domingo, 31 de outubro de 2010

TOMA !!!

Uma vez vi uma camiseta bem interessante: estampava uma imagem do sumo pontíce da igreja católica na época, o papa João Paulo II, "grávido", e a inscrição: "Se os homens engravidassem, o aborto já teria sido descriminalizado". Portanto, mais do que a vitória de Dilma ou do PT, dos quais tenho grandes divergencias e em quem NÃO VOTEI no primeiro turno, comemoro aqui uma derrota do conservadorismo religioso e político, representado nesta campanha por José Serra e sua campanha hipócrita "do bem" e "pela vida".

Agora é fiscalizar e cobrar.

A luta continua.

sábado, 30 de outubro de 2010

Eu gosto é de mulher ...


"MULHER PRA PRESIDENTE !", gritava o Ultraje a rigor num de seus maiores sucessos, no final dos anos 80. Na época a frase soava um tanto quanto irreal, mas se tudo der certo, amanhã se tornará premonitória. Diante da alternativa à mesa, não há dúvidas: é Dilma.

O voto é secreto, mas eu tenho orgulho dos meus, por isso vou relacioná-los abaixo - os que dei para presidente. Comecei a votar justamente na primeira eleição presidencial direta do Brasil depois da ditadura militar, em 1989. Sempre procurei me pautar por dois pilares: educação e distribuição de renda. Educação porque ela é a base de tudo, e distribuição de renda porque acredito firmemente que nunca haverá paz no mundo enquanto tão poucos tiverem tanto e tantos ficarem com tão pouco, a ver pela televisão os apelos de consumo que nunca poderão satisfazer. Há uma outra questão, bastante grave e que se faz urgente, que é a de que os recursos naturais do planeta simplesmente não suportam mais o nível de consumo atual, mas isso já é assunto para uma nova etapa de desenvolvimento, um problema que, creio eu, poderá ser melhor equalizado a partir de uma melhor distribuição da riqueza já produzida. Baseado nessas convicções, votei em Lula em todas as eleições até 2002, quando ele foi finalmente eleito. Em 2006, votei em Christovan Buarque, a meu ver o único a levar o tema da educação realmente a sério e como prioridade - ele, alás, é o VERDADEIRO pai do Bolsa Familia, que começou como Bolsa-Escola em seu governo no DF e foi nacionalizado pelo governo FHC, para deepois, já com Lula, ser incorporado a outros beneficios antes pulverizados e se tornar Bolsa-Familia. Sua vinculação à frequencia das crianças na escola, inclusive, foi negligenciada no inicio, algo que, espero, tenha sido corrigido, embora reconheça que é bem dificil de fiscalizar. Já no primeiro turno de agora, votei em Plinio, justamente porque acho que "O Brasil pode mais" - num sentido bem diferente do que prega a candidatura tucana, evidentemente.

É isso. Fiquem com a relação de meus votos para presidente e, logo abaixo, com uma recente entrevista de outra mulher brilhante, a economista Maria da Conceição Tavares, em que ela faz uma análise lúcida e equilibrada do atual processo eleitoral.

Até a vitória !

A.

2010 - segundo turno
DILMA ROUSSEF
2010 - primeiro turno
PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO
2006 - segundo turno
LULA
2006 - primeiro turno
CHRISTOVAM BUARQUE
2002 - segundo turno
LULA
2002 - primeiro turno
LULA
1998 - primeiro turno
LULA
1994 - primeiro turno
LULA
1989 - segundo turno
LULA
1989 - primeiro turno
LULA

* * *

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par

Maria da Conceição Tavares é daquelas figuras “maiores que a vida”. Aos 80 anos, a fumar ininterruptamente na sua casa do bairro carioca Cosme Velho, tem algo de Indira Gandhi ou Churchill. Voz e riso de trovão, olhar agudo, resposta incisiva. Respeitada em todo o espectro político como economista e pensadora, é uma das grandes conselheiras do PT. Nunca quis ser ministra porque diz tudo o que pensa.

Portuguesa, nascida em Anadia, crescida em Lisboa, filha de um anarquista que alojava refugiados da Guerra Civil de Espanha, veio casada e grávida para o Brasil, aos 21 anos, por causa de Salazar. Desde então, ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula.

A senhora deve ser a única pessoa no Brasil que consegue juntar no aniversário dos seus 80 anos….

Os dois candidatos à presidência da República! [ri-se]

… Dilma Rousseff e José Serra.

Mas o clima estava muito bom. Eles nunca se trataram mal, nem nada. Eram pessoas civilizadas, que se tratavam bem. A campanha é que despertou essa trapalhada. A noite [do aniversário, 24 de Abril] correu perfeita. Nem se discutiu política. Foi uma festa.

Eles sempre tiveram boa relação?

Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.

Conhece-o muito bem…

Desde 1968.

… se tivesse de explicar quem é José Serra, o que diria?

Um bom economista. Ambos éramos do PMDB, a frente democrática contra a ditadura. E ele saiu para fundar, com o [Mário] Covas e o Fernando Henrique [Cardoso], o PSDB, uma espécie de ala esquerda. Muita gente não acompanhou isso. Eu, por exemplo, não fui porque não faço muita fé no Fernando Henrique, que sempre foi meio dúbio, trapalhão. O Covas é que era o homem importante. Morreu. E aí… A partir do momento em que Fernando Henrique foi para o poder, o Serra manteve a posição dele como economista contra a política neoliberal.

Porque é que acha o Fernando Henrique “meio dúbio”?

Diz uma coisa para agradar a uns e outra para agradar a outros. Não fazia política, mas era um político na academia. E o Serra não, sempre foi muito “straight”, muito direito.

Confiaria mais no Serra que no Fernando Henrique?

Sem dúvida [ri]. E o primeiro governo [de Fernando Henrique] mostrou isso. Porque aí o Serra foi ministro de Planejamento contra a política neo-liberal do Fernando Henrique. Depois foi um bom ministro da saúde. Não havia nada nele que demonstrasse que ia ter uma mudança assim tão brusca. Mesmo quando foi candidato contra o Lula foi uma campanha normal. Ele sempre respeitou o Lula.

Mas acha que Serra mudou?

Mudou. Por razões de interesse político.

Como é que essa mudança se manifesta?

Na arrogância, na agressão. Ele não era assim.

Mas na segunda volta quem passou ao ataque foi Dilma.

Mas não foi ataque pessoal, xingando ele. Foi atacando o governo anterior [de Fernando Henrique]. E ele não se defendeu.

Depois [a campanha] foi piorando. E agora piorou de vez.

Como vê o incidente em que Serra acusou o PT de ser nazi, ao agredirem-no com um rolo de papel?

Ah, são jovens na rua. Mesmo que sejam pêtistas não tem a ver com o partido em geral. Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.

Mas não acha que Dilma mudou de atitude também, ficou mais agressiva?

Claro. Mas é para responder. Defender a honra dela. Ele diz que ela é mentirosa, que disse isto e depois aquilo. Diz que ela abriga a corrupção, que é dela a culpa da Erenice [Guerra, ex-braço direito de Dilma, acusada de corrupção], que todos os problemas do Brasil são culpa dela. Ela está mais agressiva no tom, inclusive mais assertiva. Mas não está insultando, dizendo que ele é ladrão.

De qualquer maneira, [a campanha] degringolou. Passou a ser um debate agressivo e vazio. Conheceu Dilma nos anos 80, sua aluna na Unicamp. Como a pode apresentar?

É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.

Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante. Brilhantes, eles são os dois.

Serra e Dilma?

É. Ambos são bons economistas. Isso é que irrita. Podiam estar falando de coisas importantes para o Brasil.

Portanto, em termos de economia, não fica preocupada com nenhum dos dois?

Não, não fico. Quero dizer, com o Serra fico, em termos de política. Porque ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas, o que não é nada o estilo dele.

Existe a ideia de que a Dilma é uma construção do Lula, alguém que não tem personalidade própria.

Isso é uma bobagem. O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil. É evidente que sem ele não teria chance. O Serra já foi candidato a várias coisas, ela não. Então, o facto de ser apoiada pelo Lula ajuda. Não bastava o PT. O PT não tem peso suficiente para fazê-la ganhar. Quem tem é o Lula, uma figura política como nunca ocorreu no país. Para dizer a verdade, pouco ocorreu no mundo.

No vídeo em que apoia à Dilma diz: não sigam a propaganda das grandes empresas, o Brasil tem de fazer as pazes com o povo, não pode ficar só votando para os 10 ou 20 por cento de cima, e a mulher do povo é a Dilma. Acha que existem dois Brasis, essa faixa de cima que é anti-Lula e o Brasil do povo?

Acho. Tranquilamente.

E isso está a manifestar-se de novo nesta eleição?

De novo. Agora, tem a classe média, que vai para cá ou para lá, conforme a conjuntura.

A classe média que ascendeu nos últimos anos?

A que ascendeu foi a média-baixa. A média-alta, não. E essa é que tem muita raiva do Lula e não vai votar na Dilma.

Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.

Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.

Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.

Era uma espécie de academia informal?Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.

Como “aluno”, como era?

Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.

Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?

Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.

A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”

Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro.

Não tem nada a ver com um Hugo Chávez?

Não, imagina! O Chávez é de origem militar. Ao Chávez é que se podia chamar populista, embora eu o ache mais uma espécie de caudilho ilustrado.

E o Lula não tem nada de caudilho [líder carismático e autoritário]?

Não, que caudilho! Ele jamais faz apelos carismáticos. Ele fala com o povo, ou com quem quer que seja, de igual para igual. Faz piada, faz humor.

É um deles?

É um deles. Mas também quando se encontra com a classe média é como um de nós. Não tem complexo de inferioridade, nem de superioridade.

