sexta-feira, 30 de maio de 2014

Heli

Poucas vezes a violência foi retratada nas telas de forma tão explícita quanto em “Heli”, filme de Amat Escalante que chocou Cannes no ano passado. É realmente difícil não desviar os olhos nas cenas mais fortes. O incômodo, no entanto, se justifica, pois está perfeitamente inserido no contexto de denuncia do estado de absoluto caos social no qual a exploração neoliberal e a guerra contra as drogas mergulhou o México de alguns anos pra cá.

“Heli” é um jovem operário que tenta levar a vida da forma mais digna possível, apesar do ambiente inóspito que habita – uma cidadezinha do interior cravada no meio do deserto. Ajuda a sustentar a família – mulher, filho bebê, pai e uma irmã menor de idade – trabalhando numa dessas empresas multinacionais que se instalam nos países do terceiro mundo em busca de mão de obra barata semi-escrava. Mas é pego no contrapé de uma brutal trama de vingança ao tentar defender sua irmã, que havia escondido dois pacotes de cocaína a pedido de seu noivo, um recruta de uma Força Especial Militar dedicada ao combate às drogas. A partir daí é só “pé na porta e soco na cara”, com estupro, morte, tortura e descaso das “autoridades”.

O argumento é ótimo, o roteiro é bem amarrado, os atores são bons e o filme é muito bem dirigido. Apesar da narrativa na maior parte do tempo convencional, o diretor se dá ao luxo de produzir pelo menos uma cena de beleza plástica e conceitual impressionante, aquela na qual um veículo militar para de forma intimidadora na porta da casa do protagonista, desafiando-o.

Assisti no cinema, mas em São Paulo. Não me lembro de tê-lo visto por aqui.

BAIXE AQUI.

A.

#

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Gilberto Maringoni, uma entrevista ...

O inimigo é a velha direita e não o PT.

Gilberto Maringoni minimiza disputa interna no partido e promete não repetir ataques do PSOL ao PT na disputa em São Paulo. “O petismo pode não ser de esquerda, mas o anti-petismo geralmente é de direita”.

O historiador e cartunista Gilberto Maringoni, candidato a vereador pelo PSOL em São Paulo em 2012, teve de “atender a um chamado” do partido na última semana. O professor de filosofia da USP Vladimir Safatle [colunista de CartaCapital], que postulava a candidatura ao governo pelo PSOL, desistiu da disputa em meio a duras críticas contra o diretório estadual. As reclamações foram de que a legenda não tratou sua candidatura como prioridade e, consequentemente, não se engajou para levantar fundos. Maringoni, então, aceitou o desafio de assumir o posto de pré-candidato do PSOL no lugar do colega, a cinco meses das eleições. Maringoni diz não se tratar de uma candidatura “tapa-buraco”. “Essa é uma forma menos elegante de falar suprir a demanda. Eu atendi um chamado. Não estou tapando buraco, não”.
As condições para realizar a campanha ainda são as mesmas que foram decisivas para a desistência de Safatle. O PSOL não tem dinheiro em caixa e o historiador terá de sair “passando o chapéu” em busca de financiadores de campanha. Maringoni, entretanto, ameniza o conflito interno na sigla. “Essa questão [acusações de Safatle contra o PSOL] esquentou um pouco além da conta, mas nenhum fusível foi queimado. Não me parece que tenha inviabilizado a campanha”, afirma.
Com 18 anos de militância pelo PT, Maringoni tem um perfil um pouco diferente de outros candidatos lançados recentemente pelo partido. Os eleitores não devem esperar dele uma postura parecida com a do então candidato à Presidência pelo PSOL em 2010, Plínio de Arruda Sampaio, que atacou constantemente a hoje presidenta Dilma Rousseff (PT) em entrevistas e debates durante o pleito. Maringoni não tem problema em reconhecer os avanços dos governos Lula e Dilma. Ao contrário. Ele rejeita o “anti-petismo”, mas também não gosta da fama de ser considerado o mais petista dos membros do PSOL.
“Essa piada é genial”, ironiza, apesar de admitir que vai focar suas críticas nos tucanos. “O inimigo continua sendo a velha direita. Embora o PT concilie com isso, seja frouxo para combater isso, ainda é muito diferente da velha direita. Até porque sua base social é muito diferente. Aí que não critico o PT. O petismo pode não ser de esquerda, mas o anti-petismo geralmente é de direita”, defende. Confira a entrevista de Maringoni a CartaCapital.
CartaCapital: Como foi a decisão para sua candidatura? Você foi convocado depois da desistência do Safatle? 

Gilberto Maringoni: Eu sou filiado ao PSOL desde 2005. Fui da direção nacional. Coordenei a campanha do Plínio. O Safatle entrou no PSOL em setembro de 2013 e foi logo unanimidade no partido porque era uma chance de sinalizar para quem não é militante tradicional do partido. E o Safatle tem um detalhe interessante porque é um intelectual que faz um debate político mais amplo, um debate cultural da política. Não fica explicitamente na questão governo contra governo, PT contra PSDB, que em outros tempos nós chamaríamos de um debate ideológico. Ele escreve muito sobre os movimentos de junho. Aí ele propôs também uma coisa de muito interesse, que é um seminário com acadêmicos sobre ideias para o plano de governo. E, pelo que eu entendi, não acompanhei isso, não sou do diretório estadual, nacional, é que ele estava na dúvida de lançar a campanha. Não sei se por questões materiais. Não sei ao certo. E só aí me convidaram. Insistiram e eu falei: ‘tá bom’. Eu topei para fazer o debate. Foram vários dirigentes estaduais do PSOL que me chamaram. Fui candidato a vereador, fazer campanha é uma coisa muito boa. Você conhece a cidade, conhece um lado que geralmente não conhece. É uma vivência que eu não tinha tido [até 2012] e que é ótima. Você dá sua cara a tapa. Mas campanha a vereador é uma escala micro em relação a uma candidatura ao governo do Estado. O que me atraiu é saber que vou poder debater projeto, embora saiba que em campanhas como as nossas, com tempo mínimo de TV, as nossas únicas chances são nos debates televisivos. Mesmo assim é interessante você discutir um projeto maior. Aí que decidi aceitar. Depois de aceito é que teve esses problemas da semana passada [declarações do Safatle]. Não tenho vaidade. Estou com 55 anos. Milito desde os 19 anos. Militava na ditadura, participei de movimento estudantil, de partido. Então estou cumprindo uma tarefa cívica e democrática que qualquer cidadão pode cumprir.

