quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Necro, de volta ...

Black Sabbath é a principal influência e o novo disco da Necro, de Alagoas, já começa numa pegada “Hard” a la “Never say die”, com “Noite e dia” – que apresenta, também, as novidades mais perceptíveis em relação ao trabalho anterior: as letras em português e uma maior participação da guitarrista Lillian Lessa nos vocais – aqui, de apoio, mas em algumas faixas seguintes ela assume o vocal principal. Com um ótimo resultado! Banda boa é assim, tem talento sobrando ...

“Dark Redemption”, já conhecida – foi o primeiro single do álbum – vem na sequencia com mais um riff “sabbático” conduzindo a musica em toda a sua primeira parte. A letra é em inglês, mas o vocal é de Lillian. Um novo – e excelente – riff é apresentado na segunda parte, muito bem amarrada por solos de guitarra econômicos e precisos e com um refrão marcante.

“Creatures from the swamp”, a terceira faixa, já começa num clima mais sombrio, com uma bela linha de baixo logo acompanhada pela guitarra, que explode em mais um – isso mesmo, mais um! Que bom! – riff tipicamente “sabbático”. Novamente Lillian nos vocais, novamente mandando muito bem! A psicodelia dá as caras rapidamente no meio da musica, mas cede lugar a um solo de guitarra intercalado por um fraseado que deságua num excelente solo de ... bateria! Muito lindo ver uma banda nova incluir um solo de bateria em meio a uma gravação de um disco em pleno século XXI! Sem medo do "anacronismo"! Sem medo de ser feliz ...

O solo termina com – surpresa! – mais riffs diretamente inspirados na obra imortal de Sua Majestade "Antonio" Iommi, primeiro e único, e a musica segue até o final mesclando solos de guitarra e climas psicodélicos, com a providencial adição de teclados. Perfeita!

“Grito”, o segundo single, é cantada em perfeito português por Pedrinho, com uns backing vocais muito legais da Lillian. A terra natal é evocada na letra, que fala de canaviais – Alagoas é um dos maiores produtores nacionais de cana-de-açucar. E eis que na faixa seguinte, “17 Horas”, nos deparamos com a maior surpresa do disco: uma balada, belissimamente cantada por Lillian! O ritmo lento e naturalmente mais suave, no entanto, é intercalado com passagens mais rápidas e vigorosas, tudo amarrado por um arranjo rico, com cordas e teclados em perfeita sintonia.

A essa altura do campeonato torna-se evidente a grande evolução da banda em relação ao excelente disco anterior, “The Queen of Death” – o que é um feito e tanto! Mas há, também, uma linha de continuidade no trabalho do grupo, evidenciada pelo fato de que duas faixas, "Dark Redemption" e "Creatures from the swamp", são regravações do primeiro EP. E você ainda nem chegou ao fim da audição ...

O “grand finale” vem com “Mente profana”, que, apesar do título em português, é cantada em inglês. Mais climas psicodélicos pelo meio – de uma excelente composição, com bela melodia, grandes riffs e uma ótima introdução – cortesia do excelente baterista Thiago Alef - que, por sinal, entrega uma perfomance impressionante. Todos são ótimos, na verdade! Tudo é lindo, maravilhoso! “Necro” é sensacional! Minha “banda nova” favorita, ao lado – mas à frente – do Far From Alaska, de Natal, Rio Grande do Norte.

Estarão de volta a Sergipe neste final de semana para lançar o disco novo. Serão dois shows inusitados: tocarão no sábado em Itabaiana no bar do Eduardo “Insulto”, ao lado do Batalhão da Polícia Militar – na verdade será na casa do indivíduo, o que certamente garantirá, apesar do inevitável aperto, um clima mais aconchegante! Porque é sempre melhor assim, com todo mundo junto, em clima de confraternização ...

Já no domingo a situação se inverte, pois o show será ao ar livre, em mais uma edição do evento “Clandestino”. O clima de celebração, no entanto, está igualmente garantido, a julgar pelo que foi visto nas edições anteriores.  Dia 28, às 17 Horas - no crepúsculo, portanto. Horário pra lá de apropriado! O local é tradicionalmente informado via facebook apenas no dia marcado. Clique aqui para acessar a página – lembre-se que não é necessário estar conectado ao facebook para ter acesso às informações.

E aqui você ouve – e baixa – o disco.

IMPERDÍVEL !!!

A

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Esqueceram de Lula

Os brasileiros deveriam promover uma festa nacional porque o país saiu do mapa da fome da ONU. Isso não vai acontecer e o motivo é muito feio ...

A vitória histórica do país contra a desnutrição tem um responsável principal, gostem ou não. É o governo Lula e os programas de distribuição de renda que ele iniciou logo depois da posse, em 2003. A fome não foi vencida num ato de vontade mas como projeto de Estado lançado por Lula no discurso de posse, quando anunciou o compromisso — muita gente achou que era só uma demagogia como tantas outras (NOTA DO BLOG: Lembro de uma discussão que tive com meu pai na época em que ele dizia exatamente isso) — de garantir que todo brasileiro fizesse três refeições por dia. A ONU informa que ele falou a verdade.  Mas é claro que não convém lembrar esse feito quando faltam duas semanas para a eleição presidencial ...

Convém reescrever a história, aplicando uma técnica de manipulação stalinista que ensina que se deve modificar o passado em função das conveniências do presente. Herbert de Souza, o Betinho, que foi o porta-voz da Campanha contra a Fome e a Miséria na década de 1990, tem sido lembrado e homenageado depois da mudança no mapa da ONU. Adversário da ditadura militar, com um discurso afinado com as necessidade de seu tempo, Betinho merece ser lembrado. Ele teve um grande papel na mobilização daquele período. Foi o rosto da Campanha contra a Fome. Não custa lembrar, contudo, que até aquela Campanha foi um projeto que saiu de Lula e do Instituto de Cidadania. Com a autoridade de presidente do partido que havia liderando o processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992 Lula levou o projeto da campanha contra a fome para Itamar Franco. Recém-empossado, em busca de ideias para dar rumo a um governo nascido de uma crise que parecia sem fim, Itamar adorou. Convidou Lula para assumir a coordenação da campanha. Sem disposição para tanto, Lula indicou o bispo Mauro Morelli, de reconhecido envolvimento em causas sociais. Com dom Morelli, veio Betinho. Junto com os dois, veio um vice-presidente do Banco do Brasil que, autorizado por Itamar e estimulado por Lula, seria o principal responsável pela logística da campanha. Era Henrique Pizzolato, que abriu agências e mobilizou a estrutura capilar da instituição para coletar e distribuir alimentos pelo país inteiro.

A mobilização popular contra a fome, a partir de então, foi um exemplo de cidadania e solidariedade que os brasileiros deram a si próprios. Também foi uma resposta a uma situação de emergência. Cavalgando um projeto de redução do papel do Estado e corte vertical de benefícios sociais, nos anteriores anteriores o governo de Fernando Collor promoveu uma redução drástica nos programas de assistência social. Criada por Getúlio Vargas na década de 30, responsável pelo pouco atendimento aos mais pobres, a LBA foi fechada em clima de moralização do serviço público, com auxílio de escândalos de sempre. Herança de José Sarney, que garantia alguma proteína às famílias submetidas a pior miséria, o programa do leite foi abandonado. Era a fome e a miséria — reconheciam todos.

A campanha da Fome trouxe os resultados positivos mas irregulares que as doações filantrópicas e o trabalho voluntário permitem. Na campanha de 2002, a fome estava lá, como assunto dos brasileiros.
Lula transformou a luta contra a fome numa política de Estado. Criou o Bolsa Família como um programa de massas para 14 milhões de famílias — antes, aonde havia, era uma espécie de amostra-gratis. Também definiu uma política de valorização do salário mínimo, reforçou o crédito para a agricultura familiar e tomou outras medidas na mesma direção. O saldo é que um naco importante da riqueza nacional mudou de lugar e chegou a mesa dos pobres e desnutridos. Não pediu donativos. Distribuiu renda. Assim a fome foi vencida.

O surrealismo dessa situação é fácil de reconhecer. Depois de apanhar dia após dia por causa das políticas de seu governo contra a fome, a imagem de Lula é apagada da fotografia quando até a ONU reconhece que elas deram certo.

Pode?

por Paulo Moreira Meite

No Blog

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A INQUISIÇÃO

Atenção: imagem meramente ilustrativa ...
Ainda era madrugada quando uma multidão tomou conta da Plaza del Volador, na Cidade do México, naquele 11 de abril de 1649. Muita gente tinha viajado dias a fio para garantir um dos 16 mil assentos perto do palco – uma gigantesca plataforma de 860 metros quadrados adornada com figuras de crianças tocando trombetas. Depois de um mês de preparativos, chegara o dia do auto-de-fé, a representação terrena do Dia do Juízo. A grande atração da festa eram 13 prisioneiros acusados de professar o judaísmo em segredo. Eles já haviam sido perdoados uma vez, mas reincidiram no crime. Os inquisidores os chamavam de “relaxados ao braço secular” – ou seja, saíam da responsabilidade da Igreja para serem mortos pelas autoridades do governo.

Ao amanhecer, a procissão com os acusados deixou a sede do Santo Ofício em direção ao palco para a celebração da missa. No começo da fila, 57 bonecos (as “efígies”), que representavam hereges fugidos ou já mortos, eram carregados. Depois iam dezenas de prisioneiros “reconciliados”, que teriam direito de viver desde que não voltassem a cometer heresias. Atrás deles, os 13 condenados à morte, segurando uma cruz e vestindo um chapéu em forma de cone (chamado coroza) e o sambenito (túnica com desenhos do demônio). Os inquisidores, a cavalo, vinham por último na fila do cortejo, seguidos por uma mula enfeitada com sinos de ouro e prata, que carregava um baú com os relatórios dos processos e as sentenças dos acusados.

Depois da missa, os relaxados ouviram sua sentença de morte no palco. Quase todos garantiram ser bons cristãos e pediram misericórdia. Apenas um, Tomás Treviño de Sobremonte, admitiu que era judeu e não implorou perdão. Por isso, foi queimado vivo. Os outros tiveram um destino mais piedoso: o garrote – e só depois foram jogados, já mortos, na fogueira. Os bonecos também arderam nas chamas. Como os hereges que eles representavam não estavam presentes, esse ritual era chamado de “queima em efígie” e, na prática, servia para encher de vergonha seus descendentes. Já os reconciliados receberam penas “leves”, como açoites, torturas e confisco de bens. A festança varou a noite, com a platéia alvoroçada.

O auto-de-fé de 1649 foi talvez o maior já realizado nas Américas. Mas hoje os historiadores sabem que espetáculos assim eram apenas a ponta do iceberg do que realmente foi a Inquisição. Agindo em nome de Deus, mas movida por interesses políticos e econômicos, ela espalhou o medo e a discriminação ao longo de quase sete séculos. Os inquisidores e seus representantes agiram na Europa, Ásia e América, lugares tão variados como as vítimas que perseguiram: judeus, muçulmanos, hindus, protestantes, bruxas, bígamos, sodomitas ou quem quer que cometesse o crime de pensar diferente.

Origens medievais

Os historiadores fazem distinção entre a Inquisição medieval (ou papal), que vigorou na França, Itália e outros países europeus a partir do século 13, e a Inquisição moderna, que alcançou seu apogeu na península Ibérica entre os séculos 15 e 18. “Não há uma data certa do início da Inquisição medieval. Ela foi fruto de uma longa evolução na qual a Igreja se sentiu ameaçada em seu poder”, diz a historiadora Anita Novinsky, autora de Inquisição. “Os questionamentos sobre a verdade absoluta do catolicismo aumentaram a partir do século 13, e os indivíduos que partilhavam dessas idéias eram chamados de hereges.”

