quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

jão(do ratos, citando rui barbosa): "não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem"

Foto: Gibran Mendes
“Foi um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobre tem que andar de ônibus, tem que se foder, engraxar o sapato deles e servir a comida deles. Rui Barbosa dizia não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

Com essa frase João Carlos Molina Esteves, 55 anos, ou simplesmente Jão, guitarrista do Ratos de Porão e do Periferia SA, resume o cenário político do Brasil após o golpe que colocou Michel Temer na presidência da república. Fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk no Brasil, Jão atendeu a reportagem do Porém.net horas antes de um show do RDP no Jokers Pub, em Curitiba.

A formação atual com Jão na guitarra, João Gordo no vocal, Boka na bateria e Juninho no baixo é a com mais longevidade ao longo dos 36 anos de carreira do Ratos. Depois de tantas mudanças de integrantes (13 no total), Jão diz que a tolerância e o respeito as individualidades de cada um tem sido a fórmula. “São três veganos e eu sou o açougueiro da banda”, brinca o guitarrista, que é um dos sócios do Underdog, um bar-restaurante em São Paulo especializado em carnes. O prato principal é a parrilla argentina.

Veia operária que permanece ativa no RDP, Jão falou da ascensão do fascismo, da extrema direita e personagens caricatos como Jair Bolsonaro, ao qual classifica como uma ‘toupeira’. “Tem um monte de filha da puta que tem orgulho de um cara deste. Devem se identificar pela toupeirice. Discuto nas redes sociais com esses babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. Os Bolsominions da vida, esses escrotos que seguem MBL. Tem até punk que gosta de Bolsonaro. Um cara deste não está entendendo porra nenhuma”.

Esse cenário político atual deve inspirar o próximo projeto do Ratos de Porão, como antecipa o guitarrista. “Estamos terminando de compor, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem”. O último álbum lançado pela banda foi Século Sinistro, em 2014. Confira a entrevista na íntegra:

São 36 anos de carreira. Como manter a mesma pegada, atravessando gerações de fãs?
O Ratos de Porão nunca criou expectativa de sucesso, de exposição em mídia. A própria correria foi mantendo a coisa viva. Não somos uma banda popular nem dentro do rock, mas temos um público fiel no mundo inteiro. Isso é gratificante. É legal você ver um cara da Sérvia, por exemplo, que vai no seu show e diz: escuto sua banda faz tempo. Tem isso e tem o fato da gente gostar do que faz, isso é o que mantém a banda viva. A gente vê muita banda que pinta e depois de um ano some. Vamos pegar um exemplo daquela época das bandas emo, o Restart. Os caras fizeram sucesso, talvez ganharam em um ano mais do que eu ganhei na vida inteira, mas os caras não conseguem viver sem aquilo, sem grana e as facilidades que o sucesso traz. A gente já teve exposição em mídia, o Gordo já foi apresentador da MTV, mas isso para o Ratos nunca foi um retorno positivo. Somos uma banda que veio do punk, então o fato do vocalista trabalhar na TV não trouxe sucesso, pelo contrário, trouxe cobrança ideológica. A banda sempre tentou manter-se a parte disso, inclusive o Gordo.

O Ratos passou por mudanças de integrantes e do som da banda. Fale dessas transformações e cobranças que receberam.
O lance da cobrança do estilo musical já foi pior, pois às vezes é difícil para algumas pessoas assimilarem. Queira ou não, o Ratos deu a cara para bater, deu um passo a frente, ninguém estava misturando punk com metal quando a gente começou. Da parte do punk sempre teve aquele lance dos caras torcerem o bico. O Ratos sempre fez discos diferentes um dos outros, sempre mantendo o estilo da banda. Óbvio que teve outros ingredientes que foram somados a nossa música, influências diversas também. Tem banda como ACDC, Motorhead, Ramones, Cólera, que podem ficar tocando a mesma coisa a vida inteira e se sentir bem com isso. Não é meu caso. Gosto de fazer coisas que sejam relevantes para mim em primeiro lugar.

E o que tem escutado?
Tem uns estilos que meio que doem no saco, bandas nessa linha tipo Slipknot, tem umas guitarronas e tal, maior visual maneiro, mas eu não consigo parar para ouvir. Não sei se estou ficando um velho chato. Quando eu pego coisa nova para ouvir é banda tipo Slayer, que lança sempre disco bom, Napalm Death, Testament, Exodus. Não são bandas novas, são discos novos. Citei o new metal, que o cara vai cantando meio ‘amorosozinho’ e depois vai ficando ‘raivosão’. Sei lá, prefiro ouvir um Johnny Cash.

Como é a relação com os demais integrantes do RDP?
Bem boa, viajamos junto para caralho. Viajamos mais juntos entre nós do que com as nossas famílias. Respeitamos as individualidades. Sou o único que não sou vegano. A gente tem nossa vida fora da banda e ninguém fica andando junto para lá e para cá. Fora do lance do Ratos, cada um tem sua vida e é bem diferente a vida de cada um. Isso é bom, pois na época lá de atrás, quando a gente do Ratos andava toda hora junto, tinha mais treta. Na época do Jabá [ex-baixista e um dos fundadores 1981-1993], do Spaghetti [ex-baterista 1981 a 1991]. A gente era jovem, louco para caralho, a banda tinha mais exposição. Quando a gente fez o Brasil [álbum lançado em 1989], a gente estava em gravadora grande, saía em revista, éramos um bando de punk louco sem noção. Era mais complicado, pois isso acaba desgastando.

Seu pai tinha uma oficina de pintura de carros, você trabalhou de motoboy, com Kombi em transportadora. Podemos considerar o Jão, a veia operária do Ratos?
Pode se dizer que sim. Hoje eu tenho um bar, que a especialidade é carne, a parrilla argentina. Isso criou uma piada dentro da banda de que o Ratos criou um açougue. Três são veganos e eu sou o açougueiro da banda. Venho de família operária, o rock me deu muita coisa, mas nunca me deu luxo. Consegui criar minhas filhas, viver e criá-las honestamente. Criar filho com rock no Brasil é meio foda, ainda mais com um som do tipo do Ratos.

Qual a diferença dos projetos e dos públicos do Ratos de Porão e do Periferia SA.?
O público do Ratos é mais eclético. Vai desde o pessoal do punk, do hardcore, do metal, até uns perdidos que falam que é a banda do João Gordo. Já o Periferia é algo mais direcionado musicalmente, não é tão eclético. Fazemos um punk de protesto, hardcore old school. Essa é a nossa pegada. Muita gente que não vai no show do Periferia, vai no show do Ratos. E tem gente que vai no Periferia e não gosta do Ratos.

Vocês foram precursores do punk no Brasil e na época havia rivalidade entre os punks de São Paulo (capital) e do ABC. Fale desse período.
Era uma treta de gangue bairrista, uns se achavam mais punk que os outros. Quando entrei no punk eu nunca tinha ido para o ABC. Pelo fato do ABC ter as empresas multinacionais, as indústrias, tinha muito punk working class, mais tinha muito skinhead, aquele lance nacionalista. E isso também era motivo de briga. No fundo acho que todo mundo gostava de brigar e de ter uma treta. Eu particularmente, o Jão, nunca tive nada com os caras. Eu até achava que tinha umas bandas do ABC bem mais fodas que as de São Paulo, tipo o Áustria. Quando teve o Começo do Fim do Mundo [festival punk em 1982], no Sesc Pompéia, foi tenso, pois juntou todo mundo, juntou punks de São Paulo e do ABC pela primeira vez. O clima era de que iria dar merda. Os caras do ABC achavam que a gente era playboy, mas não tinha playboy, a gente era da periferia de São Paulo. Subúrbio e periferia é tudo a mesma coisa, gente excluída da sociedade. Hoje já tem o lance ideológico, do tipo: sou vegano e não ando com você, sou anarcopunk e não ando com você, sou crust e não ando contigo.

Quais as histórias mais bizarras que lembra nestes 36 anos?
Coisas bizarras acontecem sempre. Mas tem umas coisas que são bem loucas, se puxar no Youtube vai achar lá “Ratos: bolt of love”, a gente tocando em um barco do amor em um lago na Finlândia. A gente tocando e o barquinho chacoalhando. Esse ano fizemos uma turnê latino-americana em lugares que nunca tínhamos ido. Costa Rica, El Salvador. É louco ver que a gente tem público lá. Na Bolívia, por exemplo, teve um show com uns moleques que tinham umas camisetas escritas Ratos de Porão a mão, pois os moleques não tinham dinheiro para comprar e acho que nem chegava nosso material lá. Isso é louco, pois remete a minha adolescência. Tinha umas camisetas escritas “vida ruim”, “Ratos de Porão”. Me identifiquei para caralho. Hoje, mesmo com esse mundo globalizado, tem um monte de excluído. Se marcar está pior. A evolução é relativa.

