quarta-feira, 4 de setembro de 2019

BACURAU: Rastros de ódio ...

“Eu tenho vivido em um mundo de mortes. Eu vi as pessoas que eu amava morrerem. Alguns rapidamente, com um tiro. De outras não sobrou o bastante para enterrar. Se vierem me buscar, eles darão boas-vindas à morte”.

Ouço a apresentação do personagem, acuado por invasores, na sala onde fui assistir a “Bacurau” no fim de semana. Mas o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, uma distopia baseada num futuro próximo, ainda não tinha começado. Era só um trecho do trailer de “Rambo – Até o Fim”, novo longa da franquia de ação na qual um personagem, acuado por inimigos que desconheciam sua história e se vê obrigado a reagir a um ataque frontal. Era o entreposto do que a plateia assistiria dali em diante.

Naquele dia o presidente Jair Bolsonaro acabava de anunciar seu desejo de indultar policiais envolvidos nos massacres do Carandiru e de Eldorado do Carajás – notícia que me chegou, via notificação, já na porta do cinema – e ao menos cinco pessoas haviam sido assassinadas e outras 21 ficaram feridas em dois ataques no Texas; o atirador/terrorista foi alvejado em um complexo de salas de cinema.

Naquele mesmo dia completavam-se também três anos do impeachment de Dilma Rousseff. Era difícil não lembrar da manifestação de Kleber Mendonça Filho na apresentação, em Cannes, de seu filme anterior, “Aquarius”, em 2016, contra o que ele e parte do elenco chamaram, com todas as letras e cartazes, de golpe em curso no Brasil.

Difícil também não fazer paralelos entre o contexto em que os dois filmes chegaram aos cinemas do país. O que eles tinham em comum, além da participação da Sonia Braga? Em “Aquarius”, ela mimetiza uma ideia de resistência com uma personagem que se nega a deixar o seu local de morada em um prédio prestes a ser demolido para dar lugar a um empreendimento de alto padrão na praia de Boa Viagem, em Recife – onde também se baseava a trama de “O Som Ao Redor”, longa de estreia de Mendonça Filho.

Naquele apartamento condenado a desaparecer, Clara luta com todas as armas que tem, no sentido mais alegórico, para enfrentar os empreendedores armados de instrumentos jurídicos e terrores psicológicos para botar ao chão não apenas um lugar, mas uma forma de vida e sobrevida na qual os vínculos e a memória importam mais do que uma sacada da área gourmet envidraçada. As forças de repressão não usavam botas, mas ameaças veladas, jargões carregados de estrangeirismos e conversas furadas sobre oportunidade de negócios.

Aquele sistema contemporâneo de achaque e repressão, encarnado pelo personagem de Humberto Carrão, tinha como estratégia uma pronúncia passivo-agressiva, conforme a protagonista definiu em um dos diálogos mais marcantes do longa.

Três anos depois, até mesmo aquele sistema sofisticado de imposição parece ter perdido a aura da contemporaneidade. Esta é hoje, novamente, mediada por botas, botinas e promessas de armamento. Sim, a coisa avançou rapidamente de lá para cá, e é difícil não observar, em “Bacurau”, uma camada espessa de sangue pisado no vilarejo onde o diretor, em parceria com Juliano Dornelles, situa agora o novo velho civilizatório: um entreposto entre o sertão e o agreste, onde invasores não pedem mais por favor, nem enviam folder com propostas irrecusáveis debaixo das portas. Estas estão arrombadas, seja na tela, seja no país onde candidato à Presidência é esfaqueado durante ato de campanha e uma vereadora é metralhada em via pública para deboche de quem rasga as placas em sua homenagem.

A coisa já desandava desde a praia de Boa Viagem, mas era preciso um grau de sensibilidade agudo para imaginar que descambariam para o faroeste high tech que Mendonça Filho e Dornelles conseguiram captar. Como em toda grande tragédia, os sinais não chegam com trombetas. Pelo contrário, cozinham em fogo brando e levam a duas perguntas principais. Quando reagir? E como?

A lentidão com que os sinais descambam para o risco real da eliminação remete a um romance distópico de José J.Veiga, de “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “Sombra de Reis Barbudos”. Neles o ponto central é o medo do estrangeiro que chega para mudar a rotina de seus moradores até que os absurdos se perdem de vista e se naturalizam.

Em Bacurau, povoado homônimo do filme vencedor do prêmio do júri em Cannes deste ano, todo mundo parece demorar a perceber a gravidade da situação e os sinais que atravessam o céu daquela cidade no interior cantado por Gal Costa logo na abertura.

A reação, entre a indiferença e o susto (“eita porra”), do motorista de um caminhão-pipa que tenta desviar, sem atropelar, uma fileira de caixões de madeira espalhados na estrada que levava até o local é o prenúncio desse delay.

Um dia o veículo chega cravejado de bala, ao estilo Mad Max, e o anúncio é feito de modo protocolar: dado o espanto, a rotina volta a se impor como se tudo não passasse de um caso estranho, mas isolado.

Todos ali parecem de certa forma em um profundo estado de letargia, cansados de briga, como fica nítido quando um morador vê em silêncio, e sem grande assombro, um drone em formato de disco-voador a sobrevoar a trilha onde circula.Ou quando a cidade é acordada pelos passos assustados dos cavalos que fogem de uma fazenda onde uma família é estranhamente dizimada.

Esse cansaço parece empedernido quando os habitantes correm para dentro de suas casas ao verem o prefeito chegar para um ato de campanha no local. De dentro, ensaiam uma espécie de panelaço, desses que marcaram os pronunciamentos políticos nas grandes cidades, onde a própria legitimidade da fala definha.

A saída é se trancafiar para dentro, e é de dentro que vem a resposta quando o cerco finalmente se manifesta. Se em “Aquarius” a resistência está no centro da cena, em “Bacurau” o que se sobressai é a reação.

A forma como essa reação é levada à cena me causou uma série de incômodos. Já em “O Som ao Redor”, era possível ver como as histórias, na filmografia de Kleber Mendonça Filho, se desenvolvem em forma de conto, mesmo em um longa-metragem; o recurso é legítimo, desde que implique no esquecimento de algum personagem no meio do caminho. No filme de estreia a história da vizinha e a máquina de lavar não apenas sobrava, mas parecia flutuar numa trama que se revela outra.

Em “Bacurau”, não há exatamente um protagonista, o que, como uma música sem refrão, não seria um problema se a ideia de reordenamento coletivo como elemento de impulsão não fosse construída por personagens com histórias com começo e sem fim, ou com fim sem começo. Assim, alguns dos personagens parecem desaparecer, como a própria localidade, conforme outros ganham o primeiro plano. É o caso de Pacote (Tomás Aquino) e (sua parceira?) Teresa (Bárbara Colen) após outro matador, o foragido Lunga (Silvero Pereira), ser resgatado de seu mirante para salvar o povoado.

Ah, sim: a certa altura do filme o drone, um sistema de vigilância e monitoramento que provavelmente seria fundamental para evitar o desfecho da trama, também desaparece, o que também incomoda, apesar de uma tentativa de explicação em um dos diálogos. Também não gosto da construção do prefeito (afinal, ele quer os votos do povoado ou a eliminação física de seus habitantes?).