Não tem ressentimento, é isso?

De nenhuma espécie. E não gosta que fiquem elogiando ele de mais. É muito lúcido. Como a lucidez é uma característica da inteligência analítica, ele tem uma inteligência analítica poderosa. E como é do povo, eu digo que é orgânico.

A senhora escreveu que ele foi quem mais avançou na “republicanização do Brasil”. No sentido de democratização?

É. Porque está dando voz ao povo. A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.

O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.

Quando chegou ao Brasil, o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro foi importante para si, a ideia de construir uma democracia multiracial nos trópicos. O Brasil está mais perto disso?

Está. Nunca julguei que chegasse. Mas agora acho que a democracia está consolidada no Brasil. A coisa multiracial está avançando, porque os direitos dos negros, dos índios, estão sendo reconhecidos. E os dois Brasis estão terminando. Essa nossa vergonha.

Lula é acusado de tentações autoritárias, de se apoderar da máquina do Estado, de se enfurecer com a imprensa. Há toda esta tensão.

Ele ironiza, ridiculariza, o que é outra coisa, porque é muito do estilo popular, rir dos defeitos do adversário.

Mas não há uma tentação autoritária? Quando se fala do inchaço da máquina do Estado…

Que inchaço da máquina do Estado, coisa nenhuma. Nós desmontámos o Estado do Fernando Henrique, que fez uma política neo-liberal durante oito anos, nunca fez concurso público e deixou que todo o Estado ficasse terciarizado, com gente que trabalhava sem contrato, sem carteira assinada. Isso é que inchaço. O Lula faz concurso público, a terciarização está diminuindo, está aumentando o pessoal com carteira assinada. Enfim, estão-se reconhecendo formalmente os direitos trabalhistas. E isto é autoritarismo?

É possível que em alguns cargos de confiança o Lula tenha errado, mas também o Fernando Henrique errou, botou vários em cargos de confiança que nas privatizações se revelaram pessoas sem escrúpulos. Errar em cargo de confiança acontece em qualquer governo. Agora, no Estado, não, porque o Lula fez concurso. Foi por mérito, não para inchar a máquina.A corrupção foi o problema que prejudicou mais o governo Lula?

Foi o que prejudicou a imagem. Não propriamente dele, que tem 80 por cento de aprovação. Prejudicou os candidatos dele, como está prejudicando Dilma, prejudicou a imagem do governo.

Mas ele tirou, por exemplo, o José Dirceu [protagonista do escândalo Mensalão, em que o PT pagava a deputados uma mesada], de quem era amigo antiquíssimo. Não há nepotismo.

Todos os casos de corrupção declarada, ou objecto de inquérito público, foram demitidos.

Por exemplo, com o Berlusconi, não há dúvida nenhuma de que aquilo é um governo corrupto, porque ele é um corrupto. Agora, ninguém acusou o Lula directamente. Acusaram-no de ter fechado os olhos, mas ele não fechou olho nenhum. Podia ter mantido o José Dirceu, e dizer que era culpa de fulaninho e sicraninho, enfim daqueles que fizeram lá os “mal-feitos”.

Como podia ter mantido a Erenice, não tinha processo contra ela.

Agora, tem pêtistas que não gostaram que o PT não expulsasse esses quadros. Eu fazia parte da tendência chamada refundação. Achava que devíamos dar uma refundada e ter um código de ética mais pesado. O argumento dos outros era que seria injusto expulsar enquanto não ficasse provada a culpa.

Obviamente, não tenho a menor simpatia pelos quadros que foram acusados. Quanto mais não seja por ineficácia política. De um homem da importância de José Dirceu, que foi presidente do partido anos, e deixa o tesoureiro nomeado por ele fazer o que fez, dele é que se pode dizer que como estava preocupado com o poder esqueceu essa parte [ter mão na corrupção]. Ele pode ser acusado disso. O Lula não. Não tinha nada que ver com a máquina do partido. Lançou a Dilma, e depois é que o partido referendou. O Lula sempre teve muita autonomia em relação ao partido. Tanto que o pessoal fala que há o pêtismo e o lulismo.

Acha que há?

Há mesmo. Porque o Lula é maior que o partido. Acha que essa malta pobre que vota nele é pêtista? Coisa nenhuma. São pentecostais, a maior parte não tem partido. Acreditam no Lula. O lulismo é um fenómeno de massas. O pêtismo é um fenómeno orgânico, de um partido de esquerda que foi andando para uma espécie de centro-esquerda, social-democrata, que hoje já não existe na Europa, porque a Europa está decadente.

A Europa está decadente?

Ah, está. Puxa vida. Bota decadência, não é? Até nós.

Até nós?

Nós, portugueses [risos].

Seguimos o exemplo dos outros. O único país que seguiu menos esse exemplo foi a Suécia, que teve um período neo-liberal muito curto. Nós virámos neo-liberais. Não somos social-democratas faz horas. Nem nós, nem a Europa inteira continental. Nem a Inglaterra, nem nada.

O Lula é um social-democrata?

É. Vamos ver: social-democrata é quando você representa organicamente os trabalhadores. Ora, se há social-democrata é o Lula. Jamais foi a favor da luta armada, jamais. Sempre ficava meio chateado entre a discussão dos intelectuais e dos que vinham da igreja. O PT tem três origens: a sindical, que é a dele, a da igreja, católica, e a dos intelectuais revolucionários. Perdiam um tempo danado a discutir e a vontade dele era mandar os padres rezar e os intelectuais para a academia, e não chatearem ele [ri]. Isso ele disse uma vez para mim, rindo: “Você não tem ideia do que era!” Quando eu entrei, [o PT] já estava manso.Nunca quis ser ministra?

Não. Não tenho temperamento para ser executiva. Fui deputada porque me pediram.

O Lula nunca a convidou?

Não. Ele conhece-me, sabe que eu sou pêlo no vento. Eu sou muito mais agressiva do que a Dilma, muito mais. Ela consegue disfarçar a raiva dela, eu não. Quando fico com raiva, fico. Digo na cara das pessoas o que acho. Eu não seria uma boa ministra. Sou uma boa assessora.

Porque diz o que pensa.

Isso. O que é importante. Alguém que não fica puxando o saco do chefe. Eu não puxo saco de ninguém. Várias vezes disse ao Lula coisas com que ele não concordava.

Por exemplo?

Por exemplo, quando ele fez a aliança com o Garotinho [ex-governador do Rio, condenado por corrupção]. Eu não votei.

Já agora, Collor de Melo e Sarney [ex-presidentes envolvidos em escândalos, que também fazem parte da base de apoio de Lula]. Sente-se confortável com estas alianças?

Eu não sigo as instruções. Se a aliança for com alguém que considero indecoroso, não voto.

É o caso de Sarney ou Collor?

Collor, sim. Sarney, nem tanto. O Sarney que conheço é o da transição. Na primeira parte do governo fez o que pôde. Depois, degringolou. E nunca mais foi candidato a nada. Acho injusto confundir o Sarney com o Collor. O Collor é uma coisa desqualificada.

Há quem critique programas como o Bolsa Família como a criação de uma rede de dependência do governo, que pode ter o efeito contrário justamente a essa autonomia dos cidadãos. O que acha disto?

Acho que é mentira. O Lula tirou 28 milhões da pobreza. Esses não são mais dependentes da Bolsa Família, porque a Bolsa Família é para os pobres. Esses 28 milhões entraram no mercado de trabalho, são assalariados, ou têm os seus pequenos negócios. O que o Lula fez foi proteger os pobres, não deixar os caras morrer de fome. Mas uma vez que ficaram acima do salário mínimo, não. Ninguém que ganhe acima do salário mínimo tem Bolsa Família. Pode ter outras.

Como economista, como vê estes programas?

Acho que é o correcto. Ao tirar da pobreza, e meter no mercado de trabalho vinte e tantos milhões, você está consolidando o mercado interno. Por isso é que a crise internacional não nos atingiu duramente. Por isso, e porque o sector externo estava bem. Tínhamos pago a dívida externa.

E Lula investiu no consumo…

É, deu crédito, além de ter dado emprego. Deu muito emprego. Mais do que prometeu. Investiu no mercado interno e deu financiamento para aquisição de bens necessários, tipo geladeira [frigorífico]. As pessoas dizem: “Ah, fica financiando geladeira…” Mas neste país quente querem que não se financie geladeira? E as pessoas comem o quê? Carne podre? Evidentemente que o que ele fez está correcto. Passámos de uma taxa de crédito de 20 e tantos por cento para 40 e tantos. O que é bom. Não é como nos países ricos, que era 120, 130, o que deu na catástrofe que deu [crise de 2008]. Aqui não tem alavancagem do crédito. Não tem incumprimento alto, inclusive, ou seja, não pagar a prestação que deve. Os devedores pagam, e quem mais paga são os pobres, exactamente. Essa é outra ideia, que pobre não paga. É mentira. Quem não paga é a classe média-alta, que usa cartão de crédito, cheque especial, vai-se endividando e endividando. O povo não faz isso. Nem tem cartão de crédito nem cheque especial. Tem banco, isso sim. Foi uma coisa importante.

O Lula não fez só o Bolsa Família. Fez O Luz para Todos, fez a Bancarização, que é você ter direito, mesmo sem carteira de trabalho, a poder ir ao banco e ter crédito. Essas coisas que implicam integrar o cidadão na sociedade.O que é está em jogo nesta eleição, de facto? É uma eleição importante?

É importante. É a continuidade deste esforço em todos os sentidos. Desde a política externa autónoma, que é fundamental. As pessoas não se dão conta, porque aqui ninguém sabe nada de política externa, então a classe média nem fala no assunto.

