domingo, 21 de junho de 2015

O CARA.


Ricardo Boechat sempre dormiu pouco. Acumular cinco horas de sono em uma única noite é considerado, para ele, um excesso. “Fico animado, vendo filme oriental, de samurai, coisas assim”, conta o jornalista, um dos mais ácidos e confiáveis da televisão brasileira, sobre as madrugadas insones. Ele também se diz viciado em trabalho: lê quatro jornais por dia – “que eu manuseio para formar um panorama das coisas” –, exceto aos fins de semana, quando fica com apenas um.
À frente do Jornal da Band, no canal de TV Bandeirantes, e também apresentador da rádio BandNews FM, Boechat mostra com frequência o lado crítico ao comentar o noticiário diário em ambas as mídias. Mas não é apenas a seriedade que faz dele um âncora difícil de ignorar: o carisma do argentino, nascido em Buenos Aires e criado em Niterói (Rio de Janeiro), também ajudou a transformá-lo em uma personalidade para além dos programas que apresenta. Das histórias sobre o antigo carro modelo Twingo que costumava conduzir por São Paulo às memórias a respeito de quando ainda não ostentava a lustrosa careca (“Você tem que ver aquele cabelo, era uma coisa horrorosa”, ele brinca), Boechat é um locutor eloquente e instigante.

Filho de Dalton, diplomata tão brasileiro quanto esquerdista, e dona Mercedes, uma aguerrida portenha, ele herdou os dons de ambos: do pai, a dialética professoral, e da mãe o tom firme do discurso. O pai, que na época do golpe militar de 1964 trabalhava na Petrobras e também como professor, foi preso diversas vezes durante o regime. Depois de um período de reclusão do progenitor, em 1966, Boechat, aos 14 anos, acabou compelido a se juntar ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), enquanto dona Mercedes cuidava dele e de mais seis filhos, incluindo gêmeos recém-nascidos. “Vivíamos até então em uma democracia, meu pai tinha a militância dele. A consciência política passou a fazer parte de mim”, ele relembra. “Você tinha a opção do quê? Foi um choque de informação compulsória.”

Esse cenário fez de Boechat um menino diferente da maioria de seus vizinhos, com mais livros bolcheviques do que vinis de Elvis Presley nas estantes do quarto, menos festas do que encontros políticos. Karl Marx era um nome mais familiar para ele do que Jimi Hendrix e, diferente do que acontecia com seus colegas da mesma faixa etária, Che Guevara era um personagem mais notório do que Janis Joplin. Nesses anos de chumbo, a morte de Carlos Marighella o comoveria muito mais do que o decesso de Jim Morrison; na geografia de seu mapa-múndi revolucionário, “la Sierra Maestra” cubana tinha mais representatividade do que Woodstock. O comportamento peculiar e um tanto rebelde do garoto – responsável por encorajá-lo a abandonar a escola antes de completar o antigo 2o grau, por exemplo – forjou uma personalidade idealista que, com o tempo, o levaria à posição de âncora televisivo.

Boechat faz questão de lembrar que, à época da prisão mais longa do pai, por pouco não perdeu os estudos, algo que não aconteceu graças à diretora do Centro Educacional de Niterói, chamada Mirtes. Foi ela quem se negou a tirar de suas salas de aula os filhos de presos políticos. “Você vai relendo as passagens da sua vida, reambientando os personagens – e essa mulher é emblemática”, conta Boechat. “Alguns alunos da escola eram filhos de pessoas de esquerda e, quando veio o golpe, a elite sobrevivente, que era de direita e que também tinha os filhos na escola, passou a exigir que os alunos que não tinham recurso para pagar a mensalidade fossem excluídos. Dona Mirtes não só se recusou, como deu bolsa para todo mundo: éramos três irmãos nesse mesmo colégio. Naquele tempo, isso exigia muita coragem.” O quase sempre bem-humorado jornalista parece, agora, emocionado.
Durante a adolescência, nos anos 1960, Ricardo Boechat viu nascer entre os amigos as experimentações com as drogas (“Basicamente te maconha, cocaína era uma raridade; também tinha anfetaminas e alguns líquidos inaláveis, essas besteiras”). Ele conta que não via apelo nas substâncias – a droga de Boechat era o comunismo. “Eu adorava falar, sempre fui muito verborrágico, então enveredei na direção da militância política dentro do ‘partidão’”, conta sobre a entrada para o PCB. Ele não tem pudor, no entanto, de afirmar que nem tudo era política. “Sim, a gente ia às manifestações também porque se comentava que as únicas garotas que davam eram as comunistas. Só que na verdade o Partido Comunista sempre foi muito careta”, relembra.

“A meninada que estava mais liberada em todo esse aspecto era de alguns outros partidos, como o Liberdade e Luta, o Convergência Socialista. Todas elas eram muito intelectualizadas, liberadas sexualmente, mas viam os comunistas como uns atrasados.”

Também naqueles tempos, Boechat foi seduzido pela efervescência musical dos Beatles e da Invasão Britânica, mas, como outros jovens de esquerda, se viu impulsionado a acreditar que embarcar na onda do sucesso estrangeiro era caminhar de mãos dadas com um “complô” de alienação cultural, de “imperialismo ianque”. Ainda que sem querer, começou a apreciar o Fab Four; apaixonou- se pela Jovem Guarda e “não perdia Roberto Carlos”. Curioso: o atraía justamente o cantor mais romântico do movimento, o menos politizado.

