quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Eu tento, mas não dá ...

Eu juro que tento acompanhar as notícias de meu estado, porque às vezes tenho a impressão de que sei o que se passa na Ucrania - pra ficar num país "obscuro" mas que tá "na moda" - mas não tomo conhecimento do que acontece aqui do meu lado. Para tanto, às vezes "caio na besteira" de gastar alguns míseros porém sempre suados trocados comprando algum jornal local. Ou algum precioso tempo do pouco que me resta assistindo aos "Sergipe notícias" da vida na televisão aberta ...

Quase sempre me arrependo, infelizmente. Para além da tristeza com a mediocridade e a mesquinhez do cenário político em si, que, se já era mal cheiroso, se transformou num verdadeiro esgoto a céu aberto - e a tendência é piorar, à medida que se aproxima a data de mais uma enganação - perdão, "eleição" - a "onda" agora é a publicação de textos evidentemente produzidos com fins publicitários sem menor consideração em informar aos leitores de que aquilo se trata de uma propaganda. O mais estarrecedor, a meu ver, é que a saudável inscrição "Informe publicitário", tão necessária à credibilidade de qualquer veículo de informação que se proponha a ser algo mais que um mero panfleto - o "Correio de Sergipe", portanto, não entra na conta - não sumiu de uma vez, o que deixa o leitor ainda mais confuso diante de matérias como as que cobrem a inauguração do Complexo viário Gov. Marcelo Déda pela Prefeitura de Aracaju, publicada esta semana no Cinform, e a comemoração dos 34 anos do PT, que saiu hoje no Jornal do Dia. Se não foram produzidas por alguma assessoria de imprensa com fins propagandísticos, é ainda mais vergonhoso, pois os textos esmeram-se no "puxa-saquismo". Assim fica difícil! Para ilustrar o que digo, reproduzo alguns trechos abaixo. Para a sua apreciação - #sqn ...

"João Alves tem a paixão pelas grandes obras como uma de suas fortes peculiaridades. (...)Na noite de inauguração, a satisfação em poder realizar mais um sonho para os aracajuanos era perceptível nos olhos do prefeito. Desde que assumiu a prefeitura, João Alves entendeu a importância da obra, que sofreu sérios problemas estruturais: precisou ser paralisada e somente depois de reestudo e de um novo aproveitamento aprofundado teve seu início efetivo em janeiro de 2013 (NOTA: ou seja, tava tudo errado antes, e as coisas só começaram a andar de forma correta depois que o Dr. João, que é inteligentíssimo, assumiu o comando do governo municipal. SÓ QUE NÃO! Mal foi inaugurado e o elefante branco já tá causando uma série de transtornos. A prefeitura responde mais uma vez colocando a culpa na gestão anterior, mesmo depois de afirmar com todas as palavras que já tinha feito todas as correções necessárias no projeto.) "PMA inaugura complexo viário. faz homenagens e garante mobilidade". Cinform Edição 1611, página 8 do Caderno 1 - Cidade.

"Milhares de militantes da capital e do interior de Sergipe deram uma demonstração da força popular e social que é a marca do Partido dos Trabalhadores na noite de segunda-feira, 24. (...)"Honrando a sua história de partido que se faz coletivamente pela luta de homens e mulheres de várias gerações, a atividade teve início com uma homenagem a dezenas de lutadores e lutadoras do povo que deram uma contribuição fundamental para a construção do PT em Sergipe" (NOTA: Não veria nada de mal nesse texto, desde que viesse impresso em algum panfleto partidário, e não como notícia num jornal diário pretensamente apartidário e/ou que não se assume como veículo de informação de nenhuma agremiação política específica). "Posse da Executiva do PT celebra importância do partido para a democracia". Jornal do Dia Edição 3.218, de 26 de fevereiro de 2014. "política", página 6.

por Adelvan

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A serviço do "Grande irmão"

“Enxergar o que realmente se passa debaixo de nossos narizes exige um esforço constante.” A frase é de George Orwell, dita por Winston Smith, personagem central de seu célebre romance “1984”, mas cai como uma luva para o que vemos diariamente na cobertura das manifestações de rua pela grande mídia. Anteontem, por exemplo, no Jornal Nacional, numa reportagem sobre a invasão da sede de um partido de oposição na Venezuela pela “polícia política” – palavras dele – do governo “chavista”, Willian Bonner fez questão de ressaltar que “a polícia agiu com a truculência costumeira”. E é verdade. Mas é verdade, também, que os que reprimem as manifestações, no Brasil, também costumam agir com brutalidade. Não é o que parece, a julgar pela cobertura da mídia. Agora a pouco, no Jornal Hoje, Sandra Annemberg nos informou que a Tropa de Choque incumbida de cumprir uma ordem de despejo, em São Paulo, foi recebida a pedradas por VÂNDALOS protegidos por barricadas. No mesmo telejornal, logo em seguida, somos informados de que MANIFESTANTES voltaram a entrar em confronto com as tropas oficiais na Ucrânia. Para ilustrar, a imagem de um MANIFESTANTE arremessando uma bomba de fabricação caseira. Provavelmente um dos mesmos que foram mostrados ontem, numa reportagem do Jornal da Globo, fabricando alegremente coqueteis molotov, ao lado de outro que mostra, sem nenhum constrangimento, o fuzil que guarda na mala do carro. E dos que arrancavam pedras do calçamento para lançar na polícia, igualzinho ao que os “vândalos” fazem aqui. Porque aqui são desordeiros impedindo o cumprimento da lei. Lá, eles estão apenas se defendendo e defendendo o direito à liberdade, ou, em outras palavras, o direito de exigir que seu país adira alegremente ao bloco falido da União Européia em crise.

Não se trata de maniqueísmo nem de tentar tapar o sol com a peneira. Compreendo perfeitamente o sentimento dos ucranianos, historicamente oprimidos pelo imperialismo russo, mesmo no tempo dos soviéticos que, a princípio, prometeram ampla autonomia – promessas solenemente esquecidas assim que o “czar vermelho” Joseph Stalin assumiu o poder, numa tradição autocrática e autoritário que persiste ainda hoje, sob o tacão do “neoczar” Vladimir Putin. Na verdade, muito por conta disso, não tenho uma opinião formada sobre a situação por lá, muito embora tenha certeza de que a adesão à União européia não pode ser, a médio e longo prazo, uma solução para os males do povo. Já sobre a Venezuela, apesar de reconhecer que o atual presidente não é um cara “maduro”(desculpem o trocadilho infame, não resisti), com suas bravatas machistas e/ou homofóbicas e sua tentativa patética de induzir a população a um culto messiânico do líder falecido, fica patente a ideologização da cobertura midiática, que teima em não reconhecer os avanços sociais conseguidos pelo “chavismo”, focando apenas no que é negativo, como a inflação e a escalada da violência urbana. Ideologização que eu até aceitaria caso fosse declarada, honesta, e não encoberta sob um falso manto de imparcialidade. Do jeito que está, não é jornalismo “isento”. É propaganda, proselitismo.

Fique atento, portanto, à forma na qual a notícia chega até você. Não absorva de forma acrítica tudo que vê para depois regurgitar idéias distorcidas nas redes sociais.

Fique atento às palavras!

Semântica é tudo.

A.

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Um filme que todo mundo deveria ver ...

"O Dia que durou 21 anos" detalha atividades norte-americanas no país antes e durante o golpe que vai completar 50 anos


Início de abril de 1964. O presidente constitucional, João Goulart, já foi derrubado e substituído pelo marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Na Casa Branca, um assessor (McGeorge Bundy) fala com o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, sobre o tom da mensagem de apoio ao recém-instalado governo brasileiro. O assessor lembra que o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, prefere um texto amistoso, mas sugere um tom mais cauteloso, porque os novos donos do poder já estavam prendendo civis.

“Acho que algumas pessoas precisam ir para a cadeia. Aqui nos Estados Unidos e no Brasil também. Não estou numa cruzada contra eles, mas gostaria que muitas pessoas tivessem sido presas, antes de perder Cuba”, responde o presidente. O assessor insiste em uma mensagem padrão. “Prefiro enviar uma mensagem bem calorosa”, diz Johnson, fechando a questão

Kennedy e Gordon: articulação pelo golpe no Brasil foi gravada
O diálogo acima, documentado em áudio, é um trecho significativo do filme O Dia que durou 21 Anos, de Camilo Tavares, lançado no ano passado e agora disponível em DVD e blu-ray. A obra traz documentos e áudios e expõe com clareza um assunto que durante muito tempo foi negado, omitido ou pouco falado na historiografia sobre o golpe que está completando 50 anos: a participação norte-americana no movimento que depôs Jango, sob o pretexto básico de influência comunista no Brasil.

Assessor do embaixador, Robert Bentley, um dos entrevistados no filme, estava no gabinete presidencial quando o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República – mesmo com João Goulart ainda em solo brasileiro. Lyndon Johnson quer saber se a operação foi feita legalmente, e Bentley recorda ter dito: “Parece que foi legal”.

Não foi. Jango ainda era presidente. A ilegalidade foi observada pelo próprio Lincoln Gordon, em livro publicado no Brasil em 2002: “Embora sem a sanção constitucional apropriada, o presidente do Senado declarou vaga a Presidência e acompanhou o sucessor constitucional – Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados – a uma cerimônia improvisada no prédio do Supremo Tribunal Federal, onde Mazzilli foi empossado como presidente em exercício”. Em 15 de abril, assume o primeiro dos presidentes militares do período 1964-1985, Castelo Branco.

