segunda-feira, 15 de agosto de 2016

No sertão, em karne viva ...

JUVENTUDE DE SOUSA, PB
“Pessoas castigadas pelo sol e pela fome lamentam a dor de mais um ano que passou”, diziam eles em “Política da sêca” já no primeiro álbum, lançado em vinil em 1994. Karne Krua, apesar de ser uma banda originalmente urbana – nasceu no Conjunto Bugio, periferia de Aracaju, em 1985 – sempre cantou as mazelas do povo sofrido do sertão nordestino. Foi com muito gosto que recebeu, portanto, o convite do Centro Cultural Banco do Nordeste para que participasse da edição deste ano do projeto “Rock Cordel”, em juazeiro do Norte, Ceará, e Sousa, na Paraíba.

Precisavam de alguém que dirigisse para ajudar na empreitada – 644km de ida, 189 entre as duas cidades e 730 de volta – então me chamaram. De carro alugado, saímos de casa às 3 da manhã da sexta-feira, 23 de julho, e aportamos na terra do Padre Cícero depois do meio-dia. Cidade bonita, situada num vale circundada por montanhas. Crescendo, com cerca de 260.000 habitantes, já apresenta um embrião de “skyline” com arranha-céus impressionantes.

No centro, a praça Pe. Cícero (tinha que ser, né) já estava sendo preparada para o evento. A banda passou o som – instalado num palco em frente a uma estátua do ... padre Cícero! - e resolveu adiar o descanso da longa viagem diante da insistencia das simpáticas moças da produção para que visitassem os camarins, devidamente abastecidos com suquinhos e frutinhas, mas sem camas, que era do que precisávamos naquele momento. Em todo caso, nada a reclamar, tratamento impecável ...

O show (veja AQUI) começou cedo, por volta das 20H. Por ser numa praça pública e num dia de feriado na cidade, acabou atraindo um bom público, boa parte de curiosos “não iniciados”. Na linha de frente, a juventude “roqueira” ensandecida foi à loucura, agitando muito, circundada por uma miríade de rostos com os olhos fixos no palco, impressionados com a verdadeira catarse sonora que saia dos altos falantes. Silvio, o vocalista, estava doente, gripado e com a garganta inflamada, mas mesmo assim entregou uma perfomance avassaladora. Aos poucos foram conquistando a platéia com uma apresentação explosiva, emendando uma música atrás da outra, sem pausa para descanso. No final, depois de um bis insistentemente pedido, foram ovacionados e muito comprimentados.

O show terminou cedo e a noite do Cariri nos esperava:  comemoramos, eu e Alexandre Gandhi, os insones, o sucesso até ali da empreitada num simpático bar “roqueiro” chamado “Cangaço”, que ficava a três quadras da praça. Pra lá de simpático, eu diria: impressionante! Instalado numa ampla casa residencial adaptada, dispunha de vários ambientes muito bem decorados e aconchegantes, com música de excelente qualidade saindo dos auto-falantes. Nos fundos, no que seria originalmente um quintal, um “voz e violão” tocado por um musico competente, com excelente perfomance vocal. Animou o público – bastante despojado, aliás, na base da camiseta, bermuda e chinelo, bem diferente do povo hipster chique “empiriquitado” que tinha visto uma semana antes na Reciclaria de Aracaju – ao ponto de provocar uma cena inusitada, quando algumas garotas dançaram funk ao som de Legião Urbana(!!!), requebrando lascivamente até o chão ...

No dia seguinte, um sábado, demos um “rolê” pelo comércio e pudemos ver o impacto da apresentação: os caras foram reconhecidos, abordados e parabenizados várias vezes na rua. Impressionante, um verdadeiro dia de “rock star”. Visitamos uns sebos e uma loja especializada em rock, além de constatarmos que praticamente todos os estabelecimentos do centro comercial de Juazeiro ostentavam em suas portas uma estátua do padre Cícero, o onipresente. Nas ruas, um carro de som anunciava uma promoção da òtica Padre Cícero, que fica na Rua pe. Cícero, esquina com a Praça Pe. Cícero. Por volta do meio dia retomamos a estrada, passando antes pela Aveninda Padre Cícero e vendo ao longe a célebre estátua do Padre Cícero ...

O caminho até a próxima parada foi tranquilo, apesar de sinuoso nas imediações de Juazeiro. Sousa é menor – população estimada de 68.000 habitantes – e menos marcada pela religiosidade. Mas tem pegadas de dinossauros! Fica lá um dos mais importantes sitios paleontológicos existentes, com a maior incidência de pegadas de dinossauros do mundo! Mas infelizmente, por causa da passagem de som, não pudemos visitar o vale. Tivemos que nos contentar em tirar fotos com algumas das muitas estátuas dos dinos espalhadas pela cidade, além de comprar biscoitos no Supermercado Dinossauro, que fica ao lado da pousada Dinossauro – não ficamos lá, fomos gentilmente hospedados por um amigo. E lá os dinossauros, no caso, éramos nós, já que ele é novinho ...

O show, que começou por volta das 22H, aconteceu num calçadão que fica ao lado do Centro Cultural Banco do Nordeste, o promotor do evento – bem bacana, aliás, seria interessante ter um destes aqui em Aracaju. Tinha menos publico que em Juazeiro, mas foi igualmente devastador, com um set list conciso dividido em blocos temáticos, dentre eles um que reunia músicas que falavam do sertão nordestino, como “O vaqueiro e a boiada”, “O guerreiro”, “Terra Morte”, “Sêco” e “Inanição” – esta última uma obra-prima, provavelmente a melhor música da karne Krua. O público, especialmente a juventude sedenta por rock selvagem, agitou muito e ovacionou a banda.

Na volta pra casa, nos arredores de Campina Grande, um susto: paramos o carro numa ruela paralela á rodovia para ajustar o GPS. De cara já chamamos a atenção de um casal de transeuntes, que pareceu bastante assustado com a nossa presença. Normal, tempos de violência urbana  desenfreada, tem que ter medo mesmo. Enquanto Ivo mexia nas coordenadas notei que logo à frente, num descampado, se avistava um presídio. Ok. Os sinais de alerta mentais começaram a piscar quando uma viatura da polícia tenha passou por nós em marcha lenta, olhando fixamente para o interior do veículo. Voltou minutos depois com uma escolta impressionate, de mais uns três ou quatro veículos, de onde saltaram homens armados com fuzis de grosso calibre se dirigindo em nossa direção. Mantivemos a calma e saltamos do carro a pedido do comandante da operação, enquanto os que faziam a cobertura verificavam se havia alguém por trás do muro ao lado do qual estávamos estacionados. Mãos na parede, fomos revistados. Nada foi encontrado e o comandante pediu pediu para que abrissimos o porta-malas do carro. Ao constatar que se tratavam de musicos – Blitz! Documentos! “Só temos instrumentos” - explicou de maneira educada que estavam fazendo a segurança do presídio, já que era dia de visitas, e haviam nos abordado por estarmos no lugar errado na hora errada, em atitude suspeita. Desculpou-se pelo incômodo e ainda nos deu dicas de rotas.

E foi isso! Vida longa ao Rock Cordel, que proporciona a bandas independentes com trabalho autoral a circulação por cidades onde dificilmente chegariam por conta própria, com uma estrutura relativamente boa e um cachê relativamente decente. Que não sucumba aos tempos sombrios em que vivemos – ouvi relatos de que era o último projeto cultural ainda de pé dentre vários que o banco mantinha.

FORA TEMER!

A.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

As Histórias em quadrinhos brasileiras seguem conquistando o mundo: os irmãos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, de 40 anos, venceram pela segunda vez o prêmio Eisner, considerado por muitos o oscar dos quadrinhos. Agora na categoria “Melhor adaptação de outra mídia”, por Dois Irmãos (Quadrinhos na Cia., 2015), baseado no romance homônimo do manauara Milton Hatoum. A primeira foi em 2007, pela aclamada “Daytripper”, na categoria “série limitada”. “Dois irmãos”, que foi lançado nos Estados Unidos pela influente editora Dark Horse, a quarta maior do mercado – perde apenas pra Marvel, DC e Image - narra uma tumultuada relação de ódio entre dois irmãos gêmeos nascidos numa família de origem libanesa que vive em uma Manaus decadente, muito distante da efervescência econômica e cultural do ciclo da borracha, no início do século XX. O livro foi lançado no ano 2000 e se tornou uma espécie de clássico moderno da literatura brasileira. A adaptação para os quadrinhos segue o mesmo destino. ++++++++++++++++

Em se tratando de Histórias em quadrinhos, aqui em Aracaju temos o enorme talento de Eduardo Cardenas, que pode ser comprovado com a leitura de seu “Mórbido, maléfico e maldito gibi”. São contos curtos de horror decentemente roteirizados, magnificamente ilustrados e distribuídos em 32 páginas impressas aqui mesmo, no estado, com um resultado pra lá de satisfatório em termos de qualidade gráfica. Produção do autor, independente, pode ser adquirida no site http://lostcomics.com.br/ . Lá estão disponíveis para venda, também, “The Noir Samurai Tango – O Boêmio”, do professor e quadrinista sergipano Rodrigo Seixas; “Somner”, da baiana Dimítria Elefthérios, e “Boiuna – o guardião das esmeraldas”, uma HQ no estilo do horror clássico com temas tipicamente brasileiros - seu autor, o veterano Elmano Silva, é egresso da escola revelada nos anos 1970 e 80 pelas revistas Spektro, Calafrio e Mestres do Terror. //////

“O que é roubar um banco se comparado a fundar um?” Os personagens principais da HQ “Criminosos do sexo” parecem concordar com a tese de Bertold Brecht, pois é o que resolvem fazer assim que pensam numa função prática – e lucrativa - para o misterioso poder que descobrem ter: parar o tempo ao seu redor quando atingem um orgasmo. Escrita pelo premiado Matt Fraction e belamente ilustrada por Chip Zdarsky,”Criminosos do Sexo” está sendo publicada nos EUA pela Image Comics desde setembro de 2013 e é uma das séries em quadrinhos mais cultuadas da atualidade. Além de frequentar com assiduidade o primeiro lugar no ranking dos mais vendidos do New York Times, foi indicada a dois Eisner Awards em 2014, incluindo Melhor Série Contínua, e venceu na categoria de Melhor Nova Série. Em fevereiro do ano passado seu autor assinou contrato com a Universal TV para uma versão nas telinhas. No Brasil, já tem dois volumes belíssimamente encadernados em capa dura lançados pela Editora Devir. Fique de olho, também pra poder dizer, quando se tornar um estrondoso sucesso mundial a la “Walking Dead”, que já conhecia. E que nos quadrinhos é muito melhor. \\\\\\\\\\\\

Muhammad Ali morreu no dia 03 de junho de 2016 e eu finalmente peguei pra ler o gibizão de capa dura com miolo em papel couchê que a panini lançou faz algum tempo com uma história publicada originalmente pela DC Comics em 1978 em que ele enfrenta ninguém menos que o Superman! A idéia esdrúxula acabou rendendo uma HQ criativa e divertidíssima, desenhada pelo legendário Neal Adams. Vale uma conferida.  #############

Em 2015 o prêmio Nobel de literatura foi entregue a uma jornalista, a bielorussa Svetlana Aleksièvitch, de quem pouco ou nada se tinha ouvido falar, até aquele momento, por aqui. Por conta disso, sua obra singular, composta por depoimentos colhidos entre sobreviventes da guerra, do totalitarismo e de desastres nucleares e lapidados numa prosa que a Academia sueca qualificou de “Literatura polifônica” passou a ser , finalmente, publicada no Brasil. Já saíram até agora, pela Companhia das letras, Vozes de Tchernóbil – A história oral do desastre nuclear e A guerra não tem rosto de mulher. Este ano ela foi a grande atração da Flip, a Feira de Litaratura de Paraty, onde fez declarações como esta: “Prefiro o trabalho das mulheres ao dos homens. Quando morei na Suécia, a ministra da Defesa era uma mulher. Lembro uma foto dela grávida, passando em revista as tropas. Se todos os ministros da Defesa fossem mulheres, teríamos menos guerra no mundo. Trabalhei 30 anos sobre a história do comunismo russo e entrevistei centenas de homens e mulheres. Sempre as histórias delas eram mais interessantes. O mundo feminino é mais colorido, mais na base do emocional, mas ainda não chegamos ao ponto de igualdade entre gêneros no mercado de trabalho. Na minha terra há muito poucas mulheres na política e em outras áreas expressivas. Há também poucas autoras, que na opinião de muitos só deviam escrever sobre flores, amores e cozinha. Eu mesma quando comecei a escrever sofri questionamentos por abordar temas tão pesados.” ////

Quem também esteve na Flip, trazido talvez pelo anuncio da continuação do filme baseado em seu livro mais famoso, “Trainspotting”, foi o escocês Irvine Welsh. “Pornô”, a continuação de Trainspotting na literatura, servirá como ponto de partida, mas a nova história seguirá novos rumos, porque a indústria pornográfica mudou muito desde que o livro foi lançado, em 2002. Em todo caso, a volta do elenco original, inclusive de Ewan McGregor, que havia rompido com o diretor Danny Boyle ao ser preterido por ele em favor de Leonardo DiCaprio como protagonista de “A Praia”, tem causado frisson nos fãs – que não são poucos, e dentre os quais me incluo. Welsh escreveu ainda “Skagboys”, uma espécie de “prequel” de “Trainspotting”, em 2012, mas veio ao Brasil este ano para lançar seu novo livro, “A vida sexual das gêmeas siamesas”, que é ambientado em Miami Beach – bem longe da Escócia, portanto – e discorre sobre outro tipo de vício: o consumismo. Viciado ele mesmo em exercícios físicos, principalmente porque lhe permitem comer o que quiser, ele mora já há sete anos nos EUA, a maior parte do tempo em Chicago, cidade natal de sua mulher. Sobre as diferenças entre a América e sua terra natal, declarou: “Miami é muito diferente de onde eu venho. Na Escócia a cultura é mais verbal, em Miami as coisas são mais visuais. Lá as pessoas têm mais consciência do corpo e têm um vício no consumismo americano. É tudo mais físico, você fica mais preocupado com a forma do que em Edimburgo e até Chicago, em que as pessoas acabam ficando presas atrás de laptops. Você sai na rua e vê as modelos da Condé Nast e os artistas. Acho que o clima quente ajuda a criar esse comportamento de rua que não há em outras cidades. Há muitos brasileiros lá. E vocês gostam de festas.”

por Fernando Correia
No ano e mês da copa do mundo, em 2014, a Renegades of punk, banda sergipana de punk rock, decidiu aproveitar o refluxo e dar seu primeiro giro pela Europa. Consta que ninguém, além dos que já estão acostumados a circular na contramão, como eles, entendeu nada por lá: “Vocês são brasileiros, seu país está sediando a copa do mundo, o que estão fazendo aqui?” Rock, ora. Dos bons. Só agora, em 2016, o registro do feito apareceu na rede em um documentário de 41 minutos produzido com o capricho que é a marca registrada de tudo o que eles fazem. Chama-se “O som da selva” e pode ser visto no youtube. Veja! //// Quem também acaba de postar o registro de uma miniturnê pela “gringa”, no México, foi a The Baggios. Que está produzindo seu terceiro álbum, “Brutown”, com a ajuda dos fãs – R$ 31.340,00 captados via plataforma de financiamento coletivo “Catarse”. Um dos prêmios para quem colaborou foi o acesso a um show de pré-lançamento que aconteceu no dia 16/07/2016 na Reciclaria. Fui. Me senti um peixe fora dagua com minha bermuda surrada e camiseta do napalm death em meio a um público hipster e arrumadíssimo. “Empiriquitado”, como diz a minha mãe. No rigor do que ditam os blogs de moda. Mas curti. As músicas novas são, no mínimo, interessantes, e nem a participação insossa da chatíssima – e aclamadíssima - Sandy Alê conseguiu estragar a noite – que foi aberta por um combo montado com os novos nomes de uma nova cena independente que germina na cidade, numa “vibe” igualmente “hipster”, emulando a já não tão nova MPB indie das Tiês, Tulipas e Jenecis da vida, ou, pior ainda, aquele roquinho insosso que na verdade não é – e nem faz questão de ser, imagino – rock. O “supergrupo” era composta por Vitória Nogueira e Nicole Donato – não vi, cheguei atrasado; Lau e eu – interessante; Casco – muito ruim – e Cidade Dormitório – a mais promissora, com boas composições, apesar do vocal afetado, que me lembrou o irritante Helio Flanders, do Vanguart. Em todo caso, foi interessante ver amigos egressos das fileiras do Hard Core underground e periférico se aventurando por outras sonoridades – ficou na minha cabêça a imagem do guitarrista, Heder Nascimento – também da Cessar Fogo – dedilhando suavemente a guitarra com uma tatuagem gigante do Motorhead no braço. Adoro esses contrastes ...

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A vida é feita de escolhas. Tinha prometido a mim mesmo que assistiria a um show completo do Napalm Death assim que eles voltassem ao país depois da relativa frustração de vê-los como banda de abertura para o Hatebreed no Circo Voador, em 2014, mas decidi também que não poderia perder a apresentação do Suicidal Tendencies com Dave Lombardo na bateria, que aconteceria uma semana depois. Como tive que escolher, já que dinheiro não é capim nem dá em árvore, escolhi o segundo, que nunca tinha visto ao vivo ...

