quarta-feira, 30 de junho de 2010

(*) O PMDB é uma merda



Um militante de esquerda dos duros tempos da ditadura que porventura tivesse um lampejo do futuro, tipo os “flashforwards” da série de TV, e se defrontasse com o quadro eleitoral de 2010, com um ex-líder sindical e metalurgico prestes a eleger seu sucessor na presidência da republica uma ex-guerrilheira, que concorre contra um ex-presidente da UNE exilado naquele mesmo período e uma ex-seringueira ativista e ambientalista, certamente exclamaria exultante: “Vencemos !!! Varremos do mapa as oligarquias que mantêm o Brasil no atraso ! Caminhamos rumo ao socialismo! Hasta La Victoria, compañeros !!!”. Superficialmente é esta a impressão que qualquer um teria, mas a realidade, como sempre, é bem mais complexa. Nos bastidores, os mesmos de sempre ainda têm muito poder e estão mais ativos do que nunca, como atesta o pra lá de inusitado e vergonhoso apoio do PT à candidatura de Roseana Sarney no Maranhão e a aliança fisiológica que alçou Michel Temer ao posto de candidato a vice de Dilma Rousseff. Abaixo, um abrangente perfil da “criatura”, escrito por CONSUELO DIEGUEZ e publicado originalmente na revista Piauí.

(*) O título do post é meu, nada tem a ver com a autora do texto.

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O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja família conhecia de longa data, para um almoço tête-à-tête na residência oficial da presidência da Câmara dos Deputados. Mal haviam começado a comer quando o rapaz criticou a nomeação do senador Renan Calheiros para o Ministério da Justiça. "Não sei como o presidente Fernando Henrique pôde fazer uma escolha tão desastrosa", disse. Temer olhou com um pouco mais de interesse o interlocutor e, sem alterar a expressão e a voz, respondeu: "O Renan foi escolhido pelo PMDB; portanto, é uma escolha minha." E levantou-se logo em seguida, alegando que precisava dar um telefonema. Não voltou. Um mordomo pediu ao moço que se retirasse, dizendo que Temer estava ocupado e não poderia continuar o almoço. O PMDB é isso: lealdade.

Passados sete anos, Renan Calheiros chamou Temer ao seu gabinete. Era uma conversa crucial para o deputado. Ele se lançara candidato à presidência da Câmara pela segunda vez. Precisava do apoio do companheiro de partido, que tinha ascendência sobre um grupo de parlamentares e era respeitado pelo governo petista. O senador garantiu que diria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que Temer era a escolha do PMDB. Naquela mesma noite, Temer soube que, na reunião com Lula, ao invés do seu nome, Calheiros defendera o de seu principal oponente: Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil. Com o apoio do Planalto, o deputado do pcdob elegeu-se presidente da Câmara. O PMDB é isso: traição.

Michel Temer chegou à presidência do partido no início de 2007. Pouco depois, a jornalista Mônica Veloso trombeteou que tivera um affaire e uma filha com Renan. Também revelou que quem pagava a pensão da criança, em dinheiro vivo, em nome do senador, era a empreiteira Mendes Júnior. Parlamentares de vários partidos entraram com um pedido de cassação de Renan, então presidente do Senado. Temer marcou um jantar na casa do senador e, assim que entrou, apertou a mão que o apunhalara e disse: "O PMDB não vai te abandonar." Renan teve que sair da presidência do Senado, mas o partido garantiu os votos que lhe impediram a cassação. O PMDB é isso: reconciliação.

Na maior crise do governo Lula, a do mensalão - o esquema de compra de votos de parlamentares em benefício do Planalto, que veio a se tornar público em 2005 - o PMDB negociou o apoio ao presidente e mais que dobrou o seu plantel de ministros, que passaram a ser cinco. Em 2007, numa reunião de cinquenta minutos entre Michel Temer e Lula, o partido passou a integrar oficialmente o governo. Em troca, levou mais dois ministérios e dezenas de cargos de direção em empresas estatais. O PMDB é isso: fisiologismo.

O PMDB é o grande partido brasileiro. Tem a maior bancada da Câmara, com 91 deputados, e a maior do Senado, com dezoito senadores. Governa nove estados, entre eles o Rio de Janeiro, que respondem por quase 30% do Produto Interno Bruto nacional. Controla 1 201 municípios, inclusive seis capitais, e tem 3 500 vereadores e 2 milhões de filiados. Os seis ministérios hoje sob o seu comando, somados aos cargos em estatais e fundos de pensão em seu poder, administram cerca de 250 bilhões de reais ao ano.

Depois de fechar o Congresso, extinguir todos os partidos e cassar centenas de parlamentares, em 1966 a ditadura militar enquadrou a política institucional em duas agremiações: a Aliança Renovadora Nacional, a Arena, e o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB. Como não podiam fazer campanha eleitoral, nem oposição parlamentar, ambas serviam de adorno institucional ao regime. Em 1970, a votação nos candidatos do MDB foi tão pífia que o partido quase não conseguiu ter representação no Congresso. Seus integrantes se dividiram em duas correntes internas. A majoritária era a dos "moderados": os que apoiavam o regime militar tal como ele era, para evitar que se tornasse mais ditatorial. A outra era a dos "autênticos": aqueles que, por meio de um bem calibrado palavrório liberal, se propunham abrandar a ditadura.

Nas eleições de 1974, na esteira da crise do petróleo e do fim do "milagre econômico", o MDB canalizou o descontentamento generalizado. Saiu das urnas com três quartos das vagas do Senado e dobrou a bancada na Câmara. Para dividi-lo, a ditadura permitiu, cinco anos depois, a criação de novas organizações. Mas obrigou que todas tivessem a designação "partido" antes do nome. O regime supunha que a corrente moderada criaria um novo agrupamento, e os autênticos ficariam com os restos da agremiação extinta. Tancredo Neves liderou a criação do Partido Popular. E o deputado Ulysses Guimarães assenhorou-se do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB.

O arranjo não prosperou porque Tancredo Neves percebeu que o Partido Popular não tinha futuro e bandeou-se para o PMDB. Com o apoio de Ulysses e de uma parte do regime, Tancredo foi nomeado presidente da República por um colégio eleitoral que, apesar de toda a retórica democrática, era uma instituição ditatorial. Tancredo Neves* não tomou posse porque adoeceu na véspera da cerimônia. Operou-se e agonizou por 39 dias antes de morrer. A Presidência foi parar nas mãos do vice José Sarney, que sustentara com denodo os militares e deles se beneficiara largamente. Com Sarney no Planalto e Ulysses Guimarães no Congresso, o PMDB chegou ao poder. Com mão de gato, o partido logo mostrou o que viria a se tornar: o ocupante de cargos-chaves no Estado, que usaria para se associar a empresários e alimentar o caixa e a clientela que garantiriam a sua reprodução eleitoral.

O PMDB no poder foi um desastre total. Em cinco anos de governo, teve doze ministros. Dominou o Congresso que se autointitulou Constituinte e redigiu a Carta em vigor. Patrocinou pacotes econômicos que provocaram hiperinflação, desemprego em massa e o desmonte de serviços públicos já precários. Com a popularidade no fundo de um abismo, Sarney saiu do Planalto sob vaias. Ulysses Guimarães, o líder histórico dopartido, candidatou-se a presidente e obteve um vexatório sétimo lugar, com 4,4% dos votos.

Apenas três anos depois, no entanto, o partido derrotado nas urnas voltava ao Planalto. Dessa vez por meio de Itamar Franco, o senador do partido que fora vice do presidente destituído, Fernando Collor. A partir daí, o PMDB compôs com todos os governos. Ficou com dois ministérios no primeiro mandato do ex-emedebista Fernando Henrique Cardoso, e com quatro no segundo. Nas eleições de 2002, repetiu a coreografia da divisão interna para melhor manter o mando: a banda do Senado apoiou a candidatura petista; a da Câmara, a tucana. Só no segundo mandato de Lula o partido aderiu com homogeneidade ao governo do PT.

O PMDB não lança candidato próprio à Presidência desde a derrota de Orestes Quércia, em 1994*. O sociólogo Bolívar Lamounier acha que isso aconteceu porque o partido "perdeu todos os seus líderes de envergadura como Tancredo, Ulysses e também Montoro e Mario Covas, que foram para o PSDB" e não conseguiu se renovar na passagem de uma geração para outra. "Sem uma liderança nacional, o partido ficou na mão dos feudos regionais e dos clientelistas", disse Lamounier em sua casa, no alto de Pinheiros, em São Paulo. "O PMDB não tem um projeto nacional e não sei se quer ter. Sua briga é por cargos."

Um dos melhores postos da República é o de vice-Presidente. É ele que o PMDB quer ocupar a partir do ano que vem. Pela legislação eleitoral, o tempo nos programas de campanha na televisão e no rádio é dividido segundo o tamanho das bancadas partidárias. E, mesmo tendo direito à maior fatia da propaganda eleitoral, o PMDB decidiu não disputar diretamente o Planalto. Preferiu que o presidente da sigla, Michel Temer, fosse o candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff.

Nem Lula nem Dilma queriam Temer. Consideram-no ardiloso e voraz em demasia quando reivindica posições para o partido, e uma nulidade em termos eleitorais. Para agradar o patronato, Lula convenceu Henrique Meirelles, que é filiado ao PMDB, a continuar presidente do Banco Central, até que a possibilidade de ser vice se tornasse palatável ao partido. O PMDB não se entusiasmou. O presidente tentou também que o PMDB lhe oferecesse uma lista de três nomes, dos quais ele selecionaria um para vice. Temer não topou.

Na história republicana, 20% dos vices viraram presidente antes do término do mandato do titular. Itamar Franco, por exemplo, estava desgarrado do PMDB e não participou do governo Collor. Passou a fazer muxoxos quando o Presidente perdeu popularidade, e só foi para a oposição quando a destituição de Collor se tornou inevitável. Do ponto de vista de Fernando Henrique Cardoso, não houve vice melhor do que Marco Maciel, do Partido da Frente Liberal: ele entrou mudo e saiu calado do cargo.

Lula conheceu José Alencar durante uma visita à fábrica do empresário, a Coteminas. Segundo relembrou várias vezes, encantou-se com ele e logo pensou em fazê-lo seu vice. A chapa com ele e Alencar, no raciocínio de Lula, simbolizaria à perfeição a ideia de governo que o petista pretendia: a da conciliação de classes, da aliança entre trabalho e capital.

José Alencar estava no Partido Liberal, o pl, uma legenda evangélica de aluguel. Houve uma reunião, na casa do deputado Paulo Rocha, do PT, em Brasília, para acertar a aliança entre eles. Ela ocorreu no dia 19 de junho de 2002. De um lado, estavam presentes Lula, José Dirceu e Delúbio Soares, o tesoureiro da campanha do PT. De outro, José Alencar e o deputado Valdemar Costa Neto, chefe do pl. Três anos depois, quando estourou o mensalão, Costa Neto contou que, no encontro, pediu 20 milhões de reais para que o partido apoiasse Lula e Alencar fosse o seu vice. Com a bênção de Alencar, acabou aceitando 10 milhões de reais. Durante a campanha, o candidato a vice pôs 2 milhões de reais do próprio bolso na mão de Delúbio.

No cargo, José Alencar ajudou o governo. As suas críticas às altas taxas de juros, por exemplo, foram discutidas previamente com Lula, que o incentivou a fazê-las. Assim, o presidente pressionava indiretamente o Banco Central a reduzir os juros. Mais recentemente, Alencar defendeu que o Brasil tenha armas nucleares. Não se tratou de uma boutade inconsequente, feita por quem não tem poder de fato, e sim da expressão do pensamento de um setor do governo e do PT. Por fim, a divulgação estrepitosa, em horário nobre e na primeira página de jornais, do tratamento de saúde do vice, e da bonomia com que enfrenta o câncer, lhe granjearam a admiração da opinião pública.