Em uma das cenas, dois visitantes do sul do país, que logo descobriremos serem aliados dos invasores estrangeiros e supremacistas na empreitada contra o povoado prestes a desaparecer, mal disfarçam o desprezo pelos moradores locais. Um deles tem o pé no sistema jurídico brasileiro (ok, captamos). Esse desprezo, que precede o ódio, se manifesta quando rejeitam o convite para conhecer o museu da cidade. Aquele museu é falado o tempo todo, mas só entra, de fato, em cena, quando fica claro que está no passado, na história de seus habitantes, valentes, armados, curados no cangaço, a quebra definitiva da letargia.

O desprezo por essa história é o desprezo de quem reivindica o patriotismo enquanto tremula a bandeira do separatismo com uma mão e do entreguismo na outra. “Não somos como eles. Somos do Sul e do Sudeste, uma região muito mais rica, colonizada por alemães e italianos. Estamos mais perto de vocês do que deles”, explica a dupla, para deboche dos estrangeiros que estão ali para uma missão até então desconhecida. São os primeiros a serem devorados. O bote é o ponto alto do filme.

Se há uma tese central ali é que o desaparecimento simbólico precede o desaparecimento físico e ambos fazem parte de um mesmo exercício de desumanização e apagamento: o inimigo, antes de ser eliminável, é alguém de quem desconhecemos a história.

Para os personagens de Bacurau, estar no mapa não é luxo para usuários de GPS, mas condição de sobrevivência. Esta não se constrói com flores - já dizia o jargão armamentista.

Um filme é, obviamente, um exercício de imaginação. Feita a catarse, não tem, nem deve ter, a pretensão de apontar caminhos ou munição para a guerrilha (espera-se) nem oferecer, pela tela, o veneno da coragem, como na música de Alceu Valença, que os moradores de Bacurau utilizam como recurso de enfrentamento. Mas se a estética da obra é um pincel encharcado de sangue, a escolha de seus realizadores é também uma decisão ética – sobretudo em um país onde o armamento individual é usado como trunfo político de autogestão e defesa. Esse incômodo ficou comigo nas primeiras horas após a sessão, até que algumas passagens passaram a fazer mais sentido.

Bacurau não é a inocência perdida, ou sob risco de desaparecimento, quando entra na mira da barbárie – uma barbárie desenhada na brutalização de quem fala da metralhadora como humano e do humano como objeto de repulsa passível de eliminação.

Naquela cidade, a letargia parece compor a paisagem naturalizada onde uma jovem, provavelmente menor de 18 anos, é vítima da exploração sexual e parte da população assiste lobotizada aos melhores momentos de um filme real estrelado por um morador conhecido como “Rei do teco”.

A barbárie está bem guardada no museu, mas não necessariamente desativada naquela espécie de memorial do cangaço, da violência de uma área não alcançada pela lei e pelo Estado e onde o pacto civilizatório é tema de uma permanente negociação individual. “Aqui as coisas não acontecem assim”, avisa um dos moradores, antes de ser assassinado.

“Eu não sabia que era uma criança”, diz um dos estrangeiros assassinos ao justificar a eliminação, como uma barata, de um jovem que cruzou o seu caminho com uma lanterna. Estamos, afinal, em um país onde carregar chuteira na mochila ou guarda-chuva debaixo do braço é a senha para “morrer com um tiro na cabecinha”.

No filme, quando os invasores quebram a linha da barbárie, o que acontece não é a luta do bem contra o mal. O que acontece é a guerra. A capacidade de reação, até então ignorada pelos invasores, é parte da reivindicação de uma humanidade que não pede para sobreviver, mas se impõe para não ser destroçada.

A guerra é a prescrição desse pacto civilizatório, mas também um recurso de sobrevivência. Vide o Vietnã. Na Segunda Guerra, foi uma aliança militar que interrompeu a ascensão nazista. A vitória foi celebrada com duas bombas sobre o Japão.

“Bacurau” é, assim, um filme de guerra, no qual as referências pipocam como balas que ricocheteiam. É um ode ao cinema novo. Aos mártires da política contemporânea. Ao bando de lampião. Ao western americano – com o sinal invertido, mas é. Ao universo de Guimarães Rosa com um recado de fundo. “O senhor tolere, isto é o sertão”.

Mas é também um recado dos insurgentes: nós também sabemos usar a barbárie a nosso favor. O arsenal é a memória de quem fez da existência uma trincheira.

A pergunta, longe de ser respondida, é o que fazer, exatamente, quando essa barbárie já não figura só na linguagem. Como responder a ela se não com a guerra? O homem programado para matar do trailer acima talvez tenha a resposta.


yahoo

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sexta-feira, 28 de junho de 2019

Brizola, que falta faz ...

Leonel Brizola deixou a vida para entrar para história em 21 de junho de 2004, quinze anos atrás. Seu nome é o sino de bronze da luta anti-imperialista que a partir do Brasil abalou o século anterior – o punho erguido de uma Pátria que diz para História: “eis-me aqui”.

Nascido em 22 de janeiro de 1922 em uma família de pobres camponeses em Cruzinha, distrito de Carazinho no Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola era o caçula de uma tradição guerreira. Seu pai, José Brizola lutou ao lado do caudilho Leonel Rocha nos conflitos entre maragatos e chimangos que ensoparam a campanha gaúcha com o sangue da peonada. Ao regressar da guerra, José foi sequestrado e assassinado por soldados inimigos em ato criminoso, praticado depois da assinatura do tratado de paz. Conta Moniz Bandeira que o filho mais jovem de José ganhou seu nome quando, aos dois anos de idade, brandindo uma espada de madeira, disse “eu sou Leonel Rocha!”

Com muita dificuldade, Brizola ingressa em um curso de engenharia em Porto Alegre, trabalhando para se manter na capital gaúcha. É no ocaso do Estado Novo que inicia sua atuação política, no meio da campanha do queremismo, quando Brizola se vê requisitado por vários dos nascentes partidos. Na época ainda sem uma clara definição política, Brizola conta que simpatizava com Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes. Mas não conseguiu se identificar com a petulância dos militantes do PCB, que em suas palavras se “achavam os donos da verdade” e eram extremamente sectários. Igualmente, o PSD, organizado pelos interventores do Estado Novo e representante dos interesses da oligarquia rural e urbana, não o atraiu devido a seu “instinto de classe”.

Na estrutura do PSD, criou-se um Departamento Trabalhista, que deveria acomodar o movimento sindical. No entanto, com aval do ministro do Trabalho Marcondes Filho e do próprio Vargas, os sindicalistas se rebelaram contra essa tentativa e fundaram seu próprio partido, o PTB. Com o PTB em oposição ao governo Dutra do PSD, Brizola a duras penas organizou o partido no Rio Grande do Sul, chegando a conciliar um mandato como deputado estadual com os estudos em engenharia.

O suicídio de Vargas é o episódio-chave na formação de Brizola. O líder trabalhista dizia que seu norte político era a Carta-Testamento de Getúlio, denunciando o íntima ligação da penúria do povo brasileiro com a espoliação internacional do país.