Surpresa

Em seu A Segunda Chance do Brasil – A Caminho do Primeiro Mundo, o embaixador também admite surpresa pelo que viria logo depois: “Naquele momento ninguém podia prever o que aconteceria, embora ninguém imaginasse que o governo militar duraria 21 anos”. Ele dizia acreditar que a “ordem constitucional civil” fosse restaurada já em 1965, com a eleição de um novo presidente, “provavelmente Juscelino Kubitschek”. Isso aconteceria apenas em 1985, com uma eleição presidencial ainda indireta. E em 18 de dezembro do ano passado, o Congresso “devolveu”, simbolicamente, o mandato a João Goulart. Com a presença de Dilma Rousseff, de chefes das Forças Armadas e de João Vicente­, filho de Jango, o Parlamento anulou a sessão de 2 de abril de 1964, que declarou a vacância do cargo.

A preocupação norte-americana com os rumos do Brasil não surgiu de uma hora para outra. Outra gravação incluída no filme mostra um diálogo, em abril de 1962, entre o presidente John Kennedy (assassinado no ano seguinte) e Gordon. “Podemos fazer algo contra Goulart?”, pergunta o presidente. “Sim, acho que podemos”, responde o embaixador.

“Os Estados Unidos, depois da Revolução Cubana, voltaram suas atenções para a América Latina, com a decisão de impedir a qualquer custo o que eles chamavam de segunda Cuba”, diz o pesquisador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos entrevistados para o filme de Tavares. As ações norte-americanas incluíam financiamento de campanhas para as eleições de 1962 e “um serviço de informações muito antenado em relação ao que acontecia aqui”.

Segundo ele, Lincoln Gordon tornou-se personagem de nossa história política, ao convencer o governo norte-americano de que haveria um “risco comunista” no Brasil. Um risco improvável. “Que havia apoio da esquerda (a Jango), inclusive dos comunistas, é fato. Agora, que Goulart pretendia dar um golpe não há nenhuma evidência empírica. Foi uma iniciativa pautada pelo equívoco.” Estudioso de assuntos brasileiros, Gordon foi embaixador de 1961 a 1966. Morreu em 2009, aos 96 anos.

Em relato ao Departamento de Estado, Gordon também cita o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola: “Minha conclusão é que as recentes ações de Goulart e Brizola para reforma agrária levarão o Brasil a um governo comunista similar ao de Fidel Castro em Cuba”.

O historiador norte-americano Peter Kornbluh, analista-sênior do National Security Archive, organização não governamental criada em 1985 por jornalistas e estudiosos, observa no filme: “Os Estados Unidos queriam apresentar Goulart como um presidente de extrema-esquerda. A reforma agrária pela qual Goulart realmente lutava era mais um pretexto para apoiar esse argumento”. Ele fala em um “plano de contingência” prevendo inclusive ação armada, em caso de resistência – que não houve.

Brother Sam

A ação norte-americana sempre foi contestada pelos militares e pelo próprio Lincoln Gordon, ao escrever em seu livro que “a derrubada de Goulart foi obra dos militares brasileiros, sem assistência ou aconselhamento dos Estados Unidos”. Ele admite a existência da Operação Brother Sam, que consistia no envio de uma frota armada para a costa brasileira em março de 1964. “Nenhum brasileiro, militar ou civil, teve conhecimento dessa força-tarefa naquele momento”, assegura Gordon. Segundo o embaixador, um dos objetivos era “exercer pressão psicológica a favor do grupo que se opunha a Goulart”. Quaisquer que fossem os motivos, não houve necessidade de usar as forças armadas, porque o golpe foi consumado sem maior resistência.

“Ninguém admitiria (a presença dos Estados Unidos), porque seria um crime de traição à pátria. Mas os documentos disponíveis hoje mostram que os militares estavam acompanhando a Operação Brother Sam”, diz Carlos Fico, que aponta o general José Pinheiro de Ulhoa Cintra, homem de confiança de Castelo Branco, como contato brasileiro com os norte-americanos.

Em depoimento prestado para uma coleção intitulada História Oral do Exército – 1964/31 de Março, o coronel, ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho é um dos que contestam a versão de ­auxílio externo para o golpe. “Trata-se de uma velha mentira. Não chamo calúnia, porque não é crime, mas é uma injúria que o grupo comunista jamais abriu mão, tentar transformar em verdade à força de repetir”, afirma, em livro de 2003. “Não houve, em nenhum momento, a atuação dos Estados Unidos, em termos militares, de apoio à derrubada de Goulart. Havia preocupação com João Goulart, mas a maior preocupação era com Allende, como comprovaram mais tarde”, acrescentou, referindo-se ao presidente do Chile Salvador Allende, deposto pelos militares em 1973.

Passarinho admite, no entanto, possíveis conversações entre Gordon e o então governador de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto. “É provável que o Magalhães Pinto tenha mantido algum entendimento com o próprio embaixador Lincoln Gordon para o caso de a nossa ação militar durar muito tempo. Não teríamos porto para receber suprimentos para as tropas de Minas, a fim de prosseguir numa luta que assumisse contornos de guerra civil. Isso então, sim, teria explicado o famoso Brother Sam: embarcações americanas preparadas para vir ao Brasil, trazendo combustíveis para que as forças revolucionárias contra o Goulart não minguassem sem esse suprimento. É a única coisa em que acredito, e que pode ter ocorrido.”

Para Camilo Tavares, a descoberta da participação de Kennedy na “conspiração civil-militar” contra Jango é a “grande revelação” do filme, que consumiu cinco anos de pesquisa e um trabalho de garimpo que incluiu ouvir fitas do ex-presidente norte-americano ainda sem transcrição. Em circuito comercial, o longa de 77 minutos foi assistido por 30 mil pessoas em dez estados, o que ele considera bom resultado para um documentário. A preo­cupação, agora, é organizar um circuito de exibições em escolas e universidades, inclusive nos Estados Unidos.

Público jovem

Em novembro, o filme foi visto em Harvard, com a presença do diretor do filme e do historiador brasileiro Nicolau Sevcenko, que lecionava naquela universidade. “Pelo fato de o filme não ser maniqueísta, acho que provocou um debate interessante lá”, diz Camilo. “O desafio é chegar no circuito educativo. O filme tem essa característica de falar com o jovem.” Por enquanto, exibições estão previstas nas universidades Brown e de Columbia, além do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês).

Prestes a lançar um livro sobre o período, o jornalista Flávio Tavares, pai de Camilo, era colunista político do jornal Última Hora, “o único que apoiava as reformas de base”. Mesmo acompanhando Jango desde o período da chamada Cadeia da Legalidade (movimento liderado por Brizola no Rio Grande do Sul para garantir a posse de Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961), ele disse ter se surpreendido com informações divulgadas no filme, embora a ação norte-americana fosse conhecida. “Eu estava em Brasília e não conhecia a dimensão do golpe. Para mim, que estava no olho do furacão, foi mais surpresa ainda.”

A professora e historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP), cita uma obra de Moniz Bandeira (Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil) para lembrar que a questão da presença norte-americana vem sendo estudada pelo menos desde a década de 1970, mostrando com clareza “a intenção de agir” dos Estados Unidos em relação ao Brasil. “E temos também uma participação muito forte através de duas instituições de fachada, o Ipes e o Ibad, que tinham como exclusiva proposta desestabilizar o governo João Goulart”, acrescenta.

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) foi criado em 1962 e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), em 1959. No filme, a jornalista e escritora Denise Assis afirma que o Ipes foi montado “para ser o ovo da serpente do golpe”. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chegou a ser criada em 1963 para investigar as atividades dos institutos, suspeitos de financiar deputados contrários a Jango com recursos vindos do exterior. O vice-presidente da CPI era Rubens Paiva, que seria sequestrado e morto durante a ditadura.

Também no filme, Plínio de Arruda Sampaio, à época eleito deputado e relator do projeto sobre reforma agrária, conta ter sido procurado por uma pessoa que lhe ofereceu dinheiro para a campanha eleitoral de 1962. Segundo Sampaio, seu interlocutor explicou: “Só queremos que o senhor defenda a democracia”. “Para isso não preciso de dinheiro”, replicou Plínio. Em depoimento para o documentário, o historiador James Green, da Brown University, chega a comparar: “Imagine se o governo brasileiro tivesse financiado Barack Obama (…) Imagine o escândalo”.

Maria Aparecida observa que a política norte-americana em relação ao Brasil só começaria a mudar de fato com a posse do presidente Jimmy Carter, em 1977. “Vai causar um mal-estar muito grande nos militares, porque vem com uma política de direitos humanos. Portanto, uma mudança de inclinação só acontece no final da década de 70”, diz a professora. Pouco antes disso, estava em curso a chamada Operação Condor, de colaboração entre governos autoritários na América Latina. O diplomata chileno Orlando Letelier, por exemplo, foi assassinado em Washington, em 1976. E há suspeitas sobre as circunstâncias que envolvem as mortes de Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek entre 1976 e 1977.

Estavam em questão, também, interesses de empresas norte-americanas no Brasil. Camilo Tavares lembra que o então governador Leonel Brizola já havia irritado os Estados Unidos ao encampar duas empresas, subsidiárias da ITT (telefonia) e da Amforp (energia elétrica). Outro episódio considerado “inaceitável”, desse ponto de vista, foi a regulamentação, sob a gestão João Goulart, da lei de remessa de lucros. “A legislação é totalmente justa, dá garantia de que parte do capital não vá para a matriz. Procura regulamentar os lucros das multinacionais”, diz Maria Aparecida de Aquino. “Isso não é ser contra os Estados Unidos, mas a favor dos interesses do Brasil. É uma lei de proteção que qualquer país precisa ter. Os Estados Unidos têm uma lei protecionista violenta.”

