terça-feira, 20 de setembro de 2016

O CARNAVAL DE 2016 EM SÃO PAULO FOI INCRÍVEL!

Difícil deixar de pensar que estamos vivendo num circo gigante. Quando sentamos no sofá depois de um dia bizarro de trabalho e horas de transporte, as novelas surreais na TV nos dão uma visão geral do jogo global: tantas bombas sobre a Síria, mais refugiados nas fronteiras, os problemas das grandes finanças, os últimos gols de Neimar. Ah sim, e quem, depois da Hungria, a Grécia, a Polônia e o Reino Unido está ameaçando deixar a União Europeia em nome de ideais nacionais superiores.

É um jogo e tanto. Relatórios do Crédit Suisse e da Oxfam mostram a grande divisão entre os donos do jogo e os espectadores: 62 bilionários têm mais riqueza do que os 50% mais pobres da população mundial. Eles produziram tudo isso? Evidentemente, tudo depende de que papel você desempenha no jogo. Em São Paulo, os muito ricos que habitam o condomínio de Alphaville estão murados em segurança, enquanto os pobres que vivem na vizinhança se autodenominam Alphavella. Alguém precisa cortar a grama e entregar as compras.

De acordo com o relatório global da WWF sobre a destruição da vida selvagem, 52% das populações de animais não-domesticados desapareceram, durante os 40 anos que vão de 1970 a 2010. Muitas fontes de água estão contaminadas ou secando. Os oceanos estão gritando por socorro, o ar condicionado prospera. As florestas estão sendo derrubadas na Indonésia, que substituiu a Amazônia como a região número um do mundo em desmatamento. A Europa precisa ter energia renovável, de carne barata e da beleza do mogno.

A Rede de Justiça Fiscal revelou que cerca de 30 trilhões de dólares – comparados a um PIB mundial de US$ 73 trilhões – eram mantidos em paraísos fiscais em 2012. O Banco de Compensações Internacionais da Basileia mostra que o mercado de derivativos, o sistema especulativo das principais commodities, alcançou 630 trilhões de dólares, gerando o efeito iôiô nos preços das matérias-primas econômicas básicas. O maior jogo do planeta envolve grãos, minerais ferrosos e não ferrosos, energia. Essas commodities estão nas mãos de 16 corporações basicamente, a maior parte delas sediadas em Genebra, como revelou Jean Ziegler em “A Suiça lava mais branco”. Não há árbitro neste jogo, estamos num ambiente vigiado. Os franceses têm uma excelente descrição para os nossos tempos: vivemos une époque formidable!

Fizemos um trabalho perfeito em 2015: a avaliação global sobre como financiar o desenvolvimento em Adis Abeba, as metas do desenvolvimento sustentável para 2030 em Nova York e a cúpula sobre mudanças climáticas em Paris. Os desafios, soluções e custos foram claramente expostos. Nossa equação global é suficientemente simples para ser executada: os trilhões em especulação financeira precisam ser redirecionados para financiar inclusão social e para promover a mudança de paradigma tecnológico que nos permitirá salvar o planeta. E a nós mesmos, claro.

Mas são os lobos de Wall Street que traçaram o código moral para este esporte: Ganância é Ótima!

Afogando em números

Estamos nos afogando em estatísticas. O Banco Mundial sugere que deveríamos fazer algo a respeito dos news four biliion – referindo-se aos quatro bilhões de seres humanos “que não têm acesso aos benefícios da globalização” – uma hábil referência aos pobres. Temos também os bilhões que vivem com menos de 1,25 dólar por dia. A FAO nos mostra em detalhes onde estão localizadas as 800 milhões de pessoas famintas do mundo. A Unicef conta aproximadamente 5 milhões de crianças que morrem anualmente em razão do acesso insuficiente a comida e água limpa. Isso significa quatro World Trade Centers por dia, mas elas morrem silenciosamente em lugares pobres, e seus pais são desvalidos.

