quarta-feira, 4 de setembro de 2019

BACURAU: Rastros de ódio ...

“Eu tenho vivido em um mundo de mortes. Eu vi as pessoas que eu amava morrerem. Alguns rapidamente, com um tiro. De outras não sobrou o bastante para enterrar. Se vierem me buscar, eles darão boas-vindas à morte”.

Ouço a apresentação do personagem, acuado por invasores, na sala onde fui assistir a “Bacurau” no fim de semana. Mas o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, uma distopia baseada num futuro próximo, ainda não tinha começado. Era só um trecho do trailer de “Rambo – Até o Fim”, novo longa da franquia de ação na qual um personagem, acuado por inimigos que desconheciam sua história e se vê obrigado a reagir a um ataque frontal. Era o entreposto do que a plateia assistiria dali em diante.

Naquele dia o presidente Jair Bolsonaro acabava de anunciar seu desejo de indultar policiais envolvidos nos massacres do Carandiru e de Eldorado do Carajás – notícia que me chegou, via notificação, já na porta do cinema – e ao menos cinco pessoas haviam sido assassinadas e outras 21 ficaram feridas em dois ataques no Texas; o atirador/terrorista foi alvejado em um complexo de salas de cinema.

Naquele mesmo dia completavam-se também três anos do impeachment de Dilma Rousseff. Era difícil não lembrar da manifestação de Kleber Mendonça Filho na apresentação, em Cannes, de seu filme anterior, “Aquarius”, em 2016, contra o que ele e parte do elenco chamaram, com todas as letras e cartazes, de golpe em curso no Brasil.

Difícil também não fazer paralelos entre o contexto em que os dois filmes chegaram aos cinemas do país. O que eles tinham em comum, além da participação da Sonia Braga? Em “Aquarius”, ela mimetiza uma ideia de resistência com uma personagem que se nega a deixar o seu local de morada em um prédio prestes a ser demolido para dar lugar a um empreendimento de alto padrão na praia de Boa Viagem, em Recife – onde também se baseava a trama de “O Som Ao Redor”, longa de estreia de Mendonça Filho.

Naquele apartamento condenado a desaparecer, Clara luta com todas as armas que tem, no sentido mais alegórico, para enfrentar os empreendedores armados de instrumentos jurídicos e terrores psicológicos para botar ao chão não apenas um lugar, mas uma forma de vida e sobrevida na qual os vínculos e a memória importam mais do que uma sacada da área gourmet envidraçada. As forças de repressão não usavam botas, mas ameaças veladas, jargões carregados de estrangeirismos e conversas furadas sobre oportunidade de negócios.

Aquele sistema contemporâneo de achaque e repressão, encarnado pelo personagem de Humberto Carrão, tinha como estratégia uma pronúncia passivo-agressiva, conforme a protagonista definiu em um dos diálogos mais marcantes do longa.

Três anos depois, até mesmo aquele sistema sofisticado de imposição parece ter perdido a aura da contemporaneidade. Esta é hoje, novamente, mediada por botas, botinas e promessas de armamento. Sim, a coisa avançou rapidamente de lá para cá, e é difícil não observar, em “Bacurau”, uma camada espessa de sangue pisado no vilarejo onde o diretor, em parceria com Juliano Dornelles, situa agora o novo velho civilizatório: um entreposto entre o sertão e o agreste, onde invasores não pedem mais por favor, nem enviam folder com propostas irrecusáveis debaixo das portas. Estas estão arrombadas, seja na tela, seja no país onde candidato à Presidência é esfaqueado durante ato de campanha e uma vereadora é metralhada em via pública para deboche de quem rasga as placas em sua homenagem.

A coisa já desandava desde a praia de Boa Viagem, mas era preciso um grau de sensibilidade agudo para imaginar que descambariam para o faroeste high tech que Mendonça Filho e Dornelles conseguiram captar. Como em toda grande tragédia, os sinais não chegam com trombetas. Pelo contrário, cozinham em fogo brando e levam a duas perguntas principais. Quando reagir? E como?