Para Carlos Fico, a “a equação da época” já é conhecida pela historiografia. “O que vai acontecer é a divulgação de nomes e detalhes, se trata da incorporação de detalhes e responsabilidades.” Ele vê um certo aspecto “perverso” na divulgação paulatina de documentação sigilosa. “Já se passaram muitos anos, e qualquer possibilidade de justiça ou responsabilização cai por terra.

Campanha deslavada

A pesquisadora Maria Aparecida de Aquino não vê consistência nem paranoia nos argumentos que justificaram a ação contra o governo João Goulart, classificada como “golpe preventivo” por muitos militares. “É má-fé”, reage, para então comentar o papel da imprensa. “Excetuando-se o Última Hora, de Samuel Wainer, todos os jornais faziam a campanha mais deslavada possível contra a autoridade presidencial.”

O caso do Correio da Manhã, “o mais prestigiado jornal da época, fundado em 1901”, também é lembrado. “Foi um dos mais virulentos contra Goulart”, diz Maria Aparecida, citando os editoriais “Basta!”, publicado em 31 de março de 1964, e “Fora!”, de 2 de abril. Mas praticamente em seguida o Correio já se posiciona contra os rumos do novo governo, “e por conta disso vai pagar muito caro”. O jornal vai mudar de mãos, definhar e fechar em 1975.

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Encontro com ex-carcereiro
Uma das passagens curiosas do filme é o diálogo entre Flávio Tavares e Newton Cruz. O general fala sobre a situação pré-golpe, com presença de bandeiras comunistas nas ruas, do CGT (entidade sindical), da UNE. Ao que o jornalista contrapõe: mas isso não é normal em uma democracia? E ouve um enfático “não”, não é normal. Mas o militar também comenta que ninguém leva 20 anos para “arrumar a casa”, referindo-se ao período autoritário.

“Foi um encontro cordial, muito franco”, afirma Flávio Tavares. Também foram assim as conversas com o almirante Júlio de Sá Bierrenbach e o coronel Jarbas Passarinho. Com algumas recordações. “Bierrenbach foi meu carcereiro na Marinha. Só que esse homem se portou muito bem comigo já na ocasião. Foi o único (nas prisões) a se portar com dignidade”, conta. Torturado em outros locais, Tavares diz ter recebido – pelo menos naquela ocasião – tratamento rígido, mas correto. O jornalista foi um dos presos políticos libertados em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. Camilo nasceu durante o exílio do pai, em 1971, no México.

Com Robert Bentley, o jornalista fala sobre tortura e deixa o ex-assessor de Lincoln Gordon constrangido. “Isso é difícil de justificar oficialmente. Mas lamento, lamento, de qualquer maneira”, reagiu.

No final do encontro com Passarinho (“Grande articulador político, não é um homem bronco”) para a gravação do depoimento, Tavares recorda que o militar foi quem assinou o decreto suspendendo seus direitos políticos. Ele já não se lembrava. O jornalista cita outro detalhe histórico: já na condição de ministro do Superior Tribunal Militar, Bierrenbach votou pelo desarquivamento do inquérito do Riocentro. Em 1981, uma bomba estourou dentro de um carro no estacionamento do centro de eventos, matando um sargento e ferindo um capitão – seria mais uma operação para minar o processo de abertura política. O almirante foi voto vencido, mas chamou o caso – que seria tentativa de atentado a um show de 1º de Maio – de “crime nefasto”.

por Vitor Nuzzi

RBA

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O cineasta pernambucano

O que me nutre é o sêmen dessa urbe anônima e brutal, repleta de pequenos burgueses que tremem de medo detrás das grades de seus condomínios de merda, enquanto tentam desviar os olhos das vísceras expostas desse Brasil que meu cinema denuncia e condena. Me chamo Pedro Ivo e o Recife entrou na minha corrente sanguínea como uma catuaba selvagem, expandindo a minha mente e aguçando a minha sensibilidade. O bom gosto me enoja. Não tenho medo de chafurdar no pântano e me lambuzar de sangue e bílis. O cinema da minha terra é tão autoral e criativo que inventei um novo gênero: a cineautobiografia visceral. Antecipo o roteiro de Soluço Líquido, enquanto espero o resultado do Funcultura.





ATO I – O CANTO GUTURAL DE UM FREVO

Cena caseira filmada, em super-8, com os mesmos movimentos de câmera usados em Terra em Transe.

Uma mulher em trabalho de parto declama Uma Mulher Vestida de Sol,de Ariano Suassuna, aos berros, para se acalmar. O parto normal não caminha bem, mas o médico não sabe o motivo. O bebê não consegue sair. Decide fazer cesariana. Ao retirar a criança, o médico fica visceralmente estupefato.

MÉDICO: Descobri o que estava acontecendo. Seu filho nasceu de pau duro.

O pequeno cabra recebe a palmada e, em vez de chorar, entoa um trecho de O Barbeiro de Sevilha em ritmo de manguebeat.

MÉDICO: Parabéns, dona Armelinda, é um cineasta!

Dona Armelinda vai para o quarto e permanece estática. Num plano silencioso de quinze minutos, olha pela janela e reflete sobre as mudanças urbanísticas sofridas pelo Recife nesses últimos vinte anos.

MONTAGEM PARALELA

Corte seco: um tatuí é pisoteado no asfalto quente.

MONTAGEM PARALELA

Num puteiro, um latifundiário usa a primeira edição de Casa Grande & Senzala para seviciar uma puta. (Ponto de vista da lombada do livro.)

Inserção gratuita de entrevista de Lars von Trier, em dinamarquês sem legenda.



ATO II – A VALSA DA CARNE CRUA

Plano fechado de xoxota, imagem consagrada do cinema pernambucano. Fui eu, Pedro Ivo, que a incluí na Carta Visceral, nossa versão do Dogma 95, um conjunto de regras compilado pela Associação de Cineastas Viscerais de Boa Viagem.

A dita-cuja está com um baseado preso aos lábios. A brasa morre.

VAGINA (voz em off, sotaque pernambucano): Ô, Pedro Ivo, tu tem fogo?

Pedro Ivo, um jovem de 11 anos, abre o zíper.

PEDRO IVO: Serve?

A vagina não responde.

Magoado com o descaso, Pedro Ivo retalha o rosto com um canivete enferrujado, deixando uma cicatriz visceral que o acompanhará pelo resto da vida. Durante a cena, usa o próprio sangue para escrever na parede os nomes de John Cassavetes e Charles Mingus.

Pedro Ivo grita que o mar virará sertão até estourar cinco cordas vocais. Veste então uma camisa vermelha estampada com o rosto de Apichatpong Weerasethakul, ajeita o cabelo na boina cubana e, com um gesto visceral, pega o baseado, bate a porta e sai para desafiar o mundo. Está com uma ereção.



ATO III – EROS CICATRIZANTE

Bar Central. Cercado por críticos e donos de cineclube, Pedro Ivo, agora com 20 anos, bebe um coquetel de Natu Nobilis com benzina. Está com uma ereção. Quem o serve é uma garçonete sem calcinha com sotaque levemente francês.

CINECLUBISTA: Pedro Ivo, viste Tropa de Elite 2?

PEDRO IVO: Mais um desbunde de um bacana classe média que adora pobreza em contraluz. Coisa de caboclo que quer ser Hollywood, né, velho?

CINECLUBISTA: E O Palhaço?

CRÍTICO: Sentimentalismo burguês mascarado de filme de arte. Filme-anestesia, filme-Valium, filme-band-aid. Onde estão as entranhas, velho? O soco, o murro, o vômito?

Pedro Ivo vomita em cima do crítico.

CRÍTICO: Obrigado, velho.

CINECLUBISTA:O Cheiro do Ralo?

PEDRO IVO: O pior do lote. Estética radical chique, fingindo estar sob o cabresto de Tânatos quando não passa de angústia cheirosinha. Um Bukowski
de convento carmelita. Cinema é ereção, cacete. É uma vontade, uma necessidade. Glauber dizia que o cineasta verborrágico tem de estar no topo da cadeia alimentar de um povo. É um processo de seleção natural que Darwin descreveu a 24 quadros por segundo. Recife une o talento de Florença à tecnologia do Vale do Silício.

Os amigos fazem um brinde – “Foda-se o eixo Rio–São Paulo!”. Em seguida, pedem uma porção de coração de galinha. As aves são trazidas vivas e têm seus corações arrancados à mão diante de fregueses pequeno-burgueses.

Olhos pulando do rosto aterrorizado das galinhas para a bunda carnuda da garçonete, Pedro Ivo tem uma epifania e decide fazer seu primeiro filme.



ATO IV – A NOITE DA VAGINA LOUCA

Com a verba arrecadada com a rifa de suas vísceras, Pedro Ivo compra um DKV Vemag e viaja pelo interior do estado com uma câmera na mão e centenas de ideias na cabeça. Sem gasolina, abastece o carro misturando esterco com sua testosterona. No trajeto, descobre as entranhas do Brasil profundo. Há muita prostituição pelo caminho. Num ambiente eivado de miséria e prazer carnal, Pedro Ivo abandona todo resquício de moral burguesa e se envolve sexualmente com um liquidificador Arno, ao qual chama de “minha cabrita”. Na bem-aventurança que se segue ao coito, Pedro Ivo ouve uma batida de maracatu e, num milagre, é recompensado com a devolução de suas vísceras.

Ao retornar ao Recife, Pedro Ivo se depara com uma cena dantesca: uma placa na porta do cinema da Fundação Joaquim Nabuco anuncia que o local será demolido para dar lugar a um edifício projetado por Hans Donner com fachada de Romero Britto.

Irandhir Santos, Hermila Guedes, Dira Paes, Matheus Nachtergaele, João Miguel, Leona Cavalli e Chico Diaz se chicoteiam em torno do edifício. Pedro Ivo lidera um levante para ocupar a Fundação, no qual todos os invasores usam máscaras de Falconetti em A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer.