Comparecemos, eu e minha amiga Luana, do Rio, ao Audio Clube, na Barra Funda, a tempo de ver as bandas de abertura, Tolerancia Zero e Oitão. Chatos pra cacete, ambos. Hard Core “testosteronado” e cheio de “atitude”, com muita pose e pouco conteúdo. Fomos salvos pelos Ratos de Porão, que detonaram, como sempre, tocando na íntegra o pior disco de sua melhor fase, “Anarkophobia”. Mas o grande show foi mesmo do Suicidal, que fez uma entrada triunfal  após ser anunciado por uma garotinha de uns 4, 5 anos, trajada como fã - com direito à clássica bandana azul, evidentemente. Começaram com “You can´t bring me down” e emendaram um hit atrás do outro, sem piedade. Lombardo foi anunciado com pompa e aclamado pelo público, mas fez uma apresentação contida, sem nenhum estrelismo. Era penas um grande – e bote grande nisso – baterista dando uma força aos amigos, sem interferir nos arranjos e andamentos das músicas. Quem brilhou e se destacou mesmo foi Mike Muir, que ainda está em forma e segue sendo um grande frontman, conduzindo a platéia num frenesi insano que acabou em cima do palco, a seu convite.

Antológico! --------------------------------------------------

Antes tarde do que nunca, quero falar também do maravilhoso show de David Gilmour que vi, também em São Paulo, no final do ano passado. Foi no estádio do Palmeiras, reformado e tinindo. Fiquei na pista e muito pra trás, o que foi uma pena: pode-se dizer que vi Gilmour apenas pelo telão, pois de onde eu estava ele era apenas um ponto minúsculo no palco. Em todo caso, e apesar do blah blah blah sem noção do público coxinha que parecia estar ali apenas pelos velhos sucessos do Pink Floyd e pelo “status” conferido pelo preço exorbitante do ingresso, foi lindo poder ver  – na medida do possível, em meio ao mar de celulares posicionados à minha frente – finalmente ao vivo o legendário guitarrista interpretar pérolas do cancioneiro psicodélico circundado por uma banda pra lá de competente e pelo já tradicional show de luzes e feixes de raio laser. Um momento especialmente emocionante, pra mim, foi a volta do intervalo – sim, o show é tão longo que tem intervalo – com uma homenagem a Syd Barret, já que eu havia recebido um inesperado telefonema da namorada de Levi Marques, NOSSO diamente louco, que havia partido deste vale de lágrimas por livre e espontânea vontade alguns dias antes. SHINE ON, you crazy diamond!

Na saída, a platéia dá novo show de deselegancia, mandando em coro a presidenta tomar no cu. Bizarro. Contraste total com o clima intimista do evento.

Quero registrar também a extrema dificuldade que tive para conseguir um táxi depois do show. Foi tenso, pensei que ia ter que dormir na rua ... 

A.

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terça-feira, 26 de julho de 2016

Escracho, por *Eleonora de Lucena

*   ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha. Editora-executiva do jornal de 2000 a 2010, escreve livro sobre Carlos Lamarca.

A elite brasileira está dando um tiro no pé. Embarca na canoa do retrocesso social, dá as mãos a grupos fossilizados de oligarquias regionais, submete-se a interesses externos, abandona qualquer esboço de projeto para o país.

Não é a primeira vez. No século 19, ficou atolada na escravidão, adiando avanços. No século 20, tentou uma contrarrevolução, em 1932, para deter Getúlio Vargas. Derrotada, percebeu mais tarde que havia ganho com as políticas nacionais que impulsionaram a industrialização.

Mesmo assim, articulou golpes. Embalada pela Guerra Fria, aliou-se a estrangeiros, parcelas de militares e a uma classe média mergulhada no obscurantismo. Curtiu o desenvolvimentismo dos militares. Depois, quando o modelo ruiu, entendeu que democracia e inclusão social geram lucros.

Em vários momentos, conseguiu vislumbrar as vantagens de atuar num país com dinamismo e mercado interno vigoroso. Roberto Simonsen foi o expoente de uma era em que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se apequenava.

Os últimos anos de crescimento e ascensão social mostraram ser possível ganhar quando os pobres entram em cena e o país flerta com o desenvolvimento. Foram tempos de grande rentabilidade. A política de juros altos, excrescência mundial, manteve as benesses do rentismo.

Quando, em 2012, foi feito um ensaio tímido para mexer nisso, houve gritaria. O grupo dos beneficiários da bolsa juros partiu para o ataque. O Planalto recuou e se rendeu à lógica do mercado financeiro.

Foi a senha para os defensores do neoliberalismo, aqui e lá fora, reorganizarem forças para preparar a reocupação do território. Encontraram a esquerda dividida, acomodada e na defensiva por causa dos escândalos. Apesar disso, a direita perdeu de novo no voto.

Conseguiu, todavia, atrair o centro, catalisando o medo que a recessão espalhou pela sociedade. Quando a maré virou, pelos erros do governo e pela persistência de oito anos da crise capitalista, os empresários pularam do barco governista, que os acolhera com subsídios, incentivos, desonerações. Os que poderiam ficar foram alvos da sanha curitibana. Acuada, nenhuma voz burguesa defendeu o governo.

O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há.

Com instituições esfarrapadas, o Brasil está à beira do abismo. O empresariado parece não perceber que a destruição do país é prejudicial a ele mesmo. Sem líderes, deixa-se levar pela miragem da lógica mundial financista e imediatista, que detesta a democracia.

Amargando uma derrota histórica, a esquerda precisa se reinventar, superar divisões, construir um projeto nacional e encontrar liderança à altura do momento.

A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de "Fora, Temer!". Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a "teologia da prosperidade" talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.

Fo(A)lha

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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dilma Roussef: "O oxigênio do debate, para matar os parasitas da democracia ...

por
Um bando de pássaros coloridos atravessa o jardim do Palácio da Alvorada, em Brasília. Aqui mora — de certa forma reclusa — a presidenta afastada Dilma Rousseff. Em uma galeria futurista de pedra azul, há dois garçons com um carrinho com o café. Uma calma absoluta recai sobre o entardecer. Não há o burburinho de funcionários públicos nem secretários que entram e saem pelas dependências. Não se ouvem telefonemas estridentes de salas remotas. É uma terça-feira de trabalho normal na capital política de um país conturbado, mas quem imaginaria. A entrevista acontece na biblioteca, onde Dilma chega com um sorriso pintado na boca. Posa gentilmente para as fotos, faz piadas, elogia o jardim, o ar quente de Brasília no começo do inverno. Parece estar com um humor muito melhor do que há alguns meses, em um encontro anterior, quando ainda comandava o Brasil. Ela ri ao ouvir o comentário.

Bem, o que você realmente quer perguntar é por que não estou arrancando os cabelos de raiva, certo?
— Simplesmente saber por que não está mais triste.
— Não estou triste porque estou lutando por meus direitos. Quando alguém se sente vítima de uma injustiça deliberada — e a minha é deliberada —, a vontade de lutar dá sentido à vida. Sei que estou no lado certo da história. E eles não.

“Eles” são o presidente interino Michel Temer e seu novo Governo. Em 13 de maio, Dilma deixou o Palácio do Planalto, sede oficial da presidência, obrigada devido à abertura de um processo de impeachment que atualmente tramita no Senado e que será concluído, quase certamente, em meados de agosto, com uma votação definitiva. Ocorrerá após a abertura dos Jogos Olímpicos, para os quais, aliás, ainda não foi convidada. O novo Governo não lhe consultou nem a consulta para nada. Ela afirma que sua vida mudou, especialmente pelo fato de já não ter “o poder da caneta, da decisão”. Preenche sua agenda com debates e eventos públicos em diferentes partes do país, com sua presença em redes sociais, atendendo visitas em seu encantador Palácio da Alvorada ou na preparação de sua defesa no Senado para tentar voltar ao poder, seu objetivo e quase uma obsessão. Sua expressão endurece ao lembrar do novo Governo do presidente Temer, seu antigo aliado, e ao qual classificou reiteradamente de “traidor” e “capitão dos conspiradores”.

— Entraram no Governo como uma horda de hunos.
— Por quê?
— Você não pode entrar no Governo e rasgar o programa eleitoral que foi votado por 54 milhões de pessoas. Extinguem o Ministério da Cultura. Depois voltaram atrás, mas o que eles acham que devem fazer é o que fazem primeiro. Querem fazer uma reforma da Previdência que não prevê o aumento da inflação para os que ganham salário mínimo, que são 70%. E querem privatizar a Petrobras...
— Ainda não fizeram nada disso...
— Mas querem. Eles querem acabar com o pré-sal (uma gigantesca jazida de petróleo localizada abaixo do leito do mar) modificando o sistema de exploração para favorecer as grandes empresas. E querem acabar com a política de saúde e educação. Não têm legitimidade, mas já enviaram ao Congresso uma medida que compromete nesses setores não só o futuro de dois anos, o que já é um absurdo, mas de 20.
— Que medida?
A que limita as despesas em educação e saúde ao que foi gasto no ano anterior mais a inflação. O Brasil não é um país de população idosa. Pelo contrário: é de uma crescente população jovem. De modo que isso equivale a reduzir os gastos de educação per capita sistematicamente.
— Mas os mercados parecem ter se acalmado.
— Você acredita nisso? Eu acho que os mercados são bastante realistas, e até agora não mostraram nenhuma euforia. Este Governo tem três ministros que já caíram e algum outro engatilhado. E todos pelo mesmo motivo: a corrupção. E isso coloca o Governo em uma situação complicada. É um Governo que se diz de salvação nacional, mas, na realidade, é de salve-se quem puder?
— Vai conseguir convencer os senadores necessários para voltar? Acredita que irá voltar?
— Luto para voltar. É crucial para convencê-los. Para isso usamos o oxigênio do debate, para matar os parasitas da democracia. Devemos mostrar o que está em jogo aqui. Não é só o impeachment. É a história. A história está sendo registrada. O sistema político brasileiro está em colapso: o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está afastado do cargo. O procurador-geral pediu para prender o presidente do Senado, Renan Calheiros. Minha volta tem a ver com meu mandato, mas também com a reconstrução da democracia no Brasil. É preciso perguntar o que o povo quer. Não estou dizendo que, se voltar, vai haver uma consulta popular. Estou dizendo que, para que haja uma consulta popular, é preciso que eu volte. Porque o meu mandato é legítimo. E o dele não é.
— Por que não fez essa consulta antes?
— Não tinha sentido. Meu mandato era legítimo.
— Mas estava a caminho do impeachment, sua impopularidade era enorme e havia manifestações com milhares de pessoas contra seu Governo...
— Mas tinha 54 milhões de votos. Em qualquer país do mundo, o fato de ser impopular em um regime presidencialista não leva a novas eleições.
— O que vai fazer diferente caso volte ao poder?
— Não haverá mais acordos com essa coalizão (o PMDB de Michel Temer e de Eduardo Cunha e outros partidos de centro que votaram a favor do impeachment de Dilma). Isso acabou no país. Se voltar, tenho de pensar em como entregar o Brasil ao novo presidente eleito. Teremos que discutir se é possível governar com 35 partidos, se é possível governar sem fazer uma reforma política antes.
— E por que não a fez antes?
— Tentei em 2013. Mas não consegui. Não acredito que o Congresso que governa o Brasil agora aprove uma reforma política.

por Antonio Jimènez Barca

El país

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

DIGA NÃO!

BLOGS, SELOS E ARTISTAS CONTRA O GOLPE

 

Em 1992, quando fomos às ruas pra apear Collor do poder, fomos, como hoje, movimentados pela mesma revista Veja e pela mesma Rede Globo. A favor da nossa consciência, Collor cometeu o equívoco de ele mesmo se beneficiar do esquema de corrupção desenhado pelo seu tesoureiro Paulo César Farias. PC pagava contas pessoais do presidente e da primeira-dama com grana de propina. Uma CPI foi instaurada na Câmara e os deputados saíram com provas de que Collor, já na presidência, utilizava-se desse dinheiro para benefício próprio. Era o tal crime de responsabilidade que justificou seu impeachment: o presidente dolosamente e diretamente utilizava do seu cargo pra conseguir benefícios indevidos.

Piorou quando PC Farias e Collor forjaram documentos pra tentar provar que a grana usada pras despesas do casal mandatário vinha de um empréstimo do Uruguai. Virou falsificador.

Tirar Collor do poder foi pouco traumático pra democracia brasileira, ainda cheirando a talco de neném, na sua primeira eleição direta à presidência depois da acintosa ditadura militar que durou mais de vinte anos. Itamar Franco assumiu, arrumou um plano econômico que ajustou a moeda nacional e fez seu sucessor. Que se reelegeu. Então um novo partido venceu as eleições e elegeu um novo presidente, que também se reelegeu e ainda fez sua sucessora. Que dois anos atrás também se reelegeu.

Para então estarmos diante novamente de um processo de impeachment. Diferentemente de Collor, Dilma não tem nada contra. Nesse meio tempo, entre sucessores e reeleições, muitos escândalos de corrupção apareceram. Teve o da reeleição, Banestado/Lava Jato, privataria tucana, mensalão petista e mensalão tucano, petrolão/Lava Jato, HSBC, CARF, Panama Papers e nada, em nenhum deles, o nome de Dilma aparece.

A sua chapa está enrolada em tramoias envolvendo obras públicas e a Petrobras. Seu nome não aparece como beneficiária direta de um centavo sequer. Ao contrário, seus delatores, seus acusadores e seus opositores, grande parte deles, em especial os protagonistas (Eduardo Cunha, presidente da Câmara; Renan Calheiros, do Senado; Michel Temer, vice-presidente da República; Aécio Neves, líder da oposição etc.), estão todos enrolados, indiciados ou acusados. Pois é, “a gente somos corruptos”.

Na falta de um crime tão compreensível pra população como o de Collor, arrumaram um “crime fiscal” pra justificar o injustificável, o golpe, a destituição de uma presidente eleita pelo povo, democraticamente, legitimamente: as “pedaladas fiscais”, que a grande maioria talvez nem entenda ou queira entender.

Dificultando a compreensão do “crime”, entra a mídia pra inflar a ira da turba, pregando no partido da presidente a pecha de bandido, o que para a grande massa acaba sendo a mesma coisa. Ela não fez nada, mas as informações e a narrativa são para misturar tudo num balaio só. Ela virou uma bandida sem crime. Já está condenada antes mesmo de qualquer julgamento.

A chamam de ladra, de louca, de anta, de nomes impronunciáveis. Uma covardia. Enquanto não se provar nada contra ela, enquanto não tiver uma mísera prova de que ela é corrupta, o máximo que se pode dizer dela é que Dilma é incompetente, mas isso vai da visão de cada um. Um governo incompetente ou impopular se tira no voto, não por impeachment. Acontece que os derrotados de 2014 não souberam esperar e inventaram uma série de artimanhas para tirá-la do poder.

Primeiro, recontagem de votos. Deu em nada. Depois, os crimes vinculados à Lava-Jato. Até agora, nada do nome dela aparecer. Ainda existe a saída pelo Tribunal Superior Eleitoral, já que delação premiada de um empreiteiro acusa sua chapa de usar dinheiro de propina na eleição. Uma delação, nenhuma prova, por enquanto. É esperar.

Enquanto isso, arrumaram esse “crime fiscal” que ninguém entende e forçam a barra para que achem que é roubo. Não é. Nem crime é.

Não podemos ser a favor disso. O que vale em resumo desse texto é: impeachment com crime não é golpe; sem crime, é. O dela é golpe. Não há crime.

E há promessa de coisa pior: dessa turma de golpistas, grande parte investigada e suspeitada pela Lava-Jato, espera-se que as investigações sejam estancadas. Tirado o PT do poder, encerra-se tudo, não investiga-se mais ninguém, já era, todo mundo se salva, e ainda expulsa-se quem a mídia queria expulsar. Não é um processo contra corrupção, portanto. Se fosse, Dilma não estaria nessa situação, já que ela não é nem mesmo citada num escândalo em investigação.

Por incrível que pareça, doze anos depois, por falta de provas, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal dos crimes de peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva. Um inocente diante da Justiça. Ou um sortudo diante de uma polícia incompetente.

Não se pode dizer o mesmo agora. A Polícia Federal tem autonomia, investiga, prende gente graúda (senadores, empreiteiros), gente de grana. Mesmo assim, não chegou em nada que comprometesse Dilma.

A sanha de poder dos golpistas não pode encontrar eco em quem tem um pingo de bom senso. Músicos, jornalistas, políticos, empresários, centrais sindicais, estudantes, juristas, cineastas, atores, atrizes, escritores, rappers, tem muita gente contra esse processo. Nós aqui, entre blogues, sites e selos musicais e arrobas do Twitter também nos manifestamos contra o golpe. 

por Fernando Augusto Lopes

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quinta-feira, 14 de abril de 2016

A História explica: "é o fim da ilusão de que governo com pretensões sociais pode conviver com donos do dinheiro”

Foto por Dida Sampaio
Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.

Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.

— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.
— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.
— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas…
— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?
— Eu queria falara com a senhora sobre o Brasil de 2016.
— Brasil, Brasil…
— PT. Lula. Impeachment.
— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo…
— O que significou tudo aquilo?
— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.
— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?

— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.

Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivo e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.

Eu não queria ouvir a resposta

Verissimo

#

segunda-feira, 21 de março de 2016

House of Cards Tupiniquim ...

André de Oliveira, no El País: "Uma coisa chamou a atenção de Tales Ab’Saber nas últimas semanas: o fato de que seu livro Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica, publicado em 2010, já será relançado pela editora Hedra. A surpresa vem do fato de que apesar de passados apenas cinco anos, um contraponto histórico já se faz necessário: o Brasil passa por um momento tão turbulento que a sociedade perdeu um pouco da real dimensão do patamar em que o país se encontra.

O livro é uma forma de reencontrar o Brasil de 2010 e analisar as fraquezas e virtudes da persona política do ex-presidente que hoje é alvo da Operação Lava Jato e dos protestos que foram às ruas no domingo (13). Psicanalista, Ab’Saber é professor da Unifesp e procura estudar a política de perspectivas diferentes. Para ele, uma das questões fundamentais deixadas de lado por analistas é o papel da personalidade na vida política. Em entrevista ao EL PAÍS, ele usa essas ferramentas para analisar o atual momento e seus principais atores. 

Pergunta. O processo de impeachment esfriou no final do ano passado, mas o cenário mudou radicalmente nas últimas semanas. Como você avalia o momento? 