Depois, vieram outros gostos. Jethro Tull e o disco Thick as a Brick (1972), por exemplo, dividido em duas faixas homônimas, com partes I e II. “Eu faço ginástica, e é engraçado. Essas músicas do ‘Zé Tutu’ [ele brinca com o nome da banda] têm, juntas, 43 minutos, então a minha esteira dura 43 minutos. Todos os dias eu ouço as mesmas duas músicas. Todos os dias”, frisa. Esse é um dos exemplos que caracterizam o lado fiel de Boechat, que ele mesmo ressalta. Nesse momento da trajetória dele, sai um pouco do comunismo; Boechat começa a atender a outros prazeres corriqueiros e naturais. Mas ele explica que “da vida, eu acho que o comunismo não sai”. “Sai como regra, sai o dogma – o comunismo tem quase tantos dogmas quanto a Igreja Católica –, mas não sai como fonte de algumas referências de vida”, afirma.

O que mudou de fato os caminhos de Boechat foi o trabalho. A carreira começou no extinto jornal Diário de Notícias, aos 17 anos, seguindo a dica do pai de um ex-colega de colégio. À época, Boechat já tinha parado de estudar e havia batido à porta da família para vender livros, ofício que era, então, exercido pelos pais (“Meu pai se tornou o maior vendedor da Enciclopédia Barsa no Brasil”, conta). Depois de um ano e meio no Diário, Boechat se viu trabalhando ao lado do inventor do colunismo social carioca, Ibrahim Sued. “Ele era um jornalista selvagem, um animal selvagem. Ibrahim era um mau patrão e, ao modo dele, um magnífico professor: utilizava como instrumento pedagógico o porrete, no tempo em que chefes davam esporro em jovens na redação e isso não era visto como bullying, assédio nem nada parecido.” Foram 14 anos ao lado de Sued; durante os nove primeiros, Boechat não tirou férias por medo de ser demitido. Ainda assim, ele conta que há duas pessoas por quem tem “uma gratidão filha da puta na vida, a dona Mirtes e o Ibrahim”. Quando tinha 33 anos, Boechat deixou o mentor e partiu para o jornal O Globo.

Ricardo Boechat zomba de si mesmo mostrando as orelhas, dizendo que são grandes porque, no começo da carreira, trabalhava ao mesmo tempo com quatro telefones na mesa – chegava a atender três deles simultaneamente. “Eu sempre digo que a minha orelha é assim porque eu lutei jiu-jitsu, mas é mentira: é do telefone, não lutei bosta nenhuma, se entro numa briga eu apanho pra caramba”, ele ri. Eram mais de 50 ligações diárias, que resultavam em longas jornadas de trabalho. “O jornalismo é isso, trabalha-se muito; dez horas é banal.”

Em meio às – literalmente – centenas de processos judiciais que já enfrentou e uma ou outra ameaça comprometendo sua integridade física (“Confesso que eu nem penso sobre isso”, afirma), Boechat prefere focar no lado bom da profissão que escolheu – as horas diárias no ar no rádio e na TV. A aproximação do público é, segundo ele, o “grande presente” que recebeu da vida. “Me dá um enorme prazer, um enorme orgulho, uma pessoa me abordar e dizer que ouviu algo que eu falei”, afirma. “Significa que estão me escutando, não estão apenas me vendo.”

A popularidade está refletida em uma situação curiosa: o velho carro Twingo que Boechat dirigia, e que mencionou muitas vezes no ar na última década, acabou se transformando em celebridade automobilística. “Você tem que ver no que resultou”, diverte-se. “Mas um belo dia o Twingo falou ‘chega’, começou a ficar cansado. É uma relação, confesso aqui, amorosa, mas como muitas relações amorosas, chegou ao final. E aproveito para esclarecer que eu nunca fiz propaganda. Eu o citava porque era meu carro e tinha uma história de dez anos.” O filósofo e ensaísta Luiz Felipe Pondé foi um dos colegas de Boechat que presenciaram o sofrimento do carrinho: depois de aceitar uma carona, acabou sendo “largado” no meio de uma rua paulistana, quando o veículo parou de funcionar e o âncora resolveu recorrer a um motoboy para chegar a tempo a um compromisso na Band.
Andar na garupa de motos é, aliás, hábito para Boechat. A primeira vez foi quando, saindo do Aeroporto de Congonhas, pegou um engarrafamento que o impediria de chegar no horário à Band. O jornalista parou o carro em uma rua próxima ao aeroporto. “Fiquei fazendo sinal para os motoboys, até que finalmente parou um. Eu disse: ‘Meu irmão, tem 100 pratas aqui pra me levar pro Morumbi’. O cara falou que só tinha um capacete, ao que eu respondi: ‘Bom, se tivesse dois, eu te daria só 50’ [risos]. A partir daí, passei a usar moto com frequência, só que agora são dois ou três motociclistas conhecidos que me levam.”

A conversa segue com Boechat contando que a mãe, dona Mercedes, de 83 anos, continua morando em Niterói, orgulhosa do filho que aparece na TV (o pai, Dalton, morreu em 1979). Ele emenda a lembrança da admiração pelo Flamengo, agora um tanto apagada, porque começou “a ficar enjoado a partir da gestão da Patrícia Amorim”. Boechat nunca foi de ir ao estádio, mas gosta de acompanhar as transmissões. “Até reprise eu vejo. Se a Veruska [atual esposa dele] não mandar mudar de canal, eu fico vendo jogo antigo, gosto do esporte.” Garante que, vivendo em São Paulo, virou Portuguesa.
Veruska também é jornalista. “Eu confesso que não sei por que ela se casou comigo, pois eu já tinha quatro filhos e 20 anos a mais do que ela”, diz. A primogênita entre os seis filhos do âncora está com 36 anos, enquanto a mais nova tem 6. Nenhum dos rebentos herdou, até o momento, o caminho profissional do pai, embora tenham existido tentativas. “A Paula [terceira filha dele] fez jornalismo na PUC do Rio, mas quando chegou ao último semestre me disse: ‘Pai, é o seguinte, eu não vou seguir essa profissão. Isso aí não leva a lugar nenhum, é um sacrifício doido e não se ganha nada’. Eu disse que concordava com tudo, mas que ela poderia ter dito isso no primeiro semestre. Porra, três anos de mensalidade!”, exclama. A filha acabou se tornando advogada. Apesar de não lidar muito bem com crianças e ainda não ter netos, Boechat afirma que gosta de ter a filharada por perto ainda que seja difícil juntar todo mundo por causa da rotina.

