quarta-feira, 30 de novembro de 2016

“Vida e Destino”, o “guerra e paz” soviético

Na década de 1980, um tempo em que a gente tinha que ir ao cinema ou esperar passar na TV – aberta – pra ver algum filme, havia o Festival da Primavera da Rede Globo. Era um espaço nobre, reservado às grandes produções, o “créme de la créme” da cinematografia mundial. Foi lá que assisti pela primeira vez – em versão dublada e com intervalos comerciais, ressalte-se - alguns de meus filmes favoritos de todos os tempos, como “2001 – Uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick, “Era uma vez no oeste”, de Sergio Leone, e “Doutor Jivago”, de David Lean. Este último despertou em mim uma fascínio que preservo até hoje pela história, cultura e paisagens geladas da Rússia. 


O interesse cresceu no ambiente universitário, quando passei a me aprofundar sobre o imaginário revolucionário. Não me tornei comunista, apesar de ter feito um “curso de iniciação ao marxismo” com Wllington Mangueira, então no PCB, mas até hoje leio bastante sobre o assunto. Causou-me surpresa, portanto, quando me deparei, numa livraria, na sessão de lançamentos, com um calhamaço de mais de 900 páginas de um romance escrito ao longo de mais de uma década e finalizado em 1960 cuja ação transcorria no auge da chamada “Grande Guerra Patriótica” – é assim que os russos chamam a segunda guerra mundial – e que era descrito, na contracapa, como “O guerra e paz soviético”.

O fato é que eu nunca havia ouvido falar do tal livro, “Vida e destino”, nem de seu autor, Vassili Grossman. Me interessei, pesquisei e entendi porque: tratava-se de uma obra proscrita, de publicação póstuma, salva do esquecimento pela ação abnegada de alguns amigos. E foi banida porque era visceralmente verdadeira – um pecado mortal para o totalitarismo stalinista, que sobreviveu à morte do ditador, em 1953.

O caminho percorrido até que aquelas muito bem traçadas linhas chegassem às minhas mãos, aqui em meu cantinho ensolarado do mundo, é, por si só, uma epópéia: A KGB chegou ao extremo de confiscar não apenas os originais, mas também as fitas da máquina de escrever onde o tomo foi redigido e a escavar a horta da casa do primo do escritor em busca de mais exemplares. Nem uma carta direta do autor ao então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Khruschov, a quem havia conhecido pessoalment no front de stalingrado, adiantou. “Talvez ele seja publicado daqui a uns duzentos, trezentos anos”, disse-lhe Mikhail Suslov, o ideólogo do Partido, respondendo pelo “chefe”. Sua devolução estava fora de questão ... 

Uma cópia, no entanto, foi preservada por uma amiga, Liôlia Klestova, em uma mala trancada embaixo de sua cama num apartamento comunal. Posteriormente, em 1974, esta cópia foi microfilmada e contrabandeada para a Europa no fundo falso de uma caixa de biscoitos de gengibre entregue pelo também escritor Vladimir Voinovich a uma rede de dissidentes da qual fazia parte o célebre físico Andrei Sakharov. Foi publicado pela primeira vez, finalmente, na Suíça, em 1980, mas sem grande repercussão - aos dissidentes, em plena guerra fria, o que mais interessava era a denuncia, e esta já havia sido feita com sucesso através dos escritos de Pasternak e Soljenitsin. Em todo caso, oito anos depois, com o degelo da “glasnost” e da “perestroika”, a grande obra pôde finalmente chegar a seu destino original, o povo russo, e de lá se espalhar pelo mundo, consagrando-se como uma das mais incisivas e importantes peças de literatura do século XX.

A narrativa gira em torno, principalmente, da família Chapochnikov, da qual faz parte o físico judeu Viktor Chtrum, uma espécie de alter-ego do autor. Seu drama pessoal segue, em linhas gerais, o roteiro da vida do próprio Grossman: do remorso pela morte da mãe nas mãos dos nazistas na Ucrânia ocupada – culpava-se por não tê-la abrigado em seu apartamento em Moscou antes que fosse tarde demais - e por uma carta aberta de repudio que assinou mesmo sabendo se tratar de uma injustiça movida por perseguição até o romance proibido que manteve  com uma mulher casada. A partir deste núcleo central a narrativa se desdobra por, literalmente, centenas de personagens secundários que vivem tramas tipícas de sua época: o velho bolchevique Mastovkói, prisioneiro num campo de concentração alemão; Krímov, comissário do exército vermelho que cai em desgraça por uma simples menção a um elogio de Trotski a um de seus artigos; ou o oficial Nóvikov, comandante de um Corpo de tanques que se envolve em batalha decisiva nos arredores de Stalingrado. Nóvikov é o amante e Krímov é o ex-marido de Ievguênia, irmã de Liudmila, esposa de Viktor, que é salvo de um destino terrivel ao receber um telefonema no meio da noite ...

