e mostram o dia-a-dia de seus moradores em situações ora corriqueiras, ora sui generis, mas sempre interessantes. Belíssimo e pouco conhecido trabalho de Brian Wood, mais conhecido pela séria DMZ/ZDM.

Muito Bom.

“Substitutos”, de Robert Venditti e Brett Weldele – Obra que deu origem a um elogiado filme de ficção científica estrelado por Bruce Willis. A premissa é ótima: a robótica se desenvolveu a tal ponto que as pessoas praticamente não vivem mais suas vidas: se trancam em casa e deixam as tarefas externas a cargo de robôs substitutos, sempre mais bonitos, ágeis e elegantes que seus proprietários. De repente, alguém ou alguma coisa começa a destruir os autômatos, eletrocutando-os, o que dá inicio a uma eletrizante investigação conduzida pelo Detetive Harvey Greer e o Sargento Pete Ford.

Muito bom.

“João das Fábulas”, de Bill Willingham, Matthew Sturges, Tony Akins, Andrew Pepoy, Russ Braun e Andrew Robinson.– Esta sensacional série derivada de “Fábulas” finalmente começa a ser publicada no Brasil – só que, infelizmente, de maneira um tanto quanto confusa. Um primeiro arco foi disponibilizado em forma de minissérie com papel de qualidade inferior. Com o sucesso, surgiu um encadernado em capa de papel cartonado, nos mesmos moldes da publicação principal. Espero que continue assim. São as aventuras de João das Lorotas, um malandro egocêntrico engraçadíssimo e absurdamente auto-confiante em sua luta para escapar da perseguição do “revisor”, cujo objetivo é enclausurar as Fábulas num asilo para que sejam esquecidas pelo mundo.

Ótimo.

“Fábulas”, de Bill Willinghan – Grandes surpresas e eletrizantes aventuras nesta que é, na minha humilde opinião, a terceira melhor série em quadrinhos que eu já li – perde apenas para “Sandman” e “Preacher”, todas do selo Vertigo.

Excelente.

“Os Mortos-vivos”, de Robert Kirkman – A melhor saga envolvendo zumbis de todos os tempos (que me perdoe George Romero) chega ao seu momento mais tenso com o embate entre os grupos liderados pelo “Governador” e por Ricky Grimes. Um clímax absurdamente sangrento e com um desfecho corajoso no oitavo encadernado, “Nascido para sofrer”. Pelo que eu entendi, a história praticamente recomeça a partir daqui. O volume 9 já está disponível, e eu já estou juntando os trocados para adquiri-lo.

Excelente.

“ZDM” # 2 e 3, de Brian Wood e Riccardo Burchielli A panini retomou a publicação desta interessantíssima séria de forma grandiosa, publicando-a em capa dura e papel couchê. Merece. Belíssimos desenhos emolduram a epopéia de um jornalista amador preso na ZDM (Zona Desmilitarizada) da ilha de Manhattan em meio a uma bizarra nova guerra civil que dividiu, mais uma vez, os Estados Unidos da América. Sangue, suor, lágrimas e reflexões políticas e sociais.

Muito boa.

“Ex-Machina” – “Ex-Cátedra” e “Truques sujos”, de Brian K. Vaughan e Tony Harris – a saga do super-herói que virou prefeito de Nova Iorque retoma o fôlego depois de um certo marasmo em dois arcos de histórias sensacionais. No primeiro, ele é convidado ao vaticano apenas para descobrir que o real motivo do encontro com o papa é a desconfiança da igreja católica de que ele talvez seja, na verdade, o anticristo! De quebra, tem que lidar com perigosos mafiosos russos. No outro arco, o perigo vem dos céus através de uma “terrorista” perfomática sadomasoquista que insiste em pichar enormes impropérios contra o presidente George Bush nos céus e nos edifícios da cidade bem na época em que o prefeito Hundred consegue, enfim, convencer os Republicanos de que seria uma boa idéia, tanto para eles quanto para a reconstrução da imagem da “Big Apple”, que a convenção do partido acontecesse lá. Em meio ao caos, o personagem principal vai sucumbindo ao “lado negro da força”, manifestado através de novas e ousadas ambições políticas que o afastam cada vez mais de suas origens – algo que Kremlin, um de seus antigos companheiros, quer a todo custo evitar.