Preso e torturado pela polícia de Eduardo Campos, Pedro Ivo termina seus dias crucificado no alto de uma árida colina em Garanhuns. A seus pés, brota um pé de maconha.

Corte para preto e legenda: FINAL, PORRA.

por Renato Terra

piauí

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

SOMEWHERE IN TIME

Uma tia que mora em São Paulo nos visitava pela primeira vez com a família em Itabaiana e eu resolvi testar se meu primo cabeludo era “metaleiro”. Saquei meu vinil do Somewhere in time do iron Maiden e, como quem não quer nada, coloquei pra tocar. A reação foi imediata: ele saltou do sofá e veio me perguntar, empolgadíssimo, se eu curtia. E assim nasceu uma grande amizade que, infelizmente, durou pouco, pois ele morreu num acidente de trânsito pouco tempo depois. Mas deu tempo de irmos juntos ao Rock In Rio II, no Maracanã, onde vimos Sepultura lançando “Arise”, Megadeth lançando “Rust in peace” e Judas Priest na turnê do “painkiller”. Inesquecível ...

Era assim nos anos 1980: você saía praticamente à caça de alguém com quem pudesse conversar e compartilhar a paixão pelo rock – no meu caso, recém-adquirida. Somewhere in time era o mais novo lançamento do Iron Maiden e eu o havia comprado no Cine Foto Walmir, loja que marcou época ao trazer à cidade praticamente todos os lançamentos das gravadoras maiores – o “underground” ficava por conta da Distúrbios Sonoros e, posteriormente, da Lókaos, de Silvio “Suburbano”, vocalista da Karne Krua.

Eu e meu "precioso"
Sempre quis ter uma cópia decente em vinil de Somewhere in time, já que a que saiu no Brasil era ridícula: capa simples e encarte raquítico. Para minha surpresa encontrei recentemente na Freedom, a “nova” (ênfase nas aspas) loja de Silvio, a edição dos meus sonhos: com capa dupla, encarte em forma de envelope e vinil Picture – daqueles que vêm com uma imagem gravada. Material de primeiríssima: papel de alta qualidade o disco com som cristalino. Foi mais um sonho de adolescente realizado – alguns anos atrás eu realizei o maior deles, ver o Iron Maiden, finalmente, ao vivo, no “Hell”cife – para lembrar como foi clique aqui.

Somewhere in time é o penúltimo grande disco da melhor fase do Iron Maiden. Veio depois de “powerslave” e do disco duplo ao vivo que registrou sua turnê, “Live After Death”, e antes de “Seventh Son of a seventh son”. Começa com uma belíssima harmonia tocada em guitarras sintetizadas com som cristalino na faixa “Caught somewhere in time”, uma canção existencialista sobre a passagem do tempo. Um verdadeiro convite ao ouvinte para que embarque na viagem semiconceitual do álbum, que prossegue com o memorável single “wasted years” e sua letra ainda mais contestadora e reflexiva – “Então entenda: Não perca seu tempo sempre procurando aqueles anos perdidos”. Um “Mar de loucuras” vem na sequencia, ainda na mesma linha, cadenciada e melódica, até que a mais rápida “Heaven Can Wait” encerre com chave de ouro o lado A. As angustias existenciais persistem, aqui focadas na hora da morte, que chega para todos.

O Lado B começa de forma oposta com “The loneliness of the long distance runner”, cujo ritmo, no princípio, é lento, mas logo toma fôlego e segue assim, “martelando”, até o final. A melodia lembra a clássica “The trooper”. Já a letra é inspirada no conto de Alan Sillitoe que virou filme em 1962 e conta a história de Smith – Silva, um nome bastante comum na Inglaterra, assim como no Brasil - um adolescente membro de uma família disfuncional da classe operária que vive de pequenos furtos e tem poucas perspectivas para o futuro. É preso e começa a correr no pátio da prisão para passar o tempo, o que faz com que seja escolhido para representar a instituição numa corrida de “cross-country” entre alunos da rede pública. Caso vença, será libertado. O Iron Maiden sempre teve o mérito de levar ao metal um conteúdo culturalmente sofisticado, com muita referência a obras clássicas do cinema e da literatura, ou a fatos históricos – vide “Lord of the flies” (“O Senhor das moscas”, um clássico da literatura moderna), “The Wicker man” (no Brasil “O Homem de palha”, um dos melhores filmes de suspense e terror já feitos, estrelado por Christopher Lee) ou a própria “Alexander the great”, que encerra Somewhere in time contando a história do conquistador da Macedônia.

O disco segue com “Stranger in a stranger land”, que cita outro clássico da literatura num contexto pessimista – “No Brave New World”. A penúltima, “Deja vu”, mantém o clima “perdidos no tempo” – “Sinto como se tivesse estado aqui antes” – e então temos o grande épico, “Alexander the great (356-323 B.C)”, que eles, misteriosamente, nunca tocaram ao vivo. A letra é impressionante pois consegue, em poucas palavras – apesar da musica ser longa, tem quase nove minutos – resumir toda a trajetória do grande monarca com um nível de rebuscamento raro de ver entre seus pares – “ele espalhou o Helenismo por todo o mundo e pavimentou o caminho para o surgimento do cristianismo e do modo de vida ocidental”.

Por fim, a capa: a melhor de todas, na minha humilde opinião. Mostra um Eddie ciborgue, com suas carnes fundidas a estruturas artificiais, num cenário futurista a la Blade Runner repleto de referencias ao passado da banda e à cultura pop em geral. Até o Batman está lá!

Somewhere in time é um disco subestimado. Sofreu na época do lançamento pela pressão de suceder álbuns que vinham levando a banda a níveis nunca antes alcançados e por ser o primeiro a usar sintetizadores, algo que, segundo os críticos, tirou parte do peso do grupo. A meu ver, no entanto, é perfeito. Melhor que seu sucessor, o aclamado “seventh son of a seventh son”, um excelente álbum conceitual no qual as composições, no entanto, parecem às vezes engessadas por terem que ser amarradas ao tema no qual se desenvolve a história.

O fato é que todas as músicas de Somewhere in time têm uma estrutura muito bem acabada, com melodias e refrões marcantes. Nos arranjos, algumas das melhores perfomances individuais dos membros da donzela de ferro, a exemplo dos solos de guitarra matadores presentes já na faixa de abertura, a devastadora “Caught somewhere in time”.

Redescubra-o! A hora é agora, com o sensacional relançamento em Picture disc. 

por Adelvan -----------------------------------------------------------------------------------

Abaixo, uma entrevista com Bruce Dickinson feita para a edição especial dedicada ao Heavy Metal da revista Bizz na época do lançamento de “Somewhere in time”:

            HEAVY - O que você pode nos contar do novo LP do Iron Maiden?
            BRUCE - O nome dele será Somewhere in Time (Em Algum Lugar no Tempo) terá oito faixas. A capa ainda não está pronta, mas já posso adiantar que o tema visual é bem futurista e o colorido ficará genial. Passamos dois dias em Los Angeles fazendo fotos promocionais.

            HEAVY - E a produção deste novo disco é de Martin Birch?
            BRUCE - Sim. As gravações de bateria e baixo foram feitas em Nassau, nas Bahamas. As guitarras e os vocais foram gravados nos estúdios Whitlord, na Holanda, e a mixagem foi feita no Electric Lady, em Nova York.

            HEAVY - Já foi programada alguma turnê de lançamento deste disco?
            BRUCE - No dia 10 de setembro começamos uma turnê européia. Partimos da Iugoslávia e passamos por Polônia, Hungria, Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, Noruega e Reino Unido.

            HEAVY - E quanto ao Brasil?
            BRUCE - Não temos nada programado para o Brasil, pelo menos nada em 1986. Depende se haverá ou não outro Rock in Rio.

            HEAVY - O que você achou do Rock in Rio?
            BRUCE - Achei fantástico, O evento foi muito bem organizado e as pessoas envolvidas foram muito simpáticas. Ficamos super impressionados com o público. O número de pessoas era inacreditável e a reação foi surpreendente. E, além do mais, nunca tínhamos visto tantas mulheres bonitas de uma só vez! Para o Iron Maiden o único problema foi não poder ter ficado mais tempo. Precisávamos voltar a Nova York, onde estava o maior frio! E, realmente, foi doloroso trocar o verão do Rio pelos 15 graus de Nova York.

            HEAVY - E, por falar em público, qual foi, até agora, o melhor público para quem o Maiden já tocou?
            BRUCE - Bom, para nós o melhor público é aquele que reage e responde áquilo que estamos vivendo no palco durante o show. Se estamos superenergéticos e até enlouquecidos, queremos que o público também fique energético ou enlouquecido. E certamente os brasileiros atendem a esta expectativa.

            HEAVY - E como se saiu a Donzela de Ferro (tradução de Iron Maiden) por trás da Cortina de Ferro?
            BRUCE - Muito bem. Foi um sucesso. Fomos muito bem recebidos pelo público. E, por isso, vamos repetir a dose com seis apresentações na Polônia, três na Iugoslávia e uma outra num festival em Budapeste.

            HEAVY - Em relação aos shows, o que vocês planejaram para esta nova turnê?
            BRUCE - Ainda não temos certeza, porque só começaremos os ensaios em agosto (a entrevista foi feita em julho -Ed). Mas é certo que tocaremos "Run of the Asian Manor" (NOTA DO BLOG: erro grotesco na transcrição, ele certamente se referia a “The Rime of the Ancient Mariner”), "Iron Maiden", "Number of the Beast", "Run to the Hills"... O que ocorre é que o novo LP está muito bom, tem músicas ótimas (que podem resultar muito bem) ao vivo e, portanto, estamos pensando em incluir cinco músicas do novo disco nesta turnê.