Como governador do Rio Grande do Sul, Brizola enfrentou os monopólio norte-americano da Bond & Share, que controlava o fornecimento de energia elétrica em seu estado. A transnacional se recusava a fazer a expansão que a rede elétrica, imprescindível para o desenvolvimento do estado. Brizola então encampou o serviço público, pagando um cruzeiro pela empresa – valor que correspondia exatamente ao seu valor uma vez computado seu passivo. Também enfrentou a toda poderosa ITT na luta infraestrutura gaúcha, empresa notória por seu patrocínio ao golpe no Chile em 1973. Devido a esses episódios, ficou conhecido “Castro brasileiro” pela mídia estadunidense, atemorizada pela possibilidade do levante de um titã como o Brasil em seu hemisfério.

Ainda como governador, Brizola protagonizou a Campanha da Legalidade em 1961, quando alguns militares tentaram impedir a posse de João Goulart, que se encontrava em missão oficial a China quando Jânio Quadros renuncia. Por meio de apaixonadas transmissões pela Rádio Guaíba, organiza o povo gaúcho, inclusive com a distribuição de armas no que foi a maior e mais intensa mobilização popular da história brasileira. Assim, o povo organizado debela o golpe que se desenhava, embora o Congresso aprove uma emenda instituindo o parlamentarismo, somente para esvaziar a presidência de seus poderes.

Brizola fica até o final de seu mandato em 1963 como governador em vez de se candidatar para algum cargo pelo Rio Grande do Sul, como senador ou deputado federal. Se se candidatasse, seria obrigado a renunciar para se descompatibilizar, como mandava a legislação da época. Permaneceu no cargo para oferecer sustentação ao governo Goulart e à campanha para voltar ao presidencialismo. A organização popular mais uma vez rende frutos e o Congresso Nacional se vê forçado a convocar um plebiscito em janeiro de 1963 a respeito da emenda do parlamentarismo, prontamente derrotada. Neste mesmo ano, Brizola é eleito deputado federal pelo estado da Guanabara – seu último mandato antes do golpe de 1964.

No segundo semestre de 1963, os Estados Unidos apertam o cerco imperialista ao Brasil. O presidente Kennedy restringe o acesso do Brasil a linhas de crédito e adotas outras medidas agressivas para obrigar o país a derrubar a Lei de Remessa de Lucros – projeto de lei do próprio Vargas promulgado por Goulart. Mas a balança de pagamentos brasileira naquela época estava extremamente comprometida pela escassez de dólares, principalmente pela remessa de lucros, que consumia as divisas estrangeiras em posse do Brasil. Por essa razão, o fantasma da inflação assolava o país. Goulart via-se entre a cruz e a espada: ou lutava pelo Brasil ou capitulava para os estadunidenses. Sua opção marca a história brasileira.

Progressivamente isolado ao longo dos primeiros meses de 64 – principalmente depois de propor e em seguida retirar um pedido de estado de sítio em função de uma entrevista de Lacerda para um jornal norte-americano – Goulart faz o famoso comício da Central do Brasil em março daquele ano. O discurso precipita a ala conservadora das Forças Armadas e das montanhas das Minas Gerais desce a tropa de Olympio Mourão Filho para tomar o Rio de Janeiro e depor o governo democrático e popular dos trabalhistas.

Brizola permanece no Rio Grande do Sul para assegurar a posse do general Ladário Pereira Teles como comandante do III Exército. Quando o Presidente da República chega ao estado sulista depois de uma passagem infrutífera por Brasília, o general chega a oferecer o Exército para a defesa do país e da constituição. Não querendo manchar o Brasil com o sangue de tantos filhos em uma luta quase sem chances de vitória, Goulart declina a oferta. Ele e Brizola então fogem para o Uruguai. No exílio, as articulações de resistência de Goulart e Brizola acabam fracassando e os dois ficam por anos sem se falar.

Temido pelas forças antinacionais que haviam se apossado do país em 1964, Brizola ficou 15 anos exilado, um dos maiores períodos de afastamento compulsório registrados. Com o início da abertura “lenta, gradual e segura” do Regime Militar em 1979, os trabalhistas no exílio e no Brasil se encontram em Lisboa, onde assinam uma Carta objetivando a reconstrução do PTB.

Mesmo após tantos anos de exílio, a ditadura não deu trégua a Brizola – o regime moribundo fez de tudo para obstaculizar a campanha de Brizola ao governo do Rio de Janeiro em 1982. Golbery em conluio com o TSE entrega a sigla PTB para Ivete Vargas, somente para atrapalhar a reorganização dos trabalhistas. Aos prantos na Associação Brasileira dos Jornalistas, Brizola rasga um pedaço de papel escrito PTB e rascunha em outro a nova sigla para o velho partido, herdeiro da tradição patriótica de Vargas: PDT.

Ainda na campanha de 1982, Brizola enfrenta a Globo no famoso escândalo da Proconsult, quando a emissora foi cúmplice de uma tentativa de fraude eleitoral para entregar o governo do Rio de Janeiro para Moreira Franco. Os mandatos de Brizola como governador do Rio de Janeiro serão marcados por um forte cunho popular. Junto com Darcy Ribeiro, promove uma revolução na educação do estado com os CIEPs, até hoje referência em política educacional no Terceiro Mundo. Como governador, Brizola teria um papel destacada na campanha pelas Diretas Já em 1984.

A relação com entre o PT e o PDT foi de distância desde as primeiras tentativas de aproximação ainda em 1979. Orientados pelo uspianismo que condenava a tradição varguista e por uma visão pós-moderna da classe trabalhadora, as lideranças do Novo Sindicalismo jamais se aproximaram dos trabalhistas. Mesmo assim, num gesto de grandeza patriótica, Brizola apoia Lula no segundo turno das eleições de 1989, para tentar evitar o desastre que seria o governo Collor – gesto que o próprio Lula foi incapaz de repetir 29 anos depois em 2018, quando sacrificou o país sabotando a campanha de Ciro Gomes para manter a hegemonia petista sobre a esquerda.

O veterano Brizola ainda disputou eleições presidenciais ao longo dos anos 90, depois de um segundo mandato como governador do Rio de Janeiro, sempre condenando o neoliberalismo. Na última eleição, apoiou Ciro Gomes e ao longo do primeiro mandato de Lula, denunciou o caráter neoliberal da gestão petista. Faleceu em 2004, deixando, junto de Vargas, o legado do patriotismo popular brasileiro.

Em todas as suas falas, Brizola denunciava a contradição central do Brasil, que determina o país como um todo: a dependência. Assim como está escrito na Carta-Testamento de Getúlio Vargas, a condição de precariedade do povo brasileiro não pode ser separada da espoliação pelos monopólios internacionais. Brizola era herdeiro da luta de Vargas pela siderurgia em Volta Redonda, a criação da Vale, da Eletrobras, da Petrobras, da Justiça do Trabalho e a estrutura sindical que permitiria a organização de nosso povo.

Em uma fala na UNE em 1961, Brizola disse que “se nada temos com a União Soviética, devemos ter coragem de dizer que nada temos com os Estados Unidos”. O então governador do Rio Grande do Sul se posiciona contra a importação de modelos estrangeiros para o país, tanto a esquerda como a direita. Buscava uma solução brasileira para os problemas brasileiros – ainda que tal solução não prescindisse de um socialismo, mas um socialismo com caráter brasileiro. Neste mesmo discurso, mesmo dizendo que não era inimigo dos Estados Unidos, não deixou de reconhecer que as reformas que o Brasil tanto necessitava obrigatoriamente implicaria em uma modificação nas relações com os EUA.