Imperdível.

“Y – O último homem”, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra – Segue muito bem, já perto do final, a saga de Yorick, o último homem sobre a terra. Na última edição que li (elas chegam com um atraso considerável às bancas de minha cidade, Aracaju) ele se vê às voltas com uma repórter que descobre seu segredo e teima em torna-lo público através da publicação de um tablóide sensacionalista. Tudo isso em meio à sua viagem em busca de Ampersand, o macaco macho que pode ser a chave para o mistério do apocalipse masculino, e de sua amada noiva, sumida no deserto australiano. Enquanto isso, do outro lado do mundo, a garota que estava grávida de Yorick e sua irmã, Hero, têm que enfrentar freiras fanáticas que esperam que seu filho seja um homem para que ele seja eleito papa, se comunique com Deus e busque junto ao Todo Poderoso a aprovação para que uma mulher possa se tornar “papisa”.

Sensacional.

Adelvan

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Putin, no quinto dos infernos ...


O mundo anda sensível, qualquer sopro lhe arrepia a pele marcada por acidentes, brutalidades, passeatas e ambições. Protestar contra a gestão de um presidente nas reentrâncias mais frias da geografia, por exemplo, pode render dois anos de prisão.

Maria Alyokhina, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich, integrantes da banda Pussy Riot, foram condenadas por um tribunal russo depois de rezarem à Virgem Maria para que despachasse o mandato de Vladimir Putin para o quinto dos infernos. Segundo a acusação, a apresentação da banda em uma Igreja Ortodoxa não constituiu uma ação política, mas de ódio religioso. Para o promotor Alexei Nikiforov, “usar palavrões numa igreja é um abuso contra Deus”.

A pirraça do todo poderoso Putin contra as militantes punk, única motivação razoável para o processo, já dura alguns meses, mobilizando a opinião pública internacional. O alegado pecado, no entanto, não nasceu agora. Adão, Eva, maçã e serpente provam. As manchas mais escuras em minha consciência, também.

Caicó arcaico 

O meu peito é que nem o de Chico César: Catolaico. Descrença e fé. O medo do coisa ruim não impediu o menino vaidoso de minhas primeiras rebeldias de sussurrar um repertório completo de obscenidades na Igreja São José, enquanto o resto do colégio se empanturrava com o corpo de Cristo na Primeira Comunhão. Os anjinhos pintados na abóbada do edifício me desafiavam. Nunca fui de levar desaforo pra casa.

Muitos pesadelos depois da ofensa, firmei um acordo íntimo e transferi o julgamento que atormentava meu sono para instâncias superiores, escondidas atrás das cortinas misteriosas que guardam o segredo do universo. Percebi que as minhas contas com o criador são fichinha perto das promissórias assinadas por gente poderosa, costurada no terno. O presidente Putin, por exemplo, não perde por esperar. Se um palavrão vale três anos de xilindró aqui embaixo, melhor ele se reconciliar com a ideia de um estado laico. A alternativa é o fogo eterno.

NOTA: Ao lado, na foto, ativista do grupo ucraniano FEMEN comemora a derrubada de uma cruz ortodoxa num ato de protesto contra a condenação das Pussy Riot.

por Rian Santos






quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Свободу Pussy Riot!

O julgamento contra a Pussy Riot, uma banda punk ativista de Moscou, está chegando ao fim. Após os pedidos de dentro da Igreja Ortodoxa Russa por uma punição dura à apresentação improvisada das artistas punk dentro da principal catedral de Moscou, os promotores pediram na terça-feira (7) por sentenças de três anos de prisão para cada uma das três mulheres acusadas. Os procedimentos apressados avançaram noite adentro.

