segunda-feira, 13 de março de 2017

Nunca existiu governo petista ...

A situação brasileira é tão complexa que é difícil decidir por onde começar uma vez que decidimos falar sobre ela. Talvez um começo seja lembrar que ela não é desconectada da situação internacional. Nem nunca foi. Assim como o golpe de 1964 não pode ser entendido fora de um contexto internacional – a Guerra Fria, a luta dos Estados Unidos e dos seus aliados contra a emergência de países comunistas -, o mesmo deve ser dito da situação que vivemos agora e do golpe de Estado que sofremos no ano passado. Só que essa situação internacional não é mais a mesma, mesmo que a luta de algum modo permaneça a mesma. Os lados da luta se mantêm inalterados, ainda que hoje seus instrumentos sejam diferentes. Os contextos mudaram.

Não há mais o fantasma do comunismo. A morte de Fidel veio sacramentar esse fato. O que existe hoje não é mais a ideia de revolução, de constituição de um Estado socialista. Ninguém mais pensa nisso como uma real possibilidade, a não ser alguns poucos autores. Mesmo a China representa hoje outra coisa, um outro tipo de ameça. A China não é hoje a ameça comunista, mas apenas a ameaça chinesa. Não vejo, por exemplo, a China muito concernida pelo que acontece nos outros países, não é muito clara para mim a atuação internacional chinesa, enquanto uma atuação política. O fantasma hoje é outro.

O perigo agora para a direita é, a meu ver, a chegada ao poder, via voto popular, de lideranças de esquerda. O fato de muitas dessas lideranças terem chegado ao poder, via voto popular, foi o fato que marcou a década passada, a primeira década do século 21. Essas lideranças de esquerda não só chegaram ao poder, mas implementaram políticas sociais que modificaram a vida de milhões de pessoas. Acendeu-se uma nova luz vermelha. O que implicou um novo modo de combater esse novo tipo de ameaça.

Podemos dizer que já era essa a tendência na América do Sul quando ocorreram os golpes militares das décadas de 1960 e 1970. A eleição de Allende, no Chile, e a de Jango, no Brasil, mostravam que a esquerda já estava buscando uma chegada ao poder através das eleições. E ela estava sendo vitoriosa. Mas a resposta da direita, todos nós a conhecemos, foram os golpes militares no Chile e no Brasil. Ou seja, é uma tradição da direita, pelo menos na América Latina: ela só respeita a democracia quando vence. Quando perde, ela produz golpes de Estado. Essa história se repetiu no Brasil em 2016, mesmo sem que os militares tenham tido participação no golpe dessa vez. Ela já tinha acontecido, do mesmo modo, no Paraguai, em 2013, com o impeachment de Fernando Lugo. Mas em Honduras, em 2009, a deportação de Manuel Zelaya, considerada por uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas como um golpe militar, não aconteceu sem a atuação das forças armadas daquele país.

Após a queda das ditaduras militares que se impuseram na segunda metade do século passado na América do Sul, houve um fortalecimento, nós acreditávamos, das instituições democráticas. Achávamos que um golpe nunca mais aconteceria. E mais uma vez, a esquerda buscou o caminho democrático das urnas para chegar ao poder. O que não é fácil num país em que todas as instâncias de poder, dentre as quais a do poder midiático, são dominadas pela direita.

A esquerda foi vitoriosa na maioria dos países da América do Sul e em alguns da América Central no início do século 21. Essa vitória não implicou, no entanto, em nenhuma quebra ou modificação da economia de mercado, mas introduziu mudanças significativas nas ações sociais dos governos eleitos. Em outras palavras, ninguém tentou implantar nesses países uma sociedade de tipo comunista ou socialista. Os governos implantados estavam mais para a clássica receita da social-democracia: economia de mercado com justiça social. No Brasil há coisas estranhas: o Partido dos Trabalhadores, em tese socialista, buscou exercer, de fato, um governo social-democrata, enquanto o Partido da Social Democracia Brasileira, apesar do nome,  não tem nada de social-democrata, tendo praticado um governo totalmente neoliberal.

A lição que tiramos, no Brasil, dos anos de governo do PT é a de que a social-democracia, aquela praticada pelo PT, já é suficientemente perigosa e insuportável para a classe dominante brasileira, mesmo que esse “ensaio” de social-democracia estivesse ainda muito distante do que seria uma social-democracia de fato. A única social-democracia que a classe dominante brasileira pode suportar é aquela do PSDB, ou seja, um neo-liberalismo que tem a social-democracia apenas no nome. Podemos tirar a mesma conclusão do países da América Latina em geral (a exceção, até agora, é o Uruguai).

De fato, o que vivemos hoje é uma derrota generalizada das esquerdas no mundo, em especial na América Latina. O caso Canadá é uma incógnita. E eu não tenho informações suficientes para comentar o caso (lembremos apenas que o Canadá vinha de um longo período de governo pelo Partido Conservador e isso deve ter produzido um esgotamento). O paradigma do momento não é, no entanto, Justin Trudeau, mas Donald Trump, com seu correspondente brasileiro, ou melhor, paulista (espero que ele permaneça um correspondente apenas paulista), João Dória.

Há uma tendência conservadora no mundo como um todo. Mesmo um oásis progressista como a Holanda sente essa tendência: “Há uma atmosfera conservadora”, diz Jonathan Foster, dono de um coffeeshop em Amsterdã, leio em notícia publicada na Folha de S.Paulo. A observação do proprietário se deve à notícia do fechamento do Mellow Yellow, o mais antigo coffeeshop de Amsterdã, no qual a venda e consumo de maconha eram tolerados desde 1972. O fechamento da casa se deve a uma nova “medida que proíbe a venda de maconha a menos de 250 metros de escolas —o Mellow Yellow estava a 230 metros de um curso de barbeiro”. A medida teve que ser aceita pela prefeitura de Amsterdã, mais liberal, como uma espécie de negociação com o governo nacional, mais conservador, que queria simplesmente proibir turistas de frequentarem esses estabelecimentos. “Sabemos que isso chateia quem foi afetado”, diz, à Folha de S.Paulo, Jasper Karman, porta-voz da prefeitura. “Tivemos que escolher. Acreditamos ter tomado a decisão certa.”

Cito essa situação porque para mim ela é um paradigma do que temos na América Latina, onde mesmo governos de orientação socialista ou social-democrata tiveram que permanentemente negociar com uma classe dominante extremamente conservadora. Sabemos que essa negociação chateia muita gente, sobretudo aqueles que são afetados por ela, mas foi uma negociação sempre necessária para evitar um mal pior.

Fiquemos no caso do Brasil, e do governo do PT. Durante todo o seu governo, Lula e Dilma tiveram que negociar os anéis para não perder os dedos. O que lhes rendeu inúmeras críticas vindas da esquerda, seja de partidos da esquerda, seja simplesmente de cidadãos que por terem votado nos candidatos do PT esperavam um governo 100% de esquerda. As pessoas são inocentes ao ponto de acreditarem que, após ter chegado ao poder, o PT poderia ter feito o que quisesse. E se não o fez, é porque não quis. É o tal do mito voluntarista da “vontade política”.

No Brasil de hoje, fala-se muito dos “erros do PT”. Mas esses “erros” são mesmo do PT, devem ser atribuídos unicamente ao PT ou, antes, eles teriam que ser atribuídos à classe dominante brasileira, àquele 0,1 % da população brasileira que detém a metade da riqueza de tudo o que é produzido em nosso país e que traduz esse poder econômico em poder legislativo, judiciário, executivo e, sobretudo, em poder midiático? Será que é tão difícil para as pessoas entenderem (refiro-me às pessoas que votaram no PT e que se dizem desiludidas) que o PT nunca governou sozinho esse país, mas sim junto com a direita?

Agora nós podemos ver a olho nu com quem o PT estava governando. Não é senão isso o governo Temer. Portanto, a questão que nós temos que colocar agora deve ser invertida: como o PT conseguiu fazer tudo o que fez mesmo tendo que governar com esses caras? Ora, o fato de que o governo do PT encabeçava esse governo de coalizão colocava certos limites à atuação da direita dentro do governo, mesmo que essa direita também colocasse limites à atuação do PT. O que vemos agora é essa direita atuando sem nenhum limite.

Nós nunca tivemos um governo do PT propriamente dito, nem no nível nacional, nem no nível estadual. Simplesmente nunca houve um governo de esquerda propriamente dito no nosso país. Nós não sabemos o que é isso. Portanto, não podemos fazer exigências ao PT como se isso tivesse algum dia existido. Em países como Canadá e Inglaterra, um partido só pode chegar ao poder se tiver maioria no Congresso. Em outras palavras, o partido que obtém maioria no Congresso nomeia o primeiro ministro. No Brasil, não existe nada disso. E como existe uma pulverização dos partidos políticos (eterno tema de uma reforma política que nunca acontece), surgiu o tal de “presidencialismo de coalização”.