Resposta. É um momento em que, mais uma vez, tudo está em aberto. O ano terminou bem para o Governo, com vitórias no STF e defesa nas ruas, mas está claro que tudo mudou novamente. Agora o Governo está mais fraco do que nunca e existem todas as condições para que ele seja derrubado no Congresso. Agora, é preciso dizer que esse processo de impeachment é muito estranho. Ele se renova todos os dias. É só reparar que ninguém sabe ao certo o que se alega. É um processo temporal e artificial. É claro, ele tem apoio de setores da sociedade, mas está sendo tocado por outros interesses. Isso faz com que o Brasil viva abrindo uma fratura exposta a cada dia. O Governo não pode governar e esse é um dos caminhos pelo qual parte da oposição tem trabalhado pelo impeachment. Se você impede o Governo de governar, você trava tudo, enfraquece. É algo irresponsável e tem custado muito caro para o país. Vou pegar um exemplo simples: a oposição votou contra princípios que ela própria sustenta ao longo de 2015. Isso é o jogo perverso da política e deslegitima as posições da oposição, aprofunda a crise. Mas, como eu disse, a situação está muito delicada para o Governo. A última alternativa do Governo agora é tentar jogar e ganhar no jogo da política, mas nisso ele já provou que vai muito mal. 

P. Trazer o ex-presidente Lula para o ministério é uma forma de tentar jogar esse jogo de forma mais hábil? 

R. Certamente o Lula é muito mais hábil do que a Dilma, mas essa situação de ele ser ministro é muito excêntrica. Não há garantias que isso dê certo. Ele não concorda com o Governo dela em certos aspectos e tem feito um discurso de oposição ao Governo. Como vai ficar agora? É tudo muito clivado, mas é importante dizer que não há nada ilegal nisso. A presidenta tem direito de colocar o Ministro que quiser. Essa discussão e esse movimento de tentar impedir que ele assuma são ilegais. Essas pessoas e juízes estão querendo intervir no processo da política com leis que não existem. Eles podem criticar moralmente, ir para a rua, votar, mas não intervir nos direitos da presidência. O escândalo estratégico e furioso que a oposição produziu nas ruas com a posse do Lula, envolvendo a ação desses juízes, tem como único objetivo desestabilizar e deslegitimar a ação política do ex-presidente. Isso tudo foi feito para não deixar o Lula agir, para tirar a única força do Governo. 

P. Você falou da habilidade de Lula para a política e tem dois livros tratando das personalidades dele e da presidenta Dilma (Dilma Rousseff e o ódio político, também da editora Hedra). Como está analisando as ações deles nesse momento? 

R. O Lula é uma figura extremamente complexa. Ele foi descobrindo com o passar dos anos o poder da sua sedução natural, o poder do seu sistema de linguagem. O meu estudo é sobre as funções da personalidade nas ações políticas. Em uma democracia complexa como a nossa, isso conta muito. O caso de Lula e Dilma, por exemplo, são completamente opostos. A habilidade que ele tem em tecer acordos, em seduzir, em atrair forças populares é tudo que ela não tem. Foi depois do Mensalão, em que o PT sofreu um baque muito forte, que Lula se viu sozinho e assumiu, de vez, essa consciência de seus poderes carismáticos. Assim, o discurso que ele fez depois do depoimento que deu para a Polícia Federal foi extremamente calculado. Ali está o afeto, o brasileiro sensível e cordial que demanda ser compreendido pelo outro exatamente porque é capaz de compreendê-lo. É um discurso baseado em um jogo de sentidos muito complexo.

P. Você acredita que ele está sendo irresponsável ao fazer isso? Acirrando ainda mais os ânimos?

R. Não. Isso é a regra do jogo. São habilidades que ele pode usar. Há que se reconhecer também que até agora o Lula teve um senso muito preciso das instituições e da democracia. Em nenhum momento, por exemplo, ele sinalizou que tentaria um terceiro mandato. Há que se dar o crédito a ele. Ele foi pouco democrático ao lançar uma sucessora? Não. É do jogo.

P. E a personalidade da Dilma?

R. Como disse, é oposta. Ela tem imensa dificuldade em operar os outros e as forças que a cercam. Em ser clara. Em agregar forças. Nesse sentido ela é uma má política. E é nisso que a oposição bate. Ela deve ser afastada, porque ela é um problema para o Brasil. Só que isso é ilegítimo. Ela foi eleita. Agora deveriam suportar o tempo que a lei a faculta para governar.

P. Nesse momento de acirramento de ânimos, há quem fale em um processo de “venezuelização” do Brasil. Como você avalia a situação?

R. Antes de qualquer avaliação é importante dizer que a questão da ideologização é algo mundial atualmente. Vem dos setores à direita da sociedade e está acontecendo nos EUA, na Europa e no Brasil. Em diferentes chaves, claro, mas de forma semelhante. É um resultado de segundo tempo das manifestações do tipo occupy, que foram direcionadas ao sistema financeiro mundial. No momento, o que está acontecendo é que posições de direita e extrema-direita começam a ganhar força por causa das mesmas contradições dessa ordem econômica global. O problema dos imigrantes na Europa, por exemplo, facilita esse discurso de direita. Nos EUA, a figura é o Trump, que projeta uma dinâmica paranoica no país. O que se vê é que em todos esses lugares o caminho do meio da sociedade e da política tem dificuldade de responder à crise econômica mundial e perde espaço para discursos extremados.

P. E como o Brasil aparece aí? 

R. A crise de 1929 acabou gerando os fascismos das décadas seguintes. Não estou dizendo que há horizonte para algo semelhante agora, mas é fato que estão surgindo posições extremadas e autoritárias, inclusive dentro do Congresso. O que acontece agora aqui é que há alguns discursos contrários ao Governo. Um deles, mais autoritário, não foi capaz de compreender o sucesso capitalista dos 8 anos de Governo Lula. Não foi capaz de ver que as coisas não se resumiram a uma festa ideológica. Essas pessoas nunca entenderam que o processo brasileiro não foi sequer semelhante ao venezuelano, por exemplo. Por isso, há uma tentativa clara e uma voz delirantes na rua que tenta voltar a um discurso anterior ao desenvolvimento lulista, de que ele representa o atraso e um perigo. Isso não é verdade, não se confirmou historicamente. Aí a gente vê a resistência da ideologia. O processo histórico avançou, as coisas mudaram, mas a ideologia resiste. Essa é a parte que deixa o debate surdo, sugerir que o PT é comunista é uma alucinação. Parte da oposição à direita, contudo, tem se aproveitado disso. Tratar uma democracia complexa como a nossa em termos de Guerra Fria? Não tem cabimento. E é um problema porque impede que as pessoas entendam a situação real em que o Brasil se encontra.

P. Onde está o Brasil nesse momento?

R. Em termos macro institucionais, a grande novidade é a forte entrada em cena, algo revolucionária, do Judiciário no jogo político brasileiro. Existem duas avaliações sobre isso. Uma é que esse novo papel da Justiça está alinhado com a centro direita e que é um processo eleitoral. Outra é que esse processo é de autonomia e está estabelecendo um novo patamar e novos critérios de funcionamento da justiça brasileira. Eu sempre acreditei que a Operação Lava Jato estava indo em um caminho bom, porque colocou na cadeia algumas das maiores fortunas do país ajudando a quebrar o pacto Capital e Estado que sempre existiu. Contudo, a partir de quarta-feira com os grampos feitos e divulgados pela imprensa, ficou claro que o Moro, que até então tinha uma posição centrada na técnica e legitimidade do poder judiciário, fez ações claramente políticas. Ele ultrapassou limites de legalidade, segundo vários juristas. O juiz que vinha garantindo a estrutura legal e institucional, agora ultrapassou uma fronteira perigosa.

P. E qual é o perigo disso nesse momento?

R. Em primeiro lugar, vamos lembrar que o Brasil é aquele país em que o Maluf é condenado na França, mas não é condenado aqui. É fato que o judiciário nunca quis saber da corrupção, mas quando ele entra em cena, o choque é inevitável e a desorganização do sistema político também. Só que você não pode derrubar um Governo, uma presidenta, por cima de atos ilegais, dizendo apenas que o inimigo político cometeu ilegalidades. É preciso prová-las. Fora das provas, ficamos no plano da força. A função do juiz e das instituições é não permitir que isso aconteça. É regular uma medida legal, constituída e prévia que impeça que a força pura impere na política. Ao fazer o que fez, Moro ficou na fronteira de deslegitimar todo o seu processo. O que vai acontecer daqui para frente, só esperando as próximas semanas. O fato é que agora ele está se sentindo forte, porque tem apoio popular, mas até quando? Aécio também tinha e não tem mais, foi vaiado. Agora, eu digo que a Lava Jato tem sido interessante em muitos pontos, o principal é o de desmontar uma estrutura de corrupção arraigada no Brasil. No momento que ela vira partidário é que o problema. 

P. Na sua avaliação, a Operação Lava Jato tem uma base interessante para o Brasil? 

R. Considerando e acreditando que eles não estão aí apenas para jogar lenha na fogueira antigovernista, sim. Mas tem coisas que precisam ser questionadas. Além dos grampos, o caso do Lula no processo é estranho. Às vezes parece até pessoal. Eu não sei dizer como especialista o que se tem, de fato, contra ele. Mas a questão toda é qual é o papel desse ex-presidente no jogo de interesses do Estado. Isso está sob investigação e o juiz terá uma conclusão ao final. Contudo, eu fico com a impressão de que um apartamento no Guarujá e um Sítio em Atibaia é muito pouca coisa perto do que o processo de riqueza e práticas corruptas brasileiras tem gerado historicamente no Brasil. Essas duas propriedades são muito pequenas perto de fazendas e apartamentos em Paris, por exemplo. E eu posso dar um exemplo concreto. Há muito interesse em se saber como o Instituto Lula é sustentado, mas nenhum interesse em saber como se sustenta o Instituto Fernando Henrique Cardoso. O dinheiro que os criou vem do mesmo lugar. Apesar disso tudo, o que resta entender é que o PT está numa crise que eles próprios não realizaram. É uma crise que tem a ver com a tradição corrupta da política brasileira, com a qual o PT conviveu e não deu uma resposta.

P. Ao que você está se referindo?

R. O problema do PT não é a crise econômica, a desordem internacional ou sequer o fato de o partido ter participado do processo político brasileiro com os seus históricos e anteriores mecanismos de corrupção interna. O problema é ter feito parte disso e não ter politizado o problema, não ter buscado uma solução, não ter proposto reformas. Agora, eles acreditam que a resposta que eles não deram, quando era tempo, vão conseguir dar com anteparo da figura mítica e carismática do Lula. Acredito que esse tempo passou. O processo histórico vai engolir Lula e PT. Essa é a falência política do PT: não ter tirado dessa crise uma solução para a corrupção brasileira. Isso era o que se esperava. Agora, eles não conseguem responder esse enigma e vão pagar politicamente por isso. A grande instabilidade que está colocada é a própria fraqueza do campo da esquerda. A direita é simplesmente oportunista e transformou essa instabilidade em uma luta pelo poder.

Débora Melo: Com a proximidade da votação do pedido de impeachment na Câmara, a presidenta Dilma Rousseff negocia com a base as condições para evitar que aliados desembarquem do governo. Para o historiador Daniel Aarão Reis, que colaborou com a fundação do PT e hoje é crítico ao partido, a cláusula constitucional que permite o impeachment é “essencialmente antidemocrática”, mas a presidenta precisa esclarecer de que forma pretende continuar conduzindo o País. “A grande questão é a seguinte: Dilma quer se manter no poder para que, exatamente? Ela não está fazendo o tipo de política com a qual se comprometeu no segundo turno. Vai fazer agora?”, questiona.

Em entrevista a CartaCapital, o historiador defende que, diante de um cenário de perda de identidade política, uma “cura de oposição” faria bem ao PT. Professor do curso de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão Reis afirma que a corrupção está na essência do sistema político e só poderá ser combatida a partir de uma profunda reforma política. “Um mínimo de isenção nos leva a concluir que o nosso sistema político acoberta e incentiva a corrupção em escala industrial”, diz.

Leia a íntegra da entrevista, concedida por e-mail: 

CartaCapital: Na sua avaliação, a presidenta Dilma Rousseff tem condições de escapar do impeachment?
Daniel Aarão Reis: Em tese, sim, sobretudo acionando a capacidade de articulação do Lula. Embora desgastado, o homem tem notórias habilidades. Outro aspecto favorável é a divisão do PMDB, com a rivalidade entre Renan e Temer. Recorde-se que, mesmo que a Câmara considere admissível o impeachment, será necessário ter maioria no Senado. Nesta altura, a definição do PMDB parece decisiva. Se rachar, a Dilma mantém chances. Se se colocar como um bloco, as chances do impeachment crescem bastante. 

CC: Para escapar do afastamento, a presidenta precisa de apoio no Congresso. A forma como o PT conseguiu esse apoio ao longo dos anos foi um dos fatores que nos trouxe à atual condição. Como, então, buscar esse apoio?
DAR: Essa cláusula constitucional de “impedir” um presidente eleito pelo povo por meio do Congresso é essencialmente antidemocrática. A instituição democrática para esses casos é o “recall”, ou seja, você convoca novamente o eleitorado para decidir. Acontece que a cláusula do impeachment pelo Congresso foi usada – e abusada – pelo PT anteriormente. Assim, o PT e o governo estão fragilizados para fazer a defesa da ilegalidade do impeachment.

O PT construiu uma tradição de maiorias obtidas por cargos e favores, quando não, através de meios heterodoxos. Numa situação política crítica como a que vivemos, essas benesses vão perdendo a capacidade de atração, inclusive porque os sucessores de Dilma podem oferecer – e já estão oferecendo – benesses tão ou mais tentadoras.

Já estão transbordando nos jornais as articulações entre Aécio, Serra, Temer e companhia. Dividem cargos e programam um futuro pós-Dilma. Pode ser que tudo volte atrás, pode ser que se aprofunde. Vai depender muito de como agirão os aliados do governo e de como se comportarão as pessoas nas ruas. Com o PMDB não há alianças sólidas. As alianças com o PMDB são "infinitas enquanto duram", enquanto duram os postos e os cargos. São sempre alianças com o governo... 

CC: O governo está abalado, entre outras coisas, pela Operação Lava Jato. Ao nomear para a Casa Civil o ex-presidente Lula, que está no foco das investigações, a presidenta não traz a crise ainda mais para o centro do governo?
DAR: Penso que foi muito infeliz a nomeação do Lula. Ele poderia acionar sua capacidade de articulação mesmo sem ser ministro. No limite, se fosse preso, porque a hipótese não podia mesmo ser descartada, sairia como um mártir, tal a arbitrariedade, nas condições atuais, de uma decisão como essa. Dilma e Lula, e os demais dirigentes do PT, às vezes parecem sem a serenidade e o sangue frio que exige a situação crítica atual. As gravações os mostram muito nervosos e tendo comportamentos erráticos. Não são atitudes adequadas para enfrentar os perigos que enfrentam.


CC: Caso Dilma reaja e sobreviva, como o senhor enxerga o futuro do governo? O que a presidenta pode propor, o que ela pode salvar?
DAR: Dilma enfraqueceu-se muito com a guinada à direita que deu logo depois de eleita. Criticou contundentemente os adversários como candidatos de “banqueiros”. Ora, basta ver a sua prestação de contas entregue ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para ver como os bancos e as empreiteiras contribuíram para sua campanha. Por outro lado, escolheu como ministro da Fazenda um grande banqueiro – que acabou não aceitando, indicando o triste Joaquim Levy...

As políticas adotadas por ela configuram um estelionato eleitoral. Trata-se de algo que já vai virando uma tradição na República pós-ditadura: Sarney, Collor e FHC o praticaram alegremente. Mas Dilma, ao reiterar o comportamento, fragilizou-se muito perante suas bases sociais e eleitorais. Imaginou que isso “sossegaria” as oposições. Não surtiu efeito. Assim, ela não conseguiu apoio das elites e perdeu suas bases. Ficou numa situação muito complicada.

Muitos manifestantes contra o impeachment estão deixando claro que não são pró-Dilma, mas é uma posição também difícil de ser defendida. A grande questão é a seguinte: Dilma quer se manter no poder para que, exatamente? Para fazer que tipo de política? Ela não está fazendo o tipo de política com a qual se comprometeu no segundo turno. Vai fazer agora? Se esse é o caso, precisaria esclarecer. Mas ela manteria o apoio de Sarney e de Renan? É um mato sem cachorro... 

CC: Em um eventual impeachment, qual seria o papel do PT como oposição? Ou o PT não seria oposição?
DAR: Bem, se o impeachment for aprovado, não parece razoável imaginar o PT apoiando um governo fruto do impeachment. Teria que ir para a oposição, certamente. E isso poderia fazer bem ao partido. Tendo-se lambuzado no poder, como disse o Jacques Wagner, uma “cura de oposição” faria bem ao PT.
Eu diria que, para se reinventar, o PT precisa sair do poder. Como já aconteceu com muitos partidos populares na história, e mesmo na história do Brasil, participar do poder apenas para gerenciar a ordem dominante é receita certa para perder a identidade política. E o que é mais importante para um partido político do que manter sua identidade? 

CC: Ainda pensando em um eventual cenário de impeachment, há risco de radicalização do PT, caso o partido e a militância acreditem que foram afastados do governo por um processo não legítimo?
DAR: A rigor, a radicalização está aí, já instalada. Como disse o (escritor Luis Fernando) Veríssimo, estamos esperando o primeiro morto. As direitas parecem-me, aliás, bem mais radicalizadas e agressivas do que as esquerdas, insultando e batendo em pessoas nas ruas, nos restaurantes e até em hospitais. O triste é que essa radicalização não se dá em torno de plataformas programáticas, mas em torno da questão da corrupção.

