quarta-feira, 30 de novembro de 2016

“Vida e Destino”, o “guerra e paz” soviético

Na década de 1980, um tempo em que a gente tinha que ir ao cinema ou esperar passar na TV – aberta – pra ver algum filme, havia o Festival da Primavera da Rede Globo. Era um espaço nobre, reservado às grandes produções, o “créme de la créme” da cinematografia mundial. Foi lá que assisti pela primeira vez – em versão dublada e com intervalos comerciais, ressalte-se - alguns de meus filmes favoritos de todos os tempos, como “2001 – Uma odisséia no espaço”, de Stanley Kubrick, “Era uma vez no oeste”, de Sergio Leone, e “Doutor Jivago”, de David Lean. Este último despertou em mim um fascínio que preservo até hoje pela história, cultura e paisagens geladas da Rússia.

O interesse cresceu no ambiente universitário, quando passei a me aprofundar sobre o imaginário revolucionário. Não me tornei comunista, apesar de ter feito um “curso de iniciação ao marxismo” com Wellington Mangueira, então no PCB, mas até hoje leio bastante sobre o assunto. Causou-me surpresa, portanto, quando me deparei, numa livraria, na sessão de lançamentos, com um calhamaço de mais de 900 páginas de um romance escrito ao longo de mais de uma década e finalizado em 1960 cuja ação transcorria no auge da chamada “Grande Guerra Patriótica” – é assim que os russos chamam a segunda guerra mundial – e que era descrito, na contracapa, como “O guerra e paz soviético”.

O fato é que eu nunca havia ouvido falar do tal livro, “Vida e destino”, nem de seu autor, Vassili Grossman. Me interessei, pesquisei e entendi porque: tratava-se de uma obra proscrita, de publicação póstuma, salva do esquecimento pela ação abnegada de alguns amigos. E foi banida porque era visceralmente verdadeira – um pecado mortal para o totalitarismo stalinista, que sobreviveu à morte do ditador, em 1953.

O caminho percorrido até que aquelas muito bem traçadas linhas chegassem às minhas mãos, aqui em meu cantinho ensolarado do mundo, é, por si só, uma epópéia: A KGB chegou ao extremo de confiscar não apenas os originais, mas também as fitas da máquina de escrever onde o tomo foi redigido e a escavar a horta da casa do primo do escritor em busca de mais exemplares. Nem uma carta direta do autor ao então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Khruschov, a quem havia conhecido pessoalmente no front de stalingrado, adiantou. “Talvez ele seja publicado daqui a uns duzentos, trezentos anos”, disse-lhe Mikhail Suslov, o ideólogo do Partido, respondendo pelo “chefe”. Sua devolução estava fora de questão ...

Uma cópia, no entanto, foi preservada por uma amiga, Liôlia Klestova, em uma mala trancada embaixo de sua cama num apartamento comunal. Posteriormente, em 1974, esta cópia foi microfilmada e contrabandeada para a Europa no fundo falso de uma caixa de biscoitos de gengibre entregue pelo também escritor Vladimir Voinovich a uma rede de dissidentes da qual fazia parte o célebre físico Andrei Sakharov. Foi publicado pela primeira vez, finalmente, na Suíça, em 1980, mas sem grande repercussão - aos dissidentes, em plena guerra fria, o que mais interessava era a denuncia, e esta já havia sido feita com sucesso através dos escritos de Pasternak e Soljenitsin. Em todo caso, oito anos depois, com o degelo da “glasnost” e da “perestroika”, a grande obra pôde finalmente chegar a seu destino original, o povo russo, e de lá se espalhar pelo mundo, consagrando-se como uma das mais incisivas e importantes peças de literatura do século XX.