Em 1989 vocês lançaram Brasil, com clássicos como Amazônia Nunca Mais, Farsa Nacionalista, Máquina Militar, Crianças Sem Futuro. Trace o Brasil de 1989 e o Brasil atual?
O momento atual do Brasil como sociedade está bem estranho. Não sei até que ponto as redes sociais influenciaram nisso. Hoje em dia tem um monte de filha da puta eleitor do Bolsonaro que tem orgulho disso, orgulho de um cara que é a maior toupeira. Se identificam pela toupeirice entre o candidato e o eleitor. Discuto nas redes sociais com uns babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. O mundo tem muita informação hoje, na minha época você tinha que correr atrás da informação. Era através de livros, livro te salvava. Hoje os idiotas compram ideias prontas. A política no Brasil está bizarra, a eleição do ano que vem é um negócio temeroso. As opções são brutas, até Luciano Huck tentaram lançar. Depois do golpe, pois isso foi um golpe, um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobres tem que andar de ônibus, tem que se foder,  engraxar o sapato deles, servir a comida deles. Olha o Temer, eu desejo muito mal para esse verme filho da puta. Onde está aquela galera que estava fazendo dancinha na Paulista pintado? Onde está essa gente? Essa galera não está se sentindo enganada? Não é possível, o preço da gasolina para mim é o mesmo que para eles. Olha esse lance trabalhista [reforma trabalhista], eu não sou empregado, mas no meu bar eu tenho várias pessoas registradas. Eu não concordo com isso ai e não vou fazer isso com os caras que trabalham para mim. O bagulho foi um crime, um roubo, uma exploração.

E o Dória?
Putz, o Doriana é triste hein malandro! Os caras pensaram que ele iria colocar todo mundo de camisa polo Ralph Lauren na escola, caviar na merenda, vai vendo. O cara é um patife, um marqueteiro. Nunca cuidou nem da conta corrente dele, não sabe administrar nada. É capaz de um bosta deste tentar ser candidato. Quem votou no cara lá em São Paulo não quer dar o braço a torcer, assim como a galera que apoiou o golpe. Os caras tem tipo orgulho, jamais vão admitir que estão errados. O cara burro não admite nunca, ele vê que a gasolina está mais de quatro contos, vê os direitos trabalhistas roubados, vê professor não ganhando salário, mas não admite a merda toda. Pega o Alckmin, outro patife da pior espécie. Já dizia Rui Barbosa, “não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

A repressão, a violência policial, sempre estiveram nas letras do Ratos. Diante do atual cenário, para onde podemos caminhar?
Acho preocupante todo esse lance de repressão. Eu sempre posto lá [Facebook], a polícia militar tem que acabar, porque esse formato aí é da ditadura. Estamos no mesmo nível daquela época, vai professor protestar porque não está ganhando salário e leva bala de borracha, spray de pimenta no olho. Quando eu posto isso sempre vem os Bolsominions dizer: “quem tem medo de polícia é bandido (sic)”. Essas frases prontas. Não sou bandido, mas sou cabreiro com a polícia sim.

Quando o Ratos estava prestes a completar 30 anos foi lançado o documentário Guidable. Recentemente vocês fizeram um show com outras bandas, como Resto de Nada, Mercenárias, AI-5, em comemoração aos 40 anos do punk rock. E para os 40 anos do RDP, o que vislumbrar?
Quando o Ratos fez 30 anos eu juntei quase todo mundo que tocou no Ratos, faltou só o Pica Pau [ex-baixista 1995 a 1999]. Era para ter saído um DVD disso ai. Contamos a história da banda através da discografia com as formações da época. Mas deu merda no áudio e desistimos de lançar. Sobre os 40 anos têm quatro anos para gente pensar, mas vamos comemorar de alguma forma sim.

Vocês estão no estúdio compondo?
Estamos terminando de compor, mas cada um tem sua vida, seus projetos paralelos, mas estamos querendo fazer disco novo por aí, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem. O Ratos sempre foi chato com a gente mesmo neste lance de composição. A gente vai gravar o disco na certeza que tem que estar legal. A gente prefere demorar um pouco mais para lançar um disco ao invés de fazer um bagulho nas coxas.

Nestes 36 anos de banda, se pudesse voltar no tempo, o que faria diferente?
Não fumaria crack. Isso atrasou meu lado, perdi amigos. Vida pessoal ficou na merda, devendo para traficante. Mandamos o Jabá embora da banda, que era o fundador junto comigo. Esse tipo de coisas. Essas cagadas se eu não pudesse fazer seria bem melhor. Foi uma fase bem crítica, não sei como a banda não acabou e até conseguiu produzir coisas.

por Júlio Carignano

porém.net







terça-feira, 7 de novembro de 2017

100 Anos Hoje.

Em sua autobiografia, Leon Trotski escreveu um capítulo intitulado “A noite que decide”. Nele, o criador do Exército Vermelho descreve os eventos que ocorreram em Petrogrado na madrugada do dia 24 para 25 de outubro de 1917, ou 6 para 7 de novembro, segundo o calendário ocidental moderno, e que levaram à tomada do poder na Rússia pelos sovietes: a calmaria das ruas, a chuva fina e gélida, os soldados se aquecendo junto às fogueiras, a silenciosa, porém massiva e firme, movimentação das tropas, a conversa que o próprio Trotski e Lenin tiveram enquanto descansavam no chão de uma sala empoeirada do Instituto Smolni, sede do Soviete de Petrogrado e muitas outras cenas.

Ao conversarem sobre o futuro, Lenin e Trotski conversavam sobre todos nós e sobre nossas vidas. O século 20 é fruto da Revolução Russa. A eliminação da propriedade privada e do mercado capitalista permitiu à Rússia se transformar completa e absolutamente. Em menos de 20 anos, um país agrário e iletrado se tornou uma das maiores potências do mundo. A Rússia revolucionária conheceu um florescimento científico, cultural e político que poucos países já conheceram. A União Soviética foi o primeiro país do mundo a colocar um objeto sintético em órbita, o satélite sputnik, em 1957; o primeiro país a colocar um ser vivo complexo no espaço, a cadelinha Laika, também em 1957; o primeiro país a colocar um homem no espaço, Iuri Gagarin, em 1961; o primeiro país a colocar uma mulher no espaço, Valentina Terechkova, em 1963; o primeiro país a enviar com sucesso uma sonda para a Lua, a sonda Luna, em 1966; o primeiro país a enviar com sucesso um objeto para outro planeta, a sonda Venera, que pousou e enviou fotografias de Vênus em 1967. Foram tantos “o primeiro país do mundo…” que nenhum editorial é capaz de expressar.

A URSS resolveu problemas sociais extremamente complexos, acabou com a analfabetismo, com o desemprego, garantiu moradia, educação, saúde e aposentadoria digna para 100% da população. Maiakovski, Pasternak, Bubka, Barichnikov, Tsvetaieva, Terechkova, todos eles são filhos e filhas da revolução, mesmo que não sejam seus contemporâneos e mesmo que fossem, em seu tempo, críticos a ela. Simplesmente, porque são filhos e filhas do século 20.

A Revolução Russa foi também uma revolução nos costumes, direito ao divórcio, ao voto feminino, descriminalização do aborto e da homossexualidade, igualdade no mercado de trabalho e nos salários para homens e mulheres, fim do poder patriarcal nas famílias.

O exemplo da União Soviética amedrontou os poderosos no mundo inteiro e provocou uma onda de entusiasmo entre os explorados, que se propagou pelo mundo inteiro por quase setenta anos. A resposta alemã à “ameaça soviética” foi o nazismo, derrotado heroicamente pela própria União Soviética, e não pelos Estados Unidos, como nossa educação semi-colonial tenta fazer crer. Mas, a luta contra o nazismo teve um custo, 27 milhões de vidas soviéticas. Se não somos uma colônia nazista de escravos hoje, agradeça à União Soviética e ao seu povo. Depois da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo mudou de tática, entregou os anéis para não perder os dedos. Em vários países, foram aprovadas legislações democráticas, trabalhistas e de direitos sociais que visavam evitar a radicalização da vida política e afastar, com isso, o perigo de uma revolução socialista. As férias, o 13º salário, a Previdência Social e a educação pública gratuita no Brasil não são “o lado humano do capitalismo”. São frutos indiretos da Revolução Russa.

