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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

jão(do ratos, citando rui barbosa): "não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem"

Foto: Gibran Mendes
“Foi um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobre tem que andar de ônibus, tem que se foder, engraxar o sapato deles e servir a comida deles. Rui Barbosa dizia não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

Com essa frase João Carlos Molina Esteves, 55 anos, ou simplesmente Jão, guitarrista do Ratos de Porão e do Periferia SA, resume o cenário político do Brasil após o golpe que colocou Michel Temer na presidência da república. Fundador da lendária banda criada em 1981 em meio a explosão do movimento punk no Brasil, Jão atendeu a reportagem do Porém.net horas antes de um show do RDP no Jokers Pub, em Curitiba.

A formação atual com Jão na guitarra, João Gordo no vocal, Boka na bateria e Juninho no baixo é a com mais longevidade ao longo dos 36 anos de carreira do Ratos. Depois de tantas mudanças de integrantes (13 no total), Jão diz que a tolerância e o respeito as individualidades de cada um tem sido a fórmula. “São três veganos e eu sou o açougueiro da banda”, brinca o guitarrista, que é um dos sócios do Underdog, um bar-restaurante em São Paulo especializado em carnes. O prato principal é a parrilla argentina.

Veia operária que permanece ativa no RDP, Jão falou da ascensão do fascismo, da extrema direita e personagens caricatos como Jair Bolsonaro, ao qual classifica como uma ‘toupeira’. “Tem um monte de filha da puta que tem orgulho de um cara deste. Devem se identificar pela toupeirice. Discuto nas redes sociais com esses babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. Os Bolsominions da vida, esses escrotos que seguem MBL. Tem até punk que gosta de Bolsonaro. Um cara deste não está entendendo porra nenhuma”.

Esse cenário político atual deve inspirar o próximo projeto do Ratos de Porão, como antecipa o guitarrista. “Estamos terminando de compor, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem”. O último álbum lançado pela banda foi Século Sinistro, em 2014. Confira a entrevista na íntegra:

São 36 anos de carreira. Como manter a mesma pegada, atravessando gerações de fãs?
O Ratos de Porão nunca criou expectativa de sucesso, de exposição em mídia. A própria correria foi mantendo a coisa viva. Não somos uma banda popular nem dentro do rock, mas temos um público fiel no mundo inteiro. Isso é gratificante. É legal você ver um cara da Sérvia, por exemplo, que vai no seu show e diz: escuto sua banda faz tempo. Tem isso e tem o fato da gente gostar do que faz, isso é o que mantém a banda viva. A gente vê muita banda que pinta e depois de um ano some. Vamos pegar um exemplo daquela época das bandas emo, o Restart. Os caras fizeram sucesso, talvez ganharam em um ano mais do que eu ganhei na vida inteira, mas os caras não conseguem viver sem aquilo, sem grana e as facilidades que o sucesso traz. A gente já teve exposição em mídia, o Gordo já foi apresentador da MTV, mas isso para o Ratos nunca foi um retorno positivo. Somos uma banda que veio do punk, então o fato do vocalista trabalhar na TV não trouxe sucesso, pelo contrário, trouxe cobrança ideológica. A banda sempre tentou manter-se a parte disso, inclusive o Gordo.

O Ratos passou por mudanças de integrantes e do som da banda. Fale dessas transformações e cobranças que receberam.
O lance da cobrança do estilo musical já foi pior, pois às vezes é difícil para algumas pessoas assimilarem. Queira ou não, o Ratos deu a cara para bater, deu um passo a frente, ninguém estava misturando punk com metal quando a gente começou. Da parte do punk sempre teve aquele lance dos caras torcerem o bico. O Ratos sempre fez discos diferentes um dos outros, sempre mantendo o estilo da banda. Óbvio que teve outros ingredientes que foram somados a nossa música, influências diversas também. Tem banda como ACDC, Motorhead, Ramones, Cólera, que podem ficar tocando a mesma coisa a vida inteira e se sentir bem com isso. Não é meu caso. Gosto de fazer coisas que sejam relevantes para mim em primeiro lugar.

E o que tem escutado?
Tem uns estilos que meio que doem no saco, bandas nessa linha tipo Slipknot, tem umas guitarronas e tal, maior visual maneiro, mas eu não consigo parar para ouvir. Não sei se estou ficando um velho chato. Quando eu pego coisa nova para ouvir é banda tipo Slayer, que lança sempre disco bom, Napalm Death, Testament, Exodus. Não são bandas novas, são discos novos. Citei o new metal, que o cara vai cantando meio ‘amorosozinho’ e depois vai ficando ‘raivosão’. Sei lá, prefiro ouvir um Johnny Cash.

Como é a relação com os demais integrantes do RDP?
Bem boa, viajamos junto para caralho. Viajamos mais juntos entre nós do que com as nossas famílias. Respeitamos as individualidades. Sou o único que não sou vegano. A gente tem nossa vida fora da banda e ninguém fica andando junto para lá e para cá. Fora do lance do Ratos, cada um tem sua vida e é bem diferente a vida de cada um. Isso é bom, pois na época lá de atrás, quando a gente do Ratos andava toda hora junto, tinha mais treta. Na época do Jabá [ex-baixista e um dos fundadores 1981-1993], do Spaghetti [ex-baterista 1981 a 1991]. A gente era jovem, louco para caralho, a banda tinha mais exposição. Quando a gente fez o Brasil [álbum lançado em 1989], a gente estava em gravadora grande, saía em revista, éramos um bando de punk louco sem noção. Era mais complicado, pois isso acaba desgastando.