Além desses personagens ordinários e fictícios, o livro é povoado por figuras históricas, notadamente Albert Eichmann, que supervisiona a construção das câmaras de gás na qual milhares seriam imolados. Hitler e Stalin também dão o ar da graça, de forma breve porém surpreendente. A passagem em que o fuhrer aparece é particularmente primorosa, explorando sua psique de forma brilhante.

“Vida e Destino” apresenta um amplo painel da sociedade russa da época, com uma abordagem pioneira de temas tabu como a brutalidade da coletivização agrícola forçada e o banho de sangue da repressão política de 1937, passando pelo antissemitismo e o início do programa nuclear soviético. Suas páginas nos transportam de forma absolutamente arrebatadora pelos meandros da tragédia humana através de sofisticadas narrativas que nos inserem dentro da mente de uma mãe que visita o túmulo do filho morto em combate, de uma médica de meia idade e de uma criança desprotegida em uma tenebrosa jornada a caminho da morte nas câmaras de gás ou do comandante que hesita até o ultimo instante em dar uma ordem de ataque, sentindo o peso do destino de tantos sobre seus ombros. Nos diálogos, sempre brilhantes, embates ideológicos e dilemas existenciais que reverberam através do tempo e ainda se apresentam absolutamente relevantes, especialmente agora, quando experimentamos o retorno a uma situação de polarização ideológica perigosa e preocupante.

É uma obra notável, fruto do imenso trabalho intelectual de uma mente privilegiada que colocou no papel o que viu e viveu, pois foi foi correspondente de guerra em Stalingrado e também sofreu com a perseguição política. Deve ser lido e relido e redescoberto pelos séculos que virão.

Um clássico. 

A.

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O edifício está tomado por cupins ...

