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terça-feira, 5 de maio de 2015

Saravá, Abril pro rock ...

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
As portas do inferno estremeceram e todos correram para ver quem é. Eu dei uma gargalhada lá no Chevrolet Hall: era a Pomba Gira Maria Mulambo, O Caboclo Sete Flechas, Exu Caveira, Exu Tranca Rua das Almas, Exu Mirim, Omolu e Zé Pelintra pisando pela primeira vez no palco do Abril pro rock !!!

A entrada foi apoteótica: o povo já clamava pela Gangrena antes mesmo das cortinas se abrirem, com Renzo – ex-DFC e Zumbi do mato - em pé fumando cachimbo, de tanguinha e chifrinhos vermelhos, em cima da bateria. Ele desce e vem para a frente saudar o público, enquanto os demais componentes vão entrando aos poucos. Zé Pelintra, o comandante do caos, é o último a aparecer, em traje de gala, todo de branco, como manda o bom figurino, entoando um ponto de macumba e anunciando que aquela era a Gangrena Gasosa com “surf iemanjá”. Aí o lugar veio abaixo ...

"Renzo, tá levando seus chifres?"
“Se Deus é 10 Satanás é 666” veio na sequencia e aí foi só correr para o abraço: audiência pra lá de conquistada, nem os problemas com o som – muito alto e com a guitarra saturada – e a execução – altas “atravessadas” – atrapalharam a festa: o botão do “foda-se” estava ligado no volume máximo, já que aquela era a primeira apresentação do lendário combo de “saravá metal” carioca não apenas em Pernambuco, mas em todo o nordeste! Os hits se sucediam e a molecada ia à loucura com verdadeiros clássicos do cancioneiro underground tupiniquim que chamam a atenção já a partir dos títulos - “Quem gosta de Airon Meiden também gosta de KLB”, “Eu não entendi Matrix”, “Terreiro do desmanche”. Nas mais aceleradas, como “Matou a galinha e foi ao cinema”, a roda era insana – e gigantesca. Em outras, a interação foi perfeita, com todos gritando a plenos pulmões que “Emilia pomba-gira é uma boneca de Vodu” em “Centro do Pica-pau Amarelo” e clamando por Satanás em “A Supervia deseja a todos uma boa viagem”. Pra mim, que sou fã de longa data e sonhava em vê-los por aqui um dia, foi emocionante. Sucesso total, amplamente confirmado pelo assédio que as entidades sofreram depois do show, nos corredores da casa – impressionante a paciência, simpatia e boa vontade dos caras – e da “mina” - especialmente de Ângelo/Zé Pelintra, o “frontman”, em atender a todos, tirando uma infinidade de fotos com os fãs.

Na porta, mas vão entrar ...
Com a difícil tarefa de exorcizar qualquer resquício de blasfêmia “metalica” que porventura ainda pairasse no ar, subiu ao palco, na seqüência, a Headhunter DC, da Bahia, e sua ortodoxia “headbanger” a toda prova. “Dedos em chifre!”, clamava o vocalista, Baloff, a toda hora, no que era prontamente atendido pela multidão. Peso e melodia na medida certa! Destaque para os solos do veterano guitarrista Paulo, único membro fundador ainda presente. Um show perfeito, inclusive na qualidade do som, muito melhor equalizado. Headhunter “Death Cult” é, a meu ver, a melhor banda do estilo no Brasil, e não deixou pedra sobre pedra, mesmo fazendo uma apresentação corrida, devido aos atrasos. Quanto à ortodoxia mencionada acima, ela existe – “666”, totalmente – mas é natural do show dos caras, não creio que tenha sido uma resposta à Gangrena – muito embora, por ter vindo na seqüência, tenha dado essa impressão.

Duas "papa-girimum"
Foram sucedidos por um tal “Project 46”, de São Paulo, apresentado como “a nova revelação do metal nacional”. Não conhecia, e não gostei. Por uma questão de gosto pessoal, mesmo. Fazem uma espécie de “groove metal”, ou um “Nu Metal” tardio. Muito competente, a galera curtiu, mas eu dispensei, preferi circular pelos stands e banquinhas, revendo os amigos e babando nos produtos à venda, especialmente nos discos de vinil – outra tradição do abril. E vendo o pessoal da Gangrena ser impiedosamente assediado ...

Tive bastante tempo para circular, já que a banda seguinte foi o Dead Fish, que eu respeito, mas não curto. E então, numa dobradinha perfeita para uma noite que teve também a Gangrena Gasosa – pra quem não sabe, uma só existe por causa da outra – sobe finalmente ao palco, numa “vibe” politicamente engajada, exibindo, num dos amplificadores, uma faixa a favor do fim das tarifas de transporte público, o Ratos de Porão. Que fez, no entanto, um show nitidamente burocrático, pra “cumprir tabela”. Não sei o que houve, mas os caras pareciam cansados. Não houve entrega! Foi, certamente, o pior show do Ratos que eu já vi na vida – e eu já vi muitos, desde a primeira vez, no inicio dos anos 90, em Salvador, na turnê do “Anarkophobia”. Mas não foi ruim. Ratos não faz show ruim. Não tem como, com um repertório daqueles e tantos anos de estrada nas costas. Nem a longa “pausa técnica” no meio da apresentação, com direito a farpas verbais de Jão e do Gordo direcionadas, pelo que entendi, ao Boka, conseguiu acabar com a empolgação do público, que seguia intacta, já noite avançada adentro – e com muita coisa ainda pra rolar, como bem observou o Gordo ao perguntar, ironicamente, “vocês vieram pra ver o Marduk, né?”

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
Mas quando o show acabou a situação mudou: boa parte do público foi embora e quem ficou exibia sinais claros de cansaço, o que prejudicou bastante aquele que prometia ser o retorno triunfal aos palcos dos pioneiros da Câmbio Negro HC, comemorando os 25 anos de lançamento de “O Espelho dos Deuses”, primeiro disco de Hard Core lançado por uma banda nordestina. Prejudicou, principalmente, porque a falta de resposta da audiência – e o som, terrível! - contaminou a banda, que fez um show “truncado”, sem ritmo, com o vocalista Ajax – também “pesado”, mas não “aquele”, dos primórdios – reclamando a todo momento da “morgação” dos presentes - algo que nenhuma banda, JAMAIS, deve fazer! Faça sua parte, se houver resposta, ÓTIMO, senão, ligue o foda-se e toque o terror, apesar os pesares. Pesou(sic) também o fato de que a banda ficou muito tempo fora de atividade e voltou desfigurada, o que certamente contribuiu para que se instaurasse um clima de apatia entre os que nunca os tinha visto ao vivo anteriormente. Vivemos em tempos frenéticos de excesso de informação e de ofertas de distração, o que torna difícil para uma banda se manter relevante se não estiver em atividade constante. Em todo o caso, não foi de todo ruim: foi bom ouvir de novo, em alto e bom som, o velho brado, “evacuem essa área!”. E o vocal de Ajax é legal, substitui com dignidade o “frontman” original – algo sempre complicado, pra qualquer banda. Mas não gostei da música nova apresentada. Muito repetitiva.

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
O final da noite foi reservado para as apresentações “gringas”, a começar pelo Coroner, da Suíça. Banda lendária, foi fundada pelos roadies do Celtic Frost, que a lapidaram nas passagens de som dos pioneiros do Black metal. Mas foram, também, extremamente prejudicados pelos problemas de som e pelos atrasos na programação. Tanto que, depois de apenas quatro musicas – totalmente retrô, anos 80 até o talo - o guitarrista vai ao microfone e explica que teriam que limar o repertório, a pedido da produção. Volta a tocar mas entrega os pontos, encosta a guitarra e sai do palco, mandando dedo para os bastidores. Os demais membros, numa demonstração de profissionalismo exemplar, seguem tocando até o fim, quando finalmente se despedem, sob aplausos e visivelmente constrangidos pela atitude do outro. E eu segui intrigado, sem saber o que um deles fazia no palco, aparentemente “tocando” um ... laptop !!! Não havia nada de eletrônico no som, nem bases pré-progrmadas identificáveis que justificassem sua presença. Mas ok, ele fazia também uns vocais de apoio ...

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
Já era madrugada e eu estava cansado demais, mas teríamos ainda o Marduk, da Suécia, para encerrar a maratona, o que prometia um ataque ensurdecedor aos nossos ouvidos já tão castigados. Promessa cumprida, com louvor! Depois de uma introdução “climática” com uma névoa densa envolta em sons que pareciam vir das profundezas de uma floresta nórdica, eles sobem aos poucos ao palco, começando pelo baterista. E o inferno se instala, mais uma vez, mas desta vez numa potencia elevada ao cubo, implacável e sem descanso – antes no entanto, o guitarrista teve que chutar o retorno para que o som voltasse. Totalmente “satan”, “from Hell”, “666”, “Belzebu”, “Belial” e coisa e tal. Pra quem gosta, foi um prato cheio. Mas eu nunca curti muito estes Black Metal “metranca” – aos meus ouvidos, soa como se eles estivessem tocando sempre a mesma música, o que é insuportavelmente chato - então aproveitei para ir embora mais cedo. No caminho de volta pra casa comentávamos, eu e meus companheiros de viagem, que quem nos visse saindo, mais uma vez, antes do fim, provavelmente não entenderia o que, afinal, nós queríamos, já que na noite anterior havíamos dispensado o show da Pitty. “Um meio termo, talvez”, respondeu, sabiamente, meu camarada Lenaldo. Fica uma certeza: de falta de ecletismo ninguém pode acusar o Abril pro rock ...

Não era o Marduk no palco ...
Já passava das duas da manhã de uma noite que havia começado bem mais cedo, por volta das 19H – estava marcado para as 18 – com a Lepra, “feijão com arroz” detah/grind local, e com o sensacional Catarro (tem trema no nome, mas eu não sei como colocar, sorry), do Rio Grande do Norte. Pedro “Mendigo” veio para confundir e entortar a mente dos cognitivamente mais limitados com sua perfomance insana que mistura cambalhotas e muito barulho com uma cover de Marcio Greik (se não me engano) na introdução. Antológico. Depois teve Hate Embrace, chatinha, e Almah, CHATÍSSIMA.

A noite anterior havia começado para nós, “atrasildos”, com o Boogarins, de Goiânia. Que, para mim, não disse ainda a que veio: muita viagem pra pouco som. “Don´t believe the hype”, já dizia o Public Enemy ...

Era ela ...
Depende do hype. Do Far From Alaska eu gosto. Primeiro show que vi deles. Curti bastante. Um pouco “certinho” e “profissional” demais, talvez – me pareceu pouco espontâneo, mas pode ter sido impressão minha – mas a perfomance de todos - especialmente das duas vocalistas - foi perfeita. Amigos meus não curtiram, acharam o som genérico, sem definição, ora soando como Adele (???!!!), ora como o Metallica (talvez), ora como Rage Against The Machine (aí pode até ser), mas eu discordo. Acho a banda muito boa, tem boas composições, ótimos músicos e uma excelente presença de palco. Aprovadíssimo.

Foram seguidos pelo dEUS, da Bélgica. Experimental, “pero no mucho” – algumas melodias são bastante “assobiáveis”. Bom show, apesar do som falhando e do exagero perfomático do violinista, que eu achei meio “poser” ...

Priscila Novaes Leone
Quem também fez um (muito)bom show foi o Pato Fu. Periga ter sido um show perfeito, admito. Mas não consigo avaliar direito porque sou um ex-fã xiita, daqueles que só gosta, MESMO, do primeiro disco, o clássico “Rotomusic de liquidificapum”, e mais ou menos dos dois seguintes. Deixei de gostar depois do “Televisão de cachorro”, quando o comando criativo do grupo passou a ser nitidamente compartilhado por John com a Fernanda Takai, que sempre foi muito mais para o pop e a bossa-nova que para o rock and roll. Mas nunca deixei de respeitá-los. Segue sendo uma banda, no mínimo, simpática. E decente. E extremamente competente e de muito bom gosto: as projeções de imagens no palco são sensacionais! Foi o que mais me prendeu a atenção, aliás. Fazia tempo que não os via ao vivo. Curti. Quase dancei ao som de “Uh uh uh lá lá lá yeah yeah” ...

A primeira noite se encerrou com Pitty e a incrível revelação – para mim, pelo menos – que a nossa cabeça tem 7 buracos! Nunca tinha pensado nisso. Mas só vale se descartamos os olhos, não é?

Bom show, grande domínio do palco.

Respeito a Pitty.

Ela é massa.

A.


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terça-feira, 21 de outubro de 2014

ABALANDO BANGU

Fui ao Rio para ver o Napalm Death no Circo voador e, de bônus, assisti um show da Gangrena Gasosa, lendário “combo” de “sarava” metal, no subúrbio, em Bangu. Para tanto pegamos, eu e meu camarada Chorão 3, ex-letrista e vocalista da banda, um trem – lotado, pra variar – na Estação de Engenho de Dentro. Com direito a vendedores ambulantes e pedintes de todo tipo, inclusive uma garota que solicitava contribuições para comprar um leite especial para seu filho que, segundo ela, tem leucemia. A Supervia deseja a todos uma boa viagem ...

Saltamos em Bangu do lado de um shopping Center que, Chorão me informou, funciona numa fábrica desativada que, antes, havia servido de cenário para o Campo de Concentração do filme “Olga”. Há sempre uma curiosidade ou um marco histórico em cada canto que você andar, no Rio de Janeiro ...

Outra coisa que eu acho curiosa é que boa parte dos bairros do Rio parece funcionar como uma pequena cidade à parte – com um às vezes fervilhante comércio local, por exemplo. Alguns, inclusive, têm clima de cidade do interior, com a tradicional pracinha da igreja onde a população se reúne para colocar as fofocas em dia. Foi a impressão que tive de Bangu. O show aconteceu num Clube social que ficava próxima a uma dessas pracinhas. O Clube é bem bacana, tem aquele clima que remete aos tradicionais bailes da década de 1950, com um amplo salão ladeado por um mezanino. No som rolava uma discotecagem meio deslocada das atrações da noite, porém bacana ...

As atrações da noite atendiam pelo que é chamado popularmente de “rock pauleira” – na verdade nem sei se ainda se usa este termo, de repente já está ultrapassado. O tempo passa e a gente nem se dá conta. Enfim: a primeira banda, Deus Castiga, era muito boa e era de grindcore. Boa pegada, especialmente do baterista, que é muito bom. Já a segunda, Evil Inside, surpreendeu: subiu ao palco uma galera com pose de headbanger virtuoso e uma garotinha magrinha, franzina até, mas que assustou a todos quando soltou o primeiro urro gutural. Fazem um som, no entanto, meio clichê, uma espécie de death metal melódico. Passado o susto inicial, tornou-se meio enfadonho, com aqueles solos de guitarra intermináveis e estrutura melódica “manjada”. A presença de palco da “front girl” também deixa a desejar, talvez por inexperiência – mal do qual não sofre a Deus Castiga que, soube depois, é uma banda nova, mas formada por figurinhas carimbadas do underground carioca.