Seu pai tinha uma oficina de pintura de carros, você trabalhou de motoboy, com Kombi em transportadora. Podemos considerar o Jão, a veia operária do Ratos?
Pode se dizer que sim. Hoje eu tenho um bar, que a especialidade é carne, a parrilla argentina. Isso criou uma piada dentro da banda de que o Ratos criou um açougue. Três são veganos e eu sou o açougueiro da banda. Venho de família operária, o rock me deu muita coisa, mas nunca me deu luxo. Consegui criar minhas filhas, viver e criá-las honestamente. Criar filho com rock no Brasil é meio foda, ainda mais com um som do tipo do Ratos.

Qual a diferença dos projetos e dos públicos do Ratos de Porão e do Periferia SA.?
O público do Ratos é mais eclético. Vai desde o pessoal do punk, do hardcore, do metal, até uns perdidos que falam que é a banda do João Gordo. Já o Periferia é algo mais direcionado musicalmente, não é tão eclético. Fazemos um punk de protesto, hardcore old school. Essa é a nossa pegada. Muita gente que não vai no show do Periferia, vai no show do Ratos. E tem gente que vai no Periferia e não gosta do Ratos.

Vocês foram precursores do punk no Brasil e na época havia rivalidade entre os punks de São Paulo (capital) e do ABC. Fale desse período.
Era uma treta de gangue bairrista, uns se achavam mais punk que os outros. Quando entrei no punk eu nunca tinha ido para o ABC. Pelo fato do ABC ter as empresas multinacionais, as indústrias, tinha muito punk working class, mais tinha muito skinhead, aquele lance nacionalista. E isso também era motivo de briga. No fundo acho que todo mundo gostava de brigar e de ter uma treta. Eu particularmente, o Jão, nunca tive nada com os caras. Eu até achava que tinha umas bandas do ABC bem mais fodas que as de São Paulo, tipo o Áustria. Quando teve o Começo do Fim do Mundo [festival punk em 1982], no Sesc Pompéia, foi tenso, pois juntou todo mundo, juntou punks de São Paulo e do ABC pela primeira vez. O clima era de que iria dar merda. Os caras do ABC achavam que a gente era playboy, mas não tinha playboy, a gente era da periferia de São Paulo. Subúrbio e periferia é tudo a mesma coisa, gente excluída da sociedade. Hoje já tem o lance ideológico, do tipo: sou vegano e não ando com você, sou anarcopunk e não ando com você, sou crust e não ando contigo.

Quais as histórias mais bizarras que lembra nestes 36 anos?
Coisas bizarras acontecem sempre. Mas tem umas coisas que são bem loucas, se puxar no Youtube vai achar lá “Ratos: bolt of love”, a gente tocando em um barco do amor em um lago na Finlândia. A gente tocando e o barquinho chacoalhando. Esse ano fizemos uma turnê latino-americana em lugares que nunca tínhamos ido. Costa Rica, El Salvador. É louco ver que a gente tem público lá. Na Bolívia, por exemplo, teve um show com uns moleques que tinham umas camisetas escritas Ratos de Porão a mão, pois os moleques não tinham dinheiro para comprar e acho que nem chegava nosso material lá. Isso é louco, pois remete a minha adolescência. Tinha umas camisetas escritas “vida ruim”, “Ratos de Porão”. Me identifiquei para caralho. Hoje, mesmo com esse mundo globalizado, tem um monte de excluído. Se marcar está pior. A evolução é relativa.

Em 1989 vocês lançaram Brasil, com clássicos como Amazônia Nunca Mais, Farsa Nacionalista, Máquina Militar, Crianças Sem Futuro. Trace o Brasil de 1989 e o Brasil atual?
O momento atual do Brasil como sociedade está bem estranho. Não sei até que ponto as redes sociais influenciaram nisso. Hoje em dia tem um monte de filha da puta eleitor do Bolsonaro que tem orgulho disso, orgulho de um cara que é a maior toupeira. Se identificam pela toupeirice entre o candidato e o eleitor. Discuto nas redes sociais com uns babacas que acreditam que a terra é plana, que Hitler era comunista. O mundo tem muita informação hoje, na minha época você tinha que correr atrás da informação. Era através de livros, livro te salvava. Hoje os idiotas compram ideias prontas. A política no Brasil está bizarra, a eleição do ano que vem é um negócio temeroso. As opções são brutas, até Luciano Huck tentaram lançar. Depois do golpe, pois isso foi um golpe, um golpe de velhos aristocratas que não querem ver pobre em avião. Para eles pobres tem que andar de ônibus, tem que se foder,  engraxar o sapato deles, servir a comida deles. Olha o Temer, eu desejo muito mal para esse verme filho da puta. Onde está aquela galera que estava fazendo dancinha na Paulista pintado? Onde está essa gente? Essa galera não está se sentindo enganada? Não é possível, o preço da gasolina para mim é o mesmo que para eles. Olha esse lance trabalhista [reforma trabalhista], eu não sou empregado, mas no meu bar eu tenho várias pessoas registradas. Eu não concordo com isso ai e não vou fazer isso com os caras que trabalham para mim. O bagulho foi um crime, um roubo, uma exploração.