Há alguns meses, diretor e atores de um dos melhores filmes nacionais produzidos nos últimos tempos se posicionaram contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em Cannes, na França, onde o drama (sem trocadilho) fora apresentado.
O protesto recebeu mais atenções do que a história da última moradora de um edifício que sofre pressões de todos os lados, inclusive da família, para liberar o espaço, um edifício baixo perto da praia de Boa Viagem, e dar lugar a um empreendimento imobiliário milionário – daqueles estilo eucalipto, alto e imponente, mas que impede qualquer coisa de crescer ou respirar ao redor.
Poucos atentaram para o caráter simbólico da história. A escolha de Clara, a personagem interpretada por Sonia Braga, não era um estilo de vida, mas uma forma de viver. De um lado, uma solução padronizada de vivências em que, em nome da segurança e da valorização do território, aceitamos trocar a amplitude da rua por uma gaiola espelhada de luz artificial e área gourmet; de outro, um espaço de vivência, vínculos, integração com o espaço público.
A resistência ao atropelo de um padrão imobiliário, que poderia ser lido como a resistência ao atropelo de outros padrões – de gênero, de comportamento, de envelhecimento e de patrimônio imaterial – tinha um preço. A fatura vinha em ordens sutis e ameaças veladas, como se projetássemos a uma personagem as nuances de um país cujas violências não estavam só materializadas em um porrete físico, mas numa série de pressões psicológicas, mais sofisticadas, decerto, mas igualmente violentas.
Lançado em um período de ebulição, “Aquarius” fez com que muitos vissem na posição de Clara uma alegoria da própria Presidência. Ali, as sobras de princípios da presidenta reeleita em uma época rarefeita de escrúpulos impedia a edificação de um empreendimento de alto padrão que, nas palavras de um dos arquitetos do projeto, e não de um opositor, serviria para delimitar as investigações que ameaçavam engolir o sistema político institucional partidário como conhecemos.
Existem formas e formas de ver o mesmo filme e a mesma crise política, mas em algum momento da história as pequenas represálias sobre a protagonista se materializaram nas represálias sofridas pelos responsáveis pelo filme, enquadrado, estranhamente, numa classificação indicativa, antes chamada censura, a menores de 18 anos, e estranhamente limado da indicação para o Oscar em detrimento de uma obra notadamente menor. Houve até colunista de revistão que foi a público defender que as pessoas de bem deveriam boicotar o filme.
Tom Jobim costuma dizer que o Brasil não era para principiantes. A sentença tem uma lição enrustida: para chegar ao topo é preciso ser profissional. Os amadores rodam por uma espécie de seleção natural.
A crise política detonada desde o início da Lava Jato revelou que a pedra fundamental de nosso mito fundador era, na verdade, uma piada: o topo da cadeia (ou do edifício, para quem quer seguir a linha da alegoria) está tomada por amadores, personagens não de dramas psicológicos e nuances de subtexto, mas de pastelões protagonizado por paspalhos que conseguem se enrolar com o zíper da calça quando vão ao banheiro na casa da namorada.
A trama da vida real não tem sequer a dignidade de produzir metáforas. Como lembrou uma amiga: a queda de pontes mal feitas alicerçadas por acordos mambembes entre contratantes públicos e contratados privados no Rio de Janeiro é real e mata; o mar de lama de Mariana é real e produz estragos; nossa zica não é força de expressão; e a ordem, de cima para baixo, para atender a ganância do ministro da articulação política, chamado na escola de Suíno – uma ordem para destroçar o patrimônio público em nome de uma ganância privada de baixo para cima – não é uma trama engenhosa imaginada por qualquer roteirista. É tão real quanto mesquinha.
Não faz muito tempo, panelas triscavam pelas janelas do Brasil para expressar nossa indignação contra a corrupção. Pouco mais de um ano depois, descobrimos que parte dos militantes que colocaram o bloco na rua eram financiados justamente pelos grupos que tinham interesse em tomar posse do terreno que seria deixado como legado da implosão dos velhos locatários.
Uma vez no poder (ou, no topo deles, já que do poder nunca saíram), esses grupos políticos que falavam em mudanças repetiram com mais voracidade os mesmos pecados apontados dos velhos governos: negociaram, prometeram, nomearam, aparelharam.
Com a ajuda das propagandas, digo, entrevistas entre amigos e simpatizantes, passaram meses defendendo cortes de gastos enquanto serviam banquetes a quem atribuíam o dever de prestar contas e pedir respaldo: deputados, senadores, empresários. Asseguraram privilégios e aumentos para as elites do funcionalismo. Ampliaram, sem a devida transparência, os gastos com cartões corporativos. Patrocinaram, às vésperas da delação da Odebrecht – que, entre outras revelações, conta ter doado R$ 23 milhões via caixa dois ao atual chanceler – projetos de anistia para quem recebeu caixa dois. Condicionaram a presidência da Câmara ao apoio do projeto impopular. Fingiram não ter visto o rombo deixado na sala após a prisão do antigo presidente da Câmara, pivô do impeachment após perder apoio do (velho) governo no Conselho de Ética da Casa por mentir sobre as contas na Suíça onde movimentada dinheiro supostamente desviado da Petrobras.
Os episódios são a massa e a argamassada de um governo edificado em ladainha, para usar uma expressão cara ao atual presidente.
Este governo corre agora o risco de ser demolido por conta da revelação das pressões sofridas pelo ministro da Cultura, um dos primeiros órgãos que o governo temerário tentou destruir ao assumir, para facilitar a vida do colega da Articulação Política que recebe vencimentos acima do teto do funcionalismo enquanto articula um teto para investimentos públicos e via na lei de tombamento um empecilho para o seu sonho da casa própria com vista para o mar. 
Não, não tem qualquer metáfora, analogia ou lição quando falamos de visão, empreendimento e edificação nessa história, por mais que ela diga muito sobre nossa miopia e a mesquinharia que move o fígado dos homens públicos que nos salvariam dos anos de desmandos, incompetências notórias e corrupções.
Quem diria: os homens (também não no sentido metafórico, já que da mulher mais próxima hoje do poder não conhecemos sequer a voz) responsáveis por apagar o incêndio político eram antes o motivo da crise do que a sua solução. Trouxeram um galão de gasolina para combater as chamas e deu no que deu.
Nós, que batíamos panelas para limpar o Brasil de nossos males e amadorismos representados por quem aceita (também indevidamente) presentes de construtoras para nossos sítio e sítios de amigos, não imaginávamos que enquanto metade do país se estapeava pela PEC dos Gastos e as reforma do ensino público e da Previdência a prioridade do governo era resolver o impasse provocado por um ministro que se recusava a beneficiar um colega que tentava usar o cargo público para obter uma vantagem particular.
Durou menos de quatro meses a lenda sobre a raposa política e o soldado da articulação. No governo atual, ganância pode ser alta, mas ela não é maior que o amadorismo, revelado à luz do dia, de quem sempre operou nos bastidores e agora se entrega até mesmo quando olha para a câmera e agradece a propaganda.
A mesquinharia do episódio faria Tom Jobim mudar a própria sentença. O Brasil não é para profissionais.

por Matheus Pichonelli

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atheus Pichonelli

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Snooze is not dead.

Foto por Hugo Daniel
Não se apresentavam em público desde a última Festa da Antevéspera, no final de 2014. Resolveram voltar, ironicamente, justamente no dia de Finados, 02 de novembro do ano que tentaremos esquecer. E voltaram em grande estilo, se apresentando pela primeira vez no já tradicional “Clandestino”, evento kamikaze que acontece na rua, “na tora”, esporadicamente. Já está na décima sétima edição, o que prova que nem tudo está perdido, afinal ...

Foi ótimo, claro. Estávamos com saudade. Tocaram com a Renegades, os “anfitriões”, e com uma banda nova chamada Amandinho, que saiu do Recife com destino ao mundo numa “cruzada contra o rock de arena” – seja lá o que isso queira dizer. Banda nova, “instigada”, fez um bom show, energético – mas meio chato nas partes mais “viajantes”.