As coisas estão melhorando, com certeza, mas o problema é que temos 80 milhões de pessoas a mais todo ano – a população do Egito, aproximadamente – e este número está crescendo. Um lembrete ajuda, pois ninguém entende de fato o que significa um bilhão: quando meu pai nasceu, em 1900, éramos 1,5 bilhão; agora somos 7,2 bilhões. Não falo da história antiga, falo do meu pai. E já que não é da nossa experiência diária entender o que é um bilionário, vai aqui uma nova imagem: se você investe um bilhão de dólares em algum fundo que paga miseráveis 5% de juros ao ano, ganha 137.000 dólares por dia. Não há como gastar isso, então você alimenta mais circuitos financeiros, tornando-se ainda mais fabulosamente rico e alimentando mais operadores financeiros.

Investir em produtos financeiros paga mais do que investir na produção de bens e serviços – como fizeram os bons, velhos e úteis capitalistas – de modo que não tem como o acesso ao dinheiro ficar estável, muito menos gotejar para baixo. O dinheiro é naturalmente atraído para onde ele mais se multiplica, é parte da sua natureza, e da natureza dos bancos. Dinheiro nas mãos da base da pirâmide gera consumo, investimento produtivo, produtos e empregos. Dinheiro no topo gera fabulosos ricos degenerados que comprarão clubes de futebol, antes de finalmente pensar na velhice e fundar uma ONG – por via das dúvidas.

Um suborno global

Muita gente percebe que as regras do jogo são manipuladas. Os tempos são de fraude global, quando pessoas fabulosamente ricas doam a políticos e promovem a aprovação de leis para acomodar suas crescentes necessidades, fazendo da especulação, da evasão fiscal e da instabilidade geral um processo estrutural e legal. Lester Brown fez suas somatórias ambientais e escreveu Plano B [“Plan B”], mostrando claramente que o atual Plano A está morto. Gus Speth, Gar Alperovitz, Jeffrey Sachs e muitos outros estão trabalhando no Próximo Sistema[“Next System”], mostrando, implicitamente, que nosso sistema foi além de seus próprios limites.

Joseph Stiglitz e um punhado de economistas lançaram Uma Agenda para a Prosperidade Compartilhada, rejeitando “os velhos modelos econômicos”. De acordo com sua visão, “igualdade e desempenho econômico constituem na realidade forças complementares, e não opostas”. A França criou seu movimento de Alternativas Econômicas; temos a Fundação da Nova Economia no Reino Unido; e estudantes da economia tradicional estão boicotando seus estudos em Harvard e outras universidades de elite. Mehr licht! [Mais luz!]

E os pobres estão claramente fartos desse jogo. Sobram muito poucos camponeses isolados e ignorantes prontos a se satisfazer com sua parte, seja ela qual for. As pessoas pobres de todo o mundo estão crescentemente conscientes de que poderiam ter uma boa escola para seus filhos e um hospital decente onde pudessem nascer. E além disso veem na TV como tudo pode funcionar: 97% das donas de casa brasileiras têm aparelho de TV, mesmo quando não têm saneamento básico decente.

Como podemos esperar ter paz em torno do lago que alguns chamam de Mediterrâneo, se 70% dos empregos são informais e o desemprego da juventude está acima de 40%? E eles estão assistindo na TV o lazer e a prosperidade existentes logo ali, cruzando o mar, em Nice? A Europa bombardeia-os com estilos de vida que estão fora do seu alcance econômico. Nada disso faz sentido e, num planeta que encolhe, é explosivo. Estamos condenados a viver juntos, o mundo é plano, os desafios estão colocados para todos nós, e a iniciativa deve vir dos mais prósperos. E, felizmente, os pobres não são mais quem eram.

Cultura e convivialidade

Sempre tive uma visão muito mais ampla de cultura do que o tradicional “Ach! disse Bach”. Penso que ela inclui desfrutar de alegria com os outros, enquanto se constrói ou se escreve alguma coisa, ou simplesmente se brinca por aí. Convivialidade. Recentemente passei algum tempo em Varsóvia. Nos fins de semana de verão, os parques e praças ficavam cheios de gente e havia atividades culturais para todo lado.

