quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Despertar da Força

Comecei a freqüentar o cinema pra valer no início da década de 1980. Lembro bem de ter visto, na tela do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, Sergipe, onde nasci e “me criei” – morei lá até os 18 anos – clássicos e pequenas pérolas “cult” da época, como “Conan, o Bárbaro”, "Robocop", "Uma Noite Alucinante", “O Exterminador do Futuro”, “Guerreiros do Bronx” (uma espécie de mistura italiana de "Fuga de Nova York" com "Warriors - Os Selvagens da Noite"), "Piranha 2 - Assassinas voadoras", de James Cameron, e “Conquista Sangrenta”, de Paul Verhoeven. Um dia fiquei sabendo que ia passar a continuação do primeiríssimo filme que vi, há muito tempo atrás, mas naquela mesma galáxia e naquele mesmo cinema. Era “O Retorno do Jedi” (me recuso a falar DE). Fiquei animadíssimo, pois tinha ótimas lembranças de “Guerra nas Estrelas” – tinha visto ainda criança, não sabia nem ler, e naquele tempo não existia filme dublado no cinema.

Pois bem: fui ver “O Retorno” e só lá, na sala escura, me dei conta que aquela era, na verdade, a terceira parte! Sério, passei batido pelo “Império Contra-ataca”. Normal, eu era criança e vivia no interior de Sergipe, numa época em que internet não era nem coisa de ficção científica – nunca soube de nenhuma FC que tenha previsto a rede. Desnecessário dizer que fiquei mais perdido que cego em tiroteio. Como assim, Luke é filho de Darth Vader? E que diabos aconteceu com Han Solo? Em todo caso, adorei. O filme reacendeu a chama, e logo voltei a ser um fanático por Star Wars. “O império contra-ataca” vi primeiro em VHS, e depois no cinema, na época da restauração e do relançamento, no final da década seguinte.

Desde o fim da terceira – que na verdade era a sexta – parte ficamos todos na expectativa da seqüência daquela história, que pudemos ver finalmente hoje, 17/12/2015, 32 anos depois. Valeu a pena a espera ...

“O Despertar da Força” é basicamente uma recriação do primeiro filme. A história é praticamente a mesma: jovem que vive uma vida medíocre num planeta desértico da periferia da galáxia é pego(a) de sopetão numa encruzilhada do destino por uma guerra entre rebeldes e forças “oficiais”, se descobre herdeiro(a) de uma tradição mística poderosa e ajuda a derrotar o lado negro da “força”, personificado numa figura sinistra e mascarada em trajes pretos e numa superarma a serviço de uma organização totalitária e fascista.

Isso é ruim? Depende do seu tipo de expectativa. Se é pela volta da saga aos trilhos, depois dos escorregões da trilogia “prequel”, sairá do cinema plenamente satisfeito. É uma espécie de recomeço, que te pega pela emoção ao mesclar com perfeição a apresentação de novos personagens com o retorno de velhos conhecidos. Mais importante: gera muita expectativa pelo que vem por aí ...

Prós e contras: O ritmo do filme é perfeito, com cenas de ação absolutamente fantásticas, mas o roteiro, além de excessivamente derivativo, peca pelo subaproveitamento de pelo menos uma personagem nova, a Capitã dos Stormtroopers Phasma – isso mesmo, uma mulher - e outra "clássica", a Princesa Leia, que fala pouco e muito pouco aparece. Há que se dar também, para uma plena apreciação do conjunto da obra, vários descontos pela forçação de barra de algumas soluções dramáticas, como o fato de que o império, representado aqui por uma falange fascista sucessora, continua bastante carente de engenheiros competentes, já que suas estações armadas supostamente indestrutíveis continuam assustadoramente vulneráveis aos ataques dos rebeldes ...

Adorei o sotaque britânico acentuado da protagonista, aliás muito bem interpretada por Daisy Ridley – excelente atriz. Já o Finn de John Boyega eu achei um tanto quanto exagerado e caricato – mas nada que comprometa irremediavelmente a atuação. BB8, o dróide que emula RD-D2, é perfeito. E Han Solo continua o mesmo – só que BEM mais velho, evidentemente. Ele parece ter se divertido com a possibilidade de voltar ao personagem, apesar dos diálogos sofríveis e das cenas soporíficas com Carrie Fischer. Já a interação com Chewbacca, o parceiro velho de guerra, segue divertidíssima.

O vilão era meu grande temor. A primeira impressão que tive, ao ver as primeiras imagens, foi de uma “recauchutagem” vagabunda do visual do Darth Vader, o que não deixa de ser verdade. Só que a idéia era justamente esta, e é ótima: Kylo Ren é uma versão “vacilante” do grande ícone Sith. O desenvolvimento psicológico do personagem é primoroso, conferindo ao mal uma nova face, para além da dicotomia binária e maniqueísta. Sua fraqueza é, paradoxalmente, o que o torna, realmente, perigoso.

“O Despertar da Força” não é uma obra-prima, mas chega perto! Seus deslizes e imperfeições estão perfeitamente inseridos na tradição da própria saga, que nunca primou por atuações impecáveis ou diálogos rebuscados – é sempre bom lembrar que uma das principais fontes de inspiração de “Guerra nas Estrelas” são as séries cinematográficas de óperas espaciais populares do início do século passado, como Flash Gordon e Buck Rogers, igualmente charmosas, também, por seus exageros. O novo filme cumpre com louvor o que se propõe: nos trazer de volta aos primórdios. Nos fazer sentir mais uma vez, na medida do possível, descontada a passagem inexorável do tempo, como quando vimos e ouvimos pela primeiríssima vez aquela trilha sonora explosiva e aquelas imagens e personagens absolutamente fascinantes.

De Zero a dez, acho que cravo uns 8,5 de nota.

A

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dias Difíceis no Suriname ...

Plástico Lunar é uma banda sergipana, de Aracaju. E é uma das melhores bandas de rock em atividade no Brasil. Ponto.

Digo isso de forma absolutamente lúcida, pensada e repensada, e sem nenhum resquício de “bairrismo”. Pois bem: estabelecida esta verdade irrefutável, de fácil comprovação por qualquer um que se disponha a conhecer a música deles, devo dizer que acabaram de lançar o melhor disco já produzido por aqui. Ponto, de novo.

“Dias difícil no Suriname” teve uma longa gestação: começou a ser gravado em maio de 2012 e só foi finalizado dois anos depois. No processo, a banda perdeu um de seus principais componentes, o guitarrista Julio Andrade, que saiu para se dedicar a seu projeto principal, o duo The Baggios. Como fã, fiquei preocupado, pois era notória, nas apresentações que se seguiram, a dificuldade dos caras em se adaptar à uma nova formação, mais enxuta – normal, não deve ser fácil substituir um guitarrista como Julico. Mas sempre botei fé que iriam se ajustar. Só não sabia se a tempo de não prejudicar o novo álbum em gestação ...

Pois bem: o disco foi lançado há alguns meses, de forma virtual, e foi uma agradável surpresa. É magnífico! Já começa escancarando uma de suas principais influências, na “stoneana” “Todo pecado do mundo”, que abre com um excelente riff de guitarra. Julico toca nela e em mais quatro faixas. Em outras três, o auxílio vem de Rafael Costello, membro fundador, hoje morando em São Paulo. Little Mel, da Máquina Blues, aparece em “Labirinto”, e Fabrício Rossini em “A esperança”.

Foi assim, com uma ajuda providencial de amigos e ex-integrantes pra lá de talentosos, que a Plástico lapidou esta verdadeira obra-prima da música independente local. Que prossegue com uma velha conhecida, já lançada como single, a belíssima “Mar de leite azedo”. “Sentado no Arco-iris”, a terceira faixa, comprova, de certa forma, o talento dos caras, pois é uma composição de dois ícones do rock brazuca, Raul Seixas e Gileno Azevedo (da dupla “jovemguardista” Leno e Lillian), mas parece deles – e não sou só eu que tenho essa impressão: até hoje vejo gente se surpreender ao saber que se trata de um cover.  É, também, uma faixa bônus para quem comprar o disco físico, em CD, já que não havia feito parte do lançamento virtual por conta de imbróglios com a liberação dos direitos autorais.

O disco prossegue com “Cancioneiro”, uma robusta composição de Julico cantada por Marcos Odara, o baterista, que bate um bolão também como vocalista. É uma banda, aliás, que tem bons vocalistas de sobra – além de Daniel e Odara, Plástico Jr. também costuma entoar suas próprias composições.

“Quem diria”, que vem na sequencia, é uma emocionante ode ao aconchego do lar, com uma letra singela que Daniel compôs pensando em sua mãe. Emocionante. Daniel é um  compositor de mão cheia e excelente vocalista. Em parceria com Nara Loupe e Verlane Aragão, é o responsável por sete dos doze petardos que compõem o disco. O lado A – o disco foi pensado como um vinil – se encerra com outra dele – e dela, Nara – “Labirinto”, com uma letra psicodélica e surreal embalada por um ritmo cadenciado. Plástico Jr., baixo e voz, abre o que seria o lado B com a também psicodélica “Amanheceremos”, que tem uma perfomance marcante de Leo Airplane nos teclados. Leo Airplane que é, também, o produtor do disco, é bom que se diga...

“Algo forte” dá prosseguimento à viagem sonora de volta ao rock mais “hard”, com sensacionais riffs e solos de guitarra – quem? Ele, de novo. Julico. Mas a disputa é boa e Rafael Costello dá mais uma vez o ar de sua graça com mais uma levada tipicamente “stoneana” em “Persona non grata”. O solo é absolutamente sensacional, totalmente na tradição do melhor do rock “setentista”.

E então temos a mais pesada, “Quase desisto”, outra excelente composição de Julico, e “Nem aí”, mais uma de Junior – com uma letra totalmente “foda-se”, rock and roll! Encerrando tudo, a belíssima “A esperança”, levada no violão. Sintomático que o disco acabe com uma música com este nome. Temos esperança de que os dias passem a ser mais tranqüilos no Suriname e a banda siga em frente, apesar das dificuldades ...

Por fim, é preciso que se fale com um carinho especial sobre a concepção visual do projeto gráfico, com belíssimas artes conceituais produzidas por Thiago Neumann que valorizam muito o produto final. Salta aos olhos, também, a qualidade do material em que o digipack foi impresso. Impecável! Com direito, inclusive, a impressão na parte interna do envelope onde fica guardado o encarte. Um luxo! Bola dentro total da Rock Company, a gravadora paulistana que bancou o projeto.

“Dias Difíceis no Suriname”, o disco – físico, em CD - foi lançado em grande estilo no dia primeiro de novembro com uma apresentação concorrida no Teatro Atheneu. A gravadora promete para o início do ano que vem uma edição em vinil. Merece muito, tanta pela música, que soa sempre melhor quando ouvida através de uma agulha, quanto pela espetacular arte de “Cachorrão”.