Como aconteceu em muitas revoluções, surgiram os oportunistas e os traidores. Jurando lealdade aos ideais revolucionários, Stalin fuzilou os homens e mulheres que fizeram a revolução. Stalin feriu a Revolução Russa, mas não conseguiu matá-la. O regime político altamente democrático dos primeiros anos degenerou em uma ditadura sangrenta, mas as conquistas sociais dos sovietes permaneceram vivas ainda por algum tempo. Passaram-se 70 anos até que a burocracia soviética se sentir forte o suficiente para passar, da condição de “administradora”, para a de proprietária das riquezas produzidas pelo povo. Vieram Gorbatchov, Ieltsin, a máfia, a tragédia econômico-social dos anos 90 e, finalmente, Putin.

Todo o século 20, tudo o que conquistamos, tudo que somos hoje foi decidido naquela noite, pelos soldados à beira das fogueiras, pelos operários que ocupavam as estações de trem e pontes de Petrogrado, pelas operárias que passavam de quartel em quartel convencendo os últimos indecisos, pelos marinheiros do cruzador Aurora, pelo gênio estratégico de Lenin e pela agudez tática de Trotski, conversando no chão de uma sala empoeirada do Instituo Smolni. Naquela noite, há cem anos.

Saiba mais sobre a Revolução Russa (Nota do blog: os links abaixo remetem ao site Esquerda On line - de onde tirei, aliás, o texto acima, que não está assinado, é um editorial. Têm uma linha de pensamento trotskista. Simpatizo, mas não sou - trotskista. Aproveito então para recomendar também uma excelente palestra com Valter Pomar que, a meu ver, tem uma visão bastante equilibrada do processo, com alguns questionamentos pertinentes à visão trotskista dos fatos - está disponível AQUI):


O espectro de Outubro: A russificação do mundo, um século depois
Três paradoxos incômodos e um falso problema no centenário da revolução russa
Cem anos da Revolução Russa: A entrada de Leon Trotsky no Partido Bolchevique
A revolução russa e o protagonismo das mulheres 
Cem anos depois: Quem são, hoje, os adversários de 1917?
As jornadas de julho 
A revolução russa e as LGBTs
10 livros em Português para entender a revolução russa
100 anos da revolução russa: resgatar no passado uma promessa de futuro
Os escritos de Trotsky e os cem anos que abalaram o mundo
Os processos de Moscou: o extermínio da velha guarda do partido bolchevique pelo Stalinismo
O menchevismo de Stalin e Vyshinsky venceu nos processos de Moscou, não na história do proletariado
Reflexões às vésperas de um centenário 
Outros outubros virão

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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

China Miéville e o "romance sem ficção" da revolução russa

China Miéville é quase um Maiakóvski inglês. Assim como o poeta que revolucionou o verso russo e cantou a insurreição comunista de outubro de 1917, Miéville se divide entre a literatura e a militância política. Ele é um premiado autor de ficção científica. Seus volumosos romances são apinhados de monstros, alienígenas, seres mitológicos e luta de classes. Também é um estudioso do marxismo, doutor em Direito Internacional pela London School of Economics e militante do Partido Trabalhista britânico. Em seu livro mais recente, Miéville combina suas duas paixões: Outubro (Boitempo, 384 páginas, R$ 59), recém-­publicado no Brasil, narra, mês a mês, os eventos que culminaram na Revolução Russa. Ao contrário dos outros livros de Miéville, Outubro não tem uma linha sequer de ficção nem um único personagem inventado. Em entrevista a ÉPOCA, Miéville contou como foi escrever um romance sem ficção e refletiu sobre os dilemas da esquerda contemporânea, que não sabe direito como olhar para a revolução bolchevique.


ÉPOCA – Como foi para um autor de literatura fantástica escrever um livro de não ficção?
China Miéville
Difícil. Eu estava muito nervoso. Segui uma regra bastante rigorosa: não podia inventar nada. Estava ansioso pela recepção das pessoas que conhecem o assunto muito bem. Outubro foi escrito principalmente para quem não conhece a história, mas eu não queria que especialistas pensassem que eu não tinha feito meu dever de casa quando lessem. A recepção foi muito simpática. Valeu a pena. De tudo o que eu já escrevi, esse é o livro que me causou mais ansiedade, porque, embora seja uma história, e não uma discussão política, as questões políticas estão ali, tácitas.

ÉPOCA – Em Outubro, o senhor diz que não aborda essa história com neutralidade, que tem seus heróis e seus vilões. Como fez para não deixar que seus sentimentos pela Revolução Russa interferissem demais no texto?
Miéville –
Os escritores não são neutros, mas podem tentar ser justos. Há alguns personagens no livro de quem eu discordo politicamente ou que representam ideias às quais me oponho, mas que, ainda assim, são personagens fascinantes. Por outro lado, tentei não ser muito compassivo com figuras de quem estou próximo politicamente. O final do livro, por exemplo, é uma longa discussão sobre os erros da revolução. Não sou eu quem deve julgar quão bem-sucedido eu fui, mas posso afirmar que sempre estive muito consciente do problema e me esforcei muito para não ser injusto.

ÉPOCA – Sempre que o assunto é a Revolução Russa, surge a pergunta: como a revolução popular se transformou num Estado totalitário? O senhor tem alguma resposta?
Miéville –
Para mim, não há uma causa única que explique o que deu errado, mas uma complexidade de causas. A revolução foi cercada por todos os lados e houve tentativas deliberadas de destruí-la. Naquele contexto, algumas decisões tomadas pelos revolucionários não ajudaram as coisas a avançar. Por exemplo: em 1924, os bolcheviques desistiram de insistir que uma revolução socialista não pode ser bem-­sucedida em um só país, devido à integração da economia mundial. Naquele ano, ao perceber que a possibilidade da revolução internacionalista recuava, eles viraram esse argumento de ponta-cabeça e concluíram que, sim, o socialismo em um só país era possível. Para mim, isso foi uma catástrofe absoluta! Naquele momento de desespero, em vez de identificar com clareza o problema, eles preferiram se enganar, minimizando o problema.

ÉPOCA – Aqui no Brasil, depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, debate-se muito a reconstrução da esquerda. Recentemente, o filósofo Ruy Fausto, um renomado estudioso do marxismo, publicou o livro Caminhos da esquerda, no qual ele argumenta ser urgente a esquerda abandonar suas velhas patologias: populismo e tendências totalitárias e antidemocráticas. O senhor acredita que a esquerda deva se livrar de algumas patologias?
Miéville –
Com certeza há patologias. Só um sectário acharia que a esquerda não tem patologias para se livrar. Precisamos nos livrar de nossas patologias e discutir como seguir em frente, como criar o que chamo de “esquerda habitável”. Isso é crucial. Por meio de minha experiência, percebo na esquerda um certo sectarismo, uma brutalidade indesejada. É claro que há muita gente que não compactua com isso, mas são patologias que percebo, e acho que a esquerda não se esforçou o suficiente para se livrar delas. Eu mesmo já me envolvi em brigas feias no interior da esquerda britânica. Essas brigas sempre nos deixam absolutamente exaustos. É claro que vamos discordar, mas não precisamos conduzir nossa política sempre dessa maneira. Aliás, há bastante gente na esquerda, especialmente os mais jovens, que diz isso com seriedade, o que me dá muita esperança.

ÉPOCA – Atualmente, a esquerda discute muito a situação venezuelana. No Brasil, o PT apoia o governo antidemocrático de Nicolás Maduro. Recentemente, o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, disse que a violência é praticada tanto pelo governo quanto pela oposição. Qual deveria ser a postura da esquerda diante da crise venezuelana?
Miéville –
A esquerda pode começar não se aliando com os bastiões da direita que tentam proclamar a morte do chavismo e dos projetos populares na América Latina. Dito isso, acredito que nós, de esquerda, devemos enfrentar com pragmatismo e seriedade os problemas de Maduro e seu regime, que vêm cerceando a democracia. A esquerda não pode dizer que não há problemas ali. Há, no entanto, grupos na Venezuela que não se aliam de modo algum com Maduro e recusam esse tipo de chantagem política que diz que, se você não apoia o regime, você está dançando no ritmo do capital ou é um fascista. Esse tipo de chantagem deve ser rejeitada. Não posso, em sã consciência, alinhar-me com o regime de Maduro, mas isso não quer dizer que eu apoio a oposição. Precisamos fortalecer as tendências minoritárias da esquerda venezuelana que estão comprometidas, acima de tudo, com a democracia popular.