A narrativa gira em torno, principalmente, da família Chapochnikov, da qual faz parte o físico judeu Viktor Chtrum, uma espécie de alter-ego do autor. Seu drama pessoal segue, em linhas gerais, o roteiro da vida do próprio Grossman: do remorso pela morte da mãe nas mãos dos nazistas na Ucrânia ocupada – culpava-se por não tê-la abrigado em seu apartamento em Moscou antes que fosse tarde demais - e por uma carta aberta de repudio que assinou mesmo sabendo se tratar de uma injustiça movida por perseguição até o romance proibido que manteve  com uma mulher casada. A partir deste núcleo central a narrativa se desdobra por, literalmente, centenas de personagens secundários que vivem tramas típicas de sua época: o velho bolchevique Mastovkói, prisioneiro num campo de concentração alemão; os ocupantes de uma casa que resiste bravamente ao bombardeio de Stalingrado; os responsáveis pela usina de força da cidade, que têm que resistir ao impulso de correr em debandada para não serem considerados desertores pelos responsáveis pela implantação do comunismo de guerra; os destemidos aviadores que singram os céus combatendo o inimigo; Krímov, comissário do exército vermelho que cai em desgraça por uma simples menção a um elogio de Trotski a um de seus artigos; ou o oficial Nóvikov, comandante de um Corpo de tanques que se envolve em batalha decisiva nos arredores de Stalingrado. Nóvikov é o amante e Krímov é o ex-marido de Ievguênia, irmã de Liudmila, esposa de Viktor, que é salvo de um destino terrivel ao receber um telefonema no meio da noite ...

Além desses personagens ordinários e fictícios, o livro é povoado por figuras históricas, notadamente Albert Eichmann, que supervisiona a construção das câmaras de gás na qual milhares seriam imolados. Hitler e Stalin também dão o ar da graça, de forma breve porém surpreendente. A passagem em que o fuhrer aparece é particularmente primorosa, especulando sobre sua psique – não vou dar detalhes para não estragar a surpresa.

“Vida e Destino” apresenta um amplo painel da sociedade russa da época, com uma abordagem pioneira de temas tabu como a brutalidade da coletivização agrícola forçada e o banho de sangue da repressão política de 1937, passando pelo antissemitismo e o início do programa nuclear soviético. Suas páginas nos transportam de forma absolutamente arrebatadora pelos meandros da tragédia humana através de sofisticadas narrativas que nos inserem dentro da mente de uma mãe que visita o túmulo do filho morto em combate, de uma médica de meia idade e de uma criança desprotegida em uma tenebrosa jornada a caminho da morte nas câmaras de gás ou do comandante que hesita até o ultimo instante em dar uma ordem de ataque, sentindo o peso do destino de tantos sobre seus ombros. Nos diálogos, sempre brilhantes, embates ideológicos e dilemas existenciais que reverberam através do tempo e ainda se apresentam absolutamente relevantes, especialmente agora, quando experimentamos o retorno a uma situação de polarização ideológica perigosa e preocupante.

É uma obra notável, fruto do imenso trabalho intelectual de uma mente privilegiada que colocou no papel o que viu e viveu, pois foi correspondente de guerra em Stalingrado e também sofreu com a perseguição política. Deve ser lido e relido e redescoberto pelos séculos que virão.

Já é um clássico.

A.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O edifício está tomado por cupins ...