Já tenho o CD, mas vou querer o LP! E se sair em k7, quero também ...

http://plasticolunar.com.br/

A.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

30 Anos de "Psychocandy"

Nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi “Psychocandy”, o primeiro disco do Jesus And Mary Chain. Foi mais ou menos na época do lançamento, ainda na década de 80 do século passado – acho que 1986. Eu tinha meus 15, 16 anos no máximo, e estava começando a mergulhar nesse universo vasto e, para mim, desconhecido, do rock and roll, pelo qual eu me interessei vendo o primeiro rock in rio na TV. A revista Bizz chegava lá na minha cidade – Itabaiana, 50 km de Aracaju, Sergipe – e serviu como guia. Foi em suas páginas que li sobre aquele grupo de escoceses malucos que só se vestiam de preto e estavam sempre com os cabelos desgrenhados. Causavam furor com um single apropriadamente intitulado "upside down" - que tinha no lado B uma versão para "Vegetable man", uma música de Syd Barret que havia sido gravada porém nunca lançada oficialmente pelo Pink Floyd - e com shows ensurdecedores de 15 minutos nos quais tocavam de costas para o público...

Um amigo tinha o tal disco, "Psychocandy", e eu fui lá na casa dele ouvir. Primeiro foi o estranhamento com a faixa de abertura, “Just like honey”: etérea, sussurrada, com uma gravação abafada e guitarras cortantes, mas nada demais, em termos de agressão sonora. A partir do momento em que a agulha chegou aos sulcos da musica seguinte, no entanto, foi um choque! Aquilo era algo realmente novo, mesmo para meus ouvidos já acostumados com Metallica, Slayer e Megadeth. Era muito, muito barulhento, mas ao mesmo tempo era doce, melódico. Pop, num certo sentido. Um doce psicótico – poucas vezes o título traduziu tão bem a sonoridade de um disco.

Não tinha, na época, bagagem musical suficiente para enquadrar mentalmente o que me entrava pelos ouvidos, mas hoje sei que se tratava de uma espécie de continuação do que vinha sido feito naquela década por bandas como The Cure e Echo And The Bunnymen, com seu pop "esquisitão", temperado com influências do radicalismo undeground do Velvet - especialmente do segundo álbum, "White Light/White Heat" - e do punk rock safra 77, de Sex Pistols e afins.

“Psychocandy” é, na verdade, uma daquelas obras que inauguram um novo estilo, para o qual os críticos têm que se desdobrar para criar um rótulo – “shoegaze”, no caso. Um rótulo que, na verdade, só foi criado algum tempo depois, quando a sonoridade daquele álbum seminal foi lapidada por bandas como My Bloody Valentine, Ride e Slowdive. Sua influência, no entanto, foi além:  transcendeu os guetos estilísticos e atravessou oceanos. A explosão do rock alternativo e das "guitar bands" da primeira metade da década de 1990 deve muito a "Psychocandy". No Brasil, essa influência se refletiu numa cena que gerou nomes como Pin Ups, Killing Chainsaw, Second Come, Mickey Junkies, brincando de deus e, aqui em Sergipe, Snooze. Bandas que lançaram discos e demos que até hoje são cultuados pelos apreciadores do "rock triste" com paredes sonoras erguidas em cima de pedais de distorção.

Eu virei fã de grindcore, mas “psychocandy” segue sendo o disco mais barulhento que eu conheço – sim, mais que “From slavement to obliteration” ou as “peel sessions” do Napalm Death! É o único que eu não consigo ouvir inteiro no volume ao qual estou acostumado: chega um momento em que os ouvidos começam a doer ... 

É tipo uma serra elétrica lubrificada com mel. 

E é lindo!

A

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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

DoSol 2015

Soubesse eu que meu ídolo e amado Adelvan Kenobi me concederia a honra de ocupar este nobre espaço com minhas impressões sobre o que vi no Festival DoSol no último fim de semana em Natal/RN, certamente eu teria ativado meu botão ‘repórter’ e teria pelo menos levado um bloquinho com caneta para facilitar essa tarefa hercúlea que tenho agora.

Porque é uma coisa de louco aquilo. Uma maratona inacreditável uma média de 30 bandas por dia se revezando, às vezes ao mesmo tempo, entre 4 palcos, espalhados por galpões em uma rua fechada na área portuária de Natal. O rock começa cedo, às 16h, e segue até a madrugada. No sábado, 07/11, terminou mais de 4h da manhã, com o show lotadaço do novo fenômeno “indie universitário” Figueiroas. Eu não sei de onde a galera tirou energia pra dançar lambada àquela hora naquele calor. Eu estava em frangalhos.

Skabong
Mas comecemos do começo...

Sábado – 07/11/2015 - Resolvi ir pro DoSol porque tive a chance de viajar junto com a galera da Skabong, aqui de Aracaju, que foi escalada pra tocar. Saímos na sexta à noite e chegamos no sábado. Portanto, perdemos a primeira noite do festival. Uma pena. Perdi o show do Cigarettes que eu posso dizer que há décadas que queria muito ver. Mas tudo bem.

No sábado, a maratona começava cedo e o Skabong(SE) era logo a segunda banda da programação. Tocaram ainda de tarde, pra uma plateia não muito numerosa, mas atenta, e fizeram o melhor show que puderam. Coeso, redondo e cheio de energia. A galera reagiu bem. Sou suspeita, mas gostei muito.

Moloko Drive
Depois disso, o que se segue é uma avalanche de shows que são um teste pra memória estética e pra dignidade física de uma roqueira desleixada e com problemas de saúde, como eu. Uma das primeiras bandas que eu lembro de ter chamado minha atenção foi o Moloko Drive(RN). Show bacana, maduro, composições instigantes. Impossível não relacionar o som deles ao estilo stoner do QOTSA, mas isso não chega a ser um problema. Gosto muito desse tipo de som. Me pegou de cheio. Acabaram de lançar disco pelo selo Mudernage.

Não vou listar os shows de um em um porque simplesmente não consigo me lembrar e/ou não prestei atenção. Então, faço a seguir uma seleção baseada na minha memória afetiva. Se lembro é porque curti. Ou quase isso.

Carne Doce
Próxima da lista que me capturou os sentidos foi uma banda de Goiânia chamada Carne Doce. Daquelas que você passa pra dar “um saque” e se pega dizendo “UAU”. Impossível não me conquistar a mistura de vocal feminino com um toque Elizabeth Frasier cantando em bom português e levadas viajantes a la Tortoise ou Hurtmold, pra ficar nas referências nacionais. Tudo muito bom, gostoso de ouvir, sem afetação, sincero. Certamente está no meu top 5.

Em seguida um show que eu há muito espero pra ver ao vivo. Acho que conheço o The Automatics(RN) há tanto tempo quanto conheço o Snooze (guitar band aqui de Aracaju que fez parte da minha vida por longos 13 anos), ou seja o tempo que devo ter nessa vida de indie rock. Como eu imaginava, não me decepcionaram. Guitar noise arrastado da melhor qualidade, fazendo jus a seus 14 anos de estrada. Showzaço.

The Automatics
Lembro de, ao menos, duas pessoas cantando no meu ouvido: ‘não perca o show da Marrero(SP)’. Fui lá conferir. Rock de macho, até nas caras e bocas do vocalista. Como diz na descrição do soundcloud deles: “Uma banda com raiva.” Hehehehe, deu pra perceber. Mais daquela pegada stoner, que apareceu muito pelo festival. Não estou reclamando. Gostei, só não entendi porque eles tocaram de novo no domingo.

Aláfia foi realmente um diferencial em meio a tanto rock raivoso. Outro daqueles momentos ‘UAU’. Fazem um groove sensacional, flertando com sonoridades da black music setentista, funk, rythm’n’blues, soul e por aí vai... A vocalista maravilhosa tem uma baita voz e ótima presença de palco. Me ganhou muito. Estão lançando o segundo CD, Corpura. Fodástico. Recomendo muito.

Thiago Petit
Do show do Thiago Pethit eu me lembro de ter tentando entrar pra dar aquele saque. Estava lotadaço e o público estava ensandecido. Bem na hora que eu chego, sobe um(a) fã no palco e tasca um beijo de língua na boca do cara. Nossa! Que susto. Já gostei. Nunca tinha sacado o som dele, mea culpa. Vou chover no molhado aqui se disser que o som do maluco é bacana. E o show? É insano. Prefiro me guardar pra outra vez que eu tiver visto só ele em outra oportunidade.

A essa altura eu já nem enxergava as pessoas direito e já tinha falado com umas três pessoas estranhas achando que eram gente conhecida. Estava perdida, tentando entender como eu tinha me perdido da minha carona quando me deparei com o show do novo “mito universitário”.

Figueroas "Lambada quente"
“Fofinha, fofinha, fofinha...” (Gosto de pensar que essa música é pra mim, hahaha). Figueiroas Lambada Quente! Mais de 3h da madrugada e aqueles roqueiros ainda tinha energia pra dançar lambada quente... não, infernal (calor da porra, hein, Natal?!).

O que eu entendo que rola ali é o seguinte: Dinho Zampier, meu brother alagoano de outros carnavais, é o talento musical que garante a precisão daquela estética que sai redonda, gorda, cheia de improvisos legais, enquanto isso o “Figueiroas” arrasa no personagem, dança mesmo, canta mesmo, se entrega. E a galera se entrega junto. Funciona demais. Fica constrangedor estar perto do palco e não se balançar ao menos. É sincero aquilo que rola ali. Não é apenas humor. Aquela música e aquela energia estão rolando ali de verdade. O público entende isso. Acho válido. Mas eu não sei dançar lambada.

Boys Bad News
Domingo – 08/11 - No domingo, uma outra banda tipo stoner sexy guitar rock fez um dos primeiros shows que eu consigo lembrar: Boys Bad News , do Maranhão. Nada muito inovador, mas foram bem no palco, pegada instigante, conquistaram o público, eu inclusa.

Provavelmente a que mais impressionou nesse dia, e não foi só a mim, foi a AK-47 (RN). O vocalista, Juão Nin, que também é ator, abriu o show com uma performance do lado de fora do galpão saindo de dentro de uma daquelas máquinas de fazer cimento em construção civil, gritando “índio viado, índio tóxico, índio trans”!

Dava pra entender uma sugestão de ativismo gay e ambiental aí, que logo se confirmou nas letras das músicas. Da betoneira ao palco, aquele homenzarrão imenso (e lindo!) soltou uma voz poderosíssima acompanhado por uma banda não menos de peso que deixou a mim e aos presentes de queixo no chão.