Ao ar livre, com um monte de gente sentada no chão ou em simples cadeiras de plástico, uma trupe de teatro fazia uma paródia do modo como tratamos os idosos. Pouco dinheiro, muita diversão. Logo adiante, em outras partes do parque Lazienki, vários grupos tocavam jazz ou música clássica, e as pessoas estavam sentadas na grama ou assentos improvisados, as crianças brincando por perto.

No Brasil, com Gilberto Gil no ministério da Cultura, foi criada uma nova política, os Pontos de Cultura. Isso significou que qualquer grupo de jovens que desejassem formar uma banda poderiam solicitar apoio, receber instrumentos musicais ou o que fosse necessário, e organizar shows ou produzir online. Milhares de grupos surgiram – estimular a criatividade requer não mais que um pequeno empurrão, parece que os jovens trazem isso na própria pele.

A política foi fortemente atacada pela indústria da música, sob o argumento de que estávamos tirando o pão da boca de artistas profissionais. Eles não querem cultura, querem indústria de entretenimento, e negócios. Por sorte, isso está vindo abaixo. Ou pelo menos a vida cultural está florescendo novamente. Os negócios têm uma capacidade impressionante para ser estraga-prazeres.

O carnaval de 2016 em São Paulo foi incrível. Fechando o círculo, o carnaval de rua e a criatividade improvisada estão de volta às ruas, depois de ter sido domados e disciplinados, encarecidos pela comunicação magnata da Rede Globo. As pessoas saíram improvisando centenas de eventos pela cidade, era de novo um caos popular, como nunca deixou de ser em Salvador, Recife e outras regiões mais pobres do país. O entretenimento do carnaval está lá, é claro, e os turistas pagam para sentar e assistir ao show rico e deslumbrante, mas a verdadeira brincadeira está em outro lugar, onde o direito de todo mundo dançar e cantar foi novamente conquistado.

Um caso de consumo

Eu costumava jogar futebol bastante bem, e ia com meu pai ver o Corinthians jogar no tradicional estádio do Pacaembu, em São Paulo. Momentos mágicos, memórias para a vida inteira. Mas principalmente brincávamos entre nós, onde e quando podíamos, com bolas improvisadas ou reais. Isso não é nostalgia dos velhos e bons tempos, mas um sentimento confuso de que quando o esporte foi reduzido a ver grandes caras fazendo grandes coisas na TV, enquanto a gente mastiga alguma coisa e bebe uma cerveja, não é o esporte – mas a cultura no seu sentido mais amplo – que se transformou numa questão de produção e consumo, não em alguma coisa que nós próprios criamos.

Em Toronto, fiquei pasmo ao ver tanta gente brincando em tantos lugares, crianças e gente idosa, porque espaços públicos ao ar livre podem ser encontrados em todo canto. Aparentemente, por certo nos esportes, eles sobrevivem divertindo-se juntos. Mas isso não é o mainstream, obviamente. A indústria de entretenimento penetrou em cada moradia do mundo, em todo computador, todo telefone celular, sala de espera, ônibus. Somos um terminal, um nó na extensão de uma espécie de estranho e gigante bate-papo global.

Esse bate-papo global, com evidentes exceções, é financiado pela publicidade. A enorme indústria de publicidade é por sua vez financiada por uma meia dúzia de corporações gigantes cuja estratégia de sobrevivência e expansão é baseada na transformação das pessoas em consumidores. O sistema funciona porque adotamos, docilmente, comportamentos consumistas obsessivos, ao invés de fazer música, pintar uma paisagem, cantar com um grupo de amigos, jogar futebol ou nadar numa piscina com nossas crianças.

Um punhado de otários consumistas

Que monte de idiotas consumistas nós somos, com nossos apartamentos de dois ou três quartos, sofá, TV, computador e telefone celular, assistindo o que outras pessoas fazem.