Ao longo de sua vida, Brizola fez jus a seu sangue guerreiro. Até seu último suspiro, batalhou contra o caráter colonial do Brasil e lutou por sua emancipação. Deixará em todos os brasileiros a eterna dúvida do que poderia ter sido o país se o herdeiro de Vargas tivesse chegado à presidência. Chegou a colocar medo nas grandes corporações estadunidenses, que sabem a ameaça estratégica que o Brasil representa como uma superpotência no hemisfério ocidental. Brizola foi o punho erguido do Brasil ameaçando o domínio dos EUA sobre as Américas.

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quarta-feira, 12 de junho de 2019

70 Anos de Mil novecentos e oitenta e quatro

Embora seja um long-seller continuamente republicado, recentemente as vendas de Mil novecentos e oitenta e quatro - intitulado assim no original, embora geralmente citado em números -, a distopia de Orwell publicada pela primeira vez há 70 anos, dispararam nos Estados Unidos, onde, segundo o The New York Times, a editora Penguin enviou várias centenas de milhares de exemplares pouco depois de Kellyanne Conway, conselheira do Gabinete do presidente Donald Trump, ter repreendido a imprensa por insistir que a Administração reconhecesse que o número de participantes da cerimônia de posse de Trump era uma informação falsa que sua equipe tinha feito circular. Afinal, disse Conway, não se tratava nem de uma mentira nem de um erro, mas do que definiu como “fatos alternativos”. Ao ouvir suas palavras, muitos cidadãos relembraram algumas previsões do romance de Orwell: a “novilíngua”, um vocabulário sintético e reduzido, cuja pobreza visa também reduzir a capacidade de pensar; e o “Ministério da Verdade”, no qual funcionários no livro se aplicam a corrigir os testemunhos do passado recente e a reescrever a história para que ela se encaixe perfeitamente no discurso oficial. Ou seja, o que muitos viram em Conway era uma implantação sem complexos da mentira institucionalizada, presente em maior ou menor medida não só em Trump, mas em geral nos discursos da política, do comércio, da religião... do jornalismo...

Caminhamos mansamente em direção a uma sociedade de vigilância em massa na qual a informação é manipulada para manter as pessoas sob controle, como o romance reflete? Orwell imaginou um mundo pós-revolucionário onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura...) foi abolido e esquecido. A nova sociedade materialista que o romance descreve é dividida em três classes: os membros do partido, os “proles” e os “escravos”. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão zela por ti”.

Em uma Londres sinistra, o protagonista, Winston Smith, modesto mas inquieto funcionário do departamento de História do Ministério da Verdade, conhece Julia, empregada do departamento de Ficção do mesmo ministério. Ela opera uma “máquina de escrever romances”: histórias com argumentos simples e personagens estereotipados, semelhantes àquelas que em nosso mundo real hoje são escritas por computadores que usam inteligência artificial. Winston e Julia se apaixonam e tentam se juntar a uma fantasmagórica organização clandestina de dissidentes que, no fundo, sabem estar condenada ao fracasso, porque o poder é invencível. Essa tensão entre o poder esmagador, por um lado, e, por outro, o amor e a liberdade, é a substância do romance.

Deixando de lado notáveis exceções, como o controle exercido pelo Governo chinês sobre sua população e satrapias várias, o onipresente Estado policial todo-poderoso e controlador que Orwell fabulou... não existe. Paradoxalmente, um dos maiores problemas em grande parte do mundo é a fraqueza ou a falência dos Estados. Mas os monopólios todo-poderosos da tecnologia, com seu controle da verdade e sua avidez vampírica por informação, podem ser um substituto plausível para esse Estado fictício. Nesse sentido, também na realidade, O Grande Irmão está te vigiando e te espionando – sim, com uma interface agradável e com a aquiescência e a entusiástica cooperação da massa – por meio das telas, do telefone celular que cada um carrega no bolso, do indelével rastro digital deixado por cada usuário.

Na sociedade ocidental de hoje, o sexo tampouco é reprimido e severamente controlado como em 1984, mas encorajado e exposto. E, no entanto, sua prática na juventude é substancialmente atrasada e reduzida, de acordo com estatísticas oficiais de uma dezena de países do primeiro mundo citadas pela revista cultural norte-americana The Atlantic. Essa demora pode ser a primeira indicação da recessão sexual, sinal de “uma retirada mais ampla da intimidade física que se estende até a entrada na maturidade”. (As causas dessa queda da libido podem ser pressões econômicas, ansiedade, fragilidade psicológica, uso generalizado de antidepressivos, televisão em streaming, estrógenos dispersados pelo plástico no meio ambiente, smartphones, falta de sono, obesidade, excesso de informação... ou o que ocorrer a qualquer analista).

No inferno cartografado por Orwell em seu livro, escrito no pós-guerra, a miséria é generalizada, as pessoas caminham cabisbaixas e tolhidas, os bens de consumo são escassos, a aparência das coisas é cinza, o trabalho é embrutecedor e os horários abusivos. Hoje o mundo real não é assim, pensam os membros do partido. Mas proles e os escravos certamente reconhecem essas paisagens.

Em um dos mais famosos, tétricos e patéticos cenários de 1984, os chamados “dois minutos de ódio”, as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável lembrar das redes sociais, onde hoje qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente.

Outros artefatos e termos usados para descrever o mundo de 1984 foram incorporados à paisagem e à linguagem comum. Orwell concebeu suas profecias como uma admoestação, uma advertência contra um futuro totalitário, seja soviético, seja fascista, e contra o cultivo sistemático da mentira que observou pela primeira vez na Espanha, em Barcelona, durante a Guerra Civil, que lhe deixou surpreso e pensativo ao constatar “com que facilidade a propaganda totalitária pode controlar a opinião das pessoas cultas nos países democráticos”.

O estilo de Orwell é direto e tem uma formidável capacidade de criar empatia com o leitor, que ao lê-lo ouve a voz de um personagem simpático, honesto, próximo, bom. Essa proximidade, é claro, é uma grande virtude literária. Como Camus, escrevia impulsionado por uma obrigação moral. Tinha que expiar seu trabalho como oficial de polícia do império na Birmânia, onde passou cinco anos depois de ter estudado em Eton, e de onde voltou com uma forte consciência política anti-imperialista.

Escreveu com o máximo verismo reportagens sobre os londrinos pobres e se reduziu voluntariamente à condição de vagabundo. Frequentou mendigos em pé de igualdade por um longo tempo. Daí surgiu seu primeiro livro, Na Pior em Paris e em Londres.

Com o mesmo espírito de coerência e sacrifício, quando Franco se levantou contra a República espanhola foi para Barcelona e imediatamente se apresentou como voluntário para lutar na frente. Desta aventura ficou o testemunho de sua Homenagem à Catalunha e o rastro de uma experiência e conhecimentos sobre a lógica do totalitarismo que se refletiria em sua famosa fábula Revolução dos Bichos, e que cristalizou em 1984.