            HEAVY - Como é feita a escolha das músicas que entram para os shows?
            BRUCE - Tentamos escolher entre aquilo que estamos a fim de tocar e aquilo que sabemos que o público quer ouvir, tipo "Run to the Hills".

            HEAVY - Enquanto vocês estão trabalhando, entre gravações e turnês, como se mantêm em contato com o que acontece no mundo da música?
            BRUCE - Para ser sincero, eu, particularmente, não fico muito ligado. Não me interesso muito por esse novo tipo de som metal: trash metal, speed metal ou death metal. Acho que a única coisa que fazem é tocar música rápida. E mais nada. Mas tenho que ficar atento para qualquer coisa nova que possa me agradar.

            HEAVY - O que você costuma ouvir nas horas livres e o que tem ouvido ultimamente?
            BRUCE - Sem ser a fita de nosso LP - que escuto todos os dias, porque acho que está genial -, tenho ouvido o último disco do Judas Priest. Mas com menor freqüência, pois está um pouco pop demais para o meu gosto. Normalmente também escuto demo tapes de pequenos grupos europeus que as pessoas estão sempre me enviando.  

            HEAVY - E quanto à suposto ligação do heavy metal com cultos satânicos e coisas do gênero - que o Maiden parece usar para ironizar coisas como a literatura de Edgar Alan Poe? Você acha que para ser heavy metal um grupo precisa encarnar este tipo de ideologia?
            BRUCE - Não, acho que isso não Importa. O que interessa é que as letras das músicas representem alguma coisa para quem as escreve. Se a inspiração vem de um livro ou de uma vida cotidiana - como acontece com Bon Scott (ex-vocalista do AC/DC), que escrevia letras fantásticas sobre se embebedar e terminar a noite com alguma garota desconhecida -, não faz diferença. Tem muita gente tentando imitá-lo e se dando mal, porque na imitação a coisa sai sem sentimento.

            HEAVY - Você diria que existe hoje uma falsificação do heavy metal, através de grupos do tipo trash metal?
            BRUCE - Bom, acho que é apenas uma variante da música. Na verdade eu não tento definir um determinado som como sendo "falso" ou "verdadeiro". Eu escuto tanto um AC/DC quando um John Cougar Mellencamp. Quando estivemos em Los Angeles fomos assistir ao show do Buddy Rich e sua banda. É um grupo de jazz tradicional com uma tremenda presença e uma enorme energia no palco que, realmente, surpreende. No final é isso: se o som é feito com sinceridade, para mim está bom.

            HEAVY - Que tipo de carreira você seguiria se não fosse músico?
            BRUCE - Acho que seria ator.

            HEAVY - Sua coletânea com o Samson foi recentemente lançada aqui no Brasil. O que acha dessa época na sua carreira?
            BRUCE - Foi uma época de algumas dificuldades. Vivia em uma casa abandonada em Isle of Dogs (uma ilha inglesa) e até roubava comida nas festas. Apesar dos pesares, foi divertido. Quanto ao trabalho que fizemos naquela época, penso que é muito bom e que continua atual até hoje. Fico satisfeito em saber que foi lançado aí no Brasil.

José Augusto Lemos, por telefone
Fonte: BIZZ “HEAVY”

1986

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Azul é a cor mais quente ...

Adele Exarchopoulos
“Azul é a cor mais quente”, vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes, é, provavelmente, uma das mais belas histórias de amor já mostradas na tela do cinema. Tenho consciência de que a sentença pode parecer reducionista, mas para alem de qualquer crítica social ou exibicionismo fetichista que a película possa ter como pano de fundo, é isso que ela é: uma belíssima história de amor. Por que intensa, sofrida e, acima de tudo, realista. É impossível que você, em algum momento, não se identifique com algumas das situações mostradas – “porque duas pessoas que se amam não conseguem simplesmente ficar juntas?” Atire a primeira pedra aquele que nunca se fez uma pergunta do tipo, pelo menos uma vez na vida ...

O fato de que se trata de uma relação entre pessoas do mesmo sexo é apenas um detalhe, que só chama tanto a atenção por conta do tabu que ainda impera na sociedade – na nossa e na francesa, como o filme faz questão de mostrar. Mas apenas “em passant”. O foco é, realmente, na relação em si. Nas dificuldades de se manter a fidelidade e a chama acesa com o passar do tempo e as pressões da convivência a dois e tudo o que está nela embutido, como as diferenças culturais e de expectativas para o futuro.


As tão faladas cenas de sexo, realmente fortes e explícitas, no final das contas têm sua razão de ser na trama: ao sermos incluídos de forma tão intensa na intimidade do casal, somos também levados a entender melhor o drama do que se passa depois, e a nos identificar com as protagonistas. Tudo isso num timing perfeito: sim, o filme tem absurdas três horas de duração, mas a metragem ajuda a dar à história um ritmo adequado, sem a pressa habitual das produções de massa hollywoodyanas. Porque é assim que a vida é, e é assim que as coisas acontecem: às vezes de forma atropelada e arrebatadora, tudo ao mesmo tempo, agora; às vezes de forma lenta, arrastada, sofrida. Um dia de cada vez. E olha que há síntese, heim! Diversas situações que, numa produção convencional, daquelas que costumam passar nas sessões de sábado á noite da TV aberta, seriam insistentemente mostradas e exploradas em toda a sua potencial carga dramática, aqui são praticamente abandonadas no meio do caminho em nome do foco no que realmente interessa: a história de Adéle e seu amor por Emma, que ela encontrou por acaso um dia e, ao deixar que entrasse em sua vida, mudou tudo, de forma irreversível. Para o “bem” e para o “mal”.

Adéle, doce Adéle. Como não amar e sofrer junto com uma criatura tão linda? Ela existe, de verdade, e eu, particularmente, estou completamente apaixonado. Existe graças à absolutamente fantástica interpretação de Adele Exarchopoulos, uma das mais arrebatadores dos últimos tempos. O filme é dela! Dela e de Emma/Léa Seydoux, mas principalmente dela – não por acaso o título original é “La Vie DAdéle.

Foram 180 minutos preciosos ao lado de pessoas adoráveis - que fumam demais, é verdade, mas ninguém é perfeito. Ainda bem que o cinema (ainda) não tem cheiro – retratadas em closes exuberantes, de corpo inteiro e desnudo, inclusive, numa França ainda multicultural e politicamente avançada, apesar do fantasma conservador que insiste em espreitar, ameaçando acabar com a festa ...

Valeu muito a pena, apesar das sessões escassas e em horários inconvenientes.

Vá e veja você mesmo.

No cinema.

A.

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Marlio, o baixista.

Na foto, com a Devotos, tocando Karne Krua
Conheci a Karne Krua no II Festcore de Aracaju, o primeiro show de rock “underground” que fui em minha vida. O ano era 1988 e o clima estava tenso, com alguns punks radicais soteropolitanos, da banda Jesus Bastado, vociferando contra os Headbangers. Eu, ingenuamente, havia ido com uma camiseta do Slayer, do qual era fã. Marinheiro de primeira viagem, tabaréu do interior, confesso que arreguei: vesti a camiseta com a estampa ao contrário, na esperança de evitar uma abordagem mais direta – e agressiva. Mas uma pessoa, em especial, parecia ter ido pra provocar mesmo: estava com uma camiseta – belíssima, por sinal – do Metallica. Os tais radicaloides de plantão ficaram só olhando feio de longe, mas não ousaram partir para o ataque ...

Fiquei surpreso ao ver o tal “provocador” subir no palco para tocar baixo com a Karne Krua – que eu achei sensacional, tão boa quanto o Cólera – era o que vinha à minha mente, pois o Cólera era minha primeira, praticamente única, na época, referência em termos de punk rock nacional. Fiquei com uma imagem muito positiva daquela figura. Um cara de atitude ...

Algum tempo depois conheci Marlio pessoalmente numa das primeiras de muitas visitas que fiz à Lókaos, loja do vocalista da Karne, Silvio “Suburbano” – o “Imperador do Hardcore”(releve, piadinha interna) – num final de tarde, depois do expediente. Já de primeira ele e sua simpaticíssima esposa, Tânia, me convidam para tomar café em sua casa! Fui, ora. Tava morando só aqui, comia de qualquer jeito na rua. E foi aí que começou uma grande amizade que dura até hoje.

Marlio cedeu, por muito tempo, sua residencia para ensaios da Karne Krua e de algumas bandas de amigos, como a Camboja, de Jamson Madureira, e a ETC, montada por Silvio e da qual fui o vocalista. Isso só fez reforçar os laços de amizade, que não se romperam mesmo quando ele se mudou para o Recife, onde montou uma loja especializada em Skate e rock, a Curinga. Começou, também, a tocar na Câmbio Negro HC, o que faz dele a única pessoa do mundo a ter sido membro fixo das duas mais importantes bandas de punk rock e Hard Core do nordeste. Com o devido respeito a todas as demais, evidentemente ...

Hoje ele está ainda mais longe, morando em São Caetano do Sul, ABC paulista. Mas ainda é meu amigo. Faço questão de visitá-lo toda vez que vou a São Paulo – o que, infelizmente, não acontece com a freqüência que eu gostaria. Amizade verdadeira é assim: persiste, apesar dos pesares e das dificuldades, como a distancia. A lamentar, apenas, o fato de que ele tenha aposentado o contrabaixo. Um desperdício. Era um cara talentoso e esforçado, apesar da notória e assumidíssima preguiça – da qual compartilho entusiasticamente, diga-se de passagem.