A lentidão com que os sinais descambam para o risco real da eliminação remete a um romance distópico de José J.Veiga, de “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “Sombra de Reis Barbudos”. Neles o ponto central é o medo do estrangeiro que chega para mudar a rotina de seus moradores até que os absurdos se perdem de vista e se naturalizam.

Em Bacurau, povoado homônimo do filme vencedor do prêmio do júri em Cannes deste ano, todo mundo parece demorar a perceber a gravidade da situação e os sinais que atravessam o céu daquela cidade no interior cantado por Gal Costa logo na abertura.

A reação, entre a indiferença e o susto (“eita porra”), do motorista de um caminhão-pipa que tenta desviar, sem atropelar, uma fileira de caixões de madeira espalhados na estrada que levava até o local é o prenúncio desse delay.

Um dia o veículo chega cravejado de bala, ao estilo Mad Max, e o anúncio é feito de modo protocolar: dado o espanto, a rotina volta a se impor como se tudo não passasse de um caso estranho, mas isolado.

Todos ali parecem de certa forma em um profundo estado de letargia, cansados de briga, como fica nítido quando um morador vê em silêncio, e sem grande assombro, um drone em formato de disco-voador a sobrevoar a trilha onde circula.Ou quando a cidade é acordada pelos passos assustados dos cavalos que fogem de uma fazenda onde uma família é estranhamente dizimada.

Esse cansaço parece empedernido quando os habitantes correm para dentro de suas casas ao verem o prefeito chegar para um ato de campanha no local. De dentro, ensaiam uma espécie de panelaço, desses que marcaram os pronunciamentos políticos nas grandes cidades, onde a própria legitimidade da fala definha.

A saída é se trancafiar para dentro, e é de dentro que vem a resposta quando o cerco finalmente se manifesta. Se em “Aquarius” a resistência está no centro da cena, em “Bacurau” o que se sobressai é a reação.

A forma como essa reação é levada à cena me causou uma série de incômodos. Já em “O Som ao Redor”, era possível ver como as histórias, na filmografia de Kleber Mendonça Filho, se desenvolvem em forma de conto, mesmo em um longa-metragem; o recurso é legítimo, desde que implique no esquecimento de algum personagem no meio do caminho. No filme de estreia a história da vizinha e a máquina de lavar não apenas sobrava, mas parecia flutuar numa trama que se revela outra.

Em “Bacurau”, não há exatamente um protagonista, o que, como uma música sem refrão, não seria um problema se a ideia de reordenamento coletivo como elemento de impulsão não fosse construída por personagens com histórias com começo e sem fim, ou com fim sem começo. Assim, alguns dos personagens parecem desaparecer, como a própria localidade, conforme outros ganham o primeiro plano. É o caso de Pacote (Tomás Aquino) e (sua parceira?) Teresa (Bárbara Colen) após outro matador, o foragido Lunga (Silvero Pereira), ser resgatado de seu mirante para salvar o povoado.

Ah, sim: a certa altura do filme o drone, um sistema de vigilância e monitoramento que provavelmente seria fundamental para evitar o desfecho da trama, também desaparece, o que também incomoda, apesar de uma tentativa de explicação em um dos diálogos. Também não gosto da construção do prefeito (afinal, ele quer os votos do povoado ou a eliminação física de seus habitantes?).

Em uma das cenas, dois visitantes do sul do país, que logo descobriremos serem aliados dos invasores estrangeiros e supremacistas na empreitada contra o povoado prestes a desaparecer, mal disfarçam o desprezo pelos moradores locais. Um deles tem o pé no sistema jurídico brasileiro (ok, captamos). Esse desprezo, que precede o ódio, se manifesta quando rejeitam o convite para conhecer o museu da cidade. Aquele museu é falado o tempo todo, mas só entra, de fato, em cena, quando fica claro que está no passado, na história de seus habitantes, valentes, armados, curados no cangaço, a quebra definitiva da letargia.