Há alguns meses, diretor e atores de um dos melhores filmes nacionais produzidos nos últimos tempos se posicionaram contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em Cannes, na França, onde o drama (sem trocadilho) fora apresentado.
O protesto recebeu mais atenções do que a história da última moradora de um edifício que sofre pressões de todos os lados, inclusive da família, para liberar o espaço, um edifício baixo perto da praia de Boa Viagem, e dar lugar a um empreendimento imobiliário milionário – daqueles estilo eucalipto, alto e imponente, mas que impede qualquer coisa de crescer ou respirar ao redor.
Poucos atentaram para o caráter simbólico da história. A escolha de Clara, a personagem interpretada por Sonia Braga, não era um estilo de vida, mas uma forma de viver. De um lado, uma solução padronizada de vivências em que, em nome da segurança e da valorização do território, aceitamos trocar a amplitude da rua por uma gaiola espelhada de luz artificial e área gourmet; de outro, um espaço de vivência, vínculos, integração com o espaço público.
A resistência ao atropelo de um padrão imobiliário, que poderia ser lido como a resistência ao atropelo de outros padrões – de gênero, de comportamento, de envelhecimento e de patrimônio imaterial – tinha um preço. A fatura vinha em ordens sutis e ameaças veladas, como se projetássemos a uma personagem as nuances de um país cujas violências não estavam só materializadas em um porrete físico, mas numa série de pressões psicológicas, mais sofisticadas, decerto, mas igualmente violentas.
Lançado em um período de ebulição, “Aquarius” fez com que muitos vissem na posição de Clara uma alegoria da própria Presidência. Ali, as sobras de princípios da presidenta reeleita em uma época rarefeita de escrúpulos impedia a edificação de um empreendimento de alto padrão que, nas palavras de um dos arquitetos do projeto, e não de um opositor, serviria para delimitar as investigações que ameaçavam engolir o sistema político institucional partidário como conhecemos.
Existem formas e formas de ver o mesmo filme e a mesma crise política, mas em algum momento da história as pequenas represálias sobre a protagonista se materializaram nas represálias sofridas pelos responsáveis pelo filme, enquadrado, estranhamente, numa classificação indicativa, antes chamada censura, a menores de 18 anos, e estranhamente limado da indicação para o Oscar em detrimento de uma obra notadamente menor. Houve até colunista de revistão que foi a público defender que as pessoas de bem deveriam boicotar o filme.
Tom Jobim costuma dizer que o Brasil não era para principiantes. A sentença tem uma lição enrustida: para chegar ao topo é preciso ser profissional. Os amadores rodam por uma espécie de seleção natural.
A crise política detonada desde o início da Lava Jato revelou que a pedra fundamental de nosso mito fundador era, na verdade, uma piada: o topo da cadeia (ou do edifício, para quem quer seguir a linha da alegoria) está tomada por amadores, personagens não de dramas psicológicos e nuances de subtexto, mas de pastelões protagonizado por paspalhos que conseguem se enrolar com o zíper da calça quando vão ao banheiro na casa da namorada.
A trama da vida real não tem sequer a dignidade de produzir metáforas. Como lembrou uma amiga: a queda de pontes mal feitas alicerçadas por acordos mambembes entre contratantes públicos e contratados privados no Rio de Janeiro é real e mata; o mar de lama de Mariana é real e produz estragos; nossa zica não é força de expressão; e a ordem, de cima para baixo, para atender a ganância do ministro da articulação política, chamado na escola de Suíno – uma ordem para destroçar o patrimônio público em nome de uma ganância privada de baixo para cima – não é uma trama engenhosa imaginada por qualquer roteirista. É tão real quanto mesquinha.
Não faz muito tempo, panelas triscavam pelas janelas do Brasil para expressar nossa indignação contra a corrupção. Pouco mais de um ano depois, descobrimos que parte dos militantes que colocaram o bloco na rua eram financiados justamente pelos grupos que tinham interesse em tomar posse do terreno que seria deixado como legado da implosão dos velhos locatários.
Uma vez no poder (ou, no topo deles, já que do poder nunca saíram), esses grupos políticos que falavam em mudanças repetiram com mais voracidade os mesmos pecados apontados dos velhos governos: negociaram, prometeram, nomearam, aparelharam.
Com a ajuda das propagandas, digo, entrevistas entre amigos e simpatizantes, passaram meses defendendo cortes de gastos enquanto serviam banquetes a quem atribuíam o dever de prestar contas e pedir respaldo: deputados, senadores, empresários. Asseguraram privilégios e aumentos para as elites do funcionalismo. Ampliaram, sem a devida transparência, os gastos com cartões corporativos. Patrocinaram, às vésperas da delação da Odebrecht – que, entre outras revelações, conta ter doado R$ 23 milhões via caixa dois ao atual chanceler – projetos de anistia para quem recebeu caixa dois. Condicionaram a presidência da Câmara ao apoio do projeto impopular. Fingiram não ter visto o rombo deixado na sala após a prisão do antigo presidente da Câmara, pivô do impeachment após perder apoio do (velho) governo no Conselho de Ética da Casa por mentir sobre as contas na Suíça onde movimentada dinheiro supostamente desviado da Petrobras.
Os episódios são a massa e a argamassada de um governo edificado em ladainha, para usar uma expressão cara ao atual presidente.
Este governo corre agora o risco de ser demolido por conta da revelação das pressões sofridas pelo ministro da Cultura, um dos primeiros órgãos que o governo temerário tentou destruir ao assumir, para facilitar a vida do colega da Articulação Política que recebe vencimentos acima do teto do funcionalismo enquanto articula um teto para investimentos públicos e via na lei de tombamento um empecilho para o seu sonho da casa própria com vista para o mar. 
Não, não tem qualquer metáfora, analogia ou lição quando falamos de visão, empreendimento e edificação nessa história, por mais que ela diga muito sobre nossa miopia e a mesquinharia que move o fígado dos homens públicos que nos salvariam dos anos de desmandos, incompetências notórias e corrupções.
Quem diria: os homens (também não no sentido metafórico, já que da mulher mais próxima hoje do poder não conhecemos sequer a voz) responsáveis por apagar o incêndio político eram antes o motivo da crise do que a sua solução. Trouxeram um galão de gasolina para combater as chamas e deu no que deu.
Nós, que batíamos panelas para limpar o Brasil de nossos males e amadorismos representados por quem aceita (também indevidamente) presentes de construtoras para nossos sítio e sítios de amigos, não imaginávamos que enquanto metade do país se estapeava pela PEC dos Gastos e as reforma do ensino público e da Previdência a prioridade do governo era resolver o impasse provocado por um ministro que se recusava a beneficiar um colega que tentava usar o cargo público para obter uma vantagem particular.
Durou menos de quatro meses a lenda sobre a raposa política e o soldado da articulação. No governo atual, ganância pode ser alta, mas ela não é maior que o amadorismo, revelado à luz do dia, de quem sempre operou nos bastidores e agora se entrega até mesmo quando olha para a câmera e agradece a propaganda.
A mesquinharia do episódio faria Tom Jobim mudar a própria sentença. O Brasil não é para profissionais.