A grande atração da noite era, no entanto, a Gangrena Gasosa. Era apenas o segundo show que eu via deles na vida, desta vez num esquema mais real, “pé no chão” – UNDERGROUND, mesmo. O outro foi abrindo para o Cannibal Corpse no Circo Voador.  A Gangrena é uma daquelas bandas que você curte e fica se perguntado porque, afinal, não são mais conhecidos do grande público, porque é sensacional! A resposta só pode ser uma: porque o mundo é injusto. São, no entanto, uma banda “Cult” – no sentido de cultuada, mesmo que por um número reduzido de seguidores. E eu pude comprovar isso naquela noite: entraram no palco sob uma ovação impressionante do público presente e já começaram passando por cima das adversidades, notadamente o som “capenga” da frente do palco, cujas caixas haviam “estourado” durante a apresentação da segunda banda de abertura – soube depois que eles não sabiam disso e o retorno estava ok. Menos mal, porque o público não se fez de rogado e já começou cantando junto o primeiro “hit”, “surf Yemanjá”.  A catarse tomou conta e as Invasões de palco foram se sucedendo, inclusive de um cidadão com uma curiosa máscara de cavalo e de uma aranha que parece ter resolvido sair de sua reclusão no teto e tecer sua teia até o meio do palco para conferir que porra era aquela que estava acontecendo. Angelo, um dos vocalistas – o Zé Pelintra - percebeu e interagiu com o inseto, com um resultado visual interessante que eu espero que tenha sido captado por algum fotógrafo mais atento ...

Pérolas do cancioneiro “underground” foram entoadas em uníssono por todos: “Eu não entendi Matrix”, “Quem gosta de Iron Maiden também gosta de KLB”, “Fist Fuck agredi”, “Terreiro do desmanche” e “Centro do Pica Pau Amarelo” – a galera adora gritar que “Emilia pomba gira é uma boneca de Vodu”, bem como invocar o “coisa ruim” em “A Super via deseja a todos uma boa viagem”. Bem legal ver tudo isso do lado do cara que criou a maioria daquelas letras. Muito bom também ver que ele, mesmo há tanto tempo fora da banda, ainda é reconhecido e celebrado por isso: várias pessoas o reconheceram e fizeram questão de pedir autógrafos e tirar fotos juntos – alguns, inclusive, de forma histérica! Coisa de fã mesmo. Assédio que se repetiu, de forma ampliada, no fim do show, quando a banda teve que ficar um bom tempo atendendo ao público do lado do palco, em meio à farofa de despacho e aos doces que se espalhavam por todo o recinto – era dia de Cosme e Damião.

F iquei feliz em constatar, também, que a faixa etária dos presentes no recinto era bem baixa, o que indica que a banda está conseguindo renovar seu público. Bateu, inclusive, uma curiosidade em saber como aquelas pessoas haviam conhecido a Gangrena Gasosa. Fizemos a pergunta a um garotão – não aparentava ter mais de 20 anos – e a resposta foi interessante: ele disse que era Testemunha de Jeová e conheceu a gangrena pesquisando sobre macumba na internet. Acabou virando fã e saindo da igreja.

Parabenizei-o por isso ...

OUÇA AQUI

por Adelvan

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

O DVD "Desagradável" da gangrena gasosa ...

Quase tudo que envolve a Gangrena Gasosa, lendária banda de "Saravá metal" carioca, tem um toque de bizarrice e polêmica. Praticantes de cultos de matriz africana já quiseram matá-los – alguns quase chegaram às vias de fato – e “metaleiros” menos atentos não engolem “Quem gosta de Airon Meiden também gosta de KLB” – que na verdade é uma ode ao metal “real”. Já os ativistas gays – e simpatizantes da causa, dentre os quais me incluo – têm bronca com “Emboiolada” – e nesse caso têm razão, pois a letra é realmente ofensiva. Angelo Arede, um dos vocalistas, admite que hoje mudaria uma ou duas frases, mas explica que tudo se insere num contexto de humor e ironia, já que a letra foi inspirada no que ouviu durante um duelo de "embolada" na Feira de São Cristóvão. Conta também que, inclusive, "aliviou" no conteúdo, justamente com receio de ser mal interpretado, o que poderia levar a banda a atrair tipinhos asquerosos de extrema direita que curtem espancar minorias ...

São muitos anos de estrada e muitas e muitas tretas e histórias sinistras - e divertidas - para contar. Eu Sou fã de primeira hora e também tenho as minhas. Como a de quando conheci o antigo vocalista, Chorão 3. Havia lido, há MUITO tempo, uma entrevista na qual eles se diziam todos viados e representantes do movimento Homo Core. Normal. Um dia fui a Recife ver um show do Jason, também do Rio, e encontro lá o Chorão, com quem havia trocado algumas correspondências e feito uma entrevista para o meu fanzine. Normal também. Gente boa. Mas eis que, no final do show, ele me convida pra ir dormir na casa de um tio em Boa Viagem. Normal, mas imediatamente a lembrança da tal entrevista me veio à mente e um sinal de alerta começou a tocar em meu cérebro. "Será que esse negão tá a fim de abusar de minha ingenuidade?", eu pensei. Avaliei a estampa do indivíduo e concluí que poderia resistir a uma abordagem mais agressiva, então fui. Chegando lá, ele logo me chama para o quarto, supostamente para vermos um video inofensivo. Só que parecia um quarto de motel, com cama redonda e espelho no teto. Percebendo minha hesitação, ele me explica que seu tio era meio tirado a garanhão, que não ligasse. Respirei aliviado e lhe falei da entrevista que havia lido. Rimos muito e somos amigos desde então.

Outra história: Soube que a Gangrena iria lançar seu primeiro DVD no Circo Voador abrindo para o Cannibal Corpse! Fui. E não é que aconteceu de o show ser justamente no dia em que o caos tomou conta das ruas do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro? 20 de junho de 2013. Bombas de gás lacrimogênico por todos os lados e a polícia caçando qualquer um que estivesse nas ruas da Lapa, com auxilio inclusive de carros blindados, conhecidos popularmente como "caveirão". Uma verdadeira batalha campal, típica de uma guerra civil ou de um estado de exceção! Enquanto isso o couro comia no palco do circo, entre um ou outro intervalo para que o público se recuperasse dos efeitos do gás que chegava por cima da lona. Foi antológico!

O DVD é "Desagradável" - fique avisado, portanto. Mas se resolver encarar, saiba que vai assistir a uma das melhores peças de comédia involuntária - ou não! - já produzidas na face da terra. Dirigido por Fernando Rick, o mesmo de "Guidable, a verdadeira história do Ratos de Porão", conta com o depoimento de praticamente todos os que passaram pelas inúmeras formações da banda - e foram muitos - e mais testemunhas oculares – e auriculares - ilustres do calibre de Jello Biafra, B Negão, Marcelo D2, Dado Villa Lobos - que lançou o primeiro disco pelo seu selo Rock it - Marcos Bragatto e Tom Leão, dentre outros. Um verdadeiro inventário de insanidades e histórias bizarras e supostamente reais, na medida em que o olhar de quem conta o conto interfere na autenticidade dos fatos. É difícil de acreditar, por exemplo, nas incríveis coincidências apontadas por Fabio, proprietário do Garage, verdadeiro templo do underground carioca. Ou dos Ratos de Porão, que saíram de uma zica apenas quando fizeram de frisbee o disco da Gangrena que haviam ganhado algumas horas antes.

São muitas histórias - e poucas imagens da época, infelizmente. Não havia a facilidade que temos hoje, e pouca gente tinha como registrar tudo aquilo. Um dos pontos altos, porém, a tour pela Alemanha, foi registrado, e está tudo lá: do assédio de um dos componentes a uma deficiente mental num squat repleto de punks politicamente corretos ao cagaço quando se viram cercados por neonazistas numa estação de trem. Ou a visita a um campo de concentração desativado - extremamente desrespeitosa, evidentemente.

Para compensar a falta de imagens históricas temos, num segundo disco, um show filmado há cerca de três anos no "Inferno" - onde mais? - em São Paulo. Não é ruim, mas infelizmente a banda não estava em uma de suas melhores formações, o que prejudicou a perfomance e o resultado final. Em todo caso, é muito bom vê-los finalmente numa produção à altura de sua reputação, com direito a efeitos especiais e atuações teatrais macabras em pleno palco.

Imperdível!

A.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Batalha do Circo Voador

Foi uma verdadeira saga até que eu conseguisse chegar, finalmente, ao Circo Voador, naquela noite de quinta-feira em que o Brasil quase parou. Uma saga bem mais emocionante do que a do “João do Santo Cristo” que vi na tela do Cine Odeon minutos antes – porque real, pulsante, sem maquiagem. Sem Globo Filmes.

Mas consegui. Cheguei e entrei, achando que estaria finalmente seguro. Até certo ponto, sim, mas não foi possível evitar os efeitos colaterais do que acontecia ao redor: a policia caçava impiedosamente não apenas os manifestantes, mas qualquer um que estivesse nas ruas. É como se, em pleno Estado de direito, o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral Filho, tivesse decretado uma espécie de toque de recolher. Com direito a balas de borracha, bombas de gás lacrimogênico e até veículos blindados – chamados pelo povo das favelas de “caveirão”.  O Circo, que é aberto, protegido apenas por uma frágil cerca (que atualmente é revestida por uma lona com uma programação visual sensacional com todas as datas de shows que aconteceram por lá) foi invadido pelas nuvens de gás que, em contato com os olhos e a boca, provocam severas irritações. Desagradável – o que não deixa de ser, ironicamente, apropriado, já que é esse o nome do DVD que estava sendo lançado pela Gangrena Gasosa.

“Quando a gente fala que o clima fica pesado sempre que a Gangrena toca ninguém acredita”, disse Chorão 2 (foi promovido depois da morte do vocalista do Charlie Brown) ao iniciar sua participação naquela que seria uma noite muito especial. Ele era um dos diversos ex-integrantes que abrilhantariam a apresentação. Apresentação que teve que ser interrompida por dez minutos, logo no início, para esperar até que o gás lacrimogênico se dissipasse.

Voltaram com um gás renovado – outro tipo de gás. Aquele que corre nas veias sempre que somos provocados. A raiva, afinal, é um dos principais combustíveis do rock “pauleira”. Paramentados como entidades, como sempre, os caras (e a “mina”) mandavam uma porrada atrás da outra do mais puro e autêntico “Black Metal” brasileiro, o “saravá metal”, gênero do qual eles são os fundadores e, até onde eu saiba, únicos praticantes. Para o delírio dos mais velhos que acompanharam a carreira da banda, ao vivo ou de longe, como no meu caso – era minha primeira vez num show da Gangrena, no Circo Voador e em manifestações de rua violentas – as participações especiais foram se sucedendo: primeiro Paulão, vocalista de uma das formações clássicas, com seu visual “mezzo” rapper “mezzo” “Burzum”, depois o Chorão, Magrão e Cid – os dois últimos desalojando o pequeno grande Renzo, ex-DFC e Zumbi do Mato, da bateria. Magrão com a mão pesadíssima e Cid surpreendentemente competente, com direito a baquetas giradas na mão e stage dive “versão meia idade” ao final.

Foram vários os momentos antológicos. Os mais emocionantes foram aqueles em que o público participou ativamente, como em “Centro do Pica-pau Amarelo”, onde na paradinha para o refrão todos gritavam a plenos pulmões que “EMÍLIA POMBA-GIRA É UMA BONECA DE VODU”. Ou em “A Supervia deseja a todos uma boa viagem”, quando Ângelo e Chorão comandam a massa na invocação do capeta – Chorão, o autor da letra, se orgulha de que esta seja, provavelmente, a música que mais tem o nome de Satanás em toda a história do rock.

Os músicos são muito competentes, com destaque para o vocalista que substituiu Chorão sob o “fiá de Omolu”. Excelente, muito melhor do que o que gravou o show que está registrado no DVD – sim, já é outro! Chega a ser chocante comparar a atual formação da Gangrena com a dos primórdios. Outro nível, definitivamente. Inclusive nas composições: as mais recentes combinam perfeitamente a percussão “candomblezistica” com as palhetadas nervosas e os “blast beats”. Foi, no entanto, emocionante ver os “hits” dos primeiros anos, muito mais toscos, musicalmente falando, sendo interpretados pelos caras que os criaram, além de vê-los “arreando” o despacho em cima da galera – algo que, segundo o Marcos Bragatto, ao lado de quem eu assisti parte do show, ele nunca mais tinha visto. No final, Ângelo decreta: “PAU NO CU DO SERGIO CABRAL, PAU NO CU DO EDUARDO PAES E PAU NO CU DA POLÍCIA”.

O show da Gangrena foi precedido pelo de uma iniciante porém competente banda de Death Metal carioca, Fórceps, e sucedido por um dos pais sagrados do estilo, o Cannibal Corpse. Que instituíram o inferno sonoro sobre a terra assim que subiram ao palco, com brutalidade e competência, mas também com uma uniformidade de ritmo um tanto quanto maçante – isso dito por alguém que aprecia mas não é exatamente um fã do estilo, evidentemente. Foi um tapa no pé do ouvido atrás do outro, especialmente quando o guitarrista resolvia fazer um de seus raros solos e o som que saía dos amplificadores ficava ensurdecedor.

Imaginei que eles iriam se manifestar a respeito do que acontecia ao redor, mas nem uma palavra. A primeira coisa dita entre as músicas pelo vocalista, do qual ainda nem tínhamos visto o rosto, já que ele não parava de girar a cabeça transformando sua longa cabeleira numa hélice, foi que “pussy” era a coisa que ele mais gostava na vida. Depois, só apresentava algumas músicas, especialmente as mais “clássicas”. No final, dedica a apresentação a Jeff Hanneman, sob a aprovação do público ensandecido que passa a gritar “Slayer!”. “Sem ele, a gente não estaria aqui”. Mais do que justo.

Não vi nenhuma bomba caindo dentro do circo em si, como noticiado em alguns locais, mas parece que um dos proprietários da casa foi alvejado por uma bala de borracha ao tentar fotografar a ação dos “pigs”. Meu camarada Heron, vocalista da banda Uzômi, contou que, ainda lá fora, recebeu uma bomba de gás direto no peito, o que o fez passar muito mal, com ânsias de vômito. Fora isso, ao fim da noite, tudo em paz. Os combates haviam cessado e a madrugada avançava tranqüila. Fui resgatado das ruas por um argentino super gente fina (ou CB, Çangue Bom, em bom carioquês) que me acolheu de forma até comovente, de tão hospitaleira. Especialmente porque mal nos conhecemos, embora tenhamos vários amigos em comum – e eles ou não foram ao show ou não puderam ficar até o final, daí meu “abandono”.