Este romance foi seu legado: ele o escreveu tendo em mente Nós, de Yevgeny Zamyatin, com muito trabalho, dúvidas e correções em uma ilha escocesa ventosa e fria, onde se retirou com esse objetivo, logo depois de ter ficado viúvo de uma esposa muito querida, sozinho, doente de tuberculose – na época muitas vezes letal –, como um longo testamento político. De fato, morreu no ano seguinte à publicação.

O escritor britânico John Lanchester aponta que o mundo de hoje é mais parecido com a distopia daquele que foi professor de Orwell, Aldous Huxley: Admirável Mundo Novo (1932). Esse livro descreve uma sociedade marcada pela ciência e pela tecnologia e entregue a uma “narcotizante promiscuidade sexual”, tranquilizada pelo prazer e pelas drogas (o soma milagroso) e imersa em uma infantilização geral; e coerentemente com isso, narrado em um tom mais leve do que 1984. Para entender o presente, Lanchester propõe uma síntese entre Admirável Mundo Novo e 1984.

Nessa síntese talvez se devam incluir algumas das tendências e inovações que inundam o nosso mundo. Como as chamadas “capacidades aumentadas”– drogas, próteses, implantes cerebrais–, os novos órgãos obtidos com impressoras 3D; os robôs que controlam nossas casas, aprendem e transmitem nossos dados; a realidade virtual que entretém e anestesia...

Orwell não se estendeu em descrições de novas tecnologias e máquinas: colocou o foco em um estado mental e social. É por isso que seus augúrios conectam com os leitores. Como Dorian Lynskey afirma em uma recente biografia de Orwell – In the Shadow of Big Brother (Na Sombra do Big Brother) –, o britânico “estava muito mais interessado na psicologia do que nos sistemas”. Aí reside a chave do poder e dos mecanismos de controle da massa através da mentira e do medo. Isso dificilmente muda.

por

El País





quarta-feira, 13 de junho de 2018

50 Anos de 2001 - Uma odisséia no espaço

No fim de março de 1968, as primeiras cópias de 2001: Uma Odisseia no Espaço começaram a ser projetadas para integrantes das elites do cinema de Hollywood e do jornalismo cultural dos Estados Unidos, e produziram um retumbante fracasso.

Ninguém tolerou a visão de futuro do nova-iorquino de ascendência judia Stanley Kubrick, nem mesmo o cientista e escritor inglês Arthur C. Clarke, que trabalhava havia quatro anos, em parceria com o cineasta, na versão literária do filme, que seria lançada logo a seguir.

No livro recém-lançado 2001: Uma Odisseia no Espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a Criação de uma Obra-Prima, o escritor e cineasta Michael Benson, nascido seis anos antes da estreia, narra com gozo as circunstâncias agudas daqueles dias de 50 anos atrás.  

Nas pré-estreias, Clarke, executivos do estúdio MGM e críticos de cinema se irmanaram naquilo que a viúva de Stanley, Christiane Kubrick, descreve no livro como o “prazer em ver a dor alheia” estampada no rosto do cineasta.

Acontecia ali um daqueles fenômenos em que as elites de um determinado tempo se divorciam completamente da realidade e entendem um fato pelo contrário simétrico do que ele significa. Desesperado pela rejeição inicial, Kubrick encurtou 19 minutos do filme (restaram 139 minutos para a posteridade).

Em lépidos 16 dias, um dos inúmeros críticos que apontaram os “erros” de 2001 produziu a primeira reavaliação, de mea-culpa, sobre o filme, e o apontou como “obra-prima”. Amparado pelas plateias mais jovens, 2001 se transformaria no filme mais lucrativo de 1968 e num dos épicos cinematográficos indeléveis do século passado.

Estima-se que a MGM, que embolsara algo como 12 milhões de dólares com 2001, foi recompensada com uma bilheteria de até 190 milhões de dólares. Antes que 1968 terminasse, a nave Apollo 8 fez o primeiro voo ao redor da Lua; em julho de 1969, a vida imitou Kubrick e fez um terráqueo pisar pela primeira e única vez o solo do satélite artificial do planeta que 2001 gostaria de suplantar.

De modo análogo ao que Kubrick fez ao explorar por dentro as espaçonaves e o robô com (maus) sentimentos humanos HAL 9000, o livro de Benson penetra as entranhas da produção de 1964-68 para explorar minuciosamente o futuro do pretérito que é a substância de 2001.

O que emerge é a colisão criativa sem tréguas entre passado e futuro, memória e invenção, o peso do tempo e a leveza do vento. É flagrante o desespero financeiro de Arthur Clarke diante da relutância de Kubrick em liberar o lançamento da versão literária de 2001.Ao longo da produção, o diretor vai extirpando as palavras da versão audiovisual.

Quando o livro vem à tona, o texto passa a servir de guia auxiliar de decifração para os enigmas não verbais do filme – o monólito alienígena que atravessa milhões de anos entre a Terra e a Lua e Júpiter e além, o salto humano entre o berço terrestre e o infinito intergaláctico, o astronauta que envelhece e volta ao útero materno ao percorrer o Portal das Estrelas imaginado por Clarke, e assim por diante.

Na tensão entre opostos complementares, é como se Kubrick compusesse a melodia da sinfonia que adornaria (ou melhor, ocultaria) as letras de Clarke para um épico folk-rock de Bob Dylan (a certa altura, o diretor cogita, não se sabe se a sério ou zombeteiramente, entregar a encomenda da trilha sonora para os Beatles).

Na contramão das trilhas especialmente compostas para filmes de grande orçamento, Kubrick queria impor à MGM o uso de peças eruditas – do ribombante e nietz-schiano Also Sprach Zarathustra (1896), do alemão Richard Strauss, ao manjado e “cafona” Danúbio Azul (1867), do austríaco Johann Strauss.

Ao vencer a peleja, o diretor impôs à indústria canibal um paradoxal balé futurista banhado por sons compostos mais de um século antes de 2001. Contraste ainda mais chocante era produzido pela cena de envelhecimento do astronauta, ambientado num quarto de hotel interestelar decorado à moda Luís XV.

O arco de ambição da odisseia homérica e joyciana de Kubrick para longe da ave-mãe Terra ajuda a explicar a repulsa da elite que primeiro teve acesso ao filme, e faz o diretor retroceder a hominídeos de milhões de anos atrás, no prólogo A Aurora do Homem.

Combustível fóssil abastece e incendeia a narrativa de Benson sobre o processo de caracterização dos neandertais coreografados pelo mímico Daniel Richter. Ele também acabaria por interpretar Moonwatcher, o homem-macaco namorado da Lua que, após vislumbrar o monólito, aprendia a usar ossos como armas e tornava a espécie carnívora e ereta. 

Ao atirar aos céus o fêmur animal que, na montagem, se convertia numa espaçonave em forma de espermatozoide capaz de furar a Via Láctea, Moonwatcher metaforizava o raio de alcance almejado por 2001.

Richter só foi creditado como ator, porque Kubrick não admitia que ninguém, além dele, acumulasse mais de um crédito nos letreiros. De olho nas estatuetas danúbias do Oscar, o diretor engoliu a equipe de efeitos visuais e assinou a autoria desse setor que era um dos monólitos de inovação do filme.