Portanto, precisamos levar em consideração que a maioria dos chamados erros do PT não são erros do PT, são erros de uma coalizão entre partidos de esquerda e de direita que governaram o país nos últimos treze anos. É claro que, além desses, há erros que podem ser atribuídos, a meu ver, não tanto ao PT, mas ao Lula e à própria Dilma enquanto governantes. Por exemplo, todas as nomeações de juízes para o Supremo Tribunal Federal foram erros. Nem Lula nem Dilma foram capazes de realmente constituir um STF progressista, mesmo que possamos ver algum avanço da Corte atual em relação a um ou outro ponto. Mas o STF continua a serviço da classe dominante brasileira. Também foram erros de Lula e de Dilma terem dado todas as condições para o surgimento desses monstros que se tornaram o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. Não ter politizado as nomeações foi um erro, pois não politizá-las pela esquerda significa simplesmente permitir a politização pela direita. Temos hoje um Judiciário caracterizado pela ideologia das classes dominantes e nem Lula nem Dilma foram capazes de produzir qualquer tipo de mudança nesse sentido. E tudo em nome de uma neutralidade democrática que eles julgavam ser o procedimento correto a ser adotado nessas nomeações.

Nós poderíamos elencar muitos outros “erros” dos governos Lula e Dilma, mas creio que os “erros” pelos quais eles são acusados, enquanto “erros” do PT, têm outra natureza e só podem ser entendidos à luz das condições complexas, para não dizer complicadas, em que eles tiveram que exercer seus mandatos presidenciais.

Hoje já temos elementos suficientes para poder compreender que Lula não é nem nunca foi apenas um líder da esquerda brasileira. Enquanto tal, ele jamais teria chegado ao poder, jamais teria ganho uma eleição presidencial. A esquerda não tem como chegar ao poder no Brasil, e mesmo que chegue, cai.

Lula não chegou ao poder apenas como um líder da esquerda. Ele chegou ao poder como um líder da esquerda que conseguiu negociar um acordo com a direita. Isso ficou já totalmente claro em sua primeira eleição  – não só na famosa Carta aos Brasileiros – e foi só por isso que ele finalmente conseguiu vencê-la após três tentativas fracassadas. Foi só quando incluiu explicitamente a direita em sua candidatura que Lula pôde vencer a eleição presidencial. Em outras palavras, ele continuou sendo um sindicalista enquanto presidente. Ele continuou sendo o representante da classe trabalhadora a negociar com os “patrões”. O fato de que ele era agora Presidente da República não o tornou um “patrão”. Ele continuou sendo um trabalhador. A única coisa que o diferenciava dos outros trabalhadores era exatamente o fato de que, enquanto os representava, era recebido pelos “patrões” ou os recebia no Palácio do Planalto. Mas ele jamais se tornou um patrão. A prova cabal disso é que a classe dominante, a classe dos patrões, continuou tratando-o como o que ele é: um simples sindicalista. A empáfia de um juiz como Sergio Moro diante de Lula, um ex-Presidente da República é, a meu ver, a melhor imagem do desprezo da classe dominante brasileira pela classe trabalhadora (incluindo nesse desprezo a classe média brasileira, que se identifica com a classe dominante e não com a classe trabalhadora). Por contraste, basta ver como Fernando Henrique Cardoso foi tratado em recente interrogatório pelo mesmo juiz Sergio Moro. Lula não passou a ser tratado como um patrão por ter sido presidente. Suas origens populares, operárias e sindicais lhe condenam a ser para sempre tratado pela classe dominante como qualquer brasileiro médio com as mesmas origens. Daí sua condução coercitiva sem justificativas.

Portanto, a chegada de Lula à presidência não significa, nem nunca significou uma chegada da esquerda ao poder no Brasil. Assim como nunca significou uma verdadeira modificação das relações de poder no Brasil. Significou simplesmente um refresco ou algo que nós poderíamos chamar hoje de uma política de diminuição de danos, para tomar de empréstimo uma expressão da área de saúde pública. Significou simplesmente a presença de um negociador na Presidência da República, que tentava conseguir junto à classe dominante melhores condições de existência para a classe trabalhadora. A classe dominante teve que aceitar a partir de um determinado momento uma figura como Lula simplesmente pelo fato de que ela, a classe dominante, não tinha sido capaz nos últimos anos de criar uma liderança política que estivesse em condições de vencer uma eleição presidencial. O caso Aécio Neves é talvez o mais emblemático nesse sentido, pois conseguiu perder para uma presidente com baixa popularidade num momento de crise econômica aguda, o que contradiz todas as regras da ciência política. Mas isso se explica, talvez, pela fato de que a última vez que a direita teve um candidato vencedor, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, foi uma tragédia para o país. E uma parcela muito significativa dos brasileiros guarda até hoje uma lembrança muito clara dessa tragédia. Foi o que impediu uma vitória do PSDB nas quatro últimas eleições presidenciais no Brasil.

Não sendo capaz de ganhar eleições presidenciais, a classe dominante, no entanto, não deixa de dominar todas as outras instâncias de poder, mesmo a instância do executivo, pois mesmo nos governos do PT sempre houve a presença de representantes dessa classe em seus quadros, em vários dos seus ministérios. E no que diz respeito a outros poderes, o Judiciário, o Legislativo e o quarto poder, a mídia, a classe dominante sempre teve total controle dos mesmos. Em 2016, essa classe dominante viu uma janela, uma possibilidade de estar no poder sozinha sem o incômodo que era o PT.

O PT não se uniu a essa classe dominante por gosto. Ele o fez pelo Brasil. Já está mais do que na hora de nós entendermos isso.

por Cláudio Oliveira

CULT 

#

sábado, 31 de dezembro de 2016

2016, o ano que não vai terminar

Tudo começou a desandar quando soubemos, logo em janeiro, da morte de David Bowie dois dias após lançar seu álbum derradeiro – uma ode à própria morte. Seria, de fato, um ano de baixas.

Mundo afora, Spotlight, sobre a equipe de jornalistas responsáveis por investigar a rede de pedofilia e crimes acobertados pela Igreja Católica, vencia o Oscar de Melhor Filme e desbancava A Grande Aposta, também baseado em fatos reais, também uma aula sobre apuração, observação de sinais, desconstrução de discursos e mensagens oficiais, desta vez sobre a bolha do mercado imobiliário. A ironia é que o dicionário Oxford escolheria a expressão “pós-verdade”, que, entre outras artimanhas, ajudou a definir o Brexit e a eleger Donald Trump nos EUA com a divulgação de notícias factíveis e não factuais pelas redes, como a palavra do ano.

Pós-verdades, obituário e escândalos domésticos competiam por nossa atenção logo nas primeiras horas de 2016. Um dia era a ex-amante que acusava o ex-presidente de pagar mesada com ajuda de uma empresa amiga de sua gestão. No outro, o marqueteiro da campanha de Dilma Rousseff (e Michel Temer) era preso, suspeito de receber dinheiro oriundo de propina na 23ª (vi-gé-si-ma-ter-cei-ra) fase da Lava Jato.

Em março, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente da Câmara responsável por dar início ao julgamento de Dilma entre os deputados, virou réu no STF sob acusação de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

No mesmo mês, promotores de São Paulo pediram a prisão do ex-presidente Lula, mas o que chamou a atenção foi a confusão entre os pensadores Hegel e Engels. Lula não chegou a ser preso, mas foi conduzido coercitivamente à PF para prestar depoimento.

Ainda em março, uma multidão foi às ruas contra o governo petista, liderados por um jovem militante que, naquele domingo, comparava a luta contra a corrupção no Brasil com a luta imaginária de sua infância contra os vilões dos Power Rangers.

Mas era outro vilão, o Coringa do Batman, que o ex-senador Delcídio Amaral (PT-MS), preso após tentar comprar o silêncio de um delator, evocaria ao anunciar a sua própria delação: “sou o profeta do caos”. O caos era a ideia, desenhada a cada nova denúncia, de que a quebra do silêncio era também a quebra de um pacto frágil que nos fazia acreditar que, longe de nossos olhos, as instituições funcionavam, eram independentes, democráticas, republicanas.

O caos narrado ali desordenava o modelo vilões, mocinhos de HQs e seriados japoneses e patos da Fiesp. Citava, por exemplo, o herói do impeachment, Eduardo Cunha, nas falcatruas e atribuía à perda de influência em órgãos públicos como a origem da bronca contra a presidenta prestes a ser destituída.

Naquele mesmo mês, Lula foi nomeado e desnomeado ministro antes de assinar o papel do Bessias. O vai-não-vai tinha como pano de fundo a divulgação de trechos de gravações entre ele e a presidenta, levando, possivelmente, ao ápice do radicalismo entre apoiadores e opositores do governo. Um ator chegou a interromper uma peça em Belo Horizonte para xingar tudo o que se assemelhasse ao governo, inclusive um “nego qualquer”, grifo dele, da plateia.

Ao mesmo tempo, estava sendo gestada a lista da Odebrecht com mais de 200 políticos de vários, se não todos, os partidos. Foi nesse contexto que o PMDB decidiu romper com o governo que ajudou a eleger e governar até o abismo. Era o triunfo do achaque após levar os anéis e todos os dedos da partilha ministerial.

Estava mais do que desenhado que o futuro presidente seria alguém que fazia saudação em cartas em latim e conseguia enviar mensagem de voz de 15 minutos no WhatsApp. Totalmente conectado, portanto, com as ferramentas para compreender um mundo de diversidades, velocidades e compartilhamentos.

No Planalto, ministros começam a jogar a toalha já em abril. Era uma boa notícia para quem via no governo petista o símbolo da corrupção, da fisiologia e da incompetência. A má notícia era que os antigos sócios da parceria - e protagonistas do mesmíssimos escândalos que todos juram combater – seriam promovidos.