Uma noite para ficar na história do Brasil – e da minha vida.

Fotos: Daniel Croce - exceto a última, ao lado.

por Adelvan

SARAVÁ!

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Desagradável ...

               Tem gente que parece ter vindo ao mundo pra confundir, incomodar, nadar contra a maré, ser “do contra”. É o caso dos caras da Gangrena Gasosa, a primeira e única banda de Saravá Metal do universo. Confundiram, por exemplo, Jello Biafra, dos Dead Kennedys, que não entendeu a ironia dos caras na contracapa de seu segundo disco, “smells like a tenda espírita” – havia uma brincadeira com marcas famosas e o punk-mor achou que fosse apoio comercial. Confundiram também as entidades do terreiro que ficava próximo ao Garage, onde sempre faziam shows nos anos 1990. Ou os telespectadores do Programa do Jô, para o qual deram uma entrevista antológica numa época em que era impensável uma banda vinda do underground pré-internet, movido a fanzines xerocados e demos em fita cassete, ter tamanha atenção de um baluarte da grande mídia.

               O mesmo Jello Biafra comentou uma vez que a proposta da banda era interessante, mas que seria perfeita caso eles conseguissem conciliar no próprio som, e não em vinhetas, o metal com as influências dos ritmos africanos. Ele se referia às fitas demo e ao primeiro disco, o ainda tosco, musicalmente falando – porque conceitualmente eles sempre foram e sempre serão toscos – “Welcome to terreiro”. Pois bem: aconteceu! Depois de um grande salto evolutivo no segundo disco, o já citado “smells”, e no EP subseqüente, 666 – lançado no dia 06/06/2006, “El dia de la bestia” – a fusão se materializou de forma perfeita no novo “artefato” (para usar uma denominação comum entre as hostes do metal negro), “se Deus é 10, Satanás é 666”. Trata-se de uma sessão de culto ao esporro gravada por Tuta e Diogo Macedo no EmeStudios, com mixagem e masterização a cargo de Rodrigão Duarte no estúdio DuBrou’. Nas percussões, Elijan Rodrigues e Anjo Caldas, percussionista de Elba Ramalho e da banda Catapulta. A incorporação definitiva da percussão ao som da banda, por sinal, foi decisiva para que o ebó ficasse, finalmente, completo.

               Para comemorar o feito e divulgar o disco eles têm feito shows memoráveis, como o que aconteceu no festival Goiânia Noise, o do Domination Rio Extreme Festival e o do Circo Voador, com o Ratos de Porão. Em junho de 2010 ficaram em primeiro lugar na seletiva do festival "candango" Porão do Rock, também no Circo Voador, com uma unanimidade pouco vista entre jurados e público, após uma disputa com bandas de peso do cenário carioca. Por conta disso, em setembro de 2010 a Gangrena se apresentou no palco principal do festival, em Brasília, e foi reconhecida como uma das melhores apresentações da noite. O mesmo aconteceu pouco tempo depois, em Minas Gerais, no Festival Roça N’ Roll de julho de 2011, no qual fizeram uma apresentação furiosa e foram apontados pelo público e pela crítica como a maior surpresa do evento.

               A consagração desta nova fase, depois de inúmeras turbulências e trocas de formação, acontecerá em breve com o lançamento do DVD “Desagradável”. O disquinho virá com um documentário que passará a limpo toda a trajetória dos malditos e com a íntegra de uma apresentação gravada em São Paulo, no “Inferno” (onde mais?), na noite do dia 03 de dezembro de 2011. O show foi captado com câmeras full HD e iluminação profissional que, unidas à cenografia do palco, resultou numa sucessão de imagens macabras que englobam todo o universo sombrio da Macumba, criando assim um ambiente perfeito para o registro de uma performance única onde as entidades da Gangrena interagiram ao vivo com efeitos especiais do mestre André Kapel Furman, conhecido por sua participação na produção do último filme de Zé do Caixão, “A encarnação do Demônio”. Rolou também uma participação especialíssima do Jão, guitarrista do Ratos de Porão, relembrando seus tempos de “crooner” e caracterizado como pai de Santo para fazer os vocais em "Benzer até Morrer/Kurimba Ruim", versão gangrenada de dois clássicos dos mestres do Hard Core tupiniquim. Nada mais justo, já que é público e notório que a Gangrena nasceu única e exclusivamente, a principio, com o intuito de, um dia, abrir um show do Ratos de Porão.

               Já o documentário, produzido pelos mesmos (ir)responsáveis pelo já clássico "GUIDABLE - A Verdadeira História do Ratos de Porão", a Black Vomit, abrangerá todos os 22 anos de trajetória da banda. Será uma seleta reunião do povo que agitou a cena underground da década de 90 do século passado pra cá. Estarão presentes todas as lendas, destrinchadas e expostas num despacho que vai revelar as passagens mais "vergonha alheia" da história do rock nacional. Jello Biafra, Jão & João Gordo, BNegão, Marcelo D2, Anjo Caldas, Dado Villa Lobos, Rafael Ramos, Fábio do Garage, Marcos Bragatto, Tom Leão, Pedro Só, Adílson Pereira, Larry Antha e os ex-integrantes (mais de 15 !), dentre outros, recordarão os lamentáveis momentos pelos quais os macumbeiros do Sarava Metal passaram em suas vidas. Além disso, Imagens de arquivo, fotos e vídeos comprovarão, de uma vez por todas e para todo o sempre, que santo se casa também faz milagre. 

VICE: Então, como foi que vocês se conhecerem e rolou a ideia de fazer o documentário?
Angelo Arede (Zé Pelintra): O Chorão, que era o vocalista na época, entrou em contato com o Fernando Rick porque ele é um fã muito fervoroso do Ratos de Porão. Ele viu o documentário Guidable, ficou impressionado e escreveu uma carta.
Fernando Rick (Black Vomit): Eu fui surpreendido por um e-mail, que, se imprimisse, daria umas dez páginas, comentando take a take do documentário. E eu nem recebi o e-mail diretamente, era a produtora que filtrava as mensagens, e ela me passou. No meio da carta ele até comentava que havia formado uma banda pra abrir pro Ratos de Porão. No final, assinava, “Chorão, Gangrena Gasosa”. Na hora eu pensei: Caralho, o cara do Gangrena! A gente tem que fazer alguma coisa juntos. Aí eu entrei em contato com o Angelo e falei: “Velho, vamos fazer um trampo juntos e tal"...

Engraçado que vocês tenham montado a banda na época pensando em abrir pro Ratos e eles também tenham indiretamente colocado vocês em contato com a Black Vomit...
Angelo: 
Pois é, cara, o link é sempre o Ratos, porque tem aquele negócio de banda às vezes falar que não tem influência… Porra nenhuma! A banda foi feita por causa do Ratos de Porão mesmo, pra abrir pra eles. O projeto do documentário já vem se desenrolando desde 2010, quando começamos a organizar a parada. Nesse meio tempo aconteceu um monte de coisas, deu tempo até de o Chorão sair da banda.

Por conta desse lance de vocês mexerem com macumba, é louco ver o documentário e perceber como vocês se tornaram ímãs de situações malucas, lendas, ataques...
Tem muita lenda em torno da Gangrena… Tem lenda de falar que o Paulão, antigo vocalista que fez uma participação no show comemorativo do Circo Voador, tinha morrido. Na verdade, ele não morreu, apenas sofreu um atentado [risos]. E atribuem umas coisas à nossa passagem pelos palcos, tipo fechamento de casas de show depois de terem aberto espaço pra gente tocar. A recorrência dos fatos acaba fazendo com que muitos acreditem que trazemos maldição.
Gê Vasconcelos (Pombagira Maria Mulambo): Falaram até que o Chorão saiu porque estava com AIDS...
Angelo: A criação da Gangrena se deu numa época e num contexto em que o Rio de Janeiro fervilhava de bandas na cena underground, e dali saíam as histórias reais, aumentadas, e as lendas mais loucas. As lendas, o que aconteceu e o que não aconteceu, nada disso importa tanto... O que importa é que, naquela época de suruba musical no Brasil, de forrócore e manguebeat e Mamonas Assassinas, só a gente se meteu com temáticas macabras. Fomos originais porque isso é uma coisa que nego nem copia porque tem medo, né… A gente achou que não tinha medo também… Todo mundo passou por situações tensas de piscar o cu. Ainda hoje em dia já deixamos de tocar em vários festivais porque o pessoal acha que a gente mexe com uma energia muito pesada.
Rocco (Omolu): A gente foi banido de festival de banda de Black Metal, mermão! De show com Krisium e RDP no line-up, banda que invoca o diabo e tem medo da Gangrena Gasosa.
Angelo: É que quando o cara ouve as palavras SA-TA-NÁS, Pomba Gira, Exú Tranca Rua, é diferente... Você tem a moral de mexer com o Exu?
Minoru Murakami (Exu Caveira): Mas pra macumba, na real, nem tem esse negócio de Satanás. Macumba não tem essa coisa definida de bem e mal. Ela age, na verdade, com as duas forças, tanto é que o Exu faz o que você quer…
Angelo: Nós inclusive não pudemos realizar a turnê europeia agora no final de 2012 porque… Apertem os cintos, o produtor sumiu! Estava tudo certo, todo mundo com o passaporte na mão… Era o mesmo cara que tinha feito a nossa primeira turnê, que até aparece dando entrevista no documentário — ele, por sorte, esteve de passagem no Rio de Janeiro enquanto gravávamos, fazendo o backline do Jello Biafra. E o Jello Biafra também tem uma história com a Gangrena, entendeu? Enfim, daí o cara se empolgou, lembrou daquela época, quis armar a turnê, só que a três meses da data, ele sumiu do mapa.
Rocco: A gente não sabe se o cara também morreu por maldição…
Angelo: Nada, eu fui pesquisar lá no Facebook, não morreu, não! [Risos] Já o cachorro dele morreu, não sei se ele entrou numa depressão, ficou preocupado e resolveu não mexer com essa porra de maldição pensando que era um sinal...

Vocês meteram o bedelho na produção do documentário e das entrevistas?
É engraçado, cara, as histórias vão se montando. Foram os participantes dessa época toda, com seus depoimentos, que deram o formato. E o Fernando Rick foi muito feliz na edição, no ritmo que ele impôs, que pega todo o clima do começo da banda, da evolução musical. As histórias já são loucas por si só, o lance é saber contar – e ele soube. E estamos lançando numa época boa, são 23 anos de banda, entrando numa nova fase.

Qual era o problema da vida de vocês antes de formar a Gangrena Gasosa?
Já era o rock e o metal. A Gangrena Gasosa nasceu da fusão da banda Ódio com o Vermes da Lepra [risos]. É verdade… Aí colocaram Gangrena Gasosa pra ficar mais leve, os outros nomes eram muito pesados…
Rocco: Eu era fã da Gangrena. Cheguei a pular o muro do Circo Voador pra ver os caras abrindo pro Ratos de Porão, quando tinha 15 anos.
Angelo: Eu também era fã. É aquele tal negócio, galera do subúrbio, tudo fervilhando, a cena do Garage com as ideias estourando.
Rocco: No subúrbio a cena era muito mais prolífica do que na Zona Sul, era muito forte, tinha muita gente, muitas bandas, a galera se encontrava…
Angelo: Eu fazia parte de um grupo de death metal/splatter, que era o Erosive Exhumation. Tinha o Imperial Death, o Turíbulo, banda de trash. Turíbulo é aquele incenso que o padre usa lá, aquela parada, sabe?
Rocco: Sem falar no Pussy Violator, que depois virou só Violator. Isso em 1990.
Angelo: Então a Gangrena era um apanhado das pessoas que cercavam a banda, só tinha os mais loucos, os mais politicamente incorretos.
Fernando: Lá no Rio não rolava a segregação de estilos que tinha em São Paulo. Tinha metal, tinha Funk Fuckers, depois Planet Hemp, e lá, até hoje, isso é a coisa mais normal do mundo, até o Rogério Skylab tocava junto. Era rap com metal, pop-rock, rockabilly... Isso em São Paulo era impossível de acontecer.
Angelo: Pra gente, isso facilitou porque nós transitamos no meio de qualquer doidão. Aqui em São Paulo a gente toca com banda de new metal. A galera do new metal não tem por que não gostar do som, aí vai junto.

Pelas minhas contas, já passaram 15 integrantes pela formação, é isso?
Não é todo mundo que aguenta o baque. Tem esse negócio de entra-e-sai na Gangrena, mas é igual time de futebol. Antigamente tava todo mundo louco o tempo todo, tensão, a gente não trocava uma ideia de boa que nem tá rolando aqui.

E essa coesão que você cita vai surpreender a gente com alguma novidade boa a caminho?
Depois do Desagradável e dos shows promocionais, vamos lançar o próximo álbum, no começo de 2014, e já temos várias músicas sendo trabalhadas.

Esse nome que vocês deram ao filme é resposta a algum desafeto específico?
A gente é a peça mais torta do negócio, até quem é doidão, quem é revoltado, que se acha diferente, fica incomodado com a Gangrena. Daí o nome do filme, Desagradável.

Vocês conseguiram encher o saco até do pessoal da contracultura, tipo aquele quadrinho que gerou acusações de sexismo.
Veja essa história do quadrinho do Allan Sieber, que ilustrou nosso encarte. Quando fizemos a nossa primeira turnê na Europa, o negócio rolou no circuito punk, que na verdade não era o nosso circuito. Mas acabamos nos apresentando como uma banda de hardcore que puxava pro metal. Mas o Smells Like a Tenda Espírita era muito hardcore. Então eles achavam que era uma banda punk, normal. Até mesmo porque, nesse disco, a percussão não estava tão na cara como está agora. A gente foi lá tocar e o pessoal curtiu pra caramba, só que tem uns loucos que sempre gravitam em torno da Gangrena, e um deles é o Allan Sieber. Ele fez uma história em quadrinho e, na hora que a gente viu, era óbvio que tinha que ir pro encarte do CD! A história trazia a mulher de um astro do rock, famoso, e o cara não queria comer a mulher… Não sei por qual coincidência, o nome desse artista era Lulu. Aí acabou que a mulher andava pela rua quando veio e Exu Tranca Rua e enrabou ela. Ela foi toda estropiada no médico, que fez um fist-fuck nela pra pegar uma amostra, tirou um pedaço do cu da mulher, botou num microscópio e falou: “Ih, filha, cê tá fudida, pegou gangrena gasosa no cu!”. Foi o bastante pra essa galera da Europa, do circuito punk, vir com aquela coisa de “não ao sexismo”. Mas como você vai explicar pro cara que aquilo é quadrinho de gente louca?! Daí o negócio foi encarado de uma forma que acabamos cercados por feministas em um dos shows, elas olharam o CD e vieram questionar. Isso foi em maio de 2001. Já nos lugares de metal nós fomos recebidos com mais naturalidade. Dava pra vender o CD com encarte. A gente chegava e perguntava, e quando o show era num point mais punk, tirávamos o encarte. Chegamos a ser perseguidos por um monte de ativistas, fugimos pra dentro do camarim e cada um se armou com o que pôde – pedestal, estante de bateria – esperando a hora do hadouken. Tínhamos até uma arma de defesa especial, um porrete de alta precisão, o nosso amigo PAP.
Gê: O percussionista na época levou um porrete, que ganhou o nome de PAP, porrete de alta performance.
Angelo: Isso, alta performance! Na alfândega, o cara perguntava e ele dizia que era de percussão.