O termo “heresia” vem do grego hairetikis, que significa “aquele que escolhe”. De fato, na Grécia antiga a heresia era apenas uma escolha do que a pessoa achava melhor para si, sem qualquer conotação religiosa. Na Idade Média, porém, a Igreja expandiu esse conceito de tal forma que a heresia passou a abranger todas as opiniões contrárias aos dogmas católicos. O combate aos hereges começou a tomar forma com um tratado escrito no século 12 pelo abade Pedro, o Venerável, que chefiava a abadia de Cluny, na região francesa da Borgonha. Ele afirmava que, para eliminar a heresia do seio da Igreja Católica, que chamava de “Corpo de Cristo”, era necessária uma purgação, composta de quatro fases: investigatio (investigação), discussio (discussão), inventio (achado) e defensio (defesa). Aquele era o passo-a-passo da futura Inquisição. “Desse modo, o tratamento aplicado à infecção no Corpo de Cristo começava com pesquisas [daí o termo ‘inquisição’] que os bispos e seus representantes realizavam antes da criação de tribunais especializados”, diz o historiador britânico John Edwards, da Universidade de Oxford.

Para que a caça aos hereges surtisse efeito, era necessário o apoio do Estado. “Embora a Inquisição medieval tenha sido idealizada e dominada pelo papa, ela contou com o auxílio dos soberanos”, diz Anita. Isso mostra o caráter político das perseguições, numa época em que não havia clara separação entre Igreja e Estado. O divisor de águas nessa empreitada foi o 4º Concílio de Latrão, convocado pelo papa Inocêncio III em 1215. Seu principal objetivo era resolver o problema dos cátaros (ou albigenses), um grupo de cristãos do sul da França que contestava os dogmas da Igreja. Ficou decidido que quem se negasse a aceitar a fé católica seria excomungado e entregue à autoridade secular (ou seja, aos funcionários da coroa) para ser castigado, pois a Igreja não podia derramar sangue.

O sacerdote espanhol Domingos de Gusmão botou o plano em prática com a criação da Milícia de Jesus Cristo, cujos membros estavam dispostos a pegar em armas para defender a fé. “Esses milicianos foram os primeiros a usar técnicas de crueldade e violência, copiadas depois pela Inquisição moderna”, diz Anita. Como muitos cátaros fugiram da França para o reino de Aragão, na atual Espanha, não tardou para que os inquisidores realizassem lá violentos espetáculos de massa, que seriam os precursores dos autos-de-fé modernos – em 1314, por exemplo, seis hereges foram jogados no fogo.

O método de perseguição dos inquisidores era simples: eles visitavam os povoados, em geral acompanhados de funcionários da Justiça local, e convocavam a população na igreja principal. Cada pessoa tinha que confessar seus erros e os dos amigos e parentes no prazo médio de 30 dias. Os processos eram feitos na base da delação, dos rumores, do diz-que-diz, e contavam com espiões locais conhecidos como “familiares” – homens influentes da sociedade. Se os inquisidores não juntassem provas de heresia naquele prazo, não tinha problema: os suspeitos eram condenados mesmo assim a penas como excomunhão, confisco de bens, prisão, açoite e mesmo morte. As fogueiras davam um caráter mítico aos autos-de-fé, que atraíam o povo com promessa de redenção.

O mais famoso inquisidor medieval foi o teólogo catalão Nicolau Aymerich, autor do Directorium Inquisitorium, uma espécie de manual da Inquisição. Ele dizia que o segredo era a base do trabalho, pois protegia os delatores. A obra também “ensinava” como identificar feiticeiras e contribuiu para a histeria da caça às bruxas, um fenômeno paralelo à Inquisição que chegou ao auge entre os século 15 e 17. Os historiadores estimam que 50 mil pessoas (75% delas mulheres) tenham sido queimadas por suspeita de bruxaria, pacto com o diabo ou por “lançar mau-olhado” em províncias de países como Alemanha, Suíça, Polônia, Dinamarca e Inglaterra.

Novas motivações

“A Inquisição medieval entrou em decadência com o Renascimento no século 15”, diz a historiadora Neusa Fernandes, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. “Porém, ela seria revigorada na Espanha e em Portugal, perseguindo não apenas os hereges, mas sobretudo uma nova gama de criminosos: os judeus.” Mas por que eles?

Tudo começou no século 4, quando o cristianismo deixou de ser uma seita perseguida para se tornar a religião oficial do Império Romano. Já em 325, o Concílio de Nicéia culpou os judeus pela morte de Jesus (acusação só retirada em 1965, no Concílio Vaticano 2o). Boa parte dessa hostilidade procedia do próprio Novo Testamento – nele, há menções de que os judeus sejam filhos do diabo e que se culparam pela morte de Jesus. “Os Evangelhos foram escritos muitas décadas depois da morte de Jesus por pessoas que não conheciam de primeira mão os acontecimentos de sua vida, mas que viveram no clima de rivalidade que a incipiente comunidade cristã mantinha com o judaísmo”, diz o historiador americano Daniel Goldhagen, da Universidade de Harvard. Pregadores cristãos trataram de falar mal dos judeus e, assim, a Europa medieval viu crescer vários mitos: eles teriam chifres e rabos, fariam rituais com sangue de crianças cristãs e seriam os responsáveis pela peste negra.

Em 1215, o 4º Concílio de Latrão (o que condenou os cátaros) proibiu o casamento entre judeus e não-judeus, impediu os judeus de exercerem funções públicas e os obrigou a usar distintivos sobre as roupas, como a estrela amarela imposta por Luís IX na França. O anti-semitismo aumentava cada vez mais. A Inglaterra expulsou os judeus de seu território em 1290 e a França, em 1306. A Espanha foi mais dura: cerca de 4 mil foram assassinados em Sevilha apenas em 1391. Para escapar da morte, milhares de judeus espanhóis procuraram o batismo. Isso criou três novos grupos: os judeus que se salvaram dos massacres e mantiveram a fé judaica, os que se converteram ao cristianismo mas praticavam a religião secretamente (criptojudeus) e os que se converteram de verdade (conversos). Estes últimos esperavam ter todos os direitos dos cristãos. Mas, na prática, foi diferente. Eles continuaram sendo culpados pelos males da nação e ganharam o apelido de marranos (porcos).

As perseguições também tinham sua motivação econômica, já que os judeus haviam alcançado postos importantes na economia e nas universidades. A política racista imperou na Espanha através dos “estatutos de pureza de sangue”. Eles asseguravam que nenhum descendente de judeu ou mouro podia freqüentar universidades, ingressar em ordens religiosas e militares ou ter cargos políticos. Os candidatos a esses postos precisavam apresentar a “habilitação de genere”, uma espécie de árvore genealógica que mostrava que não tinham entre os antepassados nenhuma gota de sangue “impuro”. A essa altura, portanto, o velho discurso religioso antijudaico tinha virado um discurso racial contra os judeus convertidos. Cenário perfeito para o início da Inquisição moderna.

Edição moderna

Poucos casamentos mudaram tanto a história como o da rainha Isabel, de Castela, com o rei Fernando, de Aragão. A boda de 1469 deu impulso à unificação da Espanha e selou o destino dos judeus na península Ibérica. Logo que subiram ao trono, os reis católicos viram que precisavam do apoio da Igreja e da burguesia para consolidar seu poder. Também tinham de encher os cofres para expulsar os mouros de Granada, o último bastião muçulmano na península desde a invasão no século 8 pelos exércitos islâmicos. A solução? Reeditar a Inquisição, tendo agora como alvo principal os judeus convertidos, e usar os lucros dos confiscos das vítimas para financiar a guerra contra os mouros.

O plano deu certo. Em 1478, o papa Xisto IV autorizou a criação oficial do Tribunal da Inquisição na Espanha – embora duvidasse das intenções religiosas, acabou aceitando a idéia para manter a cooperação entre a coroa e a Santa Sé. “Apesar daas funções santas que alegou, o Tribunal da Inquisição foi uma instituição vinculada ao Estado e respondia aos interesses das facções do poder: coroa, nobreza e clero”, diz Anita. Sevilha foi o palco do primeiro auto-de-fé da Inquisição moderna em 1481, quando seis pessoas morreram na fogueira. Segundo o historiador espanhol Andrés Bernáldez, mais de 700 convertidos seriam queimados e outros 5 mil presos ali até 1488. “Diferentemente da Inquisição medieval, cujos inquisidores eram nomeados pelo papa, na moderna eles eram nomeados pelos reis e atuavam por intermédio dos tribunais criados nos reinos, com a autorização do papa”, diz Anita.

Em 1483, Xisto IV autorizou a criação de tribunais em Aragão, Catalunha e Valência. Quem assumiu como inquisidor-geral foi Tomás de Torquemada, chefe do mosteiro dominicano de Santa Cruz em Segóvia. Torquemada iniciava os processos com base em denúncias de todo tipo, inclusive por carta anônima. Não era preciso provar nada e o acusado não sabia quem era seu delator. Os tribunais julgavam dois tipos de crime. Os que eram contra a fé (e tinham como acusados judeus, islâmicos e protestantes, entre outros) eram mais graves e passíveis de morte. Já contra a moral (acusados de bigamia, sodomia e bruxaria, por exemplo) eram punidos com prisão e outros castigos mais leves. O confisco de bens valia para todas as vítimas.

Com a grana dos confiscos, Fernando e Isabel conseguiram derrotar os mouros em Granada em 1492, enquanto a Inquisição começava a se expandir pelas colônias da América. Naquele mesmo ano, os reis católicos decretaram a expulsão da Espanha de todos os judeus que não aceitassem a conversão imediata. Quase 150 mil judeus atravessaram a fronteira em direção a Portugal, enquanto outros 50 mil se dirigiram ao norte da África e à Turquia. Os mouros da Espanha também tiveram que se converter ao cristianismo. Seus descendentes seriam desterrados de lá mais tarde, em 1609.

Em Portugal, até então, cristãos, muçulmanos e judeus ainda mantinham uma boa convivência. Mas o rei português dom Manuel I acabara de fazer um contrato de casamento com Isabel, filha dos reis católicos espanhóis. E uma das cláusulas exigia que ele expulsasse os judeus também de Portugal. Como os judeus eram grandes negociantes e respondiam por uma parcela importante da economia, o monarca preferiu transformá-los em cristãos-novos, com um batismo forçado em 1497. Claro que muitos não abriram mão da fé com aquele banho coletivo de água benta. Por isso, os portugueses começaram a acusar os cristãos-novos de serem falsos cristãos. A violência explodiu em 1506, numa missa de Páscoa no mosteiro de São Domingos, em Lisboa. Um cristão-novo dissera que um suposto milagre era apenas um reflexo da luz e foi espancado até a morte. A raiva contra ele se espalhou pelas ruas, instigada por frades. Resultado: três dias de carnificina e cerca de 2 mil mortos.

Em 23 de maio de 1536, o rei dom João III conseguiu autorização definitiva do papa para instalar a Inquisição em Portugal. Nos anos seguintes, as fogueiras dos autos-de-fé arderam em Lisboa, Coimbra, Évora e outras cidades. Muitos judeus fugiram para lugares onde podiam assumir sua identidade, como Amsterdã e Istambul. Outros continuaram a professar secretamente sua fé nos porões das casas, correndo o risco de serem pegos.

Legado totalitário

A Inquisição acabou oficialmente em 1821 em Portugal e em 1834 na Espanha. Depois disso, o Santo Ofício ainda vigorou na Itália e mudou duas vezes de nome até, em 1965, passar a ser chamado de Congregação para a Doutrina da Fé. No ano 2000, o papa João Paulo II oficializou o pedido de desculpas pelos “erros cometidos a serviço da verdade, por meio do recurso a métodos não-evangélicos”.