Uma das críticas maiores ao governo Lula é o facto dele falar no tom em que fala com Chávez, com o regime cubano, com Ahmadinejad.

Isso é tudo uma bobagem, porque tem de falar com todo o mundo. Lula também fala, e é amigo, do presidente dos Estados Unidos. Só que não se submete.

Mas a questão não é falar, é…

É falar sim, porque ele não fez nada que não fosse de acordo com as regras da nossa constituição e as regras internacionais.

A questão que algumas pessoas colocam é se faz sentido um presidente como Lula ir abraçar os irmãos Castro num momento em que estão dissidentes a morrer e a serem mortos.

Faz sentido como faz sentido ir abraçar qualquer um. Então eu pergunto: faz sentido o governo dos Estados Unidos ter sustentado com dinheiro, com apoio da CIA, todos os golpes de Estado da América Latina?! Isso ninguém critica! Aposto que essa gente da classe média nunca falou nos golpes latino-americanos financiados pelos Estados Unidos e pela CIA!

Certo. Mas a pergunta…

Então?! Nós não estamos financiando golpe de Estado! Só estamos indo a governos legítimos. Não estou falando democráticos, estou falando legítimos.

Como alguém que acredita profundamente da democracia não a incomoda…

Não me incomoda nada! O Oriente Médio não tem democracia nenhuma, e não terá tão cedo. Há tanta possibilidade de ter democracia no Irão, no Iraque, naquela república petroleira que sustenta tudo…

A Arábia Saudita. Mas eu não estava a falar do Oriente Médio…

Como não? Uma das críticas maiores foi ele ter falado com o Irão. Como não está falando no Oriente Médio, se foi aí que a imprensa espirrou? O Castro é periódico. Todo o mundo sabe que ele é amigo do Castro de Cuba.

Mas estou a perguntar-lhe a si.

Acho que ele tem todo o direito. Eu também não teria nenhum inconveniente se fosse a Cuba — não tenho nada que fazer lá, de momento, nem tive, no passado — em cumprimentar o velho Castro, imagina, que é uma figura histórica totalmente relevante. Agora de repente o Castro não tem importância nenhuma? Eu teria inconveniente era em cumprimentar o primeiro-ministro da Itália [Berlusconi], esse sim, que é um ladrão.

No caso da Itália, não é só por causa da corrupção. É por causa do neo-fascismo, que Berlusconi promoveu, e de que é aliado. O que está acontecendo na Itália é gravíssimo, voltar o fascismo à Itália como partido legal. Mas se cumprimentasse Castro, provavelmente também lhe diria o que pensa, não?

Sem dúvida nenhuma. Ia dizer: “Sei que agora não é você quem manda, é o Raul, mas porque é que não libera logo esses caras, e pára de ter uma praga em cima de você?” Eu diria. E ele diria: “Porque não, nhim-nhim-nhim, nhim-nhim-nhim, lá os argumentos dele. Digo sempre o que penso. Nos Estados Unidos também dizia, quando estava lá.

A senhora acha que isso não teve custos políticos para Lula?

Custos políticos não teve, porque as pessoas que dizem isso nunca votaram no Lula.

Há pessoas que votaram nele e dizem isso.

Não senhora. Não é pela política externa. Não é verdade. Podem ter-te dito que votaram, mas é mentira. A política externa [de Lula] não é uma crítica da esquerda. Ao contrário. Isso é uma crítica da direita.

Concentrando-nos na América Latina, a minha questão era se faz sentido uma figura como o Lula, justamente pelo que transporta de inspiração, de exemplo…

Faz todo o sentido! Não é uma política de autonomia? É! Cuba está ou não cercada pelo boicote económico americano? Está. Um dos problemas económicos deles é esse.

Justamente. Uma palavra de Lula aí não teria força em relação à repressão política, dos prisioneiros?

O Lula não se vai meter nas decisões de cada país. Vai lá para mostrar simpatia pelo facto de que eles estão sendo cercados. E deve ter falado [na questão dos presos políticos]. Porque ele disse-me que isso foi tocado.

É?

Mas amigavelmente. Não vai agora se meter na política dos outros. Chama-se política de não intervenção. Ninguém se intromete. Se fosse à Itália provavelmente também cumprimentaria o Berlusconi. Só que não foi, graças a Deus. Acho que é um dos poucos países onde não foi. Não deve ter sido por acaso. Foi à Alemanha, a França, e também não deve morrer de amores pela Merkel, ou por aquele francês, que é um autoritário de direita, o Sarkozy. E daí? Por acaso ele critica o Sarkozy em público, ou vai lá peruar sobre os direitos dos franceses? Isso não se usa. Isso não é diplomacia. Eu faria, mas o Lula é um estadista, representa o estado brasileiro.

Outra coisa com que a direita não concorda é a política Sul-Sul, e é o caso do Serra, que hoje é um homem de direita.

Acha que ele é um homem de direita?

Hoje, virou. Porque o partido dele virou a direita possível. Dado que a direita clássica está encolhendo no Brasil, ele foi-se estendendo para a direita. Então o partido dele hoje, no máximo, pode-se chamar de centro-direita. Como, no máximo, o nosso pode ser chamado de centro-esquerda. Você tem o centro dominando o espectro ideológico. Ora vai para a esquerda, em certas eleições. Ora vai para a direita.

MEMÓRIAS DE PORTUGAL

Falemos um pouco do seu percurso antes de vir para o Brasil. O seu pai acolheu refugiados da Guerra Civil de Espanha.

É verdade [ri].

Era anarquista, o meu velho. Nasci em Anadia mas vim com um mês para Lisboa. Então sou alfacinha. Estive em Sacavém, nas Avenidas Novas, perto lá da Igreja de Fátima…

Avenida de Berna.

Isso. Estive em vários lugares.

O seu pai era comerciante.

Era. E essa frase de que me lembro [dos refugiados] era quando estávamos num bairro popular, de maneira que não se notava tanto. Se enfiasse anarquistas em bairro de classe média tinha-se ferrado. O pessoal estava saindo, estavam perdendo a guerra, e Lisboa era um lugar de passagem de todo o pessoal que estava sendo perseguido, judeu, anarquista. E tinha sempre vários segmentos da população que ajudavam. Aí cresci no meio do debate. O meu tio era comunista e o meu pai anarquista. Então, você imagina, no caso da Catalunha, em que a briga entre anarquistas e comunistas foi feroz, como é que se discutia. Cresceu a ver esses refugiados em casa.

Quanto tinha sete, oito anos. Quando terminou a guerra, foram à vida deles. Depois teve a II Guerra Mundial. E aí é que eu cresci, no sentido em que aos 12 anos caiu Paris. Foi uma tristeza geral. Me lembro de nós todos em torno da BBC, ouvindo a notícia, chorando. Depois a fronteira russa, a queda de Leninegrado, que foi uma brutalidade. E finalmente no dia D, a gente começou a se animar. A guerra terminou quando eu tinha 15 anos. E venho para o Brasil em 1954. Vim casada, grávida da minha filha mais velha e matemática.

E veio porquê?

Ah, porque aquilo ali não dava.

Por razões políticas?

Ah, sim. Não havia emprego para gente como nós, por causa da ficha política.

Era comunista?

Não. Dado que tinha um pai anarquista, uma mãe da esquerda católica e um tio comunista, eu era progressista, digamos. Naquela altura até era mais de uma esquerda católica. Tinha amigos comunistas, anarquistas. Aqui, quando cheguei, também tinha trotskistas, mas isso não me lembro em Portugal. Aqui tinha muito intelectual ilustre que era trotskista. Tinha vários salões intelectuais: o dos comunistas, o dos trotskistas, e o da esquerda católica. E eu frequentava os três, para variar. Era muito estimulante.

Apesar de que, como morreu logo o Vargas, ficou um período meio brabo. Até me lembro de pensar: “Puxa, onde eu vim amarrar o meu cavalo. Fui em busca de democracia e pego um golpe pela cara.” Mas depois melhorou. E com JK [Juscelino Kubitschek] ficou aquela alegria. Aí, me naturalizei brasileira e fui fazer o curso de Economia. Já tinha 27 anos.

Depois atravessou toda a ditadura brasileira.

Menos um período de cinco anos, em que estive no Chile. Porque aqui estava muito difícil.

Não se cruzou com Serra [que esteve exilado no Chile]?

Claro que cruzei.

Então é lá que se encontram.

Claro. E foi lá que escrevemos o nosso artigo contra o “milagre económico” [brasileiro]. Depois eu voltei em 1973, fiz concurso para Campinas, e fiquei na ponte aérea Rio-Campinas. Dava parte das aulas lá e parte cá. Ajudei a formar o mestrado de Campinas, o doutoramento. Entrei pesado na vida académica. Foi bom ter feito matemática, porque o meu catedrático não tinha nenhuma noção de matemática. E foi assim que ele me indicou para auxiliar, depois fiz os concursos todos.

Houve um momento em que passou a sentir-se brasileira? Um clique?

Houve. O JK [Juscelino Kubitschek]. Trabalhei no Plano de Metas dele. Era uma tamanha alegria que você achava que o país estava indo para a frente. Paradoxalmente, eles não trataram da questão agrária, e também o salário mínimo não foi nenhuma maravilha, a partir de 1958 começou a cair, por causa da inflacção. A inflacção realmente é uma praga. Sou uma das poucas economistas de esquerda que é contra a inflacção. Os economistas de esquerda acham que a inflacção não faz diferença. Faz muita diferença. Para quem? Para os pobres. Para os ricos não faz diferença nenhuma.

Os brasileiros ficaram traumatizados com a inflacção, não é?

Foram décadas. É um país classicamente inflaccionário. Esta é a primeira vez que não. E isso começou, diga-se a verdade, no Fernando Henrique.