E aquela fita do Fábio, dono do clube Garage? No documentário ele conta uns acontecimentos bizarros pra cima dele por ter sido o mentor da Gangrena. Até a morte dele parece que foi prevista por uma entidade, né?
Minoru: 
O Fábio, do Garage, na verdade já estava doente há muitos anos. Ele era diabético, perdeu a visão por conta disso. Ele não se cuidava, perdeu um pedaço do pé. Então ele já vinha de uma certa decadência.
Fernando: Não ameniza, não! Segundo o Exu que apareceu pra ele, ele começou a ficar doente por ter dado apoio pra Gangrena!
Rocco: Vai ver que o cara estava doidão de Big Mac.
Angelo: Eu acho o seguinte, o Fábio viveu intensamente do jeito que ele quis e pagou o preço que desejou pagar.
Minoru: Pagou com a diabetes, ele bebia refrigerante pra cacete…
Rocco: Na véspera da internação, ele foi no McDonald’s e comprou os três maiores sanduíches que tinha, com vários acompanhamentos, e disse: “É a minha despedida, vou me internar amanhã”.

Esse maluco merecia um documentário só com a história dele!
Angelo: 
Certamente, mas já está sendo feito aí... O Fábio era o pai de todas as bandas do Rio. Não existia uma banda que ele não tivesse empurrado, de Planet Hemp a Los Hermanos e Matanza, todas foram apadrinhadas por ele. O Fábio deixava qualquer banda tocar.
Rocco: Não só o nosso, mas o primeiro show de todo mundo na cidade foi no Garage. Era a casa mais conceituada, todo mundo que formava uma banda almejava tocar lá.
Minoru: Nem era a mais conceituada! Era a única!
Angelo: O Fábio marcava show de power metal já na virada de 1970 pra 80. Ele discotecava no Caverna...

Como era a cena carioca antes da geração de bandas do Garage?
Angelo: 
Antes do Fábio e da cena dos anos 1990, o que tinha eram umas bandas tipo o Azul Limão, Taurus. Isso é uma fase que não é contemporânea nossa. Agora, o underground no Rio de Janeiro, se não fosse pela iniciativa do Fábio, não teria sido a mesma coisa, a cidade estaria ouvindo só pagode hoje.
Rocco: As pessoas começavam a frequentar o lugar pra curtir som, ouvir vinil. O barato era baixar no Garage pra ver o novo VHS do Slayer. O Kreator, quando veio a primeira vez, foi ele quem trouxe, na quadra da Estácio, a escola de samba.

Atualmente são sete negos na banda. Num esquema independente, às vezes pesa...
Rocco:
As pessoas cobram muito que a gente toque fora do Rio. Pelas redes sociais, a gente tem pedidos de pessoas de Pernambuco, do Sul, de Manaus. Aqui em São Paulo tem um bom público também.
Angelo: Dois produtores do Macapá entraram em contato com a gente, mas parece que quando eles veem que são sete integrantes, sete passagens, mais o som…

Os apetrechos pra fazer aquele tradicional despacho no palco, cenografia...
Tem essa parte que não pode ficar sem a devida atenção, né… Nós precisamos comprar os materiais de macumba, os alguidares. No show o pessoal precisa tomar aquele banho de farinha com pipoca, galinha, tem os efeitos especiais.
Rocco: Além do visual todo, tem o lance da cenografia que as pessoas cobram. As pessoas vão ao show da Gangrena pra receber o despacho, comer o frango no palco, tomar a cachaça!

Mas vocês tiveram uma fase Lick it Up, né? De tentar desencanar do visual e da encenação e focar só no som...
Angelo: 
Foi importante também essa fase Lick it Up, sem o visual e a macumba, pra focar na música, reciclar. Porque você chega num ponto em que as ideias mudam e você quer mostrar outras coisas. De toda forma, eu sempre fui contra.
Rocco: Na minha opinião, esse período foi legal pra mostrar que a gente não era uma banda reduzida ao visual. Sem visual, tem pressão também! O grupo tinha que se livrar do estereótipo.

O Dado Villa-Lobos ter gongado o disco de vocês ali, prontinho pra ser lançado, foi um tiro no pé, fala aí?
Angelo: 
Depois do Welcome To Terreiro, que é de 1992, veio a fase em que eu entrei na banda, em 94, quando gravamos Cambonos From Hell, a demo tape. Nossa, a gente achava que tinha um contrato firmado com uma subsidiária da EMI – no caso, era a Rock It! do Dado. Eu não participei da reunião, mas o que o Chorão e o Vladimir disseram foi que eles chegaram lá empolgados pra mostrar pro Dado e o cara vetou na lata. Ele conta a versão dele no documentário, mas os caras disseram que ele simplesmente falou: “Cara, eu não lanço death metal”.

Porra, mas quando ele lançou o disco de estreia já não era death metal? O que ele achou que era?
Antes ele considerava punk rock, um quas, quas, quas, um sonzinho alegrinho. Tanto é que o Welcome to Terreiro virou clássico pelo valor histórico, mas a guitarra é quas, quas, quas [risos].
[Nessa hora os caras começaram a rir muito do termo “quas, quas, quas” e começam a cantar “Trem das Onze”, fazendo barulho e falando ao mesmo tempo por alguns minutos…]
Gê: …Eu nunca ouvi alguém falar isso!
Angelo: Retomando… Foi uma fase de muito ódio, muita raiva, sabe como é? Apertamos o botão do foda-se. E acabou funcionando, porque saiu o Smells Like a Tenda Espírita que é um clássico também, né, cara. Um ótimo disco. No Welcome o que rolou foi que a banda teve que aceitar vender um álbum sem guitarra! Transformaram a obra no que eles queriam. Enquanto, na verdade, o que queríamos fazer nessa época já era algo na linha do Smells. Os caras da Rock It! viraram as costas, acabou o esculacho, acabou a brincadeira, atropelamos com despacho e timbalada de caveira.

A ideia “Gangrena Gasosa” eu sempre achei genial, pelo contexto geral do conceito, da proposta, independente de religião. Eu desde o começo pensava nisso como uma ideia pra ser melhor aproveitada.
Angelo: Mas esse é o mote, evoluir artisticamente. A formação já teve cinco, depois teve seis, agora somos em sete. Meu sonho é botar umas 30 pessoas fazendo esporro no palco. Vai rolar um show comemorativo ainda, com vários negos no palco, no lançamento do DVD, todos os integrantes importantes estarão: Sid, Paulão, Elijan, Chorão.
Angelo: Inclusive eu e o Magrão, um dos bateristas que passaram pela banda, compositor das linhas de bateria do Smells e de muitas letras, pensamos em fazer uma revista em quadrinhos com as histórias. Tipo Contos da Cripta, mas aí traria histórias do Curupira, da Mula Sem Cabeça. Só que isso é um projeto que demanda tempo e um dinheiro que não temos agora. Musicalmente a ideia é ampliar, tem que ter vários percussionistas, evoluir muito mais o conceito. Pensa bem, não tem troço mais pesado do que você ir num ensaio de escola de samba, aquilo é uma porrada! Imagina isso no hardcore, trinta pessoas tocando, guitarra pesada! No Circo Voador já rolou uma experiência boa com quatro vocalistas, os dois originais e nós.
Gê: Que inclusive disseram que nunca mais tocariam juntos, e tocaram.
Rocco: É, falaram que iam sair na porrada se encontrassem, que ia sair tiro, que ia pegar a peixeira. Chegou na hora todo mundo se abraçou, berrou pra caralho junto, a plenos pulmões, amarradões: “Vamos fazer de novo! Quando é o próximo?”.

Ouvi dizer que vai rolar um projeto acústico também. É pra valer?
Angelo: 
O projeto do acústico é pra valer, nós vamos fazer, vai sair uma coisa ousada e queremos que fique mais pesado do que as versões elétricas. Isso aí é mais pra frente, na sequência do Desagradável.

De música pronta que vai entrar nesse álbum prometido pra 2014, o que já tem?
De som novo que dá pra adiantar, tem “Vem Nariz”, que já tocamos em show; “Terno do Zé”, que fez parte do curta-metragem premiado de mesmo nome; “Trabalho para 20 comer”; “Jogo do Bicho”; “Carnossauros Pride”, sobre o orgulho de quem come carne; “Você Analisa”, no sentido anal do termo... Umas coisas legais.

Ouça o Gangrena Gasosa aqui.

Texto/Introdução por Adelvan Kenobi
Entrevista por Eduardo Ribeiro
VICE
 

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

gangrena gasosa por eles mesmos ...

Não, eles não são uma lenda urbana. Eles existem. E não, não acabou. A Gangrena Gasosa, primeira e única banda de Saravá Metal do universo, está viva e ativa, e acaba de lançar seu terceiro disco. Abaixo, uma geral na carreira deste originalíssimo "combo" de rock "pauleira" suburbano através de algumas entrevistas feitas em épocas diferentes, a começar pela mais recente, deste ano de 2011, publicada originalmente no Blog do programa de rock:

programa de rock - Finalmente foi lançado o terceiro disco “cheio” e “oficial” da Gangrena Gasosa. Conte-nos como foi todo o processo de concepção e gravação do mesmo – o repertório já estava pronto ou vocês compuseram músicas novas que nunca haviam sido antes gravadas, além das que já constavam do EP 666 ?

gangrena gasosa - “Se Deus é 10 SATANÁS é 666” é o primeiro disco que nos deixou realmente satisfeitos com o resultado. Pra mim esse disco foi premiado pelo nível dos profissionais que colaboraram. Tuta e Diogo Macedo do EME Studios, do Rio. Dupla foda de Barra Mansa que tinha gravado muita banda underground com resultados sensacionais e coisas diferentes como o grupo Strike e a Banda Revelação. Participaram das nossas percussões Elijan Rodrigues e Anjo Caldas, percussionista da Elba Ramalho e da Catapulta. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Rodrigão Duarte. No final das contas ainda recebemos uma ajuda inacreditável do Frejat. Mixamos e masterizamos no estúdio dele, o DuBrou’. O disco começou a ser produzido em 2004 quando eu, o Vladimir e depois o Chorão fomos apresentados pelo Rodrigão Duarte ao Anjo. Ele é um cara que agregou muito aos conceitos rítmicos e percussivos da banda. Seu entusiasmo em relação ao projeto nos fez acreditar novamente que o conceito funcionava, aí decidimos retomar as atividades. De cara nasceram músicas como “Chuta que é Macumba” e “Quem gosta de Iron Meiden também gosta de KLB”. Também já tínhamos uns esboços como a música-título, que tinha sido feita sob influência da turnê, com uma pegada muito rítmica e pesada. Depois de lançarmos o EP 6|6|6 no dia 6/6/06 com vendas somente pela internet, começamos a trabalhar músicas como “A SuperVia deseja a todos uma boa viagem” e “Black Velho”. Algumas ficaram pelo caminho como “Engodo We Trust”, “Você analisa muito (no sentido ANAL da palavra)” e “Trabalho pra 20 comer”. Entraram também músicas que não tinham registro oficial como “Artimanhas do Catiço” e “Cambonos from Hell”, que mudaram muito com a pegada atual. Esse disco ao mesmo tempo em que fecha um ciclo inicia outro que retoma as origens da Gangrena com uma pegada que nessa formação conseguimos alcançar. Tem muita raiva e muita vontade nele. É tipo uma madeirada na palhaça.

pdrock - E pra lançar o disco, muita dificuldade? Como foi o processo de escolha da gravadora, e qual foi o selo, afinal, escolhido ?

Gg - Tenho até que fazer uma força pra não ficar chorando pitangas, mas foi foda sim.
Não tem gravadora, foi produção independente. Tivemos muita dificuldade com prazos nesse disco por termos contado com a ajuda de vários amigos que nos ajudaram no tempo que foi possível e não no que seria ideal. Isso causou certa demora no lançamento da bagaça. Íamos até lançar por uma gravadora, mas acabou não dando certo e tratamos de tudo por nós mesmos. A distribuição é da TAMBORETE ENTERTAINMENT no Brasil, e KARASU KILLER no Japão.

pdrock - Ficaram satisfeitos com o resultado final do disco? Como pretendem divulgá-lo e distribuí-lo – isso fica por conta da gravadora ou a banda pretende “colocar a mão na massa”?

Gg - E como! Mesmo sabendo que podia demorar mais, fazermos o disco com os melhores recursos que tivemos acesso foi importante pro resultado final. É uma proposta musical muito filha da puta pra qualquer técnico acertar a percussão com a porrada comendo entre 2 guitarras, 2 vocalistas mais bateria e baixo. Imagine pra gravar? Percussão pra nós não pode ser figura decorativa. Pela primeira vez na história desse país, a Gangrena conseguiu gravar um disco exatamente do jeito que queria. Tudo aparecendo como queríamos. Quem ouvir o disco pode saber que é isso que os espera ao vivo. A distribuição fica a nosso cargo e dos selos. É parceria, na verdade.

pdrock - Ainda vale a pena, financeiramente falando, lançar um disco “físico”? Caso a resposta seja não, porque lançar, então? O resultado artístico, o prazer em ver as idéias literalmente postas no papel, como nos velhos tempos, compensa eventuais prejuízos?

Gg - Financeiramente falando não, tudo mudou nesse lance de música. Mas vale muito pelo lado de dar um material de qualidade pro fã ouvir, ver, tocar. Pode ser muito mais prático você baixar uma música, mas nada substitui a sensação de ter um material físico da banda que você curte. Vale muito mais a pena pelo lado artístico mesmo.

pdrock - Chorão 3, membro-fundador, deixou a banda mais uma vez. É definitivo? Foi tudo numa boa ou foi um processo “traumático”?