ÉPOCA – Nos últimos tempos, o eleitorado de centro-­esquerda tem se voltado para candidatos populistas e de extrema-direita. Recentemente, o ex-chefe estrategista da Casa Branca Steve Bannon disse: “Se a esquerda estiver focada em raça e identidade, nós avançamos com o nacionalismo econômico e, assim, esmagamos os democratas”. Focar em questões raciais e de gênero em vez do antigo programa econômico estatizante é um erro das esquerdas?
Miéville –
É perigoso comprar essa narrativa que afirma que toda essa conversa sobre racismo alienou os pobres brancos. É um erro. Ignorar opressões estruturais e históricas, como o racismo americano ou o brasileiro, para não alienar a classe trabalhadora branca, é covardia política e falta de senso estratégico. Ignorar o racismo significa não lidar seriamente com a questão das classes sociais, porque classe social, raça e gênero estão imbricados. Seria um insulto ignorar um movimento como o Black Lives Matter, que provocou um impacto extraordinário na política americana. Mas, é claro, há maneiras melhores e piores de lidar com as políticas identitárias. Há muita gente na internet, uma esquerda de Twitter, que impõe essas plataformas de uma maneira que não ajuda ninguém.

ÉPOCA – Na eleição britânica, a esquerda radical conseguiu resultados surpreendentes, mas Jeremy Corbyn não foi eleito. Apostar no radicalismo pode ajudar a esquerda a voltar ao poder?
Miéville –
No mundo todo estamos assistindo a um colapso do liberalismo. Um programa radical pode, sim, vencer. É verdade que estamos nos estágios iniciais – se tivermos sorte – de um ressurgimento da esquerda. E não surpreende que a nova esquerda ainda não tenha conseguido superar décadas de desencanto popular com os políticos. Há uma montanha a escalar. Nos últimos meses, aprendemos que essa montanha pode, sim, ser escalada.

ÉPOCA – Na época do Brexit, o senhor afirmou que era difícil para a esquerda se posicionar sobre a saída dos britânicos da União Europeia, porque o voto anti-UE estava sendo patrocinado por uma onda de preconceito e xenofobia. Agora, parece haver muita ansiedade quanto aos impactos do Brexit na economia britânica. Como o senhor avalia a saída britânica do mercado comum um ano após o referendo?
Miéville –
O governo britânico está lidando com o Brexit sem nenhum programa ou tática. Os sonhos econômicos da direita anti-UE – uma espécie de parque de diversões no Atlântico – são mais que absurdos. E a direita xenófoba saiu fortalecida do referendo. O desejo nostálgico de muitos liberais de novo referendo, ou de simplesmente ignorar o resultado, é ridículo. A tarefa agora é – usando a fraseologia da esquerda do Partido Trabalhista – fazer um Brexit para muitos, não para poucos, contra o Brexit dos reacionários. É uma tarefa muito difícil, que acarretará muita dor e dificuldades, mas não é impossível. Vale a pena lutar.

por RUAN DE SOUSA GABRIEL

Época

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

E o pior, ao que tudo indica, ainda está pra acontecer ...

Talvez não exista momento mais propício do que este para se lembrar da frase de Adorno e Horkheimer, para quem há horas em que não há nada mais estúpido do que ser inteligente. A frase se referia à incapacidade de setores da sociedade alemã de encararem claramente os signos de ascensão do nazismo no começo dos anos 1930 e pararem de procurar explicações sutis e inteligentes sobre a impossibilidade de o pior ocorrer. Dificilmente raciocínio dessa natureza não se aplicaria ao Brasil atual.

De fato, nosso país tem ao menos a virtude da clareza. E foi com a clareza a guiar seus olhos redentores que o general Antonio Hamilton Mourão revelou aos brasileiros que as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil. Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o "caos" for iminente.

O "caos" em questão não é a instauração de um governo ilegal e brutalizado saído dos porões das casernas. Ao que parece, "caos" seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?

Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.

De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.

Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o "caos". Elas foram parte fundamental do caos.

É verdade que setores da sociedade civil sonham com mais um golpe como forma de esconder o desgoverno que eles mesmos produziram. Há setores do empresariado nacional que articulam abertamente nesse sentido, sonhando como isto não terem que se confrontar mais com uma população que luta pelos seus interesses. Para tanto, eles apelam ao artigo 142 da Constituição de 1988.

Este artigo fora, desde o início, uma aberração legislativa imposta pelos próprios militares. Ele legalizava golpes de Estado, da mesma forma que o artigo 41 da República de Weimar, que versava sobre o estado de emergência, permitiu a ascensão da estrutura institucional do nazismo. Segundo o artigo, se qualquer poder chamar as Forças Armadas para garantirem a ordem, se digamos o sr. Rodrigo Maia fizer um apelo às Forças Armadas porque há "caos" em demasia, o golpe está legalizado. Ou seja, é verdade, nossa Constituição tinha uma bomba-relógio no seu seio. Bomba pronta a explodi-la, como agora se percebe.

Contra essa marcha da insanidade, há de se lembrar que, se chegamos ao ponto no qual um general na ativa pode expor abertamente que conspira contra o poder civil, então cabe àqueles que entendem não terem nascido para serem subjugados pela tirania, que não estão dispostos a abrir mão do resto de liberdade que ainda têm para se submeter a mais uma das infindáveis juntas latino-americanas, prepararem-se para exercer seu mais profundo direito: o direito de resistência armada contra a tirania.

Que os liberais se lembrem de John Locke e de seu "Segundo Tratado sobre o Governo". Que os protestantes se lembrem de Calvino e de sua "Instituição da Religião Cristã". E que o resto se lembre que a liberdade se defende de forma incondicional.

por Vladimir Safatle

F(a)lha

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Margareth Tatcher sorri no inferno ...

Superestimamos as possibilidades com as vitórias de Hugo Chávez, Nestor Kirchner, Jose Mujica, Lula e tantos outros. Nosso segundo engano veio com a crise financeira norte-americana de 2008. Esses eventos políticos, econômicos e sociais transmitiram a sensação de que as ideias formuladas e propagandeadas desde Washington para o mundo estavam mortas.

Ledo engano, apesar das conquistas sociais e da exuberância do ciclo político de tentativas de distribuição de renda, riqueza e oportunidades na América latina. As ideias de Washington nunca morreram e nunca morrerão enquanto o capitalismo existir.

Nos últimos 20 anos, entretanto, as vitórias na América Latina de candidatos democratas e progressistas (com influência e participação da esquerda) foram reações políticas bem-sucedidas. Demostraram alguma capacidade de resistência ao rolo compressor reorganizado no programa chamando de Consenso de Washington de 1989.

Por outro lado, o terremoto financeiro de 2008 representou apenas dores de crescimento do projeto de Washington. A crise ocorreu (e ainda permanece) porque os capitais financeiros abundantes buscavam novos mercados para dar continuidade ao seu processo de acumulação continuada e acelerada.
A turbulência iniciada em 2008 não foi uma crise do projeto de Washington que demonstrou uma fraqueza teórica ou econômica do seu pilar. Muito ao contrário, era uma crise que revelava quão forte era o seu pilar. O poderio econômico monstruoso é o pilar do projeto de Washington.

Começamos uma nova era do capitalismo nos anos 1980, com as reformas propostas por Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Tais propostas de mudanças foram consagradas no programa batizado por John Williamson de Consenso de Washington. Essa é uma agenda alternativa ao programa socialdemocrata que havia vigorado de forma mais intensa a partir dos anos 1940. A socialdemocracia havia organizado um sistema de harmonia entre o capital e o trabalho.

No pós-segunda Guerra, os capitais foram regulados e, portanto, foi contida a busca voraz pela maximização de lucros. Em linhas gerais, houve a socialização dos ganhos do sistema via esquemas de tributação e geração de pleno emprego, o que resultou na ampliação de oportunidades sociais. Era marca da socialdemocracia a geração de empregos com condições dignas e salários generosos. A socialdemocracia é um programa político de contenção dos instintos capitalistas de concentração de renda, riqueza e oportunidades.