Quem precisa de uma família? No Brasil o casamento dura 14 anos e está diminuindo, nossa média é de 3,1 pessoas por moradia. A Europa está na frente de nós, 2,4 por casa. Nos EUA apenas 25% das moradias têm um casal com crianças. O mesmo na Suécia. A obesidade está prosperando, graças ao sofá, a geladeira, o aparelho de TV e as guloseimas. Prosperam também as cirurgias infantis de obesidade, um tributo ao consumismo. E você pode comprar um relógio de pulso que pode dizer quão rápido seu coração está batendo depois de andar dois quarteirões. E uma mensagem já foi enviada ao seu médico.

O que tudo isso significa? Entendo cultura como a maneira pela qual organizamos nossas vidas. Família, trabalho, esportes, música, dança, tudo o que torna minha vida digna de ser vivida. Leio livros, e tiro um cochilo depois do almoço, como todo ser humano deveria fazer. Todos os mamíferos dormem depois de comer, somos os únicos ridículos bípedes que correm para o trabalho. Claro, há esse terrível negócio do PIB. Todas as coisas prazerosas que mencionei não aumentam o PIB – muito menos minha sesta na rede. Elas apenas melhoram nossa qualidade de vida. E o PIB é tão importante que o Reino Unido incluiu estimativas sobre prostituição e venda de drogas para aumentar as taxas de crescimento. Considerando o tipo de vida que estamos construindo, eles talvez estejam certos.

Necessitamos de um choque de realidade. A desventura da terra não vai desaparecer, levantar paredes e cercas não vai resolver nada, o desastre climático não vai ser interrompido (a não ser se alterarmos nosso mix de tecnologia e energia), o dinheiro não vai fluir aonde deveria (a não ser que o regulemos), as pessoas não criarão uma força política forte o suficiente para apoiar as mudanças necessárias (a não ser que estejam efetivamente informadas sobre nossos desafios estruturais). Enquanto isso, as Olimpíadas e MSN (Messi, Suarez, Neymar para os analfabetos) nos mantêm ocupados em nossos sofás. Como ficará, com toda a franqueza, o autor destas linhas. Sursum corda.

por Ladislau Dowbor

dowbor.org

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

“Desculpe o transtorno, preciso falar do Cunha”, escreve Michel Temer

Primeiramente, affinitas affinitatem non generat.

Conheci-o no culto. Essa frase pode soar eloquente demais se você imaginar alguém pregando a palavra de Deus num templo milenar de Israel. Mas o culto em questão era apenas um dos muitos que os pastores vêm comandando desde os anos 90 em decadentes cinemas das capitais. Ele fazia preces financeiras. Nunca vou esquecer: passava a sacolinha entre os fiéis humildes enquanto recitava Malaquias 3:8-10.

Quando os pastores levantavam a voz no púlpito, ele se calava. Quando contabilizavam o dízimo nos bastidores, ele os auxiliava. Quando gritavam “amém, Jesus!”, ele concordava com a cabeça. Sempre estrábico, deixava claro que conseguia manter um olho no peixe e outro no gato. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando na Telerj ao som de Sonda-me, Usa-me e Rendido Estou. De lá, migramos pro governo Garotinho. Do governo Garotinho pro PMDB, do PMDB pro Congresso.

Começamos a namorar quando ele tinha 50 e eu, 68, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todos os episódios de House of Cards várias vezes. Testamos todas as receitas possíveis de robalo. Escolhemos diretorias em estatais como se escolhêssemos gravatas. A quatro mãos, escrevemos medidas provisórias, projetos de lei e inúmeras versões da reforma trabalhista. Fizemos uma dúzia de amigos novos e, com eles, fundamos o Blocão. Sofremos com os haters, gargalhamos com a desgraça da Dilma. Juntos, rasgamos a Constituição. Viajamos o mundo dividindo o cartão de crédito. Dos dez paraísos fiscais de que mais gosto, sete foi ele quem me apresentou. Os outros três foi ele quem inaugurou. Aprendi com ele o significado de usufrutuário, truste, Panama Papers e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho e enviando pra NSA.

Ontem, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais do que quando líamos o Regimento Interno da Câmara dos Deputados. Mais do que quando falávamos em público de nossas famílias. Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ele? Parece que, pra sempre, ele vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse tido votos, eu penso. Levaria algo de íntegro comigo.