Gg - É definitivo sim. Tudo numa boa, sem estresse. Ele continua como colaborador, assim como muitos outros que passaram pela banda. É nosso amigo e eu falo com ele sempre. O peso das dificuldades de se tocar uma banda independente infelizmente não era mais compatível com seus compromissos pessoais.

pdrock - Existe ainda algum membro da formação original da banda ou vocês são nosso “Napalm Death tupiniquim”? (nenhuma conotação depreciativa na pergunta, já que gosto de todas as fases do Napalm Death)

Gg - O Vladimir (Exu Caveira) é da formação que gravou o Welcome to Terreiro, mas não gravou a 1ª demo, por exemplo. O Napalm deve ser diferente nesse aspecto porque mesmo quem não está mais tocando conosco é colaborador. O próprio Vladimir retornou depois de sair num período pós EP. Somos mais um coletivo de esporro do subúrbio do Rio que uma banda comum de Metal ou Hardcore. Temos ex-integrantes que por vezes ‘tocam’ como roadies, técnicos de som, letristas, compositores, desenhistas etc. Pra nós, o Anjo Caldas é da Gangrena, assim como o Rodrigão Duarte, o Elijan, o Wagner (baixista da turnê europeia), o Magrão (que ajuda na concepção gráfica, tocou bateria várias vezes na banda e é um puta letrista), o Adelson (ex-The Endoparasites) que tocou bateria com a gente depois do EP, o Léo Dias (artista plástico sensacional que fez a HQ do disco, que acabou não entrando nele por motivos técnicos) e mais uma porrada de gente. Todos eles são integrantes da Gangrena Gasosa.

pdrock - Qual é a formação atual da banda? – quem são os membros, quais os mais antigos, quem chegou depois, de onde vieram...

Gg - O Exu Caveira (Vladimir) é da formação do Welcome to Terreiro e sempre foi guitarrista da banda. Eu (Zé Pelintra) sou da formação da demo “Cambonos From Hell”, toquei numa banda de Splatter chamada Erosive Exhumation, entrei pra Gangrena tocando baixo, toquei na Dorsal Atlântica e depois voltei pra casa como vocalista. O Exu Mirim (Renzo) entrou logo após o EP e foi baterista do DFC e do Zumbi do Mato. O Exu Tranca Rua (Moreno) compôs boa parte do baixo do Smells, tocou no Allegro e voltou pra banda junto com o Exu Mirim. O Exu Capa Preta (Minoru) entrou pouco depois e tinha tocado no Violator e no Allegro. Omulú (Cristiano) entrou no lugar do Chorão³ logo depois da gravação do disco e pegou tudo muito rápido, entrando num rabo-de-foguete danado, pois tínhamos alguns compromissos pendentes e ele assumiu de boa. Ele tocou na banda The true Blend e na banda Spell. A Pomba-Gira (Gê) entrou depois da gravação também e tocava no projeto Musikfabrik. O Mutley estava tocando de freelance com a gente até arrumarmos um integrante definitivo, coisa muito difícil de achar. Percussionista normalmente toca em esquemas diferentes do esquema rock independente. Posso ter me enganado no nome de uma ou duas bandas, mas acho que é isso. Essa é a formação atual. Gente pra caralho, né? E nem é o ideal. A percussão merecia mais uns 2 ou 4 braços.

pdrock - Os membros mais novos estão se adaptando bem ao ritmo da banda? Tem dado certo?

Gg - Tudo em paz no reino de Satanás.

pdrock - Como está o ritmo de atividade de vocês? Fale-nos dos últimos e mais marcantes shows e acontecimentos em geral na vida da banda.

Gg - O ritmo está bom, mas vai melhorar. Tocamos regularmente no Rio, mas esperamos que com o lançamento possamos tocar mais pelo Brasil. Recentemente tocamos no Porão do Rock e foi muito bom, evento bem organizado que respeita o músico e dá condições técnicas de se fazer um bom show, coisa rara no underground. Quando se trata de 7 músicos, mais ainda. O Goiânia Noise Fest foi há mais tempo, mas foi muito importante também, pelos mesmos motivos. Mas o que recentemente me deixou bolado mesmo foi quando tocamos em Curitiba e quase sofremos um acidente na Van, o motorista chegou a sair da estrada. Depois que percebi que o traçado da van estava meio estranho, passei a ficar de olho na estrada. Dito e feito! Quando ele cochilou e começou a sair da estrada eu dei um grito de desespero tão alto nos tímpanos dele que ele deve estar dormindo mal até hoje. Geral trancadinho o resto da viagem toda, com os olhos arregalados, prontos pra gritar no ouvido do motorista, foi tenso.

pdrock - Planos para o futuro ?

Gg - Tocarmos esse disco o máximo possível no maior numero de locais que pudermos. Estamos iniciando um projeto de vídeo ao vivo com o Fernando Rick, que fez o ‘Guidable’ do Ratos de Porão e só posso adiantar que eu não ouvi falar de nada parecido até hoje. E começamos a alimentar o projeto de fazer outra turnê europeia e uma sul-americana, mas isso é mais pra frente. Nesse ano pretendemos arriar o despacho desse disco em todos os lugares possíveis. Se não for ao vivo, que pelo menos seja destilando o puro suco da maldade no fone de ouvido ou nas caixas de som desse povo metaleiro sofrido que tem aturado umas coisas que vou te contar.

pdrock - Espaço aberto para considerações finais.

Gg - Saravá, mizinfio... fica de olho nas novidades da Gangrena, vem muita coisa por aí e o ritmo vai ficar frenético.

Visite o Terreiro Virtual da Gangrena Gasosa.
Contato: despachos@gangrenagasosa.com.br
(21)9184-2972 c/ Lana Ramôa
Foto: Divulgação
Arte: Leo Dias

Adelvan k. perguntou
Angelo respondeu

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MINHA HISTÓRIA COM A GANGRENA GASOSA

Uma vez, há muito tempo atrás, numa galáxia não muito distante (Itabaiana), eu abri uma revista Casseta Popular (ainda não eram globais) e me deparei com uma entrevista bizarra com uma banda pra lá de tosca chamada Gangrena Gasosa. Eram do Rio de janeiro e, na tal entrevista, faziam uma apologia explícita a um tal de movimento “Homo Core”. Assumiam-se todos como viados e macumbeiros convictos e só vomitavam absurdos e loucuras, era impossível saber se falavam sério ou estavam apenas zoando, ainda mais porque a entrevista era para uma revista de Humor e eu era leitor assíduo do Rock Brigade, ou seja, ainda levava o rock a sério, vejam só.

Encarei na brincadeira mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. Depois virei zineiro e a tal banda ficou mais ou menos famosa. Começaram a chamar a atenção com seu metal tosco misturado com pontos de macumba ao ponto de serem chamados para uma entrevista no programa do Jô Soares !!!! Conheci o som dos caras através de uma fita que Panço do Jason (na época Soutien Xiita) me mandou gravada no lado B da demo da banda dele. Era soutien, poindexter e Gangrena Gasosa, o "creme de la creme" do rock underground carioca da época. Muito ruim, mas curti a idéia. Cheguei inclusive a entrevista-los para o Escarro Napalm, meu zine (abaixo, a entrevista na íntegra) e a manter um contato meio precário por cartas com o Ronaldo Chorão, o vocalista - depois de alguns meses esperando a confirmação do recebimento de um pacote que eu mandei com uma fita da minha banda – ETC - , uma carta e um zine, ele me escreveu pedindo desculpa porque sua mãe (ou teria sido o pai?) teria queimado todas as coisas dele na fogueira santa de Israel da Igreja Universal do Reino de Deus.

Depois disso, passamos um bom tempo sem contato. Mas o mundo (especialmente o mundo rock) é pequeno e acabamos nos encontrando pessoalmente por um acaso em Recife. Eu tinha ido visitar um amigo, passear e aproveitar para ver um show do Jason. Ele também estava por lá, de férias, foi no show e deu uma canja num cover da Gangrena. Ao final da noite, sou surpreendido por um convite do mesmo para que eu o acompanhasse à casa de um tio em Boa Viagem que tava desocupada e ele iria dormir por lá. Confesso que nessa hora a pulga despertou lá do fundo da minha orelha e eu me lembrei da pré-Histórica entrevista na revista dos Cassetas. Aceitei o convite porque o cara era muito gente boa e divertido e desconfiei que iria gostar de conhece-lo melhor, mas um leve temor martelava insistente em minha cabeça: Será que esse negão vai querer me estuprar? Analisei a estampa do indivíduo e cheguei à conclusão de que seria possível resistir a uma abordagem mais agressiva, então fui com ele na casa do tal tio. Quando entramos ele já me leva direto pro quarto do cara e caralho, o quarto parecia um motel, tinha espelho no teto e cama redonda! Antes que meu coração gelasse ele ressalta que tinha me levado lá apenas pra me mostrar uns vídeos do Aeon Flux que ele tinha gravado porque só tinha vídeo-cassete no quarto. Quanto à decoração excêntrica, que eu não ligasse que era viagem do tio dele, um solteirão convicto metido a conquistador. Ufa, temores aliviados, passamos uma noite divertida conversando sobre historinhas do underground e esse foi o inicio de uma grande amizade, que já rendeu uma visita mutua dele à minha casa e minha à casa dele no distante bairro de Campo Grande.

por Adelvan Kenobi

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Entrevista para o Fanzine Escarro Napalm, publicada na Edição Especial DELIRIUM, de 1995:

ESCARRO NAPALM PARA GANGRENA GASOSA, CAMBIO...

1. FALE-NOS UM POUCO SOBRE O INICIO DA BANDA – SERIA O GANGRENA UM BANDO DE PUNKS TIRANDO ONDA COM O METAL OU VOCÊS REALMENTE GOSTAM DESDE ESTILO?
GANGRENA GASOSA: Quando começamos eu ainda era punk, e realmente tinha muito esse lance de tirar onda com metaleiro, porque naquela época tinha a moda do thrash, ta ligado? Era um puta estereótipo de se vestir com camisa preta, tênis Reebock importado e calça de moletom. Aí a gente era feio pra caralho, duro, e tocava mal a beça, tudo o que a gente queria era ser anti tudo. Com o tempo a gente aprendeu a tocar e fomos colocando mais macumba no som e nas letras. Ainda assim eu acho que o pessoal mais mauricinho não curte muito a gente pessoalmente, por a gente ser meio grosso na parada.

2. APROVEITANDO A PERGUNTA ANTERIOR, O QUE VOCÊS OUVEM E O QUE INFLUENCIA O SOM DE VOCÊS?
GxGx: A Gangrena é uma banda que tinha tudo para dar errado, porque tudo mundo curtia uns lances bem desiguais tipo rockabilly, death, industrial, eletrônico... Cada um, um troço. Mas aí veio essa onda ridícula de voltar ao tempo dos dinossauros, da musica perder peso e velocidade. Então agora todos estamos ouvindo violência direto, para o som ficar o contrario dessa viadagem toda de musica com influência de coisas setentistas. O TOP 10 entre a gente atualmente é BRUTAL TRUTH, FEAR FACTORY, BRUJERIA, MYSTIFIER, SEPULTURA, RATOS DE PORÃO, NAILBOMB, SOD, HELMET e SLAYER (“Reing in Blood”). Só bandas sem educação mesmo, espero que isso se reflita no nosso som.

3. VI EM ALGUMAS REVISTAS QUE VOCÊS AS VEZES LEVAM FRANGOS PEGOS EM DESPACHOS PARA OS SHOW, E A GALERA SABOREIA LEGAL... É VERDADE? E QUE ONDA É ESSA DE VOCÊS FICAREM MASTURBANDO UNS AOS OUTROS EM PÚBLICO? VOCÊS SÃO GAYS? (NADA CONTRA, CLARO, SÓ PRA ESCLARECER!)
GxGx: A gente toca vestido de entidade, cada um tem a sua: Marcos (guitarra) é a Pomba Gira, o Paulão(voz) é o Exu Caveira, o Vladimir (guitarra) é o Cabloco Sete Frexa, o Cid (bateria) é o Exu Tranca Rua, o Jorge Doente (baixo) é o Zé Pilintra e eu (vocal) sou o Omulu na parada. No palco arriamos um despacho com velas, fubá, farofa, cebolas, cachaça, pipoca, e uma galinha assada que a gente compra limpinha num restaurante pro pessoal comer na hora de “Despacho from Hell”. É todo mundo gay na banda, mas nós somos HOMO CORE, não esses gays afeminados e desmunhequentos. Como vocês foram saber da viadagem aí em Aracaju ???!!

4. VOCES FREQÜENTAM TERREIROS DE MACUMBA? ACREDITAM EM SINCRETISMO RELIGIOSO, OU É SÓ NA SACANAGEM MESMO?
GxGx: Eu quero que o sincretismo e o religioso se fodam!! Terreiro de macumba de cú é rôla!! Eu falo por mim, mas acho que na banda ninguém acredita em macumba mesmo. É claro que sempre tem um ou outro dizendo pra gente tomar cuidado, pra não mexer com estas coisas, mas a gente caga pra isso. Não acreditamos nem em macumba nem em historias da carochinha. Quem ainda tinha um pouco de receio ou respeito pela religião cantou pneu da banda faz tempo, né, meu?

5. VOCÊS NUNCA RECEBERAM AMEAÇAS DE MORTE DE NENHUM METALEIRO “FROM HELL” NÃO?OS BANGERS DAQUI ODEIAM VOCÊS, SEGUNDO ELES, “É POR ISSO QUE METAL NÃO É LEVADO A SERIO”.
GxGx: Pra começar esse papo de ser “from hell” é falta de buceta. Pergunte a algum desses babacas adoradores do capeta há quanto tempo eles não comem ninguém pra você ver. O pau desses ótarios tá cheio de lodo, cara!! Já a galera Death eu não esperava que eles nos odiassem, porque quando a gente começou aqui no Rio foi justamente contra esses modismos de ser bonitinho, de se vestir todo metalzinho, sacou? E daí a gente também é feio pra caralho e gosta de som porrada. Pô, a letra de “Thraxangô” fala disso, ta ligado? Ser levado a serio? O que é ser levado a serio? Vestir uma fantasia preta pra dar porrada nos outros? Que venha me falar de seriedade o movimento punk, ou qualquer outro com objetivos político-sociais, agora este papo de radicalismo comigo não tem vez. Fico decepcionado dos “death’s” não gostarem da gente, de qualquer forma respeito a opinião deles, ok? Espero que quem não curta o Gangrena também não vá aos shows só pra detonar...