E o Dória?
Putz, o Doriana é triste hein malandro! Os caras pensaram que ele iria colocar todo mundo de camisa polo Ralph Lauren na escola, caviar na merenda, vai vendo. O cara é um patife, um marqueteiro. Nunca cuidou nem da conta corrente dele, não sabe administrar nada. É capaz de um bosta deste tentar ser candidato. Quem votou no cara lá em São Paulo não quer dar o braço a torcer, assim como a galera que apoiou o golpe. Os caras tem tipo orgulho, jamais vão admitir que estão errados. O cara burro não admite nunca, ele vê que a gasolina está mais de quatro contos, vê os direitos trabalhistas roubados, vê professor não ganhando salário, mas não admite a merda toda. Pega o Alckmin, outro patife da pior espécie. Já dizia Rui Barbosa, “não se iluda com pessoas de cabelo branco, pois os canalhas também envelhecem”.

A repressão, a violência policial, sempre estiveram nas letras do Ratos. Diante do atual cenário, para onde podemos caminhar?
Acho preocupante todo esse lance de repressão. Eu sempre posto lá [Facebook], a polícia militar tem que acabar, porque esse formato aí é da ditadura. Estamos no mesmo nível daquela época, vai professor protestar porque não está ganhando salário e leva bala de borracha, spray de pimenta no olho. Quando eu posto isso sempre vem os Bolsominions dizer: “quem tem medo de polícia é bandido (sic)”. Essas frases prontas. Não sou bandido, mas sou cabreiro com a polícia sim.

Quando o Ratos estava prestes a completar 30 anos foi lançado o documentário Guidable. Recentemente vocês fizeram um show com outras bandas, como Resto de Nada, Mercenárias, AI-5, em comemoração aos 40 anos do punk rock. E para os 40 anos do RDP, o que vislumbrar?
Quando o Ratos fez 30 anos eu juntei quase todo mundo que tocou no Ratos, faltou só o Pica Pau [ex-baixista 1995 a 1999]. Era para ter saído um DVD disso ai. Contamos a história da banda através da discografia com as formações da época. Mas deu merda no áudio e desistimos de lançar. Sobre os 40 anos têm quatro anos para gente pensar, mas vamos comemorar de alguma forma sim.

Vocês estão no estúdio compondo?
Estamos terminando de compor, mas cada um tem sua vida, seus projetos paralelos, mas estamos querendo fazer disco novo por aí, pois o momento do Brasil é bem propício. Motivo para fazer letra tem. O Ratos sempre foi chato com a gente mesmo neste lance de composição. A gente vai gravar o disco na certeza que tem que estar legal. A gente prefere demorar um pouco mais para lançar um disco ao invés de fazer um bagulho nas coxas.

Nestes 36 anos de banda, se pudesse voltar no tempo, o que faria diferente?
Não fumaria crack. Isso atrasou meu lado, perdi amigos. Vida pessoal ficou na merda, devendo para traficante. Mandamos o Jabá embora da banda, que era o fundador junto comigo. Esse tipo de coisas. Essas cagadas se eu não pudesse fazer seria bem melhor. Foi uma fase bem crítica, não sei como a banda não acabou e até conseguiu produzir coisas.

por Júlio Carignano

porém.net







terça-feira, 5 de maio de 2015

Saravá, Abril pro rock ...

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
As portas do inferno estremeceram e todos correram para ver quem é. Eu dei uma gargalhada lá no Chevrolet Hall: era a Pomba Gira Maria Mulambo, O Caboclo Sete Flechas, Exu Caveira, Exu Tranca Rua das Almas, Exu Mirim, Omolu e Zé Pelintra pisando pela primeira vez no palco do Abril pro rock !!!

A entrada foi apoteótica: o povo já clamava pela Gangrena antes mesmo das cortinas se abrirem, com Renzo – ex-DFC e Zumbi do mato - em pé fumando cachimbo, de tanguinha e chifrinhos vermelhos, em cima da bateria. Ele desce e vem para a frente saudar o público, enquanto os demais componentes vão entrando aos poucos. Zé Pelintra, o comandante do caos, é o último a aparecer, em traje de gala, todo de branco, como manda o bom figurino, entoando um ponto de macumba e anunciando que aquela era a Gangrena Gasosa com “surf iemanjá”. Aí o lugar veio abaixo ...