Nos jornais, uma rede de fast food iniciava “um movimento de democratização e acessibilidade a todos” em direção a esfihas vendidas por um real. Dizia que a “queda”, um trocadilho com o momento político e o preço da iguaria, seria boa para todos. Era um retrato bem-acabado daqueles dias, quando até a vergonha virava oportunidade de negócios.

Até que chegou o dia da votação do impeachment na Câmara. O primeiro voto, de Abel Galinha, mobilizou esforços de tradutores da mídia estrangeira que concentrava as atenções sobre o futuro político do Brasil. Em diversos veículos, os colegas tentavam explicar como acusados notórios de corrupção poderiam comandar o julgamento de um governo acusado de corrupção, embora este não fosse exatamente o mérito do pedido de impeachment.

Na sessão, Jair Bolsonaro prestou duas homenagens; uma, ao torturador da ditadura Carlos Brilhante Ustra, e outra a Eduardo Cunha, pela condução dos trabalhos. Segundo o deputado, os derrotados no processo “perderam em 64, perderam em 2016". Cunha, por sua vez, pediu para que Deus tivesse misericórdia da nação.

Em outro momento magnífico, a deputada Raquel Muniz (PSD) disse que o “Brasil tinha jeito” ao votar pelo afastamento de Dilma e citou como exemplo seu marido e prefeito de Montes Claros, Ruy Borges Muniz (PSB), que seria preso menos de 24 horas depois.

Enquanto os deputados falavam em nome de Deus, o futuro governo já encaminhava com representantes da indústria, da agricultura e do comércio uma série de concessões, entre elas menos controle de retorno das concessionárias de serviços públicos, a permissão para negociações diretas entre empregadores e empregados, e a liberação de milhões em recursos.

Alguém lembrou de atualizar a expectativa em relação ao país de alguns anos atrás: de candidato a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU a uma cadeira rotativa da Presidência.

Quem leu ou reler o “Admirável Mundo, de Adous Huxley, naquela época, poderia imaginar que chegara o tempo em que os regimes totalitários já não precisariam do cassetete para impor uma estabilidade à força. Bastaria convencer a população de que ser oprimido era um bom negócio. Para isso era preciso conter a consciência e a capacidade de auto-reflexão dos indivíduos com uma jornada de trabalho alienante (não pense em crise, trabalhe), uma mega exposição a programas de entretenimento infantilizadores, pílulas da felicidade ao menor sinal de sofrimento e o descarte da literatura e de qualquer arte de questionamento como itens de inutilidade.

O Brasil de 2016 se tornava um case de sucesso nas previsões de todas as distopias literárias.
Temer, que já na época era apontado como a melhor solução para o país por apenas 8% do eleitorado, segundo o Ibope, governaria com o apoio do PSDB, que se tornaria aos poucos no PMDB do PMDB.

Em maio, enquanto o futuro presidente se trancava nos bastidores para decidir o futuro e deixar tudo ficar como estava, com os mesmos atores que levaram o governo à ruína, no Brasil real estudantes secundaristas se mobilizavam em outras salas para reivindicar o presente. Seriam eles os acusados de provocar desordem e tumulto em um país que já não sabia o rumo.

Amigo de alcova do novo presidente, Cunha foi afastado em maio do mandato de deputado via STF. Voltaria a operar e vagar feito alma penada pelo submundo de onde surgiu até ser preso. 

Waldir Maranhão (PP-MA) assumiu o lugar de Cunha prometendo surpreender e não desapontou: tentou melar a votação do impeachment e promoveu o maior cai-não-cai na história recente da República. As definições de modernidade líquida acabavam de ser atualizadas pela política brasileira.

Até que o Senado finalmente pôde votar, e confirmar, o afastamento, então provisório, de Dilma. Por ironia, no dia em que seria alçado a presidente interino, quem caiu foi Temer: caiu na pegadinha de um radialista argentino que telefonou para dar os parabéns fingindo ser o presidente Mauricio Macri.

Desfeita a gafe, Temer montou um ministério alinhadíssimo com o Congresso - majoritariamente masculino (e branco e rico). Da nova equipe, 18 ministros colecionavam suspeitas ou polêmicas. Um deles já assumiu dizendo: “não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina”. Falava do SUS com a autoridade de quem teve as contas da campanha para deputado bancadas por operadoras privadas de saúde.

Temer sinalizava, sem dizer uma palavra, que diversidade e cultura não eram prioridades do primeiro escalão, o que levou o pastor Silas Malafaia, coagido a prestar depoimento à PF meses depois, a manifestar no Twitter a sua empolgação: “Os esquerdopatas estão chorando porque Temer acabou com um dos seus antros, Ministério da Cultura”.

Temer teve de se dobrar diante da pressão dos artistas e desistiu de extinguir o ministério, cujo titular, logo em seguida, pediria dispensa após ser pressionado por um colega a liberar um empreendimento de seu interesse embargado pelo Iphan, o instituto responsável por zelar pelo patrimônio histórico. O prédio do Geddel, como ficou conhecido, expôs, segundo um grande observador da cena, o embate entre o patrimônio histórico e o patrimonialismo histórico.

Detalhe: após a pressão, o colega, um dos braços direitos do presidente, tombou, assim como o ministro do Planejamento que disse, em áudio vazado em delação, que a saída para conter as investigações policiais era colocar Temer no poder.

Apesar das tratativas de Jucá e companhia, a PF seguiu prendendo gente, entre eles dois ex-governadores do Rio, empresários, ex-ministros e até mesmo o Japonês da Federal, responsável por acompanhar os detentos famosos, acusado de facilitar contrabando.

Nos novos dias de um novo tempo que começou com o novo governo, o DEM voltaria ao comando da Câmara com Rodrigo Maia, o rosto de um partido que se apequenou desde o fim do governo FHC, da qual serviu como linha auxiliar, trocou de nome, viu sua bancada encolher e passou os últimos anos tentando inviabilizar projetos de ações afirmativas, como as cotas, a partir de um discurso extemporâneo sobre meritocracia.

Nesses novos sonhos, uma atriz chegou a ser agredida, e chamada de puta, ao atravessar uma manifestação pró-impeachment.

Com os ânimos exaltados, recebemos as Olimpíadas do Rio após uma cerimônia que, se não foi capaz de apagar ou escamotear nossos conflitos e contradições, conseguiu suspender por instantes nossos afetos pautados pela dor e imaginá-los como uma harmonia possível.

Entre tantos estrangeiros da festa, ninguém parecia mais fora de seu ambiente do que o interino decorativo. O medo da vaia, que ao fim aconteceu, transformou sua presença numa metáfora de sua condição: uma figura menor, deslocada de seu povo, acuada na apropriação à força de uma autoridade que não reconhece e nem é reconhecida como tal. Nesse retrato, até os aplausos e os sorrisos soavam custosos, artificiais e distantes.

O constrangimento de um símbolo político que se cala menos por medo do que por nada ter a dizer é também parte deste retrato. Ainda assim ele seria confirmado no cargo, confirmando em parte a sua verve poética que, em um de seus muitos versos em tema livre, falava do incômodo com um certo passarinho: “Morro eu ou ele/Os dois, impossível/Começo a matutar/Contratarei pistoleiro”.

Entre ditos e desditos, passamos a observar em tempo real, e pela cobertura da imprensa, a construção de projetos que não duram as 12 horas da jornada de trabalha proposta e “desproposta” pelos ministros temerários. Com elas, Temer e sua equipe se tornaram a imagem do governante que queimou as energias para subir na sela e, preocupado em se manter ali, já não sabe para onde vai o cavalo.

Enquanto isso, Lula começou a acumular denúncias na Justiça, uma delas baseada em PowerPoint.

Tantas denúncias fizeram estragos, nas disputas municipais, nas pretensões eleitoras dos candidatos apoiados pelos principais nomes do sistema político. De puxadores de votos, Lula, Dilma, Aécio Neves e até Marina Silva viram a candidatura afundar no palanque onde colocavam os pés. O resultado imediato da ojeriza à política tradicional foi a ascensão de outsiders (ou falso outsiders), como João Doria em São Paulo e Alexandre Kalil em Belo Horizonte, ou de candidatos ligados a outras agremiações que não partidárias, caso de Marcelo Crivella, ligado à Igreja Universal, no Rio.

Passamos a apostar na Justiça como a saída para todas os vícios políticos, sem atentar para casos em que o desembargador que mandou anular as condenações pelas mortes no Carandiru era o mesmo que determinava a prisão de ladrões de salame.

Se o mundo já estava suficientemente maluco, faltava viver para ver, em plena Avenida Paulista, uma manifestação em apoio a Donald Trump com bandeirinhas com a fotografia de Hilary Clinton entre demônios e menções que a ligavam à “ditadura anarco-petista” (sic). A manifestação terminou em pancadaria com grupos antifascistas, que há tempos tentam demonstrar o elo entre discursos de ódio e crimes como o ocorrido no Metrô Pedro 2º, ocorrida no apagar das luzes deste ano.

Ainda neste ano, quando o mundo inteiro dava demonstração de solidariedade, sensibilidade e (vá lá) união após a queda do avião da Chapecoense, na Colômbia, dirigentes, não só políticos, invertiam prioridades e escancaravam a preocupação em salvar a própria pele durante a votação das medidas de combate à corrupção.

No embalo, o presidente nota 3,6, segundo o Datafolha, conseguiu aprovar um pacote de controle de gastos bancado por um Congresso rejeitado por 58℅ da população. A medida era rechaçada por seis em cada dez entrevistados pelo instituto. A primeira conta é a mais elementar e não fecha: a suposta estabilidade econômica tem como custo uma crise política com risco de convulsão social.