6. COMO ANDA A REPERCUSSÃO DE “WELCOME TO TERREIRO”, COMO FOI GRAVADO, ENFIM, COMO FOI O PROCESSO DE CRIAÇÃO DO DISCO?
GxGx: As músicas do “Welcome...” estavam sendo lapidadas há uns dois anos antes da gente grava - las. Quer dizer, quase todas, porque “welcome to terreiro”, “Thraxângo” e “Fist Fuck Agrédi” nós fizemos mais perto da gravação, quando Vladimir entrou para o Gangrena, falô? O desenho da capa é do Cid , eu só diagramei e coloquei os pontos de macumba em volta, a intenção era que a capa parecesse com a de um disco de macumba, não de metal, ta ligado? A contracapa é uma merda, mudaram a minha concepção original e ficou uma bosta! Inclusive o cd da gente é o único no mundo com lados A e B. O imbecil que reeditou os meus originais fez uma puta cagada em tudo! Já o encarte foi tipo um numero especial do “Amputação”, um fanzine meu e uma homenagem ao encarte MAU da falecida ANIMAL, lembram?

7. PLANOS PARA TOCAR NO NORTE/NORDESTE? VOCÊS JÁ SE APRESENTARAM EM ALGUM TERREIRO DE VERDADE? SERIA INTERESSANTE!! SABIA QUE UM DOS SONHOS DO ExTxCx É TOCAR COM O GANGRENA GASOSA?
GxGx: Planos para tocar no nordeste até a gente tem. Estamos tentando alguma coisa com o pessoal do KARNE KRUA, AVOID e REALIDADE ENCOBERTA há meses para fazer três shows, um em Recife, outro em Aracaju e o ultimo em Maceió. Acho que o sonho de toda banda daqui é tocar no nordeste, porque o pessoal do Dorsal Atlântica sempre elogiou o publico, dizem que são bem recebidos e que o pessoal agita pra caralho ... a gente fica só imaginando! Com uma inveja danada!

8. E AQUELE TAL PROJETO “MACUMBA” COM MIKE PATTON E MAX, É VERDADE OU SÓ BOATOS?
GxGx: Acho que é só boato, mesmo que chegue a se realizar, agora fica difícil, o Sepultura ta viajando na tour de “Chaos A.D.”, depois acho que o Max vai dar mais atenção ao NAILBOMB, que já gravou e tudo mais. Pra ser sincero o que eu esperava fazer no MACUMBA era um troço tipo BRUJERIA, mais grindcore e umas partes macumbadas. Adoro as letras do BRUJERIA!

9. SE QUISEREM MANDAR ALGUÉM TOMAR NO CÚ, O ESPAÇO ESTÁ ABERTO!!
GxGx: A maldição de Omulú é meu pau no teu cú!!! (N.R.: Ops! Logo no meu? Ôô cara!!!) Axé a todos os leitores do Escarro Napalm!!

(Agradecimentos a Andreia pela digitação)

LÁ: Ronaldo Chorão
AQUI: Adelvan

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Entrevista publicada por volta de 2005 no webzine Orangenoise

Chorão 3 – Gangrena Gasosa

1. Quando e como os integrantes da banda se conheceram e como surgiu a idéia da inusitada mistura de metal com candomblé?
Quando começamos em 1990, a cena era Trash Metal Bay Área (alguém lembra disso?): Testament, Anthrax, Over Kill, Suicidal Tendencies, Metallica, DRI, sem falr no sucesso do Sepultura, acho q era a época do Beneath ou do Schizophrenia, não lembro... enfim, cabeludos brancos e bonitos fazendo aquelas poses de ROCK BRIGADE: todo mundo em pé um do lado do outro de braços cruzados, usando tênis branco da Reebook e calça de moleton ou jeans rasgado, hahahahahah! Eu gostava desse som mas a gente não tinha nada a ver com esse visual. Metaleiro preto era um troço fora do contexto pra caralho! E é muito ruim bater cabeça sendo careca, hahahahahaha, na época eu nem era tão careca! Conheci o Cid através do Felipe, no primeiro ARENA DO HEAVY. Porra, o Cid era ROCKABILLY, odiava metal pra caralho, odiava mesmo! Começamos a andar juntos, o Cid me apresentou meu primeiro baseado e ficou sendo meu melhor amigo (é até hoje!). Daí houve o clássico show de lançamento do Brasil (Ratos de Porão) no Circo Voador...eu e o Cid nos olhamos e fizemos uma promessa: um dia a gente vai ter uma banda e abrir pro Ratos de Porão no Circo Voador!!! Daí foi juntar a fome com a vontade de comer por q ele tinha visto o nome GANGRENA GASOSA (uma doença sinistra, tem site sobre isso!) no Comando da Madrugada do Goulart de Andrade e disse assim, Chorão, isso é um ótimo nome pra banda...tu bota tuas letras de saravá metal (era o conceito da parada: metal pra criolo e gente feia q nem a gente) e eu boto o nome da banda e toco vestido de Exu Tranca Rua na bateria! Era uma proposta irrecusável... Um ano depois realizamos nosso sonho de tocar com o Ratos no Circo! Maluco, aquele dia (porra, me arrepio até hoje!) tinha muuuuuuuuita gente batendo no palco do circo gritando GANGRENA GANGRENA GANGRENA!!! Maluco, q show! Quando olhei pro lado e vi o Gordo no palco com fiá de Omulu na cabelça assistindo o show pensei assim: caralho! Nossa banda é foda!

2. A classificação "Saravá Metal", foi algum rótulo criado por jornalistas, ou a própria banda se definiu assim?
A própria banda, a gente tocava muito mal e nunca ia chamar a atenção de ninguém, fazendo essas paradas de macumba a gente chamaria a atenção pelo lado ridículo e ninguém ia se ligar q a gente era uma banda merda pra caralho! Fala sério, escute a primeira demo sem os pontos de macumba e sem as letras...A Gangrena Gasosa é a prova cabal de qualquer imbecil pode fazer Heavy Metal!

3. No início dos anos 90, o Gangrena Gasosa foi a banda underground que mais chamou atenção da grande imprensa musical, fato inusitado até então, como foi isso?
A verdade é a gente também deu muita sorte. Sorte de conhecer muita gente legal pra caralho que sabia do q se tratava a proposta da banda e gostava da gente por isso, e torcia sinceramente pelo sucesso da escrotice q a gente representava: Rolinha do Circo Voador, o Miranda, hoje na Trama, na época na Bizz, o Marcel Plasse da coletânea No Major Babes, o RH Jackson, o Pedro Só, o Tom leão, porra, tinha também o Fernando Souza Filho da Rock Brigade, esse era foda! Sempre atendia minhas ligações pessoalmente! Qdo a Gangrena lançava Demo ou CD ele sempre falava, Chorão, manda q eu publico! Porra, na época q ele colocou a letra de HEADBANGER VOICE na Brigade, ficamos com uma puta moral. Porra, é claro, também não podia esquecer NUNCA o padrinho e torturador da banda: Fábio do Garage! Esse foi foda pra gente! Sempre foi nosso pedreiro de som!

4. Como foi a produção do primeiro álbum, que contou com o Dado Villa Lobos da Legião Urbana, em que ponto entrou interesse do Lulu Santos em produzir vocês?
O Lulu Santos precisava de ibope pra vender disco e queria colar com a gente, abrir uns shows pra Gangrena, tal... mas eu pensei assim, pô q palha tocar com o Lulu Santos meu! Melhor não...na época ele tirou um cover de Pegue Santo or Die! Mas a gente não autorizou ele gravar nem tocar ao vivo pra não queimar nosso filme. O Dado ficou de mal comigo quando pedi pra entrar no Legião Umbanda pra cantar no lugar no Renato (que tinha morrido um dia antes). Eu liguei pra ele e uma voz atendeu: -Quem gostaria? É o Chorão!, falei... daí ele atendeu pensando q era o Chorão do Charlie Brown Junior q tinha ligado pra dar os pêsames. Então eu fiz minha proposta e comecei a cantar Que país é esse? no orelhão...tu tu tu tu tu tu tu tuuuuuuu....

5. Com o assédio de pessoas conhecidas como Dado e Lulu Santos, chegou a rolar alguma proposta de grande gravadora?
Cara, muita especulação por q muita gente achava q a gente era a próxima banda underground a estourar no Brasil, tipo um Chico Science, mas a gente zoava muito o barraco, alopravamos pra caralho nas entrevistas, uma vez quase destruímos a Dr Smith na zona sul, zoamos o barraco no Super Demo da Elza Cohen (tadinha, ela pediu pra caralho pra gente não jogar farinha na galera dentro da boate, até parece q adiantou...) aí era foda, a gente era maluco, moleque novo, cheio de fama e velocidade, a gente só queria fumar maconha e comer o quanto pudesse de mulher q pintasse no camarim...Quando a gente tocou no Canecão e apareceu no Jô, tinha gente q me reconhecia no trabalho! Era foda tiramos muita onda mas foi muita maluquice q a gente não soube aproveitar pra profissionalizar a parada! A gente chingava o Iron Meidem, o Bleck Sábado, o Merd Zépelin, era foda! Neguinho falava –Manera Chorão! E o Cid, muito filho da puta falava –
Zoa mais Chorão, foda-se! Eu só escutava o Cid...

6. Em algum momento vocês pensaram em compor em inglês, como o Sepultura, ou nunca houve essa preocupação com mercado?
Há hahahahahahahah, como ia falar de macumba em Inglês? Exu Street Closer? Exu Skull? Bat Exu? Não dava, veja as letras traduzidas q saíam no Amputação. O Márcio Sno ainda tem algumas cópias do Amputação.

7. Existe uma lenda que diz que o primeiro álbum de vocês influenciou o Sepultura na composição do disco "Roots Bloody Roots", você já ouviu algo sobre o assunto, até que ponto você acredita que isso é verdade ou mito?
Rola essa história por causa do clip de ROOTS, eu acho q tem haver um pouco, mas imagine se a gente ia ser dono de toda macumbaria no Brasil, se eu falar isso agora ia parecer recalque, sabe qual é? Tipo chutar cachorro morto, o Sepultura se deu bem, a gente não... mas foda-se, é uma puta banda o Sepultura mesmo, acho q ficou outra banda depois q o Max saiu, acho o Soul Fly uma merda, mas imagine, se a gente achar q o Sepultura se influenciou na gente, imagine os caras do Korn quando ouviram o Roots! Imagine o Slayer quando ouviu o Beneath, por aí vai... O Sepultura era uma puta banda, pra mim sempre vai ser, se foram influenciados pela gente E ELES falarem isso, porra, ficaria orgulhoso pra caralho! Uma banda q eu acho foda, e disse q ouvia o som da gente era o Catapulta, e eles fizeram um puta disco, com uma puta percussão, falar q nós influenciamos eles de alguma forma é uma generosidade muito grande por parte deles! O primeiro disco do Catapulta pra mim é uma cartilha de crossover de guitarras com percussão! O jeito q o Moisés canta, irmão, eu tiro o chapéu pra ele, ninguém divide uma letra como o Moisés do Catapulta. Eu admiro muito esse cara cantando!

8. Qual foi sua reação quando ouviu pela primeira vez "Roots Bloody Roots", notou alguma coisa em comum com o som de vocês?
Pensei assim, caralho, o Max ficou maluco! Q voz é essa? E o Igor estava ignorante pra caralho nesse disco, descendo a marreta sem piedade, o Andréas também fazia um esporro do caralho com a guitarra.O clip de ATITUDE pra mim, aliás essa música pra mim vale o disco todo! Acho o encarte muito apelativo, mas a capa é foda! RATA AMARRADA pra mim é o TROOPS OF OLODUM do inferno! Gosto muito desse clip também! Porra, bem diferente do Max falando Boi tatá, zumbi, pororoca, caiapó...caiapó...caiapó...no Soul Fly, cantando Umbabarauma, q baixaria meu! O Max perdeu a linha...apelou pra caralho! Mas o ROOTS é foda! Pra mim o ROOTS e o BENEATH THE REMAINS são os melhores discos do Sepultura, escuto os dois até hoje, mas o Roots só chego até a 5ª ou 6ª música... as outras depois não têm diferença pra mim, bem diferente do Beneath nesse sentido. O Beneath é cocaína, o ROOTS é crack com LSD.

9. Chegou a ser lançado material do Gangrena Gasosa no exterior?
Não, o Jello recebeu material do Smells mas nunca tivemos resposta, tentamos a Century Media, tentamos a Road Runner, mas não rolou nada. A proposta mais séria era lançar o SMELLS em casteliano na alemanha em vinil, mas não rolou também.

10. Quando e como foi a turnê da banda pela Europa?
Foi em maio de 2001, EXPLICIT GROSNESS TOUR (algo como toscaria explícita).Juntamos dinheiro e fomos no peito e na raça! Foi foda! Maconha, cerveja e hardcore durante um mês inteiro, vivendo, viajando e comendo por causa da nossa música, um troço impossível e inviável no Brasil! Na Alemanha, o pagode é grind core! É um orgulho agradar um povo q só ouve esporro O DIA INTEIRO! Lá, num squat de 3 andares, acordamos um punk q veio ver o show e disse isso: -Eles são loucos como o Prodigy, agressivos como o Slayer e pesados como o Venom! Cara, eu senti q era Deus nesse dia! Foi a 2ª vez q pensei, Porra, essa banda é foda! Quero ser o Chorão 3 pra sempre nesse mundo!

11. No livro "Jason 2001 uma odisséia na europa", de Leonardo Panço, tem uma parte que um gringo comenta o show que assistiu de vocês, e diz que parece uma mistura de Ratos de Porão com Sepultura, provavelmente a parte do Sepultura refere-se a fase "Roots Bloody Roots". Vocês tiveram alguma oportunidade de explicar o som de vocês durante a tour pela europa?
Hahahahaha, nego via o encarte e achava q a gente era machista por causa história em quadrinhos do AllanSieber, hahahahah, tivemos q arrancar o encarte do Smells em alguns squats mais sérios! Daí, sempre q vinha alguém perguntar qual era a temática da banda, como o Fábio Lessa e o ângelo falavam inglês muito bem, eu falava pra eles traduzirem as letras do Sociedade Armada, DFC, Racionais, essas paradas q falam mais sério e neguinho comprava o disco amarradão pensando q era música de protesto com enganjamento político social! Hahahahahahaha!!!

12. Outro lance engraçado e o lance do seu nome; "Chorão", antes você era o único, agora você já é o 3, quem são os outros dois?
O Chorão máster, o n° 1, meu ídolo depois do João Gordo, é o Chorão do Charlie Brown Jr. O 2° Chorão na nossa escala evolutiva é o urso da Corrida Maluca, e o 3° e mais fodido da espécie, soy yo! Um dia chego lá, e também direi, “Hoje eu vou de limusine mas eu já andei de trem...” Um dia eu chego lá!