O desprezo por essa história é o desprezo de quem reivindica o patriotismo enquanto tremula a bandeira do separatismo com uma mão e do entreguismo na outra. “Não somos como eles. Somos do Sul e do Sudeste, uma região muito mais rica, colonizada por alemães e italianos. Estamos mais perto de vocês do que deles”, explica a dupla, para deboche dos estrangeiros que estão ali para uma missão até então desconhecida. São os primeiros a serem devorados. O bote é o ponto alto do filme.

Se há uma tese central ali é que o desaparecimento simbólico precede o desaparecimento físico e ambos fazem parte de um mesmo exercício de desumanização e apagamento: o inimigo, antes de ser eliminável, é alguém de quem desconhecemos a história.

Para os personagens de Bacurau, estar no mapa não é luxo para usuários de GPS, mas condição de sobrevivência. Esta não se constrói com flores - já dizia o jargão armamentista.

Um filme é, obviamente, um exercício de imaginação. Feita a catarse, não tem, nem deve ter, a pretensão de apontar caminhos ou munição para a guerrilha (espera-se) nem oferecer, pela tela, o veneno da coragem, como na música de Alceu Valença, que os moradores de Bacurau utilizam como recurso de enfrentamento. Mas se a estética da obra é um pincel encharcado de sangue, a escolha de seus realizadores é também uma decisão ética – sobretudo em um país onde o armamento individual é usado como trunfo político de autogestão e defesa. Esse incômodo ficou comigo nas primeiras horas após a sessão, até que algumas passagens passaram a fazer mais sentido.

Bacurau não é a inocência perdida, ou sob risco de desaparecimento, quando entra na mira da barbárie – uma barbárie desenhada na brutalização de quem fala da metralhadora como humano e do humano como objeto de repulsa passível de eliminação.

Naquela cidade, a letargia parece compor a paisagem naturalizada onde uma jovem, provavelmente menor de 18 anos, é vítima da exploração sexual e parte da população assiste lobotizada aos melhores momentos de um filme real estrelado por um morador conhecido como “Rei do teco”.

A barbárie está bem guardada no museu, mas não necessariamente desativada naquela espécie de memorial do cangaço, da violência de uma área não alcançada pela lei e pelo Estado e onde o pacto civilizatório é tema de uma permanente negociação individual. “Aqui as coisas não acontecem assim”, avisa um dos moradores, antes de ser assassinado.

“Eu não sabia que era uma criança”, diz um dos estrangeiros assassinos ao justificar a eliminação, como uma barata, de um jovem que cruzou o seu caminho com uma lanterna. Estamos, afinal, em um país onde carregar chuteira na mochila ou guarda-chuva debaixo do braço é a senha para “morrer com um tiro na cabecinha”.

No filme, quando os invasores quebram a linha da barbárie, o que acontece não é a luta do bem contra o mal. O que acontece é a guerra. A capacidade de reação, até então ignorada pelos invasores, é parte da reivindicação de uma humanidade que não pede para sobreviver, mas se impõe para não ser destroçada.

A guerra é a prescrição desse pacto civilizatório, mas também um recurso de sobrevivência. Vide o Vietnã. Na Segunda Guerra, foi uma aliança militar que interrompeu a ascensão nazista. A vitória foi celebrada com duas bombas sobre o Japão.

“Bacurau” é, assim, um filme de guerra, no qual as referências pipocam como balas que ricocheteiam. É um ode ao cinema novo. Aos mártires da política contemporânea. Ao bando de lampião. Ao western americano – com o sinal invertido, mas é. Ao universo de Guimarães Rosa com um recado de fundo. “O senhor tolere, isto é o sertão”.