Semana passada, consumou-se o impeachment que a gente urdiu juntos – não por acaso, fruto de um emaranhado jurídico bem mais cabeludo do que nossas cabeças já ralas. Achei que fosse chorar tudo de novo. Mas o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter orquestrado um grande golpe na vida. E de ter esse golpe documentado no Diário Oficial. Não falta nada.

The Piauí Herald

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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Padura: Brasil, uma novela ruim


As telenovelas brasileiras sempre se guiam por um código dramático e ético: embora os heróis passem por terríveis dificuldades e recebam os mais duros golpes, ao final a justiça e a verdade sempre saem vitoriosas. É por isso que elas são telenovelas, e fazem sucesso nas mais diferentes culturas. Mas a realidade, como sabemos, costuma avançar por meio de outros mecanismos, mesmo quando se trata da realidade brasileira.

Devo confessar que, quando quase todo mundo, ao analisar racionalmente o desenvolvimento do processo de destituição da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, antevia o seu resultado, eu mantinha, romanticamente, alguma esperança em uma mudança da sentença anunciada. Talvez por uma deformação profissional, eu confundia a realidade com o código das telenovelas. Agora que o famoso impeachment se concretizou e Dilma foi tirada do seu cargo, o ocorrido me parece tão política e humanamente instrutivo que, apesar de tudo o que já se escreveu a respeito, atrevo-me a enfiar a minha colher, contrariando até mesmo o meu costume de não dar opinião sobre realidades cujos meandros mais profundos eu não domino, já que não participo do seu dia a dia. Por isso, atrevo-me, aqui, a expor algumas ideias que me atormentam e que têm me tirado o sono.

Não é segredo para ninguém que a corrupção é um mal quase endêmico nas sociedades latino-americanas (embora não apenas nelas). E o fato de se julgar um presidente por ter participado de atos desse tipo me parece uma decisão exemplar. No caso específico de Rousseff, porém, até onde pude ler e compreender, o seu pecado não se encaixa nessa categoria, e sim naquilo que poderia ser classificado como um mau uso dos fundos públicos, não com objetivos de ganho pessoal, como é hábito, mas para manter em funcionamento algumas políticas adotadas pelo seu Governo e que ela considerou prioritárias.
A primeira coisa que parece curiosa, nessa lógica, é que uma quantidade significativa dos juízes que decidiram o destino da ex-presidenta enfrenta processos por corrupção pura e simples; são alvo de investigações em curso que, se levadas a cabo e julgadas com a mesma contundência com que se apreciou a administração de Rousseff — e é assim que deveria ser, em se tratando de justiça —, poderiam leva-los até mesmo à prisão. Se não todos, pelo menos alguns deles. Nem que fosse para se continuar a dar o bom exemplo.

Também não é segredo, ao longo de todos esses meses em que tanto se falou da crise política brasileira, o fato de terem ocorrido erros políticos e estratégicos por parte da ex-mandatária, os quais estiveram por trás das fricções e rupturas que atingiram a coalizão interpartidária que a sustentava. Mas equívocos desse gênero acontecem todos os dias nos gabinetes governamentais do mundo inteiro, e as crises conseguem ser solucionadas com o debate político, e não com o julgamento e a condenação aplicados no caso de Rousseff.

Tamanho empenho para tirar do poder a ex-presidente e, com ela, o Partido dos Trabalhadores, ao qual Dilma pertence, deve esconder, portanto, outras razões menos claras e visíveis. Pois as toneladas de mesquinharias e de ódio acumulados nas altas esferas da política brasileira têm motivações mais obscuras: a vingança e o empenho para frustrar um projeto político, ou, como ouvi dizerem, “um projeto de país”.

A radicalização dos partidos e dos senadores contra Rousseff trouxe consigo o mau cheiro de uma revanche, destinada a desmontar uma política social que, nos anos de governo do PT, definiu para si um objetivo fundamental: melhorar a vida dos brasileiros em geral e dos mais pobres e marginalizados em particular. Sem dúvida, Lula e Dilma cometeram erros em suas gestões, e sob seus mandatos houve casos de corrupção, nos quais, ao menos até o momento, não se provou a sua participação. Mas os dois presidentes, e também não há dúvida sobre isso, trabalharam em favor daquele grande objetivo econômico e social. No mínimo o estimularam muito mais do que quase todos — ou do que todos — os presidentes anteriores desse país. E os dados mostram isso.