Adolfo Sá ficou sabendo da novidade e, num timing perfeito, fez uma excelente – e necessária -  entrevista com a snooze que eu, preguiçosamente, reproduzo abaixo – a postagem original está em http://blog.vivalabrasa.com/

Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.

Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.

VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc.

VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê?
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.

VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.

VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.

VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.

VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.

VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.

VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.

VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.

VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.

VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.

VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.

VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.

VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade.
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.

VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!

DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 201

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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A ressaca ...

Eleições 2016: A esquerda não está morta. Mas não será mais a mesma ...

Algumas reflexões preliminares sobre os resultados eleitorais deste domingo (2):
1) Antipetismo: Como era de se esperar, o processo de impeachment e o bombardeio de denúncias de corrupção relacionadas à operação Lava Jato fizeram com que o Partido dos Trabalhadores fosse o maior derrotado desta eleição. Apesar de vitórias pontuais e da presença em algumas disputas de segundo turno, o PT será apenas uma sombra do que já foi considerando as administrações municipais. A menos que um fato novo ocorra, essa condição provavelmente se repetirá nas eleições de 2018, fazendo com que o partido perca a hegemonia na esquerda.
O PSOL está no segundo turno em duas cidades politicamente relevantes, Rio de Janeiro (em que Marcelo Freixo, sem tempo de TV e recursos financeiros escassos, venceu a máquina peemedebista de Pedro Paulo/Eduardo Paes) e Belém (com Edmílson passando em segundo, sendo ultrapassado, na última hora, por Zenaldo Coutinho, do PSDB). Vitórias nesses grandes centros serão importantes para que o PSOL cogite em disputar essa hegemonia partidária da esquerda.
Mas, tão ou mais importante que isso, será saber como os movimentos sociais e sindicatos historicamente ligados ao PT e que formaram sua base social irão se comportar de agora em diante. E se o partido será capaz de se voltar a essa base e às suas demandas.
Vale lembrar, contudo, que a esquerda e seus ideais são maiores que partidos que dizem falar em seu nome e decepcionam o povo ao se tornar aquilo que mais criticavam no intuito de se manter no poder em âmbito federal. Esse erros fazem com que décadas se percam, passos sejam dados para trás, conquistas acabem lançadas no lixo. Mas a esquerda também é maior que pessoas que não gostam de ler livros de história e acham que política pode ser feita sem reflexão sobre ela mesma. Porque a história de movimentos contra-hegemônicos é uma história de reconstrução.
Um partido pode se esfacelar diante de seus erros e dos crimes de seus membros. Mas uma ideia, não. Líderes, falsos ou verdadeiros, caem a toda a hora. Mas uma ideia, não. E a ideia da luta por justiça social e dignidade e pelo direito à identidade e o combate à desigualdade nas grandes cidades e no campo – que norteia historicamente a esquerda – segue viva com movimentos, coletivos e organizações. Bem como a defesa de uma democracia popular e participativa, que continua existindo longe dos palácios e mais perto do povo.
2) Dos gabinetes para as ruas: Os eleitores mandaram um recado através do voto. Parte da esquerda foi desalojada das Prefeituras e realocada nos parlamentos municipais para cumprir o papel de oposição. Parte, desalojada também das Câmaras de Vereadores, deverá ir para as ruas, de onde saiu na década de 80. Se isso se confirmar, poderá significar uma perda para a política como um todo pois a arena institucional é o local por excelência para a resolução de conflitos na sociedade.
De um ponto de vista muito otimista, o retorno às ruas pode levar, finalmente, o PT e os movimentos a ele relacionados fazerem sua autocrítica. Isso será um processo bem doloroso e longo, em que os diferentes grupos e movimentos da esquerda irão bater bastante cabeça entre si, como foi na década de 70 durante a ditadura, cada um lutando pela sobrevivência de seu discurso. Mas, particularmente, não acredito que o partido e alguns movimentos serão capazes de fazer essa autocrítica.
E como isso se resolve então? Na minha opinião, não se resolve. O problema entre uma velha e uma nova esquerda está no contexto histórico em que seus atores foram formados. A meu ver a solução se dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos – e, aqui, não falo de idade, mas da forma como se vê e se pratica a política. É triste que seja assim, mas tendo em vista os embates dentro da própria esquerda, não acredito em conciliação possível. E partidos políticos, novos ou antigos, não serão a única estrutura adotada por aqueles que construirão esse novo ciclo da esquerda. Os movimentos que envolvem os mais jovens, mais horizontais e que trazem pautas relacionadas à qualidade de vida nas grandes cidades, vão dar menos importância à democracia representativa tradicional.
Há duas grandes frentes de esquerda ocupando o cenário público hoje: a Frente Brasil Popular (mais ligada ao PT, MST, entre outros) e a Frente Povo Sem Medo (que conta com a presença do MTST, correntes do PSOL, entre outros). De certa forma, apesar de haver uma relação cordial entre elas, os movimentos de seus protagonistas representa, metonimicamente, o embate em curso, hoje, dentro da própria esquerda.