Mas é também um recado dos insurgentes: nós também sabemos usar a barbárie a nosso favor. O arsenal é a memória de quem fez da existência uma trincheira.

A pergunta, longe de ser respondida, é o que fazer, exatamente, quando essa barbárie já não figura só na linguagem. Como responder a ela se não com a guerra? O homem programado para matar do trailer acima talvez tenha a resposta.


yahoo

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sexta-feira, 28 de junho de 2019

Brizola, que falta faz ...

Leonel Brizola deixou a vida para entrar para história em 21 de junho de 2004, quinze anos atrás. Seu nome é o sino de bronze da luta anti-imperialista que a partir do Brasil abalou o século anterior – o punho erguido de uma Pátria que diz para História: “eis-me aqui”.

Nascido em 22 de janeiro de 1922 em uma família de pobres camponeses em Cruzinha, distrito de Carazinho no Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola era o caçula de uma tradição guerreira. Seu pai, José Brizola lutou ao lado do caudilho Leonel Rocha nos conflitos entre maragatos e chimangos que ensoparam a campanha gaúcha com o sangue da peonada. Ao regressar da guerra, José foi sequestrado e assassinado por soldados inimigos em ato criminoso, praticado depois da assinatura do tratado de paz. Conta Moniz Bandeira que o filho mais jovem de José ganhou seu nome quando, aos dois anos de idade, brandindo uma espada de madeira, disse “eu sou Leonel Rocha!”

Com muita dificuldade, Brizola ingressa em um curso de engenharia em Porto Alegre, trabalhando para se manter na capital gaúcha. É no ocaso do Estado Novo que inicia sua atuação política, no meio da campanha do queremismo, quando Brizola se vê requisitado por vários dos nascentes partidos. Na época ainda sem uma clara definição política, Brizola conta que simpatizava com Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes. Mas não conseguiu se identificar com a petulância dos militantes do PCB, que em suas palavras se “achavam os donos da verdade” e eram extremamente sectários. Igualmente, o PSD, organizado pelos interventores do Estado Novo e representante dos interesses da oligarquia rural e urbana, não o atraiu devido a seu “instinto de classe”.

Na estrutura do PSD, criou-se um Departamento Trabalhista, que deveria acomodar o movimento sindical. No entanto, com aval do ministro do Trabalho Marcondes Filho e do próprio Vargas, os sindicalistas se rebelaram contra essa tentativa e fundaram seu próprio partido, o PTB. Com o PTB em oposição ao governo Dutra do PSD, Brizola a duras penas organizou o partido no Rio Grande do Sul, chegando a conciliar um mandato como deputado estadual com os estudos em engenharia.

O suicídio de Vargas é o episódio-chave na formação de Brizola. O líder trabalhista dizia que seu norte político era a Carta-Testamento de Getúlio, denunciando o íntima ligação da penúria do povo brasileiro com a espoliação internacional do país.

Como governador do Rio Grande do Sul, Brizola enfrentou os monopólio norte-americano da Bond & Share, que controlava o fornecimento de energia elétrica em seu estado. A transnacional se recusava a fazer a expansão que a rede elétrica, imprescindível para o desenvolvimento do estado. Brizola então encampou o serviço público, pagando um cruzeiro pela empresa – valor que correspondia exatamente ao seu valor uma vez computado seu passivo. Também enfrentou a toda poderosa ITT na luta infraestrutura gaúcha, empresa notória por seu patrocínio ao golpe no Chile em 1973. Devido a esses episódios, ficou conhecido “Castro brasileiro” pela mídia estadunidense, atemorizada pela possibilidade do levante de um titã como o Brasil em seu hemisfério.