AK-47
O som da AK-47 é pesado, rasgado, gritado, ou “visceral”, como eles se descrevem na biografia do facebook. Aqui e acolá, há um flerte com batidas tribais. Bateria e percussão são bem pronunciadas, e as guitarras, óbvio, bem altas e com muita distorção. Difícil não associar ao que ficou conhecido como Nu Metal, mas o rótulo é pouco (como são todos) pra enquadrá-los. O disco novo, Anêmola, está disponível pra download na página da banda. Tem que conferir.

Seguem-se mais dois shows de rock de responsa altamente recomendáveis. Monster Coyote é uma banda nervosíssima de Mossoró, interior desértico do RN. Fazem uma mistura de metal stoner pesadíssimo. Cacete, porrada, pauleira. Basicamente isso. Gostei muito.

Water Rats
Os curitibanos do Water Rats mandam um punk de primeiríssima, meio setentão, ótimos vocais, ótimos riffs, impossível ficar parado. A galera tem bastante estrada e interage super bem com o público. Fizeram um show muito instigante.

Os gringos da DOT LEGACY parecem ter agradado geral. Eu devo ter escutado meio atravessada. Achei som de gringo fazendo gringuice. Franceses com cabelo crespo, pulando alto e fazendo careta devem fazer um sucesso por lá. Pra mim, de cara já é um ponto a menos. Ainda mais quando eu ouço, nem que seja um indício de tentativa, da famigerada experimentação, ou “mistura de ritmos”. Ah não! De novo isso? Quantos a gente num já viu desses por aqui né? Desculpaí. Curti não. Altamente esquecível.

Mad Monkees
Em um dado momento do domingo, Levi Marques (vocalista da Skabong) me chama pra ver o que tá rolando no palco “estúdio Petrobrás” – na verdade um container, do lado de fora dos galpões. Ele diz, meio chocado: “Você tem que ver isso!”

Era a banda Mad Monkees , do Ceará. E o que chamava a atenção era o baterista super mega feeling virtuose dando um show à parte. Comentei: “Lembrei do Babalu”. Entendedores entenderão. Banda foda e baterista mais ainda. Vale dar um saque no trabalho dos caras.

O show do DEAD FISH OFICIAL conseguiu provocar um fenômeno: esvaziou completamente todos os outros ambientes do festival. Estava TODO MUNDO lá. Hardcore nunca foi totalmente minha praia e eu nunca tinha animado pra ver um show desses caras, mas já que tava no bolo e pelo precinho fui lá conferir. Sim, um ótimo show, como eu imaginei. Público pirando, festival de mosh, bonito de ver e tal. Mas continua não sendo o tipo de som que me instiga. E em um festival como esse, eu, sinceramente, prefiro dar atenção às bandas que eu sei que não vou ter outra chance de ver. Me parece meio lógico.

Girlie Hell
Quase terminando a noite, sobem ao palco as roqueiras, super roqueiras, com muita pose de roqueiras, da Girlie Hell (GO). Não gosto da afetação que vejo em algumas bandas da safra goiana recente. Parecem, quase todas, muito preocupadas em ter a famosa “atitude roquenrol”. Torço um pouco o nariz quando vejo esse excesso (não são as primeiras), mas curti o som das meninas mesmo assim. Rockão clássico, composições legais, bom vocal. Se investirem mais na música e menos na pose tem futuro.

O ultimíssimo show que eu vi, esse eu lembro bem, foi dos cariocas da Confronto. Banda de metal hardcore respeitada, com 14 anos nas costas, suas letras de resistência dos oprimidos vieram bem a calhar pra encerrar essa imersão roquística nos lembrando bem de onde nós, roqueiros velhos e resistentes, viemos e porque continuamos fiéis a essa merda toda, mesmo sem ganhar nenhum tostão.

Texto: Maíra Ezequiel

Fotos: Rafael Passos

Juão Nin, vocalista do Ak-47, mitando no domingo


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Não quer ajudar, não atrapalha

É sempre a mesma coisa. Primeiro todo mundo põe um filtro arco-íris no avatar. Depois vem uma onda de gente criticando quem trocou o avatar. Depois vem a onda criticando quem criticou. Em seguida começam a criticar quem criticou os que criticaram. Nesse momento já começaram as ofensas pessoais e já se esqueceu o porquê de ter trocado o avatar, ou trocado o nome para guarani kayowá, ou abraçado qualquer outra causa.

Toda batalha pode ser ridicularizada. Você é contra a homofobia: essa bandeira é fácil, quero ver levantar bandeira contra a transfobia. Você é contra a transfobia: estatisticamente a transfobia afeta muito pouca gente se comparada ao machismo. Você é contra o machismo: mas a mulher está muito mais incluída na sociedade do que os negros. E por aí vai. Você é de esquerda, mas não doa pros pobres? Hipócrita. Ah, você doa pros pobres? Populista. Culpado. Assistencialista.

Cintia Suzuki resumiu bem: “Você coloca um avatar coloridinho, aí não pode porque tem gente passando fome. Aí o governo faz um programa pras pessoas não passarem mais fome, e aí não pode porque é sustentar vagabundo (…). Moral da história: deixa os outros ajudarem quem bem entenderem, já que você não vai ajudar ninguém”.

Todo vegetariano diz que a parte difícil de não comer carne não é não comer carne. Chato mesmo é aguentar a reação dos carnívoros: “De onde você tira a proteína? Você tem pena de bicho? Mas de rúcula você não tem pena? E das pessoas que colhem a rúcula, você não tem pena? E dos peruanos que não podem mais comprar quinoa e estão morrendo de fome?”.

O estranho é que, independentemente da sua orientação em relação à carne, não há quem não concorde que o vegetarianismo seria melhor para o mundo, seja do ponto de vista dos animais, ou do meio ambiente, ou da saúde, ou de tudo junto.

O problema é exatamente esse: alguém fazendo alguma coisa lembra a gente de que a gente não está fazendo nada. Quando o vizinho separa o lixo, você se sente mal por não separar. A solução? Xingar o vizinho, esse hipócrita que separa o lixo, mas fuma cigarro. Assim é fácil, vizinho.

Quem não faz nada pra mudar o mundo está sempre muito empenhado em provar que a pessoa que faz alguma coisa está errada —melhor seria se usasse essa energia para tentar mudar, de fato, alguma coisa. Como diria minha avó: não quer ajudar, não atrapalha.

NOTA DO BLOG: É por essas e outras que desisti de manter perfil em rede social. Um dia ainda vou entender porque as pessoas ficam tão insuportáveis quando estão num ambiente virtual "social". Enquanto não chego a uma conclusão, prefiro não ter Whatsapp (è assim que escreve?), nem twitter, nem instagram. Aos poucos vou desistindo de atualizar este blog também - parece que (quase) ninguém mais lê mesmo. Muita coisa, né? "Quem lê tanta noticia"???!!! Hobsbawn descreveu o século XX como "A Era dos extremos". Acho que estamos vivendo, agora, a era da distração ...

Em todo caso, tenho duas páginas no Facebook, uma pessoal e outra do programa de rock. É diferente de perfil, bem mais tranquilo, e serve pra quem quiser entrar em contato comigo(Adelvan).

www.facebook.com/programaderock

Texto por Gregório Duvivier

Folha, 13/7/2015

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terça-feira, 10 de novembro de 2015

PCdoB: da guerrilha ao Ministério da Defesa

Quando ainda fazia programa humorístico – e era engraçado – Jô Soares tinha um quadro em que um general entrava em coma na posse do presidente Figueiredo, o último ditador, e acordava já na “Nova Republica” (muita ênfase nessas aspas, por favor) de Sarney & cia. Espantado com as mudanças, repetia o bordão “me tira o tubo” a cada constatação das voltas que o mundo dá. Às vezes fico imaginando o que o general diria se acordasse hoje, com um papa argentino, um negro na presidência dos Estados Unidos, uma ex-guerrilheira – mulher! – presidindo o Brasil e, agora, o PCdoB à frente do Ministério da Defesa.

Sim, aquele mesmo PCdoB, o Partido COMUNISTA do Brasil. Fruto de uma dissidência stalinista – depois maoísta, “albanista” e, por fim, petista – do “partidão”. O “partidinho” – era pequeno, na época – que organizou a guerrilha do Araguaia, o mais planejado e consistente – ou menos delirante  - projeto de combate armado à ditadura.

Médici deve ter dado algumas voltas no túmulo, certamente. Mas o mesmo quadro do programa do Jô terminava sempre com o general pedindo para manter o tubo ao constatar que, no final das contas, nem tudo havia virado de pernas pro ar. As coisas mudam, às vezes, para continuarem as mesmas. Com efeito, a presença da legenda de João Amazonas à frente da pasta à qual estão subordinadas às Forças Armadas não causou nenhum assombro, a não ser entre os cães raivosos que se recusam a notar que o mundo é outro e a guerra fria já ficou há muito tempo para trás.

O próprio PCdoB mudou, e muito. Na cerimônia de passagem de cargo Aldo Rebelo, o novo ministro, prometeu apoiar “cada uma das agendas estratégicas das Forças”. Citou nominalmente projetos como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), da Marinha; o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), do Exército; e o FX-2 para aquisição dos caças Gripen da Aeronáutica, ressaltando a importância deles para o fortalecimento da soberania brasileira. Enalteceu a história da fundação das Forças Armadas e fez questão de elencar algumas conquistas das três instituições - sem mencionar, claro, o papel dessas mesmas forças na repressão aos movimentos populares. Canudos e Contestado, assim como o golpe de 64 e a ditadura subsequente, foram solenemente ignorados nesse "balanço Histórico" ...

No caso da Marinha, destacou a Batalha do Riachuelo. “Ali, ao vencer a Armada Paraguaia, o Brasil e a Força Naval abriram caminho para o progresso das forças terrestres”, disse. Prometeu, ainda, atualizar o Projeto Nacional de Domínio do Ciclo Nuclear, além de “lutar para preservar a capacidade operacional da nossa Esquadra”. Já para o Exército, ressaltou que a Força nasceu nos idos do nacionalismo do País. Citou o “Exército da luta pela independência, que nos deu essa heroína única de convicções e de bravura, Maria Quitéria. O Exército de Duque de Caxias e da consolidação da República”. Por fim, sobre “a mais jovem das Forças”, a Aeronáutica, lembrou que aviadores brasileiros “deixaram nos céus da Europa o tributo de sangue para que o mundo vivesse em liberdade”. “À Força Aérea, nós devemos o Correio Aéreo Nacional, que era muito mais que correio. Era a instituição integradora de um País sem logística, separado pelas distâncias”, lembrou.