Amanhã, no programa de rock, tocarei uam faixa de minha demo tape preferida da Karne Krua, “Labor Operário”, em homenagem a essas duas grandes figuras, Silvio e Marlio, que aniversariaram esta semana. Silvio fez 50 anos muito bem vividos. Marlio? Mistério ...

19H, 104,9 FM em Aracaju e região.

por Adelvan

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

50 Anos este ano ...

Tem sido um longo caminho até a verdade, que talvez nunca se conheça inteiramente. Agora, é um general aposentado que admite o que todos sabiam, mas é fundamental que ele confesse: que o Exército montou uma farsa para culpar grupos de esquerda pelo desaparecimento do deputado Rubens Paiva. No ano passado, registros do coronel Molinas Dias tinham revelado outro pedaço.

E tudo o que se tinha antes, para se contrapor a tão longo silêncio sobre a vida e morte do deputado, era uma carta-depoimento e um recibo burocrático. Na carta, a testemunha Cecília Viveiros de Castro relata que ouviu seu padecimento no Doi-Codi. “A noite toda eu ouvi perguntarem o nome do preso ao meu lado, e o ouvi responder: Rubens Paiva, Rubens Paiva.” Havia também uma prova física, guardada por 40 anos com a família, o recibo da retirada do carro do deputado do quartel da Polícia do Exército, onde funcionava o Doi-Codi.

Quando Molinas Dias foi assassinado em Porto Alegre, foi encontrado com ele documentos que detalhavam como Rubens Paiva chegou ao Exército, entregues pelo serviço de informação da Aeronáutica.

Mas tudo já se sabia. Que ele foi preso em sua casa no dia 20 de Janeiro de 1971, na frente da família. Que foi no seu carro, mas prisioneiro, para a Aeronáutica. Que de lá foi para a PE. Que se montou uma farsa para dizer que ele havia sido tomado dos militares, por grupos de esquerda, no Alto da Boa Vista. Mas o depoimento para a Comissão da Verdade do general Raimundo Ronaldo Campos, que, na época, capitão, dirigia o automóvel, é mais um retalho precioso da verdade que os militares não reconhecem.

Convivemos com essas certezas não confirmadas por um tempo longo demais. A Comissão da Verdade, agora, está juntando pedaços do que foi negado ao país por todas essas décadas. É espantosa a incapacidade de o Brasil olhar para trás, reconhecer sua história, procurar sua verdade.

Ainda convivemos com avenidas 31 de Março no Brasil todo. Ou ruas, praças e colégios com nomes dos ditadores. Ainda aceitamos que as Forças Armadas nada façam para tirar, um pouco que seja, o véu que encobre os fatos vividos na história do país, mesmo aqueles militares das gerações que vieram depois. Eles seguem ainda as ordens de silêncio enviadas por seus ex-comandantes aposentados. Aceitamos que a versão fraudulenta seja repassada de geração a geração de militares, numa renovação macabra do pacto do silêncio, da mentira, da cumplicidade.

País estranho esse que aceita que não se saiba como morreu Vladimir Herzog, o que foi feito do filho de Zuzu Angel, como foram as últimas horas e que fim teve o corpo do deputado Rubens Paiva. Tanto não se sabe de tantos. O tempo já se esgotou de saber sobre esses e outros mortos e desaparecidos. Foi há 50 anos que o pesadelo começou e ele se prolongou por 21 anos. Sobrevive no silêncio das instituições responsáveis.

Gerações de brasileiros nasceram sob esse manto da mentira e do silêncio eloquente das Forças Armadas brasileiras. Quando fiz a reportagem sobre Rubens Paiva, em 2012, no início dos trabalhos da Comissão da Verdade, o IBGE fez uma conta para mim do percentual de brasileiros que haviam nascido depois da morte de Rubens Paiva: eram 68%.

Os jornalistas têm conseguido encontrar nos escaninhos da burocracia, nos depoimentos de torturadores ainda vivos, nos documentos que ficam em subsolos de ministérios ou em arquivos particulares, retalhos da história. A maioria dos jornalistas, dedicados ao resgate, estão nos dois terços de brasileiros que nasceram depois da morte de Rubens Paiva. São os filhos dos jovens daquela época; logo, logo, serão os netos. E ainda não saberemos o que devíamos saber.

A busca coletiva por respostas permanece porque é necessária. O passado só pode passar depois de esclarecido. E um país que sofre um trauma político como esse, que em 2014 completa meio século, só se vacina contra a sua repetição procurando os fatos sonegados. Os poderosos da época já não mandam mais, a ordem democrática foi restabelecida, a faixa presidencial foi passada por ombros de eleitos pelo voto direto. E, ainda assim, chaves trancam os fatos. De vez em quando, arranca-se de um arquivo, ou em um depoimento, um retalho. E nos contentamos.

Retalhos da verdade

 

por Míriam Leitão

O Globo

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

50 Anos de Silvio Campos

Silvio com a Maquina Blues
Era uma vez um moleque de 16 anos meio deslocado e perdido no mundo que odiava o lugar onde morava e quase tudo o que via à sua volta, mas que não tinha muita noção de como colocar pra fora toda essa raiva. Até que ele entrou em contato com uma musica libertária e a adotou como sua forma de expressão – mesmo que não soubesse tocar nenhum instrumento e fosse um péssimo vocalista. O que restava? Escrever sobre. Mas ele também não era jornalista. Tinha, no entanto, o espírito que norteou o punk, do “faça você mesmo”, e resolver fazer uma “apostilha” para distribuir na cidade e, quem sabe, arrebanhar alguns companheiros naquela sua empreitada “roquística”. Ter alguém com quem conversar sobre o assunto, só isso ...

O que ele tinha feito era um fanzine – uma “revista de fã”, artesanal – mas ele não sabia disso. Soube quando recebeu um pacote recheado de material semelhante produzido por todo o Brasil, remetido da capital, Aracaju – o moleque era eu, e morava em Itabaiana – por Silvio “suburbano”, vocalista da karne Krua, banda pioneira do punk rock/Hard Core local. Ali ele entrou em contato com uma verdadeira rede subterrânea de informação que ele não fazia a menor idéia de que existisse ...

Este foi apenas o primeiro contato entre mim e essa grande figura, que eu conheci pessoalmente algum tempo depois ao finalmente visitar sua lojinha especializada, a Lokaos, que ficava na garagem de uma casa no Bairro Cirurgia. Ficamos amigos, e tenho orgulho em dizer que a amizade dura até hoje, passados quase 30 anos. Com ele aprendi muito, seja em conversas regadas a musica em suas lojas – agora é a Freedom, que fica na Rua Santa Luzia, numero 151, no centro de Aracaju – ou nas inúmeras viagens que fiz acompanhando a karne krua.

Hoje ele está completando 50 anos de vida. Ano passado fiz uma resenha do show – mais um! - que havia acabado de ver da Karne em Salvador, para marcar a data. Um “presente” pequeno, insignificante mesmo, já que Silvio é o tipo de cara com uma importância tão grande que qualquer coisa seria na verdade muito pouco para demonstrar o carinho que não apenas eu, mas todos os que estão, de alguma forma, envolvidos com o cenário musical independente local, temos por ele. Feliz Aniversário, “velho guerreiro”!

Por coinidência – ou não! – ontem fiz mais uma resenha de um show no qual ele estava à frente, como vocalista. Nem lembrava da data festiva – perdão, sou desligado desse tipo de coisa, datas e tal. Reproduzo-a abaixo, para repetir o gesto do ano passado – quem sabe, de repente vira uma “tradição” ...

Num cantinho do mundo esquecido pelos holofotes da mídia de massas, a curva da coroa do meio ao lado do farol onde fica o Capitão Cook, de onde podemos sentir a brisa marítima e o barulho das ondas quebrando nas pedras, a Maquina Blues lançou seu mais novo “single” virtual no dia primeiro do corrente mês. Num mundo mais justo, muito mais gente conheceria e reconheceria este excelente “combo” blueseiro que desfila com um feeling sobrenatural um repertório autoral impecável, conduzido pela perfomance sempre visceral do já imortal Silvio Campos, verdadeiro pilar da musica alternativa de nosso estado.

Conheço Silvio há mais de duas décadas e posso atestar que, mesmo do alto de sua militância “roqueira” atuando principalmente nas hostes punk e Hard Core, ele sempre foi um cara aberto aos “bons sons”, de uma forma geral, e sempre nutriu o desejo de ter uma banda de blues. O sonho se materializou a partir do encontro com Melcíades, guitarrista talentoso e dedicado, e evoluiu a partir das raízes do estilo até se lapidar em composições próprias cheias de malícia e muita personalidade, incorporando elementos regionais sem “forçação de barra”.

Escudados por uma cozinha poderosa comandada pelo baixista Paulinho e pelo baterista Junior “Riqueza”, promoveram naquela noite uma verdadeira celebração, com um repertório próprio intercalado por versões de músicas de suas principais influencias confessas: Santana, John Lee Hooker e Celso Blues Boy, dentre outros. Executadas com maestria e arranjos diferenciados, com a cara da banda, sem, contudo, descaracterizar a melodia original.

Destaque para a execução de “Blues triste”, a excelente música título do single que estavam lançando, e para a participação de Adriano, ex-baterista e membro fundador, em uma das canções. Destaque também para o fato de que todos os que estavam presentes, num numero razoável, de acordo com o porte da apresentação, estavam REALMENTE presentes - lá dentro, vendo o show. Isso mesmo: não havia praticamente ninguém fora do bar, na já tradicional “Balada de porta” tão característica do local.

Outro tipo de público, certamente.

Um feito!