3) Internet sim, mas não subestime a TV: Durante um bom tempo, a TV ainda terá papel significativo nas eleições, ao contrário do que muitos pensavam diante do avanço da internet. Seja através da exposição de candidaturas via propaganda eleitoral obrigatória (e todo o inferno relacionado à montagem de coligações bisonhas que isso significa), seja pela eleição de figuras que se tornaram famosas com a ajuda da televisão, como o prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr. Ele venceu o último debate, realizado pela TV Globo, por sua capacidade de se comunicar estar bem acima da de seus adversários – mesmo que muitas de suas respostas tenham sido vazias de conteúdo. Na TV, não raro, não é necessário ser sábio e sim parecer sábio. Quem tem competência midiática vai mais longe, sendo o oposto também verdadeiro. Vide o quanto isso atrapalhou Dilma Rousseff.
4) O engodo da antipolítica: A classe política é responsável pela situação a que chegamos, com toda a corrupção, incompetência e ignorância que minou a credibilidade de instituições. Compra da Reeleição, Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanece longe dos olhos do grande público. Ao mesmo tempo, a democracia representativa tradicional e seus vícios se mostraram insuficientes para as demandas da população.
Políticos, mídia, empresários e parte da sociedade conseguiram a proeza de dar espaço aos que defendem que ''fazer política é escroto''. Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída é negar tudo o que ela representa e buscar saídas rápidas, vazias e, não raro, autoritárias. Daí, surgiram candidatos que estufaram o peito e mentiram, com orgulho, que não são políticos e não fazem política. Espalhou-se a percepção de que quem se engaja historicamente na política, partidária ou não (porque muitos fazem questão de resumir toda política à partidária), tem sempre interesses financeiros.
São Paulo elegeu o discurso de negação da política, apesar de Doria ser um político desde sempre. O primeiro colocado no primeiro turno do Rio é um religioso que também nega a política. E, em Belo Horizonte, passam para o segundo turno um ex-goleiro e um dirigente de futebol. Isso abre portas para que pessoas que se colocam como ''salvadores da pátria'' ganhem espaço a fim de nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''.
5) Onda conservadora: No mesmo dia em que eleições municipais eram realizadas no Brasil, a Colômbia, através de um plebiscito, disse ''não'' ao acordo de paz assinado entre o governo daquele país e as Farc. Neste ano, o Reino Unido também votou pela saída da União Europeia. E isso não foi causado apenas pelos discursos xenófobos contra imigrantes, mas também pela situação econômica de muitos trabalhadores britânicos que culpam o bloco pela deterioração de sua qualidade de vida. Some-se a isso o aumento da influência dos partidos de extrema direita na Europa e a possibilidade de Donald Trump sentar-se no Salão Oval da Casa Branca. Ao final, podemos estar vivendo uma tendência global conservadora.
O tempo chama a esquerda a refletir sobre seus erros, não só no Brasil, em todo o mundo. E a encontrar novos caminhos e construir resistência – que não significa apenas lutar contra retrocessos, mas apontar saídas – saídas que não podem excluir pobres, trabalhadores e minorias do mundo, pois o mundo só fará sentido se for construído com eles, por eles e para eles. Muitos direitos foram efetivados desde a Constituição Federal de 1988 – direitos que não serão retirados sem muita reclamação ou luta por aqueles que viram um quinhão mínimo de dignidade ser construído entre os governos do PSDB e do PT.
Como mostram os instituto de pesquisa, como o Datafolha, a população mais pobre não foi às ruas nem a favor, nem contra o impeachment. Muito menos a maioria dos jovens que coalharam as ruas em junho de 2013. Estão em compasso de espera por não se verem representados pelo que esta aí. Ninguém tem o direito de questionar o seu voto, afinal estamos em uma democracia. A dúvida é se, a depender de como soprar o vento agora, eles explodirão a fim de dizer ''não'' para quem tentar suprimir os poucos direitos que têm.
Não raro esquecemos que a história não caminha em linha reta e é a resultante de forças que variam em tamanho e intensidade de acordo com cada época. A democracia pressupõe alternância de poder. E, sim, os direitos que foram garantidos podem ser perdidos, incluindo a definição conceitual de coisas caras à nossa civilização, como dignidade e liberdade. Por isso mesmo que a ideia de diálogo é tão importante. É uma ideia paciente, da qual não podemos nos dar ao luxo de abrir mão. Precisa estar viva, nas ruas, nas conversas de bar, na grande política do nosso cotidiano e na pequena política dos parlamentos, gabinetes e tribunais. Ela que fará com que os diferentes não se odeiem e com que, ao final de contas, a barbárie da intolerância não triunfe.
Por fim, o interessante é que a mesma insatisfação com a política tradicional e a mesma crise das narrativas que elevam candidaturas conservadoras no Brasil e no mundo também geram alternativas viáveis à esquerda. Bernie Sanders deu uma bela dor de cabeça a Hillary Clinton, por exemplo. Trump e Sanders são dois lados da mesma moeda. A esquerda no Brasil conseguirá se organizar e será capaz de fazer frente ao desafio de atuar na sociedade civil e, ao mesmo tempo, disputar o significado e as prioridades do Estado de forma partidária? Poderá construir uma nova narrativa que desperte o sonho e o engajamento novamente? Ou estaremos mesmo fadados a mais de uma década de um sombrio macarthismo, repaginado e adaptado, que se desenha adiante?
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terça-feira, 20 de setembro de 2016