Houve alegações na sala do tribunal de que as rés estavam vestindo roupas “obviamente contrárias às regras gerais da Igreja”. Foi até mesmo sugerido que as mulheres estavam possuídas pelo diabo, tendo “se contorcido e pulado satanicamente, erguido suas pernas, rodando suas cabeças e proferido palavras insultantes e blasfemas”.

Graças ao fraco ciclo de notícias do verão, dezenas de equipes de televisão de todas as partes do mundo vieram noticiar o julgamento grotesco na corte de Khamovniki, em Moscou.

Mas lentamente, tanto a comunidade ortodoxa russa quanto o Kremlin começaram a perceber que podem ter prestado um desserviço a eles mesmos com este processo impiedoso e bizarro contra as integrantes da banda anti-Putin. Um veredicto duro não servirá como dissuasor, alerta o clérigo e intelectual ortodoxo Andrei Kurayev. Pelo contrário, a Igreja está provocando crimes de imitadores e encorajando uma radicalização da oposição, ele diz. “Nunca houve escassez de jovens extremistas” na Rússia, acrescenta Kurayev.

Konstantin Sonin, um colunista do jornal de negócios “Vedomosti”, até mesmo falou em “o pior erro da Igreja desde 1901”. Naquele ano a Igreja Ortodoxa Russa excomungou o escritor idoso Leon Tolstói.

Onda de apoio

A juíza Marina Syrova disse na quarta-feira (8) que anunciaria o veredicto em 17 de agosto para Nadezhda Tolokonnikova, 23 anos; Maria Alekhina, 24 anos; e Yekaterina Samutsevich, 29 anos. Em uma recente entrevista dada por ele em Londres, quando as ativistas do Pussy Riot foram presas, o primeiro-ministro Dmitri Medvedev proibiu qualquer intervenção no caso –ao menos de entidades estrangeiras. Enquanto isso, durante uma breve visita aos Jogos Olímpicos de Londres, o presidente Vladimir Putin disse: “Eu não acho que o veredicto deverá ser severo”.

Não há como saber se a declaração de Putin, que geralmente nunca cede à pressão externa, sinaliza uma decisão de um tratamento mais brando à Pussy Riot. Mas o Kremlin certamente não arriscaria uma absolvição. Isso seria interpretado como uma vitória imensa para a oposição, e um tapa na cara da Igreja, uma aliada de longa data do Kremlin. E a Igreja também não ficaria satisfeita com uma grande multa para a banda. Por dias ela tem alertado que os muitos apoiadores da Pussy Riot levantariam facilmente o dinheiro.

Mas a Igreja e o Kremlin só podem culpar a si mesmos pelo inchaço do apoio mundial. O julgamento escandaloso contra a Pussy Riot revelou uma proximidade perturbadora entre a Igreja e o Estado na Rússia. Durante a era soviética, foi a agência de inteligência KGB e sua antecessora, a polícia secreta NKVD, que prendiam os fiéis e membros do clero, os trancando em gulags ou os matando à bala. Milhares de igrejas foram demolidas –entre elas a principal Catedral do Cristo Salvador, em Moscou. O ex-presidente Boris Yeltsin foi o primeiro a permitir sua reconstrução.

Mas Putin –um ex-chefe da KGB e líder de seu sucessor, o Serviço Federal de Segurança (FSB), nos anos 90– foi ainda mais longe. Por anos os agentes da inteligência cultivaram apoio entre os principais líderes da Igreja para ele. Uma pessoa teria dificuldade em encontrar qualquer sinal de que o patriarca ortodoxo russo Kirill teme o FSB. Enquanto transcorria o julgamento da Pussy Riot na semana passada, ele lançava a pedra fundamental da nova igreja da Academia do FSB em Moscou.