O que Aldo disse era o que o comandante do Exército, o gaúcho Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, de 63 anos, queria ouvir, a julgar pela entrevista que concedeu ao jornal Correio Braziliense no dia 27 de setembro de 2015. Nela, ele exalta a passagem de Lula pela presidência: “Nós nos acostumamos a matar um leão por dia, mas perdemos a capacidade de pensar a longo prazo, estrategicamente. Até que veio o governo do presidente Lula e essa série orçamentária que era declinante se reverteu e começou a melhorar. O marco foi quando o presidente chamou o ministro (Nelson) Jobim para o Ministério da Defesa e disse: “Sua missão é colocar a defesa na pauta de discussão nacional”. E, aí, o ministro Jobim, com o ministro Mangabeira Unger, elaborou uma Estratégia Nacional de Defesa, um marco na história da defesa. Pela primeira vez, o poder político disse aos militares qual era a concepção de Forças Armadas, o que entendiam como necessário para o Brasil.”

De “quebra”, deu uma estocada bem humorada nos “aloprados” que defendem uma intervenção militar: “É curioso ver essas manifestações. Em São Paulo, em frente ao Quartel-General, tem um pessoal acampado permanentemente. Eles pedem “intervenção militar constitucional” (risos). Queria entender como se faz. O Exército vai cumprir o que a Constituição estabelece. Não cabe a nós sermos protagonistas neste processo. Hoje o Brasil tem instituições muito bem estruturadas, sólidas, funcionando perfeitamente, cumprindo suas tarefas, que dispensam a sociedade de ser tutelada. Não cabem atalhos no caminho.”

A maior ameaça aos planos dos militares, hoje, não é o comunismo. É a crise. A maior desde 1929, dizem especialistas. Uma daquelas crises cíclicas típicas do ...

Capitalismo!

A.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Contagem regressiva ...

“Como assim, ela é uma princesa? Ela não se veste nem se comporta como uma princesa! Cadê a coroa? Esse cabelo esquisito é a coroa?”. Era eu, com 6, 7 anos de idade, pedindo pra minha irmã mais velha, que havia me levado ao Cine Santo Antonio, em Itabaiana(Sergipe), para assistir àquele filme que todo mundo estava comentando – até o padre, na homilia da missa, havia recomendado, mais por conta do cinema funcionar num prédio alugado à igreja – me explicar o enredo, já que eu ainda não sabia ler e naquela época ainda não passava filme dublado no cinema.

Ela me explicou e eu finalmente entendi melhor depois, já alfabetizado, a partir dos textos do álbum de figurinhas que eu colava com uma goma caseira tosca. A experiência me marcou profundamente, como pode-se notar pelo “codinome” que adotei na internet – Adelvan “Kenobi”.

“Guerra nas Estrelas” volta ao cinema em dezembro, dia 17. Sob a batuta de J.J. Abrams, o criador de “Lost” – e “recriador” da principal série “rival”, “Jornada nas Estrelas”.

Promete!

Muito!

A

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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Circo Voador: A Nave de Maria Juçá

“Que merda é essa que você está fazendo? Esses imbecis não sabem tocar, não sabem cantar e essa p* de guitarra distorcida de uma nota só está destruindo meus tímpanos. Você está de sacanagem comigo. Estou com os ouvidos desatarrachados”

A bronca de Tim Maia era endereçada a Maria Juçá, produtora e programadora do “Rock Voador”, o espaço do Circo – sim, aquele mesmo, que nasceu no Arpoador e cresceu e na Lapa – que, todos os sábados, abria suas portas para o nascente novo rock nacional, sempre cuidando de evitar purismos e puritanismos e caprichar na mistura. Naquela noite trazia, ao lado do “síndico”, a banda pioneira do punk rock carioca Coquetel Molotov. E terminou bem, com um verdadeiro congraçamento nos camarins, para onde os punks se dirigiram depois de terem sido conquistados pelo carisma do maior soulman brasileiro – que se dizia, também, o primeiro “punk” do Brasil.

Arpoador, nos primórdios ...
Juçá não aprendia: quando promoveu o primeiro Festival punk do Rio de Janeiro, convidou os nomes mais representativos da nascente e incipiente cena local para tocar ao lado dos já consagrados – no underground, pelo menos – paulistanos do Ratos de Porão, Inocentes e Cólera. Mas convidou também, para abrir a noite, o Paralamas do Sucesso! E mais: com uma participação especial, em uma das músicas, de Paula Toller, do kid Abelha!!! A mistura, pra lá de heterodoxa – e indigesta, para os puristas – só deu certo porque Herbert Vianna era – é – muito gente fina e tinha bom transito entre todas as tribos.

Esta é apenas uma das muitas – muitas MESMO – histórias vividas ao longo do tempo – três décadas, e contando - sob a lona da Lapa. Histórias como a da apresentação do Titãs no início da carreira para apenas 13 pagantes; da noite em que Celso Blues Boy quase matou Serguei, usando-o como suporte para seu pedal de whah whah; do primeiro encontro de Raul Seixas com Marcelo Nova num show do Camisa de Vênus, em pleno palco; da primeira vez das bandas de Brasília, antes da fama, na Cidade Maravilhosa; do “Queremos”, um grupo de amigos “indie” que usou o Circo como suporte para fazer com que as bandas que só tocavam em São Paulo voltassem a se apresentar no Rio; dos sem noção que vira e mexe aprontam algo, como no episódio em que uma lata de cerveja foi arremessada na testa do inofensivo James Taylor; da dor de cabeça da produtora ao “peitar” Tim Maia quando ele(sempre ele!), às voltas com duas prostitutas, deixou de fazer o show programado para agosto de 1984 - Tim chegou a ficar “de mal” de Juçá, injuriado com a faixa em que estava escrito “Tim Maia está rouco, Tim Maia está louco” que ela colocou na porta do Circo; ou as lembranças dos bicões que infestavam os camarins para disputar com os artistas cervejas bebidas em copos plásticos - estratégia para fazer a loura render mais. Copos de plástico que, vejam só, foram usados, também, para servir champagne a Madonna – sim, ela mesmo! A diva-mor!

Juçá
Tudo isso e os já célebres “pitis” dos rockstars, do pop ao punk: de Lulu Santos, que se indignou ao saber que teria que dividir a mesma porta de entrada com o público – depois o Circo cedeu à pressão e criou uma entrada exclusiva para os artistas, devidamente batizada, claro, de “portão Lulu Santos” - a Jello Biafra, que exigiu um banho de Jacuzzi antes de subir ao palco – esta última tem uma explicação: Jello ficou “puto” porque havia pedido que seu nome não fosse associado ao dos Dead Kennedys, que já havia acabado, no material de divulgação. Como não foi atendido, fez a birra de propósito, como vingança, e acabou conseguindo o tal banho. Na banheira de Dado Villa Lobos ...

Na verdade sempre soube que tinha sido na casa do Renato Russo, mas segundo o relato de Alexandre Rossi, o “Rolinha”, no livro, foi na do Dado. Bom, ele deve saber mais do que eu, já que foi ele que levou o Jello lá. Ou não! Não há um compromisso rigoroso com a apuração dos fatos nos relatos, é tudo dito de acordo com o que vem à memória e transcrito, aparentemente, da forma em que foi dito. E muita coisa foi dita, por muita gente: mais uma vez a generosidade de Juçá se faz presente e ela praticamente se torna uma editora de seu próprio livro, cuja narrativa é entremeada de relatos de terceiros – muitas vezes com relatos “terceirizados” dentro dos próprios relatos “de terceiros”! O formato, não muito comum, poderia ter prejudicado a fluência do texto, mas não foi o caso, felizmente ...

É uma trajetória acidentada, cheia de altos e baixos, triunfos e “perrengues”. O pior deles foi, provavelmente, quando o Circo foi arbitrariamente fechado pelo prefeito César Maia, a pedido de seu sucessor/apadrinhado Luiz Paulo Conde, em represália à expulsão pelo público de sua comitiva, que insistia em comemorar lá a vitória na eleição, mesmo sem ter sido convidado. Detalhe: era dia de show punk, com Garotos Podres e Ratos de Porão. Juçá ficou na pior, psicológica e financeiramente – afinal, o Circo era, também, seu “ganha pão” – e chegou a fazer greve de fome na tentativa de ser pelo menos atendida em seu gabinete por “sua excelência” – acaba de falecer, o canalha. Espero que esteja devidamente instalado no inferno, no colo do capeta! Ela conta como foi: “Durante a minha luta pela volta do Circo, uma “brincadeira” que durou 8 anos, eu fiquei totalmente sem grana. Cheguei a vender sapato para poder me sustentar. Até morar com o ex-marido e a nova esposa dele eu fui… Foram momentos realmente difíceis. E nesse período eu entendi muito o que significa a fome, o você passar fome, o você não ter o que comer. Por isso, depois de tudo o que passei, eu tenho o hábito de dividir tudo. Todo dia, de alguma forma, eu divido algo com alguém. Uma comida, um dinheiro, alguma coisa”.

O filme
Não parece haver limites para o poder de barganha, jogo de cintura a energia criativa de Maria Juçá. Algo que você pode facilmente comprovar devorando o calhamaço de quase 700 páginas – 666, se descontados os índices e apêndices - que ela lançou ano passado de forma independente, sem editora – mas com apoios importantes, do Governo do Estado e da Ambev. Não é uma obra perfeita: faltou edição, o que se reflete em alguns erros de ortografia e no ritmo da leitura, muitas vezes prejudicado por uma certa desorganização na ordem em que os capítulos são apresentados. Há também um excesso de informação - tipo, enumeração de todos os membros de quase todas as bandas - que deixa a leitura chata, com cara de release. em determinados momentos. Mas nada que comprometa a obra como um todo.

“Circo Voador: A Nave” – o livro, é o relato de uma guerreira da cultura, querida e amada por todos que a conhecem e também pelos que, como eu, acompanham seu trabalho à distancia. Desde 1982.

Só fui conhecer o Circo Voador “in loco”, em carne e osso, recentemente. E vejam só: calhou de ter sido na noite do dia 20 de junho de 2013, no auge das manifestações de rua que tomaram o Brasil de assalto – e de surpresa. Fui para ver finalmente, também pela primeira vez, uma de minhas bandas favoritas, a Gangrena Gasosa, abrindo para o Cannibal Corpse. Em meio ao caos! Literalmente! A policia caçava os mascarados pelas ruas da Lapa, com a utilização, inclusive, de carros blindados, os famigerados “caveirões”. Bombas de gás lacrimogênico explodiam por todos os lados e a nuvem tóxica invadia o espaço do circo, que é aberto, o tempo inteiro, fazendo com que os shows tivessem que ser interrompidos inúmeras vezes para que os presentes pudessem se recuperar dos efeitos. Foi assustador, mas sensacional! Um verdadeiro Batismo de fogo.