O jornalista também quer explicar por que sublinha tanto o fato de ser ateu quando está no ar na BandNews. “Não gosto que as pessoas discutam religião, bater na opção religiosa é uma bobagem, você tem a sua, eu tenho a minha e segue a vida”, declara. “Como as pessoas aqui [no Brasil] fazem questão de colocar a discussão religiosa em primeiro plano para debater aborto, divórcio, casamento gay, pum no elevador, eu fico dizendo que sou ateu. Porque é um perigo. Os evangélicos ficam chateados achando que há um preconceito meu nisso. E não é uma questão de ter preconceito: a questão é que os evangélicos se organizam como grupos políticos a partir de sua identidade religiosa comum e querem constituir forças político- eleitorais para a ocupação do Estado. Por isso eu enfatizo essa questão do ateísmo, que para mim é irrelevante.”

Seria por ter essa visão que Boechat recusou uma proposta da TV Record no ano passado, uma semana antes do início da Copa do Mundo, segundo o colunista paulista Flávio Ricco? “Não, eu não recusei trabalhar na Record por razão religiosa, eu não sou um cruzado nem um anticruzado. Simplesmente estou muito bem no Grupo Bandeirantes”, afirma, sem deixar de lado a veia piadista. “Naqueles dias, atacando outro boato, eu não deixei de trabalhar porque estava negociando com eles: não trabalhei na Band porque fiz uma cirurgia de hemorroidas. Se você tem um infarto, todo mundo se solidariza: se tiver que fazer um transplante, as pessoas acompanham, perguntam se foi tudo bem. Agora, se a operação for de hemorroidas, você tem que cair na clandestinidade, como se o cu não fizesse parte da anatomia humana. Nesse mesmo período eu tinha feito uma crítica a alguém e acharam que eu tinha sido afastado por causa dessa crítica; não, eu fui afastado por causa da minha bunda.” Se a saúde – ou a bunda – não interferir, Boechat segue firme com contrato na Band até 2018.

Mais que notícia

Há dez anos a opinião se tornou o cerne do trabalho de Boechat

Ricardo Boechat é conhecido hoje como formador e emissor de opiniões, mas durante boa parte da carreira foi impedido de colocar seu próprio olhar nos veículos em que trabalhou. “Eu acho ótimo que o ‘Turco’ [como Ibrahim Sued era conhecido] não tenha me permitido dar opinião ou que tenha me chamado atenção para o fato de que o que eu tinha que fazer ali era arrumar notícia”, diz Boechat. “Isso me deu uma ferramenta muito mais útil ao longo de 45 anos de profissão, mais útil do que a opinião: a opinião está levando comida para a minha casa há cerca de dez anos; a notícia levou durante os outros 35.” Boechat só começou a centralizar seu trabalho na divulgação de suas próprias considerações quando foi contratado pela BandNews FM

Passado Platinado

Antes de sair do jornal O Globo, em 2001, Boechat já tinha tido rusgas com Roberto Marinho

É conhecida nos bastidores do jornalismo a história de que Roberto Marinho chegou a querer a demissão de Ricardo Boechat do jornal O Globo, no início dos anos 1990, e que a saída só não se concretizou naquele momento por insistência de um dos filhos de Marinho, João Roberto, e do diretor do veículo, Evandro de Andrade. “Sim, houve duas ou três ocasiões em que as coisas ficaram esquisitas; uma delas foi quando eu publiquei uma foto de um costureiro argentino que morava no Rio, o Frank Mackey, daquela dupla Frank e Amaury, dando um abraço meio gravata na Rosane Collor”, revela o jornalista. “Ela saiu com uma saia daquelas que costumava usar, meio ‘Barbiezinha’, deitada num abraço. Era o início do governo Collor, e o presidente chiou por causa da foto, algum idiota da assessoria de imprensa dele reclamou que não ficava bem a primeira-dama em uma situação dessas. Sobrou pra mim.” João Roberto e Andrade precisaram negociar com Roberto Marinho por sete horas, das 11h às 18h, para conseguir dissuadi-lo da ideia de demitir Boechat. Como o próprio âncora conta, essa não foi a única situação de rusga entre ele e o chefão das corporações Globo. “Um dia eu publiquei um negócio de fraude no Exército, e desde o golpe de 1964 ninguém tinha tido a ousadia de denunciar o Exército por corrupção”, ele conta. “Essa matéria denunciou e provou.