"Renzo, tá levando seus chifres?"
“Se Deus é 10 Satanás é 666” veio na sequencia e aí foi só correr para o abraço: audiência pra lá de conquistada, nem os problemas com o som – muito alto e com a guitarra saturada – e a execução – altas “atravessadas” – atrapalharam a festa: o botão do “foda-se” estava ligado no volume máximo, já que aquela era a primeira apresentação do lendário combo de “saravá metal” carioca não apenas em Pernambuco, mas em todo o nordeste! Os hits se sucediam e a molecada ia à loucura com verdadeiros clássicos do cancioneiro underground tupiniquim que chamam a atenção já a partir dos títulos - “Quem gosta de Airon Meiden também gosta de KLB”, “Eu não entendi Matrix”, “Terreiro do desmanche”. Nas mais aceleradas, como “Matou a galinha e foi ao cinema”, a roda era insana – e gigantesca. Em outras, a interação foi perfeita, com todos gritando a plenos pulmões que “Emilia pomba-gira é uma boneca de Vodu” em “Centro do Pica-pau Amarelo” e clamando por Satanás em “A Supervia deseja a todos uma boa viagem”. Pra mim, que sou fã de longa data e sonhava em vê-los por aqui um dia, foi emocionante. Sucesso total, amplamente confirmado pelo assédio que as entidades sofreram depois do show, nos corredores da casa – impressionante a paciência, simpatia e boa vontade dos caras – e da “mina” - especialmente de Ângelo/Zé Pelintra, o “frontman”, em atender a todos, tirando uma infinidade de fotos com os fãs.

Na porta, mas vão entrar ...
Com a difícil tarefa de exorcizar qualquer resquício de blasfêmia “metalica” que porventura ainda pairasse no ar, subiu ao palco, na seqüência, a Headhunter DC, da Bahia, e sua ortodoxia “headbanger” a toda prova. “Dedos em chifre!”, clamava o vocalista, Baloff, a toda hora, no que era prontamente atendido pela multidão. Peso e melodia na medida certa! Destaque para os solos do veterano guitarrista Paulo, único membro fundador ainda presente. Um show perfeito, inclusive na qualidade do som, muito melhor equalizado. Headhunter “Death Cult” é, a meu ver, a melhor banda do estilo no Brasil, e não deixou pedra sobre pedra, mesmo fazendo uma apresentação corrida, devido aos atrasos. Quanto à ortodoxia mencionada acima, ela existe – “666”, totalmente – mas é natural do show dos caras, não creio que tenha sido uma resposta à Gangrena – muito embora, por ter vindo na seqüência, tenha dado essa impressão.

Duas "papa-girimum"
Foram sucedidos por um tal “Project 46”, de São Paulo, apresentado como “a nova revelação do metal nacional”. Não conhecia, e não gostei. Por uma questão de gosto pessoal, mesmo. Fazem uma espécie de “groove metal”, ou um “Nu Metal” tardio. Muito competente, a galera curtiu, mas eu dispensei, preferi circular pelos stands e banquinhas, revendo os amigos e babando nos produtos à venda, especialmente nos discos de vinil – outra tradição do abril. E vendo o pessoal da Gangrena ser impiedosamente assediado ...

Tive bastante tempo para circular, já que a banda seguinte foi o Dead Fish, que eu respeito, mas não curto. E então, numa dobradinha perfeita para uma noite que teve também a Gangrena Gasosa – pra quem não sabe, uma só existe por causa da outra – sobe finalmente ao palco, numa “vibe” politicamente engajada, exibindo, num dos amplificadores, uma faixa a favor do fim das tarifas de transporte público, o Ratos de Porão. Que fez, no entanto, um show nitidamente burocrático, pra “cumprir tabela”. Não sei o que houve, mas os caras pareciam cansados. Não houve entrega! Foi, certamente, o pior show do Ratos que eu já vi na vida – e eu já vi muitos, desde a primeira vez, no inicio dos anos 90, em Salvador, na turnê do “Anarkophobia”. Mas não foi ruim. Ratos não faz show ruim. Não tem como, com um repertório daqueles e tantos anos de estrada nas costas. Nem a longa “pausa técnica” no meio da apresentação, com direito a farpas verbais de Jão e do Gordo direcionadas, pelo que entendi, ao Boka, conseguiu acabar com a empolgação do público, que seguia intacta, já noite avançada adentro – e com muita coisa ainda pra rolar, como bem observou o Gordo ao perguntar, ironicamente, “vocês vieram pra ver o Marduk, né?”

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
Mas quando o show acabou a situação mudou: boa parte do público foi embora e quem ficou exibia sinais claros de cansaço, o que prejudicou bastante aquele que prometia ser o retorno triunfal aos palcos dos pioneiros da Câmbio Negro HC, comemorando os 25 anos de lançamento de “O Espelho dos Deuses”, primeiro disco de Hard Core lançado por uma banda nordestina. Prejudicou, principalmente, porque a falta de resposta da audiência – e o som, terrível! - contaminou a banda, que fez um show “truncado”, sem ritmo, com o vocalista Ajax – também “pesado”, mas não “aquele”, dos primórdios – reclamando a todo momento da “morgação” dos presentes - algo que nenhuma banda, JAMAIS, deve fazer! Faça sua parte, se houver resposta, ÓTIMO, senão, ligue o foda-se e toque o terror, apesar os pesares. Pesou(sic) também o fato de que a banda ficou muito tempo fora de atividade e voltou desfigurada, o que certamente contribuiu para que se instaurasse um clima de apatia entre os que nunca os tinha visto ao vivo anteriormente. Vivemos em tempos frenéticos de excesso de informação e de ofertas de distração, o que torna difícil para uma banda se manter relevante se não estiver em atividade constante. Em todo o caso, não foi de todo ruim: foi bom ouvir de novo, em alto e bom som, o velho brado, “evacuem essa área!”. E o vocal de Ajax é legal, substitui com dignidade o “frontman” original – algo sempre complicado, pra qualquer banda. Mas não gostei da música nova apresentada. Muito repetitiva.