Ora, um mínimo de isenção nos leva a concluir que o nosso sistema político acoberta e incentiva a corrupção em escala industrial. O PT, neste caso, foi o último a aderir, embora não lhe tenha faltado gula. A luta pela corrupção deve continuar, evidentemente. Mas o nó da questão é a reforma política, em profundidade, do atual sistema. Enquanto esse sistema estiver aí, teremos corrupção em grande escala. 

CC: Que previsão o senhor faz para o futuro da esquerda brasileira? Independentemente do desfecho, como a herança do PT será absorvida?
DAR: O PT, com suas políticas de conciliação, foi responsável por alguns avanços notáveis, enquanto durou a conjuntura de grande prosperidade. A inclusão social e uma série de políticas de defesa e “empoderamento” das camadas populares, das maiorias negras e pardas e dos mais pobres tiveram resultados apreciáveis.

Ao mesmo tempo, contudo, o PT estabeleceu relações carnais com as grandes empresas, os bancos e as empreiteiras, e isso representou uma perda muito grande para as esquerdas brasileiras, em geral, porque o PT, inegavelmente, tornou-se o maior e o mais representativo partido das esquerdas brasileiras. Resta às forças alternativas, inclusive àquelas que ainda estão no interior do PT, formular plataformas de reforma política. Crises podem enfraquecer e até serem fatais. Mas podem ser também “janelas de oportunidade”. A ver se as esquerdas alternativas estarão à altura dos grandes desafios que a crise tem apresentado. 

Vladimir Safatle: "O juiz Sérgio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.

A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.

Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.

Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.

Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.

Lembremos que "obstrução de Justiça" é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser "obstrução" se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da "Justiça".

A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.

Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.

A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.

Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há "vazamentos" contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.

Não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção - mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.

O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.

Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.

Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.

O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca.


BBC Brasil: Ex-ministro da Educação da presidente Dilma Rousseff, Renato Janine Ribeiro acredita que o ex-presidente Lula seria o único com capacidade de articulação para promover uma conciliação e destravar a crise política, mas avalia que mesmo se ele conseguisse, não chegaria como favorito nas eleições de 2018. Para ele, a ferida do Partido dos Trabalhadores depois dessa crise é muito grande e o partido não conseguirá se recuperar para o pleito presidencial.

Mesmo com a nomeação aclamada por especialistas, Janine foi demitido depois de cinco meses no cargo para "acomodar" a saída de Aloizio Mercadante da Casa Civil. Ele diz que nenhum dos lados conseguirá governar por loteamento de cargos - nem a presidente Dilma Rousseff, nem o vice Michel Temer, caso assuma a presidência.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - Qual a sua avaliação do momento atual para o governo – dá para pensar na continuidade do mandato da presidente Dilma Rousseff?
Renato Janine Ribeiro - Imprevisível agora. Todos os sinais das últimas semanas caminham na direção do fim do mandato dela, mas ao mesmo tempo, há fatores que vão na outra direção, está tudo muito oscilante de um ano e pouco para cá. No fim do ano passado parecia que o impeachment estava afastado, que a oposição havia cometido um enorme erro se associando à extrema direita, e que o governo tinha conseguido um êxito ao colar a imagem do Eduardo Cunha nas iniciativas do ex-candidato Aécio Neves. De lá para cá uma série de medidas mudou essa percepção, ações no Supremo, decisões judiciais, a má repercussão da indicação do ex-presidente Lula como ministro. Mas continua sendo uma contagem do olho eletrônico para saber o que vai acontecer. O fato é que se ela conseguir evitar o impeachment, não resolverá os problemas do Brasil e se o impeachment passar, também não. As questões estão excessivamente colocadas no protagonismo político quando o grande problema que temos hoje é redefinir uma política econômica, que é uma demanda especialmente da oposição, preservando os programas sociais e até os ampliando, que é o que defende o PT. E juntar essas duas metas está extremamente difícil, está um certo diálogo de surdos agora.

BBC Brasil - Para tentar barrar o impeachment o governo vem tentando apoios individuais, promovendo uma espécie de leilão, varejão dos cargos. Pode ser que isso realmente consiga reunir os votos necessários para evitar o processo, mas é possível pensar num governo pós essas articulações, com essa nova base? Como governar pós esse "saldão"?
Janine - Minha experiência de acompanhar política há muito tempo mostra que nunca o resultado é tão ruim quanto o que foi propalado. Eu não acredito que o varejão vai ser como estão dizendo. Mas já houve casos assim delicados, como a retirada do ministro Artur Chioro da Saúde para entregar a pasta a um representante do PMDB que não tem o mesmo nível e que não agrega votos para a presidente. Fala-se de entregar a Saúde e a Educação para um desses menores - pode ser que haja troca desse tipo, e pode ser que isso faça diferença nos votos. Mas é evidente que, para ter um governo, vai ser necessário que o lado vitorioso veja bem como faz com essas concessões – o governo vem fazendo isso e a oposição faz igual – quando a oposição apoia o Cunha, ou quem o apoia, se abraça em gente igual, ou pior. Se Michel Temer assumir a presidência vai conseguir governar com um governo loteado pelo PMDB e outros partidos? Se Dilma continuar, vai governar com o ministério loteado por partidos desse nível? Nenhum dos lados terá condições de governar o Brasil pelo loteamento. Por outro lado, esses partidos menores, essas forças políticas pequenas conseguiram espaço porque o Executivo e o Legislativo se enfraqueceram, nunca os vi tão fracos, e isso abriu esse tipo de espaço, para preencher esse vazio. Tudo isso está ligado ao esvaziamento de lideranças.

BBC Brasil - O jornal Folha de SP neste fim de semana pediu a renúncia da presidente, e se fala também em novas eleições. Ela mesma já disse que “não tem cara de quem vai renunciar”. Conhecendo a presidente como você conhece, se pode imaginar um anúncio de renúncia por parte dela, ou a convocação de novas eleições?
Janine - Uma renúncia eu acho muito difícil, uma pessoa que já passou pelo o que ela passou, que tem frieza e tranquilidade mesmo em circunstâncias muito difíceis, acho muito improvável ela ceder a isso até porque o jogo é colocado na base do tudo ou nada. É bom notar que o editorial da Folha significa, antes de qualquer coisa, que há reconhecimento, por parte deste jornal, de que não há provas suficientes para o impeachment, e que isso poderia gerar problemas sociais muito maiores do que os de agora, então não é um ataque contra a presidente apenas. Penso que seria muito importante introduzir novos atores nessa discussão – vejo o empresariado e os movimentos sociais muito fracos na discussão que está sendo protagonizada nesse momento por parlamentares, alguns com representatividade escassa. Um dos aspectos terríveis dessa crise, para além do fato de que a própria presidente não exerce uma liderança respeitada pela maior parte da população brasileira, é que o mesmo vale para o Congresso. Então, é preciso fazer novas injeções de representatividade aí. Mas não acredito que nesse momento novas eleições seriam benéficas, no clima de raiva e ódio que o Brasil está hoje é possível que acirrasse as tensões mais do que poderia colaborar para construir um futuro para o país. Muito mais importante é dialogar, ver como se sai desse impasse. O que eu estou vendo nos atores políticos é que eles parecem preferir perder a negociar.

BBC Brasil - Que avaliação o senhor faz do impacto disso tudo no PT e na esquerda brasileira?
Janine - A esquerda não fez um balanço adequado do que foi o governo Lula – para boa parte foi de grande sucesso, mas os acordos dele com o empresariado e com o capital são vistos como uma mancha, como algo que poderia e deveria não ter sido feito. Muita gente que pensa em refazer a esquerda, pensa numa esquerda sem o compromisso com o capital, quando na verdade foram esses acordos que permitiram a ele ter ganhos sociais. A esquerda vai fazer o que quando sair do governo? Vai retomar política de reinvindicações e solicitações sem dizer de onde virá esse dinheiro? Ou vai tentar outra política, que no fundo seria uma social democracia? O PT teria que fazer um bom reexame da sua trajetória, ver para quem ele é um partido – para os trabalhadores, políticos, classe média? E escolher mais de um desses grupos. E piora o fato de que algumas lideranças do PT, totalmente contra a vontade do Lula e da Dilma, desenvolveram um clima de ódio à classe média. Então a classe média, sobretudo em São Paulo, tem uma hostilidade até selvagem ao PT.

BBC Brasil - Há uma crítica grande da postura da presidente de colocar o Lula como ministro-chefe da Casa Civil de que ela teria feito isso para tirá-lo das investigações em Curitiba, concedendo ao ex-presidente foro privilegiado. Há quem diga que a decisão foi tomada por que ele teria uma grande capacidade de articulação política. Pegou mal para o governo? Tem uma questão ética aí?
Janine - Tem um fato que eu conheço, que é o seguinte: em agosto do ano passado o nome dele já era cogitado para um cargo de ministro importante. Isso é um fato. Então não vejo um problema ético já que era uma questão antiga e que não envolvia blindá-lo contra um juiz. O Lula tem uma posição única. Ele é uma pessoa que pode chegar aos trabalhadores e aos movimentos sociais e convencê-los de que certos sacrifícios são necessários. A economia está fraca, está definhando. O Lula tem essa possibilidade, e eles confiariam no Lula como não confiariam num líder de direita que dissesse a mesma coisa. E dentro do PT é o único que conquistou credibilidade junto ao empresariado, que era maior antes do segundo mandato Dilma, mas quanto dessa credibilidade foi desgastada é difícil mensurar. Mas ele é o único que poderia promover uma política de diálogo, de conciliação entre as duas forças principais da sociedade que são capital e trabalho. Isso seria mais profundo do que articulação dos partidos. Mas mesmo se ele tiver sucesso em fazer isso, não acredito que conseguiria reverter a coisa a ponto de ser candidato favorito em 2018, creio que a ferida no PT foi muito grande, não vejo o partido com chances de se recuperar a ponto disso.

BBC Brasil - Você fala em novos atores - seria o momento de aparecer uma nova liderança dessa crise?
Janine - Se você olhar grandes movimentações populares, em 92, época do impeachment do Collor, somente uma liderança emergiu, o então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e agora senador, Lindberg Farias – único nome que veio de 92. Em 2013, toda movimentação das ruas não gerou ninguém. Ano passado e agora você não tem nenhum nome viável, você tem criaturas que estão se construindo pelo ódio e claro que não se pode pensar no Bolsonaro como uma liderança nova, promissora de futuro, que poderia unificar o país. Além disso, temos partidos que não se empenharam em construir novas lideranças. Pense que o PT tem como ideal de candidato em 2018 o homem que o fundou – são quase 40 anos a mesma pessoa. O PSDB oscila em três nomes há pelo menos dez anos. A pessoa que eu tinha esperança em uma nova liderança, que seria a Marina (Silva) não consegue comunicar aquilo que é o texto essencial dela: a defesa do verde, da sustentabilidade, que agrada o meio empresarial, mas isso não é o tema das campanhas dela. Não foi em 2014, em que se focou mais no Banco Central, e não foi em 2013. A única liderança nova que eu vejo hoje no Brasil é o Fernando Haddad, independentemente de gostarem ou não do partido dele, acho que teria capacidade de ser um novo líder promissor. Mas para renovação mesmo, não consigo ver no PT, PSDB ou na Rede esse horizonte.

BBC Brasil - E no PMDB? Eles se colocam quase como uma alternativa, não?
Janine - É um partido complicado, porque funciona nas coxias, garante governabilidade porque atua apoiando quem quer que esteja no governo.

BBC Brasil - Que desfecho você acredita que pode ser menos prejudicial para a crise? O governo está demonstrando uma incapacidade de governar por uma série de razões que parece irreversível...
Janine - Está difícil porque veja: a economia caiu. Minha experiência como ministro foi numa fase que não havia dinheiro, como hoje em dia não há. E a demanda era quase toda era dinheiro, e a impressão que me dava é que as pessoas estavam desinformadas porque não acreditavam que não havia dinheiro. Minha impressão é que o Brasil demorou muito a acreditar que estava numa crise. No ministério, a minha experiência é que somente em setembro de 2015 é que começou a cair uma ficha que estava na mídia desde janeiro e isso exigiu revisar uma série de investimentos e programas. E isso não é fácil de fazer quando você tem setores que foram acostumados a crescer, e com recursos, nos últimos anos e quando você diz que esse dinheiro não virá, fica muito difícil. Há dificuldade do Brasil acreditar que está numa crise e que sacrifícios serão necessários.

BBC Brasil - Mas o governo também poderia ter alertado sobre a crise antes, tem uma parcela de responsabilidade aí, não?
Janine - Sim. As eleições foram em outubro, e somente em setembro do ano seguinte uma parte significativa da sociedade se deu conta do problema. É claro que o fato do governo não ter anunciado a situação econômica antes das eleições aumentou o problema, mas governo nenhum em lugar nenhum do mundo entra numa eleição falando: estamos em crise. Eu acho que a base de tudo é a crise econômica, se estivéssemos indo de vento em popa, a queixa seria menor. Agora, isso somado a uma crise de liderança política pronunciada, se torna explosivo. 

Matheus Pichonelli: "Até poucos dias, o afastamento de Dilma Rousseff em relação ao ex-presidente Lula era visto como um caminho inevitável para a salvação de ambos.

Ela tiraria do Planalto as suspeitas que recaíam sobre o PT e o antecessor e ele ganharia tempo para se reaproximar das bases sociais, se afastar das medidas impopulares encaminhadas pelo Planalto e preparar o terreno para 2018.

A estratégia virou água quando o ex-presidente foi levado a força para prestar depoimento à Polícia Federal. Naquele momento o que parecia paranoia se tornou em perigo real: o petista estava na mira do juiz Sergio Moro. Nunca antes na história desse país um ex-presidente ficara tão perto de ter a prisão decretada.

Dilma não teve outra opção se não oferecer abrigo ao padrinho em seu governo. A eventual prisão dele, àquela altura, seria a morte de um governo na UTI.

A decisão insuflou as ruas e desidratou o que havia de crédito do governo, cada vez mais associado como uma ação entre amigos.

Para quem aguardava o desfecho da crise para analisar um cenário mínimo para investimento, por exemplo, a saída mais rápida para a crise passou a ser vista como a melhor das piores opções. E a saída mais rápida para a crise, segundo esta visão, seria o impeachment da presidenta.

Essa tese ganhou adeptos até mesmo entre os que até pouco tempo defendia mudanças na política econômica, torcia para a derrota do projeto petista em 2014, mas evitava fazer coro ao impeachment por considera-lo um processo traumático e prejudicial aos negócios.

Mesmo para quem está acostumado a dirigir na neblina, ficou praticamente inviável fazer tocar qualquer projeto de curto e médio prazo quando a chefia da articulação política do governo muda a cada instante a cada decisão judicial. É o que acontece quando a política tenta se meter na Justiça e a Justiça tenta se meter na política.

Sabe aquela história de isenção, autonomia para investigar e independência dos três Poderes? Ficou difícil ser defendida com o vazamento dos grampos sobre as figuras-chave da crise. Ao menos neste momento, tudo são passos suspeitos até segunda ordem – inclusive quem grava, quem repassa, quem divulga.

O retrato do estrago pode ser observado na pesquisa Datafolha de domingo, dia 20. O instituto mostrou que praticamente sete em cada dez brasileiros, atordoados diante do noticiário também atordoado, já defendem o impeachment da presidenta. Quase metade (46%) acredita que ela será afastada.

A impaciência pode ser explicada pela percepção de que este é o governo mais corrupto da história recente, opinião compartilhada por 36% dos eleitores – ante 23% citações ao governo Lula e 20%, do governo Collor.

Para 16% dos entrevistados, o vice-presidente Michel Temer faria um governo ótimo ou bom – 6% a mais dos que aprovam a gestão Dilma. É quase nada, mas o nó não está aí. Apenas 22% acham que o governo será pior do que o atual, o que dá fôlego aos que têm a faca, o queijo, a opinião pública e a maior bancada na mão para destituir a presidenta via Congresso.

Os sinais não têm sido favoráveis para outras saídas. Quem até ontem defendia novas eleições já andava assustado com alguns sinais das ruas de que ninguém está a salvo da fúria observada no último domingo. Ficou ainda mais ao saber que a grande favorita em uma eventual disputa é a ex-senadora Marina Silva (Rede). Não porque ela se tornou a opção natural dos que a tiraram do segundo turno em 2014, mas porque foi a única opção política que se salvou do naufrágio. Ficou praticamente onde estava, e a essa altura do campeonato isso não é pouco.

Os demais, já suficientemente atolados na Lava Jato ou assustados com o que ainda deve vir à tona, correm para um abraço sincero e desinteressado enquanto o governo se enrola para explicar seu plano para promover mudanças na política econômica e na Polícia Federal. Sabem do risco de serem moídos em uma eventual nova eleição.

Nessa tríade entre PT e PSDB em pontas distintas e um PMDB acuado leiloando apoio a quem dá mais, os dois últimos têm muito mais motivos para se aproximarem do que os primeiros.

Para isso é preciso convencer o mercado do que estão dispostos a fazer para escapar do naufrágio.

“A doença que se manifesta na crise é em parte a mesma que a Java Jato procura curar, não dá para separar uma da outra. Tem a ver com um desenho de Estado e economia cheia de incentivos perversos, com uma cultura complicada. A Lava Jato precisa ir até o fim, não se pode abrir mão disso”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo, o economista Armínio Fraga, ex-futuro ministro da Fazenda de Aécio Neves.

Para bom entendedor, uma página inteira e chamada de capa bastam. Antes de vir a público, Fraga se reunia com o ministro do STF Gilmar Mendes e o senador tucano José Serra em um restaurante em Brasília.

Quando o mercado, a política e a Justiça sentam-se à mesa para falar do futuro, podemos desconfiar que não são apenas os incentivos perversos que estão em xeque, mas o desenho do Estado, já então um empecilho para eventuais planos de expansão.