Para os estudiosos, o problema da Inquisição vai muito além da quantidade de mortos: sua herança discriminatória é sentida ainda hoje. “A Congregação para a Doutrina da Fé advertiu e puniu teólogos contemporâneos que têm questionado alguns aspectos da doutrina católica e a infalibilidade da Igreja”, diz Anita. Um deles foi o brasileiro Leonardo Boff, condenado em 1984 pelo então cardeal (atual papa emérito) Joseph Ratzinger a um ano de “silêncio obsequioso” por causa dos questionamentos à hierarquia eclesiástica expostos no livro Igreja: Carisma e Poder. Durante o interrogatório, Boff se sentou na mesma cadeira ocupada mais de 300 anos antes pelo físico Galileu Galilei.

Mas o legado da Inquisição ultrapassa as fronteiras do cristianismo. “Com seu caráter de polícia do pensamento, ela impôs um estado de paranóia e perseguição institucional que é um claro antecedente dos totalitarismos atuais”, diz o historiador inglês Toby Green. Exemplo disso foi o regime nazista, que levou às últimas conseqüências a noção de pureza da raça. Para Neusa Fernandes, o trabalho do Santo Ofício continua vivo no racismo, na censura, no controle moral, na miséria, na violência. Os movimentos fundamentalistas atuais, embora de origens diversas, também compartilham a atitude dos inquisidores. “Eles pensam que são donos de toda a verdade e que os outros são hereges”, diz o escritor americano Richard Zimler, autor de O Último Cabalista de Lisboa. “Osama bin Laden e os inquisidores portugueses do século 16 se entenderiam muito bem, pois sua postura moral é exatamente a mesma.”

NOTA DO BLOG: Em tempos de ofensiva fundamentalista na política, faz-se necessário recordar os resultados catastróficos dessa mistura desastrosa entre religião e estado ...

ESTADO LAICO, SEMPRE !!!!

Confissão forçada
Principais métodos de tortura

A Roda

Para forçar a vítima a falar, os inquisidores amarravam-na na parte externa da roda com brasas embaixo. Assim, o corpo era queimado à medida que a roda ia girando. As articulações também sofriam sérios danos. Essa tortura foi muito utilizada na Inquisição medieval, em países como Alemanha e Inglaterra. Outra versão da roda tinha ferros pontiagudos, em vez de brasas, para rasgar a pele.

O Potro

O réu ficava deitado sobre uma cama com ripas, com pernas e braços amarrados por cordas. Usando um arrocho, os torturadores apertavam as cordas até dilacerar a carne. Como os métodos de confissão eram mantidos em segredo, os inquisidores evitavam utilizar essa tortura nos 15 dias anteriores ao auto-de-fé, para que o povo não visse as cicatrizes do réu.

O Pêndulo

A vítima era amarrada pelos pulsos, atrás das costas, com correias de couro. Em seguida, era levantada por cordas e roldanas, solta bruscamente e segura de novo antes de o corpo alcançar o solo. Os solavancos destroncavam as juntas e podiam aleijar. Esse tormento tinha variações, como a polé: a vítima era amarrada também pelos tornozelos e erguida de barriga para cima.

A Tortura d’água
Nessa espécie de afogamento, o acusado era preso em uma mesa de barriga para cima. Os inquisidores abriam sua boca e jogavam água por um funil, fazendo-o engolir vários litros. Também colocavam panos molhados dentro da garganta, que podiam causar asfixia. Mas, como nos outros métodos, o objetivo não era matar, e sim forçar a confissão de heresias e a delação.


Tribunais no Brasil
Inquisição não era oficial, mas funcionava como se fosse

Embora quase não se fale desse assunto, houve, sim, Inquisição no Brasil. E ela disseminou o racismo aqui por mais de 200 anos. “A Inquisição nunca foi oficialmente instituída no país, mas nem precisava. Qualquer religioso regional fazia o papel de inquisidor”, diz a historiadora Neusa Fernandes, autora do livro A Inquisição em Minas Gerais no Século XVIII. “Bispos, padres, párocos, todos eram vigias, todos delatavam. A pessoa era presa, o processo era aberto e ia para Lisboa.” O Tribunal da Inquisição funcionava aqui através de representantes locais, os “comissários”. Eles contavam com a ajuda dos “familiares”, homens influentes que espionavam e faziam denúncias, e dos “visitadores”, funcionários do Santo Ofício que vinham da metrópole para acompanhar os processos de devassa. Estima-se que mais de mil pessoas tinham sido presas e levadas para os cárceres de Portugal e cerca de 30 condenadas à morte na fogueira. A maioria era formada por cristãos-novos, mas também havia acusados de feitiçaria, blasfêmia, bigamia, sodomia, concubinato e até frades apontados como fornicadores. Como o Santo Ofício sempre agiu no rastro dos homens de negócio, que rendiam confiscos mais polpudos, a caçada pegou para valer no século 18 com a descoberta do ouro em Minas Gerais. A Inquisição exigia ainda que candidatos às ordens religiosas brasileiras provassem que não tinham antepassados “hereges”. Documentos arquivados na Cúria Metropolitana de São Paulo mostram, por exemplo, que o poeta Cláudio Manoel da Costa foi recusado por “suspeita de sangue”.


Terror mundo afora
Portugal e Espanha "exportaram" o Santo Ofício para suas colônias

Goa

O menor estado da Índia foi conquistado por Portugal no século 15 e se transformou em rota importante do comércio de especiarias. Em pouco tempo, também virou palco da mais sanguinária das inquisições portuguesas, que perseguiu principalmente hindus convertidos ao catolicismo. De 1536 até o fim do século 17, mais de 3 mil pessoas foram julgadas em 37 autos.

Cartagena

O Tribunal da Inquisição foi criado ali em 1610 para complementar os tribunais de Lima e do México na América espanhola. Nos 201 anos seguintes, essa praia paradisíaca da Colômbia ficou conhecida pelos autos-de-fé contra cristãos-novos, bígamos e feiticeiras. Hoje é possível visitar o Palácio da Inquisição, local das mais de 500 execuções, e conhecer a câmara dos tormentos e o pavilhão das bruxarias.

Cabo Verde
Nem esse pequeno arquipélago situado a 600 quilômetros da costa africana escapou do Santo Ofício, que atuou na esteira do comércio de escravos. De 1536 a 1821, os visitadores denunciaram 233 por judaísmo, 38 por blasfêmia, 104 por feitiçaria, oito por bigamia, 85 por sodomia e 40 por desrespeito aos sacramentos. Detalhe: a população da época não superava os 10 mil habitantes.


Fonte: Aventuras na História

por Eduardo Szklarz

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domingo, 21 de setembro de 2014

Os Banqueiros e a política ...

Nos Estados Unidos o respeitado Riggs Bank, de Washington, conhecido pela tradição de ser o banco oficial de todos os presidentes, sucumbiu ao ser descoberto numa indesculpável travessura: abrigava contas milionárias de Augusto Pinochet, o ditador chileno, abertas com passaportes e nomes falsos. Obviamente o dinheiro sujo do genocida andino chegou aos seus cofres com a conivência da diretoria. Deixaram, assim, os banqueiros do Riggs de frequentar o Salão Oval para o amargor de depoimentos em chefaturas policiais e audiências nos tribunais de justiça.

Na Argentina, dois bancos mantiveram relações carnais com os milicos golpistas pós-1976, o ano da derrubada da viúva de Perón e instauração do regime cruel que sequestrou, matou e desapareceu com cerca de 30 mil pessoas. O Banco de Intercâmbio Regional (BIR) e o Banco Oddone tinham tentáculos dentro dos quartéis e passe livre na Casa Rosada, ocupada alternadamente por generais ladrões e assassinos. Mas suas contabilidades – escondidas pela profusão de patrocínios culturais, badalações no society platino e eventos no exclusivo Jockey Club portenho – estavam podres. Nem os militares ousaram salvar os banqueiros falidos quando Jose Alfredo Martinez de Hóz, o czar da economia, decretou as quebras.

Enquanto milhares de correntistas iam do escândalo nas portas (cerradas) das agências ao “simples” suicídio, os banqueiros fugiram para o exterior ou acabaram nos calabouços do regime. A influência política de nada valeu diante da revolta popular e da comoção causada pela debacle sistêmica provocada pela quebra do BIR e do Oddone. E eram todos bancos presumivelmente “sadios” e com forte proteção política.

José Rafael Trozzo, o presidente do BIR, era a voz de apoio ao regime entre o empresariado mais saliente, e Luis Alberto Oddone, dono do banco que levava seu sobrenome, chegou mesmo a custear do próprio bolso a fortuna de US$ 700 mil (valores de 1976) pagos à agências internacionais de relações públicas e lobby para que propagandeassem os feitos do novo regime argentino. Trozzo, avisado por um general camarada, fugiu para Miami. Oddone resolver peitar Martinez de Hóz e passou longa temporada numa masmorra nos arredores de Buenos Aires.

Mais curioso foi o final do banqueiro Ruben Beraja, do Banco Mayo, presidente da DAIA (Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas) e destacado membro da corte de Menem, nos anos infames do neoliberalismo platino. Diante de uma fraude monstruosa, um rombo que atravessava a casa das centenas de milhões de dólares, o BCRA (o Banco Central de lá) simplesmente decretou a liquidação do Mayo. Beraja se encontrava em Washington, como feliz e prestigiado integrante da comitiva do presidente Carlos Menem. No hall do hotel, a caminho da Casa Branca, Carlos Korach, mafioso chefe-de-gabinete da Casa Rosada, o desconvida na frente dos presentes e lhe dá com crueza a notícia do estouro de seu banco: “Te jodeste, hermano”. Nem sempre a proximidade com o poder e a intimidade com os poderosos consegue segurar um banco quebrado. Dinheiro é coisa séria.

Ricardo Espirito Santo Salgado comandou por muitos com mão-de-ferro o banco que leva o sobrenome da família materna. Ganhou o popular apelido de “o-dono-disto-tudo” e recebia presidentes, primeiros-ministros e autoridades monetárias em sua deslumbrante casa nos arredores de Lisboa, talvez uma das mais lindas da Europa. Elegante e arrogante, impôs-se na política portuguesa, na de Moçambique, na de Angola e, também, recebeu Marcos Valério e uns sôfregos emissários do delator Roberto Jefferson, então influente dono do PTB, para negociações mirabolantes acerca de aplicações das reservas do tesouro brasileiro. Que, é claro, jamais foram feitas.

O sólido banco de Ricardo E. S. Salgado não era tão sólido quanto parecia, e seu espírito como banqueiro estava longe de ser santo. Hoje, depois de apeado da presidência do antigo colosso lusitano, espera em prisão domiciliar a decisão da Justiça sobre propinas pagas, propinas recebidas, desvios de fundos e balancetes dignos de Ionesco. Não sem antes ter deixado nas burras do tesouro a bagatela de três milhões de euros - valor arbitrado como fiança pelo direito de não ir (por enquanto) mofar num cárcere lisboeta qualquer. Sabe o que aconteceu ao ex-dono-disto-tudo? Encontrou pela frente um primeiro-ministro corajoso, um ministro da Fazenda sério e um juiz imparcial. O futuro do ex-banqueiro que comandou governos e tratava dignatários por “tu” não é nada alvissareiro.

Voltemos ao patropi.

Ângelo Calmon de Sá despachava em histórico edifício na Cidade Baixa, em Salvador, sede do então centenário Banco Econômico. Não fitava as pessoas, mal as cumprimentava e um dos seis elevadores estava permanentemente interditado. Só o “doutor Ângelo” podia usá-lo. Estava em Paris, numa suíte do George V, tomando champanhe Cristal Rosé Brut Imperial com dona Ana Maria, mas o “seu” elevador, lá no centro histórico lindo e fétido de nossa primeira capital, estava fechado aos mortais. Ele era uma semidivindade baiana. Não estava entronizado no altar da Igreja do Bonfim nem flutuava entre os imensos Orixás do genial escultor Tati Moreno nas águas escuras do Dique do Tororó.