É bem o contrário do que ocorre com Michel Temer. Ele não tem imagem pública definida. No máximo, é reconhecido como um político profissional e anódino. No interior da política oficial, porém, é considerado a encarnação do pantagruélico aparelho peemedebista. O historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a atenção para um problema em potencial do consórcio PT-PMDB. "Uma presidenciável desprovida de voo próprio na esfera nacional, sem nunca ter tido um voto na vida, estará coligada a um vice que maneja todas as alavancas do Congresso e da máquina partidária peemedebista", disse Alencastro. "É uma chapa de alguém que sabe tudo e tem sob seu comando a maior bancada do Congresso, com alguém que vai começar a aprender." Acrescente-se que Dilma não tem ascendência sobre o PT. Ela ficou no Partido Democrático Trabalhista, o PDT de Leonel Brizola, até 2001. E nele desenvolvia uma política de cunho provinciano-familiar: eleger seu marido governador do Rio Grande do Sul.

Perguntei a Alencastro, que é titular da cátedra de história do Brasil na Universidade Sorbonne, se Lula e o PT, por trás de Dilma, não poderiam estabelecer um equilíbrio de forças. "Ninguém sabe onde Lula estará no próximo governo e o PT não tem liderança no Parlamento", disse o professor. O único que poderia assumir a liderança do partido, em sua opinião, seria José Genoíno. Mas o deputado se enfraqueceu demais quando um assessor de seu irmão foi flagrado com dólares na cueca. "O Genoíno não tem mais força para virar o jogo," completou.

Autor de O Trato dos Viventes, Alencastro não acha que Temer possa ser um perigo, numa eventual Presidência de Dilma Rousseff, apenas no caso de ela ter de se afastar do cargo. A ambição do PMDB, avaliou Alencastro, poderia levar Temer a lançar mão de uma proposta tentada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso: a instauração do regime parlamentarista. "Não digo que o Temer vá fazer isso, mas, num contexto de crise, com o controle que ele tem do Congresso, é possível uma manobra de votação de uma emenda constitucional, instaurando o parlamentarismo", comentou. "No final dos anos 90, Temer defendeu a tese de que o Congresso tinha poderes para isso." Nesse cenário, o vice poderia vir a ser nomeado primeiro-ministro.

Michel Temer me recebeu pouco antes do almoço, na residência oficial da presidência da Câmara. Cumprimentou-me com o sorriso metálico que é seu traço de expressão mais eloquente. Não parecia à vontade, suas mãos tremiam um pouco. Sentamo-nos na sala, cuja enorme porta de vidro se abre para o jardim e a piscina. Temer fala baixo, nunca usa gíria e se expressa num português que parece escrito previamente. Antes de iniciar uma frase, costuma acrescentar um "Você sabe?", e levanta o dedo indicador.

Perguntei-lhe o que achara do artigo de Luiz Felipe de Alencastro. "Ele faz uma pregação de que é um risco eu ser vice", disse. "Eu, claro, não vejo dessa maneira. A minha presença só fará aumentar a interlocução do governo com o Congresso." Afirmou que não será "um vice que atrapalha". E rechaçou a tese de que sua influência no Congresso deixaria Dilma Rousseff vulnerável: "A ex-ministra conhece muito bem o país e os seus problemas por força dos cargos que ocupou." O PMDB no governo, sustentou, dará maior tranquilidade ao Planalto. "Nós garantimos a estabilidade do real e, no governo Lula, apoiamos os programas sociais", completou. "Cito isso para me opor à tese dos que dizem que o PMDB é fisiológico."

Temer tem 69 anos, é magro e mede 1,70 metro. Ele tem o hábito de engatar a ponta dos dedos e puxar as mãos como se quisesse separá-las. Sua postura é sempre ereta, e parece não relaxar nem quando se senta numa poltrona. Quando o entrevistei, vestia terno preto e gravata de seda azul. A camisa não tinha uma ruga, apesar de ele ter passado a manhã em reuniões no Congresso. "Você sabe, sou uma pessoa formal", avisou sem que eu perguntasse. "Disseram que eu preciso mudar meu jeito, que sou muito cerimonioso. Mas como? Tenho inveja de quem faz blague. Eu não sei fazer isso. Se fizer, vai ser um desastre. Não sou eu."

Indaguei se fora educado para se comportar dessa forma. Disse que não. Enganchou as mãos novamente, puxou-as e arriscou uma explicação: "Você sabe, eu tinha um irmão que era muito formal e elegante no trato com as pessoas. Ele serviu um pouco de modelo. As pessoas gostavam dele. Eu acho que não se pode confundir cerimônia com antipatia."

O deputado é o caçula de oito irmãos. Seus pais, os libaneses March e Miguel Elias migraram para o Brasil em 1930. O casal, com três filhos nascidos no Líbano, foi morar numa chácara, em Tietê, no interior de São Paulo, onde beneficiavam arroz e café. A diferença de idade de Temer e os irmãos mais velhos era de mais de vinte anos. Quatro deles foram estudar em São Paulo, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Sozinho na chácara, que ficava a certa distância da cidade, ele lia para passar o tempo. "Pegava os livros na biblioteca da cidade e lia de tudo, romances e poesias", disse. Também adorava cinema. Aos 9 anos, viu um filme sobre a vida de Chopin que permaneceu para sempre em sua memória: À Noite Sonhamos. "Fiquei tão impressionado quando uma gota de sangue pingou no teclado enquanto Chopin tocava uma Polonaise, que pedi para o meu pai me deixar ter aulas de piano." O pai, no entanto, o matriculou num curso de datilografia. "Eu dedilhava as teclas da máquina de escrever como se fossem de piano", disse, rindo. "Com isso, aprendi a datilografar usando os dez dedos."

Um de seus irmãos, Elias, sabendo do interesse do caçula pela leitura, costumava lhe trazer de São Paulo o jornalzinho do centro acadêmico da faculdade. Num dos exemplares, vieram publicados dois poemas. Um se chamava "A mulher que eu não queria" e o outro "Filosofia de um diretor de circo". Os dois tinham sido escritos por um estudante chamado Antônio Malanga. "Gostei tanto daqueles versos que os decorei pelo resto da vida." Pedi que ele me recitasse um trecho. Ele começou:

Possui os cabelos sedosos/Uma boca perfeita, um primor,/E trazia nos olhos formosos,/Mil promessas e sonhos de amor.

E prosseguiu, por outros dez versos. Depois engatou com a segunda poesia, de outros catorze versos, que terminava assim:

Mas por ser tão medonha e teimosa/Numa jaula, fechei-a./Nesse dia ficou sendo uma fera famosa/Ficou sendo a mulher que eu queria.

Adulto, Michel Temer foi apresentado por acaso ao autor das poesias que sabia de cor. "Comecei a declamar os seus poemas, e ele ficou muito espantado", contou o deputado. "E me disse que tinham sido as duas únicas coisas que havia escrito na vida."

Ele também estudou direito na Universidade de São Paulo. Já no primeiro ano de faculdade, em 1959, foi eleito segundo-tesoureiro do centro acadêmico. A diretoria foi convidada para almoçar pelo então governador paulista, Ademar de Barros, o do lema "Rouba, mas faz". O chefe de gabinete do governador o apresentou e informou o cargo de Temer. O governador se interessou. "'Segundo-tesoureiro? Então você é o homem do caixinha? Senta aqui ao meu lado.' Eu fiquei vermelho, morto de vergonha", contou o deputado.

O escritório do advogado Homar Cais fica no 1º andar de um prédio na rua Haddock Lobo, nos Jardins. Sua sala é decorada com fotos emolduradas dos amigos de faculdade. Cais e Temer dividiam o mesmo quarto na república em que moraram durante os estudos. Uma das diversões era jogar água da janela em quem passava na rua. "Será que eu posso contar essa história? Será que não fica chato?", perguntou-me apreensivo. Disse-lhe que não, que todo jovem já tinha feito isso na vida. "Mas e jogar água na Seleção Brasileira?", retrucou Cais. Quando a Seleção desfilou por São Paulo, comemorando a vitória na Copa de 1962, um grupo de estudantes, Temer entre eles, fizeram canos com jornais, encheram de água e despejaram nos jogadores.

No começo dos anos 60, o movimento estudantil começou a virar à esquerda. Na faculdade da Arcadas, porém, o pensamento liberal continuou a imperar. Em 1962, Temer lançou-se à presidência do centro acadêmico pelo partido Academia Independente e perdeu. No ano seguinte, foi indicado candidato à presidência do Diretório Central dos Estudantes da usp. José Serra, o presidente da União Nacional dos Estudantes, integrava a Ação Popular, organização católica de esquerda que era contra a chapa de Temer. Um militante da ap, o hoje deputado tucano Arnaldo Madeira, foi incumbido de convencer Temer a abrir mão da candidatura, para que os estudantes se unissem em torno de um nome. Temer contou que, na sua primeira eleição para a presidência da Câmara, em 1997, Madeira e Serra o procuraram e falaram que votariam nele. "Nós vamos te apoiar porque estamos em débito com você: te tiramos a presidência do dce," disse-lhe Serra.

Formado, Temer montou um escritório de advocacia com Celso Bandeira de Mello, Dalmo Dallari e Geraldo Nogueira. Não apoiou nem resistiu ao golpe de 1964. Passou a dar aulas de direito constitucional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a puc, em 1968. Lançou um livro de direito constitucional que é até hoje um dos mais usados em cursos universitários. E se aproximou de Franco Montoro, um professor da puc ligado ao mdb. Quando Montoro foi eleito governador, em 1982, nomeou-o procurador-geral do estado. "Eu tinha 41 anos e achava o máximo para a minha carreira ter mil procuradores sob o meu comando", disse. "Estava feliz naquela posição."

Numa manhã de 1984, Montoro lhe telefonou e avisou: "Você vai ser meu secretário de Segurança." Temer gelou: seria o terceiro secretário de Segurança em apenas um ano de governo. Argumentou que não entendia nada de direito penal e sequer sabia onde ficava a Secretaria. A resposta de Montoro foi: "Passa lá na casa do José Carlos Dias [então secretário da Justiça] e acerta tudo com ele." Temer ficou uma semana no cargo, sem saber o que fazer.

"Eu não conhecia nada, não tinha contatos", contou. "O clima estava pesado, com crise entre as polícias civil e militar." Pensava em desistir quando, num fim de semana, viu na televisão uma entrevista de Gianfrancesco Guarnieri, secretário municipal de Cultura. O ator explicava como se adaptara ao terno e à gravata. "Guarnieri falou: 'A vida é uma representação e você tem que representar o papel que a vida te entrega'", contou Temer. "Aí eu pensei: a vida me deu o papel de secretário de Segurança. Se renunciar agora, o governo Montoro pode cair e eu me destruo."

Na segunda-feira seguinte, Temer chamou o delegado-geral da Polícia Civil e o comandante da Polícia Militar e começou a exercer seu papel. "O Montoro me disse que não era para eu ser policial, e sim para unir as polícias. A coisa da hierarquia funcionava, meu jeito cerimonioso impunha certo respeito. O comandante e o delegado se entrosaram, e entrosaram as duas polícias."

José Oswaldo Vieira era o delegado-geral e hoje está aposentado. Perguntei-lhe se Temer tinha sido crucial para unir as polícias. Vieira respondeu que, "infelizmente, existe até hoje essa dicotomia entre as polícias civil e militar, e isso não é razoável, não é inteligente."

Quando Temer era secretário de Segurança, 400 estudantes da Universidade de São Paulo ocuparam o prédio da reitoria, no centro da cidade. Temer conversou com o comandante da Polícia Militar, que lhe disse que a única maneira de invadir o prédio seria entrando pelo telhado. Era uma operação arriscada, com consequências imprevisíveis. Ele decidiu ir falar com os estudantes. "Bati à porta, eles abriram e me olharam com espanto", lembrou. Argumentou com eles que a Justiça havia expedido mandado de reintegração de posse. Como estavam num estado de direito, eles teriam que cumprir a lei. Os estudantes fizeram uma assembleia que durou mais de seis horas. Temer ficou esperando. Ao final, concordaram em desocupar o prédio, desde que o governador recebesse uma comissão. "Liguei para o Montoro e ele concordou", contou. "Saímos todos juntos cantando o hino nacional."

Tempos depois, um grupo de sem-teto invadiu um prédio do estado. Montoro lhe telefonou logo cedo. "Temer, vai lá nos sem-teto e faz a mesma coisa que fez com os estudantes." Temer riu ao lembrar da história. "Eu falei: 'Governador, uma coisa é negociar com estudante, outra, com sem-teto. Entrar num prédio ocupado desse jeito não é brincadeira.'" Montoro insistiu: "Vai lá, que não tem perigo, não", contou o deputado imitando a voz e o jeito suaves de Montoro. Acabou indo junto com um grupo da Secretaria de Promoção Social. Após horas de conversa, os sem-teto concordaram em ir para abrigos.