Desde 2014 era este o sinal do mercado, que manifestou como pôde o seu descontentamento com a reeleição de uma presidenta considerada intervencionista demais. Dilma se segurou até onde deu nos grupos que ainda dependiam dessa intervenção. Parte deles hoje está na cadeia, e a briga de cachorro grande em torno do papel do Estado ganhou um outro capítulo, muito mais favorável aos que defendem sua desregulação.

Dilma tentou, em vão, sinalizar mudanças de rumo na economia. Não agradou nem a gregos nem a troianos e permitiu que seu vice emergisse como o candidato ideal ao serviço: “Querem o desmonte? Nós temos a ponte”.

Vai ver é por isso que se fala tanto dos desvios éticos, morais e republicanos de um lado (a essa altura inegáveis), mas se aceita o plano de fuga de suspeitos de calibre similar. Eles são a virada de página que tanto se quer. Na política? Pergunte a James Carville, assessor da campanha de Bill Clinton: “É a economia, estúpido”.


Mino Carta: Ensaia-se um novo, inédito modelo de golpe de Estado e os impávidos inovadores mostram a cara. De Sergio Moro e Gilmar Mendes a José Serra e Fernando Henrique Cardoso. Da Globo, jornalões e revistões a Eduardo Cunha. Da facção peemedebista em busca da rasteira mais eficaz nos aliados a risco ao vice-presidente Michel Temer, que já conta as favas e monta o futuro governo.

O golpe de Estado não é incomum na história brasileira. De um golpe nasceu a República. Uns não passaram do ensaio, outros deram certo. Depois do suicídio de Getúlio Vargas, houve duas tentativas fracassadas antes de 1964, e por este pagamos até hoje. A rigor, houve golpe inclusive na posse de José Sarney, o vice que foi para o trono antes que o falecido titular o ocupasse. No caso, pode-se falar em usurpação.

A origem é sempre a mesma, a casa-grande ainda de pé, o nosso establishment medieval, exemplar único no mundo contemporâneo que se apresenta como civilizado e democrático. Não cabe rotular os mandantes à luz das ideologias tradicionais, dizê-los de direita, conservadores, reacionários não exprime sua autêntica natureza. Agem como se fossem investidos pelo direito divino, embora se dignem a formular elevadas motivações para justificar sua prepotência, até anteontem amparada na convocação dos militares para executar o serviço sujo. Outrora chamavam os jagunços. O tanque, contudo, é mais moderno e impõe maior respeito.

O golpe de 64 foi desfechado para salvar a democracia e resolver a crise econômica. Agora um golpe judicial-policial-midiático sem tanques na rua arvora-se a salvar o País da praga petista e, como então, resolver a crise econômica. Trata-se de eliminar o estorvo eleitoral para atender à pesquisa de opinião que aponta o desfavor popular em relação ao governo, e talvez fosse do interesse do mundo curvar-se diante de mais uma fórmula criada pela genialidade brasileira. Com isso, igual a 64, vai a pique é a democracia. Nas barbas da lei, derruba-se Dilma, prende-se Lula e o PT soçobra natural e automaticamente.

Em lugar dos soldados, entram em cena agentes da polícia. Uma Justiça politizada e um Legislativo guiado na sagrada missão do impeachment por um notório corrupto acuam o Executivo ao sabor de uma enxurrada de acusações a serem provadas, veiculadas com o estardalhaço de declarações de guerra pela mídia do pensamento único. Em benefício da trama, de Curitiba um juiz de primeira instância cuida de ameaçar de prisão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao alegar razões absolutamente inconsistentes.

Neste caldo de cultura move-se a urdidura golpista, amparada em pesquisas destinadas a demonstrar a imaturidade de uma classe média (média até hoje não entendo por quê) ignorante, vulgar e arrogante, e de quantos, sonhadores de ascensão social, acreditam em uma encenação midiática nutrida de invencionices e mentiras, empenhada em transformar suposições em verdade factual. Como sempre, a casa-grande aposta na resignação da senzala.

As manifestações da sexta 18 a favor do governo e de Lula dizem, porém, da presença de um contingente conspícuo de cidadãos de olhos abertos e fé intacta. O ex-presidente, que compareceu à passeata paulistana, teve bons motivos para se comover “com o carinho do povo”, como ele próprio diz ao acentuar a presença preponderante dos jovens que nele enxergam o líder.

Diante da inoperância das instituições e da ausência de Estado de Direito, é especialmente difícil hierarquizar os atentados cometidos impunemente contra a razão e contra a lei. A lista é infinda. Afundo destemidamente a ponta dos dedos neste autêntico mar de lama, a expressão me agrada ao ser empregada ao contrário do que costuma se dar. Pinço com o devido cuidado o ministro Gilmar Mendes, com quem José Serra se reúne na sincera busca de afinidades, permito-me imaginar. É do conhecimento de quem respeita a lei, e até do mundo mineral, que Mendes teria de se declarar impedido para julgar o pedido de habeas corpus de seu grande desafeto Luiz Inácio Lula da Silva.

Assim fez o ministro Luiz Edson Fachin, de bom relacionamento com o ex-presidente, ciente do seu papel de magistrado. Sobrou o julgamento para a ministra Rosa Weber, a qual, poderia ter-se declarado impedida por já ter trabalhado com Sergio Moro. Graças a outro ministro a agir corretamente, Teori Zavascki, Moro não está habilitado a realizar seu velho sonho de prender Lula antes da decisão final do colegiado do STF.

Do juiz curitibano tudo é possível esperar, e já fez largamente das suas. Não é acaso que Sergio Moro e os promotores Carlos Fernando dos Santos Lima e Deltan Dallagnol, aquele que prega do púlpito da igreja para convocar à luta os paroquianos, ostentem ter-se formado nos Estados Unidos, onde se especializaram em lavagem de dinheiro à sombra do Departamento de Estado, com a possível contribuição da CIA. De raspão: aos EUA, tão presentes por trás do golpe de 64, não deve interessar um governo disposto a fortalecer o grupo dos BRICS. O juiz Moro se diz apolítico, nem por isso deixa de discursar em tertúlias organizadas por João Doria, candidato de Geraldo Alckmin à Prefeitura de São Paulo, e na Fiesp, envolvida declaradamente na operação golpista sob a liderança de Paulo Skaf.

Causa espanto, muito mais que surpresa, a esmerada sintonia dos lances da manobra. A afinação impecável ao longo da fase do pré-golpe exigiu algo mais que o automatismo dos sentimentos e dos propósitos comuns, de força inegável, mas insuficiente. Os ensaístas do golpe agora conspiram às claras, ninguém se engane, entretanto, há tempo agem na calada da noite e nas pregas obscuras do dia.

Somente agora o ex-ministro da Justiça e atual advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, cai na real para perceber o alcance do complô desencadeado pela Lava Jato, a partir de um escândalo verdadeiro, do qual o envolvimento petista representa apenas o derradeiro capítulo. A corrupção na estatal começa com o presidente nomeado pelo ditador Ernesto Geisel, um certo Shigeaki Ueki, disposto a cobrar pedágio sobre cada barril importado ou produzido, e prossegue implacavelmente desde então. De todo modo, na qualidade de maior bandalheira da história do Brasil, nada supera a privatização das Comunicações, que aliás funcionam mal, como tantas coisas mais nas nossas tristes latitudes.

Nesta moldura, figuras como José Serra e Fernando Henrique Cardoso são típicas de uma categoria movida pela ambição desmedida, a justificar desfaçatez e oportunismo. Disseram-se, em algum dia remoto, de esquerda, de fato não acreditam em coisa alguma, a não ser sua vontade de poder. No caso de Serra, o Brasil não o elegeu, foi ele quem elegeu o Brasil, e desta vez vislumbra a si mesmo chamado pelo destino a seguir pelo mesmo caminho percorrido por Fernando Henrique após a queda de Collor.

É tradição tucana bandear-se sempre. Não fosse Mário Covas, FHC aceitaria ser chanceler de Collor. Deteve-o o então futuro governador de São Paulo a partir de 1995, ao se declarar pronto a abandonar o PSDB, partido de fancaria desde quando chegou ao poder.

Nas campanhas contra o PT, em 2002, 2006, 2010, 2014, o PSDB assumiu em definitivo o papel de partido da direita, e a mais reacionária possível. Gilmar Mendes, com sua imponente presença, vem do tempo tucano, e não me consta que então tivesse a intenção, por mais vaga, de combater a corrupção, tampouco depois, em época petista, a de desenterrar o passado. Nesta ribalta, Serra disputa o ponto melhor iluminado, e tudo fará para alcançá-lo, escravo da sua obsessão.

E eis quem aparece de repente ao lado do senador? Arminio Fraga, com sua expressão de inquisidor espanhol. Ele me lembra Luiz Carlos Mendonça de Barros, hoje riquíssimo senhor de exposição opaca, ou André Lara Resende, que leva de avião cavalos de montaria para a sua quinta em Portugal, ou para Londres, onde se recomenda cavalgar no Hyde Park. Cavalheiros deste porte e suas façanhas pregressas porventura incomodam o ministro Gilmar Mendes e o juiz Sergio Moro?

Magistrados, policiais, políticos, portam-se como se o novo modelo de golpe estivesse na iminência de atingir o alvo. Quem supõe que seja este o antídoto da crise, engana-se tristemente. Se inédito seria o golpe, inédito seria o dia seguinte. De confusão, de balbúrdia, de caos, com duração por tempo indeterminado. Desejáveis para o cidadão consciente a frustração dos golpistas e o respeito da lei.

MARCELO ZERO: Na ópera-bufa em que se transformou o processo de golpe contra Dilma Rousseff, há uma fauna bastante diversificada: procuradores sem um mínimo de isenção, juízes que se colocam acima da lei, mídia que mente, distorce e divulga grampos ilegais, políticos sujos gritando contra a corrupção e numerosa matilha fascistoide de adoradores do ódio e das ditaduras. Tudo isso conduzido pelo maestro das partituras hondurenhas e das contas suíças.

Falta, contudo, o personagem principal: o crime.

Com efeito, a Constituição, em seus artigos 85 e 86, determina que o Presidente da República só pode ser afastado após comprovação de crime de responsabilidade. Portanto, a opera bufa do impeachment contra Dilma só poderia ser encenada com o crime de responsabilidade como personagem principal.

Mas, cadê o crime? Será ele invisível? Estará escondido nas sombrias coxias da Presidência da Câmara?

Parece que muitos consideram esse mandamento constitucional mero detalhe. Com efeito, o que se vê no Congresso Nacional e nas ruas são argumentos meramente políticos.

“O Brasil não aguenta mais a crise”. “Dilma tem de se afastar para que o Brasil volte a crescer”. “As ruas exigem o impeachment”. “A presidenta não tem popularidade e credibilidade”, etc. Todos esses “argumentos” seriam até aceitáveis no parlamentarismo, regime no qual a autoridade do chefe de governo deriva do Parlamento. Nesses regimes, é de fato legítimo e legal que o chefe de governo seja afastado devido a crises políticas ou econômicas, mediante mero voto ou moção de desconfiança. No regime presidencialista não. Nesse regime, a autoridade do chefe de governo deriva diretamente da vontade popular expressa nas urnas. Ele é titular de um dos poderes da República e, como tal, só pode ser deposto por outro poder (o Congresso), após comprovação de crime.

Ora, crise não é crime, baixa popularidade não é crime. Erros políticos ou administrativos não são crimes.

Dilma não tem conta na Suíça, não tem apartamento na chique Avenue Foch, não tem aeroporto em propriedade particular, não tem dinheiro sonegado, não tem patrimônio suspeito, não desviou nada, como muitos dos golpistas. Não está na lista da Odebrecht, como boa parte dos golpistas. Mesmo políticos da oposição, como FHC, consideram que Dilma é honesta. Honesta não apenas pessoalmente, mas também na função pública. Foram ela e Lula que permitiram, pelo fortalecimento e a independência das instituições de controle, que a corrupção passasse a ser combatida a sério no país. A Lava Jato teria sido impossível no governo FHC.

Restam, então, os truques, as pedaladas jurídicas para tentar justificar o injustificável.

No caso do processo acolhido por Eduardo Cunha, em ato claro de vingança política, a desculpa são as tais “pedaladas fiscais”.

Mas pedalada fiscal é crime de responsabilidade?

Não, não é.

Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que só pode ser considerado “crime de responsabilidade” aquilo que está estritamente previsto na Constituição e na Lei nº 1079/50 (Lei do Impeachment), a qual regulamenta o processo de afastamento do Presidente da República.

Impeachment é matéria penal e, como tal, só se admite como crime de responsabilidade aquilo que a lei literalmente especifica. Não existe “crime por analogia” e não se pode ampliar o escopo da lei ao gosto da vontade política dos agentes envolvidos no processo. Só é punível como crime aquilo que a lei explícita e estritamente determina como tal. O próprio STF tem esse entendimento a respeito dos crimes de responsabilidade. No caso brasileiro, o artigo 85 da Constituição remete à lei (a Lei do Impeachment) a caracterização dos crimes de responsabilidade. Portanto, só vale o que está escrito na Constituição e na Lei do Impeachment. O resto é fruto das expectativas partidárias de golpistas.

Em segundo lugar, não existe julgamento meramente político do Presidente da República. Julgamentos meramente políticos só existem em ditaduras. Assim, o impeachment não pode ser equiparado aos julgamentos que Stalin costumava fazer. Numa democracia, o julgamento tem de respeitar princípios básicos do Estado Democrático de Direito, como o do devido processo legal e o da presunção da inocência.

Dito isto, é preciso enfatizar que, no caso do pedido de impeachment acolhido por nosso homem na Suíça, não há nenhuma sustentação jurídica consistente.

O que se alega é que as tais pedaladas fiscais seriam operações de crédito que a União teria contraído com bancos públicos, algo que é vedado na lei orçamentária.

Ora, a Lei do Impeachment, que rege todo o processo, fixa como crime de responsabilidade estritamente a realização de operações de créditos com entes federativos (art. 10, n. 9). Entes federados são os Estados, os Municípios e o Distrito Federal. Bancos públicos não são entes federados. Mesmo que a Lei de Responsabilidade Fiscal permita tal equiparação, a lei orçamentária e a Lei do Impeachment, cuja violação seria crime de responsabilidade, não o permitem.

Mas o contra-argumento principal não é esse. A questão central é que as tais pedaladas não são operações de crédito. Aliás, o TCU confessa que considera as pedaladas como operações que se assemelham, por mera analogia, a operações de crédito. Portanto, o próprio TCU admite que as pedaladas não são operações de crédito.

As tais pedaladas são não mais que atrasos no repasse do Tesouro a bancos públicos encarregados da operação financeira de alguns programas. Em lato sensu, pode-se até argumentar que isso gera algum tipo de crédito com o banco público. Mas isso não é uma operação de crédito. A operação de crédito implicaria alguns requisitos, como a prévia autorização orçamentária, a necessidade de lei específica e o controle exercido pelo Senado Federal. Assim, não se pode confundir operação de crédito com o surgimento de um crédito, em sentido amplo, decorrente de um atraso, de um inadimplemento contratual, os quais não estão submetidos às mesmas restrições legais.

Mutatis mutandis, seria a mesma coisa que se dizer que, se ao se atrasar o pagamento de seu aluguel, o locatário estaria fazendo, ipso facto, uma operação de crédito, um contrato de crédito, com o locador.

Há ainda o imbróglio dos famosos “decretos não-numerados”. Alega-se que tais decretos teriam aberto créditos extraordinários incompatíveis com a lei orçamentária, algo que a denúncia afirma ser enquadrável no crime de responsabilidade previsto no art. 10, n. 6 da Lei do Impeachment.

Ora, essa denúncia é totalmente inepta. Tais decretos, prática comum em muitas gestões orçamentárias, foram recepcionados pela ratificação de Lei aprovada pelo próprio Congresso Nacional. Com efeito, a aprovação do PROJETO DE LEI DO CONGRESSO NACIONAL nº 5, de 2015, que diminuiu a meta do superávit primário e permitiu sua redução em razão da frustração de receitas, acolheu todos esses decretos tornando-os, assim, inteiramente legais. Por conseguinte, se o Congresso Nacional considerar tais decretos como crime de responsabilidade estará admitindo, automaticamente, que é coautor do crime.

De mais a mais, é preciso considerar que as pedaladas são prática comum na administração pública brasileira, da União e dos entes federados, há muitos anos; e sempre tinham contado com a pronta aprovação do TCU. A mudança casuística de interpretação recente obedeceu à simples necessidade política de tentar dar algum sustentáculo ao golpe. Obviamente, o TCU pode mudar de interpretação, ainda que seja por motivos políticos. Mas tal mudança só pode valer para gestões futuras. Nunca retroagir para tentar gerar, de forma canhestra e oportunista, aparência de legalidade a um golpe de Estado. Considere-se, ademais, que quem julga as contas da União é o Congresso, não o TCU.

Dessa forma, não há base jurídica nenhuma para sustentar que a presidenta cometeu crime.

Espreme-se toda a denúncia que está na Câmara e a única verdade que surge é esta: o governo de Dilma Rousseff atrasou alguns pagamentos a bancos públicos para não deixar faltar comida na casa dos brasileiros mais pobres. Isso é desvio? Isso é corrupção? Isso é crime?

O mesmo vale para Lula. Espremem-se meses, anos de investigação, espremem-se as ilegalidades de um juiz que se colocou acima da lei, espreme-se toda a fúria obsessiva para achar qualquer crime e as únicas coisas que surgem são pedalinhos, um barco de lata, um sítio de um amigo e um apartamento que nem foi comprado.

Trata-se de uma situação diametralmente oposta à de Collor, pois, naquele caso, havia na denúncia apresentada farta evidência de desvios e corrupção.

No fundo, o que se tenta fazer é sacrificar a presidenta sabidamente honesta para salvar os que sabidamente frequentam listas das empreiteiras que estão sendo investigadas na Lava Jato.