O que é que acha que o Brasil lhe deu?

Inicialmente, susto [ri]. Uma pessoa chegar aqui, mata-se o presidente e fica tudo imerso… Susto. E como aqui o pessoal é meio inconsciente, a esquerda, mesmo quando era ilegal, vivia batendo papo nos botequins. E eu dizia [sussurra]:

“Escuta, aqui não tem PIDE?”

“PIDE?”

“Sim, polícia política.”

“Ah, não sei, deve ter, mas a gente está aqui num bar.”

“Ué, mas um bar é uma coisa aberta!”

[risos] Eu ficava espantadíssima. Não tinha aquela clima português em que você olhava para a esquerda e para a direita até para ler um jornal. Então, essa foi a primeira coisa: relaxei mais. Em segundo lugar, a coisa da alegria, de ver uma civilização brotar, o que é muito bacana. Ver música, teatro… Culturalmente era muito rico. Aqui, essa parte, era liberal. Só na ditadura propriamente dita é que censuraram as manifestações culturais.

Na ditadura, fiquei no Brasil de 1964 a 68, quando ainda tinha muita crítica. Em 68 é que eles endureceram. E por sorte eu fui [para o exílio] antes. Aí caiu gente para burro, intervieram nas universidades. Se eu tivesse aqui teria sido expulsa.

Eu tava lá [Chile] e também foi uma alegria.

Conheceu Salvador Allende?

Conheci. Conheci todo o mundo. Até pedi uma licença — porque estava a fazer um doutoramento em Paris — e fui trabalhar com o governo. Eu e o Serra.

Com o governo Allende?

[Acena] Fomos os dois colegas no ministério da Economia. Como tinha de voltar para tomar posse na universidade, voltei em Março de 1973. E o golpe [de Pinochet] foi no Outono. Eu tinha deixado a minha filha e o meu filho, porque pretendia fazer outra licença. Mas aí vi que não dava, porque já tinha havido o diabo, trouxe o menino, e ela que tinha casado com um chileno ficou lá. Aí foi uma coisa muito angustiante. Depois quando ia para um seminário no México, prenderam-me no aeroporto aqui no Brasil e fiquei lá num desses aparelhos de repressão 48 horas. Assustador. Não teve tortura. Ameaça, ficar nua, fotografada de todos os lado, não poder comer, não poder beber, não poder fumar, e aquelas celas isoladas.

Sempre fumou assim sem parar?

Sempre, desde os 14 anos. Fumo dois maços. Claro, em entrevista fico nervosa e fumo mais [ri].

Então o Brasil me deu maturidade e uma experiência de vida rica.

E Portugal para si é o quê?

É remoto. Hoje não tenho mais nenhuma ligação íntima. Tenho uns primos vagos na Anadia. A Maria de Lourdes Pintasilgo, que era minha colega, morreu.

Foi sua colega onde?

No liceu Filipa de Lencastre, e depois No Instituto Superior Técnico, onde entrei com 16 anos. Estive com ela várias vezes, quando ela vinha aqui eu sempre a via. Essa era uma mulher fantástica. A verdade é que nós, as mulheres portuguesas, somos fantásticas. A coisa das Marias portuguesas é um facto. São mais lutadoras que os homens. Eu acho. Desde a Padeira de Aljubarrota para cá.

No tempo do Salazar era uma apagada e vil tristeza. Agora, como eu tinha sido presa aqui na véspera da revolução dos cravos e me disseram que me cortavam a nacionalidade se eu saísse, fiquei com medo e não saí do Brasil [nos dois anos a seguir ao 25 de Abril]. Depois fui, e talvez tenha ido numa das últimas marchas com os cravos, com os capitães e o velho comuna, que acho que já morreu…

Álvaro Cunhal.

O Álvaro já morreu, não já? O velho Cunhal. Descemos a Avenida da Liberdade com os cravos na mão. Foi simpático. Mas não é um país estimulante como o Brasil. O Brasil é um país imenso e muito diversificado. Lá é muito pequenininho.

por Alexandra Lucas Coelho*

* Fonte: jornal Público


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Inquisição se manifesta ...

E eis que Vossa Santidade Bento XVI, O Nazi, ex-chefe da inquisição da Igreja Católica, que certamente não está mais queimando “bruxas” na fogueira apenas porque o mundo deu voltas e o iluminismo destituiu a santa sé de seu pedestal de infalibilidade, se manifesta a respeito das eleições no Brasil com um apelo para que seu rebanho assuma um julgamento moral baseado na fé católica "também em matérias políticas". Ué, mas não foi o mesmo Bento XVI, na época Cardeal Joseph Ratzinger, sob as ordens do então sumo pontífice João Paulo II, quem reprimiu sumariamente a corrente da Teologia da Libertação justamente com o argumento de que não se deveria misturar religião com política?

Claro que a campanha fascistóide de José Serra não iria desperdiçar a oportunidade de faturar, hipocritamente, em cima do fato. No programa de radio de hoje, o último antes da eleição, foi passada a seguinte mensagem: "O discurso do papa Bento XVI para os bispos é uma reflexão sobre o direito à vida e sobre a responsabilidade, a transparência das idéias e dos compromissos dos homens públicos. O governante tem que ter uma palavra hoje e a mesma palavra amanhã. Principalmente, quando se trata de problemas fundamentais como o aborto. A palavra do papa é uma palavra de amor à vida".

Inacreditável . É até interessante de se observar como o PT e o PSDB se repelem: quanto mais o primeiro faz movimentos à direita e se afasta do socialismo, assumindo uma postura mais próxima da social-democracia, mais o segundo corre para os braços da extrema direita. A hipocrisia se torna ainda mais escandalosa ao se saber do fato de que a própria mulher de Serra, aquela mesma que foi flagrada dizendo para uma eleitora que Dilma Roussef é a favor do “assassinato de criancinhas”, já praticou um aborto. O fato veio à tona através do depoimento de uma ex-aluna dela, indignada, na internet (veja texto abaixo). Trata-se, evidentemente, de uma discussão complexa reduzida a uma equação simplista e emburrecedora. Quem, em sã consciência, pode ser a favor do aborto ? É evidente que a prevenção com relação à contracepção é um método infinitamente mais racional e saudável para todos, inclusive para as próprias mulheres, tendo em vista o processo traumático, fisica e psicologicamente falando, que o ato abortivo em si provoca. O que se espera, em nome do bom senso, é que, uma vez feito o estrago, o estado, ao invés de ameaçar punir com prisão a autora do suposto “crime”, salve sua vida e instrua-a para que a mesma não incorra no mesmo erro. É lamentável ver o candidato José Serra, que já foi tido como o melhor Ministro da Saúde que este país já teve, assumir uma postura tão retrógrada com relação a este tema. Uma mancha que será difícil de apagar de sua biografia. Espero, sinceramente, que essa merda vomitada pelo primeiro mandatário da Igreja católica, a mesma que ostenta o dogma da infalibilidade, por ser supostamente porta-voz da palavra de Deus, mas que já teve que pedir desculpas por uma série de erros do passado, como ter defendido a escravidão (se justificava, segundo o vaticano, pelo fato de índios e pretos não serem seres humanos, mas bestas) e a perseguição aos judeus, não interfira no resultado das eleições ao ponto de provocar uma vitória do Sr. Burns.

Seria uma tragédia.

por Adelvan

* * *

O desempenho do presidenciável tucano, José Serra, no debate do último domingo pela TV Bandeirantes, foi a gota d’água para uma eleitora brasileira. O silêncio do candidato diante da reclamação formulada pela adversária, Dilma Rousseff (PT) – de que fora acusada pela mulher dele, a ex-bailarina e psicoterapeuta Sylvia Monica Allende Serra, de “matar criancinhas” –, causou indignação em Sheila Canevacci Ribeiro, a ponto de levá-la até sua página em uma rede social, onde escreveu um desabafo que tende a abalar o argumento do postulante ao Palácio do Planalto acerca do tema que divide o país, no segundo turno das eleições. A coreógrafa Sheila Ribeiro relata, em um depoimento emocionado, que a ex-professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Monica Serra relatou às alunas da turma de 1992, em sala de aula, que foi levada a fazer um aborto “no quarto mês de gravidez”.

Em entrevista exclusiva ao Correio do Brasil, na noite desta segunda-feira, Sheila deixa claro que não era partidária de Dilma ou de Serra no primeiro turno: “Votei no Plínio (de Arruda Sampaio)”, declara. Da mesma forma, esclarece ser apenas uma eleitora, com cidadania brasileira e canadense, que repudiou o ambiente de hipocrisia conduzido pelo candidato da aliança de direita, ao criminalizar um procedimento cirúrgico a que milhões de brasileiras são levadas a realizar em algum momento da vida. Sheila, durante a entrevista, lembra que no Canadá este é um serviço prestado em clínicas e hospitais do Estado, como forma de evitar a morte das mulheres que precisam recorrer à medida “drástica e contundente”, como fez questão de frisar.

No texto, intitulado “Respeitemos a dor de Mônica Serra”, Sheila Ribeiro repete a pergunta de Dilma, que ficou sem resposta:

– Se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

Leia o texto, na íntegra:

Respeitemos a dor de Mônica Serra

“Meu nome é Sheila Ribeiro e trabalho como artista no Brasil. Sou bailarina e ex-estudante da Unicamp onde fui aluna de Mônica Serra.

“Aqui venho deixar a minha indignação no posicionamento escorregadio de José Serra, que no debate de ontem (domingo), fazia perguntas com o intuito de fazer sua campanha na réplica, não dialogando em nenhum momento com a candidata Dilma Roussef.