CC: A impressão que ficou com a polêmica é que você foi convocado às pressas pelo partido. Sua candidatura é ‘tapa-buraco’?
GM: Tapa-buraco é um pouco menos elegante de falar suprir a demanda. Você pode dizer que a CartaCapital tapa um buraco de revistas politizadas. Sim, ela supre uma demandaEu atendi um chamado. Se você quiser chamar de tapa buraco, não é o mais elegante, mas eu não estou tapando buraco, não. Até porque tem muita gente no PSOL para suprir a demanda. Eu fui convencido, aceitei e agora estou achando que vale a pena. Sem ilusão nenhuma de resultado. Sem projeção de interesse pessoal. Eu vou me licenciar [da Universidade Federal do ABC] para cumprir essa tarefa. E é uma situação extremamente delicada que o País está passando agora que é uma ofensiva brutal da direita. E é uma ofensiva internacional. Eu não gosto de teoria da conspiração, mas os resultados das eleições europeias [mostram isso], principalmente na França, na Inglaterra, onde a extrema direita nunca teve tanta força. Isso além das eleições aqui na Colômbia, onde você teve um baixo comparecimento e polarização entre direita e extrema-direita. É uma situação que para nós coloca um quadro preocupante na América Latina.
CC: Uma das críticas que o Safatle fez, após o problema com o PSOL, é que a esquerda fica muito presa a “disputas internas”. Você acha que a esquerda não está madura no Brasil?
GM: Disputa interna tem dentro da direita e da esquerda. A disputa do Aécio e do Serra é histórica. Você organizar o seu time sempre tem disputa interna. O problema é que as disputas da direita são sempre abafadas pelo dinheiro ou por alguma liderança maior. É muito sintomático que o PSDB aqui em São Paulo há 20 anos só tenha dois candidatos. O Alckmin, quando terminar esse mandato, vai estar há 9 anos como testa do governo. Isso é sinal de competência? Não, isso é sinal de falta de renovação. O quadro secundário deles é formado por gente como Robson Marinho ou Bruno Covas, figuras secundárias. Se a disputa é fratricida é óbvio que ela é negativa. Agora a disputa em si, ela existe e é saudável. Eu acho que essa questão [acusações de Safatle contra o PSOL] esquentou um pouco além da conta, mas nenhum fusível foi queimado. Não me parece que tenha inviabilizado a campanha. Até porque o PSOL não tem aparelho, não tem máquina. Apesar de que, pelo tamanho, é um partido que tem uma presença além do que é o seu peso orgânico: três deputados federais, um senador, um deputado estadual, um vereador...
CC: O Safatle também criticou o partido por ser refratário em relação à necessidade de montar uma “aliança de frente de esquerda”. Como você avalia a esquerda pós-PT, como disse o Safatle?
GM: Primeiro, acho que não estamos numa era pós-PT. Eu acho que a época do PT não passou. Pós-PT é uma imprecisão. Você pode falar em pós-PCI (Partido Comunista Italiano), mas o PT está aí. Você também pode falar que há uma discordância em relação a algumas diretrizes. O que eu acho é o seguinte: o que nós tivemos com a ida do PT ao governo é que tivemos uma paulatina guinada de adequação ao status quo. O governo representa grandes avanços para a sociedade brasileira. Não sou daqueles que acha que você tem que ser anti-PT. Agora o PTembora tenha feito grandes avanços, não tocou em nenhum interesse das classes dominantes. Não fez nenhuma reforma que penalizasse as grandes fortunas, não penalizou o capital financeiro, não fez reforma agrária, não fez reforma urbana para minimizar o efeito da bolha imobiliária que há em algumas grandes cidades. Então é uma ação muito aquém do que podia ser feito, mas é um avanço. O que colocamos é que essas reformas que foram postas de lado precisam ser feitas, e é o meu entendimento. Não sei se é o entendimento do PSOL. Agora o inimigo, o adversário mesmo, continua sendo a velha direita. Embora o PT concilie com isso, seja frouxo para combater isso, ainda é muito diferente da velha direita. Até porque sua base social é muito diferente. Aí que não critico o PT. O petismo pode não ser de esquerda, mas o anti-petismo geralmente é de direita.