Oposição teórica e política à socialdemocracia e ao socialismo existia há décadas. Contudo, não existiam condições objetivas para uma reação do capital. Somente nos anos 1970 é que houve a desorganização econômica no Reino Unido e nos Estados Unidos. Houve desaceleração econômica, recessão e inflação. As condições objetivas econômicas degradadas, então, abriram espaço para a reação política do capital.

O movimento iniciado por Reagan-Thatcher sugeria a superação do modelo que propunha a regulação do capital, que distribuía renda e riqueza e multiplicava oportunidades para todos. Nos anos 1980, foi idealizado uma reorganização do capitalismo onde foram escolhidos os atores que seriam os campeões mundiais da reação e da dominação do capital. Foram escolhidos os mais fortes para que ficassem mais fortes ainda. Os candidatos naturais eram as megacorporações financeiras e produtivas, ou seja, os grandes bancos e multinacionais.

A consequência dessa opção política e econômica é uma opção de classe, pois o capitalismo organiza a sociedade em classes. Os donos do capital seriam favorecidos, os trabalhadores seriam empobrecidos e os pobres se tornariam miseráveis.

O programa estabelecido no Consenso de Washington é essencialmente econômico. É, no entanto, reconhecido na apresentação do consenso por Wiliamson um desejo maior de Washington. Desejavam a democracia, direitos humanos e preservação do meio ambiente em outros países.

Essa é uma das partes mais importantes do artigo de Williamson. O autor claramente indica que embora existam esses objetivos mais amplos, “...(eles) jogam diminuto papel na determinação das atitudes de Washington em relação às (formulações das) políticas econômicas...”  e que as políticas estabelecidas no programa não teriam “...implicações importantes para quaisquer daqueles objetivos”.

A mensagem é que o Consenso de Washington é um programa que pode ser implantado com democracia ou sem democracia, com preservação do meio ambiente ou com a sua destruição e com direitos humanos ou sem eles.

Na primeira onda de aplicação desse programa, chamada de onda neoliberal dos anos 1990, houve as primeiras entregas aos campeões mundiais: desregulamentação financeira, privatizações e redução de carga tributária para o grande capital e seus proprietários. Embora bem-sucedido na realização de entregas aos de cima, o efeito colateral daquela onda neoliberal foi uma enorme insatisfação popular. Seus executores prometeram prosperidade aos trabalhadores e pobres, mas somente entregaram realizações aos rentistas, às multinacionais e aos bancos.

O projeto de Thatcher, Reagan e do Consenso de Washington foi derrotado nas eleições presidenciais no Brasil nos anos 2000 e em diversos países da América Latina onde tinha sido aplicado. Apesar dos fracassos eleitorais, continuou seu movimento por diversas vias. Penetravam nos governos que faziam oposição, apoiavam movimentos de desestabilização desses governos, conquistaram as mídias locais, o Judiciário, a burocracia estatal e financiavam movimentos para ampliar a base política de oposição nas casas legislativas e na sociedade.

Embora pareça um pleonasmo, vale dizer que o principal motor do capital é o seu poderio econômico. Isso facilita a sua atividade em uma sociedade capitalista: é peixe na água. O capital utilizou o seu poderio econômico para se valer das táticas elaboradas por seus opositores. Foi e tem sido bem-sucedido. Trabalhou incessantemente para conquistar a hegemonia cultural dos seus valores à Antonio Gramsci. Fez estudos, agitação e propaganda tal como descrito no “O Que Fazer?” de Vladimir Lenin. São 30 anos de atividade militante diária do capital apoiada por trilhões de dólares.

A ideologia e a política do capital se infiltraram por todos os cantos, por todos os lados. Penetraram na consciência e nos sonhos de lideranças políticas e do cidadão comum. Os grandes bancos passaram, por exemplo, a comandar os resultados de pesquisas nos departamentos de economia das principais universidades norte-americanas (cenas constrangedoras foram registradas no documentário Inside Job, de Charles Ferguson).

Mais: mundo afora, partidos progressistas e de esquerda abandonaram a luta de classes e suas políticas de desconcentração da renda e da riqueza para abraçar pautas identitárias (mas continuam se autovalorizando e arrogantemente se autointitulando de esquerda pura).

A força do capital é tão grande nos dias de hoje que ela neutralizou ou anulou o campo político no qual a esquerda pode atuar. A democracia e os processos eleitorais serão utilizados se o candidato representante do capital tiver vitória garantida. A democracia e os processos eleitorais serão controlados, deformados ou suprimidos se houver chance de vitória de um candidato que não seja de confiança do capital.

A corrupção será combatida em nome da vitória eleitoral do candidato do capital. A corrupção será praticada se for para garantir a vitória do candidato do capital. O capital necessita apenas controlar os orçamentos governamentais e os recursos naturais. A política, as organizações partidárias, a democracia, as instituições, os Estados nacionais não são necessários ao capital para que os seus fins (descritos em dez pontos do Consenso de Washington) sejam alcançados.

O erro inicial dos estrategistas do Consenso de Washington foi pensar que poderiam conviver com a política e a democracia sem restrições. As derrotas que sofreram em quatro eleições presidenciais no Brasil e em vários outros países colocaram fim nessa ilusão. Desfeita a ilusão, viraram a mesa. Tal virada somente foi possível porque conquistaram corações e mentes (ou seja, obtiveram hegemonia cultural e política).

O capital, por meio da atuação das multinacionais e grandes bancos, estava invertendo há anos a curva de desconcentração de renda e riqueza do período 1945-1975. Não era fácil fazer tal interpretação à época (ao longo dos anos 1990 e 2000). E mais: ainda que fosse feita, a força do capital é avassaladora. Talvez, a trajetória fosse de maior resistência, mas não necessariamente de vitória sobre o capital.

Na segunda década do XXI, o capital avançou ainda mais sobre a América Latina e busca a sua consolidação política e ideológica. Em Honduras, Manuel Zelaya foi golpeado. Fernando Lugo foi derrubado no Paraguai. No Brasil, Dilma Rousseff também sofreu um golpe. Na Argentina, Cristina Kirchner foi derrotada nas eleições e é perseguida pelo Judiciário. No Uruguai, Jose Mujica teve que dar ênfase nas pautas de identidade.

No Equador, Rafael Correa não conseguiu reintroduzir o sucre, a moeda nacional. Na Venezuela, Hugo Chávez politizou as forças armadas e as massas e reorganizou o Judiciário. Os Estados Unidos reagiram e derrubaram o preço internacional do petróleo por meio do aumento da produção (interna e com uma aliança com a Arábia Saudita). Assim, deixaram o país em crise e aumentam o cerco. Nicolas Maduro resiste como pode.

E, no Brasil, a perseguição continua incessante: Lula é caçado por todos os lados.

Na nova era do capitalismo, o capital não aceita mais a política de conciliação com o trabalho. Nenhuma concessão é feita. A socialdemocracia não é mais aceita, nem a genuína, a europeia, nem a latino-americana do século XXI. O rolo compressor avança. O jogo é jogado sem regras. É vale tudo. É luta de classes cristalina pela concentração da renda e da riqueza por meio do controle de orçamentos públicos e dos recursos naturais.

por João Sicsú

#carta 


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

HEIL TRUMP!

O mundo assistiu paralisado às imagens dos protestos de grupos de extremistas na pacata cidade Charlottesville, no estado da Virgínia. A impressão era que a caixa de Pandora havia sido aberta. Grupos que pregavam a supremacia branca, suásticas nazistas, cruzes incandescentes, bandeiras dos confederados e do Tea Party. A imagem da Ku Klux Klan, antes desbotada pelo tempo, agora aparece colorida.
“Eu sou nazista, sim!”, gritava um homem. Essa frase estampou a manchete de vários jornais, deixando os leitores incrédulos. A intolerância e o ódio tornaram-se motivo de orgulho, de autoafirmação. Os casos particulares também chamam a atenção. Um jovem de 20 anos acelerou em direção a uma multidão, matando uma mulher e deixando outros 19 feridos. Outro garoto viajou mais de 4 mil quilômetros para participar do protesto. Todos jovens, todos com pouca experiência e pouca vivência. Mas todos cheios de certezas e em busca de justiça. Mas uma pergunta ficou sem resposta: justiça em relação a quê?
Os protestos foram convocados inicialmente para impedir a remoção da estátua do general Robert Lee. Lee lutou comandou o exército da Virgínia do Nortedurante da Guerra Civil americana. Nesse ponto é preciso cuidado, não vou aprofundar as explicações sobre quem foi essa figura obscura, porque isto não importa. O que aconteceu sábado pouco tem a ver com uma suposta “verdade histórica”. Mas era um embate político em torno da memória, que diz mais sobre o presente do que sobre o passado.
Monumentos históricos não são livres de disputas ideológicas. Muito pelo contrário, são resultados delas. Ao resolver demolir a estátua do general, o prefeito mexeu em feridas ainda não cicatrizadas. Em problemas que não estão resolvidos.
Este texto busca entender como a imagem de um general do exército confederado foi capaz de unir movimentos políticos aparentemente opostos como "libertários" e neonazistas. O que teria causado tanto ódio? Para responder essa pergunta é necessário, primeiro, entender as bases do conservadorismo norte-americano.