“Achei impressionante que o candidato Serra evita tocar no assunto da descriminalização do aborto, evitando assim falar de saúde pública e de respeitar tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Mônica Serra já fez um aborto e sou solidária à sua dor.

“Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o aborto, sobre o seu aborto traumático. Mônica Serra fez um aborto. Na época da ditadura, grávida de quatro meses, Mônica Serra decidiu abortar, pois que seu marido estava exilado e todos vivíamos uma situação instável. Aqui está a prova de que o aborto é uma situação terrível, triste, para a mulher e para o casal, e por isso não deve ser crime, pois tantas são as situações complexas que levam uma mulher a passar por essa situação difícil. Ninguém gosta de fazer um aborto, assim como o casal Serra imagino não ter gostado. A educação sobre a contracepção deve ser máxima para que evitemos essa dor para a mulher e para o Estado.

“Assim, repito a pergunta corajosa de minha presidente, Dilma Roussef, que enfrenta a saúde pública cara a cara com ela: se uma mulher chega em um hospital doente, por ter feito um aborto clandestino, o Estado vai cuidar de sua saúde ou vai mandar prendê-la?

“Nesse sentido, devemos prender Mônica Serra caso seu marido seja eleito presidente?

“Pelo Brasil solidário e transparente que quero, sem ameaças, sem desmerecimento da fala do outro, com diálogo e pelo respeito à dor calada de Mônica Serra,

“VOTO DILMA”, registra, em letras maiúsculas, no texto publicado em sua página no Facebook, nesta segunda-feira, às 10h24.

Reflexão

Diante da imediata repercussão de suas palavras, Sheila acrescentou em sua página um comentário no qual afirma ser favorável “à privacidade das pessoas”.

“Inclusive da minha. Quando uma pessoa é um personagem público, ela representa muitas coisas. Escrevi uma reflexão, depois de assistir a um debate televisivo onde a figura simbólica de Mõnica Serra surgiu. Ali uma incongruência: a pessoa que lutou na ditadura e que foi vítima de repressão como mulher (com evento trágico naquele caso, pois que nem sempre o aborto é trágico quando é legalizado e normalizado) versus a mulher que luta contra a descriminalização do aborto com as frases clássicas do “estão matando as criancinhas”. Quem a Mônica Serra estaria escolhendo ser enquanto pessoa simbólica? Se é que tem escolha – foi minha pergunta.

“Muitas pessoas públicas servem-se de suas histórias como bandeiras pelos direitos humanos ou, ainda, ficam quietas quando não querem usá-las. Por isso escrevi ‘respeitemos a dor’. Para mim é: respeitemos que muita gente já lutou pra que o voto existisse e que para que cada um pudesse votar, inclusive nulo; muita monica-serra-pessoa já sofreu no Brasil e em outros países na repressão para que outras mulheres pudessem escolher o que fazer com seus corpos e muitas monicas-serras simbólicas já impediram que o aborto fosse descriminalizado.

“Muitas pessoas já foram lapidadas em praça pública por adultério e muitas outras lutaram pra que a sexualidade de cada um seja algo de direito. A minha questão é: uma pessoa que é lapidada em praça pública não faz campanha pela lapidação, então respeitemos sua dor, algo está errado. Se uma pessoa pública conta em público que foi lapidada, que foi vítima, que foi torturada, que sofreu, por motivos de repressão, esse assunto deve ser respeitadíssimo.

“Vinte por cento da população fazem abortos e esses 20% tem o direito absoluto de ter sua privacidade, no entanto quando decidem mostrar-se publicamente não entendo que estes assimilem-se ao repressor”, acrescentou a ex-aluna de Monica Serra, que teria relatado a experiência, traumática, às alunas da turma de 1992.

Exílio e ditadura

Sheila diz ainda, em seu depoimento, que “muitas pessoas querem ‘explicações” para o fato de ela declarar, publicamente, o que a ex-professora disse às suas alunas na Unicamp.

“Eu sou apenas uma pessoa, uma mulher, uma cidadã que viu um debate e que se assustou, se indignou e colocou seu ponto de vista na internet. Ao ver Dilma dizendo que Mônica falou algo sobre ‘matar criancinhas’, duvidei.

“Duvidei porque fui sua aluna e compartilhei do que ela contou, publicamente (que havia feito um aborto), em sala de aula. Eu me disse que uma pessoa que divide sua dor sobre o aborto, sobre o exílio e sobre a ditadura, não diria nunca uma atrocidade dessas, mesmo sendo da oposição. Essa afirmação de ‘criancinhas assassinadas’ é do nível do ‘comunista come criancinha’. A Mônica Serra é mais classe do que isso (e, aliás, gosto muito dela, apesar do Serra não ser meu candidato).

“Por isso, deixei claro o meu posicionamento que o aborto não pode ser considerado um crime – como não é na Itália, na França e em outros países. Nesse sentido não quero ser usada como uma ‘denunciadora de um ‘delito’. Ao contrário, estou relembrando na internet, aos meus amigos de FB (Facebook), que o aborto é uma questão complexa que envolve a todos e que, como nos países decentes, não pode ser considerado um crime – mas deve ser enfrentado como assunto de saúde.

“O Brasil tem muitos assuntos a serem tratados, vamos tratá-los com o carinho e com a delicadeza que merece.

“Agora volto ao meu trabalho”, conclui Sheila o seu relato na página da rede social.

Sem resposta

Diante da afirmativa da ex-aluna de Sylvia Monica Serra, o Correio do Brasil procurou pelo candidato, no Twitter, às 23h57:

“@joseserra_ Sr. candidato Serra. Recebemos a informação de que Dnª Monica Serra teria feito um aborto. O sr. tem como repercutir isso?”

Da mesma forma, foi encaminhado um e-mail à assessoria de imprensa e, posteriormente, um contato telefônico com o comitê de Serra, em São Paulo. Até o fechamento desta matéria, às 1239h desta quarta-feira, porém, não houve qualquer resposta à pergunta. O candidato, a exemplo do debate com a candidata petista, novamente optou pelo silêncio.

Fonte: Correio do Brasil

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Helloween é o Dia das Bruxas


Um amigo meu, anarquista, me fez uma pergunta engraçada hoje: "Dia 31 é Helloween, e aí, vai votar na bruxa ou na múmia?". Porra, bom pressário - Helloween é o Dia das Bruxas!

Voto nela.

* * *
A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, tem 51,9% das intenções de voto, ante 36,7% de seu adversário, o tucano José Serra, segundo pesquisa CNT/Sensus divulgada na manhã desta quarta-feira (27). A vantagem de Dilma para Serra aumentou de cinco pontos porcentuais da pesquisa anterior, na semana passada, para 15,2 pontos agora. No levantamento anterior, Dilma tinha 46,8% e Serra, 41,8%.
Ao se considerar somente os votos válidos - o que exclui nulos e brancos e se redistribui os indecisos proporcionalmente, Dilma tem 58,6% e Serra, 41,4%. A rejeição à candidata petista caiu de 35,2% da pesquisa anterior para 32,5%. Já a rejeição a Serra subiu de 39,8% para 43%.
O levantamento, com margem de erro de 2,2 pontos porcentuais, foi feito com dois mil eleitores, entre os dias 23 e 25 de outubro, em 136 municípios e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número 37609/2010.

Fonte: Istoé.

NOTA: Quero crer essa queda de serra foi por conta das pataquadas que ele tem protagonizado, como as duas retratadas abaixo:

Os Santinhos de uma guerra suja

A poucos dias da eleição, a campanha de José Serra se aproxima de grupos ultraconservadores e reforça a tática do ódio religioso. O oportunismo político divide a Igreja e vira caso de polícia.


"Eu gostaria de chamar a atenção para este papel que estão distribuindo na igreja. Acusam a candidata do PT, em nome da Igreja. Não é verdade. Isso não é jeito de fazer política. A Igreja não está autorizando essas coisas. Isso não é postura de cristão." Cara a cara com José Serra e sua equipe de campanha, frei Francisco Gonçalves de Souza passou-lhes um pito. O religioso comandava a missa em homenagem a São Francisco, no sábado 16, em Canindé, no sertão cearense. Meia hora após o início do culto, Serra tinha chegado à basílica, onde se espremiam cerca de 30 mil devotos, atraídos à cidade para uma tradicional romaria. O candidato tucano, acompanhado do senador Tasso Jereissati e de outros correligionários, estava em campanha. Em tese, aquele seria um palanque perfeito para alguém que, como Serra, tem peregrinado por templos religiosos se anunciando como um cristão fervoroso. Enquanto ele assistia à missa, barulhentos cabos eleitorais distribuíam panfletos. Os papéis acusavam Dilma Rousseff de defender "terroristas", o "aborto" e a "corrupção". Frei Francisco resolveu reagir ao circo e, então, o que era para ser uma peça publicitária do PSDB transformou-se num enorme vexame. Sob aplausos dos fiéis, o franciscano pediu que Serra e Jereissatti não atrapalhassem a cerimônia e que se retirassem, se não estavam ali para rezar. Jereissatti, descontrolado, passou a gritar que o padre era um petista e tentou subir no altar. As cenas gravadas pelas equipes de tevê de Serra jamais seriam usadas na campanha.

( ... )

Promessa de campanha é expediente normal dos candidatos numa eleição. Mas qualquer oferta, por mais milagrosa que pareça, deve respeitar os limites do equilíbrio fiscal e orçamentário do Estado. E, acima de tudo, não abusar da boa fé do eleitor. O candidato tucano José Serra, em seu afã por conquistar votos no segundo turno, vem contrariando todas essas regras. De olho no potencial eleitoral de aposentados e funcionários públicos e sem resquícios de responsabilidade, Serra prometeu elevar o valor do salário mínimo a R$ 600 e reajustar as aposentadorias acima do mínimo em 10%. Ao tentar convencer o eleitorado de que o “Brasil Pode Mais”, seu slogan de campanha, disse ainda que vai dobrar o Bolsa Família, hoje em R$ 12,7 bilhões, e criar um 13º para os beneficiários do programa. Puro populismo. Só essas quatro promessas custariam aos cofres públicos mais de R$ 46 bilhões, o que supera em uma vez e meia tudo o que o atual governo aplicou em infraestrutura, dentro e fora do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), no ano passado.