Michel Temer gostou da política e se candidatou a deputado em 1986, pelo PMDB de Franco Montoro. Não se elegeu, mas entrou na vaga de suplente e, dois anos depois, participou da Constituinte. Ao final do mandato, voltou para a Secretaria de Segurança, dessa vez a convite de um quercista, o governador Luiz Antônio Fleury Filho, logo após o massacre no Carandiru, onde 111 presos foram assassinados pela Polícia Militar. No final dos anos 80, José Serra, Fernando Henrique e Mario Covas romperam com Orestes Quércia e o PMDB, o qual acusaram de leniência com a corrupção e o fisiologismo - e fundaram o Partido da Social Democracia Brasileira. Temer ficou com os quercistas. Concluiu que teria mais chance de se destacar permanecendo onde estava. "O PSDB tinha muito cacique", justificou.

Sua ascensão no PMDB foi rápida. Foi eleito duas vezes líder do partido. Na primeira, em 1995, disputou o cargo com o deputado baiano João Almeida, hoje no PSDB. "Nós começamos a fazer a campanha do Michel, mas ele estava de férias com a namorada, em Trancoso", contou o deputado federal Geddel Vieira Lima. "Eu liguei e ele me disse para fazer a campanha porque ele estava namorando." Ou seja, Temer era candidato, mas não queria comprar briga com seu oponente. Depois de eleito, disse a João Almeida que só saíra candidato por insistência da bancada paulista. "O Michel só é ousado nas conquistas amorosas. Na política ele é muito ponderado", me disse Vieira Lima.

Temer está no seu terceiro casamento. Do primeiro, com Maria Célia, teve três filhas: Maristela, de 40 anos, Luciana, 37, e Clarissa, 35. Casou-se a seguir com Neuza, mas não teve filhos. Depois, teve um "relacionamento estável", como ele diz, mas não chegou a casar. Na mesma época, namorou uma jornalista, em Brasília, com quem teve um filho, hoje com 10 anos. Dá uma pensão ao menino, mas o vê pouco. Está casado há nove anos com Marcela, mais jovem que ele 42 anos, com quem tem um filho de 1 ano. "O Michelzinho é a minha paixão", admitiu. Conheceu Marcela, uma jovem loura e esguia, quando ela estava com 18 anos e, ele, 60. Disse que a viu no restaurante do tio dela, durante uma campanha eleitoral, e a achou muito bonita. Recebeu um e-mail dela, cumprimentando-o pela vitória. Temer ligou para a moça e a convidou para sair. "Ela foi com a mãe", contou o deputado. Quatro meses depois estavam casados.

Em março de 2007, na eleição para a presidência do PMDB, o governo petista apoiou a candidatura de Nelson Jobim, o nome lançado pela bancada do partido no Senado, capitaneada por José Sarney e Renan Calheiros. Ganhou Michel Temer, da Câmara. Numa conversa num café em Brasília, pedi ao ex-deputado Wellington Moreira Franco, peemedebista de longa data e vice-presidente da Caixa Econômica Federal, que explicasse a diferença entre o PMDB-Senado e o PMDB-Câmara. Enquanto saboreava um sorvete de chocolate, Moreira Franco disse que "o Lula compreendeu, depois da tentativa fracassada da eleição do Jobim, que o pessoal do Senado estava vendendo terreno na lua. O Sarney não é PMDB, nem o Renan", disse. "O Sarney faz um esforço grande, mas toda instituição tem sua cultura. Ele foi obrigado a ser PMDB para ser vice do Tancredo. Mas a relação forte dele era com a Arena." Inclinou-se sobre a mesa e me falou em tom de confidência: "O Sarney é hábil, é astuto, mas não conhece as bases do partido como nós, da Câmara, conhecemos."

Eram 13h30 quando Michel Temer me convidou para a mesa de almoço. O cardápio era salada, bife com purê, moqueca de peixe e pirão. Enquanto se servia, contou como se deu a aproximação com Lula. "Logo após a minha eleição para a presidência do partido, o ministro Tarso Genro me chamou para uma conversa com o presidente." Temer chegou ao Palácio do Planalto acompanhado de mais três integrantes da executiva do partido. Na antessala da Presidência, pediu que o deixassem a sós com Lula por cinco minutos. "Assim que entrei, eu falei: 'Presidente, quis entrar antes para furar um tumor. Acho que nós vamos acabar fazendo uma grande coalizão, mas não podem ficar mágoas pessoais. Sei que dizem que o senhor não vai com a minha cara e sei que lhe dizem que eu tenho desapreço pelo senhor.'" A reação do presidente teria sido positiva. "Ele foi gentil e me agradeceu por ter esclarecido aquela questão", disse-me.

Segundo Temer, ele apresentou a Lula pontos programáticos do partido que serviriam de base para o acordo com o governo. "Você sabe, o PMDB tem fama de fisiológico. Não me interessava ouvir o presidente dizer que nos queria no governo e que, para isso, faria mais tantos ministérios. Não estávamos atrás de cargos."

Os pontos acordados foram bastante vagos: o crescimento do pib a um ritmo anual de 5%, uma tentativa de reforma tributária e a manutenção dos programas sociais. Já a discussão de cargos foi bastante concreta. O PMDB ganhou o Ministério da Integração Nacional, que foi para Geddel Vieira Lima, e o da Agricultura, atribuído a Reinhold Stephanes. A vice-presidência da Caixa ficou com Moreira Franco. A indicação para a presidência de Furnas coube ao deputado Eduardo Cunha, do Rio de Janeiro. Quase uma centena de postos em órgãos de ministérios, estatais e fundos de pensão foram devidamente loteados.

Segundo Temer, desde então a sua relação com Lula só tem melhorado. "Sinto que ele tem grande consideração por mim e eu passei a admirá-lo", disse. Perguntei o que o fez mudar de opinião. "Ele conseguiu satisfazer o sistema financeiro e, ao mesmo tempo, tirou 20 milhões de pessoas da pobreza", respondeu. Temer também elogiou a rapidez com que o governo reagiu à crise financeira mundial: "Lula soube aproveitar a crise e levou a classe média ao paraíso com a desoneração fiscal dos automóveis e dos eletrodomésticos." Outro feito do governo, na sua avaliação, foi a liquidação da dívida com o Fundo Monetário Internacional, o fmi. "Não esqueço a imagem da Ana Maria Jull, representante do Fundo, vindo fiscalizar as contas brasileiras nos anos 80. Era uma humilhação", comentou.

Alcancei o deputado Geddel Vieira Lima na entrada do plenário da Câmara. Estava afobado: acabara de voltar de uma reunião no Ministério da Integração Nacional, do qual abdicara dias antes para concorrer ao governo da Bahia. Geddel é baixo, gorducho, tem uma cara redonda e sorridente. Vestia um terno verde-claro cintilante. Foi um dos primeiros peemedebistas a aderir ao governo. Nas eleições de 2006, fez campanha na Bahia para o candidato do PT ao governo, Jaques Wagner. "O último a aderir foi o Michel", contou. "Eu fiz a ponte entre ele e o presidente." A aproximação, disse, foi lenta porque "o Lula não gostava dele. Achava-o aristocrático. Dizia que ele olhava os outros de cima para baixo. Não é nada disso. O Michel é tímido."

Uma das resistências do governo ao nome de Temer é a sua forte ligação com o deputado Eduardo Cunha, do Rio - conhecido no Congresso por sua voracidade por cargos e pelas artimanhas que usa para consegui-los. Evangélico, surgiu na política pelas mãos de Paulo César Farias, o tesoureiro de Fernando Collor. Depois, ligou-se ao ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Foi um dos principais artífices para a eleição de Temer a presidente da Câmara. "O Eduardo Cunha tem lá o jeito dele", disse-me Temer. "Mas ele é competente, trabalhador, dedicado e tem uma inteligência privilegiada. Só recentemente descobri que ele não é advogado, e conhece o direito tanto quanto eu. Toda medida provisória, todo projeto importante o Eduardo Cunha conhece em detalhes." Admitiu que o colega é malfalado e relativizou a má fama: "Não vou me impressionar com as críticas a ele porque teria que me impressionar com as feitas a todos os outros. Eu administro os conflitos."

Eram quase 15 horas, quando, sem que fosse anunciado ou aguardado, Eduardo Cunha entrou na residência do presidente da Câmara com o deputado Henrique Alves. Temer ficou um pouco constrangido. Os dois instalaram-se na sala de estar. Pouco depois, um assessor o alertou para um compromisso na Câmara. Temer combinou com os deputados de encontrá-los lá. No carro, a caminho do Congresso, ele me perguntou: "O que eu posso fazer se o Eduardo Cunha aparece aqui em casa? Não deixá-lo entrar? Ele se impõe." Explicou que um dos motivos do sucesso da sua gestão como presidente da Câmara é deixar a porta aberta para todos os deputados.

A área de interesse de Cunha é a menina dos olhos da ex-ministra Dilma Rousseff: o setor de energia. Com ajuda de Temer, instalou o deputado Bernardo Ariston na presidência da Comissão de Minas e Energia da Câmara. Entre outras atribuições, a Comissão trata da regulação da exploração de petróleo e da construção de usinas elétricas. Cunha controla um grupo de vinte deputados, a maioria evangélicos, com capacidade de infernizar a vida do governo. Para conseguir a nomeação de Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas, por exemplo, ele protelou o que pôde a votação da emenda que prorrogava a cpmf, da qual era relator.

Conseguiu colocar Conde em Furnas, mas se envolveu numa briga com os funcionários e aposentados da estatal por causa do fundo de pensão, o Real Grandeza, que conta com um patrimônio de 6,5 bilhões de reais. O deputado foi acusado de tramar a queda da direção do fundo para poder controlar o seu caixa. O temor dos funcionários era que, sob o comando do grupo de Cunha, o Real Grandeza sofresse os mesmos problemas do Prece, o fundo da companhia de água do Rio de Janeiro, também sob sua influência, que teve um rombo de 153 milhões de reais em 2006.

Eduardo Cunha tem uma explicação singela para as críticas. "Em política não existe lugar vazio", disse. "Esses comentários são coisa de gente que não trabalha, que tem preguiça e fica com inveja dos que trabalham." Negou que tivesse qualquer influência no setor elétrico: "A única nomeação que eu fiz foi a de Conde, há três anos, e ele nem está mais em Furnas." Segundo ele, "nem a Dilma nem o PT têm qualquer resistência ao meu nome. Faço parte da comissão de negociação do PT e do PMDB, onde todas essas questões são discutidas. Existe zero de resistência ao meu nome. Pergunte ao pessoal do PT."

Perguntei ao deputado José Genoíno o que pensava da aliança do seu partido com o PMDB. "O PT aprendeu na porrada que sozinho não ganha eleição e não governa", disse-me. "Precisamos de um aliado que tenha força e que ajude a dar estabilidade para o governo." Genoíno elogiou Michel Temer. "Ele não é trator, não passa por cima."

Na entrada principal do Congresso, Temer foi cercado por jornalistas que queriam saber sobre o jantar que ele teria, naquela noite, com Dilma Rousseff. "O jantar vai ser às 9 horas", informou. "Onde?", quis saber uma repórter. "Não sei onde é a casa dela. Nunca fui lá." Temer tem a simpatia de deputados de todos os partidos. "Ele fez com que o Congresso voltasse a exercer o seu papel", disse Miro Teixeira, do PDT do Rio. "Temer negocia, ele ouve", disse Chico Alencar, do Partido Socialismo e Liberdade. "Quando tem demandas de movimentos populares, ele costuma me chamar para ajudá-lo." Rodrigo Maia, do Democratas, o considera "um craque", porque conseguiu unir o PMDB, "o que não acontecia desde a época do Ulysses".

Temer deixou o plenário pouco antes das 21 horas. O jantar fora marcado para que Dilma Rousseff o conhecesse melhor, já que nunca haviam conversado a sós por mais de alguns minutos. Dilma o recebeu acompanhada de dois assessores que ele não conhecia. Na hora do jantar, sentaram sozinhos à mesa. Foi servido um caldo, seguido de uma salada, que ele recusou, ela não. O prato principal foi um peixe com molho de maracujá. Ele tomou água de coco e, ela, água. O deputado achou a comida "muito boa, delicada".