O lema “as instituições estão funcionando” teve, em 2016, o mesmo destino de outra frase famosa, “a defesa brasileira é sólida”, de 2014.

Entrincheirado em Brasília, Renan Calheiros se recusou a obedecer uma ordem judicial que o mandava se retirar da presidência do Senado. A decisão provocou uma onda de provocações e gentilezas verbais impronunciáveis entre juízes e congressistas.

Pouco depois, a delação do ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht serviu como um mapa até o subsolo do funcionamento das instituições políticas e empresariais brasileiras. Delatado, rejeitado e perdido: o retrato do governo Temer no Datafolha era o epílogo de uma falsa saída política. 

NOTA DO BLOG: Eis que o ano que começou com a morte de Bowie termina se despedindo de outro ícone pop: Carrie Fischer, a eterna (MESMO) princesa Leia de Guerra nas Estrelas. Foi um ano triste, desanimador mesmo. Os poucos (imagino, mas na verdade não sei) que acompanham este blog devem ter sentido isso na quantidade reduzida de postagens - especialmente de textos meus - olá, meu nome é Adelvan, prazer. Ando bem desanimado pra escrever, porque a impressão que tenho é que (quase) ninguém mais lê, tá todo mundo distraído nas redes sociais. Mas ok, deixa pra lá, não vou ficar me lamuriando aqui. Feliz ano novo para todos. Até breve - ou não ...

por Matheus Pichonelli

AQUI

FUI!

#

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

FARC-EP: Timochenko, o pacificador

O comandante Timochenko, como é conhecido - ou mesmo Timoleón Jiménez – é, seguramente, a face mais visível das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Como líder do grupo, participou de todo o processo de negociação e discussão do acordo de paz entre o governo e a guerrilha, além de ter sido o responsável por assinar o texto com o presidente Juan Manuel Santos. Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista e escritor Fernando Morais em Havana para os sites Nocaute e o Opera Mundi, Timochenko falou sobre o processo de paz, a vitória do ‘não’ no referendo, suas expectativas em relação ao governo de Donald Trump, nos EUA, e a crise política no Brasil.

O líder guerrilheiro tem uma longa trajetória dentro do grupo. Ele, que nasceu no interior da Colômbia, se juntou às FARC no começo da década de 1980 e, em 1986, já fazia parte do secretariado da organização. No entanto, não foi só um líder militar. Timochenko chegou a fazer, dentro do grupo, as vezes de enfermeiro – “numa guerrilha, se fazem muitas coisas, nas circunstâncias”, diz – e completou até um curso de câmera, sendo o responsável por filmar a etapa dos diálogos com o então presidente colombiano Belisario Betancur (1982-1986).

O guerrilheiro desmente, no entanto, que tenha feito um curso de medicina na União Soviética, como alguns relatos biográficos apontam. “Isso são puras mentiras da inteligência, que são tantas, que me formei na União Soviética, cardiologista”, afirma.

Timochenko se tornou chefe do Estado-Maior da guerrilha em 2011, após o então líder, Alfonso Cano, ter sido morto em uma operação militar, e foi quem liderou, pelas Farc, as negociações em Havana. . Quando Juan Manuel Santos, o presidente colombiano, foi premiado com o Nobel da Paz, não foram poucos os que defenderam que Timochenko também deveria ter recebido a homenagem. Santos, em seu discurso no recebimento do prêmio, afirmou que o Nobel pertencia também “a todos os homens e mulheres que, com enorme paciência e fortaleza, negociaram em Havana por todos esses anos.” E completou: “E me refiro tanto aos negociadores do governo quanto aos das Farc – meus adversários -, que demonstram uma grande vontade de paz”.

Para Timochenko, o fundamental agora é unir os setores que estejam a favor da paz no país, para assegurar que o processo continue, independentemente de quem estiver na presidência da Colômbia. “O primeiro passo para isso é, para os que querem a paz, deixar de lado todos os interesses particulares. Isso é o que deve nos identificar a todos, porque, se não se elege um presidente que garanta a continuidade dos acordos, não sabemos que tipo de situação se pode gerar na vida política do país”, diz.

Abaixo, leia a íntegra da entrevista: 

Fernando Morais: Comandante, boa tarde e muito obrigado por nos receber. E vamos começar a trabalhar.
Timochenko: Boa tarde, companheiro Fernando. O prazer é meu tê-lo aqui.

FM: Comandante, Nicarágua e El Salvador criaram uma tradição que é sair da guerrilha e fazer a política aberta. O senhor está preparado para ser presidente da Colômbia como Daniel Ortega na Nicarágua e Salvador Sánchez em El Salvador?
Timochenko:
Caro, um revolucionário está preparado para aquilo que a organização o determine, para os desafios que, na mesma dinâmica, a luta o coloca. Neste momento, não estamos pensando nisso. E em meu caso pessoal, menos ainda. Estamos pensando que entramos agora numa das partes mais complexas desse processo, que é a implementação, que apenas começa. E nesta arrancada, já temos múltiplas dificuldades e problemas.Há alguns setores, não digo o presidente Juan Manuel Santos, mas há setores da sociedade colombiana, alguns incrustados dentro do Estado, que querem conseguir, nesta etapa da paz, o que não conseguiram durante a guerra. Assim, os desafios são muito grandes para que alguém comece a pensar em coisas que o distraiam.

FM: A iniciativa dos acordos de paz foi sua, uma carta que escreveu há muitos anos ao presidente Santos. Uma questão que muitos se põem é por que os acordos de paz não se deram com presidentes de centro, mas ocorreram com um presidente marcadamente de direita, que inclusive foi responsável por agressões às FARC como ministro da Defesa.
Timochenko:
São ironias da vida, não? Fatos políticos ocorrem quando as condições se apresentam, independentemente das pessoas e dos personagens. São situações objetivas e subjetivas que desencadeiam fatos políticos. Inclusive, um processo muito importante nos anos 1980 ocorreu com o presidente Belisario Betancur, que se frustrou, mas que avançou bastante. Betancur era um presidente conservador. São as condições e as dinâmicas que levam que os processos ocorram. 

FM: Poucos dias atrás, li nos jornais que os grupos de extrema-direita estão atacando os camponeses das regiões que antes eram controladas pelas FARC. Que se pode fazer para impedir que essa situação siga ocorrendo?
Timochenko: A coluna vertebral do acordo é que nós nos comprometemos a deixar de usar as armas em nossas atividades políticas, e o Estado se compromete a deixar de usar a violência para reprimir e para atacar a seus opositores. Isso está explicado no acordo, há alguns instrumentos ali acordados que precisamos começar a implementar, e estamos fazendo isso. Há uma comissão nacional de segurança, propusemos um plano piloto de luta contra o para-militarismo, e estamos fazendo pressão para que isso seja cumprido. De todas as maneiras, temos que criar uma institucionalidade, e tivemos uma boa notícia, com a aprovação do Fast Track, pela corte constitucional, e isso levará a mais viabilidade para que esta institucionalidade se construa e comece a ganhar forma. E aí vamos poder ver se há realmente vontade política da classe dirigente que encabeça Santos de erradicar da vida colombiana o uso da violência na política. De toda maneira, houve mortos. Eu sempre coloco como exemplo que, em 2011, Santos fez uma lei de restituição de terras, e na Colômbia há 7 milhões de camponeses que foram despojados de suas terras, nesta última etapa. E a lei permite que essas pessoas reclamem por suas terras. Até o momento, há mais de 200 camponeses reclamantes de terras assassinados. Ou seja, houve mortes. E neste ano mais de 70 defensores de direitos humanos e líderes sociais foram assassinados. Isso não vai desaparecer com a assinatura do acordo final. Precisamos criar essa institucionalidade e dar forma aos acordos. E essa é uma tarefa de todos, e estamos ladeados das forças políticas colombianas que querem a paz e, algo muito importante, que é o apoio, o acompanhamento e o monitoramento de parte da comunidade internacional, de todos os setores progressistas, especialmente da América Latina, que querem que na Colômbia construamos a paz.

FM: Há rumores recentes de que o Conselho de Estado pretenderá ou anular o plebiscito. Isto tem fundamento?
Timochenko: Isso se fala há algum tempo já. Porque havia algumas demandas ao conselho, e pode ser que a gente venha a ter essa notícia de anulação do plebiscito.

FM: Isso é uma segunda boa notícia.
Timochenko: Sim, porque dá um pouco mais de ar, de toda maneira, porque nos dá razão, porque nós colocamos que o plebiscito não transcorreu bem.A própria figura do plebiscito não foi bem proposta. Porque o plebiscito, na Constituição colombiana, tem o objetivo de que as pessoas aprovem as políticas do presidente da República, e o acordo de paz na Colômbia é uma política de Estado, em que todas as instituições estão comprometidas.Assim, nós sempre nos opusemos ao plebiscito porque cremos que há na Constituição instrumentos que podem dar mais contundência ao apoio e à referendação popular a um acordo como este.