Os governadores da Bahia passavam pela opulenta casa, majestosamente plantada entre mangueiras frondosas, lá no alto de um dos vales rasgados no ventre soteropolitano, prestando-lhe vassalagem e os salamaleques de praxe. Muitas e muitas vezes o “doutor Ângelo” viajava ao Rio, São Paulo ou Brasília, sozinho, aboletado em um de seus dois jatos Falcon, enquanto seus assessores diretos, velhos diretores e gerentes fiéis o seguiam como mortais que eram em voos comerciais. Ministro da ditadura militar e de Collor, presidente do Banco do Brasil, nome sempre lembrado para concorrer ao governo da Bahia, industrial com várias fábricas da Coca-Cola, imenso plantador de cacau, criador de gado da melhor raça, latifundiário de terras que se perdiam no horizonte. Financiou pesadamente todos os partidos, com preferência pela Arena, PDS e PFL, sem se esquecer de encher os cofres de FHC em 94. Pois meses depois - e com dezenas de deputados e senadores comandados pelo inefável ACM atravessando a rua e invadindo o Palácio do Planalto para pressionar em favor do “doutor Ângelo” e do seu agonizante bancão – o mesmo FHC foi obrigado a decretar o fim do Econômico. Estava podre.

Do “doutor Ângelo” sobrou uma dívida imensa, recordações cinzentas e uma pasta rosa, providencialmente deixada em sua mesa na presidência do Econômico, com a contabilidade paralela onde constavam generosos aportes aos políticos de suas relações, de ACM a FHC, passeando por todo o abecedário.

José Eduardo Andrade Vieira era o quarto dos filhos do velho Avelino, o mais destacado banqueiro paranaense. Dois irmãos morreram no mesmo acidente aéreo. O terceiro, de enfarte fulminante. Sobrou ele, a quem não estava destinada a tarefa de comandar o império iniciado pelo pai. Como o J. Pinto Fernandes, do poema do mestre Drummond, “Zé do Banco” não tinha entrado na história, mas com o Bamerindus ficou.

Com muito trabalho e muita simpatia o patriarca havia feito de um tamborete (o Banco Mercantil e Agrícola do Norte do Paraná) nascido em Tomazina, uma pobre cidadezinha, o portentoso Bamerindus, um dos maiores bancos do Brasil nas décadas de 50, 60, 70, 80 até sua quebra na metade dos anos 90. Zé Eduardo até que se saiu bem. Liberal, generoso, recrutou executivos respeitados no mercado, jamais teve seu nome envolvido em negociatas ou corrupção, investiu no marketing e fez de seu Bamerindus uma marca moderna, simpática. Surpreendeu os que dele pouco esperavam. Mas se meteu na maldita da política, comprou um partido, o  PTB, comprou um mandato de senador pelo Paraná, virou ministro de Itamar Franco, financiou pesadamente FHC (que fez sua campanha nos jatinhos do banco), virou ministro do governo do tucano e quebrou bonito.

De uma casa bancária, o extinto Banco Nacional, Paulo Henrique Cardoso sacou a herdeira, Ana Lúcia Magalhães Pinto, com quem manteve casamento de 17 anos, do qual nasceram filhas gêmeas. Viajavam Brasil e mundo afora num jatinho da Líder mantido à disposição, mantendo imensa distância de qualquer coisa que lembrasse trabalho. Os cunhados pagavam as contas e ajudaram o pai do cunhado diletante a eleger-se presidente, sendo um de seus maiores doadores. Até que em 1994, com milhares de empréstimos a clientes fictícios gerados pelo contador Clarimundo Sant’Anna na tentativa de salvar a casa já em escombros, o Banco Nacional já dava mostras de sua precariedade.

No réveillon de 1994, véspera de assumir o Palácio do Planalto, o recém-eleito presidente aparece ao lado de Marcos Magalhães Pinto, presidente do Nacional e irmão de sua nora Ana Lúcia, risonhos numa opípara festança de réveillon da família. Eles, os discretos banqueiros de Minas Gerais, já viviam o outono de uma antiga opulência. Em 1995, ainda no primeiro mandato de FHC, o Banco Central decreta a liquidação do Nacional (o Unibanco, hoje Itaú, pegou o filé da massa falida, deixando a “banda podre” para o contribuinte). Nem o futuro das netas, nem o farto dinheiro recebido pelo PSDB na campanha, conseguiram impedir a ação saneadora do Banco Central. Contrafeito, a FHC só restou assinar a sentença de morte.

Dois meses depois, PHC deixa Ana Lúcia e suas gêmeas e se instala num hotel da grã-finíssima Avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema. O rombo bilionário, que extinguiu o Banco Nacional - do qual a mulher de PHC era herdeira e acionista igualzinho a “educadora” Neca Setúbal - é tido como a maior fraude financeira da história do Brasil, pois, ao que se sabe, atingiu quase um terço do dinheiro circulante. Sejamos mais didáticos: o rombo deixado pelos então parentes de FHC equivalia a mais de R$ 3,00 de cada R$ 10,00 em circulação no país!

Vamos passear de novo pelo mundo.

Nélson Mezerhane é um judeu venezuelano, elegante e simpático. Homem de coragem, financiou a oposição e resolveu enfrentar o regime do coronel Hugo Chávez. Seu Banco Federal não era o maior da Venezuela, mas estava entre os melhores, com centenas de milhares de clientes e uma rede de agências espalhadas por todo o país, investimentos em outras empresas e boa fama no mercado. A colônia judaica local não entendeu o que achou ser “loucura” do seu mais destacado integrante e benfeitor. O problema é que a carta-patente, aquela autorização de funcionamento de uma instituição financeira, é dada pelo Banco Central, a autoridade monetária do país. Preciso contar o resto da história? Mezerhane teve sorte. Sorte e um jatinho. Está em Miami, sem banco, porém livre de uma série de “boletos de captura”, as temidas ordens de prisão.

Outros banqueiros já se envolveram na política e são testemunhos do que, sempre e inevitavelmente, acontece aos que confundem o ronco da história com o tilintar das moedas. Quando financiam candidatos, pagam contas de campanha, participam diretamente do movimento eleitoral, é sinal de que estão com algum grave problema, algo muito sério a ser escondido. Quando se imiscuem na vida pública e no processo eleitoral o fazem em busca de proteção política e salvação imediata. Ou são autores de rombos colossais ainda não revelados ao “mercado” ou pressentem o estouro próximo da boiada, por conta de multas, sonegações, contabilidades paralelas, perdas maquiadas em balanços fictícios, negócios mal feitos, fusões ou incorporações que não geraram o ganho de competitividade e de caixa esperados.

O espanhol Mário Conde, do Banesto (Banco Español de Crédito), era locomotiva da alta sociedade madrilena e banqueiro da família real. Na lista dos 10 homens mais elegantes da Espanha, dos 10 homens mais admirados da Espanha, dos 10 homens mais respeitados da Espanha, dos 10 homens mais influentes da Espanha, dos 10 maiores filantropos da Espanha, dos 10 maiores mecenas da Espanha, dos 10 maiores financiadores de partidos e políticos da Espanha. E o seu banco, um dos 10 maiores da Espanha, não tinha caixa 2, mas tantas contabilidades paralelas a esconderem sua situação pré-falimentar, que passavam das 10. Quebrado em 1993, preso e condenado, pegou 10 anos de cadeia.

Mas, também, há banqueiro que fica bem na história.

O embaixador Walther Moreira Salles foi um dos grandes brasileiros do seu tempo. Iniciador de grandes negócios, visionário, serviu aos governos de Getúlio, JK e Jango. Foi ministro da Fazenda, duas vezes embaixador em Washington, negociador de nossa dívida externa (na melhor das negociações que já fizemos). Angariou imenso prestígio e multiplicou a fortuna iniciada pelo pai no sul de Minas Gerais, na cidade de Poços de Caldas, com um armazém de secos e molhados. Mas nunca foi político, tendo até rechaçado um convite de JK para ser o candidato do PSD ao governo de seu Estado. Apesar disso, atuou com desenvoltura nos bastidores do poder, sem jamais tornar-se um operador político ou o impulsionador de candidaturas ou candidatos.

O ditador Costa e Silva lhe devotava verdadeiro horror. O motivo era prosaico: levou um chá-de-cadeira de Jânio Quadros (a quem mandou cassar em 64 para depois assumir a autoria da violência às gargalhadas) e, incomodado, viu que era Moreira Salles quem saia da sala do então presidente eleito. Em 68, com o AI-5, resolveu cassar o elegantíssimo e educadíssimo banqueiro. Delfim Netto, consultado acerca da estultice já transformada em ato prestes a ser assinado, fez o chefe mudar de idéia: “Tudo bem, presidente. Mas o Walther tem mais crédito que o Brasil”.

Olavo Setúbal, um engenheiro cartesiano e formal, conhecido pela aplicação nos negócios e pela inegável inteligência, construiu um império baseado no trabalho e em golpes da boa sorte. Herdou do tio um banco sem maior expressão, o Federal de Crédito, e o fez crescer à custa de fusões e incorporações, dezenas delas, particularmente ao longo das décadas de 50, 60 e 70. Com o regime militar seus negócios floresceram. Contou com o apoio da ditadura para assumir outro grande banco, o Banco União Comercial (BUC), de propriedade da família do milionário Soares Sampaio, à beira da quebra por conta de uma desastrada gestão de Roberto Campos, seu presidente e verdadeiro mito do liberalismo econômico brasileiro. O genro de Soares Sampaio, o industrial Paulo Geyer, não aceitou as condições de-pai-para-filho com que o Banco Central doava o BUC a Setúbal, e resolver não assinar a transferência de suas ações. “Perguntem ao Geyer se ele vai assinar logo ou se eu vou precisar mandar dois sargentos irem buscá-lo em casa?”, foi a reação do general Ernesto Geisel.

Além do BUC, a ditadura presenteou Setúbal com a prefeitura de São Paulo, onde ele se saiu bem. Deu conta do recado e protagonizou um episódio decente: recusou-se a demitir o secretário de Cultura, o respeitado dramaturgo Sábato Magaldi, apontado como “comunista” pelo execrável general Silvio Frota, um monstrengo da linha mais que dura.

Picado pela mosca azul, “Olavão” foi preterido pelos milicos na sucessão de Paulo Egydio ao governo de São Paulo e se preparou para disputar o Palácio dos Bandeirantes pelo PFL em 1986. Na convenção do partido, um grupo de malandros tirou o tapete do dono do Itaú e impediu sua candidatura, substituída pela de Paulo Maluf. Desiludido, Olavo nunca mais confundiu as urnas eleitorais com os caixas do Itaú.

Recordo essas histórias, ao alcance de qualquer um, para declarar meu espanto com a participação ativa e exótica de bancos e banqueiros – a começar pelo Itaú de Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles – no financiamento e sustentação da candidatura de Marina Silva à presidência da República. Custo a crer que essa aventura surpreendente, atentatória aos bons manejos bancários, às boas práticas empresariais, seja um biombo desesperado para evitar o pagamento de multa no valor impressionante de R$ 18 bilhões e 700 milhões devidos à Receita Federal em impostos não recolhidos na fusão Itaú-Unibanco. Mas, também, não creio que tais banqueiros sejam ingênuos, inocentes ou desavisados. Creio que a arrogância e o desespero, quem sabe, formaram um caldo de cultura que os fará se arrepender mais cedo que tarde da aventura em que se meteram, fazendo de uma despreparada evidente uma candidata com um Itaú de vantagens para eles, os banqueiros, e de desvantagens, para o país.