por Matheus Pichonelli

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atheus Pichonelli

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Snooze is not dead.

Foto por Hugo Daniel
Não se apresentavam em público desde a última Festa da Antevéspera, no final de 2014. Resolveram voltar, ironicamente, justamente no dia de Finados, 02 de novembro do ano que tentaremos esquecer. E voltaram em grande estilo, se apresentando pela primeira vez no já tradicional “Clandestino”, evento kamikaze que acontece na rua, “na tora”, esporadicamente. Já está na décima sétima edição, o que prova que nem tudo está perdido, afinal ...

Foi ótimo, claro. Estávamos com saudade. Tocaram com a Renegades, os “anfitriões”, e com uma banda nova chamada Amandinho, que saiu do Recife com destino ao mundo numa “cruzada contra o rock de arena” – seja lá o que isso queira dizer. Banda nova, “instigada”, fez um bom show, energético – mas meio chato nas partes mais “viajantes”.

Adolfo Sá ficou sabendo da novidade e, num timing perfeito, fez uma excelente – e necessária -  entrevista com a snooze que eu, preguiçosamente, reproduzo abaixo – a postagem original está em http://blog.vivalabrasa.com/

Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.

Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.

VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc.

VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê?
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.

VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.

VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.

VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.

VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.

VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.

VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.

VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.

VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.

VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.

VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.

VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.

VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade.
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.

VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!

DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 201

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