13. Essas ironias chegam a deixar vocês perplexos, ou apenas servem como motivo de diversão?
Essas ironias são o rebote do destino, sabe aqui se faz aqui se paga, a gente já fodeu a paciência de muita gente! Imagine q até a TAMBORETE renegou a Gangrena no começo! A gente era muito filho da puta mesmo! Coitado do Panço! Olha, o Panço rapaz é um cara gente fina honesto e batalhador da porra! Não merecia a Gangrena na vida dele... O Panço é a Tamborete e a Tamborete é o Panço. Graças a deus vendeu legal o Smells pra compensar o tanto q a gente infernizava a cabeça do Panço! Eu gosto dele pra caralho, mas não sei se ele gosta de mim...Eu te amo Panço! Obrigado por lançar o Smells!

14. Voltando ao início dos anos 90, como era a reação do público diante de uma banda tocando e atirando "despachos" em todo mundo?
As minas choravam por q eu mirava nos cabelos mais bonitinho e enfarofava elas pra caralho! Mano, era inveja por q eu era careca e as minas tinham tanto cabelo e eu sem nenhum cabelão e perdendo os poucos q eu tinha (até hoje!). Daí eu fazia um creme de massagem especial pra elas: ovo cru, couro de ghalinha, farofa e cachaça, imagina! Q prazer insano aquilo me dava!

15. Houve alguma manifestação dos adeptos do candomblé contra vocês?
Uma vez a Universal disse q ia panfletar na frente do nosso show e saiu uma nota no jornal deles, A Folha Universal. Imagina q meu pai pensava q a minha banda era “rock revoltado” q nem Titãs, quando ele tava na Igreja e viu a matéria na Folha Universal “banda de saravá metal pega despacho nas esquinas e atira no público” grandão na primeira página, hahahahahahah, pegou todas as cartas do Terreiro FC q iam pra minha casa antes da caixa postal e queimou tudo na Fogueira Santa de Israel. O meu nome ficou na corrente de oração da Igreja Universal um tempão.

16. Chegou a sair matéria em revistas e jornais, dizendo que um "terreiro" próximo a uma casa de shows onde vocês de apresentavam, recebia espíritos ruins quando vocês se apresentavam. Alguém na banda chegou a se preocupar com isso?
Era um Terreiro na rua Ceará, a rua do Garage. O pai de Santo do Terreiro dizia pro Fábio q tinha uma banda q tocava lá e sempre deixava as sessões muito agitadas, só baixavam as paradas mais toscas nesses dias. Um dia depois q a gente tocou no Garage o Fábio foi lá perguntar como foi a sessão do dia anterior e constatou q a banda q agitava as kurimbas era a Gangrena! Saravá mizifio!

17. Agora em 2005, você anunciou sua saída da banda. Qual o motivo dessa decisão, e como fica o Gangrena Gasosa agora?
Eu depois de tanto tempo na Gangrena acabei adotando uma postura muito arrogante em relação aos vocais, achava q era só chegar no dia da gravação, cantar e pá, ia ficar bom de qualquer jeito. Não tinha percebido q o som da banda mudou, evoluiu e precisava mais do q eu imitando o João Gordo pra sempre. Foi um choque pra mim a gravação, os vocais não casavam, eu atravessei pra caralho, enfim, uma puta lambança. Em parte babaquice minha q me achava o tal, “a pica q matou Cazuza”, como diria o Adelvan de Aracajú. Mas em parte foi o momento foda q estou vivendo atualmente. Moro em Campo Grande, trabalho em Botafogo, acordo 4:00 Hs, chego em casa TODIA DIA às 22:oo Hs. Acho q só não sou corno por q minha mulher me ama...Eu só vejo meu filho a cada 15 dias, e por isso não vou ensaiar quando o moleque está comigo em casa... Não dá pra ensaiar a sério pra gravar um bom disco ensaiando um fim de semana sim outro não. A banda tem um objetivo sério q é fazer o disco, enquanto eu fico chorando meus problemas os caras estão encarando tudo isso pra fazer o trabalho. As músicas estão fodas, as letras idem (nem todas são minhas) e a banda agora precisa de dedicação integral no disco. E eu estou no momento tentando consertar minha ausência da família, dando um pouco mais atenção ao meu trabalho q paga minhas contas e ao meu filho q está com 8 anos e precisa de mim pra caralho. Eu amo a GANGRENA,de chorar sozinho quando escuto o SMELLS, quando vejo as fotos dos shows, da Tour na Alemanha...de chorar de saudade mesmo, as vezes isso acontece no ônibus ouvindo disc man...mas amo mais o meu filho e tive q escolher. Não deu, eu liguei e saí da banda por q estava transferindo responsabilidade de me tirar da banda pro Vladimir e pro Ângelo, q por amizade de anos e anos, mais a consideração, nunca fariam isso. Mas EU SEI que estava atrapalhando a GANGRENA, em tudo. Tive q sair, eles não iam me tirar, eu sabia disso, e não queria sair da banda, mas foi foda...Agora não sei, o disco vai sair, vou tentar fazer algumas vozes, mas a Gangrena agora, pra mim, é uma saudade boa e dolorosa pra caralho, vivi muita coisa boa com a banda. A falta de reconhecimento nunca me abalou muito, a não ser financeiramente por q tornou a banda inviável pra mim, mas eu gostava mesmo de agredir, de ser tosco, de me contradizer e causar confusão. Um dia, alguém me disse q o show da Gangrena transcendia o estilo musical (metal) por q era tipo uma grande festa, uma celebração em cima do palco onde o público também fazia parte do show, e eu tenho um orgulho fodido disso! De ter feito parte disso! De ter culpa no cartório com a Gangrena!E também tenho uma saudade do caralho! Sinto uma puta falta... choro até com o DVD do LInkin Park ao Vivo no Texas...

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Por fim, uma megaentrevista postada pelo paulista Márcio SNO em 2008 no portal Rock Press. As palavras saem como uma hemorragia. O negão abre o verbo sobre a trajetória da Gangrena, a fama de malditos, a responsa de ser pai e a paixão por Adelvan Kenobi - também conhecido como eu. C/ vocês, as simpatias, mandingas & quizumbas de Chorão 3, puro suco da maldade. Chuta que é macumba!


Quem ouve o som deve achar que vocês se vestem de demônio, moram em cemitério e tomam água de vala. Quem são vocês afinal?

Eu não bebo água de vala, não, mas não sei se alguém da banda bebe. Veja um caso verídico que aconteceu c/ a gente. A Lana Romero, nossa manager, fez contato c/ a produção de um evento que rolou em Cabo Frio, chamado Rock Humanitário. Daí o cara que organiza falou assim pra ela: “Eles mexem c/ coisas muito sérias e não quero nada negativo no meu evento”. E adivinha quem toca... Quem? Quem? Quem? O KRISIUN!!! É mole? Tem troço mais DEATH que o Krisiun? É fácil não ter medo de Satã, Beelzebuth, Astarot, Demon, que são diabos gringos. Mas ninguém quer mexer com Exu, Tranca Rua, Pomba Gira e Zé Pilintra.

Os nossos santos de casa são mais poderosos que os importados?

Eles são mais nervosos, metem mais medo, eles estão aqui, né, meu? Nas esquinas e encruzilhadas da(s) (nossas) vida(s). Se quiser ver Belzebu e Lúcifer que estão láááááááááááá na Noruega, ou Voldermort (esse é do Harry Potter, nem meu filho tem medo mais...) você compra um CD, aluga um filme, entra na internet, você tem essa opção... Agora c/ a macumba, não, Tranca Rua e Exu Caveira, tá amarrado, né, mano? Você pode trombar c/ um despacho em qualquer esquina. Cara, tem gente que se muda de casa por causa de tambor de terreiro de macumba. Falam que é porque o som incomoda, mas acho que é medo mesmo. Eu tinha uma bobeira quando era pequeno, que sempre achava que meu pirú ia cair se eu pisasse em despacho de macumba, ou que a minha perna ia secar. Porra, quando aquele livro do Bispo Macedo [‘Guias, Caboclos e Orixás - Deuses ou Demônios’] foi parar lá em casa, eu parei até de comer doce de São Cosme e São Damião c/ medo, porque o livro falava que esses doces são oferecidos ao diabo antes de dar pras crianças. Isso é sério! A minha mãe compra doce pro meu filho em dia de Cosme e Damião, mas ela não deixa ele comer do saquinho de jeito nenhum. E eu respeito essa atitude dela, sei lá, né, meu, vai saber...

C/ essas mensagens que abordam em suas letras, como vocês lidam c/ os seus lados espirituais? Vocês também pedem licença quando cruzam por um despacho?

Eu tenho medo de praga de madrinha, de olho grande, de inveja, de mau olhado, de espírito obsessor, tenho medo de macumba, tenho medo de ver O Grito e O Chamado sozinho, tenho medo de Poltergeist até hoje (“foram eles, mamãe...”), tenho medo até do Gasparzinho querendo ser meu amigo... Tenho medo de tudo que eu não posso agredir e nem meter a porrada. Acho que cada um da banda tem sua maneira de se benzer dessas zicas que a Gangrena mexe. Mas não peço licença pra passar no despacho, não... Eu passo pelo outro lado da rua!

E esse ‘trabalho’ de lançar 3 discos de 6 em 6 anos? Foi um pacto mesmo ou ironia do destino?

Ahahahahahaha, todo mundo sempre pergunta se a gente tem pacto c/ o ‘capira’, mas isso não rola. Tem horas até que eu penso: “antes tivesse...”

Mas então esse lance de 6 em 6 anos foi estratégia p/ promover o EP 6|6|6?

Em relação ao nome do EP, c/ certeza. Mas a data foi um ‘dead end’, um prazo pra gente botar o disco na rua. Trabalhar sem prazo é uma merda... Tira a meta e fica muito largado, faz quando pode, quando dá... Quando você estabelece uma meta, você põe o trabalho à prova, se é viável ou não é. Também você avalia o grau de interesse (até o meu próprio) de quem tá junto no projeto. Vai chegando a hora de lançar e os assuntos cabeludos vão voltando junto: grana, show, grana, divulgação, grana, ensaio, grana etc. Mas também acontecem verdadeiras ‘declarações de amor’ pela banda. Eu e o Ângelo conversamos coisas e trocamos impressões que eram de chorar, literalmente. Acabei ouvindo também coisas do Vladimir e do Moreno que eu não esperava, que me surpreenderam muito, de saber o PESO que a banda tem na vida de cada um. Isso foi na época do EP, ainda não tinha o Renzo nem o Dread na banda. Quando vimos as músicas prontas, pensamos: “porra, se isso ficasse bem gravado ia dar um show do caralho...”

As letras demonstram bons conhecimentos de entidades de umbanda e candomblé. Foi feito algum tipo de pesquisa?

As letras são um crossover do dia-a-dia do brasileiro tosco com temática de macumba. Você não precisa estudar pra falar disso, basta viver no Rio de Janeiro e ter o dom de rir das desgraças. Hoje em dia, quem diria! Zé Pelintra é adesivo de carro!!! Tem o adesivo da frase clássica ‘amigo do Zé’ e aquele outro c/ ele encostado no poste, e isso vende na banca de jornal. Um adesivo de recorte eletrônico em 4 cores vende que nem água, por 2 cruzeiros o pequeno de uma cor só, e por 3,50 o grande colorido. A gente podia usar como merchandising da Gangrena na cara de pau! Até São Jorge é pop, tem uma porrada de gente c/ tatuagem de São Jorge matando o dragão, quem nunca viu isso? Tem adesivo pra carro também, que nem o Zé Pelintra. O nome do disco novo – Se Deus É 10, Satanás É 666 – vem de um adesivo dos crentes: “Deus é dez”. Vamos fazer vários adesivos desses pra vender como merchandising da banda, uma versão ‘defona’ dos adesivos crentes: “Tudo boto naquele que me fortalece”, “Foi Satanás que me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Lúcifer”, “Deus é 10, Satanás é 666”, “Azazel Inside”, mas quero ver quem vai colar isso no carro.

Quando foi formado o Gangrena ninguém tocava nada e hoje a banda já conta com uma formação bacana (que tem até o Renzo do DFC), sem falar no monte de gente bacana que passou pela banda. Diante dessa referência, vocês poderiam imaginar que o som tosqueira da primeira demo iria ter esse formato de hoje?

Não, a gente não podia imaginar, mas a entrada do Vladimir na banda foi um divisor de águas pra essa mudança. Metaleiro do inferno, cabelão comprido e tudo... No primeiro ensaio foi logo tocando o riff de ‘Holly Wars’ do Megadeth, imagina! Meu cabeção pirou! Eu falei assim: “caralho, a palhetada desse cara é uma grosseria! Agora vai ser metal mêismo, mêu!”

Quando lançaram o disco Welcome to Terreiro, muita gente apostava que a Gangrena ia ‘acontecer’. No entanto, o que ocorreu foi o primeiro sumiço da banda. O que aconteceu por não ter rolado o sucesso em tempos de Mamonas Assassinas e Raimundos?

O que aconteceu é que a gente não era o Raimundos nem o Mamonas Assassinas. Neste último caso, graças a Deus, né, não? Aliás, graças a Deus nos dois casos, o Rodolfo virou crente... A Gangrena era underground mesmo. A gente mexe com macumba, a gente emporcalha de farofa todo lugar que a gente toca. Imagina se isso acontece no Gugu (eu ia adorar)! Velho, a gente é toscão à vera, não é firulinha, não. Não dá pra Gangrena tocar no Criança Esperança nunca, eu ia querer mandar o Didi calar a boca porque acho ele sem graça pra caralho. Como a Gangrena ia “acontecer” com uma letra tipo ‘Timbalada de Caveira’? Será que a gente ia ser chamado no programa da Hebe (gracinha) ou da Ana Maria Braga? Eu ia querer roubar o Louro José e dar pra minha mãe botar na estante da sala. Mas o beijinho da Hebe Camargo eu dispenso. Acho que ia me sentir como se estivesse beijando o Imotep da Múmia. Apesar de que essa mulher é coroa mas ela tem umas coxonas grossas, né, cara? Quem será o Escorpião Rei que sacode a Hebe Camargo?

Ah, bicho, se pegar as letras do Raimundos o que não falta é palavrão... Mas diante dessa declaração, então, não podemos esperar um lançamento de vocês nem num Pânico na TV?