Você, que nunca foi lá, precisa ir também! Pelo menos uma vez na vida! Encare isso como uma missão, como uma tarefa religiosa, igual à recomendação aos muçulmanos para que visitem Meca. Se não puder procure, pelo menos, ver o filme: “Circo Voador: A Nave” acaba de estrear em formato de documentário para o cinema. Não vi ainda, mas vou seguir o exemplo da Juçá e colocar aqui as impressões de quem sabe e viu, tanto o filme quanto incontáveis noites sob aquela lona mágica, devidamente relatadas em seu ofício de jornalista. Com apalavra, Marcos Braggato:

Era para ser um documentário, mas bem que tem roteiro de drama. Para ser levada às telas, a história da casa de shows que foi o embrião do rock brasileiro dos anos 1980 (e que recebeu todas as cenas dali pra frente) tem tantas idas e vindas, fins e recomeços, paixões e emoções que fica difícil de ser contada somente sob a ótica remissiva. Mesmo porque, no fundo, no fundo, o Circo Voador não é exatamente uma casa de shows - embora seja -, mas, como costuma se referir a ele a boss Maria Juçá, trata-se de um conceito, um projeto, agora convertido em uma saga cinematográfica intitulada “Circo Voador – A Nave”.

O doc cobre toda a história do Circo, desde a versão meteórica que tomou de assalto a Arpoador, durante o verão de 1982 e sua posterior “desautorização”, passando pelo pouso na Lapa e pela interrupção de oito anos, por conta de desmandos de políticos, até a estrutura definitiva que se tem nos dias de hoje. A diretora Tainá Menezes se valeu de um extenso trabalho de pesquisa, o que realça no filme a quantidade de imagens de shows da cada época abordada, e, diferentemente do usual em documentários dos novos tempos, não economiza com cortes abruptos, a pretexto de dar “dinâmica jovem” ou algo que o valha à narrativa.

Assim, é possível se deliciar com trechos longos como o da Blitz tocando no Circo do Arpoador ainda com um imberbe Lobão como baterista; uma performance de Luiz Melodia como dançarino, no meio de “Estácio, Holly Estácio”; Tim Maia usando a verve genial para reclamar dos “bicões” que invadiam seu camarim, verdadeira instituição da lona voadora; Barão Vermelho cantando “Eclipse Oculto” com Caetano Veloso, com direito a beijo em Cazuza no final; e o emocionante discurso de despedida de Rita Lee, entre outros. Depoimentos muito loucos como os de Tom Zé, que ainda aparece na inefável “noite das calcinhas”, em que colheu várias peças da plateia, tentam explicar o que, no fim das contas, é o Circo Voador. Tarefa realmente impossível, e que não é a intenção da produção.

Marcelo D2, malandro da Lapa nato e ex-vendedor de camisetas ali pelo Centro, conta como fazia pala pular a grade do Circo para participar do movimento, já que os tempos ainda eram de dureza. Marcelo Yuka, muito antes de ter banda, se virava no mesmo quesito, e por pouco não deu o primeiro mosh de cadeirante em show do Bad Brains. Ambos hoje têm o olhar diferenciado sobre a lona, o mesmo que o filme tenta mostrar, mais com a bem sacada edição de imagens, que de certa forma se completam por si só, do que com discursos por vezes obtusos. Acertadamente, não há narração no filme, só os depoimentos e a sucessão de registros de artistas sob a lona.

Pólo aglutinador da revolução do rock nacional nos anos 80, junto com a Fluminense FM, o Circo Voador, contudo, tem seu trecho mais prolífico abreviado no filme. Não são muitos os atores desse processo inseridos na história, sobretudo de outros estados. Para estes, destaque para as falas de Marcelo Nova, do Camisa de Vênus, e de Clemente, do Inocentes, que, porém, abordam mais o ecletismo da programação, provavelmente estimulados pelo roteiro, do que da importância da Circo Voador para o alavancar de suas carreiras. Temas como as famosas desavenças entre produtores e a criação da vizinha Fundição Progresso também ficaram de fora, mesmo porque a produção, toda independente, foi bancada pelo próprio Circo Voador - ressalte-se.

João Gordo aparece em destaque por ter sido escolhido para Cristo no episódio do fechamento ilegal do Circo, na noite em que os punks entusiastas de Ratos de Porão e Garotos Podres, aos gritos, expulsaram espetacularmente um grupo de políticos do Circo Voador. O então prefeito César Maia exorbitou do poder que tinha, atendeu a um capricho de seu sucessor eleito, Luiz Paulo Conde, falecido este ano, e mandou fechar o Circo. O próprio Maia aparece no filme se gabando do contrário, de ter reaberto o Circo Voador oito anos mais tarde, o que de fato aconteceu, mas só depois de muita luta da produtora Maria Juçá, que ganhou uma ação contra a prefeitura na justiça e só conseguiu a construção do Circo como é hoje depois de meticulosa costura política. Toda a questão é bem esclarecida em “A Nave”.

Regulado por questões de orçamento e disponibilidade de verbas, o documentário levou cerca de cinco anos para ser concluído, e - repita-se – não contou com o apoio de leis de incentivo á cultura, como é comum em produções cinematográficas no Brasil. Mais que a história sendo contada e registrada para todo o sempre, o filme é precisa oportunidade para as novas gerações perceberem como as coisas podem ser feitas do nada, desde que sejam simplesmente iniciadas. Assim como foi o rock brasileiro dos anos 80. E assim como foi e continua sendo com o Circo Voador. Para ver o trailer do filme, clique aqui.

Por fim, um “Bônus text”: Um relato saboroso – e recente, publicado originalmente no Blog do André Bracinsky – de Alexandre Rossi, o “Rolinha”, sobre sua visita à Disneylândia distópica de Banksy, em Londres. Para que você tenha uma idéia da verve do cara – tem muito texto dele no livro da Juçá. Na verdade ele é, praticamente, um co-autor do livro ...

“O Mais Despontador Parque Temático do Mundo. Quando descobri que Banksy, o cara que redefiniu o conceito de arte pra toda uma geração, havia montado uma subversão bizarra da Disneylândia, tive que ir lá ver qual era. E qual não foi minha surpresa quando descobri que ele não tava de sacanagem quando sugeriu que seria uma experiência tão desoladora em tantos sentidos.
Como se a superdesvalorização do real não bastasse pra te desanimar, conseguir uma entrada para o Parque de Depressão do Banksy era uma martírio indigno: os ingressos só eram liberados poucos dias antes, e gente do mundo todo disputava uma entrada pro Bemusement Park. Isso significa que, se eu quisesse pagar um preço minimamente razoável na passagem e hospedagem, comprando tudo com antecedência, teria que arriscar sem saber se iria conseguir entrar.

Penei por dias, acordando de madrugada pra ficar dando refresh a cada dois segundos no site pra conseguir comprar um ingresso, sem sucesso. A cada mudança de planos de viagem, eu entrava mais no vermelho, ou melhor, o vermelho entrava em mim. Comecei a achar que era mais uma formidável conspiração do Banksy pra esfregar o quão capitalista e otário estava sendo. E quase tive certeza disso quando os últimos ingressos acabaram. Se ele queria me desapontar, havia conseguido.

Por sorte havia gente muito mais capitalista do que eu. Os cambistas virtuais estavam vendendo ingressos a 400 libras, mas eu milagrosamente consegui um a 40. Quando o ingresso chegou, mais um desgosto: era pessoal e intransferível. Existia uma enorme probabilidade de me mandarem voltar da porta, o que seria realmente deprimente. Daí me lembrei de uma frase que estava estampada no material promocional do “parque”: “Não é arte se não tem o potencial de ser um desastre”. Ok, ao menos poderia emoldurar minha miséria e leiloar na Sotheby’s.

O parque ficava em Weston Super Mare, um balneário britânico que faz Cabo Frio parecer Sanit-Tropez. A pessoa mais jovem com a qual eu cruzei nas primeiras horas parecia o avô do John Cleese. O que eles entendiam como praia era uma lodaçal com uns quatro quilômetros do início do calçadão até o “mar”. Era uma espécie de Iguabinha britânica. O taxista falou que vários turistas ficam presos com lama até o joelho tentando dar um mergulho. É ali, naquele cenário desolador, que fica o que um dia foi o Tropicana - que chegou a ter uma das maiores piscinas da Europa - onde Banksy passava as férias com a a família e que agora estendia sua decadência por vários metros de orla, assombrando os passantes. Me lembrou o Albanoel, aquele parque temático que o Papai Noel de Quintino ergueu no caminho pra Angra e hoje ainda pode ser visto, abandonado, por quem passa na estrada.

Quando cheguei descobri, com espanto, que estavam vendendo ingressos na porta! VENDENDO INGRESSSOS! Pra que eu tinha me empenhado tanto? Foda-se: a três libras, valia a pena comprar um novo ingresso pra garantir que eu não tivesse que passar pelo aperto de ficar sofrendo na fila sem saber se ia conseguir entrar ou não.

Ao tentar entrar na fila, um típico lad, sentado na cerca, me barrou com um guarda-chuva como se fosse o pinguim do Batman, perguntando se eu sabia o que estava fazendo. Respondi que ia comprar ingressos e ele retrucou do jeito mais cínico: “E você acha que vai conseguir?” Já despido de toda a perspectiva, retruquei: “E o que eu tenho a perder?”. Ele só levantou o guarda-chuva complementando: “Não se anime, entrar na fila não significa que você vai conseguir. Provavelmente não vai”.

Não vou falar que os ingressos acabaram bem na minha hora pra não parecer que era pessoal. Eles acabaram bem na vez das minas que estavam na minha frente. Os Dislamalanders fecharam o guichê na cara delas, lamentando a falta de sorte, e saíram sem olhar pra trás. Eu saí da fila resignado, portando meu desonesto passe pro mundo da desanimação e da injustiça.
Já estava preparado pra não entrar, quando cheguei na porta, uma instalação do Americano Bill Barmisnki que parecia uma versão suecada – como no “Rebobine Por Favor” – de uma entrada de aeroporto com versões de papelão de um aparelho de raios-X. Tenho que dizer que fiquei desapontado quando a luz verde do scanner acendeu e o guardinha com chapéu de Mickey, com a feição mais apática que eu já vi, me mandou entrar. Mas eu nem tinha noção do quão desoladora ainda seria aquela experiência.

Dizer que o aquele lugar era deprimente configurava uma injustiça. A visão daquele castelo da Cinderela semidestruído – ou semiconstruído, sei lá - do coletivo inglês Block9, com um camburão no meio do chafariz, cercado pelos lambe-lambes com mensagens demotivacionais da ídola do Instagram Wasted Rita e dos sinais de trânsito da Jenny Holzer, faria aquele Gari Sorriso do carnaval carioca chorar copiosamente e o Solzinho feliz dos Teletubbies se pôr e nunca mais sair. E a trilha sonora expelida por aqueles alto-falantes em forma de corneta? Imagino que tenha sido o que aquele quarteto de cordas tocava enquanto o Titanic afundava. A chuva e o frio que castigavam aquela noite deixavam tudo ainda mais sorumbático. E pensar que eu havia empenhado até a última prega para chegar ali.