CC:
 Você acha possível uma frente de esquerda? Por que os partidos de esquerda, como PSOL, PSTU e PCdoB são tão divergentes?
GM: Sobre o PSTU, nós disputamos uma base social muito semelhante. Seria de se estranhar se não tivessem rusgas, um falando mal do outro. São partidos que estão disputando o mesmo espectro. É o espectro do movimento sindical e do movimento social radicalizado, e você tem que chegar chegando. Tem que chegar disputando. Isso vai gerar cotovelada. Como nos anos 1950, tinha o PTB, que era uma esquerda getulista e o PCB que era uma esquerda comunista e os dois viviam às turras. Mas volto a dizer o quadro nosso não é um quadro autofágico da esquerda. A gente discute uma frente de esquerda. Talvez saia. Claro que é possível. A relação dos partidos é igual de irmão. Eu vivia de cotoveladas com meu irmão, mas a gente se entendia. É meu irmão.
CC: O senhor é visto com o mais petista dos integrantes do PSOL. Como uma pessoa com esse perfil pode liderar uma frente de esquerda depois que o PT chegou ao governo?
GM: Essa piada é genial. Ué, eu fiquei no PT 18 anos. Se eu quisesse ser petista, ia no PT com todo conforto. Seria bem tratado, não teria problema algum. O que eu acho é que temos que fazer uma política de disputar com o PT uma base popular. Eu não concordo com a política macroeconômica do PT. Não concordo com a aliança com o sistema financeiro, feita via taxa de juros. Não concordo com as privatizações que a Dilma está fazendo, com a aliança com o agronegócio, com o governo petista não ter aberto debate pela regulação da mídia, que é um escândalo. Eu não concordo com nada disso. Mas qual é a base social do PT? Os trabalhadores. A maioria dos sindicatos são simpáticos ao PT, os pobres brasileiros votam majoritariamente no PT. Você tem importantes setores do movimento popular organizado, uma série de ONGs progressistas que, mesmo achando que não dá mais com o PT, vão votar no PT para impedir o crescimento da extrema direita aqui no Brasil. O que eu tenho que fazer? Falar mal do PT ou fazer esse trabalho de disputar essa base social? Então vou disputar essa base social e dizer o seguinte: ‘olha quero conversar com vocês’. Não adianta espancar o PT, dizer que é o demônio na Terra porque aí eu brigo com a base social.
CC: Mas é possível ganhar essa base social com esse discurso, sem atacar o PT? Como tornar possível uma conjuntura de uma “nova esquerda” com esse discurso?
GM: Eu não consigo entender essa coisa de nova esquerda. O PT é o PT que é porque tem base social. Tenho que disputar essa base social, não ficar brigando. Eu tenho que saber ter diálogo, linguagem, abordagem com essa base social. Isso é muito mais radical do que ficar falando que o PT é isso, aquilo e tal. O que adianta eu xingar o Lula? Posso xingar, mas efetivamente isso é muito pouco. Senão você fica no denuncismo, ganha uns votinhos, mas não entra na disputa real.
CC: Mas é possível conseguir crescer e ganhar espaço só com essa ação política, sem se mostrar diferente do PT?
GM: Nós somos diferentes do PT. Nós não recebemos doação de empreiteiras, de bancos. Nós temos na política econômica questões essenciais para nos diferenciar do PT. A principal sangria é o pagamento da taxa de juros. O Brasil tem uma dívida interna de 2 trilhões de reais no total. Essa dívida faz com que o 40% orçamento público vá para o pagamento da dívida. Criança acima de 10 anos de idade sabe disso. O nosso problema não é o montante da dívida, que é baixa em relação à da Itália, da França. O nosso problema é o fluxo que sai do Tesouro. Esse fluxo é determinado pela taxa de juros que está em torno de 5% em termos reais. Se eu baixo essa taxa, eu piso na mangueira que drena dinheiro. Eu corto o fluxo, e o sistema financeiro pula. Baixar o juros é a medida mais radical que você pode ter na economia brasileira hoje.
CCE no cenário estadual, o que o PSOL traz de diferente do PT?
GM: São Paulo tem um terço do PIB brasileiro. Eu estava fazendo as contas. Pelo tamanho do PIB, somos [São Paulo] o 25º país do mundo. Então o peso que São Paulo tem nacional e internacionalmente é muito grande. Um quarto do lucro mundial da Telefônica vem daqui, da área da antiga Telesp. Nos últimos 20 anos, São Paulo foi o laboratório das grandes privatizações da era tucana, e o Estado perdeu capacidade de intervenção na economia e na sociedade. Então essa perda cria um problema sério na oferta de serviços públicos. Sobre a Sabesp, por exemplo, a melhor matéria foi do Fábio Serapião da CartaCapital. Ali fica claro que você destina 58 milhões de reais para os acionistas. Mas por que você destina isso? Porque você não privatizou a Sabesp. Você a transformou numa empresa mista com 40% das ações em mãos privadas. Quando você faz isso numa empresa de capital aberto, tudo bem. Numa empresa de serviços públicos implica você não investir o lucro para a empresa se renovar. Esse é um problema básico de São Paulo que de certa forma está em todo o Brasil. Precisamos recuperar o caráter decisório do Estado nas empresas estatais. E tem outras questões. O aparato de segurança em São Paulo está fora de controle. Não é só uma questão do governo Alckmin ser a favor da truculência. Você precisa desmilitarizar a polícia, rever as relações entre comando e base da polícia, fazer um processo de readequação do aparato policial. Geralmente em países com discrepância de renda muito acentuada os aparatos policiais são violentos. Então também precisamos atacar a disparidade de renda. Não é a pobreza que é violenta, é a diferença de renda. Nenhuma dessas tarefas você faz com um decreto de saída, mas, se você não abre essas picadas, você não atende as demandas de junho na sua raiz, que é a ineficiência dos serviços públicos.
CC: Você levantou duas bandeiras que devem ser o foco da campanha petista em São Paulo contra os tucanos: água e segurança. É assim que você pensa em conversar com a base social do PT?
GM: O que o PT vai propor? Eu fico aqui pensando. Vai pegar financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a Sabesp? Mas injetar dinheiro na Sabesp não vai resolver. Essa é a medida tradicional que o PT tem feito. Essa medida bateu no teto. Então, ou você muda a característica da empresa ou retoma o controle para ampliar sua influência dentro da empresa, para que você não fique refém da distribuição do lucro. Senão, não vai adiantar. Vão colocar dinheiro e vai ficar num saco sem fundo.
CCUm dos motivos  que fez o Safatle desistir foi a falta de dinheiro no caixa do PSOL. Ele disse que levantou sozinho 300 mil reais com apoiadores, mas falou que só com esse valor é pouco para uma campanha de governador. Você concorda? Como vai ser sua campanha se o partido não tem dinheiro?
GM: Ele está correto no que fala. Essa quantia de 300 mil reais é modesta para uma campanha para governador. Se você pensar que as candidaturas de PT, PSDB e PMDB vão ficar entre 50 e 80 milhões de reais numa conta modesta, 300 mil reais não é nem uma campanha para vereador em São Paulo. Em 2012 algumas campanhas a vereador do PSDB estavam orçadas entre três e seis milhões de reais. Isso na capital paulista. A questão é que o PSOL não tem esse dinheiro agora. E esse dinheiro no PSOL não é um dinheiro que se possa ter na mão, dinheiro vivo. E você tem uma pulverização de candidaturas a deputado estadual e federal, você tem Ivan Valente, Giannazi e uma série de candidatos que acabam potencializando a campanha. É como se você tivesse até mais do que 300 mil reais pulverizados na ação politica, em gente que trabalha voluntariamente. E o nome do governador sai em todo material de campanha de deputado. Em termos absolutos, eu acho que vamos ter por aí mesmo, mas não em dinheiro vivo. E claro que vamos passar nosso chapéu para os amigos. Mas vamos fazer essa campanha militante.  Estamos loucos, malucos? Não, não estamos. Esse é o caminho. Se a gente não sai candidato, perdemos nossos deputados e a gente fica com isso aí: com o PT cada vez mais semelhante ao PSDB nas politicas, embora tenham bases diferentes. E, em uma situação mais adiante, podemos ter um cenário como o da Colômbia. Não estou dizendo que o PT é de direita.
CC: Você falou da importância dos candidato a deputado federal e estadual. Uma questão que o Safatle levantou é que, no PSOL, a candidatura a governador não é prioridade. Você concorda?
GM: Não existe essa questão. Claro que temos mais chances nas proporcionais, mas sem uma candidatura com o mínimo de viabilidade, não daria [para lançar candidato]. Eu não sou nenhum sujeito conhecido, mas eu sei fazer campanha. Você tem que casar as duas coisas, tanto que o primeiro candidato nosso foi o Plinio de Arruda Sampaio, que era um candidato histórico. A gente sabe o tamanho do nosso chinelo, mas não tem esse negocio de prioridade, tapa-buraco. Claro que vão falar que eu sou o mais petista do PSOL. Ao contrário, acho que vamos fazer a campanha mais radical do PSOL, que é disputar a base social do PT.
CC: Você se considera mais radical que o Safatle ou que outros nomes dentro do PSOL?
GM: Eu não vou me comparar. Eu acho ele brilhante. Não tenho um radicalômetro. Eu acho que vou mostrar os limites do PT, mas especialmente as diferenças com o PSDB. Vou mostrar quilo o que o PT não pode falar, porque privatização não é mais uma diferença entre PT e PSDB. Vou ter que mostrar a questão trazida pelos movimentos de junho. Isso o PSOL faz sempre. Eu tenho dúvidas de que vamos ter movimentos como aquele de novo. Eu acho que os movimentos mudaram de qualidade, como no caso dessas greves dos garis e dos motoristas fora dos sindicatos. Você não pode fazer como o Haddad de dizer que é um movimento de guerrilha. Ele pode discordar do tipo de ação que os trabalhadores fizeram, mas acusar de terrorista é meio exagero. Isso é novo, essas estruturas institucionais, como a própria instituição sindical, estão sendo questionadas. Esse é fenômeno social novo, que é a saída desses canais existentes, conquistados há 30 anos. Todas que andavam em paralelo ao PT.
CC: Quanto o senhor pretende conquistar de votos nas urnas? Qual é a meta? O Safatle reclamou que o PSOL não pode se contentar com 2%. Segundo ele, o partido tem que colocar 6% como meta.
GM: Claro eu queria que o PSOL tivesse até mais do que 6%. O PSOL teve em 2006 uma conjuntura especial, que foi 6% dos votos com a Heloísa Helena. A gente teve 5% em Fortaleza. Tivemos 33% com o Marcelo Freixo. Ganhamos no Macapá. Brasília teve 15%. Aqui a gente fica em torno de 1%. É o eleitorado mais difícil porque o poder econômico está aqui. Eu gosto de 1%? Não gosto. Se eu ficar pensando nisso, eu não faço campanha. Eu quero ganhar. Mas não vou colocar uma meta porque posso me frustrar ao ver que minha meta era muito modesta se eu ganhar as eleições.
por Renan Truffi
#


quarta-feira, 28 de maio de 2014

O DVD "Desagradável" da gangrena gasosa ...

Quase tudo que envolve a Gangrena Gasosa, lendária banda de "Saravá metal" carioca, tem um toque de bizarrice e polêmica. Praticantes de cultos de matriz africana já quiseram matá-los – alguns quase chegaram às vias de fato – e “metaleiros” menos atentos não engolem “Quem gosta de Airon Meiden também gosta de KLB” – que na verdade é uma ode ao metal “real”. Já os ativistas gays – e simpatizantes da causa, dentre os quais me incluo – têm bronca com “Emboiolada” – e nesse caso têm razão, pois a letra é realmente ofensiva. Angelo Arede, um dos vocalistas, admite que hoje mudaria uma ou duas frases, mas explica que tudo se insere num contexto de humor e ironia, já que a letra foi inspirada no que ouviu durante um duelo de "embolada" na Feira de São Cristóvão. Conta também que, inclusive, "aliviou" no conteúdo, justamente com receio de ser mal interpretado, o que poderia levar a banda a atrair tipinhos asquerosos de extrema direita que curtem espancar minorias ...