FM: A guerra durou meio século. Por que custou tanto tempo para que se chegasse à paz? Quais foram os obstáculos ao longo desse tempo?
Timochenko: A Colômbia sempre foi marcada pelo fato de que entrou na vida republicana pela via da violência. Recordem os atentados a Simón Bolívar. E o assassinato de Antonio José de Sucre [em 1830]. E Sucre não podemos dizer que é uma figura como [atualmente, a de Salvatore] Mancuso, um paramilitar, Sucre representava as correntes na época da independência.
E assim continuou. Temos diversos líderes, e todos os líderes que encabeçavam movimentos sociais e políticos que podiam chegar ao poder, e governariam em função do interesse das grandes maiorias, foram assassinados. É uma prática que persistido na Colômbia. E queremos que, a partir deste acordo, ela venha a ser erradicada. Esse é o nosso propósito e por ele vamos trabalhar.
TM – Então, sim, de toda maneira, esta última etapa ficou marcada pelo assassinato [do candidato à Presidência] Jorge Eliécer Gaitán, em 1948, um grande líder popular, que pôs em perigo as classes dominantes daquele momento, que são as mesmas de atualmente. Nessa época, havia uma violência muito intensa na Colômbia, no campo, fundamentalmente. A Colômbia começava, já, a avançar na industrialização, começava a desenvolver novos cultivos no campo, a agroindústria dava seus primeiros passos.
Há, então, uma distribuição da terra através da violência, o mesmo que ocorreu numa etapa mais recente, em função de projetos agroindustriais. E as elites não permitiram que elas perdessem o poder que detinham, para seguir lucrando com o poder político e econômico.
E acabaram, também, constituindo-se em grandes máfias, ligadas ao capital internacional. E sabemos que isto é determinado ao norte. Colômbia é um espaço considerado estratégico pelos EUA há muitos anos, do ponto de vista geográfico, político, econômico, e, portanto, eles também promoveram isso.

FM: Em sua opinião, por que o “sim” [ao acordo de paz] foi derrotado no plebiscito?
Timochenko: Primeiro porque, como disse antes, essa figura do “sim” foi mal colocada. O governo Santos vem fazendo uma política desastrosa do ponto de vista político e social. Há grandes setores e camadas sociais colombianas que estão muito descontentes com as políticas sociais e econômicas [do presidente]. Alguns setores pensaram que votar pelo “sim” era aplaudir a política econômica de Santos, não separaram uma coisa da outra.
E também, o governo, que era encarregado de promover o “sim”, não o fez como deveria. Não explicou às pessoas no que consistiam os acordos. São 310 páginas, é uma quantidade de coisas que precisam ser explicadas. O acordo no tema agrário, por exemplo. Tinha mais de três anos que fora concluído. O governo não fez um trabalho sistemático, pedagógico, para que as pessoas os entendessem e vissem que os favoreciam realmente.
Além disso, [o acordo] contou com uma propaganda muito bem planejada por aqueles que se opunham a ele. Do ponto de vista midiático, houve manipulação. Por exemplo, é um testemunho que vi: uma senhora tinha sete vacas, e disseram a ela que, se ganhasse o sim, pegariam cinco e ela ficaria com apenas duas. Veja, então, que tipo de jogo sujo foi feito.
FM: Quem mais colaborou e quem mais criou dificuldade para os acordos de paz?
Timochenko:
Uma das coisas que conseguimos neste acordo, e com a qual nos pusemos de acordo com o governo, é que no centro deste acordo estão as vítimas. Em função da verdade, da justiça, da reparação e da não repetição.
Porque as milhões e milhões de vítimas que houve neste conflito, consideramos que devem ser ressarcidas. Fundamentalmente, contando a verdade. E uma das coisas que ficaram acordadas é que será constituída uma comissão de esclarecimento da verdade.
E esses setores, que empurraram para a guerra, que fomentaram a guerra, e que não têm uma explicação lógico de seus porquês, porque tudo foi em função de seus interesses particulares, têm temores, têm medo que pode acontecer. Esses são os setores que, com força, se opuseram ao processo de paz, e estão se opondo, e vão continuar se opondo.
FM: Que garantias têm a população colombiana de que as FARC irão de fato abandonar a luta armada, para além da palavra de vocês?
Timochenko: A primeira coisa é a palavra, a certeza. No fracasso de outros processos, sempre nos acusaram de nós estávamos jogando duplo, o que não era verdade, e também não é correta neste momento: ‘Estamos aqui conversando calmamente e, aqui embaixo da mesa, temos umas armas e tal.’ Não! Estamos, sim, fazendo acordos, uma série de instrumentos que tem de ser implementados em função de garantir a nossa segurança e da população em geral.
FM: Durante muito tempo, as pessoas se escandalizavam, sobretudo muita gente progressista, com as notícias de que as FARC teriam proximidade muito grande com o narcotráfico. Se dizia até que era uma “narcoguerrilha”. Como você explica isso para as pessoas que apoiaram vocês no Brasil e em todo o mundo, por tanto tempo?
Timochenko: Eu creio que no Brasil, isso foi muito bem entendido. Especialmente nos setores populares e revolucionários. Para nós, forjaram a imagem de que Lula e Dilma são uns corruptos. E muitas pessoas comuns acreditam nisso. Porque uma forma de neutralizar os revolucionários é estigmatizá-los, com uma figura ou com outra, fazê-los aparecer como o Diabo.
Então, é claro: como o narcotráfico é um fenômeno que aparece na sociedade colombiana, e nós estamos imersos nessa sociedade, claro, estamos convivendo com ele. Que “aproveitamento” fizemos do narcotráfico?
Do dinheiro que o narcotráfico movimentou, como o dinheiro que as mineradoras movimentam, como o dinheiro que movimentam as transnacionais, do dinheiro que movimentam as grandes empresas colombianos: cobramos impostos. Cobramos impostos dos grandes comerciantes, dos grandes negócios, e dos narcotraficantes também cobrávamos impostos.
Mas que nós tenhamos sido ou sejamos narcotraficantes, não. E não é um problema moral. É um problema que nós, inclusive, quando conhecemos esse fenômeno e vimos a quantidade de dinheiro que movia, pensamos: aqui está a solução do problema financeiro. Mas quando estudamos o fenômeno, dizemos não, isso não é revolucionário. Porque o dia que um revolucionário se torna narcotraficante, deixa de ser revolucionário, porque mudam seus valores completamente.
Para que o narcotraficante quer dinheiro? Para construir grandes coisas, comprar praias, carros, iates, aviões etc. E, bem, dar-se aquilo que, entre aspas, chamam de boa vida. E o revolucionário, bem, como vive? Como vivemos nós, como guerrilheiros? Quarenta anos com uma mochila nas costas, dois ou três mudas de roupas, três cuecas, três pares de meias e um par de botas. Remendando as botas, para fazê-las durar. Remendando as roupas para fazê-las durar. São valores completamente antagônicos.
FM: Que futuro o senhor vê para as FARC, agora com os acordos de paz? Será um partido com a Frente Farabundo Martí [de El Salvador], com a Frente Sandinista [da Nicarágua]. Como vê esse processo para as FARC?
Timochenko: Com muito otimismo. Chegamos a esse processo com a ratificação por uma conferência nacional de guerrilheiros. Um evento em que houve a participação de representantes de todos os guerrilheiros, que ratificou o acordo e propôs como vamos nos posicionar no futuro. Essa [é uma] conferência-mandato, porque nós somos ao mesmo tempo uma organização militar e política.
Nós temos uma esquadra, como unidade militar, mas essa esquadra é também uma célula partidária. Isso é, um organismo político. Ao nos transformamos, a realidade é que temos de criar um partido. E esse partido vai ser conformado, vai se estruturar e vai construir sua plataforma e tudo o mais que corresponde a um partido político em um congresso que deve ser convocado mais ou menos pelo mês de maio. Esse é um mandato que nos deu a conferência.
Mas, nesse momento, devemos elaborar, e isso está colocado, uma proposta para o país, em função de uma grande convergência que permita chegar ao poder para assentar as bases reais do poder na Colômbia.