( ... )

Ein Film Von Fritz Lang

Metróplois, clássico do expressionismo alemão e da ficção científica lançado em 1927, é um de meus filmes favoritos de todos os tempos. Foi a produção mais cara da Europa em sua época, e dá pra notar perfeitamente na tela o porque: os cenários absolutamente deslumbrantes, especialmente os que mostram visões panorâmicas de uma cidade futurista com seus veículos voadores e passagens suspensas, influenciaram visual e esteticamente toda a produção cinematografica futura do estilo - a Los Angeles de Blade Runner, por exemplo, é nitidamente decalcada da metropole de Lang, assim como o célebre robô C3PO, da saga "Guerra nas Estrelas", é uma cópia da cópia robótica da personagem Maria.

O roteiro, baseado em romance de Thea von Harbou, foi escrito por ela mesma em parceria com o diretor, e se passa numa grande cidade governada autocraticamente por um poderoso empresário. Seus colaboradores constituem a classe privilegiada, vivendo num jardim idílico, como Freder, único herdeiro do dirigente de Metropolis. Os operários, ao contrário, são escravizados pelas máquinas e condenados a viver e trabalhar em galerias no subsolo. Lá, uma jovem chamada Maria os inspira a lutar por seus direitos e profetiza a vinda de um "escolhido" que os representará.

A obra demonstra uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo. Como pano de fundo, a valorização da cultura, expressa através da tecnologia e, principalmente, da arquitetura. O ponto alto e grande mote do filme é, sem dúvida, o final - onde a metáfora "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!" se concretiza no simbólico aperto de mão mediado por Freder entre Grot (líder dos trabalhadores) e Jon Fredersen - o empresário. Este final foi entendido à época como uma alusão ao ideal de conciliação entre capital e trabalho proposto pelo partido nacional-socialista alemão (nazista), o que atraiu para o diretor as atenções do então aspirante a chanceler Adolf Hitler. Metropolis impressionou tanto o "fuhrer" que, quando este chegou ao poder, solicitou ao ministro Goebbels que abordasse Lang, convidando-o a fazer filmes para o partido nazista. Enquanto Thea Von Harbou, sua esposa à época, mergulhou no projeto, Lang evadiu-se para Paris, onde chegou a produzir filmes de conteúdo antinazista, viajando posteriormente para os Estados Unidos, onde faleceu.

Pois bem, no último domingo o filme de Lang foi exibido ao ar livre no parque do Ibirapuera, em São Paulo, com acompanhamento ao vivo de uma orquestra sinfônica executando a partitura original. Deve ter sido uma noite memorável, algo que somente uma grande metropole, como o é a São Paulo de hoje, pode proporcionar a seus habitantes. Clique AQUI para ver imagens da exibição e leia, abaixo, os comentários publicados na Folha de São Paulo e no portal UOL sobre o evento.

Por Adelvan Kenobi (with a little help from wikipedia)

* * *

Em Silêncio, mais de 12 mil pessoas assistem "Metropolis" no Ibirapuera

O prólogo à exibição de "Metrópolis" (1927) no Parque do Ibirapuera, na noite de ontem, foi quase tão impressionante quanto a sessão a céu aberto promovida pela 34ª Mostra Internacional de Cinema e pelo Auditório Ibirapuera.

Quem estava sentado na grama, tomado pelas imagens de Fritz Lang (1890-1976) e pela orquestra regida ao vivo, não podia supor que tantos outros milhares de olhos e ouvidos estavam ali também. Não podia supor que, depois de mais de três horas de sessão, com um frio que o descampado tornava maior, pelo menos 12 mil pessoas sairiam caminhando pelas avenidas que torneiam o parqu. Eram 11 e meia da noite quando os espectadores se descobriram milhares e deram seu próprio fecho a "Metrópolis".

São Paulo, cidade que como a cidade de Lang fora enrijecida pela velocidade, pelas máquinas e pelos relógios vivia, de repente, o seu tempo da delicadeza.

VERSÃO INÉDITA - A versão de "Metrópolis" que São Paulo recebeu traz 25 minutos inéditos desse clássico do cinema mudo. Os rolos perdidos foram encontrados em Buenos Aires.
Depois de recuperada, a cópia foi exibida no Portão de Brandemburgo, durante o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. Esta é sua primeira exibição na América Latina.

A projeção foi feita na parede de trás do Auditório Ibirapuera. Sob a tela, os 82 músicos da Orquestra Jazz Sinfônica executaram a música original do filme, composta pelo alemão Gottfried Huppertz, no tempo em que a técnica não permitia que os personagens falassem. E é absolutamente única a experiência de ouvir a trilha sonora moldar, ao vivo, cada uma das cenas de um filme. Trata-se, na definição do maestro João Maurício Galindo, de uma "partitura gestual", que leva as notas a acompanharem o ritmo da ação.

Quando os trabalhadores correm pela tela, são corridos os compassos. Quando o relógio marca a vida regrada dos homens, a percussão potencializa a força da imagem.

Há, também, registros emocionais. Quando, após uma série de turbulências, os dois protagonistas se reencontram, é romântica a melodia. "Nessa cena, a música talvez emocione até mais do que aquilo que se vê", disse Galindo, em entrevista à Folha, antes do concerto.

EXPERIÊNCIA COLETIVA - Passados mais de 80 anos de sua primeira exibição, na Alemanha, "Metrópolis" chegou a São Paulo, pela primeira vez, tal e qual imaginado por Lang -- completo e com a orquestração original.

Chegou sem uma ruga sequer. E a cidade, discretamente, prestou sua homenagem a esse filme de imagens inesquecíveis, definitivas.

Uns espectadores levaram mantas, uns levaram garrafas e taças de vinho, outros levaram seus cães. Mas todos, em silêncio, viveram o cinema como arte, como experiência que, só se for coletiva, é completa de verdade.

* * *

Em uma noite tipicamente paulistana - vento frio e com momentos de garoa -, milhares de pessoas se reuniram no Parque do Ibirapuera para assistir a um filme ao ar livre.

O que motivou a multidão a vencer as adversidades e ficar até o final do evento, depois das 11 da noite, foi a exibição do clássico "Metrópolis" (1927), longa futurista alemão dirigido por Fritz Lang. O evento faz parte da programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema.

O filme mudo foi restaurado recentemente e quase meia hora de cenas que eram consideradas perdidas foram recuperadas. Outro atrativo para o evento foi a Orquestra Jazz Sinfônica, que executou ao vivo a trilha enquanto o filme era projetado na parede do Auditório do Ibirapuera.

O longa foi apresentado pelos diretores da Mostra. Leon Cakoff e Renata Almeida subiram ao palco para os agradecimentos. "Somos o primeiro país da América Latina a ver essa cópia nessa noite mágica e fantástica", concluiu Leon.

Cinéfilos de todas espécies - As condições meteorológicas foram um motivo de hesitação para muitos dos presentes. "Espero que não chova", disse Mário Reys, que antigamente se considerava "um rato de Mostra". Para ele, "Metrópolis" foi o primeiro evento da agenda cinematográfica. "Ainda pretendo ver o vencedor de Cannes na quinta-feira, mas não tenho outros planos definidos", relatou.

A plateia era heterogênia, com famílias, casais, grupos de amigos, jovens, idosos. Retrato da pluralidade que acompanha a Mostra. A pequena Victória Shahini, de 9 anos, teve de insistir para que sua mãe a levasse para a sessão. "Eu não queria vir por causa do frio, mas ela brigou", afirmou Denise Shahini. "Achei a ideia disso super legal", comentou Victória.

Entre as pessoas que se acomodavam com toalhas, cangas, cadeiras de praia no meio do gramado; alguns dos presentes consumiam guloseimas e outros apreciavam um bom vinho. A multidão ocupou uma grande área, com uma concentração maior no gramado em frente ao palco, mas com alguns grupo mais próximos das árvores.

Outra figura que curtia a programação musical da noite era Billy, o cachorro de Ana Alves. "Espero que essa noite quebre a rotina para que eu comece a semana energizada", disse Ana. "Acho bom que esse evento é totalmente livre, até para o Billy". O cãozinho está acostumado a ouvir música em casa e se comportou muito bem no meio dos espectadores.

Frequentadores de outras atividades do parque receberam a novidade de braços abertos. "Costumo correr aqui no parque e confiro a programação para ver outros eventos", falou o vendedor Felipe Costa. "Hoje resolvi dar uma esticada aqui."

Reencontro de cinema - Muitas das pessoas no Ibirapuera não conheciam "Metrópolis", mas outros resolveram enfrentar a noite fria para rever o clássico alemão. O filme mostra alguns princípios que estavam estrapolados no Cinema Expressionista Alemão de obras como "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920).

Ana Helena Salve, que estava acompanhada de seu sobrinho Marcos, era uma dessas cinéfilas experientes. "Já vi várias versões do filme e sem dúvida estou com grandes expectativas para essa projeção", contou ela.

Também no Ibirapuera para rever a fita estava Sonia Manholer, em um "evento bárbaro e bem especial", segundo ela. "Estou muito emocionada de estar em um evento com essa qualidade", relatou Sonia durante um dos intervalos da sessão.