São muitos anos de estrada e muitas e muitas tretas e histórias sinistras - e divertidas - para contar. Eu Sou fã de primeira hora e também tenho as minhas. Como a de quando conheci o antigo vocalista, Chorão 3. Havia lido, há MUITO tempo, uma entrevista na qual eles se diziam todos viados e representantes do movimento Homo Core. Normal. Um dia fui a Recife ver um show do Jason, também do Rio, e encontro lá o Chorão, com quem havia trocado algumas correspondências e feito uma entrevista para o meu fanzine. Normal também. Gente boa. Mas eis que, no final do show, ele me convida pra ir dormir na casa de um tio em Boa Viagem. Normal, mas imediatamente a lembrança da tal entrevista me veio à mente e um sinal de alerta começou a tocar em meu cérebro. "Será que esse negão tá a fim de abusar de minha ingenuidade?", eu pensei. Avaliei a estampa do indivíduo e concluí que poderia resistir a uma abordagem mais agressiva, então fui. Chegando lá, ele logo me chama para o quarto, supostamente para vermos um video inofensivo. Só que parecia um quarto de motel, com cama redonda e espelho no teto. Percebendo minha hesitação, ele me explica que seu tio era meio tirado a garanhão, que não ligasse. Respirei aliviado e lhe falei da entrevista que havia lido. Rimos muito e somos amigos desde então.

Outra história: Soube que a Gangrena iria lançar seu primeiro DVD no Circo Voador abrindo para o Cannibal Corpse! Fui. E não é que aconteceu de o show ser justamente no dia em que o caos tomou conta das ruas do Brasil, especialmente do Rio de Janeiro? 20 de junho de 2013. Bombas de gás lacrimogênico por todos os lados e a polícia caçando qualquer um que estivesse nas ruas da Lapa, com auxilio inclusive de carros blindados, conhecidos popularmente como "caveirão". Uma verdadeira batalha campal, típica de uma guerra civil ou de um estado de exceção! Enquanto isso o couro comia no palco do circo, entre um ou outro intervalo para que o público se recuperasse dos efeitos do gás que chegava por cima da lona. Foi antológico!

O DVD é "Desagradável" - fique avisado, portanto. Mas se resolver encarar, saiba que vai assistir a uma das melhores peças de comédia involuntária - ou não! - já produzidas na face da terra. Dirigido por Fernando Rick, o mesmo de "Guidable, a verdadeira história do Ratos de Porão", conta com o depoimento de praticamente todos os que passaram pelas inúmeras formações da banda - e foram muitos - e mais testemunhas oculares – e auriculares - ilustres do calibre de Jello Biafra, B Negão, Marcelo D2, Dado Villa Lobos - que lançou o primeiro disco pelo seu selo Rock it - Marcos Bragatto e Tom Leão, dentre outros. Um verdadeiro inventário de insanidades e histórias bizarras e supostamente reais, na medida em que o olhar de quem conta o conto interfere na autenticidade dos fatos. É difícil de acreditar, por exemplo, nas incríveis coincidências apontadas por Fabio, proprietário do Garage, verdadeiro templo do underground carioca. Ou dos Ratos de Porão, que saíram de uma zica apenas quando fizeram de frisbee o disco da Gangrena que haviam ganhado algumas horas antes.

São muitas histórias - e poucas imagens da época, infelizmente. Não havia a facilidade que temos hoje, e pouca gente tinha como registrar tudo aquilo. Um dos pontos altos, porém, a tour pela Alemanha, foi registrado, e está tudo lá: do assédio de um dos componentes a uma deficiente mental num squat repleto de punks politicamente corretos ao cagaço quando se viram cercados por neonazistas numa estação de trem. Ou a visita a um campo de concentração desativado - extremamente desrespeitosa, evidentemente.

Para compensar a falta de imagens históricas temos, num segundo disco, um show filmado há cerca de três anos no "Inferno" - onde mais? - em São Paulo. Não é ruim, mas infelizmente a banda não estava em uma de suas melhores formações, o que prejudicou a perfomance e o resultado final. Em todo caso, é muito bom vê-los finalmente numa produção à altura de sua reputação, com direito a efeitos especiais e atuações teatrais macabras em pleno palco.

Imperdível!

A.

#

The Jesus & Mary Chain no Memorial da América Latina

Foto por Rodrigo Sommer
Não dá pra negar que houve uma certa dose de decepção para os que foram ver o The Jesus & Mary Chain ao vivo no Memorial da América Latina domingo passado. Muito por conta da falta do peso e da distorção, que só deram as caras, e mesmo assim em níveis abaixo do que gostaríamos – creio que posso falar por todos os presentes, pelo menos os que conheciam a banda – no bis, quando tocaram uma seqüência de seu disco mais célebre e barulhento, o primeiro, “psychocandy”. Os demais contratempos já eram previsíveis: a perfomance sofrível de Willian – que não cantou, apenas tocou – ou tentou tocar – guitarra - e o mau humor de Jim, que chegou a interromper a apresentação por três vezes. A falta de entrosamento era evidente, mas a qualidade das canções e o simples fato de estarmos ali, em frente a uma bela estrutura – tá “podendo”, a Cultura Inglesa – montada ao lado da icônica mão com o mapa da América Latina sangrando diante de um dos maiores mitos do rock mundial, compensou o esforço de sair de casa – no meu caso, de muito longe – num domingo chuvoso. Chuva que deu uma trégua e recomeçou, por incrível que pareça, exatamente na hora em que eles começaram “Happy when it rains”! Um daqueles momentos mágicos que ficarão guardados para sempre na memória dos presentes ...

O show do jesus foi também, eu confesso, uma desculpa “de luxo” para passar alguns dias em São Paulo, nossa megalópole insana e frenética, entre amigos queridos, discos, livros e cinema da melhor qualidade. Dentre os muitos bons programas possíveis recomendo uma visita à Sensorial Discos (Rua Augusta, 2.389 – jardins), que tem um bom acervo de cervejas, CD´s e discos de vinil a preços convidativos num um ambiente aconchegante e ótimo atendimento. De lá você pode seguir para o número 2075 da mesma rua e pegar uma ou mais sessões no Cinesesc, que atualmente abriga em seu saguão uma belíssima exposição de fotografias com astros do cinema nacional. Lá vi dois filmes, um bom – “Hotel Mekong”, tailandês, de Apichatpong Weerasethakul, uma espécie de exercício estético semidocumental – e sobrenatural - filmado às margens do rio que separa a Tailândia do Laos – e outro ótimo: “Heli”, de Amat Escalante, brutal produção mexicana que merece um parágrafo à parte ...

A história, totalmente “Mundo cão” e muito bem contada, se passa numa cidade do interior do México assolada pela violência do narcotráfico. Violência que é escancarada na tela sem concessões, sem desvios de olhar. Gira em torno das conseqüências de um romance adolescente que desanda devido ao roubo de dois pacotes de cocaína desviados dos estoques apreendidos por um esquadrão militar, numa trama de vingança banhada em sangue. Absolutamente chocante, principalmente porque sabemos que é real.

por Adelvan - Abaixo, entrevista conduzida por Fabiana de Carvalho e publicada originalmente no g1.

© Copyright 2000-2014 Globo Comunicação e Participações S.A.

A história do rock britânico certamente seria muito diferente – e menos barulhenta – se os irmãos Jim e William Reid não tivessem criado, em 1983, o Jesus and Mary Chain. Sem saber tocar quase nada, mas com um talento nato para compor doces melodias e soterrá-las em paredes de guitarras distorcidas e muito altas, a dupla garantiu o primeiro sucesso da então recém-criada gravadora Creation, de Alan McGee, que lançaria ainda bandas como Primal Scream, Teenage Fanclub, My Bloody Valentine e Oasis, entre muitas outras.