A ingerência de um colosso bancário na vida pública do país protagonizou até uma festa-fraude. A dos 90 anos de fundação do Itaú-Unibanco. Ora, quem completaria 90 anos não existe mais, o banco dos Moreira Salles. O Itaú foi fundado em 1945, com outro nome, e veio crescendo como já se relatou aqui. Mas esse pretexto serviu para colocar centenas de alegres convivas do society paulistano, gente do mercado financeiro e alguns empresários ligados à oposição num regabofe onde o presidente executivo do Itaú fez um pavoroso discurso político-eleitoral, atacando o governo e deixando claro o seu apoio à mutante candidata acreana, claramente desqualificada para a missão de comandar um país como o Brasil. Da dívida bilionária, não se falou nada. Sem trocadilho, necas.

Não é preciso ser futurólogo. O suave embaixador Walther e o objetivo Olavo não ousaram tanto e, no entanto, não saíram incólumes.

Banqueiro em política é véspera de bancarrota

Palmério Doria, especial para o 247

(copyleft) Escarro Napalm Unauthorized Reproductions inc.

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sábado, 13 de setembro de 2014

EU VOTO LUCIANA GENRO

R$ 513 bilhões. É quanto os bancos lucraram nos doze anos de administração petista. Acusação de Marina Silva? Não, dados do próprio Banco Central. O levantamento é do Valor Data, usando ranking das 50 maiores instituições financeiras, divulgado pelo BC.

Dilma Rousseff vem atacando Marina por sua ligação com Neca Setubal, amiga, conselheira, coordenadora do programa de governo do PSB. Dilma foi pra cima no programa eleitoral gratuito: "A Neca educadora é educadora, mas agora está se comportando como banqueira. À medida que sou herdeira do banco Itaú e defendo a política que defendo claramente os bancos... estou fazendo o papel de banqueira." A resposta veio voando. Os dois grandes jornais de São Paulo publicaram entrevistas com Neca, "como você se sente com essas acusações da campanha do medo" etc. Não é jornalismo, é propaganda. A participação de Neca Setubal no Itaú vale uns R$ 800 milhões. Com os outros herdeiros, ela faz parte do bloco controlador do banco. Seu dinheiro pessoal está investido através do private banking do Itaú. Ela é mais que banqueira, ela é dona de banco. Se não quer ser tratada como tal, fácil. Basta vender suas ações.

Este fato incontestável não torna moral o ataque de Dilma. Que não mente, mas omite a verdade. Questionar Marina por proximidade com os bancos? O Itaú e outros bancos ganharam mais de meio bilhão de reais nos 12 anos do PT. O próprio Lula confirmou há anos: "nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo". A tendência continuou no governo Dilma, embora a rentabilidade dos bancos tenha caído por um período (porque Dilma forçou a queda dos juros em bancos estatais, e por causa da inadimplência), antes de voltar a crescer. Por comparação, quer saber quanto os bancos lucraram nos dois mandatos de Fernando Henrique? R$ 31 bilhões. O tucano, quem diria, foi menos amigo dos bancos que os petistas.

Tô com ela ...
Dilma pode falar o quanto quiser que enfrenta os bancos. Os números falam mais alto. E tem um que grita e ensurdece. É quanto o seu governo pagou de juros. Entre 2009 e 2013, o Brasil pagou R$ 1,19 trilhão em juros da dívida. Isso mesmo: mais de um trilhão de reais. Ano após ano, vem aumentando. Em 2013, recorde histórico: R$ 249 bilhões. Quanto é isso? Para efeito de comparação, o governo de Dilma investiu em 2013 no Bolsa-Família R$ 25 bilhões - e dez vezes mais no Bolsa-Banqueiro! Em linguagem de gente: o Brasil anos atrás trocou sua dívida externa por uma dívida interna. Que é muito mais cara, porque aqui os juros são muito mais altos que internacionalmente. As contas do Brasil não fecham. Estamos pagando cada vez mais juros para quem nos empresta.

Ele & Ela
E quem nos empresta a grana? Quem compra títulos públicos. Não é o zé povinho. É quem tem boa grana para investir, e grandes empresas, e, claro, os grandes bancos. Nossas instituições financeiras lucram pesado emprestando ao governo, sem risco nenhum. E por isso fazem questão de influir na hora que escolhemos presidentes e congressistas. Segundo a prestação parcial de contas dos candidatos, até agora Dilma arrecadou R$ R$ 123,6 milhões, Aécio R$ 46,5 milhões, e Marina R$ 23 milhões. O Estadão publicou uma grande análise detalhando de onde vêm as doações. Vêm, naturalmente, das maiores empresas do Brasil, as que mais têm relações de negócios com o governo. Vale ler a reportagem do Daniel Bramatti.

Se os títulos públicos pagassem juros mais baixos, seria menos lucro para nossa elite rentista e para os bancos. Se o Brasil diminui ou zera sua dívida amanhã, acaba a mamata. Se pagássemos 20% a menos de juros por ano, dava para o país bancar mais dois programas com o custo do Bolsa Família. Imagine o impacto social disso. Ou fazer a famosa revolução na educação, que todo mundo prega, e nunca se materializa. É pouco provável um enfrentamento com os bancos, ganhe a presidência quem ganhar. "Qual é o seu plano para diminuir rapidamente quanto o Brasil paga de juros, candidata?". Essa é a pergunta que não entra em debate nenhum. Se entrar, a resposta é desconversa na certa.

Um detalhe importantíssimo sobre porque as contas do Brasil não fecham: Não é por causa do Bolsa Família e outros programas sociais. Juntando todos eles, ainda é pouco dinheiro. A razão mais escandalosa é a transferência de recursos públicos a grandes empresários. Desde 2009, no início de mandato de Dilma, o Tesouro Nacional emprestou R$ 305 bilhões ao BNDES. Cobra a taxa Selic, 11%. O BNDES empresta às empresas cobrando a TJLP, 5%. A diferença é enorme, e detona nossas contas.

Que empresas botaram a mão nessa grana? Quase todas as grandes que você já ouviu falar. Algumas foram com mais sede ao pote. As informações são públicas. Se o leitor fizer muita questão, semana que vem publico aqui uma seleção das que meteram mais a mão no nosso bolso. Por enquanto basta citar só uma pessoa, que simboliza bem tudo isso: foram R$ 10 bilhões do BNDES para Eike Batista. (NOTA DO BLOG: Vale citar também a Friboi, que usou dinheiro do BNDS para concentrar o mercado de produção de carne no Brasil, comprando frigoríficos menores). Dinheiro que representa uns 40% do custo anual do Bolsa Família. E que não volta nunca mais para o Tesouro, porque o coitado quebrou, né?

É evidente que tivemos ganhos sociais nos governos petistas. Aliás, também tivemos no governo tucano. Só cego pode negar, como só o pior tipo de cego nega os muitos erros de FHC, Lula, Dilma. Mas o avanço está muito distante do que precisamos, que é garantir pelo menos o básico para todos os brasileiros. É difícil o Brasil ir para frente na velocidade que precisa pagando R$ 250 bilhões de juros ao ano. Aumentando sem parar nossa dívida. E transferindo bilhões sem fim para grandes empresários amigos do poder. Esta é a questão política central do Brasil.

Não duvido que os três candidatos tenham bons projetos em seus programas para isso e aquilo. Papel aceita tudo. O que importa de verdade no capitalismo é dinheiro, de onde vem, para onde vai. Aécio escolheu para futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga. Explicitou sua posição subalterna ao mundo financeiro. Marina e seus conselheiros, como Eduardo Gianetti, vêm dando declarações no mesmo sentido: "independência" do Banco Central, tarifaço, alta de juros. A ligação com Neca torna muito transparente para que lado pende sua candidatura.

Mas Dilma, por seu histórico, não pode atacar Marina pela ligação com o Itaú. Nunca na história deste país houve maior amigo dos bancos que o PT. Na hora de investir nossos recursos públicos, os três candidatos privilegiam os poderosos, e principalmente o poder financeiro.

NOTA DO BLOG: A matéria reproduzida acima, de autoria de André Forastieri e publicada originalmente em seu blog, termina com a frase "E por isso é impossível votar pela mudança em 2014." Discordo. Eu vou votar pela mudança, voto em Luciana Genro. Foda-se se ela tem apenas 1% dos votos: pra mim, é a melhor escolha. O voto no primeiro turno é - ou deveria ser - programático. No segundo, é pragmático. No segundo turno estarei com Dilma - e a opção, pra mim, é clara. Sei reconhecer os avanços, e não acho que tenham sido poucos, muito menos insignificantes.

Luciana Genro é filha de Tarso Genro, quadro histórico do PT e atual governador do Rio Grande do Sul. Abaixo, reproduzo um interessante perfil da família Genro escrito por Cynara Menezes e publicado em seu Blog "Socialista Morena" - discordo apenas do título que ela deu à matéria, que remete ao clássico filme de Mario Monicelli mas dá a impressão, errada, de que trata-se de uma família em pé de guerra ...

Você que não aguenta mais, às vésperas de eleição, discussões sobre política em família, devia agradecer a Deus por não ter nascido um Genro. Ali sim é que o bicho tá pegando. A filha, Luciana, presidenciável do PSOL, enfrenta nacionalmente a candidata paterna, Dilma Rousseff. O pai, Tarso Genro, concorre à reeleição para o governo do Rio Grande do Sul disputando com o ex-marido da filha, Roberto Robaina (PSOL), pai de seu neto Fernando. Luciana vota no ex-marido e não no pai. O pai vota em Dilma e não na filha. O neto vota na mãe e no pai, mas não no avô. Já imaginou?

No final de agosto, no primeiro debate entre os candidatos ao governo gaúcho na TV, o tempo fechou entre Genro e o ex-genro (literalmente) Robaina, que protagonizaram o bate-boca mais acalorado da noite. O petista provocou primeiro, dizendo que o PSOL foi contra o ProUni, o que Robaina disse ser “uma fraude”, porque Luciana votara a favor quando deputada. “Tu funcionas mais como quinta coluna da Ana Amélia do que como um candidato de esquerda”, torpedeou Tarso. Robaina devolveu o petardo lembrando as alianças à direita feitas pelo PT. Tarso chegou a levantar a voz: “Tu tens que amadurecer um pouco politicamente, rapaz”.

Robaina diz que eles voltaram a se encontrar em outro debate e que não houve saia justa. “Foi normal, nós estamos acostumados a brigar”. A falta de simpatia mútua, digamos assim, entre os dois é evidente Tarso foi mais afável com a adversária Ana Amélia do que com o ex-genro. A acusação recorrente de petistas de “falta de maturidade” parece irritar o psolista. “O PT tenta passar essa ideia de que o PSOL é imaturo, mas a maturidade do PT é se juntar com famílias milionárias. O grande orgulho do Tarso, por exemplo, é uma multinacional chilena de celulose que está destruindo os pampas. Essa maturidade de aceitação do status quo nós não queremos. Preferimos manter a coerência”, alfineta. “Nós, do PSOL, temos orgulho de possuir essa alegria juvenil que o Plinio, sendo velho, tinha. Ele entendeu que a grande sabedoria é ligar a luta política à juventude.” Pergunto se ele será o Tarso amanhã. “Não, eu serei o Plínio amanhã”.