FM: Quais foram os momentos mais difíceis para a guerrilha nesses 50 anos?
Timochenko: Essa é uma pergunta difícil de responder porque houve muitos, em cada etapa. No começo das FARC, um ou dois anos depois de formada, um companheiro cometeu um erro militar e foram perdidos 70% das forças e das armas. Obrigou-nos quase que a começar de novo.
Mas houve também momentos, em etapas como, por exemplo, no governo de Alfonso López [1974-1978], que desenvolveu uma política social que, inicialmente, parecia que ia beneficiar as pessoas, e a gente… porque, ao fim e ao cabo, do que se nutre a guerrilha? Do descontentamento das pessoas. Essa é a gente que chega e alimenta as fileiras da guerrilha. Mas depois não continuou assim, e continuamos. Mas há outros momentos em que…
FM: Por exemplo, o fim da União Soviética: como vocês receberam essa notícia, lá na floresta?
Timochenko: Para nós, sabe, isso não impactou como impactou em muitos outros lugares. Doeu, sim, porque era uma referência. Muitos anunciaram o desaparecimento das FARC. Porque, também, diziam que as FARC se supria, era pró-Soviética, que éramos financiados pelo ouro de Moscou…
FM: O famoso “ouro de Moscou”…
Timochenko: É, o “ouro de Moscou”… Pois é. Não. Não desaparecemos, e nos mantivemos fortalecidos. Realmente, não nos impactou internamente. Não houve quadros importantes nossos que quebraram por que se sentiram desmoralizados pela queda da União Soviética.
Porque é aquilo que muita gente não entende: as FARC são fruto da mesma dinâmica social e política do país. Isso não ocorreu porque alguém se levantou e disse: construamos aqui uma guerrilha. Não. É uma guerrilha que nasce me função da resistência a um regime repressivo. Isso cria raízes muito profundas na sociedade colombiana.
Sim, sentimos [o fim da URSS], mas por sorte contávamos com quadros muito esclarecidos, como o camarada Manuel Marulanda [1928-2008], fundador, o camarada Jacobo Arenas [1924-1990], que entenderam perfeitamente [o que ocorria]. Eu posso lhe contar. Nós recebemos aquele famoso livro, aquela da Casa Comum, de Mikhail Gorbachev, e todos emocionados, lendo-o. Nas mãos do camarada Jacobo, silêncio… Não se dizia nada.
Mandou pedir com todos os amigos e contatos que tinha literatura de fora. E um dia nos convocou a todos, cerca de 400 guerrilheiros. Uma conversa. E nos mostrou nessa conversa um jornal Granma, com um discurso de Fidel Castro, que explicava no que consistia as políticas de perestroika e glasnost. Para nós, ficou muito claro de que se tratava este fenômeno. Não podemos, com isso, dizer que não teve consequências para a luta guerrilheira e para o mundo, em geral.
FM: Você falou do Granma. Qual foi o papel de Cuba no processo de paz? Por que vocês, as duas partes, escolheram Havana como o lugar em que seria assinado o acordo de paz.
Timochenko:
Porque Cuba nos dá plena confiança e garantia. Mas, te conto, esse foi o primeiro processo de negociação tensionado com o governo. Porque o governo queria que fôssemos para a Suíça, para a Suécia, ao norte da Europa, e respondemos: não, lá faz muito frio. Sugeriu-se o Brasil, e dissemos que não, não era possível. Porque, além de tudo, era o início, e estávamos em plena confrontação, quando havia muita desconfiança da nossa parte de que se tratava, de que era algo confiável ou se estavam nos colocando uma armadilha.
Propusemos que fosse na Colômbia. O conflito era na Colômbia. Não, o governo, além de tudo, havia estabelecido uma lei que proibia isso. Então sugerimos Venezuela. “Não, Venezuela, não, porque temos muitas contradições e isso vai ser difícil de lidar.”
Bom, discute, discute, e a tarde já ia acabando. E os representantes do governo precisavam ir, porque já ia acabando a luz para o helicóptero, porque isso ocorreu na Colômbia, essa reunião. Daí dissemos, bem, Cuba. Que era uma orientação que nos havia dado o camarada Alfonso, que era quem estava à frente de tudo isso.
Ficamos com essas opções: Colômbia, Venezuela e Cuba, e se não, não nos movemos. Porque Cuba para nós é uma referência histórica. E estávamos seguros de que Cuba não se prestaria a nenhuma manobra para nos enganar. E temos de dizer que acertamos.
No desenrolar de tudo isso, aqui chegamos após quase seis anos, apoiando-nos em Cuba em função de todo esse processo. E realmente creio que foi uma decisão acertada.
FM: O mundo foi surpreendido, há poucas semanas, pela eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Há muita gente progressista que crê que, para a política externa, não há a menor diferença entre democratas e republicanos. Para a Colômbia e para as FARC, o que significa a eleição de Trump?
Timochenko:
Sinceramente, sinceramente, temos alguns temores. Mas quando fazemos análises objetivas, é isso que você disse: que não importa se é republicano, ou se é democrata. O que ocorre são as políticas que são traçadas, sabemos, nos dois cenários distintos, e esses são personagens que têm de se adaptar a elas. O que acontece é que, sim, cada personagem dá suas próprias características a seus mandatos.
Mas acabo de escutar uma notícia de Trump planeja encerrar a fabricação de um avião de guerra, não me recordo o tipo, e veio uma enorme pressão sobre ele. Começando pelo grande consórcio militar. Há no mundo um consórcio industrial, militar e financeiro, que são os que movem os fios do poder e que manejam todas as tramas de poder no mundo. Querem se apoderar do mundo. E os Estados Unidos são um instrumento para isso.
Então é aí que serão determinadas as políticas. Nós confiamos, porque este processo teve o acompanhamento e a aprovação dos Estados Unidos. Não porque sejam boa gente. Porque também eles financiaram e promoveram a guerra. E participaram como assessores diretos na guerra.
Mas eles têm interesses econômicos, interesses estratégicos. E também querem não ter de cuidar disso, porque têm problemas mais graves em outras regiões do mundo. Então esperamos que essa política de apoio ao processo de paz se mantenha. A mim me disse isso, pessoalmente, o secretário de Estado.
FM: John Kerry.
Timochenko:
Kerry. Me disse isso aqui, em Havana. Disse: “Estamos dispostos a ajudar em tudo que vocês necessitem para a segurança de vocês.”
FM: Interessante isso.
Timochenko: E vão lutar… Não foi exatamente a palavra, mas, sim, não vão permitir o apoio aos paramilitares, ao paramilitarismo. É uma mudança de política, porque, ao fim e ao cabo, o paramilitarismo que eles impuseram à Colômbia.
FM: Como as FARC veem o que está ocorrendo no Brasil? Se estivesse no poder, reconheceriam o governo atual?
Timochenko:
Sem ter muitos elementos de juízo, vemos com muita preocupação, porque sabemos quem é Lula, quem é Dilma, que além disso, foi guerrilheira, sabemos os valores que um guerrilheiro tem, e sabemos que ela estava de boa-fé exercendo sua presidência e as políticas que podia, frente a uma direita com muito poder.
E que, infelizmente, de uma maneira toda condenável, através da calúnia, criando-se situações não corretas, ela é destituída.
Pois esse é um desafio, que tem o povo brasileiro e o movimento popular, com o qual somos solidários, e acompanhamos. Creio que sabem, e não quero dar aulas, nisso é muito importante a unidade de todos os setores. Nós os acompanhamos e fazemos força para que se possa apoiar.
FM: Você deve saber que a direita brasileira tem uma clara má vontade com as FARC, e que já se manifestou, quando disseram que as FARC tinham um embaixador no Brasil, um padre, não lembro o nome dele…
Timochenko: Cabillo… É seu nome aqui, na guerrilha.
FM: Mas você não respondeu. Se as FARC estivessem no poder, reconheceriam o atual governo brasileiro?
Timochenko:
Bem, o que passa é que, quando se está no poder, é preciso saber manejá-lo, não? É preciso saber manejá-lo, ver o que está ocorrendo, as circunstâncias, as condições presentes.
Mas que se tenha a plena segurança de que somos solidários a todos com todo movimento popular, não só no Brasil, mas também com todos os povos do mundo que lutam pela emancipação, por um melhor viver, em luta contra um capitalismo selvagem que está, além de tudo, destruindo o habitat e o meio em que a espécie humana pode viver, algo que aprendemos muito com Fidel, que nos chamou muito a atenção para isso.
Nesse sentido, encaminharíamos todas as nossas ações e nossas políticas.
FM: No Brasil se dizia, e inclusive se publicou com muito destaque, que vocês financiavam o PT. Que ajudaram a pagar as campanhas de Lula. Isso procede? Tem algum cabimento?
Timochenko: Isso não tem nenhuma base real, nada, em absoluto.
FM: Como as FARC se identificam ideologicamente?
Timochenko:
Nós temos um estatuto que nos rege, e é algo que sentimos e fazemos, e está registrado aí que somos marxista-leninistas. O marxismo-leninismo aplicado à realidade colombiana.
E recorremos aos fundamentos do pensamento de Simón Bolívar: seu espírito anti-imperialista, sua luta pela unidade latino-americana, e o bem-estar do povo, os três elementos que resgatamos. Essa é a nossa ideologia e a base com que projetamos nossa atividade ideológica e política.