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
O final da noite foi reservado para as apresentações “gringas”, a começar pelo Coroner, da Suíça. Banda lendária, foi fundada pelos roadies do Celtic Frost, que a lapidaram nas passagens de som dos pioneiros do Black metal. Mas foram, também, extremamente prejudicados pelos problemas de som e pelos atrasos na programação. Tanto que, depois de apenas quatro musicas – totalmente retrô, anos 80 até o talo - o guitarrista vai ao microfone e explica que teriam que limar o repertório, a pedido da produção. Volta a tocar mas entrega os pontos, encosta a guitarra e sai do palco, mandando dedo para os bastidores. Os demais membros, numa demonstração de profissionalismo exemplar, seguem tocando até o fim, quando finalmente se despedem, sob aplausos e visivelmente constrangidos pela atitude do outro. E eu segui intrigado, sem saber o que um deles fazia no palco, aparentemente “tocando” um ... laptop !!! Não havia nada de eletrônico no som, nem bases pré-progrmadas identificáveis que justificassem sua presença. Mas ok, ele fazia também uns vocais de apoio ...

Foto: Juarez Ventura (Agência Pavio)
Já era madrugada e eu estava cansado demais, mas teríamos ainda o Marduk, da Suécia, para encerrar a maratona, o que prometia um ataque ensurdecedor aos nossos ouvidos já tão castigados. Promessa cumprida, com louvor! Depois de uma introdução “climática” com uma névoa densa envolta em sons que pareciam vir das profundezas de uma floresta nórdica, eles sobem aos poucos ao palco, começando pelo baterista. E o inferno se instala, mais uma vez, mas desta vez numa potencia elevada ao cubo, implacável e sem descanso – antes no entanto, o guitarrista teve que chutar o retorno para que o som voltasse. Totalmente “satan”, “from Hell”, “666”, “Belzebu”, “Belial” e coisa e tal. Pra quem gosta, foi um prato cheio. Mas eu nunca curti muito estes Black Metal “metranca” – aos meus ouvidos, soa como se eles estivessem tocando sempre a mesma música, o que é insuportavelmente chato - então aproveitei para ir embora mais cedo. No caminho de volta pra casa comentávamos, eu e meus companheiros de viagem, que quem nos visse saindo, mais uma vez, antes do fim, provavelmente não entenderia o que, afinal, nós queríamos, já que na noite anterior havíamos dispensado o show da Pitty. “Um meio termo, talvez”, respondeu, sabiamente, meu camarada Lenaldo. Fica uma certeza: de falta de ecletismo ninguém pode acusar o Abril pro rock ...

Não era o Marduk no palco ...
Já passava das duas da manhã de uma noite que havia começado bem mais cedo, por volta das 19H – estava marcado para as 18 – com a Lepra, “feijão com arroz” detah/grind local, e com o sensacional Catarro (tem trema no nome, mas eu não sei como colocar, sorry), do Rio Grande do Norte. Pedro “Mendigo” veio para confundir e entortar a mente dos cognitivamente mais limitados com sua perfomance insana que mistura cambalhotas e muito barulho com uma cover de Marcio Greik (se não me engano) na introdução. Antológico. Depois teve Hate Embrace, chatinha, e Almah, CHATÍSSIMA.

A noite anterior havia começado para nós, “atrasildos”, com o Boogarins, de Goiânia. Que, para mim, não disse ainda a que veio: muita viagem pra pouco som. “Don´t believe the hype”, já dizia o Public Enemy ...

Era ela ...
Depende do hype. Do Far From Alaska eu gosto. Primeiro show que vi deles. Curti bastante. Um pouco “certinho” e “profissional” demais, talvez – me pareceu pouco espontâneo, mas pode ter sido impressão minha – mas a perfomance de todos - especialmente das duas vocalistas - foi perfeita. Amigos meus não curtiram, acharam o som genérico, sem definição, ora soando como Adele (???!!!), ora como o Metallica (talvez), ora como Rage Against The Machine (aí pode até ser), mas eu discordo. Acho a banda muito boa, tem boas composições, ótimos músicos e uma excelente presença de palco. Aprovadíssimo.

Foram seguidos pelo dEUS, da Bélgica. Experimental, “pero no mucho” – algumas melodias são bastante “assobiáveis”. Bom show, apesar do som falhando e do exagero perfomático do violinista, que eu achei meio “poser” ...