Fico imaginando uma longa mesa arrumada com toalha branca para o churrasco de domingo e estas figuras todas sentadas, com suas línguas e facas afiadas. Robaina, que se separou de Luciana quando Fernando tinha um ano e meio de idade (o rapaz tem 26 atualmente), logo esclarece que tem carinho pela família, mas não os freqüenta socialmente. “A gente não fica visitando ex-sogro”, ironiza. Luciana admite que as farpas fazem parte do menu das reuniões familiares, mas garante que partem do pai para ela e não o contrário. “Há uma troca de ironias, mas sem agressão. Ele é quem gosta, é o campeão da provocação. Fica sempre tentando dizer que o PSOL é pequeno, que temos poucos votos, fica se gabando de como é amado e apoiado… Para tentar me irritar. Quando eu era adolescente, conseguia. Mas hoje tenho mais o espírito da filha que quer que o pai seja feliz e não aceito as provocações baratas dele.”

No último Dia dos Pais, Tarso, gozador, publicou em seu facebook um vídeo em que o neto Rodrigo, de dois anos, “discursa” dá-dá-dá-dá e o avô tira onda: “Parece a Lu falando”. Luciana conta que o dissenso familiar é antigo e, até por isso, encarado com naturalidade. Vem, na verdade, do avô dela e pai de Tarso, Adelmo Genro, advogado, professor e velho militante socialista que presidiu o PSB gaúcho. O vô Adelmo saiu feroz em defesa da neta quando ela começou a confrontar o governo Lula e as alianças do PT, postura que acabou por levá-la a ser expulsa do partido após votar contra a reforma da Previdência, em 2003. “Ela puxou ao avô, porque não lambe o prato em que cuspiu”, bradava o patriarca diante de cenas esdrúxulas como a dos antigos desafetos petistas Fernando Collor e José Sarney posando pimpões ao lado de Lula.

As desavenças entre Luciana e Tarso eram mais comuns quando ela, aos 15 anos, decidiu entrar para a Convergência Socialista, corrente interna do PT, enquanto o pai militava em outra tendência, o PRC (Partido Revolucionário Comunista), ao lado de nomes como José Genoino e… Marina Silva. “Para tu ver que quem mudou foi ele, não eu!”, provoca Luciana. “O pai me levou para o PRC e me fez conhecer toda essa fauna das organizações de esquerda, mas acabei me identificando mais com a CS do que com o PRC. Isso foi complicado para ele aceitar.”

Luciana confessa ter dado risada quando assistiu ao pai atacando e sendo atacado pelo ex-marido no debate da Band entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, mas, alguns dias depois, quando encontrou Tarso, preferiu não tocar no assunto para não criar caso. Diz que tampouco tem discutido com ele sua performance nos debates presidenciais para não gerar constrangimento porque, afinal, a candidata do partido dele é outra. Tarso dorme cedo e não viu a filha nos debates, mas, ao assistir a um vídeo com os melhores momentos da presidenciável do PSOL que lhe foi mostrado por um assessor, o lado “pai orgulhoso” falou mais alto. “Muito bem. Falou tudo que eu queria dizer e não posso.”

Pergunto a Luciana se o pai costuma olhá-la com aquele olhar condescendente dos mais velhos diante de um político jovem, aquele olhar de “vamos-conversar-mais-para-a-frente” que os políticos experientes adoram exibir. “Acho que a idade ajuda neste excesso de pragmatismo que eles têm, de querer resultados mais imediatos e aquém do que desejavam originalmente. Os petistas se acomodaram. Eu vejo, pelos textos que o Tarso publica, que ele tem uma visão crítica do partido, mas acha que não existe vida política fora do PT. Cansou de remar contra a maré. Só que um dia a maré vai mudar”, aposta. Pergunto também a ela se não se transformará no Tarso amanhã. “De jeito nenhum. Este processo de construção de uma esquerda coerente não pode repetir o PT. Virar o Tarso é repetir o PT.”

“O Tarso” – é esquisito, mas todos se referem a ele assim. A filha, o ex-marido, o neto. Talvez para separar o político do familiar, termos como “pai” e “vô” ficam reservados para a intimidade. Fernando, filho de Luciana, foi durante os últimos 24 anos o único neto de Tarso Genro, até nascer Rodrigo, filho da médica Vanessa. Pode-se ter uma ideia, portanto, da enorme proximidade entre os dois. Mas Fernando, ex-jogador de futebol, é PSOL como o pai e a mãe e nunca votou no avô para um cargo eletivo  em 2002, quando Tarso perdeu, Fernando ainda não votava; em 2010, quando Tarso ganhou no primeiro turno, o neto escolheu Pedro Ruas, do PSOL. Agora, vota no pai e na mãe, claro.

“Não é uma questão de parentesco: me identifico com a postura ideológica e programática do PSOL. Acho que os governos federais do PT foram bastante decepcionantes do ponto de vista da esquerda”, critica. Faço mais uma vez a pergunta: o jovem que hoje é PSOL quando velho se tornará PT? “O Plínio provou que não é bem assim. Acho que existe um comodismo que vem com a idade, mas não é determinante. O próprio Tarso com certeza era mais PSOL na juventude. Talvez fosse mais fácil ser de esquerda quando a direita estava no poder.”

Seu avô pede para Luciana pegar leve com a Dilma nos debates? “Mas de jeito nenhum”, diz Fernando. “Ele jamais pediria isso, porque sabe que a construção do nosso partido passa pela crítica ao PT.” O filho de Luciana Genro vê como “saudável” o clima de discussões políticas PT X PSOL no seio familiar. “Esta dialética que acontece em casa é bacana porque possibilita tirar o que há de bom e ruim no PT, e o que há de bom e ruim no PSOL”, contemporiza.

Tarso Genro só votou na filha quando ela se candidatou a deputada federal pelo PT. Desde que se tornou PSOL, nunca. Mas na solidão da cabine não vai dar vontade de apertar o 50 e votar na filha para presidente? “Não, porque a responsabilidade política fala mais alto. Ela tem um projeto político muito diferente do meu partido. Eu votaria sempre na Luciana para filha, mas não para presidente”, espeta. O governador assume adorar provocar a filha. “Toda vez que a Lu chega em casa, eu digo: ‘como vai a revolução proletária?’”, e solta uma gargalhada.

Não que deixe de admirá-la. Considera Luciana “um grande quadro político”, mas não aparenta sentir o mesmo pelo ex-genro Robaina. “O Roberto é íntegro, mas temos uma diferença política muito grande. Ele está mais preocupado em desgastar a imagem do PT. A Luciana critica Dilma e Marina, mas está sendo mais lúcida”, diz. “O PSOL é um rescaldo político do socialismo do passado, com uma visão clássica vinculada à revolução bolchevique. É um projeto generoso, mas superado politicamente. Por isto utiliza esta linguagem que trata da mesma forma a direita e a esquerda.”

Pergunto, desta vez ao contrário, se Luciana será como ele amanhã. “O que ocorre com os trotskistas, pelo que tenho visto, é que normalmente eles saem da política e vão ser colunistas de jornal da direita… Espero que ela permaneça trotskista”, provoca. “Eu mesmo fui, durante anos, integrante do movimento comunista. Adquiri conhecimento e não me arrependo. Mas a estrutura de classes da sociedade mudou.”

A mãe de Luciana, avó de Fernando, ex-sogra de Robaina e mulher de Tarso Genro, Sandra, é a pedra de toque desta história toda. Se o marido não estiver no páreo, a médica Sandra costuma declarar voto no PSOL. Quando Robaina saiu a prefeito, em 2012, ela declarou voto nele. Este ano vota em Luciana para presidente – não em Dilma, como o marido, pelo menos no primeiro turno. Mas vota em Tarso, claro, para governador. Felizmente, Luciana e o pai não se enfrentaram diretamente e Sandra não se viu obrigada a ter que escolher entre os dois, filha ou marido. Ainda.

NOTA DO BLOG: Por fim, alguns bons motivos que me fazem pensar que Marina não é uma opção - não de esquerda, pelo menos. Artigo de Marcelo Zero (formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor parlamentar do Partido dos Trabalhadore) publicado originalmente no Blog de Paulo Moreira Leite ...

A primeira grande medida que Tony Blair adotou quando chegou ao poder foi dar independência ao Bank of England, o banco central inglês. A medida não estava no programa de governo, mas Blair a adotou assim mesmo. Era uma forma de demonstrar que o New Labour, por ele representado, estava rompendo definitivamente com o “velho trabalhismo” e com a “antiga socialdemocracia”.

Essa ruptura não era apresentada, contudo, como uma adesão ao “thatcherismo” e à direita. Na realidade, Blair se apresentava como uma espécie de personificação da Terceira Via, teorizada principalmente por Anthony Giddens, sociólogo britânico. A Terceira Via, segundo Giddens e Blair, não era nem de esquerda e nem de direita. Estava, na visão deles, “além da esquerda e da direita”. Rompia com a socialdemocracia tradicional e com o velho trabalhismo, mas também representava uma ruptura com o neoliberalismo. Era algo profundamente novo, um “centralismo radical” que prometia, num grande esforço modernizador, adaptar a economia e a sociedade britânicas aos “novos desafios impostos pela globalização”, mantendo, no entanto, os valores permanentes da justiça social.

Em economia, Blair dizia que a abordagem da Terceira Via não era “nem o laissez faire, nem a interferência estatal”. Ao “Estado necessário”, nem mínimo, nem máximo, caberia o simples papel de sustentar o equilíbrio macroeconômico e promover a atividade empresarial, particularmente as “indústrias do futuro baseadas no conhecimento”. No que tange à esfera social, a Terceira Via faria revolução do Welfare State, adaptando-o às novas necessidades da economia globalizada. Em vez de investir em redes de proteção “excessivas”, era preciso dar “empregabilidade” às pessoas, investindo em Educação e no empreendedorismo. Com isso, asseguravam Blair e Giddens, a economia britânica aumentaria muito a sua produtividade, beneficiando igualmente empresários e trabalhadores.

No "Brave New World" proposto pela Terceira Via, não havia mais conflitos de classes e nem a vinculação orgânica da socialdemocracia e do trabalhismo aos sindicatos e aos movimentos sociais. Não havia também alternativas à “economia de mercado globalizada”; e a desigualdade passou a ser algo aceitável, desde que baseada na “meritocracia”. Completava esse novo mundo sem conflitos, livre das “velhas ideologias”, uma preocupação com as questões ambientais, que haviam sido relegadas a um segundo plano, segundo Giddens, tanto pela antiga socialdemocracia quanto pelo neoliberalismo thatcherista.

Entretanto, o que se viu, na prática, foi a adesão de Blair a todas as principais diretrizes políticas do thatcherismo. Seu governo persistiu no desmonte do sindicalismo britânico, na “flexibilização” do mercado de trabalho, na revisão de alguns direitos previdenciários, nas privatizações e, sobretudo, na crescente desregulamentação do sistema financeiro, já sob a gerência “independente” do Bank of England. Assim, o New Labour saiu do colo trabalhista dos sindicatos britânicos para o colo financeiro da City londrina.

Os resultados não foram bons. O índice de Gini do Reino Unido que, no início do thatcherismo, era de 0,240, aumentou para 0, 340, um dos maiores crescimentos da desigualdade nos países desenvolvidos. Embora a maior parte desse aumento tenha se dado na era Thatcher, a Terceira Via de Blair não conseguiu revertê-lo, e até propiciou um novo incremento. Na realidade, foi durante o período Blair que aumentou mais a renda do 1% mais rico e, particularmente, do 0,1 % mais afluente, renda essa muito vinculada à desregulamentação financeira.

Ao longo do período do New Labour, os que fazem parte do 0,1 % mais rico do Reino Unido aumentaram seus rendimentos 4 vezes mais que 90% da população britânica. Hoje, apenas as cinco famílias mais ricas do Reino Unido têm renda superior aos 20% mais pobres da população. Além disso, houve “precarização” do mercado de trabalho, ao invés da prometida “empregabilidade”. Afinal, a estrela do crescimento econômico durante o New Labour foi o setor de serviços, particularmente os serviços financeiros, com decréscimo das indústrias.