O CARNAVAL DE 2016 EM SÃO PAULO FOI INCRÍVEL!

Difícil deixar de pensar que estamos vivendo num circo gigante. Quando sentamos no sofá depois de um dia bizarro de trabalho e horas de transporte, as novelas surreais na TV nos dão uma visão geral do jogo global: tantas bombas sobre a Síria, mais refugiados nas fronteiras, os problemas das grandes finanças, os últimos gols de Neimar. Ah sim, e quem, depois da Hungria, a Grécia, a Polônia e o Reino Unido está ameaçando deixar a União Europeia em nome de ideais nacionais superiores.

É um jogo e tanto. Relatórios do Crédit Suisse e da Oxfam mostram a grande divisão entre os donos do jogo e os espectadores: 62 bilionários têm mais riqueza do que os 50% mais pobres da população mundial. Eles produziram tudo isso? Evidentemente, tudo depende de que papel você desempenha no jogo. Em São Paulo, os muito ricos que habitam o condomínio de Alphaville estão murados em segurança, enquanto os pobres que vivem na vizinhança se autodenominam Alphavella. Alguém precisa cortar a grama e entregar as compras.

De acordo com o relatório global da WWF sobre a destruição da vida selvagem, 52% das populações de animais não-domesticados desapareceram, durante os 40 anos que vão de 1970 a 2010. Muitas fontes de água estão contaminadas ou secando. Os oceanos estão gritando por socorro, o ar condicionado prospera. As florestas estão sendo derrubadas na Indonésia, que substituiu a Amazônia como a região número um do mundo em desmatamento. A Europa precisa ter energia renovável, de carne barata e da beleza do mogno.

A Rede de Justiça Fiscal revelou que cerca de 30 trilhões de dólares – comparados a um PIB mundial de US$ 73 trilhões – eram mantidos em paraísos fiscais em 2012. O Banco de Compensações Internacionais da Basileia mostra que o mercado de derivativos, o sistema especulativo das principais commodities, alcançou 630 trilhões de dólares, gerando o efeito iôiô nos preços das matérias-primas econômicas básicas. O maior jogo do planeta envolve grãos, minerais ferrosos e não ferrosos, energia. Essas commodities estão nas mãos de 16 corporações basicamente, a maior parte delas sediadas em Genebra, como revelou Jean Ziegler em “A Suiça lava mais branco”. Não há árbitro neste jogo, estamos num ambiente vigiado. Os franceses têm uma excelente descrição para os nossos tempos: vivemos une époque formidable!

Fizemos um trabalho perfeito em 2015: a avaliação global sobre como financiar o desenvolvimento em Adis Abeba, as metas do desenvolvimento sustentável para 2030 em Nova York e a cúpula sobre mudanças climáticas em Paris. Os desafios, soluções e custos foram claramente expostos. Nossa equação global é suficientemente simples para ser executada: os trilhões em especulação financeira precisam ser redirecionados para financiar inclusão social e para promover a mudança de paradigma tecnológico que nos permitirá salvar o planeta. E a nós mesmos, claro.

Mas são os lobos de Wall Street que traçaram o código moral para este esporte: Ganância é Ótima!

Afogando em números

Estamos nos afogando em estatísticas. O Banco Mundial sugere que deveríamos fazer algo a respeito dos news four biliion – referindo-se aos quatro bilhões de seres humanos “que não têm acesso aos benefícios da globalização” – uma hábil referência aos pobres. Temos também os bilhões que vivem com menos de 1,25 dólar por dia. A FAO nos mostra em detalhes onde estão localizadas as 800 milhões de pessoas famintas do mundo. A Unicef conta aproximadamente 5 milhões de crianças que morrem anualmente em razão do acesso insuficiente a comida e água limpa. Isso significa quatro World Trade Centers por dia, mas elas morrem silenciosamente em lugares pobres, e seus pais são desvalidos.