Durante o jantar, Temer disse à ex-ministra que seria referendado como candidato a vice na convenção do partido, marcada para o dia 12 de junho. Deixou claro que o PMDB queria ser protagonista e não apenas coadjuvante do governo. Informou que o partido elaborava um programa econômico com ajuda do ex-ministro Mangabeira Unger, do ex-deputado Moreira Franco e do deputado Henrique Alves. Dilma, segundo Temer, não se opôs a ouvir as propostas do PMDB. "Ficou acertado que nós discutiremos tudo na campanha", contou-me. "Teremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que não queremos, do que gostamos e do que não gostamos."

O jantar, disse ele, foi sobretudo para aparar arestas. "A ministra me garantiu que não tem qualquer resistência ao meu nome", afirmou. Comentou também que se impressionara com a disposição de Dilma: "Ela estava com uma aparência muito saudável. Acho que a política revigora. Isso acontece comigo." O encontro durou menos de duas horas.

A relação de Temer com sua companheira de chapa era tão remota que, no começo deste ano, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, amigo dos dois, iniciou um trabalho de aproximação. "Eu conversei com eles e falei para pararem com as formalidades", me disse Bastos em seu escritório, em São Paulo. "Sugeri que, pelo menos, deixassem de lado o senhor e senhora." Perguntei a Temer se essa barreira havia caído. Ele disse que ambos aceitaram a sugestão, com um adendo: em público, ele só a chamaria de ministra.

Márcio Thomaz Bastos é advogado da empreiteira Camargo Corrêa, acusada de financiar campanhas políticas com dinheiro de caixa dois. O nome de Temer está na lista dos beneficiados. Uma operação da Polícia Federal levantou que, entre 1995 e 1998, os pagamentos a políticos chegaram a 178 milhões de reais, em valores da época. Segundo o levantamento da PF, Temer recebeu mais de meio milhão de reais da construtora. "O governo está preocupado que, durante a campanha, surjam mais denúncias contra Temer, o que poderia prejudicar o desempenho de Dilma", me disse um parlamentar do PT.

No PMDB, não existe constrangimento com a investigação da PF. E menos ainda com o pouco entrosamento entre Temer e Dilma. O deputado Moreira Franco ironizou quando eu lhe disse que os dois protagonizavam um casamento arranjado. "Se na Índia dá certo, por que não poderia dar certo entre eles?", perguntou-me. "Às vezes, é melhor um casamento arranjado, quando o casal vai se conhecendo e aprendendo a se gostar, do que aquele nascido da paixão que depois acaba."

No dia subsequente ao jantar com Dilma, Temer recebeu uma delegação chinesa para um almoço no restaurante da Câmara. À tarde embarcou para São Paulo. O escritório dele na cidade fica num casarão rosado no alto de Pinheiros. No dia seguinte, pela primeira vez em uma semana, Temer não usava terno. Estava com calça cinza e camisa listrada. Um dos quartos da casa foi transformado em sala de reunião e mobiliado com uma grande mesa de madeira e cadeiras de escritório. Nelas se sentaram o seu assessor de imprensa, Márcio Freitas, e o marqueteiro Gaudêncio Torquato. Parecia um pouco mais à vontade. Reclamou que, naquele dia, os jornais não atribuíram a ele a responsabilidade pela aprovação do projeto Ficha Limpa. "Acho uma injustiça", disse, "porque o projeto só foi a votação porque eu o banquei desde o começo."

Temer deixou o escritório para almoçar no restaurante Senzala, vizinho ao casarão, onde o maître veio cumprimentá-lo. "Há anos frequento esse lugar, aqui todo mundo vota em mim", disse. Enquanto comia, falou da amizade com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. Durante o almoço, o deputado atendeu um telefonema da mulher. Tapou o bocal e perguntou, abaixando a voz: "O Michelzinho melhorou da tosse?"

De volta ao escritório, sua filha Clarissa chegou de carro. "Como não nos vemos tanto quanto eu gostaria, tenho que aproveitar essas oportunidades", explicou-me ela. Enquanto o deputado recebia um grupo de prefeitos, ela disse que sua preocupação com o pai aumentou com a possibilidade de ele se tornar vice-Presidente: "Sei que ele se preparou a vida toda para isso, mas é um cargo em que ele vai ficar muito exposto. Como filha, acho péssimo, mas como brasileira acho ótimo ter uma pessoa como ele no governo."

Clarissa é psicóloga. Ela disse que, na intimidade, o pai é afetuoso e engraçado. Quando eram crianças, ele costumava contar histórias para as filhas e dizer poesias. "Ele adorava recitar 'Navio negreiro', do Castro Alves e 'O operário em construção', do Vinicius de Moraes", contou. Ela elogiou a formalidade do pai: "Um homem público tem que passar uma imagem de seriedade, de respeito. Um político tem que ter um discurso cuidadoso. Não pode sair falando o que dá na cabeça. É até desrespeitoso."

Outro na família que se preocupa com as atividades políticas de Temer é seu único irmão vivo, Adib, de 75 anos. O escritório de advocacia dele fica num prédio acanhado no centro da cidade. Adib costuma passar as tardes ali, embora já esteja praticamente aposentado. Tem os cabelos completamente brancos e a pele bronzeada. Como o irmão, mantém a postura ereta. O escritório é decorado com muitos bichos de pelúcia: cachorros, passarinhos, gatos expostos na estante, e vários porta-retratos de plástico com fotos dos irmãos, dos pais e da mulher.

"Não conseguimos nos ver muito. Não sei por que ele continua nisso", disse Adib. "Eu vivo dizendo para ele deixar essa vida. Falo para ele: 'Michel, você já tem tudo, tem uma família linda, suas filhas, sua mulher, e agora seu filhinho, para que continuar com essa coisa de política?' Mas ele não me ouve." Adib acha que o irmão faria muito melhor se largasse tudo e fosse aproveitar a vida. "Adoro quando ele me chama para ir à casa dele aos domingos", continuou. "É quando temos tempo para conversar. Mas isto está cada vez mais difícil. Quando não dá, e a saudade aperta, ligo a tv Câmara e fico vendo ele."

Temer ainda estava reunido com o grupo de prefeitos quando a filha deixou o escritório. No fim da tarde, voltou à sala onde estávamos. Foi até um armário e me trouxe uma pasta com uma centena de guardanapos de companhias aéreas, anotados a caneta. Contou que, nas viagens entre São Paulo e Brasília, aproveita para escrever poesias e aforismos. Faz isso há três anos. Começou a selecionar os que mais gostava e pretende publicá-los. Uma parte deles foi passada para o computador. Leu o seguinte:

Ando à procura de mim./Só encontro outros que, em mim,/Ocuparam o meu lugar.

Numa folha havia um poema maior, que ele escrevera para um irmão morto. "Recordo-me agora, toda vez que o violino toca...", começou Temer, mas a voz lhe faltou e os olhos se encheram de lágrimas. Passou para outro:

Eu desencantado/desfigurado,/desanimado/desconstruído/derruído/destruído.

Perguntei-lhe se havia escrito aquilo quando sofrera a derrota para presidência da Câmara. Disse que não lembrava das datas. Quis saber se ainda continuava escrevendo. Disse-me que não tinha tido muito tempo ultimamente. Escolhi um dos papéis e li em voz alta:

Lamentavelmente,/Tudo anda bem./Por isso, andam mal/Os meus escritos.

Perguntei-lhe se era essa a razão de ele ter abandonado a poesia. Ele sorriu, guardou os papéis e fechou a pasta.

* Correção em relação à edição impressa

Esquecer ...


Jamais. Para que não se repita - e pode se repetir, acredite. No Brasil o Supremo Tribunal Federal tornou obrigatório o esquecimento. Na Argentinha, "la lucha continua" ...

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(Wikipedia): O período denominado Ditadura Argentina começou com o golpe de estado que derrubou o presidente constitucional da Argentina, Arturo Illia, em 28 de junho de 1966. Desse modo, começou um novo período de governos militares que resultaria na volta do peronismo ao poder em 1973. A ditadura argentina se autodenominou Revolução Argentina.

Durante esses anos, o país foi regido pelo Estatuto da Revolução Argentina, alçado ao mesmo nível jurídico da Constituição Nacional. As expectativas de um prolongado governo dos militares golpistas estavam refletidas em uma de suas mais repetidas palavras de ordem, "a Revolução Argentina tem objetivos, mas não prazos". Os partidos políticos foram proibidos, assim como todo tipo de participação política por parte dos cidadãos; vigorou de forma quase permanente o estado de sítio e viram-se cortados direitos civis, sociais e políticos.

Três gestões dividiram esse período. A primeira ficou conhecida como o Onganiato, presidida pelo general Juan Carlos Onganía, cabeça do golpe e representante da velha facção azul do Exército Argentino. Onganía governou de junho de 1966 a junho de 1970, quando teve que entregar o poder debilitado por protestos, como o Cordobazo .

Durante sua gestão foram adotadas uma grande quantidade de medidas econômicas que tendiam a liberar os mercados e facilitar o caminho para a introdução de grandes monopólios internacionais, ao mesmo tempo que eram suprimidos importantes direitos de associação e reprimidas as greves e atividades proletárias.

Do mesmo modo, o Onganiato foi caracterizado por uma marcada intolerância e desprezo para com as então prestigiadas universidades argentinas, consideradas pelo governo como berços da subversão e do comunismo, chegando ao ponto de reprimir brutalmente as atividades de centros estudantis. Uma das ações mais paradigmáticas deste regime autoritário ficou conhecida como a Noite dos cassetetes, ocorrida em 29 de julho de 1966, operação na qual forças policiais irromperam nas universidades, desalojando a cacetadas e golpes tanto profesores como alunos; o que fez com que numerosos docentes, intelectuais e investigadores das universidades nacionais se exilassem, prejudicando seriamente a comunidade científica, cultural e universitária. A destruição alcançou até mesmo laboratórios e bibliotecas.

Em junho de 1970, o presidente militar Onganía foi substituído pela Junta de Comandantes em Chefe das três forças armadas, designando para seu lugar o general Roberto Marcelo Levingston, um desconhecido militar da inteligência que então desempenhava ignóbeis funções nos Estados Unidos, e que governou até março de 1971.

Sem poder controlar a rarefeita situação política, social e econômica do país, Levingston foi, por sua vez, substituído pelo próprio Comandante em Chefe do Exército e homem forte da Revolução Argentina, o general Alejandro Agustín Lanusse.

Esse novo presidente governou de março de 1971 a maio de 1973, e, à semelhança de seus predecessores, seu período de governo foi visto com grande antipatia e repúdio por parte da população. Sua gestão se caracterizou por um grande investimento em importantes obras de infraestrutura nacional (estradas, pontes, represas, etc.).

Em um clima de crescente instabilidade política no qual ocorrem chacinas como o Massacre de Trelew, aumentam as ações de organizações armadas clandestinas tais como o Exército Revolucionário do Povo, Montoneros, Forças Armadas Revolucionárias, e frente à crescente pressão tanto dos simpatizantes peronistas quanto do próprio Perón em seu exilio em Madrid, Lanusse preparou o terreno para a volta de um governo civil e tentou criar um tipo de peronismo sem Perón em seu frustrado projeto político, o qual batizou de o Grande Acordo Nacional (GAN).

Em 1973, convocou eleições gerais devido a exigências dos ilegalizados partidos políticos, os quais, em oposição ao GAN, haviam produzido por sua vez o documento A Hora do Povo. Lanusse suspendeu a proibição ao Partido Justicialista, mas manteve sobre Juan Domingo Perón. Ao elevar a quantidade de anos de residência necessários para ser presidente, argumentou que Perón não cumpria por ter estado exilado 18 anos na Espanha. Nas eleições, foi eleito Héctor José Cámpora pelo FreJuLi (Frente Justicialista de Liberación), nome que naquela ocasião o Partido Justicialista usou, sob a tutela do próprio Perón, e junto a outros partidos menores e ocasionais aliados políticos. O slogan mais eloquente e relembrado do FreJuLi era "Cámpora ao Governo, Perón ao poder"

Após o governo de Héctor José Cámpora, Perón regressou à Argentina para apresentar-se às eleições de 1973, em que obteve mais de 60% dos votos, derrotando a chapa Ricardo Balbín-Fernando de la Rúa, que havia sido postulada pela União Cívica Radical.