As origens do conservadorismo nos EUA


Já virou lugar comum dizer que os EUA são um país de imigrantes. Essa afirmação, sozinha, é tão verdadeira quanto inútil. Para compreendermos a sociedade americana é preciso ir além das generalizações. Ok, eles são um país formados por imigrantes. Mas qual o sentido e os efeitos desse fluxo de pessoas na conformação da cultura política do país? Essa pergunta é muito mais interessante e ilustrativa.
Segundo o historiador Roger Osborne, o principal efeito político de imigração foi o bipartidarismo. Ora, por serem um país de imigrantes, afirma Osborne, nenhum grupo tinha força suficiente para impor a sua agenda. Isso poderia levar a uma fragmentação ou poderia aglutinar esses grupos em duas grandes agremiações. Segundo o mesmo autor, as diferenças étnicas, culturais e raciais foram aos poucos perdendo espaço diante da crescente polarização. Essa afirmação precisa ser relativizada.
As culturas que formaram os EUA não chegaram ao mesmo tempo e não tinham o mesmo peso. O mito de origem americano começa num navio. Porém, ele não era uma “Arca de Noé cultural”, mas um pacto feito por ingleses puritanos enquanto partiam para o desconhecido. Ou seja, há um modelo bem definido do que seria o homem americano. Os imigrantes não vieram para compor um universo plural, mas precisavam se encaixar numa hierarquia predeterminada.
Com o tempo, essas fronteiras étnicas, que inicialmente eram bem demarcadas, foram sendo borradas. Assim, grupos radicais se agarravam cada vez mais às tradições e a um passado idealizado. Segundo o pensamento conservador, o verdadeiro americano seria sintetizado por uma sigla: WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant).
Portanto, ao contrário do que propõe Osbourne, as diferenças étnicas, culturais e raciais não foram perdendo espaço, mas elas criaram outra divisão, que de tempos em tempos emerge no debate político. Tal polarização é entre os grupos culturais que buscavam espaço e os chamados WASP que, guiados por um ideal mítico de sociedade, desejavam manter o modelo aristocrático.
Essa divisão nunca desapareceu por completo. Quando os manifestantes de sábado gritavam frases como “nosso solo” ou “nossa terra”, eram essas representações que eles estavam evocando. A defesa da cultura europeia/protestante e da supremacia branca está na origem do movimento conservador nos EUA.

A abolição da escravidão e os movimentos de supremacia branca



Em 1865, a Guerra Civil terminou. Os Estados do Sul estavam sob intervenção da União. O projeto dos vencedores era construir um novo pacto social capaz de unir um país totalmente polarizado. Os EUA não seriam mais um país de protestantes brancos, mas da liberdade individual. Local em que qualquer pessoas poderia progredir pelo mérito individual, independente da origem ou da cor da pele.
Houve uma série de mudanças legais. A Décima Terceira Emenda à Constituiçãohavia abolido a escravidão. Na teoria, todos os homens eram iguais. O Civil Rights Act conferia a brancos e negros os mesmos direitos. A Décima Quarta Emenda, 1868, estabelecia que qualquer pessoa nascida em território nacional seria considerada cidadão americano. Enquanto de Décima Quinta Emenda, 1870, afirmava que o direito de voto do cidadão era inalienável e não poderia ser suprimido em nenhuma circunstância, incluindo brancos e negros.
Mas o processo de integração do negro à sociedade não seria simples. Nenhum país passa por séculos de escravidão e sai impune. As heranças desse sistema são muito profundas e as feridas demoram séculos para cicatrizar. A esfera política é muito mais dinâmica que a cultural. As instituições mudam, assim como o sistema legal, mas os valores arraigados permanecem. O racismo e o ódio são o substrato mais perverso desse sistema político.
O negro era visto como inferior e não seriam algumas emendas constitucionais que mudariam tais convicções. É importante destacar que, apesar de ser mais forte no sul, o racismo era disseminado e amplamente aceito por toda a sociedade americana. Inclusive entre os abolicionistas. Ser contra a escravidão não é sinônimo de considerar brancos e negros iguais. Para que isso ocorresse levaria muito tempo. Ou melhor, como vimos recentemente, esse caminho ainda está distante do fim.
O conceito de liberdade é plástico e muitas vezes ele é usado para esconder formas de coerções. Conforme os Estados do Sul fossem recuperando a autonomia, os direitos civis dos negros iam sendo revistos.
As Leis de Jim Crow (1876–1950), que vigoraram por quase um século, impuseram um apartheid social. Negros e brancos não frequentariam os mesmos espaços públicos. A justificativa era que ambos eram livres, porém deveriam ser mantidos separados. Na prática, ao contrário do que o discurso sugere, tal legislação não separou o país em dois, mas serviu para institucionalizar o racismo, a segregação e para negar os direitos civis para boa parcela da população.
Os radicais americanos não estavam satisfeitos. Para eles, os negros serviam apenas como mão de obra; sem escravidão não haveria mais utilidade. Eles deveriam, portanto, ser eliminados ou expulsos. Movimentos fundamentalistas como a “Camélia Branca”, “Irmandade Branca”, “Associação dos 76” e a famosa “Ku Klux Klan” (KKK), datam desse período e pregavam abertamente a superioridade da raça branca.
A lógica da KKK era muito parecida com a do nazismo e nos ajuda a perceber a dinâmica do radicalismo. Ambos, KKK e nazismo, emergem após uma derrota militar — a Guerra Civil (no primeiro caso) e a Primeira Guerra Mundial (no segundo). Diante da frustração com a derrota e vendo o mundo em acelerada transformação, os fundamentalistas se agarravam às tradições. A um suposto passado glorioso. Ao comparar esse passado idealizado, mítico, com a realidade imperfeita do presente, chegava-se a uma conclusão bastante simples: a nação está se degenerando; culpa de certos grupos que não sabem o seu lugar e não respeitam as hierarquias naturais.
Essa é a estrutura mental dos movimentos radicais. Há uma ordem metafísica e perfeita que precisa ser respeitada. Esse modelo pode vir do passado idealizado, momento em que todos viviam em harmonia; de uma realidade transcendental, divina; ou de um futuro no qual se almeja. No nazismo, por exemplo, mais próximo do cientificismo (sem obviamente desconsiderar o forte componente mítico), a eugenia “provava” que os arianos eram a raça superior. No universo mental da KKK, mais místico, deus dera superioridade moral ao homem branco.
Se os arianos eram superiores, como explicar o caos que a Alemanha vivia nos anos 1930? O mesmo pode ser dito em relação à derrota dos confederados na Guerra Civil. A culpa naturalmente seria do outro. Dos grupos estigmatizados. Para os supremacistas brancos, a abolição havia quebrado a ordem natural, sendo os negros, que não respeitavam os desígnios divinos, os responsáveis pela degeneração social.
Essa lógica está presente em quase todos os movimentos extremistas. Invariavelmente, são grupos que acreditam ter uma verdade, seja de natureza divina, seja de origem científica. Porém, há um problema. Como uma verdade evidente só é reconhecida por uma pequena seita? A resposta desses movimentos é: há uma conspiração que impede os homens comuns de enxergarem a verdade. É nesse momento que os grupos estigmatizados são fundamentais para a organização do cosmos extremista.
No caso americano, haveria uma cultura superior que estaria sendo ameaçada por grupos inferiores, representado pela imagem do homem negro. O negro seria uma ameaça a toda a sociedade, pois ele carregaria o germe da degeneração social. Não bastaria, portanto, mantê-los segregados. Seria preciso subjugá-los e humilhá-los. Para redimir a afronta dessas pessoas e resgatar um equilíbrio idílico. No limite, eles deveriam também ser eliminados.
A KKK seria responsável por centenas de morte nas décadas seguintes. Alternando períodos em que era extremamente atuante e outros em que ela praticamente desaparecia. Segundo o historiador William Randel, a organização chegou a contar cinco milhões de membros na década de 1920. Auge do movimento.