Como é possível, então, que tantos brasileiros, muitos mais do que aquilo que se poderia chamar de oligarquia ou dos inimigos reunidos nos partidos contrários a essa política, tenham participado do solapamento do prestígio de Rousseff e, nesse sentido, viabilizado a sua condenação?

No caso dos primeiros, os motivos são claros. Mas no que se refere ao restante dos brasileiros que se opunham ou criticavam a gestão de Dilma, as coisas se complicam, pois não apenas a classe média, mas também muitos trabalhadores, inclusive moradores de favelas, participaram dessa demolição. Poder-se-ia dizer que a crise econômica e a capacidade reduzida de lidar com ela influíram na percepção desse setor da população, mas existem outros dois elementos que me parecem mais instrutivos: em primeiro lugar, a facilidade com que os meios de comunicação e a propaganda conseguem manipular o pensamento das massas; em segundo, a sempre presente ingratidão humana, impulsionada, neste caso, pelas ambições pessoais nem sempre realizadas.

Inúmeras vezes se argumentou que a destituição da presidenta aconteceu nos marcos do sistema legal e respeitando-se a Constituição. E as duas afirmações podem, até devem estar corretas. Mas também não deixa de ser correto afirmar que os ritos processuais e a Constituição foram grosseiramente manipulados para se operar uma vingança. Se inicialmente o rosto de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e detonador do impeachment, e agora o de Michel Temer, elevado à dignidade da posição presidencial, foram identificados como os protagonistas do processo, todos nós sabemos que os dois apenas cumpriram um papel que os ultrapassa e em que são utilizados para dar conta do real objetivo: mudar o rumo político e social do país.

O que se travou no Brasil, assim, não foi uma disputa partidária, nem mesmo política: foi uma aposta na mudança de um estado de coisas que atingia ou podia atingir grandes interesses econômicos e que, de maneira lamentável, contou com o apoio explosivo de muitas das vítimas desses interesses econômicos. Agora, enquanto a História avança e começa a reunir argumentos para realizar seus julgamentos definitivos, o Brasil e sua democracia vivem momentos obscuros. O fato de que os ritos legais e a Constituição tenham sido os instrumentos usados para levar a cabo aquilo que muitas pessoas no mundo consideram um golpe de Estado parlamentar é uma certeza dolorida. Mas também uma lição de como podem ser frágeis alguns instrumentos do contrato social e do papel que as massas, quando acionadas, podem desempenhar — como a própria História já mostrou em várias oportunidades.

No final, além do dolorido sentimento de frustração, muitos de nós comprovaremos mais uma vez que é mais fácil escrever um final feliz para uma telenovela do que para a realidade de um mundo em que se condena Dilma Rousseff e o seu projeto enquanto Donald Trump e o seu anti-projeto nos espreitam. Isso, para mencionar apenas um exemplo dentre outras tantas realidades assustadoras que nos cercam.

* Artigo publicado originalmente na coluna de Leonardo Padura no El País em 9 de setembro de 2016, com o título “Brasil, una mala telenovela“. A tradução ao português é do El País – Brasil. 

Leonardo Fuentes nasceu em Havana em 1955. Formado em Letras (Spanish Language and Literature) pela Universidade de Havana, trabalhou como escritor, jornalista e crítico literário até a década de 1990, quando ganhou reconhecimento internacional por uma série de romances policiais estrelando seu mais famoso personagem, o detetive Mario Conde. Mas foi com o romance O homem que amava os cachorros que Padura se consolidou no mundo literário, ganhando prestígio para além do gênero policial. Traduzida para vários países (como Espanha, Portugal, França e Alemanha), a obra recebeu diversos prêmios internacionais – Prix Initiales (França, 2011), Prix Roger Caillois (França, 2011), Premio de la Critica (Cuba, 2011), XXII Prix Carbet de la Caraïbe (2011) e V Premio Francesco Gelmi di Caporiacco (Itália, 2010). Em 2012, Padura recebeu o Premio Nacional de Literatura de Cuba. Seu mais recente romance, Hereges, ganhou o X Prêmio Internacional de Romance Histórico “Ciudad de Zaragoza” e foi finalista dos prêmios Médicis e Fémina. Leonardo Padura ganhou em 2015 o Prêmio Princesa das Astúrias, pelo conjunto de sua obra.