Logo fui procurar um lugar quente e seco e fugi pra galeria. Ao adentrar aquele galpão, que porrada! Foi como estar nadando no Tâmisa e ser abalroado pelo barco que os Sex Pistols alugaram pra tocar na comemoração do Jubileu da Rainha em 77. Me senti como o Alex de “Laranja Mecânica”, com aquela traquitana que mantinha os olhos abertos sendo submetido a um tratamento de choque ao som da Nona Sinfonia. Cada jato de spray, cada pincelada, cada pedaço de ferro retorcido estava ali com o intuito de te tirar do torpor consumista, te deixar desconfortável na condição de espectador, te dar um sacode existencial.

De cara, você era recepcionado pelo cogumelo atômico que era tipo uma casinha na árvore, criado pelo australiano Dietrich Wegner, também responsável por um feto exposto numa vending machine. Obras do espanhol Paco Pomet, do californiano Jeff Gillete e do palestino Sami Musa não nos deixavam esquecer do caos que assola o mundo hoje em dia. Uns quadros da série “Making Something Cool Every Day” do Brock Davis, do Josh Keyes e as colagens pop do Jani Lenonen davam um descanso colorido ao clima de ruína imperante. De vez em quando, alguém tentava interagir com as esculturas, como com a cadeira medieval do canadense Maskull Lassere, que parecia uma armadilha de urso, e com os padrões florais da lituana Severija Incirauskaité–Kriauneviciené aplicados a um carro que deu PT. Eis que, no meio daquele bruhahá, ouve-se uma versão esquizóide de “Staying Alive”. Seguindo a música, dou de cara com um daqueles carrinhos de bate-bate sendo guiado por um esqueleto com roupa de ceifador, obra do Banksy que ainda foi responsável por uma das esculturas mais fofas dali: uma sucuri com um Mickey sendo digerido no seu interior.

O último pavimento reservava o que havia de mais legal: Uma megamaquete mostrando uma cidade sitiada com nada menos que três mil micropoliciais montada por Jimmy Cauty, o cara que tacou fogo em um milhão de libras em uma performance no deserto. Na saída, ainda tinha umas três obras do Lu$h, um porralouca australiano que fez tanta merda que foi proibido de entrar na Inglaterra.

Ainda deu tempo de visitar o acidente com a carruagem de abóbora da Cinderela com uns paparazzi urubuzando o cadáver – que a inglesada olhava como se testemunhasse a morte da Lady Di - dar um rolê no Austronaut’s Caravan - um claustrofóbico trailer que emulava a gravidade zero criados pelos retardados Tim Hunkin e seu amigo Andy Plant - e vomitar um falafel sem glutén antes de ser enxotado por um cosplay do vocalista do Gossip com o humor pior que o daqueles garçons do Bar Lagoa.

Ainda sob o efeito de ter tido o que restava da minha inocência vandalizada por aquela holocáustica experiência, parti pra Veneza pra dar um confere na Bienal. Percorrer a pomposidade e suntuosidade do Arsenale e do Giardinno foi como padecer em um show de oito horas e meia do Emerson Lake and Palmer depois de ter visto os Ramones tocando no CBGB. Aquela ida ao Dismaland me deixou com a certeza que, como profetizou Gil Scott-Heron, a revolução não foi mesmo televisionada, mas grafitada, hypada e regurgitada na nossa cara.

E que cada geração tem a Disney que merece.

por Adelvan “Kenobi”
Marcos Braggatto
Alexandre Rossi

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Relembrando "O Dia Seguinte"

Há 70 anos o mundo acordou para uma nova era: no dia 06 de agosto de 1945, exatamente às 8h15 da manhã, o "Enola gay" entregou a “little boy” de presente para os habitantes da cidade japonesa de Hiroshima. E a humanidade de repente se deu conta de que poderia ser simplesmente varrida da face da terra por força e obra de sua própria insanidade. Porque, previsivelmente, o bombardeio deflagrou uma corrida armamentista desenfreada que quase pôs fim à civilização como conhecemos em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba - “Eu quero que Cuba lance/eu quero é ver Cuba lançar”, provocaram os brasileiros. Corrida maluca que só foi interrompida com o colapso do bloco socialista, no final da década de oitenta do cada vez mais distante século passado.

Eu não era nem nascido quando os dois episódios mais tensos dessa história aconteceram, mas lembro bem do clima literalmente apocalíptico que pairava sobre o mundo durante minha infância e adolescência. Principalmente a partir da eleição de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos, com uma retórica radical de confronto, taxando a Rússia de Império de mal e propondo levar a corrida armamentista até as estrelas! Por trás da cortina de ferro, a situação não era muito melhor: a instabilidade batia à porta de forma ameaçadora, com uma sucessão de falecimentos de velhos líderes da “nomenklatura” escancarando a verdade de que aquela estrutura monolítica de poder estava finalmente rachando ...

Em meio a este cenário sombrio, foi marcante a decisão de uma rede de TV norteamericana, a ABC, de produzir um filme que mostrasse, de forma realista, as consequencias de uma guerra nuclear generalizada. O Departamento de Defesa se opôs fortemente, mas acabou sendo convencido a colaborar, com a condição de que o roteiro mostrasse os russos atacando primeiro. O filme, dirigido por Nicholas Meyer, de “jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, foi um verdadeiro acontecimento, batendo todos os recordes de audiência - 100 milhões o assistiram na noite de estréia. Até abril de 2006 era o telefilme de maior audiência na história da TV americana, excluindo mini-séries. Para que se tenha uma ideia do alcance emocional da empreitada – vale lembrar que a ABC é a maior emissora do país e do mundo - nenhuma empresa quis comprar espaço comercial após o trecho em que os mísseis nucleares atingem os Estados Unidos, o que fez com que sua metade final fosse exibida sem qualquer intervalo, e a emissora disponibilizou várias linhas telefônicas especiais destinadas a acalmar as pessoas durante e após a premiére, que foi sucedida por um debate acalorado, transmitido ao vivo, sobre o tema, com as presenças do cientista Carl Sagan, contrário à existência das armas nucleares, e do escritor e comentarista conservador William F. Buckley Jr., advogando a favor.

Como não poderia deixar de ser, a polêmica se espalhou pelo mundo. Chegou, inclusive, ao pé da serra, na cidade de Itabaiana, onde eu morava. Lembro bem de ter visto um especial do Globo Repórter sobre o filme que me deixou apavorado – eu tinha apenas 12 anos de idade mas já começava a despertar para as angustias existenciais. No Brasil, “O Dia seguinte” foi exibido nos cinemas, e eu assisti “Na Tela do Cine Santo Antônio”, fazendo “indiagem” (termo pejorativo para bagunça muito usado na época) com os amigos para disfarçar a tensão ...

Pouco tempo depois as múmias do Kremlim foram finalmente e definitivamente enterradas e uma lufada de vento fresco, diferente dos ares radioativos que de lá emanaram com o acidente da usina nuclear de Chernobyl, soprou do leste, com a ascensão de Mikhail Gorbachev ao cargo de Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética. Fez-se a distensão e o mundo pôde, enfim, respirar aliviado ...

Ou não! Não existe mais aquela polarização de antes, mas é cedo demais para achar que estamos livres do perigo: a qualquer momento uma ogiva nuclear, ou mesmo uma bomba “suja”, pode cair nas mãos de um grupo fundamentalista insano como o ISIS, ou o Taleban, ou a Al Qaeda, ou algo do tipo, provocar uma das potencias nucleares ainda existentes – e elas são muitas: EUA, Reino Unido, Rússia, China, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte – e sabe-se lá o que será de nós ...

Continuamos no fio da navalha.

A.

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Um prefeito necessário

São Paulo tem, hoje, o prefeito que deveria ter conhecido há mais de uma década. A engenharia antiurbanística da ditadura militar, que se apresentava como solução para o futuro, era, na verdade, um atraso de vida, uma obsessão viarista de olhos fechados para a qualidade de vida na cidade.

As administrações de Luiza Erundina (1989-93) e Marta Suplicy (2001-05) se voltaram para realizações sociais, mas não exatamente citadinas. José Serra (2005-06) e Gilberto Kassab (2006-2013) deixaram correr solto o barco da urbe neoliberal. E perdemos tempo.

Só agora, com Fernando Haddad, São Paulo se concentra em si mesma como realidade socioespacial específica, carente de ações que a direcionem para um novo modo de vida. Haddad entrou em campo muito mal, cambaleante, quase ferido de morte por seus supostos companheiros.

Ainda durante a campanha eleitoral, a novidade que ele pretendia encarnar foi desfigurada impiedosamente por uma aliança oportunista com Paulo Maluf, que foi obrigado por Lula a fazer.
Em seguida, Dilma o humilhou publicamente, obrigando-o a recuar numa decisão sobre aumento do preço da passagem de ônibus. Haddad parecia um perdido, um sujeito que seria manobrado facilmente em qualquer direção determinada por seus superiores na hierarquia política (ou partidária) brasileira.

Mas não é isso o que vem acontecendo. Haddad descobriu, em tempo, que a saída era ser ele mesmo. E tirar partido, inclusive, da distância e do isolamento com relação aos ditames tantas vezes estreitos do PT. Sim, há momentos em que a solidão política é boa conselheira. Até porque o pensamento de Haddad encontrou uma "ecologia" favorável para medrar.

Era cada vez maior o número de paulistanos convencidos de que a cidade precisava buscar soluções fora da cartilha de sempre, encarando a questão da mobilidade urbana e discutindo sem temor o beco sem saída automobilístico, com todas as suas implicações ambientais.

É certo que esses paulistanos abertos para as novas soluções constituem ainda uma minoria –e não tão barulhenta quanto a dos proprietários de automóveis individuais. O que significa que Haddad se move, ao mesmo tempo, numa conjuntura mental propícia, mas minoritária.

A situação cultural e política é complicada. Se é cada vez maior o número dos que aceitam a vantagem ambiental da cidade compacta e a mescla programática de classes sociais no espaço citadino, assim como o retorno ao centro, persistem, na contramão, tabus arraigados, signos de status, falsos direitos adquiridos. E a batalha é pesada.

Mas Haddad entendeu três coisas fundamentais. Que teria de trabalhar com dificuldades orçamentárias, sem esperar qualquer solidariedade federal. Que teria de repensar e rediscutir o sentido desta cidade em maré adversa, enfrentando os preconceitos do conjunto da população, sem contar com a boa vontade da mídia. E deixar taticamente de lado o projetismo tipo "Arco do Futuro" em favor de um realismo mais pedestre, no horizonte do possível.