As coisas estão melhorando, com certeza, mas o problema é que temos 80 milhões de pessoas a mais todo ano – a população do Egito, aproximadamente – e este número está crescendo. Um lembrete ajuda, pois ninguém entende de fato o que significa um bilhão: quando meu pai nasceu, em 1900, éramos 1,5 bilhão; agora somos 7,2 bilhões. Não falo da história antiga, falo do meu pai. E já que não é da nossa experiência diária entender o que é um bilionário, vai aqui uma nova imagem: se você investe um bilhão de dólares em algum fundo que paga miseráveis 5% de juros ao ano, ganha 137.000 dólares por dia. Não há como gastar isso, então você alimenta mais circuitos financeiros, tornando-se ainda mais fabulosamente rico e alimentando mais operadores financeiros.

Investir em produtos financeiros paga mais do que investir na produção de bens e serviços – como fizeram os bons, velhos e úteis capitalistas – de modo que não tem como o acesso ao dinheiro ficar estável, muito menos gotejar para baixo. O dinheiro é naturalmente atraído para onde ele mais se multiplica, é parte da sua natureza, e da natureza dos bancos. Dinheiro nas mãos da base da pirâmide gera consumo, investimento produtivo, produtos e empregos. Dinheiro no topo gera fabulosos ricos degenerados que comprarão clubes de futebol, antes de finalmente pensar na velhice e fundar uma ONG – por via das dúvidas.

Um suborno global

Muita gente percebe que as regras do jogo são manipuladas. Os tempos são de fraude global, quando pessoas fabulosamente ricas doam a políticos e promovem a aprovação de leis para acomodar suas crescentes necessidades, fazendo da especulação, da evasão fiscal e da instabilidade geral um processo estrutural e legal. Lester Brown fez suas somatórias ambientais e escreveu Plano B [“Plan B”], mostrando claramente que o atual Plano A está morto. Gus Speth, Gar Alperovitz, Jeffrey Sachs e muitos outros estão trabalhando no Próximo Sistema[“Next System”], mostrando, implicitamente, que nosso sistema foi além de seus próprios limites.

Joseph Stiglitz e um punhado de economistas lançaram Uma Agenda para a Prosperidade Compartilhada, rejeitando “os velhos modelos econômicos”. De acordo com sua visão, “igualdade e desempenho econômico constituem na realidade forças complementares, e não opostas”. A França criou seu movimento de Alternativas Econômicas; temos a Fundação da Nova Economia no Reino Unido; e estudantes da economia tradicional estão boicotando seus estudos em Harvard e outras universidades de elite. Mehr licht! [Mais luz!]

E os pobres estão claramente fartos desse jogo. Sobram muito poucos camponeses isolados e ignorantes prontos a se satisfazer com sua parte, seja ela qual for. As pessoas pobres de todo o mundo estão crescentemente conscientes de que poderiam ter uma boa escola para seus filhos e um hospital decente onde pudessem nascer. E além disso veem na TV como tudo pode funcionar: 97% das donas de casa brasileiras têm aparelho de TV, mesmo quando não têm saneamento básico decente.

Como podemos esperar ter paz em torno do lago que alguns chamam de Mediterrâneo, se 70% dos empregos são informais e o desemprego da juventude está acima de 40%? E eles estão assistindo na TV o lazer e a prosperidade existentes logo ali, cruzando o mar, em Nice? A Europa bombardeia-os com estilos de vida que estão fora do seu alcance econômico. Nada disso faz sentido e, num planeta que encolhe, é explosivo. Estamos condenados a viver juntos, o mundo é plano, os desafios estão colocados para todos nós, e a iniciativa deve vir dos mais prósperos. E, felizmente, os pobres não são mais quem eram.

Cultura e convivialidade

Sempre tive uma visão muito mais ampla de cultura do que o tradicional “Ach! disse Bach”. Penso que ela inclui desfrutar de alegria com os outros, enquanto se constrói ou se escreve alguma coisa, ou simplesmente se brinca por aí. Convivialidade. Recentemente passei algum tempo em Varsóvia. Nos fins de semana de verão, os parques e praças ficavam cheios de gente e havia atividades culturais para todo lado.

Ao ar livre, com um monte de gente sentada no chão ou em simples cadeiras de plástico, uma trupe de teatro fazia uma paródia do modo como tratamos os idosos. Pouco dinheiro, muita diversão. Logo adiante, em outras partes do parque Lazienki, vários grupos tocavam jazz ou música clássica, e as pessoas estavam sentadas na grama ou assentos improvisados, as crianças brincando por perto.

No Brasil, com Gilberto Gil no ministério da Cultura, foi criada uma nova política, os Pontos de Cultura. Isso significou que qualquer grupo de jovens que desejassem formar uma banda poderiam solicitar apoio, receber instrumentos musicais ou o que fosse necessário, e organizar shows ou produzir online. Milhares de grupos surgiram – estimular a criatividade requer não mais que um pequeno empurrão, parece que os jovens trazem isso na própria pele.

A política foi fortemente atacada pela indústria da música, sob o argumento de que estávamos tirando o pão da boca de artistas profissionais. Eles não querem cultura, querem indústria de entretenimento, e negócios. Por sorte, isso está vindo abaixo. Ou pelo menos a vida cultural está florescendo novamente. Os negócios têm uma capacidade impressionante para ser estraga-prazeres.