A recessão, que varreu do mapa político o New Labour em 2010, com a derrota de Gordon Brown, sucessor de Blair, só fez piorar esse quadro social. Hoje, 1 em cada 5 britânicos são pobres e, pela primeira vez na história, a maior parte dos lares em condição de pobreza é habitada por indivíduos economicamente ativos, e não por pessoas que dependem da Seguridade Social. O problema maior está justamente no mercado de trabalho, que não gera empregos na quantidade e, principalmente, na qualidade necessárias para promover a ascensão social dos menos favorecidos. E isso ocorria antes mesmo da crise. Tal descalabro econômico e social do New Labour e da Terceira Via foi complementado por um submisso alinhamento da política externa britânica aos interesses dos EUA, que levou a o Reino Unido a participar da farsa da invasão Iraque, fato que suscitou a abertura de um inquérito oficial sobre o assunto.

Enfim, a Terceira Via não passou de uma “carapaça ideológica para o neoliberalismo”, como disse o historiador britânico Perry Anderson. Foi assim no Reino Unido; e foi assim também nos EUA de Clinton e na França de Jospin. Mas essa carapaça ideológica rompeu-se em todos os lugares, revelando a mesmice do pensamento único e a monotonia trágica das políticas conservadoras, associadas à crescente desregulamentação do capital financeiro. As mesmas políticas que provocaram a crise mundial de 2008 e que contribuem, hoje, para manter a recessão na maior parte do mundo industrializado.

Assim, nos países desenvolvidos a carapaça ideológica da Terceira Via atualmente não passa de uma malquista e malcheirosa carcaça política. No Brasil, no entanto, há gente que quer ressuscitar essa carcaça político-ideológica, apresentando-a como uma grande novidade. Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende conciliar políticas econômicas muito ortodoxas e pró-cíclicas com grandes avanços sociais. Pretende também conciliar desregulamentação financeira e econômica e a extinção de mecanismos estatais de estímulo ao crescimento, como o crédito público em áreas estratégicas. Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende alinhar nossa política externa aos interesses dos EUA e aliados. Como lá, doura-se a pílula com um difuso e, por vezes, neomalthusiano ambientalismo. Como lá, afirma-se que a “nova” proposta está além da esquerda e da direita. Ao contrário de lá, onde o New Labor promoveu grandes avanços, no que tange aos direitos individuais, particularmente dos gays e outras minorias, aqui tais avanços teriam de passar pelo crivo de sumidades teológicas, como a do Pastor Malafaia.

Bastar ler o plano da candidatura Marina para ver o quanto ele se baseia numa leitura anacrônica das teses da finada Terceira Via. Mistura-se essa leitura anacrônica com uma leitura superficial de Manuel Castells e voilá!, temos a “nova política”. A milagrosa política que não é política, o partido que não é partido e as alianças de ocasião que não são “velha política”. A milagrosa política que vai mudar o sistema de representação apenas com a força dos “homens de bem” reunidos em redes, sem a necessidade de um reforma política com participação popular, como propõe a presidenta. Uma milagrosa reforma sem povo, garantida pelos “homens de bem” e pelos “homens de bens” que controlarão o Banco Central.

No plano não há nenhum a pista sobre o porquê que a finada Terceira Via, que fracassou miseravelmente nos países desenvolvidos, num período de bonança econômica, teria sucesso aqui, um país em desenvolvimento, num período de forte e renitente crise mundial. Afinal, lá era uma aposta nova numa Terceira Via. Aqui é somente a carcaça política de uma fracassada Paleovia.

A resposta talvez esteja em devaneios fora de lugar, e não na razão alicerçada no real conhecimento de um país chamado Brasil. Isso talvez explique porque a candidatura mude de posição constantemente sobre tudo.

Quem é muito “sonhático” acaba ficando muito errático.

E sonho anacrônico acaba virando pesadelo.

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Max & Igor, juntos e ao vivo ...

Demorou 23 anos, desde que os vi no Rock In Rio II, no Maracanã, lançando o disco “Arise”, mas aconteceu domingo, dia 7 de setembro, em Salvador, meu reencontro com os irmãos Cavalera juntos num palco. Já vi Sepultura algumas vezes desde então – uma delas aqui mesmo em Aracaju, ainda com Igor na bateria – mas é diferente. Não gosto de Sepultura com Derrick Green. Do meu ponto de vista, ver um show do Cavalera Conspiracy é, hoje em dia, o mais próximo que você pode chegar da experiência do Sepultura na formação clássica.

Chegamos no horário marcado no site apenas pra saber que o show havia sido adiado para duas horas depois. Má noticia, já que a idéia seria voltar para Aracaju ainda naquela noite de domingo, por conta de compromissos na segunda pela manhã, mas normal. Coisas do rock. Casa cheia, público razoável – cerca de 500 “cabeças”. Entramos a tempo de ver parte do show da banda de abertura, Capadócia. Competente.

Não teria despencado linha verde afora se o show tivesse sido do Soulfly, devo confessar, mas também não concordo com a opinião de minha querida amiga Maíra Ezequiel de que Max sem Igor não é nada. Ele é tosco pra cacete, rosna, não canta, toca guitarra de maneira primitiva – o que se reflete em suas composições, evidentemente – mas foda-se: o cara é foda. Emana uma aura meio inexplicável que faz com que você se identifique instantaneamente com sua energia e atitude. Deve ser o que chamam por aí de “carisma” ...

E foi essa aura que dominou o ambiente assim que ele adentrou o palco da casa de shows “The Hall”, na Pituba – no mesmo estilo mas bem melhor, mais espaçosa e elegante do que a “nossa” Infinity Club, onde uma semana antes eu havia visto o Krisiun. A catarse já havia se iniciado alguns segundos antes, quando a silhueta de Igor ficou visível por trás da bateria, mas Max é o “frontman”, é ele que “levanta a massa”.

Sem muitas delongas, tome paulada no pé do ouvido: “Inflikted”, primeiro “single” deles, abre os trabalhos em grande estilo, já que é uma boa musica. Segue ok com “warlord”, mas o bicho começa realmente a pegar quando rola a introdução de “Beneath the remains”, clássico do Sepultura, nos alto-falantes. E quando eu falo em “bicho pegando”, em termos de Salvador, é porque lá o bicho pega MESMO: “pogo” – ou “slam dancing”, “clube da luta”, o que seja – violentíssimo, SEMPRE! A “roda” lá é pros fortes mesmo, nada da “ciranda cirandinha” que se costuma ver no Recife, por exemplo. Bonito de ver a cena, apreciada de uma distancia segura por mim – a idade somada a duas cirurgias no cotovelo e quase um ano de fisioterapia por conta dessa “brincadeirinha” deixaram marcas ...

O set list é espertamente distribuído entre coisas mais antigas, do Sepultura – sempre as mais aclamadas, claro, e com razão, clássico é clássico – e novas, do Cavalera. Com duas exceções: “Orgasmatron”, do Motorhead – só um trecho, de improviso – e “Wasting Away”, do Nailbomb – ambas tocadas de modo desleixado, mas com uma energia bruta contagiante. Idem para a novíssima “Bonzai Kamikaze”, que eu curti muito na versão de estúdio mas ao vivo ficou quase irreconhecível, uma merda. Os grandes destaques da noite, pra mim, foram “refuse/resist” e “Territory”, que não por acaso fazem parte do repertório de meu disco favorito, “Chaos AD”. “Roots Bloody Roots” também foi foda – pensei que Max fosse mencionar o clipe, gravado na Bahia ...

por Maíra Ezequiel
Não foi um show perfeito, mas foi muito bom. Max demonstrava um certo cansaço e é nítida a falta que Andreas kisser faz, mas teria valido a pena o esforço apenas para ver o segundo melhor baterista de Heavy Metal do mundo em ação. Puta que pariu, caralho, o cara é muito bom! E ainda é bonito, o “fi-da-peste”! Chega a ser engraçado o contraste dele com Max, mais evidente no final do show, quando os dois agradecem ao público abraçados no palco – um super em forma, de cabelo cortado e figurino sóbrio, o outro gordo, detonado, com imensos dreadlocks podres e o velho conhecido figurino “camuflado” em tons de cinza. Mas acima de tudo, muito bom ver a bonita amizade e a cumplicidade que os une, do tipo que consegue se comunicar com uma simples troca de olhar.

Fim de festa, volta pra casa tranqüila madrugada adentro.

Valeu, Salvador!

Quero mais!

A.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Silvas diferentes ...

The Smiths
Há uma ideia no Brasil de que os pobres são todos iguais. É uma visão de senso comum, mas que assinala a análise também de intelectuais. Ela explica a afirmação de que Luiz Inácio Lula da Silva e Marina Silva têm biografias parecidas – e a de que Marina teria sido a sucessora mais natural de Lula, não fossem as divergências que a levaram a deixar o Ministério do Meio Ambiente e depois o PT. Para chegar ao poder num país desigual como o Brasil, Lula e Marina fizeram uma travessia impressionante, uma espécie de jornada de herói. Mas as semelhanças acabam aí. Há enormes diferenças entre a trajetória de um filho de sertanejo que fez o caminho de São Paulo e se tornou operário e depois líder sindical, na região mais industrializada do país, e a trajetória de uma filha de seringueiro, seringueira ela também, na floresta amazônica, que iniciou sua carreira política em um estado como o Acre. Para alcançar a riqueza desse momento histórico do Brasil é preciso compreender que os Silva são diferentes.

Lula e Marina são ambos filhos do Brasil, mas de Brasis bem diversos. E é exatamente por causa de diferenças fundamentais de visões de mundo que, a certa altura, Marina não encontrou mais lugar no projeto do “lulismo”, usando a expressão do cientista político André Singer. A explicação para que a inserção de milhões de brasileiros, no governo Lula, tenha se dado pela via do consumo, é complexa. Mas pelo menos uma parte dela pode ser encontrada no desejo de Lula. No que significa para um operário ascender na escala social. Casa melhorada, roupa boa, geladeira nova e cheia, TV de tela plana, um carro na garagem.

Lula não encarna o sertanejo com uma relação íntima com o sertão, entendido aqui como natureza e cultura. Mas o movimento de transição de um mundo decodificado como passado, para um outro que é futuro. Ele é filho de uma família retirante que queria primeiro fugir da fome, depois subir na vida pelo ingresso na fábrica, pela via do “progresso” e da industrialização. Vencer na vida no mundo do Outro, apropriando-se dele e tornando-o seu pelo acesso aos seus signos. É esse universo de sentidos que ele compreende e com o qual dialoga, talvez como nenhum outro político da história do país. E é para estes pobres que seu governo significou inclusão social.

Marina, não. Ela se cria na floresta e é moldada por ela. Seu pai, migrante nordestino, tinha naquela região amazônica um ponto de chegada. Mesmo quanto a família tentava sair, era para o seringal que acabavam voltando. A iniciação política de Marina se dá nos “empates”, uma tática de resistência na qual homens, mulheres e crianças se dão as mãos para fazer uma corrente em torno da área ameaçada e impedir o seu desmatamento – e, com ele, sua expulsão daquele mundo. O mentor de Marina é Chico Mendes e a luta ali, naquele momento, é expressão de uma relação profunda com a mata, na qual um não se reconhece sem o outro. É uma luta por permanência, não por partida.

O conhecimento que funda Marina, analfabeta até os 16 anos, está contido nessa cultura em que é preciso saber a vocação de cada pé de pau para dominar a tecnologia complexa que permite a sobrevivência, na qual a terra não é mercadoria, mas vida. Sua capacidade de fazer a ponte entre esse saber, transmitido de geração em geração pela oralidade, com a palavra escrita, os livros e a produção acadêmica, é um dos capítulos mais bonitos da sua biografia. Marina só vai chegar ao centro-sul aos 36 anos de idade, já como senadora. Seu movimento pelo mapa se dá com o objetivo de levar ao coração do poder político o universo de sentidos do mundo que deixou não como passado, mas para que possa ser futuro. Se para Lula a possibilidade de ascender está na inclusão no mundo do Outro, para Marina o Outro é aquele que se experencia para alcançar a si mesmo.