Priscila Novaes Leone
Quem também fez um (muito)bom show foi o Pato Fu. Periga ter sido um show perfeito, admito. Mas não consigo avaliar direito porque sou um ex-fã xiita, daqueles que só gosta, MESMO, do primeiro disco, o clássico “Rotomusic de liquidificapum”, e mais ou menos dos dois seguintes. Deixei de gostar depois do “Televisão de cachorro”, quando o comando criativo do grupo passou a ser nitidamente compartilhado por John com a Fernanda Takai, que sempre foi muito mais para o pop e a bossa-nova que para o rock and roll. Mas nunca deixei de respeitá-los. Segue sendo uma banda, no mínimo, simpática. E decente. E extremamente competente e de muito bom gosto: as projeções de imagens no palco são sensacionais! Foi o que mais me prendeu a atenção, aliás. Fazia tempo que não os via ao vivo. Curti. Quase dancei ao som de “Uh uh uh lá lá lá yeah yeah” ...

A primeira noite se encerrou com Pitty e a incrível revelação – para mim, pelo menos – que a nossa cabeça tem 7 buracos! Nunca tinha pensado nisso. Mas só vale se descartamos os olhos, não é?

Bom show, grande domínio do palco.

Respeito a Pitty.

Ela é massa.

A.


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terça-feira, 31 de março de 2015

Noite sinistra ...

A noite prometia: era apenas a segunda apresentação do Ratos de porão, lendária banda de Hard Core paulistana, há mais de 30 anos na ativa, em Aracaju. Terceira vinda deles aqui, se contarmos a vez em que vieram mas não tocaram porque tomaram um calote do “produtor”. Ficou apenas numa tarde de autógrafos no shopping Riomar e num acesso de furia coletiva do publico, que destruiu e saqueou a loja do pilantra. Que pouco tempo depois foi preso em flagrante por estupro, mas fugiu da cadeia e hoje é procurado até pela Interpol! Mas isso foi há muito tempo atrás. Coisa de 20 anos. Tocaram, finalmente, há cerca de 7 anos, na finada – e saudosa – ATPN, na Atalaia. E, que eu saiba, foi tudo mais ou menos ok ...


Mais ou menos porque aquela noite marcou a saída de cena da Terrozone produções, que vinha trazendo grandes nomes do cenário nacional à cidade, sob a alegação de prejuízos na bilheteria. Não parecia o caso, agora: um bom público compareceu à Casa Rua da Cultura na noite de sábado, 28 de março de 2015.

Cheguei por volta das 22:00H à recém-reformada Praça Camerino, no centro da cidade, àquela altura já tomada pelo tradicional “pretume” dos freqüentadores deste tipo de evento. A tempo de presenciar, logo de cara, uma cena inusitada: a primeira pichação, no monumento central da praça! Pelo menos havia uma mensagem, digamos, “edificante”: “A Rua é nossa! Fora fascistas”. Ah se a “wannabe” “puliça” (não mais uma “simples” guarda municipal) de sua excelência João Alves primeiro e único, o eterno, pega uma coisa dessas! Ia ser bomba de gás pra todo lado! A festa ia acabar ali mesmo ...

Não foram pegos, os pichadores - a guarda municipal certamente estava brincando de ser PM em algum outro lugar, ao invés de cumprir sua obrigação original, que é a de garantir a preservação do patrimônio público -, e a noite prosseguiu relativamente tranqüila. Mas não por muito tempo. Já na entrada estranhei: não havia revista! Era pagar, apresentar o ingresso e entrar, livremente. Não me lembro de ter visto, também, nenhuma sinalização de saída de emergência. A  área pela qual o público tinha que passar para circular entre os ambientes era estreita e estava sempre congestionada. Não quero nem imaginar o que teria acontecido caso houvesse algum tumulto ou incidente sério durante as apresentações. O mesmo vale para vários outros espaços de eventos da cidade. A tragédia da Boate Kiss já parece ter sido esquecida e voltamos à velha rotina de negligencia com a segurança e a vida das pessoas. Péssimos sinais. Mas tudo bem, vai dar tudo certo ...

Não deu. Mas a gente chega já lá. Nem tudo foi “treta” nesta noite antológica que foi aberta pela Cessar Fogo, banda já não tão nova mas que acaba sendo, se comparada à “headliner” e à Karne Krua, que tocaria em seguida e já está há 30 anos na estrada. Since 1985.

Cessar Fogo mandou muito bem! Fazem um som com uma pegada bem tradicional aliada a algumas firulas na guitarra, o que dá ao "molho" um sabor especial, inusitado, fugindo um pouco do "feijão com arroz" do punk rock. Estão com uma nova formação, novamente com dois guitarristas, o que ajuda a reproduzir os arranjos de seu primeiro – e excelente – disco, “conflitos mundanos”. Muito bem ensaiados, entregaram uma perfomance precisa e energética sob o comando do carismático “frontman” Luiz. O publico prestigiou e já se apresentava em bom número no recinto, agitando bastante, muito embora já se fizesse presente, também, o tradicional palhaço que pensa que show de rock é um picadeiro no qual pode extravasar suas frustrações na base da violência gratuita. Lamentável, mas o imbecil era um só e foi devidamente identificado – não pela segurança, que não existia, mas pela própria intervenção dos presentes, que trataram de colocá-lo em seu devido lugar. Ânimos acalmados, tudo transcorreu na paz.