Reações exageradas

Foi exatamente essa relação estreita entre a Igreja e o regime de Putin que a Pussy Riot usou para justificar sua aparição na catedral de Moscou. E como seus oponentes parecem ser tão poderosos, e políticos conservadores como o filósofo de direita Alexander Dugin querem vê-las “queimar em uma pira”, a Pussy Riot conseguiu uma onda de solidariedade do Ocidente que até mesmo o ex-oligarca preso Mikhail Khodorkosky invejaria.

A lenda do pop Madonna defendeu uma sentença leniente durante um concerto em Moscou nesta semana, assim como muitos membros do Bundestag, o Parlamento alemão. Eventos de solidariedade foram realizados em Munique e um vídeo de apoio pela artista pop Peaches está planejado em Berlim. Até mesmo na tranquila cidade suíça de Winterthur, alguém teria pichado “Libertem a Pussy Riot” na lateral de um prédio.

Mas por mais questionável que possa ser o furor com que a Igreja e Justiça estão perseguindo a banda, as reações e expectativas do Ocidente são igualmente exageradas. O jornal britânico “The Observer” chamou o grupo de “a maior dor de cabeça política” de Putin. Enquanto isso, o semanário alemão “Der Freitag” perguntou: “Será que essas mulheres podem derrubar Putin?”

É claro que a resposta é não. Apesar de pesquisas mostrarem que a maioria dos russos desaprova os laços da Igreja com o governo em Moscou, dados do Centro Levada, um respeitado órgão de pesquisa, mostram que quase 47% dos entrevistados consideram a sentença máxima possível de 7 anos como uma punição “apropriada” para a banda.

Longe de serem heroínas folclóricas

Independente de quão provocadora ou excessiva possa ser a abordagem da Pussy Riot, elas ainda não são candidatas apropriadas para se tornarem heroínas folclóricas russas. A banda vem de uma cena de vanguarda de Moscou cujas iniciativas alienariam muitos também na Alemanha e no Ocidente. A ré Nadezhda Tolokonnikova, por exemplo, fazia parte de um grupo chamado Voina, que significa guerra. As artistas de protesto são famosas não apenas por virarem viaturas policiais e provocar o FSB com um falo enorme em frente de seu quartel-general, em São Petersburgo –mas também por promover uma orgia em massa em um museu de Moscou.

Isso torna improvável que as massas russas de mentalidade conservadora invadam o Kremlin em caso de uma condenação da Pussy Riot.

Conhecido por suas posições geralmente pró-governo, foi surpreendentemente o jornal “Izvestia” de Moscou, dentre todos, que expressou recentemente aquela que pode ser a conclusão mais apropriada sobre o julgamento. “O que é certo”, escreveu o jornal na semana passada, “é que no caso da Pussy Riot, todo mundo já perdeu –independente do julgamento terminar em absolvição ou não”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

por Benjamin Bidder
Der Spiegel
UOL

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Na pior em Paris e em Londres

Rue du Coq d'Or, Paris, sete da manhã. Uma sucessão de gritos furiosos, engasgados vem da rua. Madame Monce, que cuida do pequeno hotel que fica em frente ao meu, saiu na calçada para falar com uma hóspede do terceiro andar. Seus pés sem meias estão enfiados em tamancos e seus cabelos grisalhos escorrem soltos.

Madame Monce: "Salope salope! Quantas vezes já falei para não esmagar percevejos no papel de parede? Você se acha dona do hotel, é? Por que não joga os percevejos pela janela, como todo mundo? Putain! Salope! ".

A mulher do terceiro andar: "Fache! ".

Logo em seguida, um variado coro de berros, enquanto janelas se abrem por toda parte e metade da rua entra na discussão. Dez minutos depois, calam-se abruptamente, quando um esquadrão de cavalaria passa pela rua e as pessoas param de gritar para vê-lo.

Esboço essa cena apenas para transmitir um pouco do espírito da Rue du Coq d'Or. Não que altercações fossem a única coisa que acontecia ali - mas, mesmo assim, era raro passar uma manhã sem ao menos uma cena como a descrita. Bate-bocas e pregões desolados de vendedores ambulantes, a gritaria das crianças correndo atrás de cascas de laranja pelas pedras arredondadas do calçamento e, à noite, a cantoria alta e o fedor ácido dos carros de lixo compunham a atmosfera da rua.