No domingo (25), o Jesus and Mary Chain faz sua terceira visita ao Brasil, após shows em 1990 e 2008, como a principal atração do encerramento do 18º Cultura Inglesa Festival. O evento, que tem ainda apresentações dos galeses do Los Campesinos! e dos brasileiros Monique Maion, Voliere e Staff Only, acontece na Praça Cívica do Memorial da América Latina, a partir das 12 horas. Veja abaixo como retirar os ingressos gratuitos.

Em novembro, Jim e William, únicos remanescentes da formação original, vão tocar, na íntegra, seu disco de estreia, em shows em Londres, Manchester e Glasgow. “Psychocandy” completa 30 anos em 2015 e, com sua combinação perfeita de doçura e psicose, tão bem definida no título, é considerado um dos discos mais influentes do rock britânico em todos os tempos. Também às vésperas da histórica data está sendo lançada uma biografia oficial, “Barbed wire kisses: The Jesus and Mary Chain story”. Escrito pela jornalista Zoe Howe, o livro chegou às lojas inglesas no dia 19 de maio.
Em entrevista ao G1, por telefone, Jim Reid falou principalmente de sua complicada relação com o irmão William, com quem divide os vocais e guitarras. As brigas entre eles já aconteciam na década de 80, quando a banda fazia caóticos shows de 15 minutos que, invariavelmente, terminavam em equipamento destruído e pancadaria entre músicos e plateia. Muitos anos depois, elas chegaram a provocar o fim da banda, em 1998, após o lançamento do sexto disco, “Munki”.

Em 2007, porém, os irmãos chegaram a um acordo e voltaram aos palcos no festival Coachella, nos Estados Unidos. Desde então, fizeram alguns shows e prometeram um disco novo, que ainda não saiu porque, previsivelmente, os dois nunca chegam a um acordo. Depois da reunião – que não significa necessariamente que fizeram as pazes – Jim e William apresentaram apenas uma música nova, “All things must pass”, em 2008.
Leia a seguir a entrevista de Jim Reid.

G1 – A pergunta é inevitável, já que disso depende a existência da banda. Como anda o relacionamento entre você e seu irmão?
Jim Reid – 
Sempre vai ser problemático entre William e eu, sempre seremos problemáticos. Termos essa banda juntos é uma grande alegria, mas é preciso certo esforço para as coisas funcionarem. Acho que existe muita tensão, que acaba indo parar nas músicas e ajuda a fazer bons discos. Não acho que nós dois voltaremos a ser melhores amigos novamente, mas sabemos como não incomodar um ao outro. Definitivamente é a banda que nos mantém juntos. Não conversamos muito e, sempre que o fazemos, é sobre a banda. Depois desse show (no Brasil) vou passar uns tempos em Los Angeles e nós não vamos nem nos ver.
G1 – Havia uma enorme expectativa pela volta da banda, mas desde que vocês se reuniram não fizeram muitos shows e lançaram apenas uma música nova. Por que?
Jim Reid – 
Basicamente é uma questão de oportunidade, sabe. Nós não precisamos tocar mais, não existe necessidade. No momento não há um disco novo para promover, então, de vez em quando, quando temos vontade de fazer alguns shows, reunimos a banda e fazemos uma pequena turnê. A diferença é que agora fazemos pelos fãs, sem ter um álbum ou uma gravadora te dizendo pra fazer turnês para promovê-lo. Agora é algo simplesmente por puro prazer e eu gosto disso.
Não acho que nós dois voltaremos a ser melhores amigos novamente, mas sabemos como não incomodar um ao outro"
Jim Reid, sobre o irmão William
G1 – E quando exatamente você e William decidiram reunir a banda e por que?
Jim Reid –
 Por várias razões. Não tocamos juntos durante nove anos. É esquisito. Nos anos 90 eu não imaginaria que algum dia iria querer voltar a tocar com o Jesus and Mary Chain porque era tão terrível, tão inacreditavelmente doloroso. Então, se naquela época alguém me dissesse ‘olha, você vai fazer isso de novo um dia’, eu nunca acreditaria. Mas, você sabe, nove anos é um tempo longo e é tempo suficiente para curar algumas feridas. Então comecei a pensar ‘talvez não tenha sido assim tão ruim’, entende? Mas levou um bom tempo até tudo acontecer. O pessoal do Coachella ficava nos convidando todos os anos, tentando levar a banda para tocar no festival. E aí simplesmente aconteceu de eu e William nos falarmos por telefone após um longo tempo. E percebemos que eu achava que ele nunca iria querer voltar e ele pensava que eu é que não aceitaria. Foi quando entendemos que ambos estavam interessados.
G1 – E você alguma vez imaginou que estaria tocando no Jesus and Mary Chain 30 anos depois de lançar 'Psychocandy'?
Jim Reid –
 Oooh! (risos). De jeito nenhum eu poderia imaginar isso. Quando você tem vinte e poucos anos simplesmente não imagina como será o futuro. Eu tenho 52 agora. Há trinta anos eu não imaginava que esse tipo de coisa poderia acontecer. Quando você tem vinte não pensa em como vai ser quando tiver cinquenta.
G1 – E além dos shows para os 30 anos do primeiro disco, quais são seus planos? Alguma novidade sobre aquele disco que vocês prometem desde 2007?
Jim Reid – 
Sim, temos planejado um disco há bastante tempo mesmo. Mas discutimos muito sobre como gravá-lo e onde fazer isso. Então ainda não gravamos nada. Mas acredito que em algum momento haverá um disco novo sim. Vai ser preciso uma dose de sorte, acho (risos).
G1 – No início vocês ficaram famosos pelo caos no palco e pelas violentas brigas em seus shows de 15 minutos. Quando você acha que o Jesus and Mary Chain se tornou uma banda mais madura?
Jim Reid – 
Bem no comecinho tínhamos nossas razões... quer dizer, pra começar nós nem tínhamos muitas músicas pra tocar. Outra coisa é que nós queríamos nos certificar de que seríamos muito barulhentos e extremos e pensávamos que nada poderia causar mais impacto nas pessoas do que tocar dessa forma por 20 ou 25 minutos no máximo. Mas depois lançamos outro disco, tínhamos mais músicas e as pessoas passaram a esperar mais de nós. Além disso, todo mundo envelhece, todo mundo muda. Os caras de bandas não são nem um pouco diferente.

G1 – E você acha que hoje em dia é impossível uma banda ser tão espontânea quanto vocês eram no início? Acha que não há mais espaço para a inocência daquela época do início da gravadora Creation?
Jim Reid –  
Sim, você tem razão, é impossível ser daquele jeito, tudo mudou de forma absurda. No início, a Creation Records era basicamente Alan McGee, Dick Green e nós, as bandas. Não existiam nem escritórios. As bandas simplesmente ficavam no quarto de hóspedes da casa do Alan, dobrando encartes, montando as capas dos discos e coisas assim. Hoje em dia eu nem sei te dizer mais como funciona o mundo da música. Está mais fácil gravar um disco, claro, mas a música escocesa ficou muito pior. O indie, ou punk, ou seja lá como for que você queira chamar, não consegue revelar uma banda boa. Esse tipo de música está quase como era o jazz nos anos 90.
G1 – Você ainda percebe a influência do Jesus and Mary Chain em outras bandas? Qual a maior contribuição de vocês, na sua opinião?Jim Reid 
– Não ouço muitas músicas novas. As pessoas me dizem sempre que existem bandas que soam como o Mary Chain e algumas mencionam isso em entrevistas. Quer dizer, às vezes até ouço alguma banda e reconheço algo de Jesus and Mary Chain ali, é legal isso. Mas acho que nossa maior contribuição são nossos discos e a maneira como realmente não nos importávamos no início. Havia muita gente na indústria musical que não nos queria e que achava que não podíamos gravar as coisas que fizemos naquela época. Acho que tivemos muita sorte.
G1 – E com que  frequência as pessoas ainda abordam vocês para falar sobre a banda e os discos mais antigos?
Jim Reid – 
Bem, eu moro em Midlands [região central da Inglaterra] e tenho que ser honesto com você: ninguém me conhece ou sabe quem eu sou. Mas, sim, quando viajamos muita gente ainda vem falar sobre a banda, especialmente integrantes de outras bandas.
G1 – Vocês estiveram duas vezes no Brasil, a primeira delas há mais de 20 anos. Você se lembra de muita coisa daquela época? E como compara as duas visitas?
Jim Reid – 
Sim, eu me lembro muito bem da primeira visita, na verdade. O público era muito entusiasmado. E, bem, éramos obviamente bem mais velhos da segunda vez, mas também foi ótimo. A única grande diferença pra mim é que eu estava bastante sóbrio dessa vez, porque foi durante um período de cinco anos durante os quais eu não bebia.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