Os efeitos visuais renderam o único Oscar para 2001 e para Kubrick, diretor também de outros clássicos pop-rock do cinema mundial, como Dr. Fantástico (1964), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980). Idealizador de epopeias de época, guerra, terror e thriller sexual, Kubrick jamais dirigiu um faroeste.

Para Benson, 2001 marca o encerramento do ciclo do cinema de Velho Oeste e a substituição dos épicos sertanejos e caipiras pelo breu interestelar. Psicodélico na travessia do Portal das Estrelas, 2001 o filme saiu da mente de um diretor que evitava religiosamente as drogas, por medo de que lhe sabotassem o fluxo criativo.

Embora um semideus se consolide na narrativa de Benson, biógrafo não perdoa os traços mui humanos do mito que brinca de deus. Em diversas passagens, Kubrick é retratado como limítrofe à ética, e 2001 assoma como resultado da predação do artista que, à maneira das personagens, aprendeu a usar ossos e espaçonaves como armas de destruição em massa (não seria Hollywood se assim não fosse).

Kubrick exigiu da equipe o transplante de árvores africanas em extinção para cenário mais adequado, e depois do uso as silhuetas vegetais pré-históricas extraídas clandestinamente foram serradas e destruídas, simples assim.

Trabalhadores acidentados no exercício da filmagem foram sumariamente demitidos. Além do estúdio hipercapitalista, também o cineasta aparece como obcecado por planilhas, cálculos, lucros, luxo. Ele, afinal, também pertencia à vanguarda que inicialmente rejeitou sua obra-prima.

Kubrick não quis esperar para ver a realidade concretizar (em tablets e internets) e desmentir (na conquista humana tímida do espaço) sua projeção de 2001. O homem que, entre os 36 e os 40 anos, orquestrou uma visão transcendental de futuro morreu de infarto, em 1999, aos 71 anos.

por Pedro Alexandre Sanches


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quinta-feira, 17 de maio de 2018

o processo

Compareci no último sábado à pré-estréia do filme "O Processo" em Aracaju. É sempre bom ver o pequeno e charmoso Cinema Vitória lotado - e neste caso não se trata de força de expressão, quem chegou atrasado teve imensa dificuldade de achar onde sentar. Trata-se, como todos já devem saber, do documentário que Maria Augusta Ramos , conhecida por seus filmes sobre o sistema de (in)justiça, fez sobre o processo de impeachment da presidentA Dilma Rousseff - não entendi porque no filme ela á tratada como presidentE ...

O filme começa com um sobrevoo sobre uma Brasília literalmente dividida entre vermelhos e verdeamarelos, mortadelas e coxinhas. Aquele tipo de imagem que ficará para a história e será vista e revista provavelmente para sempre nos anos que virão. Todo o filme, aliás, se presta a isso: ser um registro precioso para a história. Segue mostrando a igualmente já célebre votação na câmara dos deputados, aquela cena dantesca onde o Brasil mostrou sua cara de forma nunca antes vista - escancarada, despudorada. Daí parte para "o processo" propriamente dito, supostamente judicial mas, por acontecer no senado, eminentemente político - e farsesco.

A diretora teve acesso aos bastidores das reuniões e do dia-a-dia da minoria, que defendia a presidentA. Faz falta o mesmo olhar para o outro lado, mas não há nada que se possa fazer a respeito já que o acesso lhe foi negado. Intercala, então, imagens públicas e já conhecidas dos debates transmitidos pela TV Senado com discussões a principio privadas. Não há entrevistas, apenas o registro e a edição de imagens. Toda edição, evidentemente, revela o olhar do autor e se converte num comentário, numa opinião. A diretora tem consciência disso, já vi declarações suas afirmando que nunca teve a intenção - que na verdade seria uma ilusão - de fazer um filme "imparcial". Mas há sempre, também, a possibilidade da acusação de manipulação, e foi o que parece ter acontecido no debate que se seguiu à exibição do filme naquela tarde, quando um dos espectadores afirmou ter achado de mal gosto uma edição que mostra a Dra. Janaína Paschoal tomando um Toddinho logo após cenas em que destila sua costumeira fanfarronice. Disse que não gostou porque foi uma piada "fácil" que o fez ficar com um "pé atrás" com relação ao filme. Eu, particularmente, não tenho nada contra piadas "fáceis" e ri bastante com a cena. Pra mim funcionou como um alívio cômico necessário diante do tema pra lá de árido e espinhoso. Há pelo menos outras duas que se prestam ao mesmo serviço, a cena da troca da campainha e a da troca de ironias e sorrisos nervosos entre a presidentA Dilma e o senador Cássio Cunha Lima, um dos diversos CANALHAS, CANALHAS, CANALHAS - palavras de Tancredo Neves durante o golpe de 1964 oportunamente lembradas pelo senador Requião em 2016 - que atuaram de forma cínica e dissimulada naquela verdadeira ópera-bufa.

Para mim, particularmente, o filme teve um efeito parecido com o dos "Dois minutos de ódio" que era exibido aos cidadãos da Oceania em “1984” de George Orwell: impossível evitar o asco diante de tantos CANALHAS expostos em tela grande. Isso porque a diretora fez questão de mostrar - corretamente, evidentemente - todos os argumentos, contra ou a favor do impeachment, utilizando imagens publicas de discursos proferidos em plenário e nas sempre tensas e tumultuadas comissões. Janaína, felizmente, se permitiu ser filmada, o que nos proporcionou algumas deliciosas cenas "extras" - dela se alongando ou se congraçando com seus admiradores da direita hidrófoba - além dos muitos momentos patéticos já mostrados na televisão, como o episódio em que ela arma um verdadeiro barraco numa sessão do Senado para tirar satisfações pessoais. Não se pode "culpar" a diretora por nada disso, evidentemente: com relação ao ódio gerado pela situação absurda cujas consequencias estamos todos sentindo na pele trata-se de uma percepção totalmente pessoal, baseada em minhas convicções - sim, tenho algumas. Boa parte dos presentes à sessão de pré-estreia parece ter sentido pudor de se entregar a este sentimento - catártico, purificador, recomendo - a julgar por alguns  comentários proferidos durante o já citado "debate" - confuso, pouco produtivo - que se seguiu à exibição. Me deu a impressão de que alguns dos que se manifestaram ainda estão empenhados em perseguir aquele ideal jornalístico inalcançável de isenção e imparcialidade. A meu ver, o ideal a ser perseguido é o da honestidade intelectual, e isso a diretora demonstrou ter de sobra, a julgar pelo que foi visto na tela.

Gostei bastante do filme. E tenho certeza que gostarei ainda mais ao longo do tempo, com o distanciamento histórico. Será muito bom relembrar, especialmente, a figura patética da "Doutora" Jana e suas caras e bocas e discursos involuntariamente cômicos, e o verdadeiro "tapa na cara" em forma de autocrítica registrado na fala de Gilberto Carvalho em uma das reuniões petistas. Só espero que isso aconteça numa situação ideal, no momento utópica, em um Brasil que superou a crise pela esquerda e se tornou um país mais justo, e não distópica, num país destroçado pelo avanço implacável da insensatez. Quem viver, verá.