O carnaval de 2016 em São Paulo foi incrível. Fechando o círculo, o carnaval de rua e a criatividade improvisada estão de volta às ruas, depois de ter sido domados e disciplinados, encarecidos pela comunicação magnata da Rede Globo. As pessoas saíram improvisando centenas de eventos pela cidade, era de novo um caos popular, como nunca deixou de ser em Salvador, Recife e outras regiões mais pobres do país. O entretenimento do carnaval está lá, é claro, e os turistas pagam para sentar e assistir ao show rico e deslumbrante, mas a verdadeira brincadeira está em outro lugar, onde o direito de todo mundo dançar e cantar foi novamente conquistado.

Um caso de consumo

Eu costumava jogar futebol bastante bem, e ia com meu pai ver o Corinthians jogar no tradicional estádio do Pacaembu, em São Paulo. Momentos mágicos, memórias para a vida inteira. Mas principalmente brincávamos entre nós, onde e quando podíamos, com bolas improvisadas ou reais. Isso não é nostalgia dos velhos e bons tempos, mas um sentimento confuso de que quando o esporte foi reduzido a ver grandes caras fazendo grandes coisas na TV, enquanto a gente mastiga alguma coisa e bebe uma cerveja, não é o esporte – mas a cultura no seu sentido mais amplo – que se transformou numa questão de produção e consumo, não em alguma coisa que nós próprios criamos.

Em Toronto, fiquei pasmo ao ver tanta gente brincando em tantos lugares, crianças e gente idosa, porque espaços públicos ao ar livre podem ser encontrados em todo canto. Aparentemente, por certo nos esportes, eles sobrevivem divertindo-se juntos. Mas isso não é o mainstream, obviamente. A indústria de entretenimento penetrou em cada moradia do mundo, em todo computador, todo telefone celular, sala de espera, ônibus. Somos um terminal, um nó na extensão de uma espécie de estranho e gigante bate-papo global.

Esse bate-papo global, com evidentes exceções, é financiado pela publicidade. A enorme indústria de publicidade é por sua vez financiada por uma meia dúzia de corporações gigantes cuja estratégia de sobrevivência e expansão é baseada na transformação das pessoas em consumidores. O sistema funciona porque adotamos, docilmente, comportamentos consumistas obsessivos, ao invés de fazer música, pintar uma paisagem, cantar com um grupo de amigos, jogar futebol ou nadar numa piscina com nossas crianças.

Um punhado de otários consumistas

Que monte de idiotas consumistas nós somos, com nossos apartamentos de dois ou três quartos, sofá, TV, computador e telefone celular, assistindo o que outras pessoas fazem.

Quem precisa de uma família? No Brasil o casamento dura 14 anos e está diminuindo, nossa média é de 3,1 pessoas por moradia. A Europa está na frente de nós, 2,4 por casa. Nos EUA apenas 25% das moradias têm um casal com crianças. O mesmo na Suécia. A obesidade está prosperando, graças ao sofá, a geladeira, o aparelho de TV e as guloseimas. Prosperam também as cirurgias infantis de obesidade, um tributo ao consumismo. E você pode comprar um relógio de pulso que pode dizer quão rápido seu coração está batendo depois de andar dois quarteirões. E uma mensagem já foi enviada ao seu médico.

O que tudo isso significa? Entendo cultura como a maneira pela qual organizamos nossas vidas. Família, trabalho, esportes, música, dança, tudo o que torna minha vida digna de ser vivida. Leio livros, e tiro um cochilo depois do almoço, como todo ser humano deveria fazer. Todos os mamíferos dormem depois de comer, somos os únicos ridículos bípedes que correm para o trabalho. Claro, há esse terrível negócio do PIB. Todas as coisas prazerosas que mencionei não aumentam o PIB – muito menos minha sesta na rede. Elas apenas melhoram nossa qualidade de vida. E o PIB é tão importante que o Reino Unido incluiu estimativas sobre prostituição e venda de drogas para aumentar as taxas de crescimento. Considerando o tipo de vida que estamos construindo, eles talvez estejam certos.

Necessitamos de um choque de realidade. A desventura da terra não vai desaparecer, levantar paredes e cercas não vai resolver nada, o desastre climático não vai ser interrompido (a não ser se alterarmos nosso mix de tecnologia e energia), o dinheiro não vai fluir aonde deveria (a não ser que o regulemos), as pessoas não criarão uma força política forte o suficiente para apoiar as mudanças necessárias (a não ser que estejam efetivamente informadas sobre nossos desafios estruturais). Enquanto isso, as Olimpíadas e MSN (Messi, Suarez, Neymar para os analfabetos) nos mantêm ocupados em nossos sofás. Como ficará, com toda a franqueza, o autor destas linhas. Sursum corda.

por Ladislau Dowbor

dowbor.org

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