O Movimento Conservador Radical e o Ultraliberalismo


A partir da década de 1930, a política americana sofre outra inflexão. Com o advento do New Deal, em resposta à crise de 29, o Estado de bem-estar social americano começa a ser formado e, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, há um predomínio do pensamento progressista dentro do país.
Isso obviamente não quer dizer que não havia conservadores. As políticas sociais, de matriz keynesiana, sempre causaram desconforto. Mas o mundo acabara de passar por um desastre e eram tais medidas que estavam atenuando os efeitos da crise. Ser contra o Estado de bem-estar social seria o mesmo que perder as eleições. Portanto, as críticas dos partidos eram muito tímidas. Definitivamente o pensamento conservador estava em baixa.
Porém, o incômodo aumentava conforme as medidas progressistas avançavam. Esse desconforto criou uma demanda reprimida por alternativas conservadoras. Isso ficou evidente quando, em 1951, um jovem de apenas 25 anos, Wiliam Buckley, publicou um livro intitulado “God and Man at Yale”. O livro não trazia nenhuma teoria sofisticada, na verdade ele não propôs nada, apenas reclamava da influência do pensamento keynesiano nas universidades e do afastamento dos princípios cristãos. A publicação, contudo, rapidamente se espalhou pelo país.
O livro de Buckley é importante, pois indica alguns aspectos daquilo que mais tarde seriam as marcas do novo conservadorismo radical. Primeiro, ele foi impulsionado por jovens insatisfeitos, que, orientados por uma cultura conservadora, sentiam-se excluídos do mainstream acadêmico e não eram representados pelos partidos políticos. Essas pessoas se apresentavam como outsiders.
Segundo, o forte financiamento. A falta de base social foi compensada desde o início pelos amplos recursos que esses grupos recebiam. Os empresários compraram essas ideias desde o início, pois viram nesses jovens insatisfeitos o caminho para a desregulação econômica, que obviamente os beneficiaria.
Em 1955, o mesmo Buckley fundou uma revista para disseminar as ideias conservadoras. Como Paul Krugman mostra, estudar o início do movimento é fundamental para entender as raízes do novo conservadorismo radical. No início, os conservadores não tinham a pretensão de disputar o espaço público, mas de criar uma identidade e um pensamento coerente capaz de dar unidade aos membros. Portanto, os assuntos eram tratados sem nenhuma forma de dissimulação.
Segundo Krugman, com o tempo, os conservadores desenvolveriam uma linguagem cifrada, inalcançável para pessoas de fora dos círculos extremistas: “Hoje figuras importantes da direita americana são mestres no que os britânicos chamam de apito de cachorro: eles dizem coisas que agradam a certos grupos de modo que apenas os grupos visados possam ouvir — e de modo que os extremismos da sua posição se torne óbvio para todos. (...) Reagan foi capaz de sinalizar simpatia pelo racismo sem nunca ter dito algo abertamente racista”.
Portanto, aquilo que mais tarde se autointitularia “movimento libertário”, que pregava uma política ultraliberal, desde a sua fundação estava próximo dos grupos racistas e autoritários. Nas páginas da National Review, por exemplo, há referências à superioridade da raça branca e elogios a ditadores, como o general espanhol Francisco Franco. “A comunidade branca do sul tem o direito de adotar as medidas necessárias para prevalecer, política e culturalmente, em área onde não predomina numericamente? A resposta sensata é sim. A comunidade branca tem o direito porque é a raça superior”. “O general Franco é um herói nacional. É amplamente admitido que ele, acima de outros, reunisse em si, a combinação de capacidade, perseverança e senso de justiça” (ambas as citações são da revista National Review e foram retirados do livro “A Consciência de Um Liberal”, do economista Paul Krugman).
A origem do “libertarianismo” (ou “anarcocapitalismo”) estadunidense, portanto, não está na luta contra a opressão, como alegam os adeptos da ideologia, mas no esforço de resgatar o modelo aristocrático de sociedade, que estava sendo abalado pela social democracia.
Essas são as afinidades entre os velhos conservadores racistas e o novo conservadorismo ultraliberal. Como a revista El Coyote mostrou, um dos fundadores dessa corrente, Murray Rothbard, além de racista e de defender a separação das raças, era admirador de David Duke, político ligado à KKK.
A contradição é apenas aparente. Como dissemos no início deste texto, o conceito de liberdade é plástico e pode esconder formas de coações. A santificação do mercado substituiu o racismo no discurso conservador. Os autointitulados “libertários” — cujo termo foi tomado dos anarquistas, admitido pelo próprio Rothbard; e que por tal razão passaremos a chamar de ultraliberais, termo mais apropriado para o que de fato sua ideologia significa — não idealizam o passado como os conservadores tradicionais, mas o futuro. Ou melhor, um futuro possível desde que as forças econômicas possam agir livremente.
Essa é a realidade metafísica dos ultraliberais. Se o mundo está longe do ideal é porque há uma conspiração que impede que tal modelo seja concretizado. Tal conspiração viria da “esquerda”, dos “keynesianos”, dos “marxistas”, dos “fascistas” e dos “totalitários”. Esses conceitos são arrancados do seu sentido original e empacotados sob o rótulo de “coletivismos”. São os coletivistas os responsáveis pela degeneração dos valores e pelo atraso econômico. Como podemos perceber, não estamos muito longe da mentalidade conservadora tradicional.
Como o economista André Guimarães Augusto destacou, os efeitos da política “libertária” são opostos à liberdade. Os ultraliberais defendem a propriedade privada como o único direito inalienável, sendo inclusive entendida como uma extensão do corpo individual. Ora, pessoas não possuem os mesmos bens, há ricos e pobres. Portanto, os indivíduos não seriam iguais, haveria aqueles com mais direitos. Ora, tal proposta nada mais é que uma representação de um modelo aristocrático de sociedade.
Segundo Murray Rothbard, as posses individuais seriam expressão da superioridade moral dos indivíduos. Eu poderia lembrar que ladrões também enriquecem; mas o objetivo não é discutir o pensamento desse autor, que tem mais furos que uma peneira, e sim as semelhanças entre os ultraliberais e os antigos conservadores. Assim, limito-me a destacar que esse argumento não está muito distante do conservadorismo tradicional, seja o racista, que pregava a superioridade moral da raça branca, seja o religioso, ou seja, da ética puritana da predestinação.
Rothbard chega a defender a escravidão como forma de pagamento de uma dívida. Segundo o autor, o direito a propriedade estaria acima da liberdade individual. Ora, era justamente esse o argumento dos defensores da escravidão no século XIX, que defendiam o direito individual de ter escravos, afirmando que o Estado não poderia intervir no direito à propriedade.
Foi tal embate que iniciou a Guerra Civil. Os estados confederados queriam a secessão justamente para ter o direito de legislar sobre o trabalho compulsório. Era essa a liberdade que os conservadores defendiam. Entenderam agora o motivo de tanta briga em torno da figura do general Lee? Os racistas admiram Lee pela defesa da escravidão; os ultraliberais, porque ele, “teoricamente”, lutou contra a “opressão” do Estado.
Como veremos, uma das estratégias desses grupos é a manipulação do passado para dar sentido teleológico às suas ideias. Se o pensamento ultraliberal é infalível, a realidade não pode desmenti-lo. Assim, há dois caminhos: ou recusa-se o método empírico (como fazem os ultraliberais da escola austríaca), ou constrói-se uma narrativa alternativa do passado, à imagem e semelhança da teoria.
Algumas pessoas chamam esse movimento de revisionismo. Este termo não é correto, pois eles não produzem uma interpretação alternativa, mas uma falsificação grosseira. Os Guias Politicamente Incorretos que viraram moda nos EUA, e recentemente chegaram ao Brasil, são o exemplo mais conhecido desse esforço.
Enfim, o discurso ultraliberal reafirma os valores conservadores para justificar o modelo social aristocrático.
Após construírem um corpo teórico coerente e de fácil assimilação, ainda faltava o segundo passo. Conquistar uma base social sólida e concorrer nas eleições. Em 1964, o movimento conservador radical assumiu o controle da convenção republicana. A candidatura de Barry Goldwater foi um fracasso eleitoral, mas eles aprenderam uma maneira eficiente de se comunicar com a população. Ronald Reagan, famoso ator e galã de cinema, e que futuramente seria eleito presidente pelo Partido Republicano, fez um discurso na televisão para a campanha de Goldwater. Nele, Reagan usava pela primeira vez uma estratégia que seria a marca desses grupos: a manipulação estatística para dar um falso embasamento científico às suas afirmações.
Os conservadores também passaram a financiar intelectuais para construir uma narrativa alternativa que, não raro, beirava o delírio. Milton Friedman foi um dos primeiros a iniciar essa tarefa. Para defender o liberalismo, seria necessário livrá-lo do seu maior carma, a Crise de 29. Nos anos 1960, Friedman desenvolveu uma interpretação para a Grande Depressão. Nela, o governo era apontado como o grande responsável pelo colapso. Segundo Krugman, tal afirmação beirava a desonestidade intelectual, mas não importava — não era a verdade que eles estavam buscando.
Nas décadas seguintes, os já referidos “Guias Politicamente Incorretos” dominariam o mercado editorial e massificariam tais ideias. Como Krugman destaca, os primeiros intelectuais ultraliberais, como Friedman e Kistrol, eram acadêmicos respeitados, que, antes de virarem propagandistas, construíram uma carreira sólida. Esse “pré-requisito” seria logo descartado. A ideia era simplificar e massificar. Discursos rebuscados teriam pouca utilidade. Ser conservador se tornou um ótimo negócio para intelectuais medíocres, que viam no pensamento ultraliberal a maneira de construir sua carreira e de lucrar com ela: “tornar-se um intelectual conservador passou a ser uma boa manobra para a carreira”. (Krugman).
A disseminação dos chamados think tanks também era parte do projeto. Estas instituições nasceram como centros de estudos. Após a década de 1970, elas começaram a adotar técnicas de marketing e a serem centros de propaganda do ultraliberalismo. Think tanks conhecidos atualmente, como a Heritage Foundatione o Cato institute, iniciaram suas atividade nesse período.
Nomes, antes esquecidos, como os do economista Ludwig von Mises, da “filósofa” Ayn Rand e do já citado Murray Rothbard foram resgatados do anonimato e alçados à categoria de grandes pensadores. As escolhas não foram ao acaso. Além de serem radicais, ao contrário dos rebuscados Milton Friedman e Irving Kristol, tais autores possuem um pensamento simplista, de rápida assimilação. Ideal para a massificação.
Enfim, há laços estreitos entre os chamados libertários e os antigos conservadores. E o ponto de convergência é justamente a defesa de uma sociedade aristocrática. Como vimos, a estrutura mental desse ultraliberalismo é essencialmente fundamentalista. Eles trabalham com a noção de verdade e possuem um adversário claramente identificável. O movimento conservador, portanto, deu nova vida ao extremismo americano. Mas ele, sozinho, não explica o atual recrudescimento da extrema direita. Para isso, é preciso olhar para fatos mais recentes.