O Roberto Marinho ficou puto, porque achou que não era justo fazer isso com as Forças Armadas, embora o processo do regime já estivesse mais aberto. Ele ficou puto porque tinha uns documentos da Marinha que mostravam que a informação estava correta. Quase que deu merda, mas como o peso da reportagem era muito bom, muito grande, o Evandro e o João, que sempre atuaram em defesa do jornalismo mesmo, acalmaram o velho.” A saída da empresa só ocorreu anos mais tarde, em 2001, em uma situação não menos polêmica. Durante as disputas pelo controle de companhias telefônicas no Brasil, o telefone do jornalista foi grampeado; a revista Veja revelou uma conversa de Boechat com o colega de profissão Paulo Marinho,que trabalhava para o Jornal do Brasil – veículo que tinha como principal acionista o empresário Nelson Tanure, aliado da TIM, que estava na briga pelo controle da Telemig Celular e da Tele Norte Celular. O caso se tornou um escândalo; Boechat foi demitido e pouco depois acabou sendo contratado pelo Jornal do Brasil. “O Nelson Tanure já tinha me convidado, quando eu ainda estava no Globo, para ser editorchefe do JB”, garante Boechat. “Na época, eu recusei, mas contei o que estava acontecendo ao Globo, tanto que o João Roberto me chamou e disse que eu não deveria sair, que eu era cria do jornal. Assim, quando eu fui demitido, imediatamente o Nelson me ligou e me ofereceu o cargo de colunista.” Boechat não nega que muitas vezes leu para pessoas de fora dos jornais onde trabalhava textos ainda não veiculados – segundo ele, por diversos motivos, como checar dados ou gerar maior repercussão, por exemplo. Também não oculta que suas principais fontes nunca foram os mocinhos. “Bicheiros, por exemplo, eram grandes fontes minhas”, afirma. “Eu falava o tempo todo com alguns deles e sempre tinha nota boa. Mocinho não tem nada para entregar que dê nota atrativa.”

por Edgardo Martolio

rs Brasil

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

São Leibowitz, ora pro nobis

Os fãs da literatura de ficção científica no Brasil têm todos os motivos do mundo para louvar e incensar – além de COMPRAR os livros, claro  - da editora Aleph, que vem fazendo um belíssimo trabalho nesta seara. Seja relançando clássicos conhecidíssimos, como “2001 – uma odisséia no espaço”, “Eu, robô”, “Neuromancer”, “Laranja Mecânica” (em belíssima edição comemorativa), “O Planeta dos Macacos”, “Duna” – e suas seqüências - e “Andróides sonham com ovelhas elétricas” (AKA Blade Runner), de nomes consagrados como Phillip K. Dick, Isaac Asimov, Frank Herbert e Arthur C. Clark; seja colocando na praça a nova leva de títulos da franquia Star Wars.

Ou resgatando pérolas esquecidas, há muito tempo fora de catálogo, como o obscuro – por aqui - “Um Cântico para Leibowitz”, do norte-americano Walter M. Miller Jr. Publicado originalmente em 1959, no auge da guerra-fria, narra uma rebuscada aventura que se passa num futuro pós-apocalíptico onde a humanidade passa a rejeitar o progresso científico que a levou à autodestruição. Rejeição que a leva a uma nova idade das trevas, mas que não impede o renascimento. Renascimento que, no entanto, a conduz, novamente, à beira da aniquilação, num círculo vicioso que ilustra o ditame de que aqueles que falham em aprender com a história estão condenados a repeti-la.

Entrou numa lista dos dez melhores do gênero que a mundialmente prestigiada revista Time publicou em 2010. Não se trata, no entanto, de um reconhecimento tardio: já na época de sua publicação ganhou o prêmio Hugo como melhor romance, em 1961. Graças, em grande parte, à originalidade da trama, que tem início seiscentos anos depois do chamado Dilúvio de Fogo, no qual a maior parte da população mundial foi dizimada, e é dividida em três partes – Fiat Homo, Fiat Lux e Fiat Voluntas Tua - nas quais Miller desenvolve uma narrativa brilhante que se desenrola ao longo de quase dois milênios, com saltos temporais brutais que, no entanto, não prejudicam a fluidez do texto. São, na verdade, três Histórias distintas que giram em torno de uma abadia na qual monges se dedicam a preservar a “memorabília”, o que restou da devastação nuclear e da “simplificação”, a caça às bruxas que veio a seguir. “Bruxas” encarnadas, no caso, nos doutores detentores do saber, como professores e cientistas. A ordem que ocupa a abadia é, por sinal, consagrada a um destes “doutores”, um tal Leibowitz, que se tornou um mártir – e santo da igreja católica! – ao dar sua vida pela preservação do conhecimento.

“Um Cântico para Leibowitz”  foi o único livro publicado em vida por Walter M. Miller Jr. Reflete sua visão de mundo, marcada por um forte componente religioso – converteu-se ao catolicismo em 1947, aos 25 anos de idade, depois de uma passagem traumática pelo exército durante a Segunda guerra mundial na qual esteve presente em cerca de 53 bombardeios sobre a Itália e os Bálcãs. Num desses ataques foi destruído o Mosteiro Beneditino de Monte Cassino, o mais antigo do mundo ocidental. Sofreu de depressão por décadas e tornou-se patologicamente recluso. Suicidou-se, com tiro de revólver, em 11 de janeiro de 1996, em Daytona Beach, Flórida, poucos dias antes de completar 73 anos. Não havia muito, tinha começado a seqüencia do “Cântico’’, “Saint Leibowitz and the Wild Horse Woman”, que foi terminada pelo “ghost writer” Terry Bisson, a seu pedido.

Uma crítica ácida à perseguição ao conhecimento e à livre expressão, a obra de Miller é aclamada no mundo e merece muito ser redescoberta em nosso país. Inclusive porque os questionamentos por ele levantados continuam atuais – basta olharmos a realidade que nos cerca, com a ascensão do Estado Islâmico no Oriente Médio e a intolerância ideológica e religiosa grassando entre os bits e bytes da tecnologia de ponta ocidental. A Editora Aleph está de parabéns pelo resgate – caprichado, com direito, inclusive, a um glossário de termos  e textos em latim utilizados pelo autor.