Não teremos mais de levar utopia alguma à sociedade. A sociedade é que se verá obrigada a entender que a cidade ideal, agora, está se fazendo cidade necessária.

ANTONIO RISÉRIO, 61, antropólogo e urbanista, é autor de "A Cidade no Brasil" (Editora 34)

Fonte: Folha

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Da antessala de seu gabinete, com vista para o Viaduto do Chá, onde costuma receber a imprensa e se reunir com seus secretários, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, monitora a cidade por enormes telões. Em um deles observa o trânsito da capital. Em outro, os alertas de risco de enchentes. Um terceiro expõe um quadro com câmeras que na manhã da última quarta-feira retratavam, em tempo real, a porta da Prefeitura, onde um pequeno grupo de sem-teto acampava havia dias em protesto, e cada detalhe (incluindo rostos, roupas e comércio de pedras­­) do intenso fluxo de usuários de drogas da cracolândia –a única imagem daquela sala de situação que nunca é trocada, a pedido dele.

- Por que a imagem da cracolândia sempre, prefeito?
— É o projeto que eu mais tenho vontade de resolver. É uma coisa que tem que persistir todos os dias. Não pode desistir do território. Se você desiste do território ele vira outra coisa — diz, em uma afirmação que poderia servir para explicar também a sua relação com a própria cidade.

Às vésperas de entrar em seu último ano de mandato e em meio aos primeiros movimentos das eleições municipais de 2016, que se desenham para um enfrentamento com sua ex-aliada Marta Suplicy, Haddad vive um momento de boas notícias. Ao menos neste último mês. Foi chamado de visionário pelo The Wall Street Journal e ganhou elogios da prefeita de Paris, Anne Hidalgo.

Pergunta. Você está em uma maré boa de imagem...
Resposta. Eu não acredito muito nessas coisas (risos).

P. As medidas de trânsito têm mostrado efeito, as mortes diminuíram. Elogios de jornal internacional, da prefeita de Paris... Acha que a opinião pública pode começar a mudar?
R. Olha, hoje o nível de instabilidade nos humores é tão grande... Minha convicção é: se você tem um projeto em que acredita, use o seu mandato para executar esse projeto. Porque se você depender dessa instabilidade de humores, vai se desviar do seu objetivo central, que é deixar um legado para a cidade. Tem avanços institucionais importantes acontecendo. As finanças de São Paulo nunca estiveram em uma situação tão boa, mesmo com a crise.

P. Como isso é possível?

R. Aquilo que ninguém acreditava, que era recalcular a dívida de São Paulo [com a União], desde a assinatura do contrato em 2000, aconteceu. Com isso, tivemos uma redução de praticamente 50% da nossa dívida. Ela era de 180% da nossa receita, hoje, é de 90%. Pela lei, eu posso me endividar até 120%. Também se instalou a Comissão Especial para apreciar a Emenda Constitucional que regula o pagamento dos precatórios, elaborada pelos governos municipal e estadual de São Paulo. O nosso Plano Diretor e a lei urbanística também já estão em vigor. Se o Governo federal não financiar o PAC de São Paulo como estava planejado em 2013, eu tenho agora espaço para financiar o meu PAC. Eu tenho 30% a mais de capacidade de endividamento para financiar essas obras. Estamos falando de um pacote de obras que pode chegar a 14 bilhões de reais. 

P. E quais serão as obras prioritárias?
R. Temos obra de drenagem em praticamente todas as bacias. São 12 corredores de ônibus que estão sendo licitados. Alguns estão em obras, outros podem entrar em obras se nós tivermos verba federal ou liberdade para financiar esses investimentos. Eu sempre falava de um tripé de desenvolvimento de São Paulo, que é a renegociação da dívida, incluindo aí os precatórios; as leis urbanísticas, que regulam o investimento privado na cidade, que está em ordem; e a licitação do pacote de investimentos, que vai ter verba federal ou financiamento [da prefeitura]. E é o maior pacote de obras da história de São Paulo. Esse é o legado que nós vamos deixar e que, modestamente, ninguém deixou. 

P. Mas estamos entrando no último ano do seu Governo, que é um ano eleitoral. E quando a gente olha o Plano de Metas, vê que muitas das coisas prometidas e até essenciais para a população da periferia não saíram.
R. Não é verdade. Tenho 123 metas, devo cumprir totalmente entre 90 e 100 delas. Aí tem algumas muito difíceis. Por exemplo: os três hospitais gerais. Estou com os três em obra neste momento. O [do bairro do] Jabaquara vai ficar pronto neste ano. O [do bairro de] Parelheiros está numa velocidade espantosa: 20 meses contados de fevereiro deste ano, então vai dar tempo de entregar. O de Brasilândia, que atrasou, está em obras. Mas atrasou porque eu tive que refazer o projeto porque o Metrô requisitou a área e tive que deslocar o hospital no mesmo terreno. Vão sair os três hospitais. Neste ano, estarão prontas 15 unidades da Rede Hora Certa [espécie de posto de saúde preparado para fazer pequenas cirurgias]. Estou licitando mais cinco unidades e, com mais dez unidades móveis, serão 30 até o final de 2016. 

P. E as creches?
R. Estamos atrasados com a meta. Mas neste ano o [secretário da Educação, Gabriel] Chalita abriu 33.000 vagas. Estamos falando de um ano em que a economia paulista vai ter 3% de recessão, pelo menos, e já teve 2% no ano passado. E o Chalita bateu recorde de abertura de vagas. Com esse mesmo esforço no ano que vem, talvez um pouquinho mais, a gente consegue zerar a fila no dia da matrícula. Eu prometi 172 equipamentos na educação, estou com 165 em obra. Prometi 32 universidades nos CEUs, estou com as 32 funcionando. E não prometi coisas que eu vou fazer, como o Passe Livre para estudante, que custa 400 milhões de reais por ano. Daria para fazer dez CEUs a cada ano com o valor do Passe Livre. Quantas metas eu poderia dizer que eu cumpri oferecendo Passe Livre para o estudante? Tem a iluminação LED [troca de lâmpadas em postes, que vão gerar economia de 50%], que eu não prometi. Mas se o Tribunal de Contas do Município liberar a licitação eu vou ter feito a maior Parceria Pública Privada de iluminação pública do mundo na cidade de São Paulo e isso não estava no meu horizonte em 2012. 

P. E na área de transporte público?
R. Acho que a qualidade do ônibus está melhorando. O horário de pico é difícil. Nós estamos tentando. Acho que a licitação vai incrementar isso. Mas falta metrô na cidade de São Paulo. O ônibus não consegue fazer aquilo que tem que ser feito pelo metrô. E não tem expansão do metrô. Estamos pegando o transporte de média capacidade e usando para o transporte de alta capacidade. O papel da prefeitura é melhorar o transporte público sobre pneus. Está melhorando. São 380 quilômetros de faixa de ônibus. 

P. O Uber vai ser regulamentado?
R. Eu não posso antecipar porque ainda vamos ter uma última reunião para ver como vai ficar. Nós vamos criar um marco regulatório de São Paulo, inspirado em boas práticas internacionais que eu acho que vai ser uma resposta efetiva de modernização do serviço, mas com regulação estatal. 

P. O que não será possível entregar?
R. Tem dois projetos que eu dependo muito do Governo federal, que é o PAC [para obras de infraestrutura] e o Minha Casa, Minha Vida. Eu posso amanhã dar ordem de serviço nessas obras. Elas estão licenciadas, em ordem. Houve o anúncio de oito bilhões de reais para o PAC em São Paulo, em 2013. Gastamos meio bilhão de reais em desapropriação de terreno para o Minha Casa, Minha Vida. Eu estou com 28.000 unidades habitacionais em construção. Posso chegar a 55.000? Posso. Dependo do quê? Do Minha Casa, Minha Vida 3. 

P. Que não vai ter dinheiro para novas obras.
R. Eu não sei se vai ter ou não. Da parte do município, modestamente, não faltou nada. Desapropriamos os terrenos, chamamos os empresários para investir no programa, aprovamos a duplicação de zonas de interesse social pelo Plano Diretor, cadastramos as famílias. Tem uma pendência? Tem! Eu dependo do Minha Casa, Minha Vida 3. Eu falo isso para o movimento de moradia. Eles sabem que a Prefeitura fez tudo o que está ao seu alcance. Isso aqui é um pacto federativo, com alinhamento estratégico entre Governo do Estado, município e União. Mas mesmo com a insegurança de repasse federal nós continuamos licenciando as obras porque eu ganhei espaço de financiamento, que antes eu não tinha. Se eu não tivesse repactuado a dívida [com a União], eu estaria vendendo uma ilusão. Eu ganhei 30% do meu Orçamento anual de espaço de endividamento. Isso dá entre 12 e 14 bilhões de reais. Financia tudo isso aí. 

P. Mas dá para fazer tudo, com os outros projetos que precisam sair?
R. Daria para fazer tudo. Mas o financiamento está travado neste momento. Não tem uma sinalização clara da União de que ela vai liberar novos financiamentos. Estamos vivendo um ano atípico no Brasil. Nós temos que lidar com essa realidade. Quem é que poderia prever o que está acontecendo? Agora isso vale para o Governo do Estado, para o Rio Grande do Sul, para Minas Gerais. 

P. Mas essa realidade afeta mais o PT. Nunca vivemos um cenário tão polarizado. Há pessoas que veem o projeto na Cracolândia e dizem que você negocia com traficante. Se caiu o trânsito, dizem que é por causa da crise...
R. Mas aí é mentira, né? Você está perguntando para mim como eu lido com a mentira? Faço uma política de redução de danos que é um exemplo internacional e uma pessoa vem com uma crítica dessas? Essa pessoa não está fazendo política, está rastejando. A única cidade que diminuiu a lentidão no Brasil foi São Paulo. A crise só existe em São Paulo? Essa crítica rasteira está em voga hoje. Mas eu não posso lidar com esse tipo de sentimento, com esse grau de destrutividade. Essa pessoa não está querendo construir um país e uma cidade decentes. Essa pessoa está num nível de distúrbio que eu tenho que respeitar, mas recomendar tratamento. 

P. Mas essas críticas existem...
R. Eu tenho que dialogar com a parte sã da cidade, com a parte construtiva. Se eu for entrar nisso, não tenho condições de governar São Paulo. Críticas são benéficas, mas eu não levo isso que você citou como crítica. Levo isso como parte de um problema mais psicológico do que político. Eu acredito na força da argumentação. Quando eu defender esses programas, eles vão se consolidar. E esse ruído que é patrocinado e criado pela oposição, vai perder força. A oposição em São Paulo está jogando no obscurantismo. A ponto de chamar um ciclista de comunista. Quando se chega nesse nível... Eu sou uma pessoa que acredita no Iluminismo, nas forças civilizatórias. A minha gestão, sobretudo fora de São Paulo, é reconhecida como uma força civilizatória. Eu sou um agente da civilização contra a barbárie. 