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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Relentless" - Sepultura, Toda a História ...

Foi lançada finalmente no Brasil a nova biografia de nossa maior banda: “Relentless – 30 Anos de Sepultura”, do escritor norteamericano (de origem polonesa) Jason Korolenko. Impossível não comparar com o já célebre – e há anos fora de catálogo – “Sepultura – Toda a História”, de André Barcinski e Silvio Gomes. O novo relato perde no texto – porque Barcinski é foda – mas ganha na abrangência, já que o primeiro saiu há mais de 15 anos, em 1999, quando eles ainda estavam se firmando em uma nova formação, com Derrick Green substituindo Max Cavalera nos vocais.

Mas perde também na parte iconográfica: a maioria das fotos do novo livro é bem ruinzinha. Fotos banais, do baixista Paulo fumando um cigarro fora do estúdio durante um intervalo nas gravações, por exemplo. O autor deve ter pretendido apresentar imagens inéditas, mas isso pouco importa se as mesmas são esteticamente ruins e/ou de pouca ou nenhuma relevância, nem um pouco merecedoras de figurar num registro histórico de tal envergadura.

Jason é um fã confesso e isso transparece na narrativa, que apresenta, em certos momentos, aquela reverencia exagerada típica de uma resenha de fanzine, o que deixa o livro com cara de “chapa branca”, apesar de não ser - não é uma "biografia autorizada", até onde eu saiba. Em todo caso, há de se reconhecer o esforço de contextualização do autor, especialmente na abertura, quando ele faz um apanhado da história do Brasil do século XX desde a ascensão de Vargas até o ocaso da ditadura militar, só pra explicar o clima político e social do país na época em que a banda surgiu, na metade da década de 1980. Suas análises e opiniões sobre cada disco, faixa a faixa, também são interessantes, apesar do evidente deslumbramento e falta de senso crítico. Faltou, também, um maior aprofundamento: muitos fatos importantes foram esquecidos ou tratados superficialmente. Por um lado, dá pra entender - é muita história pra contar, o livro teria que ter pelo menos umas 500 páginas para que fosse realmente abrangente - mas não deixa de ser uma pena.

Vale, no entanto, a leitura, especialmente se você é fã da banda. Recomendo, entretanto, que não se deixe de ler também o primeiro, que pode ser encontrado com relativa facilidade em sebos. É mais saboroso, porque Barcinski é mestre na narração de "causos" pitorescos e porque trata da fase que REALMENTE interessa, com Max. Sepultura com Derrick nunca conseguiu deixar de ser "apenas" uma banda extremamente profissional, dedicada e cheia de boas idéias, mas com resultados artísticos e comerciais aquém de seu potencial. Falta aquela química intangível, aquele fogo que se acendeu quando os irmãos Cavalera recrutaram o guitarrista Andreas Kisser e pariram seu primeiro grande disco, “Schizophrenia”, e que se extinguiu definitivamente, ao que tudo indica, quando eles se separaram logo após seu maior triunfo, o álbum “Roots”, um verdadeiro divisor de águas na história da música pesada mundial.

O lançamento tem passado estranhamente em branco, sendo pouco divulgado e/ou mencionado na mídia em geral. Nem o próprio Andreas fez qualquer comentário a respeito em seu programa de rádio, o "pegadas". Nunca o vi em nenhuma prateleira de livraria. Caso tenha interesse, há um exemplar a venda na Freedom, em Aracaju - Rua Santa Luzia, 151, centro. O meu. Comprei pela internet, e estou passando adiante.

A.

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