55 Anos de Morrissey

Todas as adolescências se perdem nas dele, nos Smiths e a solo. Morrissey não cresce. Odeia a Família Real, a Inglaterra, a indústria musical, Madonna. Há quem amadureça com a idade. Há quem nunca cresça. E depois há Morrissey, que está proibido de crescer. Desde os tempos dos Smiths que a sua persona é edificada a partir dessa impossibilidade: recusando a responsabilidade, recusando o equilíbrio, recusando ser adulto.

Os Smiths foram importantes pela visão parcial do mundo que impuseram. E Morrissey incorporou essa noção com requinte, pela sua imperfeição, pela recusa da realidade, pela negação de crescer. Um pouco de satisfação, algum ajustamento com o mundo são coisas que não rimam com o cantor inglês. A sua actividade alimenta-se do fluxo da adolescência - essa forma de vacilar entre a liberdade e a claustrofobia, entre as inúmeras possibilidades que a vida possui e os constrangimentos e as frustrações que também acaba por implicar.

A sua tragédia é também a sua mais-valia. Como Mick Jagger, ou Johnn Lydon, está condenado a viver na sua personagem para sempre. O seu estilo é tão perfeito que não é possível sair dele. Exactamente porque não é um estilo. É ele. É a sua pele. Desde a primeira metade dos anos 80 que é assim. Hoje, no dia em que completa 55 anos de vida, não é diferente. Quando se comunica com ele percebe-se isso de forma transparente.

- Bem, durante muitos anos diziam que eu era um Smith, por isso dizerem agora que sou um mito (myth) é apenas uma pequena alteração,.

É o que ele responde, com a habitual ironia, quando lhe perguntamos como se sente quando é tratado pelos inúmeros admiradores pelo mundo fora como se fosse uma lenda viva. Nem todas as personalidades da música têm as características adequadas a uma base de admiradores extremamente fiel. Ele tem.

Os Smiths só lançaram quatro álbuns, entre 1984 e 1987, mas as personagens da maior parte das canções provocaram adesão imediata. As palavras de Morrissey certificavam-nos de que não tínhamos de nos sentir excluídos. Constituíam a prova de que havia outros por aí a experimentarem o mesmo. De repente, alguém cantava poeticamente acerca de coisas que pensávamos ser os únicos a sentir e a confusão, a rejeição ou a solidão eram-nos mais toleráveis, pela possibilidade de partilha.

- A maior parte das pessoas acha difícil escrever o seu próprio nome.

A pergunta era se é difícil escrever uma boa letra na actualidade. E a resposta continua: "Quando examino alguém como McDonna, que vendeu 90 milhões de álbuns, não consigo pensar numa única canção decente que tenha escrito", acrescenta, dizendo que hoje a maior parte das letras não tem significado nem carisma. "Na Inglaterra existe uma coisa chamada Brit Awards, cuja política é atribuir prémios às piores contribuições para a música que possamos imaginar. Por isso não existe nenhum incentivo da indústria no sentido de que sejam escritas boas letras."

As letras de Morrissey, as suas incertezas acerca da existência, provocam uma identificação simples e directa. Em grande parte porque ele próprio possui uma mentalidade de fã. É tímido mas altivo ao mesmo tempo. É um pouco misterioso, mas também extremamente cáustico. É culto, capaz de citar Oscar Wilde ou um poeta britânico no momento certo, mas logo de seguida pode escarnecer de um cantor rival como qualquer fã de música, sem distanciamento crítico, da boca para fora. Eis o que diz sobre celebridades da música actual como Lady GaGa, Adele, Rihanna ou Beyoncé:

- Elas são altamente financiadas, agressivamente promovidas e as suas editoras fazem tudo, mas tudo, para que não fracassem. Falhar, portanto, é impossível, para gente como GaGa.

"Não existe nenhuma música nova por aí que me satisfaça", continua, para logo se contradizer. "Bem, amo Kristeen Young... É incrível... Sem gravadora, claro!... Hoje as gravadores apenas assinam com quem lhes entrega de bandeja o que se ganha dos concertos e do publishing... O que a maior parte das crianças com borbulhas de 16 anos se dispõe a fazer... Mas eu não tenho 16 anos e não sou um desenho animado."

Heróis e marginais

Nem o fim dos Smiths, em 1987, constituiu a sua extinção - por causa dos fãs. Basta ver o excelente documentário Is It Really So Strange (2004), de William E. Jones, sobre os improváveis entusiastas hispânicos: jovens latinos entre os 20 e os 25 anos com tatuagens de devoção a ele e exímios penteados à Elvis Presley, tal como o adotado por Morrissey desde sempre. Dir-se-ia estarmos num cenário de um filme colorido de John Waters, em plena década de 1950 - mas estamos numa encenação garrida do século XXI, onde todos sabem as canções de cor e procuram ser como ele.

Como é que um cantor tantas vezes arrogante, de pronúncia nitidamente britânica, de orientação sexual gay, seduziu a comunidade latino-americana da Califórnia, proveniente de uma cultura com tiques machistas? Os hispânicos, nos EUA, são "marginais", "outros", "invisíveis", e nas canções de Morrissey os párias também são admiráveis. Talvez esteja aí uma explicação possível para esse fenómeno de identificação. Mas se Morrissey é modelo, James Dean ou Oscar Wilde foram modelo para ele próprio. E ele sabe-o muito bem. E gosta de falar sobre isso. Aliás, ele não fala de outra coisa.

- James Dean é arte humana. Não encontrará uma única má fotografia de James Dean. Ele não era um actor. Era um símbolo, da mesma forma que Marilyn Monroe o era. Eles são mais famosos e mais amados do que qualquer presidente americano de que nos consigamos lembrar. E Oscar Wilde foi a primeira estrela pop de sempre. Como escritor, nunca foi acomodado. Amava a vida e a sua popularidade só tem tendência a crescer enquanto o tempo passa. E é amado pelas pessoas mais novas, como Shakespeare nunca foi. Continuo a achar que Wilde foi assassinado pelos serviços judiciais britânicos porque invejavam a sua popularidade.

Quando os Smiths apareceram, providenciavam fantasias de inocência para os que estavam no processo de deixar a adolescência. Gente dividida entre as insatisfações juvenis e ter uma carreira, entre sonhar com uma vida melhor do que a dos pais e o medo de cair na mediocridade. Ao longo dos anos, Morrissey sempre enalteceu as debilidades, as fraquezas, o falhanço. Os fortes são aqueles que não têm problemas em expor as suas fragilidades, parecem dizer quase todas as suas canções.