Ainda como governador, Brizola protagonizou a Campanha da Legalidade em 1961, quando alguns militares tentaram impedir a posse de João Goulart, que se encontrava em missão oficial a China quando Jânio Quadros renuncia. Por meio de apaixonadas transmissões pela Rádio Guaíba, organiza o povo gaúcho, inclusive com a distribuição de armas no que foi a maior e mais intensa mobilização popular da história brasileira. Assim, o povo organizado debela o golpe que se desenhava, embora o Congresso aprove uma emenda instituindo o parlamentarismo, somente para esvaziar a presidência de seus poderes.

Brizola fica até o final de seu mandato em 1963 como governador em vez de se candidatar para algum cargo pelo Rio Grande do Sul, como senador ou deputado federal. Se se candidatasse, seria obrigado a renunciar para se descompatibilizar, como mandava a legislação da época. Permaneceu no cargo para oferecer sustentação ao governo Goulart e à campanha para voltar ao presidencialismo. A organização popular mais uma vez rende frutos e o Congresso Nacional se vê forçado a convocar um plebiscito em janeiro de 1963 a respeito da emenda do parlamentarismo, prontamente derrotada. Neste mesmo ano, Brizola é eleito deputado federal pelo estado da Guanabara – seu último mandato antes do golpe de 1964.

No segundo semestre de 1963, os Estados Unidos apertam o cerco imperialista ao Brasil. O presidente Kennedy restringe o acesso do Brasil a linhas de crédito e adotas outras medidas agressivas para obrigar o país a derrubar a Lei de Remessa de Lucros – projeto de lei do próprio Vargas promulgado por Goulart. Mas a balança de pagamentos brasileira naquela época estava extremamente comprometida pela escassez de dólares, principalmente pela remessa de lucros, que consumia as divisas estrangeiras em posse do Brasil. Por essa razão, o fantasma da inflação assolava o país. Goulart via-se entre a cruz e a espada: ou lutava pelo Brasil ou capitulava para os estadunidenses. Sua opção marca a história brasileira.

Progressivamente isolado ao longo dos primeiros meses de 64 – principalmente depois de propor e em seguida retirar um pedido de estado de sítio em função de uma entrevista de Lacerda para um jornal norte-americano – Goulart faz o famoso comício da Central do Brasil em março daquele ano. O discurso precipita a ala conservadora das Forças Armadas e das montanhas das Minas Gerais desce a tropa de Olympio Mourão Filho para tomar o Rio de Janeiro e depor o governo democrático e popular dos trabalhistas.

Brizola permanece no Rio Grande do Sul para assegurar a posse do general Ladário Pereira Teles como comandante do III Exército. Quando o Presidente da República chega ao estado sulista depois de uma passagem infrutífera por Brasília, o general chega a oferecer o Exército para a defesa do país e da constituição. Não querendo manchar o Brasil com o sangue de tantos filhos em uma luta quase sem chances de vitória, Goulart declina a oferta. Ele e Brizola então fogem para o Uruguai. No exílio, as articulações de resistência de Goulart e Brizola acabam fracassando e os dois ficam por anos sem se falar.

Temido pelas forças antinacionais que haviam se apossado do país em 1964, Brizola ficou 15 anos exilado, um dos maiores períodos de afastamento compulsório registrados. Com o início da abertura “lenta, gradual e segura” do Regime Militar em 1979, os trabalhistas no exílio e no Brasil se encontram em Lisboa, onde assinam uma Carta objetivando a reconstrução do PTB.

Mesmo após tantos anos de exílio, a ditadura não deu trégua a Brizola – o regime moribundo fez de tudo para obstaculizar a campanha de Brizola ao governo do Rio de Janeiro em 1982. Golbery em conluio com o TSE entrega a sigla PTB para Ivete Vargas, somente para atrapalhar a reorganização dos trabalhistas. Aos prantos na Associação Brasileira dos Jornalistas, Brizola rasga um pedaço de papel escrito PTB e rascunha em outro a nova sigla para o velho partido, herdeiro da tradição patriótica de Vargas: PDT.