FM: Comandante, os acordos de paz garantiam às FARC uma fatia de participação no parlamento. Como é isto? Você pode explicar?
Timochenko: Isto está no marco acordado da participação política. Como te disse antes, nós deixamos as armas de lado, mas seguimos fazendo política.
E para isso, pedimos que nos dessem um mínimo de garantias. E dentro do que alcançamos está, primeiro, a possibilidade de nos convertermos num movimento político. De facilitar-nos os trâmites, de não termos de nos submeter a toda uma série de trâmites ou fazê-lo rapidamente, de não nos submetermos, por exemplo, a ter que ter uma determinada quantidade de militantes, uma série de requisitos que são exagerados na Colômbia, para impedir também a participação popular, a qual também queremos que se impulsione uma lei que acabe com alguns desses requisitos, para facilitar a participação.
E é nesse sentido que teríamos uma participação no Senado e na Câmara, ou seja, no Congresso, nessa etapa que vem, que é a discussão das leis. Temos o direito a ter seis representantes nossos lá, seis que já estamos escolhendo e que têm de entrar agora mesmo, em função dos debates que vão haver, que começam. A primeira lei, de anistia e indulto, e há uma série de leis, com a função de criar essa institucionalidade de que eu falava antes.
Mas temos também, garantida, até 2029, se não me falha a memória, a participação no Congresso com pelo menos 5 nomes, independentemente do que alcancemos participando das eleições. Se elegermos 15, tudo bem, estão ali os cinco. Se elegemos 2, teremos 5.
FM: Em dois anos, teremos eleições presidenciais. Hoje, não se se pode fazer uma previsão, mas que pretendem as FARC: ter candidato próprio ou apoiar um candidato que venha dos partidos, da sociedade?
Timochenko:
Veja, já praticamente essa campanha eleitoral para Presidência, em função dos acordos de paz, começou. E o que se vai ver enfrentar nesse cenário político são as forças que querem a paz, a partir da consolidação dos acordos, e as forças que não querem a paz, buscando impedir a implantação dos acordos. Isso é que vai ocorrer, independentemente dos matizes que surjam.
A proposta que estamos fazendo ao país é um governo, eu diria o nome transitório, mas pode ser outra figura que explique melhor o que se deve fazer, um governo transitório em que todos os setores que querem que se consolide a paz na Colômbia se reúnam em torno de uma figura que nos garanta que não haja resistência nem de uma parte, nem da outra.
Alguém me disso, ‘isso é ter de encontrar um anjinho’… Não, eu acredito que, na sociedade colombiana, existe esse tipo de figura, temos que encontrá-los.
Mas o primeiro passo para isso é, para os que querem a paz, deixar de lado todos os interesses particulares. Isso é o que deve nos identificar a todos, porque, se não se elege um presidente que garanta a continuidade dos acordos, não sabemos que tipo de situação se pode gerar na vida política do país.
FM: Fazer política pode ser mais difícil do que dar tiros?
Timochenko: Claro. Dar tiros não deixa de ser um jeito de fazer política, alguma experiência temos, mas, sim, é algo muito mais complexo, muito mais difícil. Requer mais análises.
FM: Você, durante um período da guerrilha, foi cinegrafista? Se não tivesse sido guerrilheiro, o que seria?
Timochenko: O que ocorre é que a guerrilha é uma atividade que tem sua particularidade, que nos faz evoluir. Os guerrilheiros, como dizem os comandantes, somos integrais. Fazemos o que nos é posto para fazer.
Então, numa guerrilha, se fazem muitas coisas, nas circunstâncias. Eu, por exemplo fui enfermeiro, sem ter vocação propriamente para sê-lo. Em 1984, fiz um cursinho de câmera, e fui quem filmou toda a etapa dos diálogos com Belisario Betancur [1982-1986].
Mas o que eu gostaria de ter sido? Professor.
FM: Professor?
Timochenko: Gosto da educação, gosto, me satisfaço muito quando se dá a alguém elementos para compreender uma realidade.
FM: Você chegou a estudar medicina?
Timochenko: Não, não.
FM: Porque eu li isso.
Timochenko:
Não, não. Isso são puras mentiras da inteligência, que são tantas, que me formei na União Soviética, cardiologista etc.
FM: Se eu tiver um infarto aqui, você não me salvará, então?
Timochenko: Não, não.
FM: Está bem, comandante. Agradeço muito o tempo que você dedicou a esta entrevista e espero vê-lo em breve no Brasil.
Timochenko: Eu agradeço, Fernando, o esforço que você fez de vir aqui e saúdo o povo brasileiro. Nos interessa que a América Latina conheça de verdade o que estamos fazendo, que nos acompanhe com a solidariedade necessária, assim como expressamos nossa solidariedade necessária ao movimento popular brasileiro e esperamos que essas nuvens pesadas que estão sobre o Brasil sejam dispersadas o mais breve possível.

#

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sorria! Você está sendo enganado ...

Na terça-feira, 06/12, uma multidão assistiu atônita o despertar de uma pulga atrás da orelha a partir de eventos políticos distantes apenas geograficamente. O primeiro, um Senado entrincheirado em Brasília após se recusar a obedecer uma ordem judicial que afastava seu comandante, Renan Calheiros (PMDB-AL), da presidência da Casa. O segundo, o confronto, no Rio de Janeiro, entre policiais e manifestantes, alguns deles também agentes de segurança, contra medidas de contenção anunciadas pelo governo do Rio, que anunciou a falência pouco depois de fazer a festa de empreiteiras e congêneres durante os megaeventos realizados na capital fluminense.

Os eventos coroaram um esforço de anos em que as instituições foram montadas com tapa e sem sela como se fossem animais de carga. Deu no que deu – e, diferentemente do que poderia sugerir o candidato a deputado engraçadinho, pior do que está fica. E ainda dá para piorar bastante.

Relembre a trajetória em onze passos para saber como eles conseguiram:

Passo 1. Espere a eleição acabar. Vaze áudios obtidos ilegalmente, mesmo que boa parte das conversas tenham pouco ou quase nada a ver com investigações em curso. Rasgue os votos de uma eleição e tente emplacar uma agenda derrotada pelas urnas com a desculpa de que, em ano eleitoral, ninguém discute agenda alguma a não ser o sexo dos anjos.

Passo 2. Dê voz, legitimidade e espaço nas primeiras páginas e escaladas de telejornais aos jovens manifestantes treinados, orientados e pagos por quem não tinha votos para emplacar a sua agenda. Diga que eles representam “a” voz das ruas, e não “uma” das vozes. Deixe bem claro quem pode e quem não pode se manifestar – o que significa lembrar quem ganha catraca livre e quem ganha borrachada a depender da pauta. Observe se a estratégia altera de alguma forma a distribuição de verbas publicitárias entre os grupos donos de jornais, revistas e TV e que não podem ouvir falar em regulação econômica da mídia.

Passo 3. Espere a Presidência da República, pilar fundamental do sistema de governo, nas palavras de Joaquim Barbosa, desmoronar. Leve a desestabilização ao forno e coloque a maioria parlamentar que permitiu a troca de guarda para trabalhar.

Passo 4. Ignore, ou finja ignorar, que existem dois polvos gigantes no caminho até a Presidência: um presidente da Câmara pouco confiável e enrolado até a alma nos desvios da Petrobras e um presidente do Senado sob investigação em diversas frentes. Todos do PMDB, partido prestes a governar o país pela terceira vez sem que tenha obtido qualquer vitória eleitoral para a Presidência.

Passo 5. Tente ignorar o avanço das investigações com uma agenda de medidas ditas duras porém necessárias. Observe atentamente se cola o argumento de que o rombo em caixa é culpa do trabalhador, e não de quem obteve isenção milionária e não está disposto a mexer em seus privilégios. Solte patos nas ruas. Finja que ninguém percebe que o chefe da federação das indústrias que bancou o bando inflável quer ser governador e é filiado ao mesmo partido do presidente que herdará a cadeira vaga da Presidência.

Passo 6. Uma vez consumado o impeachment, após uma série de protestos contra a corrupção, forme um gabinete com figuras investigadas por corrupção. Sente e espere.

Passo 7. Faça exercícios diários de ginástica retórica para convencer a população, a essa altura ciente de que o exército da salvação está afiando a faca contra ela e alisando a própria pele, de que o termo “delimitar” as investigações, dito por um dos ministros num áudio também vazado, não significa “barrar”, muito pelo contrário. Mantenha o sujeito como líder, esteja onde estiver.

Passo 8. Conte com aqueles amigos instalados na Suprema Corte, que já advogaram para os partidos outrora no poder, para pedir vistas de decisões como os relacionados a temas prosaicos e nada importantes da vida pública: se um réu na Justiça pode ou não fazer parte da linha de sucessão da Presidência. Aja com naturalidade. Mantenha em banho-maria no Congresso propostas de regulação de vencimentos de magistrados caso precise atravessar a linha de segurança entre Poderes para devolver a retaliação.

Passo 9. Aguarde o presidente do Senado se tornar réu após quase uma década de denúncias e observe como uma decisão monocrática, sem a avaliação dos pares, é suficiente para alterar a linha de sucessão até o Planalto.

Passo 10. Mostre ao país inteiro que se um senador não pode receber uma notificação judicial, ninguém mais pode. Aguarde as consequências quando os pais que não pagarem pensão aos filhos (com ou sem ajuda de empreiteiras) citarem o senador como referência para colocar o cartaz de “me chute” nas costas dos oficiais de Justiça Brasil afora.

Passo 11. Faça de conta que não tem nada de estranho um servidor aposentado aos 55, que se tornou presidente sem receber um único voto para o posto e auxiliado por braços direitos agraciados com vencimentos acima do teto, dizer que, a partir de agora, a idade mínima de aposentadoria é de 65 anos, mais ou menos o limite da expectativa de vida de alguns estados brasileiros. Mantenha privilégios para determinadas categorias. Disfarce até segunda ordem a ausência de ideias para conter o desemprego em uma economia em plena crise de produção e modelos. Aposte no slogan: Não pense em crise, trabalhe. Force até o limite das rugas o sorriso amarelo na premiação dos homens do ano promovida por uma das revistas da mídia hegemônica que te ajudou a chegar ali. Ao ver as fotos do evento, tente não ligar a conversa amigável entre o juiz implacável e o presidente do partido seis vezes citado em delações e que está tão perto da cadeia quanto estamos de voltar a acreditar nas instituições.

por Matheus Pichonelli

Aqui

#

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Aborto não é questão de opinião.

Enquanto o feto depende do corpo da mãe para se desenvolver, ele é parte integrante do corpo dela. Então acho que cabe só a ela decidir o que fazer com essa parte – chame-se essa parte embrião, feto ou Ludwig van Beethoven.

Essa é a minha posição filosófica sobre o aborto. Se você acredita que não, que a vida começa no momento em que espermatozoide e óvulo encerram suas existências independentes e se tornam uma coisa só, eu respeito. Mas a nossa discordância é irrelevante fora do mundo das ideias, porque no mundo real a legalização do aborto não é uma discussão filosófica. É uma questão de saúde pública.