O fato concreto, definitivo, é que na ópera-bufa do golpe falta o crime que justifique o enredo giocoso.

E, na falta de crime, cabem não apenas a manifestação dos que apoiam a legalidade democrática e o crescente protesto da comunidade internacional contra o golpe. Cabe também a manifestação do STF.

Como já afirmaram Marcello Gallupo e vários outros juristas, a decretação de impeachment sem a comprovação de que o Presidente da República cometeu crime de responsabilidade previsto explicitamente na Lei do Impeachment seria algo fragrantemente inconstitucional. Na condição de guardião da Constituição, o STF tem o dever “de barrar ou declarar a nulidade de qualquer impeachment recebido pela Câmara ou decretado pelo Senado, caso inexista conduta hipoteticamente subsumível nas taxativas previsões legais que tipificam os crimes de responsabilidade”.

Afinal, o que está em jogo aqui não é simplesmente o futuro do governo ou do projeto político que tirou 36 milhões de brasileiros da miséria e colocou outros 42 milhões na classe média. O que está em jogo é a democracia, o Estado Democrático de Direito e os direitos e garantias fundamentais que protegem a todos.

No plano interno, o golpe criaria uma fratura política que geraria crise permanente e assestaria duro golpe em nossas instituições democráticas. No plano externo, nos faria retroceder à ridícula condição de republiqueta de bananas. Mais: um golpe contra a presidenta honesta conduzido por Eduardo Cunha nos converteria na piada internacional do século. Tipo: sabe a última do brasileiro?

Ninguém pode se omitir neste momento crítico e o julgamento definitivo, o julgamento da História, será terrível contra aqueles que afrontarem a democracia e a Constituição.

Se gostas de ópera cômica, ouça as de Mozart. A de Eduardo Cunha et caterva é muito ruim. É golpe.


+ Matheus Pichonelli: De uma coisa não podemos reclamar desses dois últimos anos de cotoveladas, vazamentos seletivos, tensões à flor da pele, traições desnudadas e defesa desavergonhada do que antes era indefensável: foi um curso intensivo de política (sem teoria) aplicada.

Mal comparado, é mais ou menos como quando nossa cidade deixa de estranhar o comércio e consumo de entorpecentes, prostituição e contrabando em plena luz do dia. Sempre soubemos que existiam, mas quando deixam o submundo e passam a desfilar pelos nossos olhos, o cínico sono dos justos ganha outro nome.

Como tudo começou?

Em 2014, era missão do futuro presidente promover reparos num vazamento do qual muitos dos agora indignados se beneficiaram até a última gota enquanto jorrava. O plano de governo de qualquer candidato era um documento à espera de uma canetada.

Havia um candidato favorito do chamado mercado para implantar o alardeado ajuste, mas ele não se elegeu. Dilma Rousseff, em seu segundo mandato, até tentou vestir o figurino, mas este não lhe coube. Indecisa entre os compromissos com sua base social e a ansiedade dos investidores, a presidenta viu sua popularidade derreter à medida que o custo de seu apoio no Congresso observava uma escalada inflacionária.

Michel Temer, que não é bobo nem nada, correu para dizer que com ele e seus comparsas não haveria crise: fariam sem constrangimento ou culpa católica o que a presidenta reeleita não parecia capaz ou suficientemente disposta a fazer. Como escreveu Mauricio Puls, na Folha de S.Paulo, a plataforma eleitoral do vice-presidente tem no documento “Uma ponte para o futuro” o compromisso de eliminar vinculações constitucionais para a saúde e educação, flexibilizar direitos trabalhistas, aumentar a idade mínima de aposentadoria, eliminar a regra de reajuste real do salário mínimo. Bandeiras que, grifo meu, levantadas por um governo dito popular, teriam menos chance de prosperar. Pelo contrário: se dependesse de seus apoiadores mais radicais, este seria o único governo com chances reais de apoiar medidas como taxação de grandes fortunas, fim das doações empresariais e – toc toc toc – a regulação da mídia.

O governo Dilma se tornou, então, um inquilino indesejado de uma casa que imaginou ser sua por direito natural. Teria chances de obter uma saída honrosa ao fim do mandato se não fosse a Lava Jato, o pretexto ideal para apear do poder um governo já não só associado à incompetência, mas à corrupção.

Lula, em seu tempo áureo, dizia que, diferentemente de outros governantes, não tinha o direito de errar. Mas, não tão diferentemente de outros governantes ou partidos, errou. O PT– frase de um correligionário – acreditou que poderia usar e se lambuzar das mesmas regras de seus oponentes e receber o mesmo tratamento. Errou rude.

Na Java Jato, não houve santo que não foi flagrado lustrando o próprio chifre. O rabo chegava ao governo Sarney – no caso da Odebrecht, ao governo Costa e Silva – mas em política não se constrói uma convulsão social usando argumentos jurídicos. Ela se adapta aos homens e suas circunstâncias, e estas ordenaram um corre-corre pela própria sobrevivência ao gritos de pega ladrão – inclusive entre ladrões.

Para sobreviver, não é preciso saber nadar nem ganhar eleição. É preciso saber saltar do barco. O cálculo do PMDB até aqui é claro: há mais a ganhar, e menos a perder, se as circunstâncias criarem seu próprio barco.

O governo, vendo a debandada, passou a oferecer não só o convés, mas o salão nobre. Sem argumentos diante da inundação, passou a lançar os hospedeiros ao mar – na tentativa de oferecer as acomodações a outros marujos. Primeiro, por atacado. Depois, homem a homem. Destacou, para isso, seu maior patrimônio – o ex-presidente Lula, cujo prestígio, hoje, é uma foto borrada pelo tempo. Periga colocar esta foto a venda para pedir qualquer migalha no chapéu. Exemplo disso é que os 87% de aprovação ao fim de seu governo não comovem o hoje candidato a futuro presidente que não foi aprovado por ninguém.

Detonada a debandada, já há, entre os demais partidos, quem admita lançar a bancada ao escrutínio da fúria popular apenas sob garantia de vitória governista. Esta se tornou cada vez menos provável depois que seu ex-líder no Senado, abandonado à própria sorte, decidiu botar fogo no velho barco.

Lula, então, passou a ser oficialmente investigado – e oficialmente passou a correr risco de ser preso, e não apenas conduzido coercitivamente para prestar esclarecimento à polícia.

Dilma não teve opções a não servir oferecer abrigo – podia ter, como jura, a melhor das intenções, mas já não podia convencer as ruas de que o governo acabava de se transformar numa trincheira, sensação agravada pela divulgação de conversas ao telefone criminosamente espalhadas e retiradas do contexto.

A fase Tarantino de armas apontadas uns para os outros sob o medo congelante da carnificina já passou. Com tiros para todos os lados, os corpos são atirados ao mar enquanto os responsáveis cantam promessas de trabalho e espaço amplo a quem aceitar as sobras de um dos lados (ao fim do bombardeio, serão terrenos minados entre ruinas, ganhe quem ganhar, mas isso é outra história). Em meio à epidemia de zika, dengue e afins e às vésperas (apenas) de uma Olimpíada, a Funasa, posto-chave do Ministério da Saúde, e o Ministério do Esporte são hoje órgãos acéfalos. Sob bombardeiro, o governo pode oferecer tudo, menos estabilidade aos postulantes ao cargo. A oposição, ciente da metástase, pode oferecer aspirinas. E pensar que teve ministro da Educação demitido por comparar os estertores da base aliada de “achacadores”.

“Eles [deputados] querem é que o governo esteja frágil porque é a forma de eles achacarem mais, tomarem mais, tirarem mais dele, aprovarem as emendas impositivas", disse Cid Gomes há cerca de um ano. Pouco depois, reiterou as críticas em plenário, Eduardo Cunha à frente, e foi demitido. O governo sinalizava ali a sua opção de risco.

Em 2011, Dilma virou meme quando questionada por uma jornalista da TV Globo sobre pressões dos partidos de sustentação do governo: “Você me dá um exemplo do ‘dá cá’ que eu te explico o 'toma lá'”.

Caso a jornalista tenha tido tempo para reunir exemplos a uma futura tréplica, a petista poderá dizer tudo – que o processo de impeachment tem um vício de origem porque foi aberto por um desafeto do governo acusado formalmente de corrupção; que este deputado está disposto a dar aos adversários do governo o que eles querem – a cabeça da presidenta – para salvar a própria cabeça; que os interessados no colapso, da linha de sucessores aos opositores de alta plumagem, têm contra eles uma ficha corrida de fazer inveja a Al Capone; que os antecessores lançaram os mesmos expedientes; que os grupos econômicos só se engajaram no bombardeio quando os negócios foram ameaçados pela paralisia ou pelo aumento de impostos, e não pela indignação com a corrupção ou com a continuidade de um projeto que um dia garantiu seu lucro; que tem delegado e promotor engajado na luta após pedir votos para seu opositor; que tem juiz de primeira instância com o timing político de um bom marqueteiro de campanha; que tem ministro do Supremo que não se constrange em andar de mãos dadas com opositores; que tem emissora que se esqueceu do trauma de 89 e fez do impeachment uma questão de vida e morte; que tem revista semanal que se esqueceu de fazer jornalismo – a arte de mostrar todos os lados – para fazer novela das nove.

Dilma, na tréplica, pode citar tudo contra ela a seu favor. Só não pode se queixar da falta de exemplos de “dá cá” que seu governo e aliados passaram a produzir a granel e comercializar em plena luz do dia. A essa altura, não se sabe o que é mais fajuta: se a lealdade da base aliada ou o esforço do governo em preservá-la. Mas, enquanto durou, pudemos aprender muito com ela.


Wagner Moura: "Ser legalista não é o mesmo que ser governista, ser governista não é o mesmo que ser corrupto. É intelectualmente desonesto dizer que os governistas ou os simplesmente contrários ao impeachment são a favor da corrupção.

Embora me espante o ódio cego por um governo que tirou milhões de brasileiros da miséria e deu oportunidades nunca antes vistas para os pobres do país, não nego, em nome dessas conquistas, as evidências de que o PT montou um projeto de poder amparado por um esquema de corrupção. Isso precisa ser investigado de maneira democrática e imparcial.

Tenho feito inúmeras críticas públicas ao governo nos últimos 5 anos. O Brasil vive uma recessão que ameaça todas as conquistas recentes. A economia parou e não há mais dinheiro para bancar, entre outras coisas, as políticas sociais que mudaram a cara do país. Ninguém é mais responsável por esse cenário do que o próprio governo.

O esfacelamento das ideias progressistas, que tradicionalmente gravitam ao redor de um partido de esquerda, é também reflexo da decadência moral do PT, assim como a popularidade crescente de políticos fascistas como Jair Bolsonaro.

É possível que a esquerda pague por isso nas urnas das próximas eleições. Caso aconteça, irei lamentar, mas será democrático. O que está em andamento no Brasil hoje, no entanto, é uma tentativa revanchista de antecipar 2018 e derrubar na marra, via Judiciário politizado, um governo eleito por 54 milhões de votos. Um golpe clássico.

O país vive um Estado policialesco movido por ódio político. Sergio Moro é um juiz que age como promotor. As investigações evidenciam atropelos aos direitos consagrados da privacidade e da presunção de inocência. São prisões midiáticas, condenações prévias, linchamentos públicos, interceptações telefônicas questionáveis e vazamentos de informações seletivas para uma imprensa
controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula.

Você que, como eu, gostaria que a corrupção fosse investigada e políticos corruptos fossem para a cadeia não pode se render a esse vale-tudo típico dos Estados totalitários. Isso é combater um erro com outro.

Em nome da moralidade, barbaridades foram cometidas por governos de direita e de esquerda. A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964.

Arrepio-me sempre que escuto alguém dizer que precisamos "limpar" o Brasil. A ideia estúpida de que, "limpando" o país de um partido político, a corrupção acabará remete-me a outras faxinas horrendas que aconteceram ao longo da história do mundo. Em comum, o fato de todos os higienizadores se considerarem acima da lei por fazerem parte de uma "nobre cruzada pela moralidade".

Você que, por ser contra a corrupção, quer um país governado por Michel Temer deve saber que o processo de impeachment foi aceito por conta das chamadas pedaladas fiscais, e não pelo escândalo da Petrobras. Um impeachment sem crime de responsabilidade provado contra a presidente é inconstitucional.

O nome de Dilma Rousseff não consta na lista, agora sigilosa, da Odebrecht, ao contrário dos de muitos que querem seu afastamento. Um pedido de impeachment aceito por um político como Eduardo Cunha, que o fez não por dever de consciência, mas por puro revide político, é teatro do absurdo.

O fato de o ministro do STF Gilmar Mendes promover em Lisboa um seminário com lideranças oposicionistas, como os senadores Aécio Neves e José Serra, é, no mínimo, estranho. A foto do juiz Moro com o tucano João Doria em evento empresarial é, no mínimo, inapropriada.

E se você também achar que há algo de tendencioso no reino das investigações, não significa que você necessariamente seja governista, muito menos apoiador de corruptos. Embora a TV não mostre, há muitos fazendo as mesmas perguntas que você.


Luis Eduardo Gomes,no Sul21: Em Porto Alegre para participar do Seminário Dívida Pública, Desenvolvimento e Soberania Nacional,  promovido pelo Sindicato dos Engenheiros (Senge), na PUCRS, o ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) afirmou que o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) está sendo movido por uma “coalizão de ladrões” que deseja implementar uma “agenda entreguista”, submetida a interesses internacionais.

Em entrevista concedida ao Sul21 e ao Jornal Já, Ciro Gomes afirmou que a saída do PMDB do governo federal, sacramentada em votação que durou três minutos na tarde de terça-feira (29), em Brasília, tem o objetivo de acelerar o processo de impeachment para tentar impedir que as investigações da Operação Lava Jato atinjam mais nomes da classe política brasileira.

“O doutor [Rodrigo] Janot, procurador-geral da República, está de posse de mil contas na Suíça, com US$ 800 milhões já identificados e bloqueados, com a fina flor dos políticos e dos empresários com eles conexos. Por isso que eles precisam aceleradamente [do impeachment]. Faz cinco meses que o processo de cassação do Eduardo Cunha não anda um passo sequer na Câmara e uma presidência da República da oitava economia mundial, em menos de 15 dias, pelo que nós estamos contando hoje, pode cair”, afirma Ciro.

Para o ex-governador, provável candidato a presidência da República pelo PDT em 2018, o impeachment da presidenta ainda não é inevitável, mas será preciso que o “povão acorde” e que haja uma mudança no contexto nacional para que ele seja barrado. Ciro ainda prevê que, caso se concretize a queda de Dilma, o vice-presidente Michel Temer terá muitas dificuldades para governar diante da crise econômica e política vivida pelo país.
 


Confira a seguir a íntegra da entrevista

Como você avalia a saída do PMDB do governo?

Ciro Gomes: Isso é a crônica de uma morte anunciada. Se não fosse uma tragédia para o país, eu seria um dos brasileiros que poderia estar dizendo, com muita moral e coerência, que eu avisei. Quantas vezes eu falei com o Lula, eu falei com a Dilma, lá na ancestralidade desse projeto, o quanto estúpido e equivocado era colocar esse lado quadrilha da política brasileira na linha de sucessão do País. Prevaleceu o pragmatismo que acabou entregando organicamente ao PMDB a resultante do poder no Brasil, sem voto. E agora eles estão percebendo que podem consumar o fato, eliminar os intermediários e assumir diretamente.

São componentes absolutamente escandalosos e enojantes. Eu não estou exagerando em nenhuma palavra, porque assistir o País ir para o risco que está correndo, para o Michel Temer, organicamente vinculado a tudo que está errado sob o ponto de vista institucional e de corrupção no Brasil – eu sei muito bem o que estou falando, é só pesquisar meu mandato de deputado federal, com ele na presidência da Câmara – e parceiro íntimo do Eduardo Cunha, que vira vice-presidente da República.

Com isso eles vão, apoiados pelo PSDB nesse instante, cumprir a segunda tarefa depois de assaltar o poder, que é matar a Lava Jato, que agora, sob o ponto de vista dos politiqueiros de Brasília, parece ter saído do controle. Só para eu lhe dar alguns dados que não saem na grande mídia porque não interessa.

O doutor [Rodrigo] Janot, procurador-geral da República, está de posse de mil contas na Suíça, com US$ 800 milhões já identificados e bloqueados, com a fina flor dos políticos e dos empresários com eles conexos. Por isso que eles precisam aceleradamente [do impeachment]. Faz cinco meses que o processo de cassação do Eduardo Cunha não anda um passo sequer na Câmara e uma presidência da República da oitava economia mundial em menos de 15 dias, pelo que nós estamos contando hoje, pode cair.

O que acontece nos dias seguintes à chegada do Temer à presidência?

Ciro: O que acontece é que um governo ilegítimo se constitui. Esse governo não é gravemente negativo para o país só porque é ilegítimo e viola a democracia. Esse governo vem com uma agenda basicamente entreguista, dos últimos interesses nacionais que essa gentalha não conseguiu entregar para o estrangeiro.

Anote o que eu estou lhe dizendo: petróleo e gás. Mas também para arrebentar com o rudimento de avanço social que o país experimentou, porque eles têm uma convicção, está nos textos do Armínio Fraga, de que o salário mínimo, que é base para toda massa salarial brasileira, passou do limite, que tem que ser reduzido. Nos textos deles está lá que a política social não deve mais ser universal, e sim focada em pequenos grupos como defende o neoliberalismo mais tacanho, que inclusive está superado internacionalmente.

Enfim, é uma tragédia completa para o Brasil. O que significa dizer que, dado que esses politiqueiros não conhecem o Brasil que existe hoje, que nós dissolveremos muito rapidamente esse quase consenso que está sendo construído que é pela negação, porque a sociedade brasileira está machucada pela crise econômica e indignada com a novelização do escândalo. Mas, na hora que esse consenso negativo provocar uma ruptura imprudente da nossa tradição democrática, no dia seguinte essa energia não vai para casa. E eu estarei junto com eles tocando fogo, porque não toleraremos que o Brasil seja vendido.