Pop e anti-pop

Ainda hoje Morrissey incorpora um novo estilo de celebridade. Tem qualquer coisa de pureza pop e de anti-pop. É um de nós, mas um de nós que apenas pode ser ele. Alguém que conhece bem a história da pop e os mecanismos de obsessão dos melómanos. É como se quisesse utilizar os mecanismos da idolatria para introduzir alguma diferença no pop. Ao contrário do que se possa pensar, repetimos, não é uma personagem. É ele. E quando as forças arbitrárias do encanto (simbolizadas no rosto, no corpo e na voz de um cantor) coincidem sem nenhum motivo aparente, então o fascínio acontece. Mas não é crível que ele tenha essa consciência. A sua visão sobre a relevância dos Smiths e dele próprio e a forma como fala das suas letras provam-no. Claro que os Smiths foram uma banda relevante, mas não são a melhor banda do mundo. E claro que Morrissey é um excelente cantor e letrista, mas incorpora mais do que isso: às vezes um simples falsete ou um gesto qualquer dizem mais sobre a sua diferença, a sua resistência, a sua singularidade, do que todas as letras dos Smiths.

- Nunca ouço a minha música em nenhum lado, nunca! Apenas três singles da minha autoria (Suedehead, That"s how people grow up e I"m throwing my arms around Paris) tiveram boa cobertura radiofónica ao longo da minha vida. Nenhuma das minhas outras canções foi sequer tocada na rádio. Talvez seja porque a minha voz é demasiado humana.

Quando fala é sempre assim, totalitário, logo, radicalmente parcial. Não inclui, excluiu. Não lhe interessa complexificar, tentar encontrar diferentes pontos de vista, sugerir ou perceber as dinâmicas, mas sim apontar o dedo acusador. Quando discorre sobre a progressiva desmaterialização da música, também acontece isso.

- Nunca fiz parte de nada, não sou da era do vinil ou das editoras indie contra as multinacionais, mas parece-me que a música se foi tornando progressivamente insignificante por causa deste novo panorama digital. Antes tínhamos de sair, procurar uma loja de discos, fazer uma escolha e depois carregar qualquer coisa num saco para casa. As pessoas sentiam-se emocionalmente envolvidas com as suas escolhas, agora não me parece. Penso que tudo começou com o rap. Ouve-se em todo o lado porque soa quase sempre igual e não tem qualquer significado. Não ouvimos, por exemplo, canções de protesto em sapatarias. O mesmo com a música de dança tecno. É simplista e sem personalidade. É por isso que está nos centros comerciais, nos elevadores, em qualquer espaço. Em parte, não é ouvida. É apenas papel de parede sonoro.

Nada a não ser a música

Contrariamente a outros vultos da história da música, os Smiths, e depois Morrissey solo, nunca procuraram um som novo ou um novo paradigma. Os Smiths impuseram-se como o ultimo grande grupo pop de uma linhagem clássica. Se os Beatles simbolizaram a libertação dos anos 60, os Smiths incarnaram a desfiguração dessa revolução: a adolescência é um horror, a cultura jovem não é nada divertida, parece dizer Morrissey a toda a hora. Ser jovem é sofrer, é aceitar os defeitos, é olhar para dentro, é ser lúcido. Não espanta que a separação dos Smiths em 1987 tenha provocado uma onda maior de histeria do que o fim dos Beatles ou de Elvis.

A meio dos anos 90 encontrava-se imerso em processos judiciais (ainda o fim dos Smiths e as acusações de racismo) e mostrava-se algo renitente em lançar material novo. Mas a última década não tem sido nada má para ele. Retomou a credibilidade, lançou alguns discos bem sucedidos, tem realizado turnês lucrativas e interpreta canções dos Smiths (How soon his now?, Please, please, please let me get what I want, I know it"s over ou Still ill) nos concertos, sem crises de identidade. Com o seu país, a Inglaterra, é que ainda não se reconciliou, tendo vivido no exterior, na Itália e nos EUA, nos últimos anos.

- Vivo noutros países em grande parte para evitar a Família Real britânica, que é uma coisa embaraçosa. Quando se vive em Inglaterra somos bombardeados a toda hora com histórias infantis sobre esta louca, cruel e parasita família. É insuportável. A Itália é o país onde me sinto mais em casa. Gosto de Los Angeles, mas a polícia sufoca a cidade. Parecem ser em maior número do que a população na proporção de 20 para 1. É muito triste.

Hoje Morrissey completa 55 anos. A maior parte das pessoas aceita que, à medida que envelhece, o processo de amadurecimento vai acontecendo. Mas ele não é qualquer pessoa.

- Tenho tido uma vida estranha até agora, por isso não tenho grandes expectativas de amadurecer de uma forma normal. Nenhum dos clichés acerca da existência se me aplica. A minha vida nunca foi muito típica. E agora também não é. O romance nunca esteve presente na minha vida. Acima de tudo tento ser lúcido. Sempre fui o meu melhor amigo. Quando nos apaixonamos por alguém, olhamos a humanidade e as pessoas de forma diferente. Mas eu nunca amei nada a não ser a música.

Ouvindo-o fica-se com dúvidas se, na adolescência, não pertenceria àquele tipo de pessoas que ficava sempre à beira da pista de dança a sussurrar coisas aos ouvidos dos amigos, troçando de quem dançava e se divertia, mas secretamente desejando ser como eles. "Não, não exactamente", corrige ele, levando a pergunta muito a sério.

- Comecei a ir a concertos sozinho aos 12 anos. Não ia a discotecas. Aos 12 ans vi os T. Rex, aos 13 David Bowie, Lou Reed, Mott the Hoople ou Roxy Music. E continuei por aí fora ao longo da minha adolescência. Ia sempre sozinho e gostava disso, dessa sensação. Vi as pessoas certas ainda muito novo. Ramones, Patti Smith, Sex Pistols. Aos 20 anos estava exausto e tinha visto o suficiente. Apenas queria começar a fazer qualquer coisa eu próprio.

Foi isso que aconteceu, por volta de 1982. Agora, na casa dos 50, afirma-se mais desperto do que nunca. Há alguns anos, em declarações a um jornal inglês, disse que pensava abandonar a música aos 55 anos. Não só não abandonou como está prestes a lançar um novo disco. Quando lhe perguntamos se aos 60 continuará a cantar é evasivo: "Os 60 anos ainda estão longe. Se não estiver a cantar, provavelmente estarei num asilo perto de Varsóvia. O que também está bem para mim."

É assim Morrissey. Um puto adulto que não consegue crescer mais. Se isso acontecer, a sua graça desvanecer-se-á. As suas canções perderão aquele impacto primordial. E a nossa adolescência perder-se-á na dele.

por Vitor Belanciano

P

#


domingo, 18 de maio de 2014

Karne Krua, sempre.

É impressionante a capacidade que a Karne Krua, banda com quase trinta anos de atividade ininterrupta nas costas, tem de se renovar. Ontem, na Caverna do Jimmy Lennon Rock Bar, presenciamos mais um capítulo desta belíssima e longeva história, com a estréia de um novo baterista, "oithi", na formação. E foi nada menos que um dos melhores shows da banda que eu já vi em toda a minha vida - neste momento deve-se levar em consideração que eu já vi muitos, mas MUTOS MESMO, já que os acompanho desde 1987!

Oithi, como é conhecido por todos, é um "discípulo de Babalu" - ex-baterista da Karne e de várias outras bandas locais, atualmente residindo em São Paulo - e está fazendo jus ao mestre: conduziu a apresentação com um gás inacreditável, combinando batidas incrivelmente rápidas com arranjos e "viradas" precisas e criativas. Não foi perfeito: notava-se, aqui e ali, um certo descompasso com os demais componentes, certamente fruto do pouco tempo que tiveram para consolidar o entrosamento, mas nada que obscureça o que ficou evidente: a Karne Krua parece ter encontrado seu melhor baterista. Depois de Babalu, claro ...