Uma em cada cinco brasileiras que estão hoje nos últimos anos da vida reprodutiva (35 a 39 anos) já passaram por pelo menos um aborto voluntário, segundo um estudo famoso da Universidade de Brasília. Ou seja: pelos padrões vigentes neste momento, você, mulher, tem 20% de chance de chegar aos 40 já tendo induzido voluntariamente um aborto.

Diante disso, tecer leis e punições contra interrupção de gravidez me parece tão produtivo quanto legislar contra o consumo de oxigênio. Pior: no mundo real, as leis anti-aborto só tornam o procedimento mais caro para quem pode pagar e mais arriscado para quem não pode. E quem não pode acaba apelando para gambiarras suicidas, extremamente arriscadas. Como a maioria não pode pagar, temos que as nossas leis anti-aborto são, elas sim, uma afronta contra a vida. Uma afronta contra a vida das mulheres pobres.

Alexandre Versignassi

Superinteressante

#

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

FIDEL

Durante nove dias uma carreta militar transportando as cinzas do Comandante Fidel Castro atravessou Cuba de ponta a ponta, de Havana a Santiago, refazendo, em sentido contrário, a trajetória da Coluna Heroica chefiada por ele que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista em 1959. No sábado, 3 de dezembro, a urna contendo os restos mortais de Fidel foi recebida na Praça Antonio Maceo, em Santiago, por uma multidão de centenas de milhares de pessoas, entre as quais se encontravam chefes de estado e personalidades vindas de todos os continentes. O Brasil estava representado pelos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff e por uma pequena delegação formada por sindicalistas, lideranças de movimentos sociais e jornalistas.

Às sete horas da manhã de domingo, dia 4, a urna foi sepultada no cemitério Santa Efigênia, em uma cerimônia fechada, da qual participaram apenas os familiares de Fidel e os presidentes Nicolás Maduro (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua), Evo Morales (Bolívia) e os ex-presidentes do Brasil Lula e Dilma. Ao invés de um mausoléu, as cinzas do Comandante foram depositadas em uma cavidade de um bloco de granito e cobertas com uma placa de mármore negro sobre a qual está gravada uma única palavra: “Fidel”.

A simplicidade e o recato da cerimônia cumpriam determinação do próprio Comandante, que exigiu, horas antes de falecer, que seu nome e sua figura “nunca fossem usados para denominar instituições, praças, parques, avenidas, ruas ou outros lugares públicos nem erigir em sua memória monumentos, bustos, estátuas e outras formas de tributo”.

Fernando Morais

Nocaute

#

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

“Vida e Destino”, o “guerra e paz” soviético

Na década de 1980, um tempo em que a gente tinha que ir ao cinema ou esperar passar na TV – aberta – pra ver algum filme, havia o Festival da Primavera da Rede Globo. Era um espaço nobre, reservado às grandes produções, o “créme de la créme” da cinematografia mundial. Foi lá que assisti pela primeira vez – em versão dublada e com intervalos comerciais, ressalte-se - alguns de meus filmes favoritos de todos os tempos, como “2001 – Uma odisséia no espaço”, de Stanley Kubrick, “Era uma vez no oeste”, de Sergio Leone, e “Doutor Jivago”, de David Lean. Este último despertou em mim um fascínio que preservo até hoje pela história, cultura e paisagens geladas da Rússia.

O interesse cresceu no ambiente universitário, quando passei a me aprofundar sobre o imaginário revolucionário. Não me tornei comunista, apesar de ter feito um “curso de iniciação ao marxismo” com Wellington Mangueira, então no PCB, mas até hoje leio bastante sobre o assunto. Causou-me surpresa, portanto, quando me deparei, numa livraria, na sessão de lançamentos, com um calhamaço de mais de 900 páginas de um romance escrito ao longo de mais de uma década e finalizado em 1960 cuja ação transcorria no auge da chamada “Grande Guerra Patriótica” – é assim que os russos chamam a segunda guerra mundial – e que era descrito, na contracapa, como “O guerra e paz soviético”.

O fato é que eu nunca havia ouvido falar do tal livro, “Vida e destino”, nem de seu autor, Vassili Grossman. Me interessei, pesquisei e entendi porque: tratava-se de uma obra proscrita, de publicação póstuma, salva do esquecimento pela ação abnegada de alguns amigos. E foi banida porque era visceralmente verdadeira – um pecado mortal para o totalitarismo stalinista, que sobreviveu à morte do ditador, em 1953.

O caminho percorrido até que aquelas muito bem traçadas linhas chegassem às minhas mãos, aqui em meu cantinho ensolarado do mundo, é, por si só, uma epópéia: A KGB chegou ao extremo de confiscar não apenas os originais, mas também as fitas da máquina de escrever onde o tomo foi redigido e a escavar a horta da casa do primo do escritor em busca de mais exemplares. Nem uma carta direta do autor ao então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Khruschov, a quem havia conhecido pessoalmente no front de stalingrado, adiantou. “Talvez ele seja publicado daqui a uns duzentos, trezentos anos”, disse-lhe Mikhail Suslov, o ideólogo do Partido, respondendo pelo “chefe”. Sua devolução estava fora de questão ...

Uma cópia, no entanto, foi preservada por uma amiga, Liôlia Klestova, em uma mala trancada embaixo de sua cama num apartamento comunal. Posteriormente, em 1974, esta cópia foi microfilmada e contrabandeada para a Europa no fundo falso de uma caixa de biscoitos de gengibre entregue pelo também escritor Vladimir Voinovich a uma rede de dissidentes da qual fazia parte o célebre físico Andrei Sakharov. Foi publicado pela primeira vez, finalmente, na Suíça, em 1980, mas sem grande repercussão - aos dissidentes, em plena guerra fria, o que mais interessava era a denuncia, e esta já havia sido feita com sucesso através dos escritos de Pasternak e Soljenitsin. Em todo caso, oito anos depois, com o degelo da “glasnost” e da “perestroika”, a grande obra pôde finalmente chegar a seu destino original, o povo russo, e de lá se espalhar pelo mundo, consagrando-se como uma das mais incisivas e importantes peças de literatura do século XX.

A narrativa gira em torno, principalmente, da família Chapochnikov, da qual faz parte o físico judeu Viktor Chtrum, uma espécie de alter-ego do autor. Seu drama pessoal segue, em linhas gerais, o roteiro da vida do próprio Grossman: do remorso pela morte da mãe nas mãos dos nazistas na Ucrânia ocupada – culpava-se por não tê-la abrigado em seu apartamento em Moscou antes que fosse tarde demais - e por uma carta aberta de repudio que assinou mesmo sabendo se tratar de uma injustiça movida por perseguição até o romance proibido que manteve  com uma mulher casada. A partir deste núcleo central a narrativa se desdobra por, literalmente, centenas de personagens secundários que vivem tramas típicas de sua época: o velho bolchevique Mastovkói, prisioneiro num campo de concentração alemão; os ocupantes de uma casa que resiste bravamente ao bombardeio de Stalingrado; os responsáveis pela usina de força da cidade, que têm que resistir ao impulso de correr em debandada para não serem considerados desertores pelos responsáveis pela implantação do comunismo de guerra; os destemidos aviadores que singram os céus combatendo o inimigo; Krímov, comissário do exército vermelho que cai em desgraça por uma simples menção a um elogio de Trotski a um de seus artigos; ou o oficial Nóvikov, comandante de um Corpo de tanques que se envolve em batalha decisiva nos arredores de Stalingrado. Nóvikov é o amante e Krímov é o ex-marido de Ievguênia, irmã de Liudmila, esposa de Viktor, que é salvo de um destino terrivel ao receber um telefonema no meio da noite ...

Além desses personagens ordinários e fictícios, o livro é povoado por figuras históricas, notadamente Albert Eichmann, que supervisiona a construção das câmaras de gás na qual milhares seriam imolados. Hitler e Stalin também dão o ar da graça, de forma breve porém surpreendente. A passagem em que o fuhrer aparece é particularmente primorosa, especulando sobre sua psique – não vou dar detalhes para não estragar a surpresa.

“Vida e Destino” apresenta um amplo painel da sociedade russa da época, com uma abordagem pioneira de temas tabu como a brutalidade da coletivização agrícola forçada e o banho de sangue da repressão política de 1937, passando pelo antissemitismo e o início do programa nuclear soviético. Suas páginas nos transportam de forma absolutamente arrebatadora pelos meandros da tragédia humana através de sofisticadas narrativas que nos inserem dentro da mente de uma mãe que visita o túmulo do filho morto em combate, de uma médica de meia idade e de uma criança desprotegida em uma tenebrosa jornada a caminho da morte nas câmaras de gás ou do comandante que hesita até o ultimo instante em dar uma ordem de ataque, sentindo o peso do destino de tantos sobre seus ombros. Nos diálogos, sempre brilhantes, embates ideológicos e dilemas existenciais que reverberam através do tempo e ainda se apresentam absolutamente relevantes, especialmente agora, quando experimentamos o retorno a uma situação de polarização ideológica perigosa e preocupante.

É uma obra notável, fruto do imenso trabalho intelectual de uma mente privilegiada que colocou no papel o que viu e viveu, pois foi correspondente de guerra em Stalingrado e também sofreu com a perseguição política. Deve ser lido e relido e redescoberto pelos séculos que virão.

Já é um clássico.

A.

#