A.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Operação Cajueiro: um carnaval de torturas

(**) Ação de repressão militar realizada no ano de 1976, em Aracaju, a 'Operação Cajueiro' inspirou o diretor sergipano Fábio Rogério a realizar um curta-metragem sobre este momento marcante da história do Estado. O filme, que está sendo produzido com patrocínio do Governo de Sergipe, através do Edital de Apoio à Produção de Obras Audiovisuais promovido pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult), é um vídeo-documentário com estrutura narrativa baseada em entrevistas com pessoas que foram presas durante esta operação.

‘Operação Cajueiro: um carnaval de torturas’, título do curta, nasceu de uma ideia que foi amadurecida através de conversas entre os realizadores Fábio Rogério, Vaneide Dias e Werden Tavares com ex-presos políticos. Segundo Fábio, as gravações, que iniciaram em dezembro de 2013, já foram encerradas e o filme segue na fase de finalização e edição da trilha sonora. “Queremos reabrir a discussão sobre o período da Ditadura Militar, e contribuir, através da nossa leitura, com a discussão”, frisa.

Para a construção do curta, Fábio Rogério entrevistou algumas pessoas que foram presas, além de advogados e outros personagens fundamentais para contar essa história. “Conseguimos entrevistar alguns dos principais presos da operação, mas além deles conversamos com pessoas como Leila (ex-esposa de Rosalvo Bocão), que nos apresentou o universo de fora da cadeia, algo muito importante para entendermos como as famílias foram afetadas com toda aquela operação de repressão. Além dela, entrevistamos Laete Fraga, uma das advogadas do processo, que nos passou importantes detalhes”, informa.

Para Werden Tavares, que divide a produção e direção do curta com Fábio Rogério, a construção do filme tem ar de dever histórico a ser cumprido. “A missão do realizador é buscar uma forma através da junção de imagens e som que comunique a sua verdade com o mundo. O momento político atual com essas manifestações e toda a tentativa de se entender, pede uma reflexão maior sobre o passado de luta, pra que se caia nem no discurso reacionário nem no discurso anacrônico. A gente não pode aceitar que a nossa geração não conheça algo com tanto conteúdo quanto a Operação Cajueiro”, destaca.

Para os realizadores, o edital da Secretaria da Cultura foi fundamental para a concretização do curta. “Edital de fomento é sempre uma parte importante para a nossa cadeia produtiva. Assim, acreditamos que a Secult exerce um papel importante nesse processo. Mas acreditamos que não podemos parar por aí, e precisamos avançar mais e mais”, frisa os realizadores Fábio e Werden. 

Sinopse do filme 

O documentário fala da maior ação repressiva do governo militar em Sergipe, conhecida como ‘Operação Cajueiro’, ocorrida no carnaval de 1976, com o objetivo de acabar com a reorganização do PCB em Sergipe. Memórias vivas nos revelam os acontecimentos deste período obscuro da história contemporânea de Sergipe e, paralelamente, no contexto atual, voltam a ganhar espaço as discussões sobre os Direitos Humanos, a abertura dos arquivos da Ditadura Militar e a revisão da Lei de Anistia.

Milton Coelho, militante da liberdade


(*) Há quase 40 anos, no dia 20 de fevereiro de 1976, a Operação Cajueiro deixaria uma marca indelével na história política de Sergipe. Para alguns militantes da liberdade, no entanto, as cicatrizes seriam ainda mais profundas, e acompanhariam o corpo maltratado pelos carrascos do golpe de 64 vida afora, pelo menos nos episódios em que restou vida. Esse é o caso de Milton Coelho, que denuncia no passo claudicante que nos ofereceu a intimidade de sua casa e de sua memória a mutilação de uma geração inteira.

O encontro foi mediado pelo Professor Dudu, presidente da Central Única dos Trabalhadores, empenhado na construção de um Memorial dedicado às atrocidades perpetradas pelo Regime Militar em Sergipe. O sindicalista enxerga no exemplo de Milton Coelho muito mais do que o personagem que as páginas de uma história que ainda está para ser devidamente contada se encarregou de construir. Coberto de razão, Dudu encara Milton Coelho como um verdadeiro símbolo. Símbolo, personagem e homem de carne e osso, Milton Coelho concorda com o jornalista Zuenir Ventura quando ele afirma que o ano de 64 ainda não acabou. Segundo ele, não é possível admitir mácula de sombra sobre a História. “Eu sou partidário de que é preciso identificar todas as ocorrências. É preciso identificar todos os que participaram daquelas atrocidades para que as novas gerações sejam municiadas e não permitam que tudo se repita”.

As atrocidades que Milton Coelho menciona eram praticadas com método. Ele conta que os jagunços envolvidos no desbaratamento da célula sergipana do Partido Comunista Brasileiro (PCB), objetivo maior da Operação Cajueiro, se esmeravam numa espécie de ritual. “Quando levados pelos seqüestradores e entregues aos responsáveis pela fase que antecedeu a formalização do Inquérito Policial Militar, os presos políticos, que na maioria já tinha uma borracha circulando os olhos, receberam “tratamento” de impacto, começando pela troca da roupa que vestiam por um macacão com um número no peito e colocação de um capuz. Aqueles que eram considerados mais comprometidos na organização da resistência à ditadura militar receberam o que era chamado de “tratamento especial”, incluindo torturas com a cabeça emergida em depósito com água, por várias vezes, pontapés nas costelas em ambos os lados, choques elétricos nas mãos e no pênis, além da ameaça de provocarem “suicídio”, quando, circulando uma corda nos tornozelos do preso, afirmavam que iriam suicidá-lo”.

O próprio Milton Coelho foi objeto do ritual macabro, e carrega na carne as marcas da violência. Além de cicatrizes e uma costela quebrada, ele foi condenado a tatear o mundo pelo resto de seus dias. A retina deslocada, responsável por uma deficiência visual que até hoje não conheceu cura, lhe impôs prejuízos econômicos e dificuldades pessoais, mas não abateram seu interesse pela vida. Atento e forte, Milton Coelho acompanha as transformações da conjuntura política e acredita que, a despeito de incoerências pontuais, o campo político da esquerda precisa se manter unido para garantir os avanços necessários à manutenção da democracia.

Nas palavras do próprio Milton, “Nós temos uma população que, infelizmente, ainda não tem consciência política. Isso pode facilitar o retrocesso. A minha preocupação consiste em não dar chance aos inimigos dos trabalhadores e da liberdade”.

Fotos: Fernando Correia

(**) Fonte: Sergipe Cultural
(*) por Rian Santoa


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TATUAGEM

Não é de hoje que Pernambuco tem se firmado e reafirmado como um pólo de resistência cultural em meio a tanta diluição e pasteurização patrocinada pelos desígnios obscuros do capital, da “mão invisível” do mercado. De lá vem o frevo, o maracatu, o “paebiru” de Lula Cortes, o Movimento Armorial de Suassuna, Alceu Valença, Ave Sangria e, mais recentemente, o “mangue beat”. E agora temos o novo cinema pernambucano, despontando e apontando novos rumos para o segmento, que insiste em ser transformado em televisão na tela grande via produções popularescas da Globo Filme. Tivemos “O Baile perfumado”, “Árido Movie”, “O Som ao redor” e as produções viscerais de Claudio Assis. E agora temos “Tatuagem”, primeiro longa metragem dirigido pelo roteirista de boa parte deles, Hilton Lacerda.

Trata-se de uma peça de “resistência ao ordinário”, sentença cara a nós, sergipanos, graças a outro “herói da resistência”, o jornal independente “O Capital”, de Ilma Fontes. Conta a história de uma trupe de teatro libertária comandada de forma livre, leve e solta – na medida do possível – por Clécio, interpretado de forma magistral, como sempre, por Irandhir Santos. Que passa a ter um relacionamento amoroso com o recruta Arlindo, apelidado Fininha (Jesuíta Barbosa), o que desperta o recalque em Paulete, seu ex-amante – que quase rouba a cena devido à atuação estupenda de Rodrigo Garcia. Detalhe: a história se passa nos anos 1970, em plena ditadura militar. E foca num romance homossexual envolvendo um membro das gloriosas Forças Armadas do Brasil-sil-sil! Não tinha como ter um final feliz, não é mesmo?

Mas até que tem. Ou não. Depende do ponto de vista de quem assiste. Não vou contar o final do filme, evidentemente. Mas posso dizer que a trama flui de forma suave e poética, evitando o foco na violência da repressão, porém sem desviar as lentes nos momentos de intimidade mais intensos. É o que vemos na cena da primeira relação sexual entre os dois amantes, que eu já considero uma das melhores dentre as muitas retratas na tela de nosso cinema. Forte, intensa e despudorada. E chocante, mas apenas para os que ainda estão demasiadamente amarrados a concepções ultrapassadas de moral repressora.

O grande destaque, no entanto, são os “sketchs” musicais, sempre muito divertidos e criativos. E “libertários”. Sem medo de mostrar a nudez, por exemplo. Com isso, consegue o feito de esfregar na nossa cara nossas próprias limitações, fruto da educação francamente repressora que muitos de nós teve. Eu, por exemplo, tive. E confesso que senti um certo desconforto diante de algumas imagens. Essas coisas ficam entranhadas em nosso subconsciente, de forma quase genética. Pensamos que superamos, e de certa forma sim, viramos a página, num certo nível, consciente. Mas elas estão lá, escondidinhas. Elas resistem. Infelizmente. “Onde você guarda o seu racismo?”, perguntava aquele anuncio …

Não é um filme perfeito: há cenas francamente piegas e “clicherosas”, como a do close no rosto do filho de Clécio pegando uma carona no jipe do pai, e a captação de áudio foi sofrível, fazendo com que tenhamos que nos esforçar para entender algumas falas. Mas diante do cenário que temos, de franca diluição comandada pelo “império do mal” da Vênus platinada, é um bem vindo sopro de vida inteligente.


por Adelvan Kenobi

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Abaixo, trechos do roteiro do filme:


SEQ 39 - CONTATOS IMEDIATOS

(Chão de Estrelas- int - noite - cor)
O Chão de Estrelas continua com seu burburinho noturno. Aparentemente os shows acabaram e as pessoas circulam entre as mesas. Estão mais alcoolizadas e mais afoitas. O elenco está misturado com a plateia.
_Fininha está em sua mesa, em companhia de Paulete e Viveca, que está com sua roupa de "baleira", mas sem a peruca e o tabuleiro. Está descalça. Conversam animadamente. Numa mesa, mais para o centro do Chão de Estrelas, estão Clécio, Joubert, Marquinho Odara e Dedê. Clécio olha para Fininha e termina o convidando, com um sinal, para ir à mesa. Paulete vê o sinal enviado por Clécio e, junto com Fininha e Viveca, segue até o grupo. 