Um cântico para Leibowitz / Walter M. Miller Jr. / Aleph/ 400 p. / R$ 49,90 / www.editoraaleph.com.br

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ZONS NA ILHA

Gravado na Barra dos Coqueiros num cenário idílico, em meio à exuberante natureza local, “na Ilha”, o novo filme do projeto ZONS, mostra cinco nomes dos mais representativos da cena musical independente sergipana capturados pelas lentes sempre atentas de seus talentosos realizadores, comandados por Victor Balde e Edezio Aragão. Mais um valioso registro da riqueza de ritmos que temos por aqui.

Alex Santana abre – literalmente – os portões da casa “engolindo sapo” com sua MPB de letras ácidas. É seguido pelo punk rock “nervoso” da Renegades of punk e pelo reggae roots “classudo” da Reação, convocando a todos para um “Boicote geral”; na seqüência temos o interessante mix entre a modernidade – via batidas eletrônicas – e a tradição dos ritmos populares cometido pela Coutto Orquestra e um “ijexá” estilizado muito bem interpretado pela perfomática Patricia Polayne e por uma banda afiadíssima, com destaque para o diálogo perfeito entre os teclados de Leo Airplane e a percussão comandada pelo maestro Pedrinho Mendonça e sua “Burundanga”. Por fim, o sensacional rock psicodélico da Plástico Lunar. E um belíssimo plano aéreo que revela, ao fundo, a “mata”, ou o bosque – falar selva acho que seria exagero – de concreto da cidade de Aracaju ...

O resultado foi perfeito, com talento transbordando por todos os lados: da edição, primorosa, à captação de som – Luiz Oliva, coisa nossa – e aos artistas perfomáticos que enriqueceram com sua presença o conjunto da obra. Destaque – sempre! – para o sempre presente Leo Airplane, provavelmente o mais versátil e talentoso músico sergipano.

O filme foi lançado em grande estilo na tela grande, com sessões no Cine Vitória, no centro de Aracaju. Está disponível num pendrive personalizado que pode ser adquirido no site www.zons.art.br

A.


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O PT e a "conciliação permanente"

Autor do livro "História do PT" (Ateliê Editorial), o professor da USP e historiador Lincoln Secco diz que o partido que governa o país há pouco mais de 12 anos é mais burocrático e menos militante. Filiado à legenda, Secco afirma que a maior falha dos petistas foi desenvolver a estratégia lulista: a conciliação permanente.

Pergunta. Como o senhor definiria o PT hoje? De esquerda, de centro-esquerda? 

Resposta. Esquerda e direita são localizações no espaço político. Se você considerar os grandes partidos brasileiros, o PT é a esquerda que o país conseguiu ter. É a nossa esquerda institucional que aceita a ordem. Não é uma esquerda anticapitalista.

P. O que diferencia o PT dos demais partidos?

R. Basta olhar para a parcialidade com que a grande imprensa trata o PT para ver que há diferenças dele em relação aos demais. Você imaginaria alguém se preocupando com o congresso do PMDB? Ali não há tendências ideológicas, só conflitos de lideranças. O mesmo vale para o PSDB. O PT hoje é um partido que possui um jogo de lideranças ao lado da velha disputa de tendências ideológicas. Ele continua inovador: tem 50% de mulheres na direção e proibiu a reeleição por mais de duas vezes dos deputados.

P. Por que o partido se afastou de suas bases (sindicatos, igreja)?

R. Houve mudanças na própria base social do PT. Ela foi desmontada nos anos 1990. As duas instituições citadas sofreram com a terceirização e automação (no caso dos sindicatos mais importantes do PT, bancários e metalúrgicos) e com o ataque do papado à teologia da libertação (no caso das comunidades eclesiais de base). Ao lado disso, o PT cresceu em importância no Estado nos anos 1990, ocupando prefeituras, Governos estaduais e aumentando a bancada de deputados. O resultado só poderia ser um partido mais burocrático e menos militante.

P. Há quem defenda sua refundação. Isso é possível?

R. Não. Desde o I congresso já se falava em refundação. A história não gira para trás. Hoje, tanto as alas esquerdistas quanto as de direita estão atreladas aos cargos públicos que o partido têm. O PT é grande demais para mudanças bruscas.

P. O senhor vê alguma diferença no tratamento da mídia dos Governos petistas com relação aos seus antecessores?

R. Há pesquisas conclusivas sobre isso em inúmeras teses universitárias. O laboratório de mídia da UERJ mostrou isso. É claro que quem está no governo é sempre mais atacado pela imprensa e com razão. Considerando o período que o PSDB esteve na presidência (1995-2002), ainda assim a grande imprensa foi mais desfavorável a [Luiz Inácio] Lula. Os escândalos ligados ao PT estão todos os dias na televisão. Quase não há críticas ao governo do PSDB em São Paulo. O mensalão petista levou os líderes do PT à cadeia, já o chamado “mensalão mineiro” prescreveu. Aliás, o nome escolhido não foi “mensalão tucano”. Enfim, os próprios jornalistas que trabalham em reportagens e precisam sobreviver nesta imprensa sabem que seus patrões são parciais.

P. Quais as principais falhas dos governos do PT?

R. A maior foi a estratégia lulista. A da conciliação permanente. Ela foi útil para eleger Lula em 2002, mas ao contrário do que a direção petista acreditou, a reeleição de Lula se deu num ambiente de polarização social e política e a de Dilma Rousseff também. Lula fez um governo mais à esquerda depois da crise de 2005. No entanto, o lulismo adotou a tática de ser pragmático enquanto a oposição se tornou radical e ideológica. O outro erro foi a corrupção. Apesar da corrupção ser um ente do jogo político estabelecido e de eu achar injusto condenar o José Dirceu sem provas, ou só julgar empresários que doam ao PT e não a outros partidos, considero que foi um erro não ter sido radical numa reforma política que diminuísse a influência do poder econômico nas eleições. Hoje, isso é impossível. Mas quando Lula tinha altíssima popularidade era possível. É hipocrisia achar que uma empresa doa dinheiro a um partido por ideologia por isso teria que ser radical no ambiente exterior para ser também no interior. Não adianta punir seu tesoureiro se o modo de arrecadação continua o mesmo. Você o substitui e o próximo também vai para a cadeia. O PT poderia ter punido exemplarmente o seu tesoureiro Delúbio Soares, por exemplo. Eu o cito porque ele é réu confesso. Fez “caixa dois”. O PT o expulsou e, depois, o aceitou de volta. É um equívoco. Eu sei que não dá para exigir que líderes de esquerda sejam todos como o presidente [José] Mujica, mas precisam ao menos ter um comportamento público melhor do que os da direita. É sua obrigação. Não adianta dizer que todos fazem igual.