Pode ser, no Pânico, pode ser, sim. Também tem o Hermes & Renato, os programas do Gordo, do Zé do Caixão... Tem espaço pra gente também. Já fomos no Gastão (Musikaos) e no Zeca Camargo quando era da TV Cultura. Mas o esquemão tipo Jô Soares de novo, Faustão, não sei, não... Isso sim tem mais espaço pro Raimundos (que eu gosto), pra Pitty (que eu gosto), pros Detonautas (que eu gosto), pro NX Zero (que eu odeio), essas paradas são rock também mas são menos nervosas. E têm um formato que dá pra rolar bem em playback se for preciso. Já fizemos playback no Caderno Teen da TVE e odiei isso, é muito fake, é muito escroto. Não nego que a TV é uma puta divulgação pra banda, em qualquer canal, fazendo qualquer programa, mas no nosso caso, acaba sendo um tiro no pé. Porque os fãs da banda não curtem playback, e quem não conhece não entende a proposta. Pra isso funcionar, tinha que rolar a gente tocando c/ a legenda das letras, que nem no clipe de ‘A SuperVia Deseja a Todos Uma Boa Viagem’, assim vale a pena até fazer playback mesmo. Assim eu iria amarradão, porque faria toda diferença entre ser ridículo e pagar um puta lelê, e ter a oportunidade de mais gente conhecer nosso trabalho.

Quais são as principais diferenças de ter uma banda na adolescência e depois dos 30 anos, com filho, família, essas coisas?

Você não ter mais disposição pra dar murro em ponta de faca... Não ficar mais aturando certas babaquices de gente que pensa que está te fazendo um favor não te cobrando venda de ingressos pra tocar... Não sei se é assim em São Paulo ou em outros estados porque estou muito por fora da cena, mas no Rio de Janeiro tá assim hoje... Mas acho que deve ser aqui mesmo, porque o que eu vi na produção do ETHS [banda de new metal da França] feito pela Sob Controle, de São Paulo, fiquei impressionado c/ a puta estrutura que a banda teve no evento. Não só estrutura, mas acho que a palavra certa mesmo é suporte, logística, achei foda. O ETHS sobe no palco c/ um puta equipamento, roadie pra caralho, uma bateria zerada, o cara conta 1,2,3,4... BRAMMMMMMM!!! Tá ligado? Já manda um MI bordão na guitarra que parece um VRÚ (se existisse essa nota musical), som limpinho, tudo alto pra caralho... Me dá motivação de voltar c/ a banda e batalhar p/ alcançar esse nível de estrutura num evento. Os caras da Sob Controle são foda mesmo, não sei se estou fazendo propaganda gratuita, só respondi no contexto da pergunta, mas pra mim, o efeito foi que nem pegar um iPhone pela primeira vez na mão: me impressionou. Principalmente num meio em que todo mundo choooooooooooora pra caralho que tá ruim, tá ruim, tá ruim... Será que o público também não está cansado de sair de casa, pegar três ônibus pra ver 500 bandas sem previsão de horário pra começar o evento? Será que não estão de saco cheio de ver o nome de várias bandas no cartaz e ouvir o som igual ao do Atari Teenage Riot p/ todas as bandas saindo dos amps? Não sei, é uma pergunta...

Em Barra Mansa/RJ tem a banda Miami Brothers, que bebe da água da Gangrena e faz um som que coloca Edir Macedo no alvo. O que vocês acham dessa disseminação? Há outras bandas que seguem o estilo de vocês?

Rapaz, eu acho que o Miami Brothers tem as letras mais toscas do mundo. A ‘Dança do Crucificado’ e a ‘Melô dos Três Pregos’ têm os refrões mais ‘defonildos’ que eu já vi. Aquele zine que o Xan faz, INFERNO PUB, é muito foda! E eles têm umas sacadas ótimas também: ‘Templo É Dinheiro’, ‘Umbanda Larga’ e ‘Paga que Eu Te Escuto’. Acho muito bom mesmo. As outras bandas, como disse na pergunta lá em cima, não têm como fazer um trabalho falando de macumba que não lembre a Gangrena. Tem tipo o Ocultan, mas o som é muito diferente do nosso, e a temática parece mais séria. O importante é que o pau ronca! E isso é muito legal, tem uma música deles que eu ouvi, ‘Poderoso Exu Sete Crâ-ni-ôssssss’... Defão mesmo! Também vi no MySpace uma banda de death chamada Gangrena Febrosa que tem um logotipo parecido c/ o nosso, se não acredita, vai lá ver: www.myspace.com/gangrenafebrosa. Essa banda tem temática de splatter, doenças e desgraças afins. Fora isso, meu sonho é ver uma banda tocando uma cover da Gangrena. Acho que eu ia me sentir ‘a pica que matou Cazuza’ se uma banda tocasse uma cover da Gangrena! Coisa de artista, maior bronca de famoso, né, não? Eu teria coragem até de juntar dinheiro e bancar um tributo pra Gangrena Gasosa – tipo o Phú fez c/ a coletânea TRAIDÔ!!, no qual a Gangrena participou c/ a versão de ‘Beber até Morrer’ e ‘Vida Ruim’, transformado em ‘Benzer até Morrer/ Kurimba Ruim’ – , só pra ouvir esse CD e ficar me masturbando...

Chorão, em outras entrevistas você fala de possíveis relações mais profundas c/ rapazes do rock como Phú (DFC) e Adelvan (Programa de Rock de Aracaju), por exemplo. Como você explica a música ‘Emboiolada’?

Não, sai fora, brincar disso c/ o Phú é furada! O Phú come travesti mesmo! E isso sairia do campo da aventura p/ o campo do amor, e eu não quero casar c/ o Phú nunca... O único amigo que comeria por amor seria o Adelvan de Aracaju, faço qualquer coisa por aquele nariz! Largo até minha mulher pra casar c/ o Adelvan se ele me quiser.

Uma vez seu pai queimou uma pilha de cartas suas na ‘Fogueira Santa de Israel’ e colocou o seu nome na corrente de oração da Igreja Universal. Me fala, o que mudou na sua vida nesse período?

Fiquei careca, casei, engordei 20 quilos (minha mulher cozinha bem pra caralho) e estou mandando melhor no sexo apesar da minha pança extreme noise terror. E o meu pai saiu da Universal e foi pra Quadrangular. Mas tem o seguinte, agora que sou pai, percebo que os pais erram querendo o melhor pros seus filhos, e c/ o meu não foi diferente.

Então, talvez seja o caso de você dar o seu testemunho... Ou seu testemunho você não dá?

Tipo o que Rodolfo dos Raimundos fez? Não, isso, não... Não dou meu testemunho porque acho que ele não seria sincero... Acho que quando você descobre que as coisas não são só átomos (também não estou dizendo que são Jesus, nem Satã, nem Buda, nem Maomé, nem Alan Kardec, não é isso...) bate uma chapação, tipo um ‘PLÁ!!!’ na sua mente, e tem pessoas que querem falar isso no microfone pra todo mundo ouvir. Acho que é uma mudança de conceito muito grande e as pessoas querem, sei lá, compartilhar isso, penso que seja isso... Mas eu não tenho essa piração, pra isso eu tenho a Gangrena, que eu posso subir no palco, grito pra caralho, mas as pessoas que estão ouvindo vão lá QUERENDO ouvir isso. Acho um saco essas pregações que os crentes querem te empurrar goela abaixo porque estão arrependidos de cheirar, de fumar maconha, de fazer macumba pra separar marido, pra aleijar os outros, de dar o cu, de ser piranha, de roubar... Acho isso caído. E vêm c/ essa postura de que estão te fazendo um puta favor de mostrar o caminho do céu, e você que é um ingrato, não quer escutar o que eles têm a dizer... Já vi testemunhos sinceros, já aceitei orações sinceras também, porque acho que boas intenções não têm religião. Dos meus avós, dos meus pais, dos fãs e amigos da banda, aceito de coração quem quiser desejar boas coisas pra mim. Não sou ‘defão’ de mandar crente tomar no cu, essas paradas. Mas sei que tem muita picaretagem no meio também (minha vó falava que era “crente do cu quente”) e meto o pé quando vêm na minha direção pra entregar papelzinho e dizer que Jesus Cristo tem uma grande obra pra fazer na minha vida, mas falta eu comprar o material...

Já rolou algum processo por parte de espíritas, crentes ou mesmo pelo Lulu Santos?

Não, somos café pequeno pra eles, crentes e espíritas. E o Lulu Santos gosta da gente, eu também acho muita coisa do Lulu Santos bem legal.

O Lulu curte a Gangrena mesmo depois da ‘homenagem’ que fizeram pra ele no encarte do Smells Like a Tenda Spirita?

O Lulu Santos é ‘diabo de mídia’ e ele sabe disso. Como disse, eu tenho vários discos do Lulu Santos, pediria autógrafo se o conhecesse pessoalmente – e se os CDs fossem originais... Sem nóia!

Existe uma especulação de que o disco Roots, do Sepultura, foi inspirado em vocês. Definitivamente: isso é fato ou lenda?

Definitivamente o Roots é um crossover de Korn no som c/ Gangrena Gasosa no conceito. O clip de ‘Roots Bloody Roots’ é Gangrena até o caroço. Mas também, todo mundo que fala de macumba no Brasil vai remeter a alguma lembrança da gente, não tem jeito. Mas nós não somos donos de toda macumba do mundo e, além disso, o Roots é um disco foda (não, não é o melhor deles, prefiro Chaos A.D. e o Beneath the Remains). Ninguém tem a patente das boas idéias, e em contrapartida, esse brá lá lá que rolou c/ o Sepultura nos ajudou na época, na tour da Alemanha a gente sempre era relacionado c/ o Sepultura e o Ratos de Porão, era a melhor referência que eles tinham pra situar o nosso som. No problem! Sepultura é uma puta banda. Mas isso de fazer macumba não deu muito certo pra eles, porque a banda perdeu muito espaço depois disso e o Max virou mendigo... Meu Deus, que cabelo é aquele, né, velho? Tem uma foto dele na revista Rolling Stone que ele tá sem um dente... Cruz credo... Que onda errada... Ele acha que isso é bonito? Já pensou como ele vai falar pro Zyon escovar os dentes se ele não dá exemplo pro garoto?

E você, na Gangrena, depois que teve filho passou a rever algumas posturas suas para não dar esse anti-exemplo igual ao do Max?

Claro que sim, eu não fico dando mole, não, porque sei que sou referência e não vou colaborar ensinando mais merda do que as que ele já vai encontrar fora da escola e de casa. Eu não fico mostrando Playboy pra ele porque ele é homem, meu filho não tem nem 12 anos. A Playboy vai servir pra que? Pra ele sentir tesão? Ele não faz sexo c/ essa idade, pra que vou incentivar isso? Pra dizer pros amigos e vizinhos que ele não é viado? Acho isso babaquice... Você tira por uns pequenos lances que você observa (pra ser pai TEM QUE OBSERVAR SEMPRE), meu filho já veio me pedir cerveja em churrasco, tipo pra mostrar pros outros moleques que já era adulto que nem o pai. Não dei uma bifa nele mas dei um sabãozinho de leve no canto e ele bebeu foi Coca-Cola mesmo. Eu, hein, mano, não fode! Sinceramente, quando eu vejo essa molecada fumando maconha e bebendo até cair na sarjeta, sei lá... Me dá muito medo. Hoje em dia vejo filmes como Alpha Dog, Kids, Requiem for a Dream, Trainspotting, e isso agora é filme de terror pra mim. Fico na merda vários dias dormindo mal, cheio de paranóias... É foda... Além disso, tem as outras coisas que meu filho vai ter contato dentro de casa mesmo, pela internet, não me iludo quanto a isso, ele sempre vai dar um jeito, como eu dei o meu jeito quando tinha a idade dele... Tem muita putaria e maluquices rolando na internet... Não dou lição de moral pra ninguém, porque sei que ninguém quer ouvir lição de moral do Chorão 3, que agora só porque é pai de família virou moralista. Mas, respondendo a sua pergunta, ser pai mudou isso na MINHA cabeça e esses são meus medos hoje em dia, quem não entende vá ser pai e veja qual é a bronca... Isso vai passar quando meu filho tiver 20 anos, mas quando ele tiver 30 vou ser avô, e aí vai começar tudo de novo...

Tem alguma música da Gangrena que você se recusa a cantar? Por quê?

Não, me recusar a tocar, não, todas são músicas da banda, mas tem umas que acho chatiiiiinhas pra cacete, tipo ‘Pomba Gyra’ e ‘Pegue o Santo or Die!’... Tem outras também, mas o fato é que curto as músicas mais porradas e c/ mais percussão.

Em 2001 vocês se aventuraram na Alemanha e Áustria fazendo alguns shows. Como foi essa experiência e como eles receberam a proposta da Gangrena? Ou não entenderam nada e tudo bem?

Eu gosto de contar uma passagem em particular que me deu muito orgulho dessa tour. Um dia fomos tocar num squat de três andares e lá em cima tinha um punk dormindo que acordou com o som e desceu pra ver a gente. Ele disse pro dono do bar o seguinte sobre nosso show: “Eles são tão agressivos quanto o Slayer, tão pesados quanto o Venom e tão loucos quanto o Prodigy”. Pra mim que sou a minha pessoa pessoalmente isso valeu qualquer custo que tive pra viajar naquela tour. Considerando que o cara não falava português e não entendia nada das nossas letras, tenho muito orgulho de ser da Gangrena Gasosa por isso. Se eu não fosse da Gangrena, seria fã pra caralho da banda.

Notei em diversos momentos nessa entrevista que você cita Deus. Quem é Deus para você?

Deus p/ mim, atualmente, é um crossover de Stephen Hawking, doutor em Cosmologia, c/ todas as tradições místicas e ciências ainda não desenvolvidas e estudadas da face da Terra. Um conceito tipo o do físico Amit Goswami. Eu ainda estou sob efeito do filme Quem Somos Nós? e essa pergunta é complexa demais, porque eu mesmo já me fiz essa pergunta e juro por Deus que não sei a resposta... Acho que Deus é um conceito muito pessoal, e eu ainda estou correndo atrás dessa compreensão. Saí do materialismo mental que venho pregando (vociferando) grosseiramente (sem conhecimento de causa, quero dizer) desde a minha adolescência, e estou deslumbrado demais c/ os novos conceitos c/ os quais tenho tido contato. O bom desse momento que estou vivendo é que (ainda) não fiquei chato o bastante p/ ficar pregando meu ponto de vista pra ninguém. E espero permanecer assim por muito tempo, acreditando em Deus, mesmo que eu não saiba explicar quem ou o quê Ele é.

O que podemos esperar da Gangrena nessa nova fase?

Sinceramente, eu também gostaria de saber. Eu me faço essa mesma pergunta todo santo dia...

Fonte: PORTAL ROCK PRESS

Entrevista por Marcio SNO

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