Não se trata de dizer que Lula é melhor do que Marina – ou Marina melhor do que Lula. Apenas assinalar que Lula e Marina, os fenômenos políticos mais interessantes da história recente do país, carregam experiências diferentes de brasilidades. Às vezes, as necessidades imediatas da disputa eleitoral borram as nuances mais fascinantes. Se a ascensão de Lula ao poder já produziu no Brasil, só pelo fato em si, uma enorme mudança simbólica, a de Marina ainda é potência e incógnita. A incógnita aqui não colocada como um defeito, mas como possibilidade.

É bastante claro por que Dilma Rousseff, uma mulher urbana, de classe média, com tendência desenvolvimentista, tenha sido, para Lula e o conjunto de valores que o constitui, uma opção muito mais lógica como sucessora. Dilma é alguém com quem Lula tem muito mais afinidades do que Marina, apesar das evidentes diferenças entre eles. É nos sucessivos embates com Dilma, quando esta era ministra de Minas e Energia e depois ministra-chefe da Casa Civil, e Marina ministra do Meio Ambiente, que a ex-seringueira vai perdendo espaço dentro do governo do ex-operário e, em seguida, do Partido dos Trabalhadores. É óbvio que as opções de Lula e do PT se devem a questões de ordem política e econômica, a maioria delas bem pragmáticas, mas não se pode nem se deve esquecer a influência do universo de sentidos que forma o homem e do lugar a partir do qual ele enxerga o país. Para ser objetivo é necessário jamais perder de vista as subjetividades.

A partir do final do segundo mandato de Lula, algumas das lideranças históricas dos movimentos sociais na Amazônia, como por exemplo Antonia Melo e o bispo Don Erwin Kräutler, ambos do Xingu, começam a perceber que o ser/estar no mundo dos povos da floresta, se antes pelo menos em tese tinham lugar no governo, já não têm mais espaço. E, a partir de Dilma Rousseff, nem mesmo interlocução. Para eles, a hidrelétrica de Belo Monte tornou-se a prova definitiva de que o projeto para a Amazônia de Lula e de Dilma guardava semelhanças com o da ditadura civil-militar: a floresta seguia sendo um corpo para exploração, e os povos da floresta um entrave a um tipo de desenvolvimento que nega sua existência e seu modo de vida. Nesse olhar, a Amazônia, para virar futuro, precisa tornar-se passado.

Lula – e Dilma ainda menos do que ele – pouco entendem dessas outras formas – e é importante assinalar que elas tampouco são homogêneas – de perceber o Brasil e de viver no Brasil. Mas, talvez mais grave do que não compreender outras maneiras de ser brasileiro é não achar que é preciso compreender. Compartilham essa ignorância com uma parte significativa da população, para a qual a Amazônia é longe demais em múltiplos sentidos, o que torna mais fácil perpetuar os crimes contra povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Assim como continuar ignorando, apesar dos sinais inequívocos que já marcam a vida cotidiana, que a mudança climática e as questões socioambientais nela implicadas são, senão o maior, um enorme desafio para qualquer governante desse tempo. Para essa parcela da população, o sonho de todo índio ou ribeirinho é ser pobre na periferia de uma cidade grande. E a pauta socioambiental é coisa de idealistas, sonhadores ou “ecochatos”, incapazes que são de perceber tanto a crise do planeta quanto o fato de que questões como saneamento básico, escassez de água e proliferação da dengue são socioambientais.

Em 2011, quando se começava a implantar o canteiro de Belo Monte, na região de Altamira, no Pará, passei um dia com o chefe de uma das famílias que seriam obrigadas a deixar a terra onde viviam para a construção da maior obra do governo. A certa altura, ele abraçou uma castanheira e desandou a chorar. Tentava me explicar por que ele não podia ser – sem ser ali. Ou a impossibilidade de habitar um mundo sem aquela árvore específica. De repente, o choro estancou e sua voz se encheu de raiva. Ele disse: “Fico revoltado quando Dilma diz que somos pobres. Por que ela pensa que somos pobres? De onde ela tira isso? Essa é a maior mentira”.

Aquele homem quase nada tinha de bens materiais, nem os desejava. Sequer os conhecia e, se conhecesse, não teriam lugar no seu cotidiano. Seu conceito de pobreza e de riqueza era totalmente outro, incompreensível para os fazedores de política do momento. E taxarem-no de pobre, no discurso de Brasília, o ofendia, porque se considerava rico. Não como um discurso bonito e um tanto abstrato, mas porque era de fato como rico que se enxergava, na medida em que a floresta lhe dava tudo o que precisava. Não só no nível concreto, mas também no simbólico. Para ele, a vida que ali tinha era boa.

Me parece que esses ricos e esses pobres Lula – e Dilma menos ainda – jamais conseguiram, ou mesmo quiseram, entender. Embora, como já foi dito, Lula tenha compreendido e dialogado com outros pobres – e com outros ricos. Quando Marina Silva afirma, no primeiro debate entre candidatos à presidência, na Rede Bandeirantes, que o líder seringueiro Chico Mendes, assassinado por sua resistência, era elite, é a partir dessa outra visão de mundo que ela também fala.

Essa ponte entre os vários Brasis, ainda inédita no comando da nação, Marina é a mais apta a fazer. Se de fato o fará, não há nenhuma garantia. Nem Lula foi um operário na presidência, nem Marina é hoje uma seringueira, ambos acrescidos e transformados por outras experiências vividas no curso de trajetórias bem extraordinárias. Mas, assim como Lula levou pela primeira vez ao poder uma visão de mundo muito diversa dos que antes haviam ocupado o Planalto, Marina poderá, caso for eleita, ser a primeira a carregar para o centro das decisões a experiência de quem vive na floresta e a compreensão de que o futuro pode não existir se essa experiência não for incluída no projeto de país. Nesse sentido, ela é muito mais século 21 do que sua principal rival na disputa pela presidência.

Uma curiosidade. Na campanha de 2002, quando Lula se elegeu pela primeira vez presidente, depois de outras três tentativas, havia um encantamento com sua presença vestida em ternos de grife nos salões de parte do PIB paulistano. Recebido pelo casal Eleonora (psicanalista) e Ivo Rosset (empresário, dono da Valisere, entre outras marcas), amigos de Marta Suplicy, Lula era uma espécie de operário que havia chegado ao paraíso. No poder, sua mulher, Marisa Letícia, logo fez plásticas, aplicou botox, mudou o figurino e adotou Wanderley Nunes, um dos cabeleireiros da moda. Muito antes, ainda em 1979, quando despontava como líder sindical nas greves do ABC paulista, Lula assim respondeu aos ataques por ter ido jantar no Gallery, a boate dos ricos e famosos da época, a convite da revista Manchete: “Eu quero que todo operário ganhe o suficiente para frequentar o Gallery”. Desde essa época ele já repetia que “pobre gosta de se vestir bem”.

Marina, a “seringueira, empregada doméstica e negra”, circula de outro modo nos salões paulistanos. Suas roupas são sóbrias, com detalhes étnicos, como a usada na entrevista do Jornal Nacional. Os adereços usam materiais naturais, como sementes da Amazônia, o batom é feito por ela mesmo, com suco de beterraba, já que tem alergia a produtos industrializados. O cabelo é um coque. Marina é vista como chique e moderna, dona de seu próprio estilo, em especial por um tipo de rico que vê na ostentação uma vulgaridade. Sua principal interlocutora nesse mundo é a socióloga Maria Alice Setúbal, mais conhecida como Neca Setúbal, acionista do Banco Itaú, mas também fundadora do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), uma das organizações mais respeitadas na área educacional. Se Lula era “pop”, Marina é “cool”. Vale a pena prestar atenção em como são decodificados aqueles que até há pouco tinham outro lugar nessa geografia para, de novo, não perder as nuances.

É preciso ter cautela com os fundamentalismos. Quem acusa Marina de ser “fundamentalista” está pasteurizando diferenças. Marina não é uma fundamentalista ambiental, como a acusam setores do agronegócio. Para uma parte do movimento socioambiental, o defeito de Marina é justamente ser menos radical do que os desafios do momento histórico exigem. O “desenvolvimento sustentável” que ela defende, para muita gente respeitável é apenas um conceito vazio, palatável para conversas bem comportadas, mas que oculta contradições profundas.

Marina tampouco é uma fundamentalista evangélica. Dizer isso é acreditar que Marco Feliciano, o deputado-pastor que barbarizou a comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, e Marina Silva são iguais. É confundir denominações religiosas que estão sob o mesmo guarda-chuva, mas que guardam diferenças bastante substantivas entre si. Compreender o Brasil evangélico, em toda a sua complexidade, é um desafio dessa época.

A quem interessa chamar Marina Silva de fundamentalista? A muitos, em especial a lideranças ruralistas, no que se refere à discussão socioambiental, e aos religiosos de fato fundamentalistas, no que diz respeito a questões como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao fazê-lo, rebaixam o debate, na tática mais do que conhecida, e forçam mudanças que beneficiam seus interesses e fortalecem seu lugar de representantes de seus respectivos públicos.

Isso não significa que o eleitor deva deixar de prestar – grande – atenção ao fato de Marina Silva ter posição contrária às pesquisas com células-tronco embrionárias, já ter se declarado “pessoalmente não favorável” ao casamento gay, ter defendido na eleição de 2010 um plebiscito para o aborto e, principalmente, ter cometido na semana passada o ato lamentável, para dizer o mínimo, de voltar atrás no seu programa de governo, um dia depois de tê-lo lançado, no que se refere às políticas para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros).

Com Marina Silva com chances de ganhar, o que se desenha para o Brasil é uma eleição muito mais desafiadora e complexa. É legítimo afirmar que seu discurso é “difuso”, assim como a “nova política” que diz encarnar pode ter ecos de um passado perigoso. Mas é preciso perceber que esta é a sua força nas urnas, não sua fraqueza. A tal “pauta difusa”, uma das fragilidades que setores da sociedade e da mídia viram nas manifestações de junho de 2013, mobilizou multidões. Marina atua nas redes sociais há muito e sabe escutá-las. Circula por elas desenvolta, enquanto outros as frequentam apenas em épocas eleitorais ou em momentos estratégicos, fazendo uma paródia digital das tradicionais visitas de políticos às favelas para as quais não voltam depois, tão à vontade em um e outro lugar quanto bagres num shopping.

“Amadora” e “aventureira” é como Marina têm sido chamada por seus opositores. “Improviso” é outra palavra escolhida para atacar seu discurso. Sem entrar nem em juízos de valor nem na adequação ou não desses termos à Marina Silva, vale a pena lembrar a quem os esgrime, na tentativa de provocar rejeição à candidata, que eles deixaram de ser ofensas há algum tempo, para se transformar em virtudes. A “indefinição”, outra palavra usada para atacá-la, parece ter sido até agora a opção de parte dos eleitores, para os quais a “definição” de outros candidatos é sentida como insuportável. Tudo indica que, de várias maneiras, este é um momento em que, para muitos, os pontos de interrogação soam como possibilidades – e o risco parece ter se tornado uma alternativa melhor do que certezas que preferem rejeitar.

O que isso significa? A chance de começar a desvendar os tantos sentidos dessa eleição fascinante é devolver a complexidade aos protagonistas. Compreender, por exemplo, qual Silva é Marina

por Eliane Brum - escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

Fonte: El país

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