P. Quando surgiu o mensalão houve quem decretasse a morte do PT. O que não ocorreu. Mas quais os efeitos desse escândalo, na sua opinião?

R. Foi a maior crise da história do PT. Destruiu seu discurso sobre ética na política, que era forte nos anos 1990 e dirigido à própria classe média e abateu seus líderes históricos, exceto Lula. O PT só não acabou por causa de suas políticas públicas que lhe permitiram manter o apoio da classe trabalhadora.

P. Com a crise da Petrobras e a operação Lava Jato, reaparecem algumas pessoas que dizem acreditar no fim do PT. O PT caminha para seu leito de morte?

R. Em condições normais, o PT será superado quando surgir uma esquerda melhor do que ele. Ele representa uma opinião pública enraizada na sociedade civil, milhões de simpatizantes, movimentos sociais e a maior central sindical do Brasil. Como poderia acabar? Só uma ruptura institucional, como impeachment poderia derrubá-lo. O que pode acontecer no curto prazo é uma derrota eleitoral em 2016 e em 2018. Isto poderia fragmentá-lo e levá-lo a uma situação como a do PRD no México. Mas não seria um “fim”.

P. No mensalão, o partido não excluiu seu tesoureiro, ao contrário. Agora, no caso Petrobras, também não. Por que o PT não pune quem se envolve com corrupção?

R. O PT só pode ser eleitoralmente competitivo se arrecadar recursos como os demais partidos. Portanto, se ele pune um, a justiça condena o próximo. É uma situação sem saída. Para muitos antigos petistas é um absurdo você ver dirigentes outrora socialistas se corromperem. Mas também é absurdo eles serem punidos pelo que todos os demais políticos fazem. Só que esta não pode ser uma desculpa para o PT. Ele precisaria ser radical agora, mas não vai ser. Como eu disse antes, ele não foi radical quando tinha apoio social para isso. Por que seria agora? A ideologia do lulismo diz o contrário: ele só tinha apoio porque não era radical. Eu posso responder: então porque, agora, com um governo que faz tudo o que o grande capital quer, ele não tem apoio?

P. Por que há uma forte onda antipetista atualmente? O senhor acredita em um confronto entre classes?

R. O antipetismo sempre existiu, especialmente em São Paulo. Aumentou em 2006, quando as políticas sociais de Lula incomodaram a classe média tradicional. E agora por causa dos efeitos retardados da crise econômica mundial. Veja que nada tem a ver com corrupção. Esse é o discurso que justifica o antipetismo. No auge do mensalão, Lula foi reeleito. Só que agora, ao lado do antipetismo há a fragmentação da base social petista porque a presidenta fez um ajuste fiscal contra sua própria base, atacando direitos sociais e trabalhistas. O PT montou seu governo sobre um pacto social-rentista que melhora a vida dos muito pobres e garante superlucros ao sistema financeiro. A classe média não ganha nada com isso. Há uma base material para sua insatisfação associada ao seu histórico medo da aproximação com os pobres. Com a economia em recessão e com uma nova classe trabalhadora gerada pelo próprio PT, é difícil manter a melhoria contínua de direitos sociais. Ela também acaba se inclinando para o antipetismo.

P. Em outras situações, alguns líderes defenderam que o partido poderia não ser cabeça de chapa em uma eleição presidencial. Desde a redemocratização do país, isso não ocorreu até hoje. Isso é possível na próxima eleição?

R. Seria um erro do PT e acredito que seja difícil acontecer. Não há no Brasil algo como a concertacción no Chile. O Brasil não tem partidos historicamente estruturados e ideologicamente bem definidos. O PT é uma exceção. Na direita, o PSDB é o que mais se aproxima disso, mas jamais se aliaria ao PT.

P. A oposição tem chamado o PT de traidor do trabalhador. Essa discussão ocorre principalmente com a votação do pacote de ajuste fiscal. Por outro lado, os opositores, e boa parte da base governista, tem apoiado o projeto da terceirização. Quem, afinal, seriam os defensores e os inimigos dos trabalhadores?

R. A oposição é que não é (risos). O governo, de fato, cometeu estelionato eleitoral. A Dilma enganou as bases sociais do PT. É absurdo ela jogar a conta da crise no colo da classe trabalhadora. Tinha que fazer ajuste? Tinha. Então por que não taxar também as grandes fortunas e, especialmente, os bancos? Ela cometeu um erro que vai ficar na sua biografia. Será o Felipe González do PT. No PT o líder espanhol foi sempre visto como sinônimo de transformismo pelas alas mais à esquerda. O PT está numa situação difícil. Não pode apoiar essas medidas, mas não pode fazer oposição à presidenta.

P. O PT é hoje um partido de líder único?

R. O PT teve que transferir a liderança de Lula para Dilma porque seus principais líderes foram derrubados pelos escândalos de 2005. Só que Dilma não é uma “petista histórica”, não tem base organizada no partido. Isso dificultou a substituição do Lula.