Isabelita tornou-se presidente após a morte de seu marido, que havia sido eleito numa chapa denominada Perón-Perón, pois ela era candidata à vice-presidência. Perón morreu em 1 de julho de 1974 e Martínez assumiu o cargo este mesmo dia.

A 24 de março de 1976 uma nova sublevação militar derrocou a Presidenta María Estela Martínez de Perón instalando uma ditadura de tipo permanente (Estado burocrático autoritário) autodenominada «Processo de Reorganização Nacional», governada por uma Junta Militar integrada por três militares, um por cada força. Pela sua vez a Junta Militar escolhia um funcionário público com o título de «presidente», com funções executivas e legislativas.

Assim como a ditadura anterior, a Junta Militar sancionou em 1976 um Estatuto e duas Atas de caráter complementar com hierarquia jurídica superior à Constituição.[18]

O Processo foi governado por quatro juntas militares sucessivas:

* 1976-1980: Jorge Rafael Videla, Emilio Eduardo Massera e Orlando Ramón Agosti
* 1980-1981: Roberto Eduardo Viola, Armando Lambruschini, Omar Domingo Rubens Graffigna
* 1981-1982: Leopoldo Fortunato Galtieri, Basilio Lami Dozo e Jorge Isaac Anaya
* 1982-1983: Cristino Nicolaides, Rubén Franco, Augusto Jorge Hughes

Em cada uma destas etapas, as juntas designaram como «presidentes» de fato a Jorge Rafael Videla, Roberto Eduardo Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Benito Bignone respectivamente, todos eles integrantes do Exército. Bignone, foi o único "presidente" que não pertenceu à junta.

O «Processo de Reorganização Nacional» levou adiante uma guerra suja na linha do terrorismo de estado que violou massivamente os direitos humanos e causou o desaparecimento de dezenas de milheiros de opositores.[19]

Internacionalmente, a ditadura argentina e a violação de direitos humanos contou com o apoio ativo do governo dos Estados Unidos (salvo durante a administração de James Carter) e a tolerância dos países europeus, a União Soviética e a Igreja Católica, sem cuja inação dificilmente se podia suster. Assim mesmo, nesse momento instalaram-se com apoio norte-americano ditaduras militares em todos os países do Cone Sul da América (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai) que coordenaram entre si e com os Estados Unidos a repressão, por meio de uma organização terrorista internacional denominada operação Condor.[20]

Em matéria econômica, a ditadura entregou formalmente os ministérios econômicos às associações empresárias mais conservadoras que impulsionaram uma política econômica abertamente desindustrializadora e neoliberal, com máxima expansão de uma dívida externa[21] contraída de maneira fraudulenta e mediante mecanismos de corrupção, para benefício do setor privado:

* O Ministério de Economia a José Alfredo Martínez de Fouce, presidente do Conselho Empresario Argentino (CEA).
* A Secretaria de Pecuária à Sociedade Rural Argentina, representada por Jorge Zorreguieta (o pai de Máxima Zorreguieta, princesa de Holanda).
* O Banco Central à Associação de Bancos Privados de Capital Argentino (ADEBA).[22]

Em 1982 o governo militar empreendeu a Guerra de Malvinas contra o Reino Unido, num acontecimento sobre o qual seguem muito obscuras as causas desencadeantes. A derrota infligida provocou a queda da terceira junta militar e meses mais tarde a quarta junta convocou eleições para 30 de outubro de 1983, nas quais triunfou o candidato da União Cívica Radical, Raúl Alfonsín, quem assumiu em 10 de dezembro de 1983.

Os chefes militares foram ajuizados e condenados, e muitos de eles levados a prisão, em complexos processos que se estenderam no tempo.

A ditadura militar chamada «Processo de Reorganização Nacional» foi a última. Se bem que entre 1987 e 1990 ocorreram várias insurreições militares, denominadas carapintadas, nenhuma delas conseguiu derrocar os governos democráticos.

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A ditadura militar argentina durou de março de 1976 a dezembro de 1983.

Mas, na prática, ainda não terminou.

O motivo: a discussão sobre o que fazer com a herança ( sangrenta ) dos “anos de chumbo” argentinos ainda divide opiniões, corações e mentes.

Os que acham que não se deve simplesmente esquecer o passado estão ganhando a batalha.

Um exemplo : depois de polêmicas de todo tipo, Buenos Aires ergueu, às margens do Rio da Prata, o “Parque da Memória” : lá, quatro enormes muros de pedra exibem o nome dos desaparecidos políticos.

Calcula-se entre dezoite e trinta mil o número de desaparecidos nos sete anos de ditadura. Os nomes de oito mil e setecentos desaparecidos e a idade de cada um já estão gravados em pedra, para sempre. A lista parece interminável.

O local escolhido para a construção dos muros não é casual: depois de anestesiados, prisioneiros políticos eram jogados de avião no Rio da Prata, nos chamados “voos da morte”.

Sem meias palavras, uma placa na entrada no Parque avisa que aquele é um monumento “às vítimas do terrorismo de Estado”.

O Parque não ficou pronto ainda : das dezessete esculturas que lembrarão os desaparecidos, cinco já foram instaladas.

Uma polêmica parecida envolveu as discussões sobre o que fazer com um prédio que virou sinônimo de infâmia : a sede da Escola de Mecânica da Armada (Esma).

O que aconteceu ali, no prédio de número 8.300 da Avenida do Libertador, é indescritível : os relatos comprovam que a Esma foi transformada numa espécie de campo de concentração de prisioneiros políticos durante a ditadura argentina.

A estatística é macabra : calcula-se que – dos cinco mil prisioneiros levados para a Esma – somente cerca de duzentos e cinquenta saíram vivos.

Não por acaso, o endereço virou sinônimo de infâmia.

Hoje, depois de um grande debate sobre o que fazer com o prédio que foi cenário de tanto horror, a Esma ganhou um novo nome : Espaço para a Memória e para a Promoção e Defesa dos Direitos Humanos.

O governo federal, a prefeitura de Buenos Aires e organizações de direitos humanos tomam conta do lugar.

A transformação da Esma num grande centro de memória é um capítulo importante de um debate sobre como tratar a herança da ditadura.

O governo de Raul Alfonsín – o primeiro civil a ocupar a presidência depois do fim do regime militar – baixou duas medidas polêmicas:

a Lei do Ponto Final fixava em trinta dias o prazo para que fossem apresentadas denúncias contra militares envolvidos em tortura: a partir daí, não se poderia fazer nada.

A Lei da Obediência Devida dizia que militares envolvidos em atrocidades não poderiam ser punidos porque estariam apenas cumprindo ordens superiores.

As leis do Ponto Final e da Obediência Devida foram anuladas pelo Congresso Nacional argentino em 2003 e declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte em 2005.

Agora, a justiça obriga envolvidos em atrocidades a participarem de audiências públicas.

Um dos mais célebres carrascos da Esma, o ex-tenente Alfredo Astiz, teve de depor, sob os gritos de manifestantes que conseguiram lugar na sala do tribunal.

A área da Esma é do tamanho de dezessete campos de futebol.

Já do lado de fora, um aviso: “Aqui, funcionou o Centro Clandestino de Detenção e Extermínio durante a ditadura militar que assaltou os poderes do Estado de março de 1976 a dezembro de 1983″.

Esculturas exibem fotos e nomes de prisioneiros que, depois de entrarem na Esma, jamais foram vistos de novo.

A palavra “vida” foi esculpida na grade. Numa das entradas, um painel expõe os nomes de militares e civis envolvidos em tortura.

São chamados de “repressores” e apontados como autores de “centenas de delitos cometidos na Escola de Mecânica da Armada durante a última ditadura militar”.

O mais célebre é ele – o ex-tenente Astiz, que era capaz de se infiltrar em reuniões de parentes de desaparecidos para fazer novas prisões e sequestros.

Uma sala da Esma guarda,hoje, fotos das Mães da Praça de Maio, as mulheres que exigiam do governo notícias de seus filhos desaparecidos.

O lugar mais temido dentro da Esma era o Cassino dos Oficiais. Quem passasse pela guarita que dava acesso ao Cassino estava, na prática, condenado à morte. O prédio de três andares tinha cinco salas que eram usadas para todo tipo de tortura. Presos eram submetidos a afogamento. Motocicletas pilotadas por oficiais passavam por cima de prisioneiros deitados nos corredores.

As celas ficavam no subsolo. Uma alameda ganhou um nome irônico: “Caminho da Felicidade”.

Dali saíam os presos que, depois de receberem anestesia, eram levados para aviões da Força Aérea e jogados no Rio da Prata ou no Oceano Atlântico.

Quando não eram mortas, as prisioneiras grávidas eram levadas a uma maternidade clandestina que funcionava na Esma.

Os recém-nascidos eram adotados por militares ou entregues a outras famílias – que nem sempre sabiam de onde eles tinham vindo. As mães – militantes políticas – eram eliminadas em seguida.

Geneton Moraes Neto

Dossiê Geral

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre fanzines, programa de rock, aperipê fm, cultura e informação ...

perguntou: Michael Meneses - http://www.flickr.com/people/michaelmeneses
respondeu: Adelvan

1 - Como surgiu seu contato com o rock? - Surgiu principalmente através da tela da Globo, no primeiro rock in rio de 1985. Tinha 14 anos e ali foi que fui começar a entender mesmo o que era rock, e a me interessar pelo assunto. Posteriormente me aprofundei lendo e colecionando as revistas Bizz e Rock Brigade – principalmente a Bizz, sempre fui eclético dentro do universo do rock e o xiitismo metaleiro da Rock Brigade só me interessou num primeiro momento. Em resumo, sou da geração Rock in rio/Revista Bizz. Se morasse no Rio na época seria da geração Fliminense FM, também, certamente.

2 - Você foi um dos primeiros zineiros de Sergipe, isso em meados dos anos 80, em uma época que só em filme e literatura de ficção imaginava se a Internet. Como você teve a idéia de fazer um Zine mesmo morando no interior do estado (Itabaiana/SE)? - A primeira idéia foi bem espontânea, tanto que eu nem sabia o que era um fanzine, fiz uma espécie de “apostila” contando a historia de minhas bandas de rock favoritas para distribuir entre os amigos, pois tinha ciumes de minha coleção de revistas e não emprestava. Só depois, quando meu zine, que eu não sabia que era um zine, chegou ás mãos dos donos da Distúrbios Sonoros, loja de discos especializada em rock da época, e que faziam um programa de radio na Atalaia FM chamado Rock Revolution (no qual eu conheci muita coisa que só tinha lido sobre nas revistas), eu recebi um pacote cheio de fanzines e panfletos punk de Silvio da Karne Krua e fiquei sabendo que havia toda uma rede de informação em torno daquilo. Foi bem interessante, me influenciou muito. Depois, já morando em Aracaju, editei meu zine que ficou mais conhecido, o “Escarro Napalm” (hoje em versão blog), através do qual fiz contatos e amizades por todo o Brasil – algumas duram até hoje.