Era uma rua muito estreita - um desfiladeiro de casas altas e leprosas, inclinadas umas em direção às outras de modo estranho, como se tivessem sido congeladas enquanto ruíam. Todas as casas eram hotéis, apinhados até o teto de hóspedes, em sua maioria poloneses, árabes e italianos. No térreo dos hotéis havia bistrôs minúsculos, onde se podia ficar bêbado pelo equivalente a um xelim. Nas noites de sábado, cerca de um terço da população masculina do bairro se embebedava. Havia brigas por causa de mulheres, e os trabalhadores braçais árabes que moravam nos hotéis mais baratos costumavam levar adiante rixas misteriosas e travá-las com cadeiras e, ocasionalmente, revólveres. À noite, os policiais só passavam pela rua em duplas. Era um lugar bem turbulento. Não obstante, em meio ao barulho e à sujeira, viviam os costumeiros comerciantes franceses respeitáveis, padeiros, tintureiros e assemelhados, quietos na deles e acumulando em surdina pequenas fortunas. Era um bairro parisiense miserável bastante característico.

Meu hotel se chamava Hôtel des Trois Moineaux. Um pardieiro escuro e inseguro de cinco andares, com quarenta quartos separados por divisórias de madeira. Eram quartos pequenos e cronicamente sujos, pois não havia criadas, e Madame F., a patronne, não tinha tempo para limpar nada. As paredes eram finas como caixas de fósforos e, para esconder as rachaduras, haviam sido recobertas por camadas e mais camadas de papel cor-de-rosa, que se soltava e abrigava incontáveis percevejos. Perto do teto, longas filas desses insetos marchavam o dia inteiro, como colunas de soldados, e à noite caíam sobre nós com um apetite devastador, de tal modo que precisávamos levantar de tempos em tempos e matá-los aos magotes. Às vezes, quando os percevejos eram demais, os hóspedes costumavam queimar enxofre e espantá-los para o quarto ao lado; então, o inquilino vizinho revidava, enxofrava o seu quarto e mandava os percevejos de volta. Era um lugar sujo mas acolhedor, pois Madame F. e seu marido eram boa gente. O aluguel dos quartos variava entre trinta e cinqüenta francos por semana.

Os hóspedes eram uma população flutuante, estrangeiros na maioria, que costumavam aparecer sem bagagem, ficar uma semana e desaparecer de novo. Eram de todos os tipos: sapateiros, pedreiros, canteiros, trabalhadores braçais, estudantes, prostitutas, trapeiros. Alguns eram incrivelmente pobres. Em um dos sótãos vivia um estudante búlgaro que fazia sapatos chiques para o mercado americano. Ficava sentado na cama das seis ao meio-dia, fazendo uma dezena de pares de sapatos para ganhar 35 francos; no resto do dia, freqüentava palestras na Sorbonne. Estudava teologia, e os livros se espalhavam pelo chão repleto de pedaços de couro. Em outro quarto, moravam uma mulher russa e seu filho, que se dizia artista. A mãe trabalhava dezesseis horas por dia cerzindo meias a 25 cêntimos o pé, enquanto o filho, decentemente vestido, vadiava pelos cafés de Montparnasse. Um dos quartos era alugado para dois inquilinos: um trabalhava de dia, o outro à noite. Em outro quarto, uma viúva dividia a mesma cama com as duas filhas crescidas, ambas tuberculosas.

Havia tipos excêntricos no hotel. Os bairros pobres de Paris são ponto de encontro de pessoas excêntricas - gente que caiu em trilhas solitárias e meio malucas da vida e desistiu de tentar ser normal ou decente. A pobreza as liberta dos padrões usuais de comportamento, assim como o dinheiro liberta as pessoas do trabalho. Alguns hóspedes de nosso hotel levavam vidas indescritivelmente curiosas.