Em tempo: o final é sensacional, avançando no tempo para registrar imagens da gigantesca manifestação contra a reforma da previdência um ano depois do impeachment. O filme, que havia começado com a imagem do sobrevoo sobre a cidade dividida, termina com a fumaça do incêndio de um dos ministérios tomando conta da tela ...

“O Processo” está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

Em Aracaju, no Cine Vitória.

Vá e veja.

A.

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terça-feira, 17 de abril de 2018

A VERDADE VENCERÁ

Costumo dizer que Lula foi o segundo melhor presidente da História do Brasil. Juscelino, que costuma ocupar este posto, a meu ver seria o terceiro - tenho sérias críticas ao modelo de desenvolvimento por ele implantado, principalmente no que toca à priorização do transporte rodoviário em detrimento do ferroviário, e também à construção de Brasilia, uma idéia megalomaniaca e despropositada.

O primeiro seria Getulio, mas confesso que ando revendo meus conceitos. A favor de Vargas temos o fato dele ter institucionalizado as conquistas populares - a Petrobras até hoje se tenta mas ainda não conseguiram privatizar, e a CLT só com o golpe de 2016 foi desmontada. Já o “legado” do PT desmoronou quase que completamente assim que o partido foi apeado do poder. Lula, no entanto, conseguiu o que conseguiu - e não foi pouco - num ambiente democrático, ao contrário de Vargas, que governou na maior parte do tempo com mão de ferro, usando e abusando de poderes ditatoriais. É uma disputa acirrada, portanto. Mas uma coisa é certa: o metalúrgico que se tornou presidente entrará para a História pela porta da frente, ao contrário da maioria de seus atuais algozes.

Ivana Jinkins, filha de um livreiro comunista, tem feito um belíssimo trabalho com sua editora Boitempo, que acaba de lançar um livro para ficar na história: "A Verdade vencerá". Trata-se da transcrição de uma longa entrevista com Lula conduzida por ela mesma e por Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, com textos adicionais de Luis Fernando Veríssimo, Luis Felipe Miguel, Eric Nepomuceno e Camilo Vanuchi. A edição, feita a toque de caixa e no calor de momentos dramáticos(quando todos esperavam o resultado do julgamento do habeas Corpus no STF), é pra lá de caprichada e recheada de notas explicativas que serão de grande utilidade em leituras futuras, além de ricamente ilustrada com fotos de arquivo e de Ricardo Stuckert.

Na entrevista temos um Lula em grande forma falando com sinceridade raramente vista de temas espinhosos, como sua relação com Dilma Roussef e as acusações que levaram à sua condenação. Sobre estas últimas, diz que se fossem verdadeiras ele seria “o chefe de quadrilha mais burro da face da terra”, por se contentar com um apartamento no Guarujá e reformas num sítio em Atibaia enquanto seus subordinados se locupletavam com rios de dinheiro. Faz sentido. Sobre Dilma, fala o que todo mundo já sabia mas nunca tinha ouvido - pelo menos não eu - saindo de sua boca: que não tem paciência para o jogo político e cometeu equívocos mortais na condução da economia. Ressalta, no entanto, sua lealdade. Critica duramente, mas demonstra sempre, também, imenso respeito.

A linguagem, como de praxe, é pra lá de informal - vários "porras" são ditos durante as falas, que revelam curiosidades que eu, particularmente, não conhecia, como o fato de que seu irmão, Frei Chico, nunca foi frei. A alcunha é apenas um apelido de infância. Ou de seu radicalismo (melhor seria chamar de sectarismo) nos primórdios da militância sindical, quando achava que o dono de um boteco era patrão e que a sogra, que apenas gostava de se vestir bem, era burguesa. Destaque para a saborosa história do dia em que Brizola o levou para visitar o túmulo de Getúlio - na verdade o líder trabalhista o havia conduzido até lá para apresentá-lo ao defunto, com quem ficou conversando por um bom tempo.

A vida de Lula foi muito dura. Seu pai, por exemplo, proibia os filhos de estudar. Ele só conseguiu entrar para a escola escondido, "acoitado" pela mãe, Dona Lindu, por quem tem uma devoção comovente. As enormes dificuldades que enfrentou, no entanto, não o endureceram nem fizeram com que perdesse a ternura: trata a todos como "meu querido", até as altas autoridades internacionais. É curiosa, por exemplo, a forma como ele conta o episódio do pagamento da dívida externa com o FMI, como se fosse uma negociação no balcão de uma mercearia de bairro: diz que chamou o presidente do fundo e perguntou: "meu querido, quanto eu te devo? Quero pagar". Vale dizer que o "eu", no caso, não é um termo muito apropriado e revela um certo personalismo, sempre apontado como um dos calcanhares de aquiles do lulismo. É preciso que se diga, também, que o pagamento da dívida foi muito mais um brilhante golpe de marketing que um triunfo verdaeiro, pois na verdade o que se fez foi uma substituição da dívida externa pela interna, regada a juros pra lá de generosos para o mercado financeiro.

Lula é um personagem complexo e cheio de contradições: critica o excesso de partidos mas quando vai elogiar a candidatura de Boulos lamenta que ele tenha escolhido o PSOL e diz que esperava que ele fundasse uma nova agremiação. Num dado momento, diz que Jader Barbalho era "de esquerda" ! Nunca foi! Era do MDB e militava na oposição à ditadura na época por ele referida, mas dizer que era de esquerda, é um pouco demais. Ele também dilui o charmoso termo “companheiro” que o PT adotou em seus primórdios para emular o “camarada” dos comunistas, ao se referir assim até a personalidades como o do ex-presidente norteamericana George W. Bush ...

Questionado sobre o desleixo com a formação de quadros e as mobilizações populares de massa, diz que nem sempre isso resolve, e dá como exemplo a campanha pelas diretas já, que levou milhões às ruas mas não conseguiu a aprovação da emenda Dante de Oliveira no congresso. Justifica, na sequencia, a opção pelos acordos de gabinete, que implicam em concessões de alto custo. Sobre isso, vale a pena a transcrição literal de sua fala:

"Fiz as concessões que o momento exigia. Fui eleito presidente com 10 senadores e 91 deputados, num colégio de 513. E, mesmo com esse balanço desfavorável, promovi a ascensão social dos mais humildes. Tirei 36 milhões de brasileiros da miséria, disponibilizei 47 milhões de hectares para assentamento de pequenos produtores (quase 50% do que foi feito em quinhentos anos de história deste país), levei outros 40 milhões a um padrão de vida de classe média baixa, instalei luz elétrica para mais de 15 milhões de pessoas, dei início à transposição do rio São Francisco, coisa que dom Pedro tentou fazer nos tempos em que era imperador ... Conciliação é quando você pode e não faz. Se eu tivesse a força que teve o PMDB em 1988, com 23 governadores e 306 constituintes, teria concedido menos e realizado muito mais. Nós demos um padrão de vida para o povo que muitas revoluções armadas não conseguiram - e em apenas oito anos."