Na apresentação seguinte, da Karne Krua, os problemas com o som começaram a se tornar evidentes: a guitarra estava baixa e mal se ouvia a voz de Silvio. Melhorou quando ele trocou de microfone. Foi uma apresentação curta e grossa, que se encerrou em grande estilo com “inanição”. Em todo caso, muito boa, como sempre.

Os ânimos voltaram a se exaltar no meio do público quando a Edose estava no palco. Fazem um som que remete a Matanza e Raimundos, com letras que falam de cerveja, mulher e ... briga! “Não sei ainda o que penso da vida/Mas o que me incomoda eu resolvo na briga”, diz uma delas. “Rock testosterona", eu diria. A pista foi tomada por caras “fortões” exalando “masculinidade”. Não é, definitivamente, a minha praia, então fui tomar um ar, porque o calor dentro do recinto era insuportável ...

Piorou, e muito, quando o Ratos subiu, finalmente, ao palco. Haviam cerca de 400 cabeças na casa – relativamente pequena - e todo mundo entrou pra ver, evidentemente – a Casa Rua da Cultura tem vários ambientes, um deles externo, onde todos se concentravam nos intervalos, já que não era permitido sair para a praça. O caos se formou, com algumas rodas de pogo mais insanas já registradas aqui neste cantinho do mundo, além das já tradicionais invasões de palco e "stage dives".  E o Gordo já foi logo mandando o papo reto, confirmando a suspeita de que havia algo errado no ar: “o patrão aí diz que não tem grana pra pagar a gente, e ainda vamos ter que pegar uma van até Salvador pra descer a duas horas de SP pra voltar pra casa. Mas vamos tocar, em respeito a vocês, do público. Se isso não for amor, não sei mais o que é”. E tome cacetada atrás de cacetada no pé do ouvido! Um repertório eclético, que misturou músicas de praticamente todas as fases da banda tocadas numa velocidade insana, além de dois covers, do Anti Cimex e do Extreme Noise Terror. Grande show, com um som bem melhor equalizado que o das bandas de abertura. Deu pra ouvir tudo em alto e relativamente bom som.

Teria sido tudo, se não perfeito, de excelente tamanho, não fosse o que veio a seguir, na praça, quando o evento já havia acabado e o público se dispersava: uma briga estúpida que terminou, literalmente, em sangue. Muito sangue! Nunca tinha visto nada parecido, parecia cena de Kill Bill. Estranho, pois não vi nenhum objeto cortante na mão de nenhum dos “gladiadores”. Mas havia, certamente, porque o corte foi feio. Com as unhas é que não foi feito ...

O cara foi socorrido e consta que passa bem. O autor da “proeza”, velho conhecido da cena, fugiu do flagrante mas não demonstra arrependimento, já que chegou a postar novas ameaças no facebook! Facebook que também foi usado pelo Ratos para lavar a roupa suja, numa sequencia de troca de ofensas lamentável. Eles reclamam da falta de pagamento e do não cumprimento das exigências técnicas previamente acordadas relativas ao som de palco. Acompanhe a polêmica clicando aqui, caso tenha estômago para mais uma daquelas discussões intermináveis, com direito a ameaças de morte e linchamento virtual coletivo.

E foi isso. Dentre mortos e feridos, salvaram-se todos. Lamentáveis os contratempos, mas eu me diverti, devo admitir. E diversão é solução, sim. É solução pra mim. Que a crise nacional e mundial seja contornada, que o Estado Islâmico seja derrotado, que os produtores produzam e as bandas sejam pagas! Que venham mais e melhores shows ...

Mas o DOOM, que ia rolar no lançamento do novo disco da Karne Krua, já era. Foi cancelado.

"O sonho acabou". De novo.

Sonhar é de graça.

Realizar ...

A.

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sábado, 24 de novembro de 2007

RDP em Aracaju



Por Adelvan Kenobi.


Há aproximadamente 13 anos atrás, as ruas de Aracaju foram tomadas por uma turba ensandecida sedenta de vingança. Tratava-se dos indignados potenciais expectadores do show do Ratos de Porão que iria acontecer naquela noite, no Ginásio de Esportes Constancio Vieira, mas que, por conta da quebra de contrato do “produtor” para com a banda (soube-se depois), não aconteceu. O tal “produtor” já tinha aprontado algo parecido com a banda PUS, mas se deu bem, a banda acabou tocando de graça no dia seguinte em respeito a seu publico e ficou tudo por isso mesmo. Só que nessa noite as coisas iriam ser diferentes. Ele tinha uma loja especializada em rock alternativo no centro da cidade, e foi pra lá que a turba se dirigiu. A loja foi completamente destruída e saqueada. O “produtor” sumiu da cidade, reapareceu, para finalmente sumir de uma vez. Fugiu. Desapareceu. Escafedeu-se. E Ratos de Porão em Aracaju virou uma espécie de lenda urbana. Durante esses 13 anos a cidade ficou com o estigma de ser uma das únicas capitais brasileiras nas quais eles nunca se apresentaram.