Pessoas das mais diversas tribos e origens estavam reunidas, mas todas concordaram sobre a qualidade do acontecido. Finalizada a projeção, boa parte da plateia aplaudiu de pé o filme e a competente orquestra.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

DIA INTERNACIONAL DA ANIMAÇÃO

MAIOR EVENTO SIMULTÂNEO DE ANIMAÇÃO DO MUNDO ACONTECE DIA 28 DE OUTUBRO EM ARACAJU

Com entrada gratuita, a mostra de curtas nacionais e internacionais acontece em mais de 400 cidades do Brasil e em 30 Países, como França, Estados Unidos, Canadá, Camarões e Coréia do Sul

Pelo sétimo ano consecutivo, o Dia Internacional da Animação é celebrado no Brasil com uma mostra, simultânea e gratuita, de curtas-metragens nacionais e internacionais. No dia 28 de outubro, às 19h30, haverá exibições em mais de 400 cidades do país, organizadas pela Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA). Este é o maior evento simultâneo do gênero do mundo, que tem como principal objetivo difundir o cinema de animação, atraindo novos públicos e proporcionando aos espectadores o acesso a essa arte cinematográfica, institucionalizando o dia 28 de outubro, como referência histórica da animação mundial na sociedade brasileira.
O “Dia Internacional da Animação” também acontece em 30 países, como França, Estados Unidos, África do Sul, Canadá, Irã, Romênia, Coréia do Sul, Austrália e Camarões, que fazem intercâmbio de suas mostras.
Em 2010 foram inscritos 73 curtas-metragens em animação de vários estados brasileiros. Destes, foram selecionados 11 para o programa oficial brasileiro que será exibido em todas as cidades participantes no Brasil e nos 51 países membros da ASIFA (http://asifa.net). Além das exibições da mostra oficial, nacional e internacional (que terão uma hora de duração cada), acontecerão várias atividades nas cidades participantes nos dias que antecedem o evento como mostras infantis, mostra para deficientes auditivos, mostra para deficientes visuais e também oficinas, debates, palestras e exposições.

A Mostra Nacional 2010 contará com a exibição de curtas metragens como “Tromba Trem - O estrangeiro”, de Zé Brandão; “Como comer um elefante”, de Jansen Raveira e “Eu queria ser um monstro”, de Marão (RJ); “Doce Ballet”, de Lina Fridman e Maira Fridman; “Quando as cores somem”, de Luciano Lagares (SP), entre outros. Entre os selecionados da Mostra Internacional, destaque para “Pássaros”, de Filipe Abranches (Portugal); “Kensho”, de Daniel Kang (EUA); “Zsa Zsa Zsu”, de Tromarama (Indonésia) e “Hide & Seek”, de Sherif Abbas (Egito).
“Proporcionar à diversas cidades brasileiras a exibição de filmes de animação, com entrada franca, criando debates e discussões é o principal objetivo da organização do DIA, que pretende despertar o interesse do público em fazer cinema de animação, revelar talentos e integrar as pessoas. O evento gera a integração cultural em todas as regiões do país, mobilizando diversas comunidades e facilitando a inclusão e o acesso da população à cultura”, revela Luciana Druzina, coordenadora do Dia Internacional da Animação.
Este ano, a mostra acontece em todos os estados do país. O evento busca ainda alavancar a divulgação dos filmes nacionais para o mercado estrangeiro, através do intercâmbio com outros países. A programação local de cada cidade pode ser conferida no site www.diadanimacao.com.br .
“Este será o sétimo ano que a ABCA promove o Dia Internacional da Animação. A cada edição, alcançamos mais cidades e espectadores. Somos o país que faz o maior evento de celebração da animação no mundo e isso só acontece graças ao esforço de muitos voluntários entusiastas da arte da animação espalhados por todo o território nacional. A ABCA se enche de orgulho de ter desencadeado esse fenômeno e de conseguir repetí-lo a cada ano no Brasil”, avalia Marta Machado, diretora da ABCA.

Em Aracaju –Se, desde 2006 a Produtora Cine Vídeo e Educação- Ações Culturais coordena as exibições das Mostras que compõem o DIA.
Neste ano a exibição será no Teatro Tiradentes no Campus Centro da UNIT que está apoiando o evento.
A exibição será no dia 28/10 a das 19h30 as 21h30 no Teatro Tiradentes (Campus Centro da Universidade Tiradentes) na Rua Lagarto 264-Centro.
Serão exibidas a Mostra Nacional e Internacional.
A Entrada é gratuita. Bastando aos interessados irem até o local.

Sobre o Dia Internacional da Animação:

A mostra foi criada em 2002 pela Associação Internacional do Filme de Animação (ASIFA) para comemorar o Dia Internacional da Animação. Foi nesta data que Émile Reynaud, em 1892, realizou a primeira projeção do seu teatro óptico no Museu Grevin, em Paris. Essa projeção foi à primeira exibição pública de imagens animadas (desenhos animados) do mundo.
A organização nacional do evento contará novamente com o apoio na divulgação da Globo Filmes, TV Rá-Tim-Bum, TV Brasil, TV Cultura, Canal Futura, Espaço Z, Rain, Movie Mobz, Sesc TV e Cine Brasil TV, além do apoio do CTAV – Centro Técnico do Audiovisual , do Conselho Nacional de Cineclubes, do Fórum dos Festivais, do Centro de Produção de Legendas e do Habanero Áudio.
O DIA tem o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Cultural, através da Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura – Lei Rouanet e com a parceria da ASIFA, para que a mostra brasileira também esteja presente na comemoração em mais de 50 países no mundo.

Fonte: Divulgação

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cine Cult com "sede de sangue"


Eu sempre fui fascinado pelo mito dos vampiros. Me lembro que, ainda guri, pedia para meus irmãos me acordarem tarde da noite para poder ver os filmes de Drácula da Hammer, com Christopher Lee, que eram exibidos com freqüência na TV. Adoro “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polanski, e “Nosferatu”, tanto o original, de Murnau, quanto a brilhante refilmagem de Werner Herzog. Curto também algumas coisas dessa “nova onda” de vampirismo, como a série True Blood e o sensacional filme sueco “Deixe ela entrar”. Nesta semana a Sessão Cine Cult está exibindo, no Cinemark do Shopping Riomar, mais uma belíssima variação sobre o mesmo tema: “Sede de sangue”, do coreano Park Chan-wook ( o mesmo de “Old Boy”, um dos grandes filmes da década ).

Só o fato da História se passar no oriente e do filme ser dirigido e interpretado por atores orientais já seria um diferencial, já que os coreanos têm uma peculiar capacidade de misturar num mesmo caldeirão vários gêneros, como pode ser conferido em outra grande produção vinda daquele país, “O Hospedeiro”. Um mix de drama, romance, suspense, surrealismo, humor negro e pastelão puro e simples que, nas mãos de um ocidental, provavelmente soaria indigesta, mas que eles sabem dosar com maestria.

É a História de um padre que se transforma em vampiro ao ser contaminado por um vírus depois de se submeter como cobaia para experimentos científicos. Um padre católico coreano – mais um diferencial. O personagem se vê, então, no dilema de como saciar sua (agora) natural sede de sangue sem macular sua fé – dilema que é aprofundado quando entra na equação o desejo carnal, uma associação natural quando se fala de vampirismo, que sempre foi e sempre será uma metáfora para o sexo, que me perdoem (ou não) as fãs da melosa e puritana série “Crepúsculo”.

Aos poucos o padre vai se entregando aos seus instintos – nem tanto os de morte, já que encontra uma solução bizarra (e engraçada) para a questão da alimentação, mas os referentes aos prazeres da carne. Tórridas cenas de coito são exibidas enquanto acompanhamos o processo de sedução psicológica perpetrado por sua, digamos, não muito bem intencionada parceira com o intuito de fazê-lo ajudá-la numa vingança contra seu marido idiota e sua sogra carrasca. Não poderia faltar vingança num filme de Park Chan-wook, não é mesmo ? Nem misoginia – em sua visão, parece que todo homem, até mesmo os vampiros, está fadado a ruir nas mãos de uma mulher.

Ao longo da projeção, com a película já desgastada pelo uso (a produção é do ano passado e estreou faz tempo no Brasil, ou seja, deve ter circulado por todo o país antes de aportar, finalmente, em telas sergipanas), cenas belas e ao mesmo tempo bizarras se sucedem num exercício estilístico refinado até o final, cômico e poético na mesma medida. Destaque para as brutais sequencias de caçada humana e para o inusitado cenário da casa reformulada pelos vampiros, com muita luz branca refletida em paredes da mesma cor – provavelmente para compensar sua incapacidade de ver a luz do sol.

Um belíssimo exercício de imaginação. Mais uma prova de que, definitivamente, cinema ainda é a maior diversão e de que vale a pena, sim, arriscar-se a ver filmes que se diferenciam do desgastado padrão hollywoodiano.

por Adelvan

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Arte de Iri5

O brasileiro Vik Muniz ficou famoso por transformar qualquer material em réplicas de obras de arte – macarrão c/ molho vira Caravaggio, a Mona Lisa é de chocolate, e a abertura da novela das 8 é puro lixo. Ele não está sozinho nessa onda de reciclagem.

Nos EUA, a artista Erika Iris Simmons, a Iri5, encontrou um fim digno p/ as velhas & aposentadas fitas k7. O “compact cassete” é um padrão de fita de áudio inventado pela empresa holandesa Philips e lançado em 1963. Uma fita magnética presa em 2 carretéis dentro de uma caixinha de plástico.

As fitinhas foram as precursoras da pirataria, muito antes do CD, DVD, MP3... E as preferidas de caminhoneiros & taxistas – pela praticidade – e de peões de obra & empregadas domésticas – pelo preço. Medindo 10x7cm, podiam ser guardadas no bolso. Mas a era digital acabou c/ elas.