Ainda na campanha de 1982, Brizola enfrenta a Globo no famoso escândalo da Proconsult, quando a emissora foi cúmplice de uma tentativa de fraude eleitoral para entregar o governo do Rio de Janeiro para Moreira Franco. Os mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro serão marcados por um forte cunho popular. Junto com Darcy Ribeiro, promove uma revolução na educação do estado com os CIEPs, até hoje referência em política educacional no Terceiro Mundo. Como governador, Brizola teria um papel destacada na campanha pelas Diretas Já em 1984.

A relação com entre o PT e o PDT foi de distância desde as primeiras tentativas de aproximação ainda em 1979. Orientados pelo uspianismo que condenava a tradição varguista e por uma visão pós-moderna da classe trabalhadora, as lideranças do Novo Sindicalismo jamais se aproximaram dos trabalhistas. Mesmo assim, num gesto de grandeza patriótica, Brizola apoia Lula no segundo turno das eleições de 1989, para tentar evitar o desastre que seria o governo Collor – gesto que o próprio Lula foi incapaz de repetir 29 anos depois em 2018, quando sacrificou o país sabotando a campanha de Ciro Gomes para manter a hegemonia petista sobre a esquerda.

O veterano Brizola ainda disputou eleições presidenciais ao longo dos anos 90, depois de um segundo mandato como governador do Rio de Janeiro, sempre condenando o neoliberalismo. Na última eleição, apoiou Ciro Gomes e ao longo do primeiro mandato de Lula, denunciou o caráter neoliberal da gestão petista. Faleceu em 2004, deixando, junto de Vargas, o legado do patriotismo popular brasileiro.

Em todas as suas falas, Brizola denunciava a contradição central do Brasil, que determina o país como um todo: a dependência. Assim como está escrito na Carta-Testamento de Getúlio Vargas, a condição de precariedade do povo brasileiro não pode ser separada da espoliação pelos monopólios internacionais. Brizola era herdeiro da luta de Vargas pela siderurgia em Volta Redonda, a criação da Vale, da Eletrobras, da Petrobras, da Justiça do Trabalho e a estrutura sindical que permitiria a organização de nosso povo.

Em uma fala na UNE em 1961, Brizola disse que “se nada temos com a União Soviética, devemos ter coragem de dizer que nada temos com os Estados Unidos”. O então governador do Rio Grande do Sul se posiciona contra a importação de modelos estrangeiros para o país, tanto a esquerda como a direita. Buscava uma solução brasileira para os problemas brasileiros – ainda que tal solução não prescindisse de um socialismo, mas um socialismo com caráter brasileiro. Neste mesmo discurso, mesmo dizendo que não era inimigo dos Estados Unidos, não deixou de reconhecer que as reformas que o Brasil tanto necessitava obrigatoriamente implicaria em uma modificação nas relações com os EUA.

Ao longo de sua vida, Brizola fez jus a seu sangue guerreiro. Até seu último suspiro, batalhou contra o caráter colonial do Brasil e lutou por sua emancipação. Deixará em todos os brasileiros a eterna dúvida do que poderia ter sido o país se o herdeiro de Vargas tivesse chegado à presidência. Chegou a colocar medo nas grandes corporações estadunidenses, que sabem a ameaça estratégica que o Brasil representa como uma superpotência no hemisfério ocidental. Brizola foi o punho erguido do Brasil ameaçando o domínio dos EUA sobre as Américas.