Pois o tabu está para ser quebrado. O tempo passou, o mundo deu voltas. Os tempos são outros, Aracaju hoje é outra cidade. Novos produtores apareceram, festivais aconteceram, a cena rock underground cresceu, apareceu, voltou a encolher mas permanece, inconstante porém viva. E finalmente o Ratos de Porão vai se apresentar, pra valer, no dia 08 de dezembro de 2007, na ATPN. E vem num excelente momento, divulgando o seu ultimo disco, HOMEM INIMIGO DO HOMEM – um trabalho que resgata as origens “crossover” da banda e é, ouso dizer, é seu melhor disco desde o Brasil, de 1989. É também o 14_ disco de estúdio de uma carreira que começou por volta de 1981, quando João Carlos Molina Esteves, o Jão, resolveu montar uma banda punk/Hardcore com seu primo Roberto Massetti (o Betinho, baterista) e o amigo Jarbas Alves (o Jabá, baixista).

Em 1983, já com Mingau na guitarra, gravaram seu primeiro registro musical na coletânea SUB e participaram do festival O Começo do Fim do Mundo, que reuniu vinte bandas no Sesc Pompéia, em São Paulo, e se tornou um marco do movimento punk no Brasil. Interessante notar que João Gordo, seu célebre (e, mesmo a contragosto, celebridade) vocalista, só entrou na banda neste mesmo ano de 1983 – a tempo de gravar seu primeiro LP , o clássico “Crucificados pelo Sistema”.

Em 1986, deixaram de lado o purismo punk e gravaram o primeiro grande disco do estilo “crossover” (misto de punk com metal) no Brasil, “Descanse em Paz”. Com um clima pra lá de sombrio (a começar pela capa, que mostrava a foto de uma senhora morta com a boca cheia de algodão em seu caixão), o álbum tinha nítidas e assumidas influencias de thrash metal e de bandas como Venom e Celtic Frost. Por conta desse “namoro” com o metal acabaram ficando amigos dos componentes do Sepultura, então em plena ascensão no cenário Metálico nacional e internacional. Seu trabalho seguinte, “Cada Dia mais sujo e agressivo”, de 1987, saiu pela mesma gravadora que lançou o Sepultura para o mundo, a Cogumelo Records de Belo Horizonte, e aprofundou ainda mais as influencias do metal, com uma clara e impressionante evolução da banda em termos técnicos e até mesmo a participação, em uma das faixas, do guitarrista Andréas Kisser, do Sepultura, num solo de guitarra. Por conta de “sacrilégios” como estes, passaram a ser eternamente hostilizado pela ala mais sectária do movimento punk. “Traidor” passou a ser uma palavra constantemente associada a Ratos de Porão – chegaram, inclusive, a compor uma musica ironizando o fato. Independente disso, ganharam notoriedade também no exterior e o disco seguinte, “Brasil” (1989), foi lançado pela Roadrunner, mesma gravadora do Sepultura, e gravado em Berlim
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Com “Brasil”, o Ratos de Porão conseguiu aliar finalmente técnica e rapidez num som nitidamente Hardcore, despojado das “gorduras” herdadas do namoro com o metal. É uma verdadeira obra-prima do gênero em todo o mundo. Depois de seu lançamento a banda passou a ter uma carreira internacional, tocando regularmente na Europa e ocasionalmente nos Estados Unidos e alguns pontos obscuros do globo. Ainda pela Roadrunner lançaram os discos ANARKOPHOBIA (1990, retornando ao crossover e às influencias de thrash e até mesmo de rap, em seu maior sucesso, a faixa “Sofrer” – sucesso que os levou a tocar em lugares antes impensáveis como programas populares de auditório na televisão), JUST ANOTHER TIME IN MASSACRELAND (1993, um disco bastante diferente dos padrões da banda, mais melódico e quase que totalmente cantado em inglês) e os dois discos de cover FEIJOADA ACIDENTE (1995), nos quais fazem uma homenagem ás bandas brasileiras e estrangeiras que os influenciaram.
Desfeito o “casamento” com a Roadrunner, lançam em 1997 “Carniceria Tropical”. A partir daí a banda assume uma sonoridade mais diretamente influenciada pelo crustcore europeu, sem contudo abandonar suas características próprias. Foi assim nos discos seguintes, “Guerra Civil Canibal”, “Sistemados pelo Crucifa” (uma regravação do primeiro disco) e “Onisciente coletivo” – este também lançado por outra gravadora estrangeira especializada em metal, a Century Media. Ao longo de sua carreira lançaram ainda os discos “Periferia 1992”, com gravações toscas dos primórdios da banda, 3 discos ao vivo (RDP/Cólera Ao Vivo – 1985, RDP VIVO – 1992, e AO VIVO NO CBGB, de 2003) e uma infinidade de participações em coletâneas ao redor do mundo. A formação da banda manteve-se relativamente estável ao longo do tempo, com uma rotatividade maior entre os baixistas. Atualmente conta com o Gordo nos vocais, Juninho no baixo, Boka na bateria e Jão, o único membro fundador remanescente, na guitarra.