P. Por que há tantas correntes diferentes dentro do PT?

R. É o resultado de sua história. Desde a fundação o PT em 1980 admitiu a formação de correntes internas para se diferenciar do centralismo dos partidos comunistas. Mas na maior parte do tempo isso jamais inviabilizou a formação de uma maioria em torno do Lula.

P. Na sua opinião, Lula será candidato em 2018? Se não for ele, quem seria?

R. Difícil prever. Depende de como estará a avaliação do governo e do próprio Lula. Se ele estiver bem, será o candidato. Caso contrário vai apoiar outro nome. O PT tem ministros, governadores e até o prefeito de SP. Se ele for reeleito em 2016 se torna uma alternativa. Os que dizem que o PT será derrotado em 2018 tem só um wishful thinking (desejo). É até provável uma derrota petista, mas a oposição teria que ter um programa alternativo. E não tem.

por Afonso Benites


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terça-feira, 9 de junho de 2015

A MORTE DE STÁLIN

A Editora Três Estrelas, selo do grupo Folha de São Paulo, que já havia nos presenteado com a quadrinização da história da criação da primeira bomba atômica, agora lança “A Morte de Stálin”, graphic novel francesa com roteiro de Fabien Nury e desenhos de Thierry Robin. Uma tragicomédia de erros baseada em fatos reais que narra, de forma romantizada, a luta pelo poder iniciada com a morte do tirano que governou a União Soviética com mãos de ferro por cerca de 30 anos. Vale especialmente pelo preciosismo da edição e pelo talento do desenhista, que reproduz pessoas e acontecimentos de forma rebuscada, com atenção para os mínimos detalhes – destaque para as cenas da grandiosa cerimônia de sepultamento do líder, habilmente reproduzidas a partir de imagens de arquivo.

Quanto ao roteiro, começa bem, com uma boa dosagem de fatos reais e fictícios. Utiliza como ponto de partida uma história divertida e inventiva que gira em torno de um suposto telefonema do “generalíssimo” à rádio estatal solicitando a gravação de uma peça clássica que acabara de ser executada ao vivo. O caos se instala, já que a perfomance não havia sido registrada. Tudo teria que ser refeito! Os músicos, apavorados, conseguem se reunir para uma nova execução. Temem, no entanto, que “Koba” perceba o improviso, fruto dos percalços da empreitada. Mas são “salvos pelo gongo”: o Camarada Stalin, “guia genial dos povos”, tem um derrame cerebral, do qual não se recuperará. Naquela mesma noite começam as conspirações para sucedê-lo, encabeçadas por Lavrenti Béria e Nikita Kruschev – muito bem caracterizados, diga-se de passagem. A caracterização dos personagens, reais ou fictícios, é um dos pontos fortes da obra. 

É lamentável, no entanto, que o roteirista, a partir de determinado momento da trama, tenha errado a mão e enveredado por delírios fantasiosos desnecessariamente exagerados e dignos de uma comédia “pastelão” da pior espécie, extrapolando o necessário e justo romanceamento da narrativa para resvalar na falsificação histórica pura e simples. É o caso, por exemplo, da cena em que o filho de Stálin, bêbado, confunde a autópsia com um suposto flagrante do assassinato de seu pai! Ou a transposição para a época retratada de um episódio terrível e dramático que realmente aconteceu, mas nos tempos do czar, o que leva os que fazem uma leitura apressada, sem conhecimento dos fatos, a crer que o governo soviético havia mandado abrir fogo contra a turba descontrolada que invadiu Moscou para prestar suas homenagens.

O autor tenta se explicar, num posfácio: diz que utilizou-se de metáforas para emular a peculiar noção de “verdade” dos soviéticos. As mortes decorrentes dos tumultos gerados pelas trapalhadas burocráticas da "nomenklatura" atordoada com a súbita ausência de seu líder seriam equivalentes, portanto, às que aconteceram durante o "Domingo Sangrento", quando as tropas do czar dispararam covardemente sobre uma multidão desarmada. E o que Vassili, o filho bêbado e fanfarrão, não fez - como atirar nos médicos e convocar a imprensa estrangeira para denunciar um complô para matar seu pai - poderia ter feito - não saberíamos, em todo o caso, pois seus atos seriam certamente encobertos pelo véu da censura.

A mim não convenceu, esta explicação. Achei a abordagem absolutamente desnecessária. Porque, neste caso, a realidade dos fatos que é pública e notória e faz parte da História já é mais do que suficientemente cheia de tragédias e situações farsescas. Desnecessária e inconveniente – pra não dizer desonesta – em se tratando, também, de uma publicação de um selo que se propõe a publicar apenas livros de não ficção, segundo consta no release do site da editora. Em nome de uma suposta liberdade artística e de um perseguido - sem sucesso, a meu ver - tom farsesco - a ironia começa pelo subtítulo, "Uma História Soviética Real - o que temos é uma verdadeira falsificação da história. Típica, aliás, das práticas abomináveis do personagem - e do regime - retratado.

Em todo o caso, é sempre muito bom ver publicadas no Brasil histórias em quadrinhos que fogem do esquema comercial viciado dos super-heróis norteamericanos ...

Título: A Morte de Stálin
Subtítulo: Uma História Soviética Real
Autor: Fabien Nury, Thierry Robin
Tradução: Paulo Werneck
Especificações: Brochura | 152 páginas
ISBN: 978-85-6849-307-6
Dimensões: 310mm x 230mm
Editora: Três Estrelas
Idioma: Português
Peso: 710g



sexta-feira, 5 de junho de 2015

SERES URBANOS

Temos assistido, nos últimos anos, a um precioso resgate da produção alternativa da década de noventa do século passado, com o relançamento, agora em edições mais caprichadas, de trabalhos de gente como Alberto Monteiro, Joacy Jamys, Henry Jaepelt e Law Tissot. Todos publicados, originalmente, em fanzines xerocados e distribuídos de mão em mão ou via correios.