3 - Como você poderia narrar a historia do rock em Sergipe? Você ainda pensa em escrever um livro sobre o rock Sergipano?(Fale sobre as principais bandas sergipanas de todos os tempos) - Eu escrevi uma vez uma matéria para o extinto zine carioca “Bodega” contando como foi o primeiro show a que fui em minha vida. Gostei e tive a idéia de dar continuidade à história, sob o título de “Dossiê Rock Sergipano”. Parei em algum ponto do início dos anos 90, porque me perdi e não sabia mais do que já tinha falado, até que descobri um comandozinho milagroso no Word chamado Control L em que você pode pesquisar palavras no texto (sério, não sabia que existia isso, sou um semianalfabeto em termos de informática) e recentemente comecei a retomar aos poucos o texto, já avançando anos 90 adentro – uma década que foi bastante rica no underground aqui, bem mais que os pioneiros anos 80. Os anos 90 pra mim foram ótimos, pois foi quando me envolvi mais diretamente com o rock, fazia o fanzine, viajava, via grandes festivais (rock in rio II, vários Hollywood rock), tive uma loja especializada (que comprei de Sylvio, a Lokaos), fazia um programa de radio em Itabaiana onde tocava o que quisesse – cheguei a tocar “canção de amor” dos Cabeloduro, a música com a letra mais escrota que eu já ouvi. Enfim, foi divertido. Tinha a aura “heróica” ainda dos anos 80, mas com uma maior riqueza de informação e sem essa confusão que impera hoje em dia. Acho que estamos, todos nós, no mundo inteiro, sofrendo por excesso de informação. Os anos 2000 foram muito confusos – ou vai ver eu é que tou ficando velho, mas acho até que sou dos que se adaptam bem às novas tecnologias. Só não sou obcecado por novidades tecnológicas, como todo mundo hoje em dia parece ser. Twitter, Facebook, iPad, kindle, essa tralha toda, por exemplo, nunca me interessou - O orkut e o MSN já suprem satisfatoriamente todas as minhas necessidades, então pra que eu vou ter que aprender a usar uma nova plataforma, só porque é a novidade do momento ? Claro que também não sou totalmente avesso a novidades, experimentei o facebook e o twitter, cheguei à conclusão que não precisava deles e abandonei. Acho o orkut (e uso o antigo, o novo é muito confuso e cheio de informações inúteis) bem melhor que o Facebook, não sei como o google não conseguiu convencer o mundo disso. Já dentre as maiores bandas de rock de Sergipe eu diria que as pioneiras e mais representativas dos principais estilos são a Karne Krua, a Snooze e a Warlord (no momento parada). Mas nos últimos anos têm aparecido bandas excelentes, como a Plástico Lunar, The Baggios, Nucleador, Berzerkers, Inrisório, The Renegades of punk e muitas, muitas outras.

4 - Como foi o convite para apresentar e produzir o Programa de Rock na Aperipê FM? - Foi bem simples – o diretor lá da FM me convidou pra fazer um programa de rock com Fabio do Snooze e eu aceitei. Aliás escolher o nome do programa foi bem fácil também, como deve ter percebido ...

5 - Como você faz a produção do programa, como é feita a escolha das músicas e das noticias veiculadas no Programa de Rock? - Notícias são poucas. Faço um apanhado dos shows que andam rolando pelo estado e divulgo no ar. É a “Agenda rock”. Notícias e resenhas de shows e discos deixo mais para o blog do programa. A escolha das musicas é parte baseada em meu gosto pessoal, parte com uma intenção mais didática, tipo, de vez em quando toco coisas que nem curto tanto mas que tem importância para a Historia do rock. Tem um espaço aberto para os ouvintes participarem também, o “Bloco do ouvinte”, que eu acho importante justamente para que o programa não fique tão centrado no meu gosto pessoal – apesar de meu gosto ser BEM eclético, vai de Cocteau Twins a Extreme Noise Terror. O programa é de rock, não se prende a nenhum estilo específico, dentro do universo do rock toco de tudo – ou quase, já que coisas como emocore e nu metal eu nunca programei, nem pretendo programar. No máximo uma do Korn num especial de natal.

6 – A Aperipê FM é uma rádio publica. O rock sempre foi um estilo musical de contestação política, cultural, religiosa... Existem normas de conduta por parte da rádio na seleção das musicas ou noticias veiculadas no seu programa ou tudo funciona na base da liberdade de expressão com bom senso por ambas as partes? - Liberdade total. Só não pode falar palavrão – na verdade ninguém nunca me disse que não podia, mas meu bom senso diz que é melhor evitar. Só teve uma vez que um papo lá com um entrevistado, “Homem Brasa” ( www.vivalabrasa.blogspot.com ) tava caminhando muito para o lado da apologia à maconha, já que ele é um maconheiro convicto e inclusive amigo do Capitão Presença em pessoa, em que o diretor da radio ligou pedindo pra “maneirar”.

7 - No ano passado o Programa de Rock foi indicado ao premio de melhor programa de rádio ou rádio rock do Brasil pela Revista Dynamite. Como você viu esse fato? - Vi com surpresa, já que divulgo o programa mais por aqui mesmo, e apenas via internet. Fiquei muito feliz com essa indicação e com o fato de não termos ficado em último na votação – ficamos num honroso penúltimo lugar. Para um programa feito no menor estado do país, de forma voluntária e praticamente sem recursos de marketing, acho que foi um feito e tanto.

8 - Alem dessa indicação, quais foram os pontos altos do programa...(entrevistas, sorteios, apoios...)? - Entrevistar o Ronaldo Chorão, meu ídolo e amigo, ao vivo, foi bem legal. Um programa especial que eu fiz no dia do rock eu acho que ficou bem bacana também, me impus o desafio de contar a historia do rock em 90 minutos de música e acho que, modéstia a parte, em saí muito bem. Os especiais só com rock sergipano acho bem importantes também – nunca imaginei que iria ter a oportunidade de fazer um programa de 2 horas no radio tocando só rock sergipano. Fizemos vários, e faremos mais, já que estamos inseridos no projeto "sergipanidade" da Fundação Aperipê. Fico feliz também com o apoio que pessoas como você, Michael, têm dado ao programa - temos alguns ouvintes cariocas fiéis graças à divulgação que você faz por aí.

9 - A visibilidade do Programa pelo Brasil afora fez com que a Fundação Aperipê estudasse uma versão televisiva do Programa de Rock e um piloto chegou a ser gravado. Qual a possibilidade desse programa ir ao AR de fato? - Acho que nenhuma. O episódio piloto, que não foi ao ar, pode ser visto no youtube.

10 - Recentemente a TV e Rádios Aperipê voltam a ser transmitidas pela internet. Alem é claro do Programa de Rock, quais outros programas você recomenda aos internautas do mundo inteiro como forma de conhecer e usufruir da cultura do estado de Sergipe? - Tem o Clube do Jazz, às quartas, 20:00h, que é muito bom. O sonora, todo dia às 14:00h, é legal também. E o "Encruzilhada", totalmente dedicado ao Blues, todo domingo às 22:00h. No geral é uma boa radio, de longe a melhor por aqui e creio que uma das melhores do Brasil - soube inclusive que tem sido citada como modelo e referência para as demais rádios públicas do país pelo próprio Ministro da Cultura.

11 – Na sua opinião o que falta para o Rock e para cultura sergipana em geral ser reconhecida de forma justa no Brasil? - Não sei. Mais empenho das bandas, talvez – mas ta rolando esse empenho, aos poucos, bandas como The Baggios, Plástico Lunar e, numa seara mais pop, Alapada, começam a aparecer na TV em rede nacional e em Festivais Brasil afora. A questão é que Sergipe é o menor estado da federação e fica localizado numa região historicamente marginalizada, longe do alcance da grande mídia, ou "longe demais das capitais", como dizia o grande filósofo Humberto Gessinger, então é natural que as coisas sejam mais difíceis de acontecer por aqui, em termos de visibilidade. Mas o importante é não ficar "sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar".

12 – Deixe sua mensagem final? - “Keep on rocking in the free world”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Flesh + Blood ( Conquista Sangrenta )

“Cult Movie” é a denominação que geralmente se dá a filmes que tiveram pouco retorno nas bilheterias mas que sobrevivem na memória afetiva de alguns que o cultuam, seja por algum aspecto em especial que os identifica com alguma espécie de grupo em particular, seja por ter sido incompreendido em sua época e redescoberto mais tarde, caso de Blade Runner, por exemplo – fenômeno que, acredito, se repetirá com o subestimado “Watchmen”.

Nos anos 80 eu morava em Itabaiana, agreste sergipano, a 52 km de Aracaju. Para minha sorte, era uma época em que havia cinema no interior do estado, e foi lá, "na tela do Cine Santo Antônio”, que eu vi algumas das grandes pérolas cinematográfica da década. Uma das maiores foi “Conquista Sangrenta”, considerado a primeira produção americana do diretor Paul Verhoeven, apesar de ter sido rodado ainda na Europa. Adolescente “rebelde” e com os hormônios à flor da pele, fiquei totalmente chapado com aquela história de “capa e espada” totalmente fora dos padrões bem-comportados de Hollywood, ou “politicamente incorreta”, como se diz hoje em dia.

A História se passa em 1501 e gira em torno de um grupo de mercenários anárquicos e sanguinários liderado por Martin, interpretado por Rutger Hauer, que é traído pelo seu último contratante e orquestra uma vingança com conseqüências imprevisívies, já que no caminho acabam seqüestrando, involuntariamente, a noiva do filho do nobre, magnificamente vivida no auge de sua forma física e beleza por uma das grandes musas do cinema de então, Jennifer Jason Leigh. Leigh nunca foi de negar fogo (vide sua arrebatadora interpretação da prostituta Tra lala em “Last exit to Brooklin”) e está totalmente a vontade como a “assanhada” princesinha virgem literalmente “doida pra dar” e que cai nas graças do “vilão” líder do bando. Numa das melhores cenas de um filme repleto de cenas memoráveis, ela é estuprada por Martin e dá a entender que está gostando da brincadeira, ao ponto dos demais beberrões começarem a zombar de seu suposto “líder” que estaria sendo, no final das contas, ele mesmo estuprado. Com Hauer, numa química perfeita, passa a dividir cenas pra lá de calientes onde aparece por diversas vezes em deliciosos nus frontais, para nossa alegria. Um pouco demais para o padrão moral do americano comum, não ? Talvez isso, e muito mais, explique o fraco retorno da fita nas bilheterias, o que fez dela uma pequena pérola esquecida, porém sempre redescoberta graças, principalmente, a algumas exibições na TV madrugada adentro (já assisti na Globo, e surpreendentemente sem cortes). As aspas na palavra vilão lá atrás, aliás, se justificam pela absoluta falta de maniqueísmo do filme. Nele todos os personagens, sem uma única excessão, têm um caráter moralmente questionável. O jovem Arnolfini, que no início parecia o “mocinho” padrão das sessões matinais de aventura, passa a ter um comportamento cruel e obsessivo a partir do momento em que começa a empreender a caçada a sua noiva, por quem se apaixonou ao dividir com ela um pedaço de mandrágora, uma raiz que supostamente cresce logo abaixo de qualquer árvore onde alguém tenha sido enforcado – sim, meus caros, a cena mais “romântica” se passa entre dois cadáveres putrefatos pendurados logo acima da cabeça dos amantes. Já a “mocinha”, Agnes, fica visivelmente dividida entre os dois, lisonjeada pela fidelidade de seu príncipe prometido porém encantada pelo charme do soldado experiente.

Flesh+Blood (título do original em inglês) é, antes de mais nada, uma aventura escapista como outra qualquer. Mas é também uma prova viva de que não é preciso ser um débil mental para se divertir com um filme de aventura – eles podem ter como pano de fundo um rebuscado contexto histórico com muito a dizer sobre a época que retratam. Aqui, estamos em plena transição da Idade Média para a Moderna, inteligentemente representada pela luta do estudioso Steven contra as superstições e todo tipo de crendice e ignorância que imperam ao seu redor. Chegamos ao requinte de presenciar uma verdadeira “guerra bacteriológica”, quando um dos personagens usa um cão contaminado pela peste negra para desalojar os fugitivos encastelados numa fortaleza. A religião também não é poupada: entre os mercenários há um padre totalmente escroto e alucinado que ajuda Martin a liderar o bando através de supostos sinais emitidos pela estátua de um santo que eles encontram pelo caminho. Sexo, violência, escatologia, ação e aventura - tudo isso faz de “Conquista Sangrenta” um filme imperdível. Não deixe de ver – há umas edições “meia-boca” disponíveis em DVD no Brasil, mas é possível encontrá-lo com relativa facilidade e boa qualidade na rede mundial de computadores (ver links abaixo). Baixe também a trilha sonora, assinada pelo grande Basil Poledouris, o mesmo de “Conan, o Barbaro”.