Globalização e Recrudescimento do Conservadorismo


O início do século XXI é o auge desse processo iniciado nos anos 1950. Com a globalização, a informação passou a circular em ritmo acelerado. Logo os think tank ultraliberais, que antes precisavam disputar espaço nos jornais e revistas, tomariam conta das rede sociais com páginas próprias. E formando uma geração de jovens acríticos. Mas esse não foi o fator mais importante.
A atomização do sujeito e o individualismo exacerbado criam as condições adequadas para a proliferação do radicalismo. Esse fenômeno já vem sendo alertado há algum tempo por analistas mais sofisticados. Em 2010, portanto seis anos antes da vitória do republicano Donald Trump, o historiador Tony Judtescreveu: “As populações que sofrem com a crescente insegurança econômica e física se refugiarão nos símbolos políticos, recursos legais e barreiras físicas que apenas um Estado territorial pode oferecer”.
Durante muito tempo, o fascismo foi mal compreendido. O “totalitarismo” não advém do suposto agigantamento do Estado. O fascismo é um fenômeno que vem de baixo, das massas. Não é o governo que cresce até se tornar totalitário, mas o movimento que se espalha até tomar as rédeas da política. E isso ocorre no momento em que os homens percebem a sua fraqueza frente às vicissitudes da história.
O atomismo deixa o indivíduo vulnerável ao discurso fascista. A validade dessa afirmativa pode ser observada claramente no caso alemão. Os nazistas receberam um expressivo número de votos dos trabalhadores. Porém, diversas pesquisas têm demonstrado que os operários que haviam ingressado no nacional-socialismo eram justamente aqueles que não estavam sindicalizados e, portanto, mais vulneráveis aos efeitos negativos da crise econômica. Nos locais em que havia organização sindical estruturada, a resistência ao extremismo foi maior.
Outro fato fundamental para a compreensão da dinâmica do fundamentalismo é o que os nazistas chamavam de Lebensraum, ou seja, espaço vital. Essa acepção pode ter dois significados: o “espaço vital” pode ser tanto físico (área necessária para o desenvolvimento de um povo) quanto metafísico (relativo às condições necessárias para a reprodução de uma cultura ou de um modo de vida). A primeira acepção era muito forte no nazismo, por isso a política expansionista do Reich. No caso dos EUA, o segundo sentido também tem mostrado a sua força para impulsionar o fanatismo.
Desde os anos 1980, a fecundidade da população americana está em queda. Essa defasagem está sendo preenchida pela imigração. Em outras palavras, o percentual de brancos na população está caindo. Para os racistas e conservadores, esse fenômeno significa a decadência do país.
A “raça superior”, que desde o pacto do May Flower estava destinada a construir a maior potência mundial, está perdendo o controle para os povos “bárbaros”. Trata-se, portanto, de algo além do mero preconceito, trata-se de uma “luta pela sobrevivência”, de um “espaço vital capaz de preservar uma cultura superior da decadência trazida pelo multiculturalismo”. E claro que tais percepções são aguçadas em momentos de crise.
Esse era o sentido do discurso de campanha de Donald Trump. O republicano dizia que iria fazer a “América grande de novo”. Em vários comícios a palavra “grande” foi substituída por “branca” e o sentido das duas se confundia. Fazer a América grande era fazer a América branca e vice-versa. Era a este fato que os radicais de Charlottesville se referiam quando afirmavam que chegara o momento de cumprir as promessas da campanha.

Considerações Finais



Vou iniciar essas considerações finais apontando um erro proposital. O título deste artigo é um engano(NOTA DO BLOG: refere-se ao título original). Ele foi construído de forma maliciosa para chamar a atenção do leitor. O título correto seria: História da Extrema Direita Americana: da escravidão à escravidão.
Como vimos, o pensamento ultraconservador americano é muito diverso. Porém, há uma linha de coerência entre essas correntes: a defesa de uma sociedade aristocrática. E a raiz desse pensamento está na escravidão.
Paul Krugman concorda com essa hipótese: “uma mensagem chave e que muitos leitores podem achar incômoda, é que o conceito de raça está no âmago do que aconteceu no país em que cresci. O legado da escravidão, o pecado original americano, é a razão de nós sermos a única economia avançada que não garante assistência médica a todos os cidadãos”.
De fato, a mensagem do economista toca e incomoda. O país em que nós crescemos é muito diferente do dele, mas a escravidão também está no âmago da nossa cultura política. Isso ajudaria a explicar o motivo do pensamento ultraliberal ter tido tanta aderência no Brasil e ter provocado tanta fascinação.
Há cem anos, Joaquim Nabuco escreveu: “Não nos basta acabar com a escravidão; é preciso destruir a sua obra”. A estátua do general Lee era uma reminiscência da “obra da escravidão”. Por isso, ela suscitou paixões e ódios. Lutar contra esse passado é uma missão política e ética que precisa ser perseguida por aqueles que querem um mundo mais justo. Tanto lá quanto aqui, tal tarefa permanece inconclusa. Derrubar os monumentos que glorificam um passado bárbaro é uma medida importante, mas sozinha ela não basta. O caminho é longo, mas devemos continuar em frente, a despeito daqueles que recusam-se a aceitar o fim da escravidão.
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