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quarta-feira, 12 de junho de 2019

70 Anos de Mil novecentos e oitenta e quatro

Embora seja um long-seller continuamente republicado, recentemente as vendas de Mil novecentos e oitenta e quatro - intitulado assim no original, embora geralmente citado em números -, a distopia de Orwell publicada pela primeira vez há 70 anos, dispararam nos Estados Unidos, onde, segundo o The New York Times, a editora Penguin enviou várias centenas de milhares de exemplares pouco depois de Kellyanne Conway, conselheira do Gabinete do presidente Donald Trump, ter repreendido a imprensa por insistir que a Administração reconhecesse que o número de participantes da cerimônia de posse de Trump era uma informação falsa que sua equipe tinha feito circular. Afinal, disse Conway, não se tratava nem de uma mentira nem de um erro, mas do que definiu como “fatos alternativos”. Ao ouvir suas palavras, muitos cidadãos relembraram algumas previsões do romance de Orwell: a “novilíngua”, um vocabulário sintético e reduzido, cuja pobreza visa também reduzir a capacidade de pensar; e o “Ministério da Verdade”, no qual funcionários no livro se aplicam a corrigir os testemunhos do passado recente e a reescrever a história para que ela se encaixe perfeitamente no discurso oficial. Ou seja, o que muitos viram em Conway era uma implantação sem complexos da mentira institucionalizada, presente em maior ou menor medida não só em Trump, mas em geral nos discursos da política, do comércio, da religião... do jornalismo...

Caminhamos mansamente em direção a uma sociedade de vigilância em massa na qual a informação é manipulada para manter as pessoas sob controle, como o romance reflete? Orwell imaginou um mundo pós-revolucionário onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura...) foi abolido e esquecido. A nova sociedade materialista que o romance descreve é dividida em três classes: os membros do partido, os “proles” e os “escravos”. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão zela por ti”.

Em uma Londres sinistra, o protagonista, Winston Smith, modesto mas inquieto funcionário do departamento de História do Ministério da Verdade, conhece Julia, empregada do departamento de Ficção do mesmo ministério. Ela opera uma “máquina de escrever romances”: histórias com argumentos simples e personagens estereotipados, semelhantes àquelas que em nosso mundo real hoje são escritas por computadores que usam inteligência artificial. Winston e Julia se apaixonam e tentam se juntar a uma fantasmagórica organização clandestina de dissidentes que, no fundo, sabem estar condenada ao fracasso, porque o poder é invencível. Essa tensão entre o poder esmagador, por um lado, e, por outro, o amor e a liberdade, é a substância do romance.

Deixando de lado notáveis exceções, como o controle exercido pelo Governo chinês sobre sua população e satrapias várias, o onipresente Estado policial todo-poderoso e controlador que Orwell fabulou... não existe. Paradoxalmente, um dos maiores problemas em grande parte do mundo é a fraqueza ou a falência dos Estados. Mas os monopólios todo-poderosos da tecnologia, com seu controle da verdade e sua avidez vampírica por informação, podem ser um substituto plausível para esse Estado fictício. Nesse sentido, também na realidade, O Grande Irmão está te vigiando e te espionando – sim, com uma interface agradável e com a aquiescência e a entusiástica cooperação da massa – por meio das telas, do telefone celular que cada um carrega no bolso, do indelével rastro digital deixado por cada usuário.

Na sociedade ocidental de hoje, o sexo tampouco é reprimido e severamente controlado como em 1984, mas encorajado e exposto. E, no entanto, sua prática na juventude é substancialmente atrasada e reduzida, de acordo com estatísticas oficiais de uma dezena de países do primeiro mundo citadas pela revista cultural norte-americana The Atlantic. Essa demora pode ser a primeira indicação da recessão sexual, sinal de “uma retirada mais ampla da intimidade física que se estende até a entrada na maturidade”. (As causas dessa queda da libido podem ser pressões econômicas, ansiedade, fragilidade psicológica, uso generalizado de antidepressivos, televisão em streaming, estrógenos dispersados pelo plástico no meio ambiente, smartphones, falta de sono, obesidade, excesso de informação... ou o que ocorrer a qualquer analista).

No inferno cartografado por Orwell em seu livro, escrito no pós-guerra, a miséria é generalizada, as pessoas caminham cabisbaixas e tolhidas, os bens de consumo são escassos, a aparência das coisas é cinza, o trabalho é embrutecedor e os horários abusivos. Hoje o mundo real não é assim, pensam os membros do partido. Mas proles e os escravos certamente reconhecem essas paisagens.