Lula é um gênio político. A forma como ele transformou sua prisão num ato que ficará para a história foi brilhante. Prisão injusta, uma infâmia que põe em cheque o futuro deste nosso colosso sulamericano. Mas precisamos seguir em frente! Uma vitória da direita nas eleições de outubro seria uma tragédia, a consolidação final do golpe. A esquerda precisa urgentemente se unir em torno de uma candidatura viável, e o único nome que vejo como capaz de tal proeza, na atual conjuntura, é o de Ciro Gomes. Apoiado por Lula e com Haddad como vice acredito que formaria uma chapa fortíssima. Mas a marcha da insensatez segue firme nos dois lados do front, infelizmente, e o mais provável é que esta união não aconteça. Fragmentada, a esquerda corre o sério risco de ficar de fora e ter que assistir horrorizada a uma disputa entre Alckimin e Bolsonaro no segundo turno. Isso tem que ser evitado, a qualquer custo. 

A.

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segunda-feira, 2 de abril de 2018

O PUNK NÃO MORREU

Adolfo Sá no Viva La Brasa: Luiz Moraes Santos chegou em Aracaju vindo de Garanhus nos anos 90 e virou uma das figuras mais emblemáticas da cena punk local. Cabelo de espeto e jaqueta com patches, o vocalista da Cessar Fogo morreu em fevereiro durante o carnaval mais combativo dos últimos tempos.

Blocos de rua e palavras de ordem, vampiro neoliberal e intervenção federal, que tiro foi esse. Enquanto o mundo frevia, Luiz era preso e morria em condições nada festivas. Até hoje não conhecemos os culpados, autorizados, máquinas de matar. Indefesos, os amigos se mobilizaram para liberar seu corpo no IML e chegaram junto no enterro.

Kakuseisha Punx viveu na contramão, fez seus corres e mandou o recado nos 2 álbuns da sua banda. Convidei uns camaradas pra contar algumas das suas melhores histórias, começando pelo baixista Lauro Francis, que gravou com ele o disco ‘Conflitos Mundanos’ e hoje toca na Cidade Dormitório:

“Luiz teve uma vida difícil, veio com a mãe e o irmão porque tinha um tio aqui que poderia ajudar eles – o pai, que já era idoso, morreu quando ele era pequeno. Nessa de vir pra Aracaju ele foi ajudar o tio, tipo aquelas coisas que rolam de pegar jovens do interior pra trabalhar/morar em troca de comida e casa. Rola muito com meninas, né, trabalhar como empregadas em casa. No caso ele trabalhava na empresa, que é no centro, onde teve contato com os primeiros punks da cidade quando era garotão. E foi nessa época que começou a trampar como locutor de porta de loja. E depois que saiu da casa dos tios continuou trampando pelo centro, vendendo óculos pirata e como locutor. Locutor que foi seu trampo a vida toda. Ele era bom nisso.

Existem várias histórias engraçadas com Luiz, quando o conheci na adolescência lá no Marcos Freire/João Alves o apelido dele era Nirvana. Haha. Ele tinha um lance de quando tava com uma pessoa e tinha que ir embora, ia se despedindo andando pra trás e acenando por uns 2, 3 metros como se não quisesse dar as costas, saca?

Tem uma que eu acho foda: Um conhecido o encontrou trabalhando como locutor no Extra, todo arrumado, de farda da empresa, cabelinho penteado e tal. Viu ele lá no trampo todo almofadinha, falou: - Porra, nem tinha reconhecido! Quando acaba o horário de serviço você coloca a fantasia punk, né? Ele respondeu: - Não, na verdade eu tô fantasiado agora.”
Maicon Rodrigues, guitarrista da Psicosônicos e Dr. Garage Experience, já produziu uma festa punk com a Cessar Fogo em Itabaiana:

“Eu vivia meus dias de aventura como organizador de um projeto cultural quando Luiz veio com a banda tocar. Foi tudo muito tranquilo, desde os primeiros contatos até o dia do show, quando os conheci pessoalmente. Todos muito simpáticos, pareciam músicos empolgados, porém contidos, mas Luiz se destacava pelo visual punk levado ao extremo, sempre com um sorriso no rosto e atento a tudo ao seu redor. Parecia estar pronto pra tudo que pudesse acontecer. Lembro de sua jaqueta recheada de patches, bottons e uma crosta de sujeira acumulada ... 

O show foi foda como tinha que ser, após a gig foram todos jogar seus esqueletos maltrapilhos na residência dos meus pais como era costume com todas as bandas que eu recebia no projeto, e logo cedo se picaram pra casa após um café. Até aí tudo bem, ‘falou valeu, até a próxima’...

Dias depois eu percebo um trapo estranho e vermelho entre os panos de chão da minha mãe e saquei que era a jaqueta do Luiz. Fiz contato com o bicho e marquei de entregá-la em Aracaju. Ao encontrá-lo ele parecia aliviado pois nem lembrava onde tinha deixado. Parece que tinha muito apreço pela velha jaqueta de guerra, ficou muito feliz por tê-la encontrado, mas vi que ficou também um pouco contrariado, meio puto, e quando eu perguntei ‘qual foi man’ ele me responde:

- Pô, velho, sua mãe lavou a jaqueta...”

Rás de Sá é uma criatura das noites undegrounds aracajuanas e conheceu Luiz quando o punk cantava numa banda thrash metal chamada Epidemic:

“Vivemos em um país que juízes falam que não dá pra viver sem auxílio-moradia, pessoas tomam antidepressivo porque não podem trocar o carro 2017 por um 2018 e outros tratam mal os amigos quando falta grana pra cerveja ou o celular novo. O meu amigo Luiz dormiu na rua muitas vezes e era sempre simpático e amigável, por mais problemas que tivesse. Sempre aparecia sorrindo e falava: - Eu dormi debaixo daquele toldo, almocei no Padre Pedro e mais tarde vou a um evento underground. Tá massa! Protestou a vida inteira contra as Injustiças dessa merda de país e ao mesmo tempo foi um exemplo pelo que escrevi acima.”

E por fim Adelvan Kenobi, testemunha ocular da escória:

“Os frequentadores habituais da praça Roosevelt, conhecida como ‘praça da mini ramp’ do Bairro América, periferia de Aracaju, se depararam no domingo 11 de março último com uma movimentação diferente e inesperada: um grupo de punks, skatistas e aficionados da cena rock da cidade se reuniram por lá para celebrar a vida de Luiz.

Foi uma noite bacana, com apresentações ao ar livre, na quadra, de bandas como Casca Grossa, Iconoclastia e Putrefação Humana. Bem “rueiro”, do jeito que Luiz curtia. Não fosse ele próprio o homenageado póstumo, certamente estaria lá liderando alguma nova formação da Cessar Fogo, banda que ele se recusava a deixar morrer ...

Era um cara boa praça, sempre gentil com todos, e também um punk de corpo e alma, daqueles que simplesmente não conseguem se adaptar às vicissitudes do sistema. Por conta disso, passou os últimos dias de sua vida à deriva, morando nas ruas. Somente com a notícia da sua morte os amigos souberam que morreu na cadeia, para onde provavelmente foi levado por conta de um furto banal – foi portanto mais uma vítima do encarceramento em massa que nosso país reserva como destino aos “perdedores”, os que não se enquadram nos moldes do conformismo e da subserviência exigidos pelos donos das casas grandes. Corria o risco, inclusive, de ser sepultado como indigente. Não foi o caso, felizmente: uma galera se mobilizou e conseguiu providenciar uma despedida decente.

Luiz morreu como viveu: como um punk.

Crucificado pelo sistema.

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