P. É evidente que essas pessoas não votariam em você. Elas já são contra, independentemente do que você faça....
R. Mas nem eu votaria nelas, né? É recíproco! (risos) 

P. Sim, mas existe uma grande parcela da população que votou em você e que vai ser disputada por um mesmo discurso, pela Marta...
R. Eu não sou muito a fim de entrar nessa discussão, você sabe... (risos) 

P. Mas vamos tentar...
R. Vamos, mas eu vou tentar escapar... (risos) Porque, por incrível que pareça, está muito longe a eleição no Brasil. As coisas que aconteceram de um ano para cá mostram o que um ano pode fazer. Um ano é muito tempo no Brasil de hoje. 

P. Quando se conversa com as pessoas na periferia, nos acampamentos dos sem-teto, muitas respondem que votaram em você, mas que agora não devem mais votar. Que não sentem na vida delas o reflexo do que se espera do PT, que é a política social. Será possível convencê-las de que o social ainda existe no governo petista?
R. O Minha Casa, Minha Vida não é um programa municipal, é nacional. Ele depende do Governo federal, Estadual e municipal. Se a verba da fase 3 for anunciada, vou entrar com todos os meus contratos com a Caixa Econômica Federal no dia seguinte. Se isso não acontecer, o movimento social vai ter razões para se queixar. E eu vou explicar que São Paulo fez a sua parte. O que me cabe é falar a verdade. 

P. E é possível explicar para uma pessoa que está esperando seu imóvel que a culpa é do Governo federal? E como dizer isso se o Governo federal é do seu partido?
R. É óbvio que é uma situação delicada porque independentemente de ser Governo do PT ou não, nós firmamos o compromisso. É muito difícil explicar? Às vezes tenho que explicar até aquilo que não é competência do município. Eu vivo tendo que responder por segurança pública, atraso de obra do Metrô, fracasso do Monotrilho, crise de abastecimento de água [todas atribuições do Governo do Estado]. Quando eu vou para a periferia, esses assuntos são recorrentes.

Política nacional

P. Há a perspectiva de uma eventual queda da presidenta. Como lidar com um plano para a cidade diante desse cenário?
R. É muito desafiador o que está acontecendo. Vamos tentar colocar em perspectiva. Eu acredito que em 2013 e 2014, o Governo federal fez uma inflexão na política econômica. Eu não tenho nenhuma razão para acreditar que não foi com a melhor das intenções porque eu acredito que a presidenta tem compromisso. Mas o fato é que houve uma mudança de rota, que tinha como pressuposto a ideia de que a economia internacional ia retomar. E isso não aconteceu. Como a aposta não se realizou, aquilo que era supostamente transitório, que eram as políticas de conter preços administrados, desoneração, durou mais e provocou desequilíbrios importantes na economia. Obviamente que quando alguém fixa uma meta de garantir o emprego e renda, que era o grande trunfo do Governo Dilma, acaba tomando essa decisão. Também tivemos problemas internos, como a falta d’água que comprometeu geração de energia elétrica barata... Enfim, a tal da tempestade perfeita. Aquilo que era para ser temporal se estendeu e provocou desequilíbrios reais. Aí vem a pergunta: esses desequilíbrios são estruturais ou conjunturais? Do meu ponto de vista, ainda que pudesse ter uma correção de rota, eram problemas conjunturais que estavam em jogo, que poderiam sacrificar uma parte dessas conquistas temporariamente, mas para uma retomada mais ágil.

O problema é que a crise política acabou se tornando um problema maior do que o econômico. Porque ela está alimentando a crise econômica. Então, se a presidenta conseguir refazer um pacto político em torno da governabilidade, ela tem efetivamente uma chance. Porque a economia brasileira responde muito rapidamente a estímulos corretos. Nós já vivemos isso, na crise cambial da virada do Governo Fernando Henrique [1999], que sofreu demais porque também fez uma aposta equivocada. Apostas são feitas e, às vezes, se perde. A crise política agora é muito mais severa do que a que o Fernando Henrique enfrentou. Esta corre o risco de transformar problemas conjunturais em problema estruturais. 

P. E acha que isso se resolve?
R. Se com a reforma ministerial ela recompõe a maioria e toma as medidas corretas, recalibrando algumas decisões desse primeiro período, a economia brasileira reage rápido e, com três anos pela frente, aí efetivamente vai ter uma resposta. O quanto ela [Rousseff] vai recuperar do prestígio, só o tempo vai dizer. 

P. O PMDB é um agente desse custo político. No sábado [27 de setembro], Michel Temer estava sendo colocado como candidato para 2018 pela militância do partido...
R. Seria interessante uma candidatura do PMDB em 2018. É um partido importante. É o maior partido do Brasil em número de deputados. 

P. Contra o Lula?
R. Eu nem sei se o Lula será candidato. 

P. No lugar de algum outro nome do PT?
R. Eu acho que estão aparecendo nomes. O Ciro Gomes se filiou ao PDT, a Marina Silva conseguiu o registro da Rede Sustentabilidade. O Brasil vai produzir suas lideranças, né? 

P. Você faz parte do Conselho Consultivo da direção nacional do PT, que fez uma análise de conjuntura do partido. Está citando vários nomes que não são do PT. Existe uma análise do partido de que não deve disputar 2018?
R. Acho que não. 

P. E uma análise sua?
R. Eu vi positivamente uma avaliação do Fernando Pimentel em Minas, um estado importante. É um governador que pode despontar. O Jaques Wagner ganhou três eleições no primeiro turno na Bahia, terra do Carlismo. Enfim, o PT vai ter candidato? O Lula vai estar disposto a uma sexta campanha presidencial? Não sei... Ontem estive com ele e ele usou uma expressão muito engraçada: falou ‘estou parecendo um posto Ipiranga’ (risos). ‘Todo mundo vem aqui como se eu fosse a solução para todos os problemas’, disse. O Lula é maior liderança que o país já teve e hoje está vivendo esses questionamentos. O legado dele vai para registro histórico. Em 2018 ele pode estar em condição de disputar. Citei três nomes do PT que poderão ser candidatos... 

P. Seria mais interessante para o PT se afastar em 2018 para recuperar a sua base ou disputar a eleição?
R. Sinceramente, hoje eu não sou capaz de prever qual vai ser a atitude do PT. É difícil prever. Eu não tenho clareza do quadro para o ano que vem, imagine para 2018? O momento é de instabilidade. É como me perguntar, no meio de um tsunami, se vou pegar a próxima onda. 

P. Você diz que não tem a percepção do cenário político para o ano que vem. Não sabe se vai ser candidato?
R. Eu não estou discutindo política para o ano que vem neste momento. Eu tenho que garantir que os projetos importantes para a cidade sejam aprovados. Eu tenho muita coisa ainda em tramitação e preciso de base de sustentação. Como tem o movimento dos partidos em torno de candidaturas, eu não posso correr o risco de a cidade não ter produção legislativa em função do realinhamento em torno de candidatos.

Essas mexidas que eu fiz no secretariado [especialmente a ida de Gabriel Chalita, do PMDB, para a Educação] são para garantir que até 31 de dezembro do ano que vem a gente esteja governando. É isso. Agora, isso pode se desdobrar numa aliança? Pode. Mas não é a minha preocupação neste momento. A minha preocupação é a governabilidade, é garantir quatro anos de mandato com o governo ditando como será a cidade. Agora, a partir de abril, maio...

Até porque os acordos que são feitos hoje... Eu sou uma pessoa que se choca um pouco com o mundo da política. Porque eu fui educado por um camponês libanês. Para o meu pai, não se troca palavra. Não existe uma pessoa voltar atrás na palavra. Isso é o que eu aprendi com meu pai e é como eu sou. Mas, no mundo de hoje da política, nem o que está assinado vale. 

P. Fala em relação ao PMDB?
R. Não, eu falo isso em relação a todo mundo. Não se tem mais protocolo. Não se tem mais protocolo na política. 

P. Você se sente traído por esse movimento de colocar a Marta Suplicy para disputar a próxima eleição?
R. Não, não…Eu nem sei se isso vai acontecer. Mas eu não estou me referindo a um partido especificamente. Eu estou me referindo ao mundo da política de hoje. 

P. Com a Marta na jogada são dois candidatos disputando o legado do PT. Ela disse, inclusive, que agora as conquistas do Governo dela, como o CEU e o Bilhete Único, passam a ser conquistas do PMDB.
R. (risos) Eu acho a Marta uma política muito peculiar, mas eu não quero comentar as declarações dela. 

P. Peculiar como?
R. Interessante… (risos) As declarações dela… 

P. Ela tem circulado e falado muito mal do seu Governo.
R. Eu não tenho nenhuma vontade de comentar as declarações dela neste momento. Nenhuma. 

P. Como o PT vai bater em alguém cujos legados são do próprio partido?
R. Acho que não é o momento de discutir estratégia agora, sinceramente. E, se eu for candidato, eu jamais vou dizer pra um jornalista qual vai ser minha estratégia um ano antes da eleição! (risos) 

P. É possível dizer que você está esperando ver qual vai ser o cenário para decidir se vai ser candidato ou não?
R. É possível dizer que eu não estou preocupado com eleição agora. É possível dizer que eu estou preocupado com o Governo, em função da movimentação dos partidos que estão acontecendo agora. Estou consolidando uma base de sustentação do Governo para aprovar os projetos que eu acho importantes para a cidade. 

P. Caso não seja reeleito, teme o risco de ver desmontado o que fez?
R. Olha, a nossa democracia ainda não tem a consistência que nós precisamos. O Brasil ainda não sabe diferenciar política de Estado de política de Governo. Não existe isso no Brasil. Isso é péssimo para democracia. A democracia não é só divergência, disputa, como as pessoas às vezes entendem. Democracia é a disputa e o consenso. É você disputar a divergência e construir a convergência. Essa dinâmica é que faz o país crescer e não partidarizar tudo, vir alguém e pintar de azul as ciclovias. 

P. E vale a pena tamanho desgaste? Lidar com esse tipo de política?
R. (risos) Mas você sabe... Eu só aceitei ser chefe de gabinete de uma secretaria municipal. Todo o resto não dependeu de mim (risos). Eu aceitei o cargo de chefe de gabinete do João Saad, na gestão da Marta. O resto foi consequência disso. A vida levou. Foram circunstâncias. Quem imaginava a crise de 2005 [do Mensalão]? Eu ser nomeado ministro, o Lula me manter no segundo mandato, a Dilma me manter no primeiro... O Lula me convidar para ser candidato à prefeitura e eu ganhar a eleição. Mas não sei pra onde a vida leva depois. Pode ser que seja para universidade.

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El País 

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