Estes “fanzineiros” eram, na sua maioria, artistas “solo”, encarando de forma solitária a tarefa de produzir, reproduzir e distribuir suas publicações para o Brasil e o mundo. Haviam, no entanto, os que preferiam se unir em grupos, muito antes do termo “coletivo” entrar – e sair – da moda. No nordeste brasileiro destacavam-se dois, ambos dedicados, principalmente, à produção de Histórias em quadrinhos: o “Grupo de risco”, do Maranhão, que editava a revista “Singularplural”, e os “Seres Urbanos”, de Fortaleza, Ceará, que colocaram na praça, entre os anos de 1991 e 1998, uma série de publicações antológicas, em edições caprichadas, muito acima do padrão vigente.

Uma boa parte desta produção está agora compilada no livro que leva o nome do grupo e que foi lançado com o apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Ceará. São 100 páginas de quadrinhos existencialistas impressos de forma impecável em papel de primeira qualidade, apresentando uma produção com uma impressionante diversidade de estilos, além da diagramação e experimentação gráfica primorosa e ousada – numa das páginas, por exemplo, um personagem de quadrinhos é esfaqueado pela perna de um balão de diálogo! Noutra, vemos o resultado de um projeto de arte postal coletiva em que Lupin, um dos “Seres” – que na verdade já produzia antes mesmo da criação do grupo - enviou cópias de uma imagem aleatoriamente para várias partes do mundo solicitando que quem as recebesse enviasse de volta com algum tipo de intervenção. Trabalho de gente extremamente talentosa, que merece muito este resgate ...

O espanto começa pela capa, com um belíssimo desenho de Weaver, e prossegue à medida que vamos avançando nas páginas e mergulhando no universo dos caras, repleto de reflexões e angustias que mesclam de forma perfeita o quotidiano das pessoas mais comuns com o dos “outsiders”, dos “rockers” ao típico cidadão trabalhador, do “underground” ao senhor que se ressente da falta da esposa que preferiu ficar em casa assistindo televisão a acompanha-lo numa trivial ida ao centro da cidade para levar um relógio para consertar. Das tiras tirando sarro do jeito cearense de ser aos tipinhos presentes nas festinhas do submundo, sempre com textos afiados e cheios de grandes sacadas. Angustia e bom humor de mãos dadas. Celebração e decepção, lado a lado.

É o que vemos, também, na grande “autoentrevista” reproduzida no final, onde os caras passam a limpo sua trajetória e explicam – ou não – suas motivações e as circunstancias que fizeram com que as coisas tivessem acontecido da forma que acontecerem – a qualidade das cópias, por exemplo, se explica pela oportunidade oferecida por uma copiadora, que cedeu uma sala para o grupo em troca de parte de sua força de trabalho. Nada “de graça”, portanto. Nada “de mão beijada”: o que conseguiram, foi porque foram atrás – até porque não tinha ninguém nascido em berço de ouro ali, eram todos oriundos da periferia da cidade, que crescia – e cresce! – verticalmente e vertiginosamente.

Para o que não conseguiram, paciência. Ou um grande “foda-se” – com a consciência de que parte dos motivos foi sua própria falta de noção, como da vez em que tentaram vender para uma campanha antidrogas uma “cartilha” totalmente politicamente incorreta que se chamava LSD – Leitura Sobre Drogas. A outra parte vai pra conta da dificuldade natural que uma empreitada desse porte encontra numa cidade “solar”, centrada na indústria do turismo, que tende sempre a dourar a pílula da realidade e fechar os olhos para a diversidade cultural, punindo com o ostracismo aqueles que teimam em ir além do sonho tropical.

Os “Seres Urbanos” são Weaver, Marcílio, Elvis, Lupin, Kaos (in memoriam), Galba e Mychel. Estão na rede, aqui. O livro é fundamental, imperdível, e pode ser adquirido AQUI. AQUI, uma matéria sobre o lançamento, em vídeo. Abaixo, uma pequena seleção pessoal de trechos dos textos, sempre ácidos e certeiros. Só pra que vocês tenham uma idéia do que eu estou falando ...

“Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram”

“Sempre que sinto falta de algum conforto eu me lembro dos golfinhos: se eles possuem um cérebro desenvolvido e passam a vida brincando, então nós humanos estamos fazendo algo errado”

“Estou ansiosa para crescer e sair da escola” “Crescer? A verdade é que sua geração terá que trabalhar em tempo integral e fazer cursos de atualização de computação, um após o outro, durante toda a vida, pra não se tornar um profissional defasado. O único contato de sua geração com o mundo será de forma artificial, através da TV.” “Em compensação, a TV terá milhares de canais.”

“O que nos preocupa no mundo não é ele ser tão grande, e sim a natureza humana ser tão pequena”

“Lili voltou dos states magérrima. “Que são esses xis nas suas mãos, Lili?”, perguntou Rita. – Mulher, agora eu sou straight edge.  – istrei o que ???!! Perguntou Wanda fazendo careta e levando todas a gargalhar. Lili deu um pequeno sorriso sem graça e se sentiu mais uma vez solitária entre suas amigas de infância.”

“Ed acordou e sua esposa havia partido. Vários pedaços dela estavam espalhados pela casa. “Devia ao menos ter deixado meu café feito”

“No início da noite do dia 29 de agosto de 1995, após um dia como outro qualquer de trabalho, Juvêncio Colares parou estático no meio da rua. E ficou lá parado pelo resto de sua vida.”

“Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê-lo.”

“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”

A.


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