PAULETE (expansivo) Meu povo, esse aqui é Arlindo. Meu cunhado. Então vamos evitando o ataque, pois conheço minha manada e amo minha irmã.
Clécio olha para Fininha, sorrindo. Joubert intervém, animadamente.
JOUBERT (animada e largamente) Paulete, meu preferido... Você sabia que o ciúme é a primeira forma de possessão capitalista enquanto ideia? É aí que o desejo se mistura com a mercadoria e dá uma volta no juízo, uma confusão sem fim.
CLÉCIO (apertando a mão de Arlindo) Clécio. Muito prazer.
FININHA (sorrindo e falando muito baixo) Prazer.
O grupo fica em silêncio, como se tivessem acabado uma rodada de assunto. Clécio toma a dianteira.
CLÉCIO Peguem cadeiras e sentem com a gente.
PAULETE (fazendo cara de abuso) Posso? (pequena pausa) Não posso. Tenho que arrumar as coisas lá trás. (Se voltando para Viveca) Vamos, Viveca, que a gente já sai mais cedo pra anarquia e o prazer.
VIVECA (fazendo expressão de contentamento) Fazer o quê, Paulete? (saindo e olhando a mesa) Volto logo. (se voltando para Paulete, que a puxa com força) Peraí, frango. Porra! Deixa eu pegar um cigarro.
Arlindo, sem jeito, senta-se à mesa. Os outros continuam suas conversas. Clécio puxa assunto com Fininha.
CLÉCIO (sorrindo) E aí, Arlindo, como é o nome de sua namorada? A irmã de Paulete.
FININHA (tímido) Jandira. (silêncio) Jandira.
CLÉCIO (simpático) Eu ouvi. Sabia que Jandira é um poema de Murilo Mendes? (Fininha faz um sinal negativo com a cabeça enquanto se serve de cerveja) Gostou?
FININHA De que?
CLÉCIO Dos shows, da casa... de mim.
FININHA (sorrindo) É a primeira vez que venho num lugar assim. (pausa) Gostei de você cantando. (pequena pausa) Essa roupa não deixa você com muito calor?
CLÉCIO (sorrindo) Ou bem pensamos na elegância, ou bem pensamos no calor. (pausa) Que coincidência! Eu tinha certeza que um dia você ia aparecer aqui.
FININHA (sem compreender) Minha Tia Zózima diz que a coincidência é uma das provas de Deus.
CLÉCIO (encarando-o e irônico) Estamos feitos: tradição e família. Só falta a propriedade. (pausa) Onde você mora?
FININHA (sorrindo) No quartel.
CLÉCIO (falso espanto) Então você é um infiltrado? Veio aqui para nos vigiar? (pequena pausa) Ou para nos prender?
Clécio e Fininha miram-se, mas já não dizem mais nada. Fininha se mostra seduzido. 

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SEQ 40 - CUMPLICIDADES

(Casa de Clécio- int - madrugada - cor)
Vista da cidade do Recife à noite. Uma luminosidade de madrugada. Luzes de vapor de mercúrio contrastam com o breu das casas adormecidas. A visão que temos é a partir da janela do apartamento de Clécio. Começamos a ouvir o chiado de um disco que é colocado na vitrola. Fininha entra em quadro, e a câmera afasta-se um pouco, deixando as esquadrias quase como moldura da cena. A voz da cantora Dolores Duran explode.
Fininha está sem camisa. Observa a noite. Clécio, também sem camisa, entra em quadro. O movimento da câmera desvenda o apartamento. Os dois se encaram:
CLÉCIO (quase tímido) É essa a música que eu te falei. (pequena pausa) Conhece? (Fininha faz sinal negativo com a cabeça) Hum! Sua voz é tão agradável. Você não parece que tem essa voz, mas quando a gente ouve, não pode pensar em outra para você.
FININHA (de olhar baixo) No quartel me chamam de Fininha.
CLÉCIO (sorrindo) Melhor que Arlindo. (pausa) Não que Arlindo é feio, mas Fininha parece com você, Arlindo não.
FININHA (ainda olhar baixo) Você também não parece com Clécio. Parece outro.
CLÉCIO Qual? (Fininha dá de ombros e olha para Clécio) Quer dançar comigo? _(Fininha faz sinal afirmativo com a cabeça) _ Vamos?
Os dois se dirigem ao centro da sala. Atrapalham-se na hora de decidir quem "leva" a dança, mas Fininha cede. No início parecem tímidos, mas Clécio vai insistindo, e Fininha cedendo. A respiração dos dois é profunda. Começam a conversar, quase que falando dentro da orelha do outro.
FININHA Eu nunca tinha dançado assim com um homem.
CLÉCIO Eu nunca tinha dançado assim com um soldado. (pausa) Seu corpo tem cheiro doce.
FININHA (sorrindo) Doce? (Clécio balança afirmativamente a cabeça) Hum! Tá bem quente aqui.
CLÉCIO Eu servi no Exército, mas nunca tinha sentido esse cheiro.
FININHA (espantado) Você serviu? (Clécio faz sinal afirmativo com a cabeça) Qual a sua idade?
CLÉCIO Trinta e três.
FININHA, _ sem parar de dançar, se afasta um pouco e fica observando o rosto de Clécio. Respira fundo e volta a aninhar-se na dança._
FININHA Não parece. (pausa) Você serviu?
Os dois ficam em silêncio. A música continua e vai tomando conta da cena.
CLÉCIO (encarando Fininha) Meu pai é militar e achava que servindo ao Exército eu ia tomar jeito. Ia virar homem. (pequena pausa) Você já beijou um
homem?
Fininha nada responde. Encara Clécio e começa a beijá-lo

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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Teodorico, o Imperador do Sertão

Os ouvidos são de Eduardo Coutinho, o autor de "Cabra Marcado para Morrer", os olhos, de Dib Lutfi, o inigualável câmera cinemanovista, e a voz, de Teodorico Bezerra, um típico coronel nordestino.

A vez é do documentarismo brasileiro: se, nos anos 50/60, coube ao intelectual nacional-popular do cinema novo legar ao país uma primeira visão de sua realidade, nos 70 foi a documentaristas como Coutinho, João Batista de Andrade, Geraldo Sarno e Maurice Capovilla que coube o privilégio de mostrar aos brasileiros o seu espelho em rede nacional, num breve período em que nossa televisão deu-se ao luxo, em pleno regime militar, de ser verdadeiramente pedagógica.

"Teodorico, o Imperador do Sertão" (1978), um dos pequenos clássicos produzidos nesse período essencial para a constituição da memória audiovisual brasileira, começa e termina com o elogio tecido por seu personagem-título à simplicidade da filmagem.

A simplicidade de Coutinho cativando Teodorico e a sinceridade do personagem cativando o documentarista: autor dá um passo rumo ao personagem e personagem, um passo rumo ao autor.
Cada um pratica uma política que está no cerne da sociedade brasileira: a do personalismo. Mas se Coutinho, o autor, cede ao carisma de Teodorico, é por estar ciente de que filmar a auto-mise-en-scène de seu personagem é tudo o que lhe basta. Fazendo o jogo de Teodorico, Coutinho pôde driblar em um só tempo a censura da direita (dos "milicos") e a da esquerda (dos "patrulheiros"), deixando seu personagem revelar por conta própria as contradições de toda a sua classe, a velha oligarquia rural brasileira.

A evolução do filme se dá em torno da revelação de um ser político de índole autoritária e prosa cordial e de sua inusitada máquina de propaganda. Os desfiles, as palavras de ordem pintadas nos muros da propriedade e a voz de Teodorico ecoando, onipresente, nos alto-falantes espalhados por Tangara, dão conta da espécie de "fascismo cordial" exercido pelo simpático coronel que, como bom ditador, é do tipo bonachão e folclórico e se diz socialista.

Quanto mais Teodorico martela as palavras de ordem, as leis e os princípios morais que norteiam a administração de sua propriedade, mais evidencia as imoralidades que a sustentam: as maracutaias políticas, a prática descarada do "voto de cabresto". Seja voluntariamente, por ingenuidade ou desfaçatez, seja por atos falhos, o personagem se desnuda inteiramente, e esse processo é contíguo ao desvelamento das práticas políticas do coronelismo.

Seguindo a atuação de seu personagem, Coutinho evolui da política local à federal, da pequena história à grande. Como não encontrar a verdade histórica da política nacional, em seu ranço oligárquico, coronelista e personalista, na afirmação de Teodorico: "Na política, ficar contra o governo é errado."

Eduardo Coutinho morreu hoje, dia 2 de fevereiro de 2014, assassinado pelo próprio filho, que sofre de esquizofrenia. Este post é nossa pequena homenagem à sua genialidade. O texto acima é de Tiago Mata Machado e foi publicado originalmente aqui.

AQUI você assiste ao documentário "Teodorico, o Imperador do Sertão".

AQUI, "peões"

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