O senhor já disse que será o primeiro a entrar com um pedido de impeachment do Temer se ele assumir a presidência..

Ciro : É todo um contexto. Eu não sou ninguém e há muita manipulação nesse Facebook, com perfis falsos. O que eu disse, e vou repetir, é que o impeachment é um procedimento jurídico-político. Ele não pode ser nem só político e nem só jurídico, e está escrito na Constituição que essa interrupção de um mandato de um presidente da República só se dará na condição de cometimento de crime de responsabilidade.

A Dilma não foi acusada de nenhum cometimento, de nenhuma dessas figuras penais da lei de responsabilidade. O pretexto do pedido que está tramitando e pode derivar numa ruptura democrática do país é o que eles chamam de pedalada fiscal, que é um crime contábil, completamente errado, não defendo, mas que todos os governos vêm fazendo e nunca, em circunstância alguma, é crime. Entre o elenco formal da lei não é crime. Portanto você tem um golpe.

E eu disse na entrevista e vou repetir pro senhor, se foi esse o pretexto que vai levar à ruptura do Brasil e há esse risco de ninguém mais governar o nosso país pelos próximos 20 anos, eu estou comovidamente convencido disso, eu entrarei imediatamente com um pedido de impeachment baseado no fato, que eu já tenho todos os documentos, de que o Michel Temer, como vice-presidente ocupando a presidência da República, assinou dezenas de decretos de pedaladas fiscais, igualzinho a Dilma.

Portanto, se valer para ela juridicamente – evidentemente que isso é só pretexto -, vai ficar a sociedade brasileira muito esclarecida de que isto também foi uma molecagem de golpe. Mas vou entrar na hora.

A partir do impeachment da Dilma e de um possível impeachment também do Temer, qual seria a solução? Novas eleições?

Ciro: Um impeachment só acontece quando há uma construção consensual. Hoje, esse consenso não existe ainda. Ele se acelerou muito por conta de você ter feito encontrar interesses internacionais poderosos, que têm uma influência importante na formação da mega mídia, especialmente de São Paulo, que se autodenomina imprensa nacional, e do Rio de Janeiro, com uma sociedade muito angustiada com a crise econômica e com a loucura da denúncia moral, que foi extremamente passionalizada com aquilo que pareceu ao povo uma jogadinha miúda, metendo o centro da República nela, que é trazer o Lula para dentro do Palácio.

Eu espero que ainda dê tempo e que essa marcha da insensatez se interrompa. Não acontecendo, o próximo passo de um impeachment do Michel Temer é muito improvável, porque imediatamente ele passa a ser o representante no poder dos interesses internacionais, que hoje estão na clandestinidade, balançando as bases da democracia brasileira.

É só vocês fazerem uma pesquisa rapidinha: quais são os lugares da Geografia do mundo onde há petróleo com algum excedente e você imediatamente vai ver a mesma instabilidade que há no Brasil, até agravada. Agravada, por exemplo, como é o caso do Iraque. Agravada pelas tensões no Irã, agravada pelas tensões no Egito, pelas tensões na Líbia. É uma coisa que não é coincidência.

Arábia Saudita está balançando. A Venezuela, na nossa América Latina, está completamente em frangalhos, a sua institucionalidade. Isso é um jogo bruto, não é um jogo para criança. Agora, esse interesse passa a vencer. Imediatamente a mídia correlata já está fazendo o que para qualquer brasileiro é uma coisa enojante.

Um partido que está há 10 anos mamando, roubando, escandalosamente e fisiologicamente entranhado no governo, que, portanto, se tem alguma coisa boa no governo, ele pode reclamar para si também e, se tem alguma coisa completamente errada, o PMDB também é responsável por isso. Sai (do governo) e a Rede Globo faz uma novela dignificando, nobilitando o gesto do PMDB. É a novilíngua. George Orwell, no livro “1984”, escreveu sobre isso.

Ciro, você fala de entreguismo do PMDB…

Ciro: Está escrito. Leia o que eles estão chamando ridiculamente de Ponte para o Futuro.

O senhor acha que o PMDB tem condições políticas de implementá-lo?

Ciro: Nenhuma chance. É uma grande fraude. É uma grande e imensa fraude porque o Brasil hoje tá pinçado por três crises, e uma alimenta a outra, e “trocar Chico por Manel” não resolve nada. Pelo contrário, quando você excita expectativas simplórias, grosseiras, como está acontecendo hoje, em que todo o problema brasileiro seria essa novela moral, que nós vamos trocar uma pessoa que não tá acusada de nada por uma linha de sucessão que é Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros – os três estão citados na Lava Jato e ela é a única que não foi citada nem é investigada em coisa nenhuma -, o que acontece no dia seguinte? Eles vão trabalhar para desarmar a Lava Jato, mas as três crises vão estar do mesmo tamanho.

Vamos lá, crise número 1: internacional. Um constrangimento, eu diria para você, paradigmático. O Brasil encerrou um ciclo, nós perdemos qualquer veleidade de ter um projeto de desenvolvimento, nisso o PT comete talvez seu maior erro. Fez um avanço, mas não institucionalizou nada, não mexeu em estrutura nenhuma do País.

O resultado prático é que, quando terminar o ano de 2016, entre produtos industrializados que nós vendemos para o estrangeiro e produtos industrializados que nós compramos do estrangeiro, o buraco já está em US$ 110 bilhões. A gente vinha, até 2014, pagando este buraco com um ciclo de commodities muito caras.

Então, eu estou trabalhando na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), nós vendíamos, em 2014, uma tonelada de minério de ferro por US$ 180. Chegamos a vender por US$ 40. O petróleo, quando nós comemoramos a maravilhosa descoberta do pré-sal, eu estava lá ajudando a fazer a lei de partilha, aquilo tinha e tem ainda o condão no futuro de mudar radicalmente a estrutura brasileira social, econômica e de infraestrutura, o que acontecia, o petróleo custava US$ 110.

Então, a gente gasta US$ 41 para tirar um barril de petróleo, com este nível de escala hoje, e vendíamos a US$ 110. É uma fortuna. Pois bem, o petróleo custa US$ 41 para tirar e nós estamos vendendo a US$ 30. “Micou” o pré-sal. Você tem a soja, o milho, etc., que não caíram tanto, mas caíram 15%, 20% todos.

Ou seja, a gente artificializou de fora para dentro uma conta macroscópica do Brasil com o estrangeiro e esse ciclo morreu e morreu para sempre – pelo menos pelas duas próximas décadas. O país está desafiado a recelebrar toda a sua matriz de desenvolvimento agora, catando outro lugar aonde assentar essa imprudência de não termos uma política industrial de comércio exterior. Então, segura a primeira crise que eu quero ver como esses golpistas vão tratar.

Segunda crise, quando você tem um desequilíbrio nas suas contas externas, você transfere para dentro do país uma variável que é a desvalorização da moeda. Eu não tenho tempo aqui, mas, basicamente, se eu tenho um buraco nas contas com o estrangeiro, a consequência prática dentro do país, a primeira, é que a moeda se desvaloriza.

O real se desvaloriza perante o dólar. Isto imediatamente se irradia para os preços, todos os preços que são imediatamente sensíveis ao câmbio. Por exemplo, você compra pão, pão é trigo, o Brasil não produz trigo com suficiência, importa, é dólar.

Então, se você tem uma desvalorização do real frente ao dólar, o pão fica mais caro, a pizza fica mais cara. Remédio, 75% da química fina brasileira é importada. Se você desvalorizada a moeda, o remédio fica mais caro. Passagem de ônibus, a principal variável é o diesel, diesel é petróleo, petróleo é câmbio. Então, você tem uma pressão de preços relativos que dá uma miragem de inflação.

Tentaram botar desde o senhor Fernando Henrique, e o PT manteve a mesma equação, a economia num tal piloto-automático do inflation target, que aqui tomou o nome de meta da inflação. Aí você atira com taxas de juros. Você tem a maior recessão, que não é mais, é depressão econômica, da história do Brasil, e a taxa de juros do Brasil é a maior do mundo. Eu quero ver o que essa calhordice aí, desses golpistas salafrários, vai fazer no dia seguinte que tomar posse.

E, terceiro, a crise política. Ou você acha que PT, MST, CUT, Ubes, eu e todos nós que estamos convencidos de que há um golpe em marcha no Brasil vamos deixar esse governo governar para vender o País para o estrangeiro? Nenhuma chance. Nós vamos para o pau contra eles. Eu não reconheço legitimidade nesse governo que está querendo se construir em cima do golpe. Eu não reconheço e vou lutar, no meu limite, com as ferramentas que estiveram a meu alcance, para que essa tragédia não se abata sobre o Brasil.

O impeachment é inevitável?

Ciro: Não é inevitável. Eu estou lhe falando e é preciso que a gente date as coisas, porque as coisas estão muito frenéticas no Brasil, mas o que a sociedade precisa saber é que o processo de cassação do Eduardo Cunha, pilhado com milhões de dólares no estrangeiro roubados da Petrobras, flagrantemente, tudo demonstrado com interações internacionais constrangedoras, faz cinco meses não deu o primeiro passo ainda na comissão, e essa coalizão de ladrões, esta cleptocracia que está se organizando ao redor do senhor Michel Temer, está querendo derrubar uma presidente em 20 dias.

Tá marcado para o dia 17 de abril e, no momento em que eu estou lhe falando, só um milagre nos salva. Esse milagre é possível de ser praticado se o nosso povo acordar, não só nós que já estamos na luta, mas o povão, que ainda está vendo as coisas, com muita razão, com um pé atrás, mas eu ainda tenho esperança que Deus toque o coração e a cabeça da sociedade brasileira. E isso pode mudar as coisas. 



Pepe Escobar*, no Russia Today: "Brics" é a sigla mais amaldiçoada no eixo Avenida Beltway [onde ficam várias instituições do governo dos EUA em Washington]-Wall Street, e por razão de peso: a consolidação do Brics é o único projeto orgânico, de alcance global, com potencial para afrouxar a garra que o Excepcionalistão mantém apertada no pescoço da chamada "comunidade internacional".

Assim sendo, não é surpresa que as três potências chaves do Brics estejam sendo atacadas simultaneamente, em várias frentes, já faz algum tempo. Contra a Rússia, a questão é a Ucrânia e a Síria, a guerra do preço do petróleo, o ataque furioso contra o rublo e a demonização ininterrupta da tal "agressão russa". Contra a China, a coisa é uma dita "agressão chinesa" no Mar do Sul da China e o (fracassado) ataque às Bolsas de Xangai/Shenzhen.

O Brasil é o elo mais fraco dessas três potências emergências crucialmente importantes. Já no final de 2014 era visível que os suspeitos de sempre fariam qualquer coisa para desestabilizar a sétima maior economia do mundo, visando a uma boa velha 'mudança de regime'. Para tanto criaram um coquetel político-conceitual tóxico ("ingovernabilidade"), a ser usado para jogar de cara na lama toda a economia brasileira.

Há incontáveis razões para o golpe, dentre elas: a consolidação do Banco de Desenvolvimento do Brics; o impulso concertado entre os países Brics para negociarem nas respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano e visando a construir outra moeda global de reserva que tome o lugar do dólar; a construção de um cabo submarino gigante de telecomunicações por fibra ótica que conecta Brasil e Europa, além do cabo Brics, que une a América do Sul ao Leste da Ásia – ambos fora de qualquer controle pelos EUA.

E acima de tudo, como sempre, o desejo pervertido obcecado do Excepcionalistão: privatizar a imensa riqueza natural do Brasil. Mais uma vez, é o petróleo.

Peguem esse Lula, ou...

WikiLeaks já expôs há muito tempo, em 2009, o quanto o Big Oil estava ativo no Brasil, tentando modificar, servindo-se de todos os meios de extorsão, uma lei proposta pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido também como Lula, que estabelece que a estatal Petrobrás (lucrativa) será a única operadora de todas as bacias de petróleo no mar, da mais importante descoberta de petróleo desse jovem século 21: as reservas de petróleo do pré-sal.

Lula não só deixou à distância o Big Oil – especialmente ExxonMobil e Chevron –, mas também abriu a exploração do petróleo no Brasil à Sinopec chinesa – parte da parceria estratégica Brasil-China (Brics dentro de Brics).

O inferno não conhece fúria maior que a do Excepcionalistão descartado. Como a Máfia, o Excepcionalistão nunca esquece; mais dia menos dia Lula teria de pagar, como Putin tem de pagar por ter-se livrado dos oligarcas cleptocratas amigos dos EUA.

A bola começou a rolar quando Edward Snowden revelou que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (ing. NSA) andava espionando a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e vários altos funcionários da Petrobrás. Continuou com o fato de que a Polícia Federal do Brasil coopera, recebe treinamento e/ou são controladas de perto por ambos, o FBI e a CIA (sobretudo na esfera do antiterrorismo). E prosseguiu via os dois anos de investigações da Operação Lava Jato, que revelou vasta rede de corrupção que envolve atores dentro da Petrobrás, as maiores empresas construtoras brasileiras e políticos do partido governante Partido dos Trabalhadores.

A rede de corrupção parece ser real – mas com "provas" quase sempre exclusivamente orais, sem nenhum tipo de comprovação documental, e obtidas de trapaceiros conhecidos e/ou neomentirosos seriais que acusam qualquer um de qualquer coisa em troca de redução na própria pena.

Mas para os Procuradores encarregados da Operação Lava Jato, o verdadeiro negócio sempre foi, desde o início, como envolver Lula em fosse o que fosse.

Entra o neo-Elliott Ness tropical

Chega-se assim à encenação espetacularizada, à moda Hollywood, na 6ª-feira passada em São Paulo, que disparou ondas de choque por todo o planeta. Lula "detido", interrogado, humilhado em público (comentei esses eventos em"Terremoto no Brasil").

O Plano A na blitz à moda Hollywood contra Lula era ambicioso movimento para subir as apostas; não só se pavimentaria o caminho para o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (que seria declarada "culpada por associação"), como, também, já se neutralizaria Lula, impedindo-o de candidatar-se à presidência em 2018. E não havia Plano B.

Como não seria difícil prever que aconteceria – e acontece muito nas 'montagens' do FBI – toda a 'operação' saiu pela culatra.

Lula, em discurso-aula, master class em matéria de discurso político, reproduzido ao vivo por todo o país pela internet, não só se consagrou como mártir de uma conspiração ignóbil, mas, mais que isso, energizou suas tropas de massa. Até respeitáveis vozes conservadoras condenaram o show à moda Hollywood, de um ministro da Suprema Corte a um ex-ministro da Justiça, que serviu a governo anterior aos do Partido dos Trabalhadores, além do conhecido professor e economista Bresser Pereira (um dos fundadores do PSDB, que nasceu como partido da social-democracia do Brasil, mas virou a casaca e é hoje defensor das políticas neoliberais do Excepcionalistão e lidera a oposição de direita).

Bresser disse claramente que a Suprema Corte deveria intervir na Operação Lava Jato para impedir novos abusos. Os advogados de Lula, por sua vez, requereram à Suprema Corte que detalhasse a jurisprudência que embasaria as acusações assacadas contra Lula. Mais que isso, um advogado que teve papel de destaque na blitz hollywoodiana disse que Lula respondeu a tudo que lhe foi perguntado durante o interrogatório de quase quatro horas, sem piscar – eram as mesmas perguntas que já lhe haviam sido feitas antes.

O professor e advogado Celso Bandeira de Mello, por sua vez, foi diretamente ao ponto: as classes médias altas no Brasil – nas quais se reúnem quantidades estupefacientes de arrogância, ignorância e preconceito, e cujo maior sonho de toda uma vida é alcançar um apartamento em Miami – estão apavoradas, mortas de medo de que Lula volte a concorrer à presidência – e vença – em 2018.

E isso nos leva afinal ao juiz mandante e carrasco executor de toda a cena: Sergio Moro, protagonista de "Operação Lava Jato".

Ninguém em sã consciência dirá que Moro teve carreira acadêmica da qual alguém se orgulharia. Não é de modo nenhum teoricista peso pesado. Formou-se advogado em 1995 numa universidade medíocre de um dos estados do sul do Brasil e fez algumas viagens aos EUA, uma das quais paga pelo Departamento de Estado, para aprender sobre lavagem de dinheiro.

Como já comentei, a chef-d’oeuvre da produção intelectual de Moro é artigo antigo, de 2004, publicado numa revista obscura, nos idos de 2004 ("Considerações sobre Mãos Limpas", revista CEJ, n. 26, julho-Set. 2004), no qual claramente prega a "subversão autoritária da ordem judicial para alcançar alvos específicos" e o uso dos veículos de mídia para envenenar a atmosfera política.

Quer dizer, o juiz Moro literalmente transpôs a famosa operação da Justiça italiana de 1990 Mani Pulite ("Mãos Limpas") da Itália para o seu próprio gabinete – e pôs-se a instrumentalizar os veículos da grande mídia brasileira e o próprio judiciário, para alcançar uma espécie de "deslegitimação total" do sistema político. Mas não quer deslegitimar todo o sistema político: só quer deslegitimar o Partido dos Trabalhadores, como se as elites que povoam todo o espectro da direita no Brasil fossem querubins.

Assim sendo, não surpreende que Moro tenha contado com a companhia solidária, enquanto se desenrolava a Operação Lava Jato, do oligopólio midiático da família Marinho – o império midiático O Globo –, verdadeiro ninho de reacionários, nenhum deles particularmente inteligente, que mantiveram íntimas relações com a ditadura militar que, no Brasil, durou mais de 20 anos.

Não por acaso, o grupo Globo foi informado sobre a "prisão" hollywoodiana que Moro aplicaria ao presidente Lula antes de a operação começar, e pode providenciar cobertura que efetivamente tudo encobriu, ao estilo CNN.