Em um dos mais famosos, tétricos e patéticos cenários de 1984, os chamados “dois minutos de ódio”, as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável lembrar das redes sociais, onde hoje qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente.

Outros artefatos e termos usados para descrever o mundo de 1984 foram incorporados à paisagem e à linguagem comum. Orwell concebeu suas profecias como uma admoestação, uma advertência contra um futuro totalitário, seja soviético, seja fascista, e contra o cultivo sistemático da mentira que observou pela primeira vez na Espanha, em Barcelona, durante a Guerra Civil, que lhe deixou surpreso e pensativo ao constatar “com que facilidade a propaganda totalitária pode controlar a opinião das pessoas cultas nos países democráticos”.

O estilo de Orwell é direto e tem uma formidável capacidade de criar empatia com o leitor, que ao lê-lo ouve a voz de um personagem simpático, honesto, próximo, bom. Essa proximidade, é claro, é uma grande virtude literária. Como Camus, escrevia impulsionado por uma obrigação moral. Tinha que expiar seu trabalho como oficial de polícia do império na Birmânia, onde passou cinco anos depois de ter estudado em Eton, e de onde voltou com uma forte consciência política anti-imperialista.

Escreveu com o máximo verismo reportagens sobre os londrinos pobres e se reduziu voluntariamente à condição de vagabundo. Frequentou mendigos em pé de igualdade por um longo tempo. Daí surgiu seu primeiro livro, Na Pior em Paris e em Londres.

Com o mesmo espírito de coerência e sacrifício, quando Franco se levantou contra a República espanhola foi para Barcelona e imediatamente se apresentou como voluntário para lutar na frente. Desta aventura ficou o testemunho de sua Homenagem à Catalunha e o rastro de uma experiência e conhecimentos sobre a lógica do totalitarismo que se refletiria em sua famosa fábula Revolução dos Bichos, e que cristalizou em 1984.

Este romance foi seu legado: ele o escreveu tendo em mente Nós, de Yevgeny Zamyatin, com muito trabalho, dúvidas e correções em uma ilha escocesa ventosa e fria, onde se retirou com esse objetivo, logo depois de ter ficado viúvo de uma esposa muito querida, sozinho, doente de tuberculose – na época muitas vezes letal –, como um longo testamento político. De fato, morreu no ano seguinte à publicação.

O escritor britânico John Lanchester aponta que o mundo de hoje é mais parecido com a distopia daquele que foi professor de Orwell, Aldous Huxley: Admirável Mundo Novo (1932). Esse livro descreve uma sociedade marcada pela ciência e pela tecnologia e entregue a uma “narcotizante promiscuidade sexual”, tranquilizada pelo prazer e pelas drogas (o soma milagroso) e imersa em uma infantilização geral; e coerentemente com isso, narrado em um tom mais leve do que 1984. Para entender o presente, Lanchester propõe uma síntese entre Admirável Mundo Novo e 1984.

Nessa síntese talvez se devam incluir algumas das tendências e inovações que inundam o nosso mundo. Como as chamadas “capacidades aumentadas”– drogas, próteses, implantes cerebrais–, os novos órgãos obtidos com impressoras 3D; os robôs que controlam nossas casas, aprendem e transmitem nossos dados; a realidade virtual que entretém e anestesia...

Orwell não se estendeu em descrições de novas tecnologias e máquinas: colocou o foco em um estado mental e social. É por isso que seus augúrios conectam com os leitores. Como Dorian Lynskey afirma em uma recente biografia de Orwell – In the Shadow of Big Brother (Na Sombra do Big Brother) –, o britânico “estava muito mais interessado na psicologia do que nos sistemas”. Aí reside a chave do poder e dos mecanismos de controle da massa através da mentira e do medo. Isso dificilmente muda.

por

El País