O show foi intenso, uma verdadeira celebração. O público, presente em bom número e lotando o espaço, participou o tempo inteiro, comandado pela presença já clássica e carismática do vocalista Silvio "Suburbano" - "codinome" usado por ele nos tempos heroicos do punk dos anos oitenta -, "imperador do Hard Core" - piadinha interna e infame que só os que são "das antigas" entenderão. Ele detesta, por isso mesmo alguns de nós ainda insistem em chamá-lo assim. Como não era nenhuma competição - ainda bem! - não vale a comparação, mas não posso deixar de dizer que foi, DE LONGE, o melhor show da noite.

Uma noite que teve ainda a CRIMES HEDIONDOS - que eu não vi, sorry -, daqui mesmo, de Aracaju; GUERRA URBANA, de Recife - boa banda, com dois vocais, um masculino e um feminino, fazendo um som numa linha bem tradicional de punk rock e hard core "constestatório" - e a CALIBRE 12, de São Paulo, que faz mais aquela linha "testosterona", meio "escola Roger Miret" do Hard Core novaiorquino. Não é ruim, mas também não é muito a minha praia. São competentes, mas falta composição e algumas letras, "auto-afirmativas", na falta de uma palavra melhor - "somos Hard Core, somos underground, somos foda" - soam francamente infantis.



A se lamentar, apenas, a insistência de alguns presentes em fumar, mesmo num ambiente fechado - MUITO fechado, aliás - e com ar-condicionado - poucos, não dão conta do recado muito bem, mas sem eles aquilo ali se transformaria num inferno. Fora isso, achei especialmente desagradável a presença de alguns indivíduos “marrentos” fantasiados de “sons of anarchy” fazendo pose de malvados e procurando a qualquer custo arrumar briga no recinto – caíam no “pogo” à base de empurrões desnecessários e fechavam a cara para qualquer um que trombasse com eles – algo impossível de não acontecer, já que o ambiente, pequeno, estava lotado. Não sei de onde vieram, não lembro de te-los visto em outros shows “underground”. Vai ver não estavam “fantasiados”. É foda, “quanto mais a gente reza, mais assombração aparece”. Mas felizmente ninguém comprou a provocação e tudo correu de forma mais ou menos normal, na medida da convivência civilizada, apesar dos esforços em contrário.

Deu tudo certo. Foi uma belíssima noite.

Parabéns para Alércio, que correu atrás e fez acontecer!

A


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Imprima-se a lenda ...

"John Ford point", em Monument Valley
A doutrina do “Destino Manifesto”, que impulsionou a expansão da grande nação norteamericana em direção ao oeste, em conflito com os povos nativos que já ocupavam o território, está a pleno vapor quando somos apresentados, de forma magistral – pela paisagem que se entrevê do ponto de vista do interior escuro, assim como a sala de cinema, de uma casa de fazenda - ao cenário e aos personagens que povoam “Rastros de ódio”, o melhor filme de John Ford e uma das grandes obras-primas da história do cinema. O conflito já está, portanto, instalado, e no calor da conflagração é sempre difícil distinguir as motivações e as razões por trás de atos de barbárie como o perpetrado pela tribo comanche contra a família do irmão de Ethan, o personagem icônico magnificamente interpretado por John Wayne. Um sentimento, no entanto, é evidente e constante: a vingança. Os índios se vingam da invasão de seu território e extermínio de seu povo e sua cultura. Já os brancos, investem contra a teimosia dos “selvagens”, que insistem em resistir ao avanço inexorável da “civilização”.

O embate ideológico está, inevitavelmente, posto, e é bastante evidente que a película é construída a partir do ponto de vista dos “colonizadores” – eles próprios descendentes de povos colonizados. Foi assim durante toda a construção da mitologia do chamado “velho oeste” pela cinematografia hollywoodiana, até que, em 1990, kevin Costner dirigiu “Dança com lobos”, primeiro grande filme do estilo a mostrar os fatos com uma visão claramente respeitosa ao drama das nações indígenas. Mas é, a meu ver, injusto reputar a “Rastros de ódio”a pecha de “racismo”. Por mais que Ethan/Wayne seja retratado como O herói e o chefe indígena Scar como o vilão bárbaro e impiedoso, há toda uma série de nuances durante a narrativa que nos deixam entrever que Ford está, acima de tudo, disposto a discutir o tema e as questões postas na tela, para além de simplesmente adotar qualquer posicionamento de forma maniqueísta, sem maiores reflexões a respeito. Com efeito, Ethan acaba se equiparando ao seu antagonista ao também escalpelá-lo depois de derrotá-lo, e se redime, em parte, de seu sentimento preconceituoso, ao desenvolver afeto pelo mestiço que inicialmente desprezava e aceitar a volta da sobrinha, aculturada. A identificação histórica da direita republicana com a figura mitológica do “cowboy” personificada por John Wayne é, portanto, pelo menos neste caso específico – porque em verdade o ator realmente incorporou o personagem à sua vida “real” -, mais uma opção do que um direcionamento claramente apontado pelo filme, que passa longe de ser apenas um panfleto político/ideológico. Algo parecido com o que aconteceu recentemente com os que se identificaram com o personagem de Wagner Moura em Tropa de Elite, no Brasil.

São publicas e notórias, no entanto, as preferências e a visão de mundo do diretor John Ford ao longo de sua obra, na qual procurou sempre dar forma ao mito da grande nação nascida da força dos pioneiros e da gente simples, do povo. É assim em “A Mocidade de Lincoln”, drama “de tribunal” no qual conta de forma didática uma história centrada no embate entre o campo, representada pela família dos acusados, e a cidade, encarnada na figura do arruaceiro provocador, vítima de si mesmo. Ou em “Juiz Priest”, outro “drama de tribunal” – mais para comédia dramática, no caso - no qual retrata o dia-a-dia de uma pequena cidade sulista com clara simpatia pela causa derrotada dos confederados. Inclusive na representação dos negros, tratados com reverência no aspecto cultural, especialmente através da trilha sonora, mas convenientemente mantidos na trama em uma posição social de subserviência conformada.

Ford tem pelo menos mais dois clássicos absolutos do gênero “western” em seu currículo: “No tempo das diligências”, no qual acompanha as aventuras e desventuras de 9 passageiros pelas pradarias inóspitas com índios à espreita entre as montanhas de Monument Valley, e “O Homem que matou o facínora”, no qual somos apresentados à máxima “imprima-se a lenda” pelo jornalista que se recusa a publicar a verdadeira versão dos fatos por trás da morte de Liberty Valance (Lee Marvin, em interpretação impecável), um dos vilões mais asquerosos já apresentados na tela dos cinemas. Não tão controversos quanto sua obra-prima, mas igualmente icônicos na apresentação de um universo idealizado forjado a ferro e fogo a partir do desbravamento de territórios inóspitos.

Para além das idiossincrasias ideológicas, no entanto, o mais importante é que a obra de Ford forma um impressionante painel cultural da américa – DO NORTE, “estadunidense” – e merece muito ser revista e estudada, porque é brilhante. Especialmente alvissareiro é ter a oportunidade de revê-la em tela grande, no cinema, experiência que tivemos aqui em Aracaju com a mostra “A América por John Ford”, uma parceria do Sesc-Se com o Cinema Vitória, da Rua do Turista. Nela, os expectadores puderam ver em tela grande e com entrada franca, além dos títulos citados, “O prisioneiro da Ilha dos Tubarões”, “Médico e Amante” e “As vinhas da Ira”. Um verdadeiro banquete cinematográfico!

Inesquecível ...

A

#