Lá estavam os Rougier, por exemplo, um casal velho e nanico que se ocupava de um comércio extraordinário. Costumavam vender cartões-postais no bulevar St. Michel. O curioso é que os vendiam em pacotes fechados, como se fossem pornográficos, mas na verdade eram fotografias de castelos da região do Loire; os compradores só descobriam isso tarde demais e, é claro, jamais reclamavam. Os Rougier faturavam uns cem francos por semana e, com uma economia rígida, conseguiam estar sempre meio famintos e meio bêbados. A imundície do quarto deles era de tal ordem que se sentia o mau cheiro no andar de baixo. De acordo com Madame F., fazia quatro anos que eles não tiravam suas roupas.

Havia também Henri, que trabalhava nos esgotos. Era um sujeito alto e melancólico, de cabelos crespos, com certo ar romântico em suas longas botas de trabalho. A peculiaridade de Henri era não falar por dias a fio, exceto por motivos de trabalho. Havia apenas um ano, tinha um bom emprego de motorista e vinha guardando dinheiro. Um dia, apaixonou-se e quando se viu rejeitado pela garota perdeu o controle e deu-lhe um chute. Ao levar o pontapé, a garota se apaixonou desesperadamente por Henri e, por quinze dias, viveram juntos e gastaram mil francos das economias dele. Então, a garota foi infiel; Henri enfiou-lhe uma faca no braço e foi parar na prisão por seis meses. Assim que foi esfaqueada, a garota ficou mais apaixonada que nunca, os dois fizeram as pazes e resolveram que, quando saísse da cadeia, Henri compraria um táxi, eles se casariam e iriam morar juntos. Mas, quinze dias depois, a garota foi infiel de novo, e quando Henri saiu da prisão ela estava grávida. Henri não a esfaqueou novamente. Tirou todo o dinheiro da poupança, desandou a beber e acabou na cadeia por mais um mês. Depois disso, foi trabalhar nos esgotos. Nada o fazia falar. Se lhe perguntavam por que trabalhava nos esgotos, não respondia, apenas cruzava os pulsos, para dizer algemas, e apontava com a cabeça na direção da prisão. A má sorte parecia tê-lo deixado abobado em um único dia.

Havia ainda R., um inglês que vivia seis meses por ano em Putney, com os pais, e seis meses na França. Na temporada francesa, bebia quatro litros de vinho por dia e seis litros aos sábados. Certa vez, fora até os Açores, porque lá o vinho era mais barato do que em qualquer lugar da Europa. Era um sujeito gentil, domesticado, jamais grosseiro ou encrenqueiro, e jamais sóbrio. Ficava na cama até o meio-dia, e daí até a meia-noite instalava-se no seu canto do bistrô, embebedando-se com tranqüilidade e método. Enquanto entornava, conversava com uma voz feminina e refinada sobre mobiliário antigo. Com exceção de mim, R. era o único inglês no bairro.

Havia muitas outras pessoas que levavam uma vida tão excêntrica quanto aquelas: o sr. Jules, o romeno, que tinha um olho de vidro, mas não admitia; Fureux, o canteiro limosino; Roucolle, o sovina - mas ele morreu antes da minha época; o velho Laurent, negociante de trapos, que costumava copiar sua assinatura de um pedaço de papel que carregava no bolso. Seria divertido escrever algumas dessas biografias, se alguém tivesse tempo. Tento descrever as pessoas de nosso bairro não por mera curiosidade, mas porque fazem parte dessa história. A pobreza é o meu tema, e foi nesse bairro miserável que tive meu primeiro contato com ela. O bairro pobre, com sua imundície e suas vidas bizarras, foi minha primeira lição prática de pobreza e, depois, o pano de fundo de minhas experiências. É por esse motivo que tento dar uma idéia de como era a vida ali."

George Orwell
Tradução: Pedro Maia Soares 
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