Paul Verhoeven ainda faria alguns bons filmes (caso de “Robocop” e “Total Recall” (Vingador do futuro), grandes sucessos de crítica e público), mas depois se entregaria de vez ao pastiche cinematográfico e cometeria uma das maiores aberrações da história de Hollywood, “Showgirls”, que alguns consideram uma comédia involuntária – eu, particularmente, não achei a menor graça. Recuperou-se parcialmente com “Tropas Estelares”, que apesar do conteúdo fascistóide é uma boa aventura de ficção científica, e “O Homem sem sombra”, uma interessante fábula moral estrelada por Kevin Bacon. Seu maior sucesso comercial, no entanto, continua sendo “Instinto Selvagem”, que eu acho um lixo. Fique com a primeira fase do diretor, quando ainda filmava na Holanda, cuja cereja do bolo é, justamente, “Conquista Sangrenta”, uma obra de transição e, também, uma pequena obra-prima.

por Adelvan Kenobi

BAIXE A TRILHA SONORA
BAIXE O FILME (RMVB)
COMPRE O FILME

FILMOGRAFIA DO DIRETOR PAUL VERHOEVEN:

* 2006 - A espiã (BR) - Black book: Livro negro (PT) (Zwartboek)
* 2000 - O homem sem sombra (BR) - O Homem Transparente (PT) (Hollow man)
* 1997 - Tropas estelares (BR) (Starship Troopers)
* 1995 - Showgirls (Showgirls)
* 1992 - Instinto selvagem (BR) - Instinto Fatal (PT) (Basic instinct)
* 1990 - O vingador do futuro (BR) - Desafio Total (PT) (Total recall)
* 1987 - Robocop, o policial do futuro (BR) - Robocop (PT) (Robocop)
* 1985 - Conquista sangrenta (BR) (Flesh & blood)
* 1983 - O Quarto Homem (BR)(PT) (De vierde man)
* 1980 - Sem controle (BR) (Spetters)
* 1979 - Voorbij, voorbij (TV)
* 1977 - Soldado de laranja (BR) O Soldado de Orange (PT) (Soldaat van oranje)
* 1975 - O amante de Kathy Tippel (BR) (Keetje Tippel)
* 1973 - Louca paixão (BR) (Turks fruit)
* 1971 - Wat zien ik?
* 1970 - De worstelaar
* 1968 - Portret van Anton Adriaan Mussert (TV)
* 1965 - Korps Mariniers, Het
* 1964 - Floris
* 1963 - Feest
* 1962 - De lifters
* 1961 - Niets bijzonders
* 1960 - Een hagedis teveel








 




 


 
 

Jesus Cristo de cu é rola

Me chamou a atenção agora há pouco uma matéria na televisão que mostrava uma entrevista coletiva com Kaká, da seleção brasileira, em que ele se queixava de supostos ataques a ele como “crente” e até ao próprio Jesus Cristo “em pessoa” por parte do jornalista Juca Kfouri. Soltou a velha ladainha de “respeite minha crença” e coisas do tipo. Kfouri se defende falando em seu blog que em nenhum momento desrespeitou a crença de qualquer jogador, apenas se posiciona contra o merchandising religioso que alguns insistiam em fazer aproveitando o palco privilegiado que ocupam, algo que já incomodou a própria FIFA, que tratou de proibir exageros como as malfadadas camisetas exibidas depois das comemorações dos gols. O episódio me lembrou um trecho do sensacional livro de Richard Dawkins, “Deus, um delírio”, em que ele discorria sobre este estranho “status” que goza a religião em nossa sociedade: tudo é passível de crítica – posições políticas são veementemente contestadas e combatidas, opiniões pessoais são rebatidas, técnicos e jogadores da seleção são severamente questionados, mas se tocar no assunto religião, aí é tabu, é desrespeito, é blasfêmia. Claro que isso é fruto de uma doutrinação que vem da infância, basta notar, como bem o fez Dawkins, que chamar uma criança de “católica”, ou “muçulmana”, ou “judia”, nos parece mais do que normal, enquanto que um termo como “criança marxista”, ou “criança keynesiana”, seria imediatamente taxado como absurdo – e é, assim como também o é rotular os pequenos a partir das convicções religiosas de seus pais.

Vai cuidar do teu púbis que é o melhor que você faz, Kaká.

Abaixo, transcrevo o post de Juca Kfouri:

Frase de Kaká, poucas horas atrás, em entrevista coletiva, em resposta ao repórter da ESPN-Brasil, André Kfouri, meu filho:

“Há algum tempo os canhões do seu pai são disparados contra mim. A artilharia dele está voltada contra mim. Eu queria aproveitar a pergunta para responder às críticas que ele vem fazendo, e o que me deixa triste é que o problema dele comigo não é profissional, mas porque ele não aceita minha religião. Porque eu sou uma pessoa que segue Jesus Cristo. Eu o respeito como ateu, e gostaria que ele me respeitasse como [seguidor de] Jesus Cristo, como alguém que professa a fé em Jesus Cristo. Não só a mim, mas a todos os milhões de brasileiros que acreditam em Jesus Cristo”.

Kaká se engana e enfiou Jesus onde Jesus não foi chamado.

Critico sim o merchandising religioso que ele e outros jogadores da Seleção costumam fazer, tentando nos enfiar suas crenças goela abaixo.

Um tal exagero que a Fifa tratou de proibir, depois do que houve na comemoração da Copa das Confederações.

Mas não abri bateria alguma contra ele, provavelmente mal assessorado, tanto que o considerei o melhor em campo no jogo contra Costa do Marfim.

Apenas noticiei que ele sofre com seu púbis e há quem avalie que isso o levará a encerrar a carreira prematuramente.

Ele negou as dores no púbis ao dizer que sente dores como qualquer jogador profissional e que o prazer de jogar pela Seleção o faz superá-las.

Aí caiu na primeira contradição, pois ao atribuir às dores que sentia a sua má atuação na Copa da Alemanha, quatro anos atrás, declarou que não jogaria mais com dores.

E hoje mesmo, na entrevista coletiva, ao responder sobre se seria operado do púbis depois da Copa respondeu que esta era uma questão delicada e que os médicos divergiam a respeito.

Mas, para quem não tem nada no púbis, como alegou, por que cogitar de tal hipótese?

Talvez só Deus saiba.

Como não acredito nele…

Em tempo: em tudo isso, além das inegáveis qualidades técnicas de Kaká, resta-lhe um mérito: diferentemente do que frequentemente fazem tantos, Dunga e Jorginho entre eles, Kaká não generalizou e deu nome aos bois, no caso, ao boi.

É muito melhor assim.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

D. E. P. José Saramago

Eu certamento leio mais que a média do brasileiro comum, mas é também certo que leio muito menos do que gostaria. De José Saramago, pelo qual tinha uma extrema admiração por sua inteligência e convicção, li muito pouco. De livro, mesmo, apenas “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Ao lado do que ele tem dito na imprensa e me chegou aos olhos e ouvidos, foi-me suficiente para me tornar fã. O “Evangelho” me marcou muito – considero-o uma das melhores obras literárias que já li em toda a minha vida. Trata-se de uma “fantasia realista”, algo do tipo “o que aconteceria se” Cristo tivesse realmente existido (há controvérsias) e fosse, de fato, filho de Deus - no caso, Jeovah, ou Javé, o “Deus de Israel”. A imolação de seu filho na cruz seria, então, parte de uma espécie de “trama política” celestial com o objetivo de sobrepujar a “concorrência”, os demais deuses do infindável panteão adorado pelos humanos. Um plano de expansão do monoteísmo. Causou furor na igreja católica de Portugal, ao ponto de ter sido preterido pelo governo numa indicação para um prêmio literário por pressão do clero, fato que desgostou tanto o autor que o fez se auto-exilar na ilha vulcânica de Lanzarote. Fora isso, conheço apenas o filme de Fernando Meireles baseado em “O Ensaio sobre a cegueira”. Gostei, mas dizem que o livro é bem melhor. Espero tomar vergonha um dia e conferir com meus próprios olhos.

José Saramago morreu hoje.

Que descanse em paz.

A.

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José Saramago morreu. O Dossiê Geral pede licença para republicar o relato de um encontro com o homem.

Por Geneton Moraes Neto - 2000-2010 globo.com Todos os direitos reservados.

A ficha que a gente preenche quando chega a um hotel sempre pergunta qual é a nossa profissão. Se dependesse de mim, eu escreveria : “agente provocador”.

Imagino a cena de um filme B de décima-oitava categoria: o gerente da espelunca - com camiseta branca, barriga estufada e um lápis encaixado atrás da orelha - tiraria o cigarro de palha da boca, cuspiria de lado e me perguntaria, com voz fanhosa e entonação de personagem mal dublado de filme de TV : “Quer fazer o favor de dizer o que diabo significa “agente provocador” ? Alguma piadinha de mau gosto, por acaso ? Sinto muito, forasteiro, mas não temos vaga. É melhor você ir andando, se ainda estiver pensando em salvar a própria pele ! O último agente provocador que passou por aqui virou banquete para as águias daquela montanha. Get out of here, coiote!”.
Vou. Sem tiroteio, sem cenas de ação, sem pancadaria no saloon, sem cavalos em fuga, o filme B termina sob as vaias da plateia. Não poderia ser de outra maneira.
Mas, como todo filme deve ter uma ponta de verdade, o locutor-que-vos-fala declara que sim, se pudesse, escreveria as palavras “agente provocador” no espaço destinado à profissão. Afinal de contas, que outras coisas úteis um repórter pode fazer na vida, além de cumprir o papel de agente provocador diante dos entrevistados ? Poucas. Pouquíssimas.

De vez em quando, a tática da provocação pode dar resultado. Ou seja: pode levar o entrevistado a produzir declarações interessantes.

Dou um exemplo aos senhores jurados. Quando fui entrevistar José Saramago, o escritor que permaneceu fiel ao Partido Comunista Português independentemente das mudanças da paisagem política, comuniquei ao meu demônio-da-guarda: “Vou dar uma cutucada no bicho. Vou insinuar que ele é um dinossauro político. Quero ver o que ele diz”. Meu demônio-da-guarda se limitou a expelir um daqueles suspiros com cheiro de enxofre e a rir uma risada de bruxa de desenho animado, como se dissesse: “Você vai levar uma patada. Quero ver!” (a bem da verdade, diga-se que, tempos depois, o “dinossauro político” e “comunista de carteirinha” Saramago escreveu um artigo criticando pela primeira vez a rigidez de penas impostas pelo regime cubano a dissidentes. A lembrança do encontro com Saramago me veio quando li, neste fim de outubro, a notícia de que o homem acaba de lançar um novo romance – “Caim”, uma espécie de acerto de contas com Deus).

De fato, Saramago reagiu com alguma irritação à nossa provocação. A entrevista estava salva. Num gesto de cortesia, o português laureado com o Nobel de literatura ainda citaria o nome de três escritores brasileiros a quem ele concederia – de bom grado – o prêmio. Levada ao ar na Globonews, a entrevista com José Saramago foi publicada, na íntegra, no livro “As Grandes Entrevistas do Milênio”, lançado pela Editora Glob.

Ei-la:

O senhor é até hoje filiado ao Partido Comunista Português. Não tem medo de ser visto como um animal político em vias de extinção?
(O espírito de porco que quiser irritar o Prêmio Nobel de Literatura José Saramago já sabe o que fazer: basta chamar o homem de dinossauro político. Quando ouve a insinuação político-zoológica, o cordato Saramago imprime um tom incisivo à resposta)
Saramago: “Há muitas coisas em vias de extinção que deveriam preocupá-lo mais : profissões que se acabam, culturas que desaparecem, línguas que perdem sentido porque já não têm ninguém que as fale, um planeta que estamos destruindo. Deixemos lá os dinossauros políticos. Porque acontece uma coisa curiosa : é preciso ter cuidado com a expressão “dinossauro político”. Pode chegar o momento em que, tal como acontece com os dinossauros autênticos, os estudiosos andem à procura dos ossos dos dinossauros políticos, para tentar reconstituí-los tal como eles teriam sido. Talvez um dia se venha a necessitar dos ossos dos dinossauros políticos que nós somos para que se entenda o que acontecia no mundo”.
(Minha tática de agente provocador funcionou : quando se sente confrontado, o dinossauro Saramago reage com um punhado de frases afiadas,o que não deve ser difícil para quem se notabilizou como exímio esgrimista das palavras)
Usa-se no Brasil a expressão “comunista de carteirinha”. O senhor anda com a carteirinha do Partido Comunista Português ?
Saramago: “Não ando com ela. Tenho cartões e carteirinhas de várias e várias instituições com quem mantenho relações. Não ando com as carteirinhas de todos. Mas pago a minha cota ao PC”.
O dirigente comunista Álvaro Cunhal entregou ao senhor uma carta que não deveria ser aberta. Que segredo era esse ?
Saramago : “Álvaro Cunhal na verdade escreveu uma carta que nunca li, porque a carta só me seria entregue se ele não tivesse sobrevivido a uma intervenção cirúrgica a que foi submetido na União Soviética. O que sei é que ele escreveu cartas que seriam entregues a vários destinatários se ele não tivesse sobrevivido. Não é o Terceiro Segredo de Fátima : ele próprio me comunicou, depois, ter dito, na carta, que esperava que eu nunca saísse do Partido Comunista Português. Não saí. Não sairei. Em todo caso, a carta nunca me foi entregue”.
Independentemente do apelo que seria feito nessa carta, jamais lhe passou pela cabeça a idéia de largar o Partido Comunista ?
Saramago: “Não tenciono efetivamente – para usar a expressão que você usou – “largar” o Partido Comunista, a não ser que ele me largue. Quero dizer : se amanhã o Partido se transformar em outra coisa, como aconteceu com a maioria dos partidos comunistas europeus, posso não reconhecer o Partido a que aderi. Nesse caso,é possível que eu saia. Mas espero que não aconteça”.
Por que é que o Prêmio Nobel de Literatura não gosta de falar de literatura ?
Saramago : “…Mas eu nunca disse que não gosto de falar de literatura! O que disse foi que cada vez menos me interessa falar no assunto.Não é que não goste.Se é meu trabalho,como é que não iria gostar ? Quando se publica um livro, ou por qualquer outro motivo, ligado ou não ligado a mim, falo de literatura, evidentemente. O que acontece é que considero que os problemas do mundo não se esgotam na literatura. São tão graves e tão importantes que, se tenho a oportunidade, até quando trato de literatura trato de abordá-los. Não é dizer que não gosto de falar de literatura”.
O senhor já disse que o Brasil é um país de luzes e sombras. Aos olhos do mais famoso escritor português de hoje, qual é a grande luz e qual é a grande sombra que o Brasil projeta ?
Saramago: “Uma pergunta dessas não é fácil de responder. Países de luzes e sombras de uma maneira ou de outra todos o são. O que digo em relação ao Brasil é que o país poderia ser, pelas riquezas naturais e pelas características do povo, um país em que as luzes predominassem. Não digo que as sombras é que predominam. O que quero dizer é que as sombras poderiam ser menores e menos graves”.
Se o senhor fosse fazer hoje o papel do escrivão Pero Vaz Caminha,quinhentos anos depois, qual seria a primeira frase que escreveria sobre o Brasil ?
Saramago : “Depende do lugar onde eu desembarcasse. Se desembarcasse em Copacabana, quando se arrebentaram os esgotos nas praias no Rio de Janeiro, diria ao rei Dom Manuel que aqui não poderia viver ninguém, porque o lugar cheira mal .Se, pelo contrário, desembarcasse numa praia limpa, coberta não de índias despidas, mas de lindas moças quase despidas, diria que aqui é um sítio para viver, uma terra linda. Se, no entanto, começasse a encontrar as favelas, diria : “Mas o que é que se passa aqui ? Eu julgava que os índios viviam de outra maneira!”.
O senhor ainda se sente “como uma Miss Universo”, com a agenda atolada de compromissos depois do Prêmio Nobel ?
Saramago : “Fiquei com a sensação de que as agendas de uma Miss Universo e a de um escritor premiado eram bastante parecidas. Mas hoje posso dizer que não se parecem em nada. As obrigações e responsabilidades de uma Miss Universo duram um ano. Haverá, então, outra Miss Universo, não só com a coroa na cabeça, mas também com o dever de fazer tudo aquilo que a predecessora fez. Mas, no meu caso – eu, que, não sei se feliz ou infelizmente, não pareço em nada com a Miss Universo – as obrigações não cessaram pelo fato de em 1999 Gunter Grass ter ganho o Prêmio Nobel.
Diga-se que o Prêmio Nobel não impõe rigorosamente nenhuma obrigação. O sujeito chega lá, recebe o Prêmio e vai para casa. Depende da vontade do escritor o uso que ele fará do tempo – o emprego que fará de suas possibilidades de comunicação, se vai continuar a escrever, se vai ter contatos com os leitores. Como o Prêmio Nobel foi atribuído a um escritor de língua portuguesa, é claro que minhas obrigações e responsabilidades se multiplicaram. Eu entendi que deveria assumi-las”.
Qual é o maior incômodo que um Prêmio Nobel enfrenta, além do fato de ser sempre importunado por jornalistas, como o senhor agora ?
Saramago: “Poderia responder que o outro maior incômodo é ser importunado por fotógrafos. Mas não. Incômodo não há nenhum. O que acontece é que se perde a invisibilidade depois que se ganha o Prêmio! É o pior. Evidentemente que é agradável ser reconhecido na rua e em qualquer parte, no aeroporto ou no restaurante. É agradável ver um leitor se aproximar para nos dizer uma palavra amável sobre o que leu. Em todo caso, não é que eu preferisse voltar ao anonimato, mas não há dúvida de que há momentos em que gostaria de me tornar invisível. Só não quero ser ingrato. Todos me tratam com tanto carinho e tanta atenção que qualquer palavra minha nesse sentido poderia parecer de algum modo uma ingratidão. Não é. Apenas que vez em quando sinto a necessidade de recolher-me à minha própria privacidade – que, enfim, já se perdeu”.
A que escritor brasileiro vivo ou morto o senhor concederia o Prêmio Nobel de Literatura ?
Saramago: “Não me importaria nada dar a eles o Prêmio, se fosse membro da Academia Sueca: Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Sem nenhuma dúvida, eu, membro da Academia Sueca, atribuiria o Prêmio a qualquer um dos três. Mas não foi assim que aconteceu”.
O senhor tem uma visão essencialmente pessimista diante do mundo. O pessimismo é bom para a literatura ?
Saramago : O pessimista não é bom nem mau para a literatura, mas não tenho uma visão pessimista do mundo. Num momento como esse, pareceria, a mim, um pouco surpreendente que alguém se atrevesse a ser um otimista.Quem, diante do espetáculo oferecido pelo mundo em que vivemos, veja razões para ser otimista é uma pessoa que ou não percebe aquilo que se passa ou então faz de conta que não entende.O melhor, então, é deixarmos de falar em otimistas e pessimistas. Os fatos são os fatos. Não há otimismo ou pessimismo que faça com o que um fato deixe de ser um fato .A interpretação do fato é que pode variar. Mas o fato continua lá. Penso que os fatos desse mundo, dessa vida, desse planeta, dessa sociedade humana são fatos suficientemente sérios e graves.Temos de enfrentá-los não para divagar sobre o otimismo e o pessimismo com que poderíamos considerá-los mas para pelo menos compreendê-los e, se possível, tentar resolvê-los”.
Mas há dois fatos que são aparentemente indiscutíveis no mundo de hoje. Primeiro : o fato “otimista” de que nunca tantas pessoas em todo o mundo viveram tão bem e tiveram acesso a tanta riqueza. O fato “pessimista” é que nunca foi tão grande a diferença entre pobres e ricos. Diante desse quadro, o senhor não tiraria nenhum motivo para enxergar o futuro com algum otimismo ?
Saramago : “Não. Se a parte negativa não existisse, então eu diria : uma vez que nunca houve tanta gente vivendo tão bem, pode-se presumir que, no futuro, haja ainda mais gente que vai viver igualmente bem. Mas, como você mesmo acaba de dizer, nunca foi tão grande a diferença entre os que têm e os que não têm .Tudo indica que a diferença vai ampliar-se. Não vem se reduzindo.
É evidente que há mais pessoas que estão vivendo bem. Mas também há mais pessoas vivendo mal. Como a população da terra vem se multiplicando, pode-se dizer que, se alguma parte vai se integrar à minoria que vive bem ou razoavelmente bem, muito mais gente vai se incorporar à parcela dos que vivem mal. Além de tudo, não se deve esquecer que há uma tendência para a pauperização das classes médias. Há uma parte mínima da classe média que ascende – e passa para o outro grupo. Mas há uma parte da classe média que vai se aproximando cada vez mais da parte desfavorecida.
Volto a dizer que não há pessimismo nem otimismo. Repito : os fatos são os fatos. Noto também que o problema já não é ter ou não ter. O problema – não menos importante – é saber ou não saber. É cada vez maior o número de pessoas que não sabem. Ou sabem mal aquilo que julgam saber. É cada vez menor o grupo de pessoas que detém todo o conhecimento – e de certa forma usa-o para levar o mundo para onde o mundo vai”.
Por que os escritores brasileiros são tão ausentes de Portugal e os escritores de Portugal tão ausentes do Brasil ?
Saramago : Pode-se pensar, por exemplo, que leitores de um país não dêem atenção suficiente àquilo que se publica no outro. Pode-se pensar que os temas que tratam os escritores de um país não interessam aos leitores de outro. Mas também se pode pensar que não há um trabalho de fundo para aproximar os dois. É certo que os escritores portugueses vêm aqui. É certo que os escritores brasileiros vão a Portugal. Mas há algo que se passa que não sei explicar. Temos de pensar no seguinte : o leitor também tem suas razões para preferir ou não preferir. Quero crer, no entanto, que seria bom se houvesse um trabalho contínuo de ajuda à edição – evidentemente, é preciso ver até que ponto tal ajuda é economicamente viável .O que é lamentável é que seja assim. Sou uma exceção. Eu próprio me pergunto por quê. Não sou capaz de dar uma explicação.
Talvez o que se devesse fazer seria perguntar aos leitores: por que não os interessa a literatura portuguesa? Por que não os interessa a literatura brasileira ? Como é que poderiam se interessar ? Por que os interessa um determinado autor – e não outro ? Fernando Pessoa é muito lido no Brasil. Cem anos depois, Eça de Queiroz também o é. Já Machado de Assis não é tão lido em Portugal como Eça de Queiroz é no Brasil. Faça-se um inquérito para que se chegue a alguma conclusão”.
O primeiro escritor brasileiro com quem o senhor teve contato deixou alguma influência na formação do senhor ?
Saramago: “Não posso jurar, porque foi há muitos e muitos anos. Mas o primeiro pode ter sido Raul Pompéia, com esse livro extraordinário que é O Ateneu. Você me pergunta se ficou alguma influência da leitura. Claro que não, porque eu era muito novo. Ainda não pegava essas coisas. O resto foi a aprendizagem. Uso essa palavra propositadamente , porque o que houve comigo foi a aprendizagem de uma literatura escrita em minha própria língua, mas criada e imaginada em outro lugar – o Brasil, com tudo o que para mim representou a descoberta não só dessa literatura, mas também das realidades sociais e culturais que estavam por trás dos livros”.
Uma crítica publicada numa revista brasileira sobre o livro “A Caverna” diz que “a literatura refinada de Saramago dessa vez dá lugar a um sermão”. O senhor acha que a denúncia das mazelas do mundo pode eventualmente comprometer a qualidade literária ?
Saramago : “Tenho que dizer que nunca comento qualquer crítica. É um princípio meu. Eu escrevo o que entendo, o crítico escreve o que entende. Comentários meus sobre uma crítica ninguém encontrará, em toda minha vida”.
Uma velha pergunta : o senhor escreve para fugir da morte ?
Saramago : “Não, porque ninguém foge da morte. É uma ilusão. O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer. Parte-se do princípio de que a obra vai ficar, não se sabe por quanto tempo. Hoje, não sou tão ambicioso. Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas”.
O senhor escreveu, no livro “A Caverna”, que as frases de efeito são “uma praga maligna”.Qual é a frase de efeito predileta de José Saramago?
Saramago : “Tento evitar, o mais que posso, as frases de efeito. Mas nem sempre consigo fugir à tentação de escrever uma. Só espero é que, se elas são só frases de efeito, as pessoas que as leiam ou as ouvem não as tomem demasiado a sério”.
Se o senhor fosse definir o Brasil numa só palavra, que palavra o senhor usaria ?
Saramago: “Como é que se pode definir numa só palavra ? Se pudesse usar nem que fossem duas palavras, talvez eu conseguisse. Dê-me três palavras…..”
Quais seriam, então, as três palavras ?
Saramago: “Eu definiria assim o Brasil: “Quando se decidem?”.
Qual é a grande pergunta que o escritor José Saramago não conseguiu responder até hoje ?
Saramago : “A pergunta que não consigo responder é muito simples : para quê ? Para que tudo isso ? Vou morrer sem encontrar a resposta. Creio que ninguém nunca encontrou”.