Moro é visto por muitos no Brasil como um sub Elliot Ness nativo. Advogados que têm acompanhado o trabalho dele dizem que o homem cultiva a imagem de que o Partido dos Trabalhadores seria uma gangue que viveria a sanguessugar o aparelho do Estado, com vistas a entregar tudo, em cacos, aos 'sindicatos'.

Segundo um desses advogados, que falou com a mídia independente no Brasil, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Moro é cercado por um punhado de Procuradores fanáticos, com pouco ou nenhum saber jurídico, que fazem pose de Antonio di Pietro (mas sem a solidez do Procurador milanês que trabalhou na Operação Mãos Limpas).

Ainda pior, Moro não dá sinais de preocupar-se com a evidência de que depois que o sistema político italiano implodiu, ali só prosperaram os Berlusconi. No Brasil, certamente se veria a ascensão ao poder de algum palhaço/idiota de bairro, elevado ao trono pela Rede Globo – cujas práticas oligopolistas já são bastante berlusconianas.

Pinochets digitais

Pode-se dizer que a blitz à moda Hollywood contra Lula guarda semelhanças diretas com a primeira tentativa de golpe de Estado no Chile, em 1973, que testou as águas em termos de resposta popular, antes do golpe real. No remix brasileiro, jornalistas globais fazem as vezes de Pinochets digitais. Mas as ruas em São Paulo já mostram graffiti que dizem "Não vai ter golpe" e "Golpe militar – nunca mais."

Sim, porque tudo, nesse episódio tem a ver com um golpe branco – sob a forma de impeachment da presidenta Rousseff e com Lula atrás das grades. Mas velhos vícios (militares) são duros de matar: vários jornalistas próximos da Rede Globo e ativos agora na Internet já 'conclamaram' os militares a tomar as ruas e "neutralizar" as milícias populares. E isso é só o começo. A direita brasileira está organizando manifestações para o próximo domingo, exigindo – e o que mais exigiriam? – o impeachment da presidenta.

A Operação Lava Jato teve o mérito de investigar a corrupção, a colusão e o tráfico de influência no Brasil, país no qual tradicionalmente a corrupção corre solta. Mas todos, todos os políticos e todos os partidos políticos teriam de ser investigados – inclusive e sobretudo – porque em todos os casos esses são corruptos conhecidos há muito tempo! – os representantes das elites comprador brasileiras. A Operação Lava Jato não opera igualmente contra todos. Porque o projeto político aliado aos Procuradores do juiz Moro absolutamente não está interessado em fazer "justiça"; a única coisa que interessa a eles é perpetuar uma crise política viciosa, como meio para fazer fracassar a 7ª maior economia do mundo, para, com isso, alcançarem seu Santo Graal: ou aquela velha suja 'mudança de regime', ou algum golpe branco.

Mas 2016 não é 1973. Hoje já se sabe quem, no mundo, é doido por golpes para mudar regimes.

*Jornalista brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputnik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Rede Voltaire e outros; é correspondente/articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Traduzido pelo Coletivo Vila Vodu

Glenn Greenwald, Andrew Fishman, David Miranda: AS MÚLTIPLAS E IMPRESSIONANTES crises que assombram o Brasil agora atraem substancialmente a atenção da mídia internacional. O que é compreensível, já que o Brasil é o quinto país mais populoso do mundo e a oitava economia do planeta. Sua segunda maior cidade, o Rio de Janeiro, é a sede das Olimpíadas deste ano. Porém, boa parte dessa cobertura internacional é repetidora do discurso que vem das fontes midiáticas homogeneizadas, anti-democráticas e mantidas por oligarquias no Brasil e, como tal, essa informação é enviesada, pouco precisa e incompleta, especialmente quando vem daqueles profissionais com pouca familiaridade com o país (mas há vários repórteres internacionais que trabalham no Brasil fazendo um ótimo trabalho).

Seria difícil exagerar quando se afirma a gravidade da situação no Brasil em várias esferas. O trecho a seguir, publicado ontem por Simon Romero, o correspondente do The New York Times no Brasil, evidencia o nível de calamidade da situação:
O Brasil está enfrentando sua pior crise econômica das últimas décadas. Um enorme esquema de corrupção tem prejudicado a empresa pública petrolífera nacional. A epidemia de Zika espalha desespero ao longo da região Nordeste. E, pouco antes de hordas de estrangeiros vierem ao país para as Olimpíadas, o governo luta pela sobrevivência com quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo.
A extraordinária crise política brasileira apresenta algumas semelhanças com o caos liderado por Trump nos EUA: um circo sui-generis, fora de controle, gerando instabilidade e libertando forças sombrias, com um resultado positivo quase impossível de se imaginar. A antes remota possibilidade de impeachment da presidenta Dilma Rousseff parece, agora, provável.

Porém, uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se limita a apenas um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta: “quase todas as frentes do sistema político estão sob uma nuvem de escândalo”. O que inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidenta – atravessado por casos sérios de corrupção – mas também a grande maioria dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir o PT e que estão afundando em uma quantidade ao menos igual de criminalidade. Em outras palavras, o PT é, sim, profundamente corrupto e banhado em escândalos, mas, virtualmente, assim também são todos os grupos políticos trabalhando para minar o partido e obter o poder que foi democraticamente entregue a ele.

Quando a mídia internacional fala sobre o Brasil, ela tem focado nos crescentes protestos de rua que pedem o impeachment de Rousseff. Essas fontes midiáticas tipicamente mostram os protestos de forma idealizada, com uma certa adoração: como movimentos de massa inspiradores que se levantam contra um regime corrupto. Ontem, Chuck Todd, da NBC News, retuitou Ian Bremmer (do Eurasia Group) descrevendo os protestos anti-Dilma Rousseff como “O Povo contra A Presidente” – um tema fabricado, condizente com o que é noticiado por grupos mídiáticos brasileiros anti-governo, como a Globo.

Essa narrativa é, no mínimo, uma simplificação radical do que está acontecendo e, mais provavelmente, uma propaganda feita para minar um partido de esquerda há muito mal visto pelas elites políticas dos EUA. A caracterização dos protestos ignora o contexto histórico da política no Brasil e, mais importante, uma série de questões críticas: quem está por trás dos protestos, quão representativos eles são em relação à população brasileira e quais são seus verdadeiros interesses? 

A ATUAL VERSÃO da democracia no Brasil é bastante jovem. Em 1964, o governo de esquerda democraticamente eleito foi derrubado por um golpe militar. Oficiais norteamericanos negaram envolvimento tanto publicamente quanto perante o Congresso, mas – nem precisaria ser dito – documentos e registros posteriormente revelados provaram que os EUA apoiaram diretamente o golpe e ajudaram em seu planejamento.

Os 21 anos de ditadura militar de direita pró-EUA que se seguiram foram brutais e tirânicos, especializando-se em técnicas de tortura usadas contra dissidentes políticos que eram ensinadas pelos EUA e pelo Reino Unido. Um relatório da Comissão da Verdade, publicado em 2014, revelou que ambos os países “treinaram interrogadores brasileiros em técnicas de tortura”. Dentre as vítimas, estava Rousseff, então guerrilheira da esquerda democrata, presa e torturada pelo regime militar nos anos 70.

O golpe em si e a ditadura que se seguiu foram apoiados pelas oligarquias regionais e por suas grandes redes midiáticas, lideradas pela Globo, a qual – de forma notável – apresentou o golpe de 1964 como uma nobre derrota de um governo esquerdista corrupto (soa familiar?). Tanto o golpe quanto o regime ditatorial foram apoiados também pela extravagante (e absurdamente branca) elite econômica do país, além de sua pequena classe média. Como opositores da democracia geralmente fazem, as classes altas viam a ditadura como uma proteção contra as massas de população pobre, composta majoritariamente por pessoas negras e pardas. Conforme o jornal The Guardian publicou sobre informações da Comissão da Verdade: “Assim como em toda a América Latina dos anos 60 e 70, a elite e a classe média se alinharam com o regime militar para afastar o que elas viam como uma ameaça comunista”.

O PARTIDO DE DILMA, PT, foi fundado em 1980 como um partido socialista de esquerda clássica. A fim de melhorar seu apelo nacional, o partido moderou seus dogmas socialistas e se tornou, gradualmente, mais próximo dos chamados social-democratas da Europa. Agora, existem partidos populares à sua esquerda. De fato, Dilma, por vontade própria ou não, defendeu medidas de austeridade para resolver problemas econômicos e passar confiança aos mercados estrangeiros, e justamente nessa semana assinou uma draconiana lei “anti-terrorismo”. Ainda assim, o PT se mantém na centro-esquerda do espectro político brasileiro, e seus apoiadores são, surpreendentemente, as minorias raciais e classes pobres. Enquanto no poder, o partido promoveu reformas sociais e econômicas que levaram benefícios governamentais e oportunidades para tirar milhões de brasileiros da pobreza.

O Partido dos Trabalhadores está na presidência há 14 anos: desde 2002. Sua popularidade foi um subproduto do antecessor carismático de Dilma, Luis Inácio Lula da Silva (universalmente conhecido como “Lula”). A ascensão de Lula à presidência foi um símbolo poderoso da luta da classe pobre no Brasil durante a democracia: um trabalhador e líder sindical, de uma família pobre, que deixou a escola na segunda série e não sabia ler até os 10 anos, preso pela ditadura por atividade na luta sindical. O ex-presidente foi, e ainda é, motivo de riso para elites brasileiras por meio de um tom classista no discurso sobre seu jargão trabalhista e sua forma de falar.

Depois de três tentativas infrutíferas de chegar à presidência, Lula provou ser uma força política imbatível. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, ele deixou o cargo com taxas de aprovação tão altas que foi capaz de garantir a eleição de Dilma, sua sucessora, antes desconhecida pela população, e que foi reeleita em 2014. Há muito tempo se cogita que Lula – um político que se opõe publicamente a medidas de austeridade – pretende concorrer novamente para a presidência em 2018, depois de completo o segundo mandato de Dilma. Forças anti-PT se sentem petrificadas com a ideia de que Lula vença novamente.

Embora a classe oligárquica da nação tenha usado o PSDB, partido de centro-direita, de forma bem sucedida como um contrapeso, o partido foi impotente para derrotar o PT em quatro eleições presidenciais consecutivas. O voto é obrigatório, e os cidadãos de baixa renda garantiram as vitórias do PT.

A corrupção entre a classe política Brasileira – incluindo o alto escalão do PT – é real e substancial. Mas os plutocratas brasileiros, a mídia, e as classes altas e médias estão explorando essa corrupção para atingir o que eles não conseguiram por anos de forma democrática: remover o PT do poder.

Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) de Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, estes são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que combate a pobreza.

A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação de escuta telefônica de uma conversa entre Dilma e Lula vazou essa semana, o programa jornalístico mais influente da Globo, o Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma novela, muito distante de um jornal, e foram ridicularizados nas redes por isso. Durante meses, as quatro principais revistas jornalísticas do Brasil dedicaram capa após acapa a ataques inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou de outro, sempre com uma narrativa impactantemente unificada.

Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos.

Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirma Stephanie Nolen, correspondente no Rio para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições do país estão alinhadas contra a presidente”.

De forma simples, essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas, marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.

Nada aqui é uma defesa do PT. Tanto por causa da corrupção generalizada quanto pelas dificuldades econômicas, Dilma e PT estão intensamente impopulares entre todas as classes e grupos, inclusive entre a base trabalhadora do partido. Mas os protestos de rua – inegavelmente grandes e inflamados – são direcionados por aqueles que tradicionalmente apresentam hostilidade contra o PT. O número de pessoas participando desses protestos – enquanto milhões – é muito pequeno em relação aos votos que reelegeram Dilma (54 milhões). Em uma democracia, governos são eleitos pelo voto, não por demonstrações de oposição na rua – particularmente quando os manifestantes vem de um segmento social relativamente limitado.

Como Winter informou: “No ultimo domingo, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas, pesquisas de opinião indicaram que mais uma vez a multidão era significantemente mais rica, mais branca e com maior educação formal do que a média dos brasileiros”. Nolen afirmou algo similar: “A meia-dúzia de grandes demonstrações de movimentos anti-corrupção no passado foram dominadas por manifestantes brancos e de classes altas, que tendem a apoiar a oposição representada pelo PSDB e a ter pouca apreciação pelo partido trabalhista de Rousseff”.

No último final de semana, quando uma grande massa de protestos anti-Dilma tomou diversas cidades brasileiras, uma fotografia de uma família se tornou viral, um símbolo do que esses protestos realmente são. Mostrava um casal branco e rico vestidos com adereços anti-Dilma que caminhava com seu cachorro de raça, acompanhados pela babá negra – vestindo o uniforme branco que muitas famílias brasileiras ricas exigem que suas empregadas domésticas usem – empurrando um carrinho de bebê com os dois filhos do casal.

Como Nolen apontou, essa foto se tornou uma verdadeira síntese, da essência altamente ideológica desses protestos: “Brasileiros, que são hábeis e rápidos com memes, repostaram a foto com centenas de legendas sarcásticas, como ‘Apressa o passo aí, Maria, nós temos que ir ao protesto contra o governo que nos fez pagar um salário mínimo para você’”. 

ACREDITAR QUE AS FIGURAS políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância. Para começar, as partes que seriam favorecidas pelo impeachment da Dilma estão pelo menos tão envolvidas quanto ela por escândalos de corrupção. Na maioria dos casos, até mais.

Cinco dos membros da comissão de impeachment estão sendo também investigados por estarem envolvidos no escândalo político. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um mandato de prisão da Interpol e não pode sair do país há anos; ele foi sentenciado na França três anos atrás por lavagem de dinheiro. Dos 65 membros do comitê de impeachment do congresso, 36 atualmente enfrentam processos judiciais.

No congresso, o líder do movimento pelo impeachment, o extremista evangélico Eduardo Cunha, foi apontado como dono de múltiplas contas secretas em bancos na Suíça, onde ele guardava milhões de dólares que os promotores acreditam ser dinheiro recebido como suborno. Ele também é alvo de múltiplas investigações criminais em andamento.

Enquanto isso, o senador Aécio Neves, o líder da oposição brasileira que foi derrotado por muito pouco na eleição contra Dilma em 2014, teve pelo menos 5 denúncias diferentes de envolvimento com escândalos de corrupção. Uma das mais recentes testemunhas favoritas dos promotores acusou-o de aceitar suborno. Essa testemunha também implicou que o vice-presidente do país, Michel Temer (PMDB), iria substituir Dilma caso ela fosse cassada.

E ainda tem o recente comportamento do juiz que está liderando a investigação de corrupção e tornou-se um herói popular por sua atuação agressiva durante as investigações de algumas das maiores e mais poderosas figuras políticas do país. O juiz, Sérgio Moro, essa semana efetivamente divulgou para a mídia uma conversa gravada, extremamente vaga, entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras forças anti-PT imediatamente retrataram como criminosas. Moro divulgou a gravação da conversa apenas algumas horas depois de ter sido feita.

Mas a conversa gravada foi liberada pelo juíz Moro sem nenhum processo e, pior, com claras intenções políticas, não judiciais: ele estava furioso, uma vez que sua investigação sobre Lula seria finalizada pela nomeação dele ao gabinete de ministro feita por Dilma (ministros só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal). O vazamento planejava humilhar Dilma e Lula e dar vazão para protestos nas ruas, e, no entanto, acabou recebendo críticas, inclusive de seus próprios fãs, de que estava abusando de seu poder e tornando-se uma figura política. Pior, a gravação em si parece ter sido ilegalmente obtida porque foi feita depois que o mandado que autorizada as escutas, expedido por Moro, expirou. O presidente da Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro (OAB/RJ), Felipe Santa Cruz, chamou a ação de Moro de “um nauseante constrangimento”.

Tudo isso deixa claro o alerta e o perigo de que a investigação criminal e o processo de impeachment podem não ser exercícios legais para punir líderes criminosos, mas mais uma arma anti-democrática usada por adversários políticos para remover uma presidenta democraticamente eleita. Esse perigo ficou nitidamente em destaque ontem, quando foi revelado que um juiz que emitiu uma ordem de bloqueio a nomeação de Lula ao gabinete feita pela Dilma tinha postado mais cedo no seu Facebook inúmeras selfies dele marchando num protesto contra o governo no final de semana. Como Winter escreveu, “Convencer o público de que o judiciário brasileiro está ‘em guerra’ com o Partido dos Trabalhadores é uma tarefa mais fácil agora do que duas semanas atrás”.

Não há dúvida de que o PT é repleto de corrupção. Existem sérios indícios envolvendo o Lula que merecem ser investigados de maneira imparcial e justa. E o impeachment é um processo legítimo em uma democracia quando provado que o suspeito é culpado de vários crimes e a lei deve ser seguida claramente quando o impeachment é efetuado.

Mas o retrato emergindo no Brasil em volta do impeachment e os protestos nas ruas são bem mais complicadas, e muito mais ambíguas, do que vem sendo dito. O esforço para remover Dilma e seu partido do poder lembram mais uma clara luta anti-democrática por poder do que um movimento genuíno contra a corrupção. E pior, foi armado, projetado e alimentado por várias forças que estão enfiadas até o pescoço em escândalos políticos, e que representam os interesses dos mais ricos e mais poderosos segmentos sociais e sua frustração pela falta de habilidade em derrotar o PT democraticamente.

Em outras palavras, tudo isso parece historicamente familiar, particularmente para a América Latina, onde governos de esquerda democraticamente eleitos tem sido repetidamente removidos do poder por meios não legais ou democráticos. De muitas maneiras, o PT e Dilma não são vítimas que despertam simpatia. Grandes segmentos da população estão genuinamente irritados com ambos por várias razões legítimas. Mas os pecados deles não justificam os pecados dos seus antigos inimigos políticos, e certamente não tornam a subversão da democracia brasileira algo a ser celebrado.

Colaborou: Cecília Olliveira

The Intercept


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