Iri5 trabalha c/ materiais descartados, de cartões de crédito a bolas de beisebol. Mas a série que a tornou conhecida mundialmente é a GHOST IN THE MACHINE, que retrata celebridades do cinema e principalmente da música angloamericana c/ fita & cola, como as telas do Jimi no último post e o Travis Bickle c/ rolo 35mm em Vales de Netuno.

“Eu me sinto bem trabalhando c/ materiais velhos, estranhos. Coisas que têm vida própria. Quase tudo que eu uso foi jogado fora ou doado. O passado é o melhor, tem algumas das coisas mais finas do mundo”, diz Iris.

->Acompanhe o trabalho de Iris no link ao lado.

Texto por Adolfo Sá.







quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Também vai pegar você.

Confesso que tive medo de que Tropa de Elite 2 fosse um filme frouxo, feito apenas para aproveitar o sucesso e tentar esclarecer, de forma “politicamente correta”, os mal-entendidos do primeiro. Felizmente, estava errado. Esse José Padilha é “cabra macho” mesmo, tem o que dizer e diz, de forma brilhante e contundente. Este segundo episódio é mais discursivo, tem mais história e menos ação, mas as cenas de ação são sensacionais, de um realismo impressionante.
Na verdade o filme é quase um tratado sociológico sobre a situação da violência urbana no Rio de Janeiro. É narrado o tempo inteiro pelo agora Coronel Nascimento, que se revela um personagem muito mais rico e intrigante do que o brucutu sanguinolento da primeira versão. A narração em off, no cinema, é um artifício perigoso, muito usado por cineastas que subestimam a inteligência de seu público e acham que precisam explicar tudo o que já está sendo visto na tela o tempo inteiro, mas nesse caso, dada a complexidade das situações retratadas e da própria “psique” do personagem em si, se justifica. Padilha, habilmente, consegue tomar posição sem em nenhum momento recorrer ao maniqueísmo. Consegue, acima de tudo, passar a mensagem de que os personagens antagônicos de Nascimento e do Deputado Fraga, político de esquerda e defensor dos Direitos Humanos, estão, na verdade, do mesmo lado, muito embora com uma visão de mundo e utilização de métodos totalmente diferentes. Mais: acaba de uma vez com qualquer resquício de suspeita de legitimação dos métodos de Nascimento, alçado ao posto de “herói” por um monte de gente burra que entendeu tudo errado no primeiro filme, ou melhor, entendeu da forma que lhes é mais conveniente. Isso fica bem claro num trecho da fala do personagem em seu depoimento na Assembléia Legislativa, quando ele relembra que um dia seu filho teria lhe perguntado porque sua profissão era matar, e ele agora admitia que não tinha uma resposta para isso. Nascimento se deu conta, finalmente, de que estava sendo, o tempo todo, manipulado por um “sistema” (palavra repetida à exaustão durante toda a projeção) fascista e excludente, muito bem representado pelo excelente personagem do apresentador de televisão fanfarrão e sensacionalista que se esconde sob uma capa de falso moralismo para legitimar o “status quo” com soluções simplistas resumidas em frases de efeito do tipo “dá caixinha de bombom pro malandro”, “manda flores pro meliante” ou “direitos humanos para os humanos direitos” (Bareta?).
Tudo isso sem falar das interpretações, que são sensacionais. Todos, começando por Wagner Moura, evidentemente, estão muito bem. O roteiro é enxuto e a direção é segura. Apenas os diálogos, a meu ver, pecam por um certo excesso de “naturalismo” que às vezes soa um pouco forçado, mas nada que comprometa o conjunto da obra.
Fico feliz em saber que “Tropa de Elite 2 – O Inimigo agora é outro” é um sucesso estrondoso de público e crítica.
É quase uma obra-prima.
por Adelvan
* * *
“A PM do Rio tem que acabar”. Esta é uma das muitas frases polêmicas do Capitão Nascimento, personagem vivido por Wagner Moura em “Tropa de Elite 2”. No filme, o ex-capitão do Bope, agora subsecretário de segurança do Rio, faz severas criticas a esquemas de corrupção, tanto na polícia quanto nos setores mais burocráticos do governo. Em entrevista exclusiva ao EXTRA, o ator solta o verbo: reafirma que muitas das situações retratadas no filme podem ser vistas no dia a dia, fala sobre o sentimento que o longa-metragem despertou na população e opina sobre uma das maiores bandeiras da área de segurança, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

— A UPP é boa, mas deve ser vista como um meio, não como um fim — diz o ator, alertando que o programa pode se tornar uma espécie de milícia: — O perigo é que aquelas comunidades sejam dominadas por aquela polícia.

Em uma entrevista coletiva na última quinta-feira, o verdadeiro comandante do Bope, o tenente-coronel Paulo Henrique Moraes, disse que “Tropa de Elite 2” pode confundir a população por misturar elementos da ficção e da vida real, e que, assim, muitas conclusões erradas podem ser tiradas.

Wagner Moura tem outra opinião sobre o filme:

— O filme é de ficção por mais que tenha uma estética documental. Mas o que é retratado no produção acontece na vida real de uma maneira geral — afirma Moura.

O comandante do Bope disse que não gostou do filme porque mistura ficção e realidade, e pode passar uma noção de realidade distorcida. Você concorda?

Moura: Ele está fazendo uma confusão estética. O filme é de ficção, por mais que tenha uma estética documental. Mas o que é retratado no filme acontece na vida real de uma maneira geral. Existe milícia? Existe. Existe polícia corrupta? Existe. O Bope é uma polícia violenta? É. Há uma ingerência dos políticos na vida dos policiais? Há. Há uma ingerência do poder público na questão das milícias? Há. O filme, neste sentido, não está dizendo nada que não exista. É baseado em fatos reais.

Como tem sido a repercussão de "Tropa de Elite 2" em comparação ao primeiro filme?

Moura: Este filme tem causado uma comoção, uma catarse cívica, que o primeiro não causou. As pessoas viam aqueles políticos (ligados à milícia), a reação do Nascimento (que agrediu um deles no filme), e se identificaram bastante. O que não significa que o que tenha acontecido no filme tenha acontecido na realidade. Mas as situações criadas no filme, de uma certa forma, existem, não há como negar.

A principal bandeira da área de segurança — a UPP — tem por objetivo quebrar o sistema regido pelo tráfico. Você tem alguma opinião formada sobre a UPP?

Moura: A UPP é boa, mas deve ser vista como um meio, e não como um fim. A gente não pode achar que a UPP é uma solução. É o Estado se fazendo presente em localidades historicamente negligenciadas por meio de sua polícia. É um bom começo. Mas se não se fizer presente de outras formas, como saneamento básico, hospitais, escolas, o perigo é que aquelas comunidades sejam dominadas por aquela polícia.

Nesse sentido, a UPP pode virar um sistema semelhante ao adotado pelas milícias?

Moura: Pode sim. Ou outra coisa diferente que a gente não sabe o que é ainda. O sistema certamente se recria.

Fonte: Extra Online

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

( * ) Isso é fascismo, uma grande palhaçada, não dá nem pra acreditar ...


(*) Trecho da música "ignorancia", do Ratos de Porão

Este é o penúltimo texto escrito pela psicanalista antes de ser demitida do
jornal O Estado de S. Paulo. Porém, trata de um tema mais atual do que nunca: o aborto

REPULSA AO SEXO - por Maria Rita Kehl

Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.

Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.

Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.

O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.

O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.

A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.

A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.

Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

Em entrevista a CartaCapital, a psicanalista responsabiliza Serra pelo nível do debate eleitoral, fala de aborto e corrupção.

O fim da coluna da psicanalista Maria Rita Kehl no O Estado de S.Paulo foi um dos assuntos da semana, em particular na internet. Seu artigo “Dois Pesos” foi pesado demais para os donos do diário paulista. Neste espaço, publicamos vários artigos a respeito. A repercussão enorme gerou até um abaixo-assinado que corre pela rede em sua defesa. Passado o impacto, Rita Kehl conversou com CartaCapital a respeito das eleições presidenciais, que ela acompanha de perto, com o olhar da profissional conceituada em sua área e também com a visão de cidadã e jornalista, carreira que seguiu nos tempos da ditadura. Ela se diz escandalizada com os temas que tomaram conta do debate eleitoral e responsabilizou a campanha do PSDB por isso.

CartaCapital: Teu artigo no Estadão discutia a disseminação de um grave preconceito através da rede. Essa parece ter sido uma característica do uso do veículo nestas eleições, em particular entre a chamada classe média.Você acredita que a internet, pelas suas especificidades, ajuda a este tipo de comportamento?
Maria Rita Kehl:
Ajuda de fato. A internet, pela facilidade de acesso, pelas características que só ela tem, apresenta este potencial terrível de ser lugar da fofoca, de blábláblá. Mesmo quando não é um uso irresponsável, como são os casos destes tuites para dizer ”olha, eu estou aqui”, “eu existo”, “olha a foto do meu filho”, “do aniversário do fulano”. Mas tem também um potencial incrível, como a possibilidade de convocar uma passeata da manhã para a tarde, como aconteceu antes da guerra do Iraque, em vários países do mundo, e reunir milhões de pessoas. Então, eu não condenaria a internet, ela tem grande potencial, é um veiculo que dá justamente a possibilidade de você se incluir, de você escrever, pelo menos para quem é da classe média ou que tem acesso a uma lan house. Ela serve a essas duas coisas. Talvez com o tempo os leitores comecem a criar sua própria capacidade de discriminar.

CC: O preconceito que você identifica no teu artigo, este incomodo com a ascensão dos mais pobres, e por consequência com um governo mais identificado com eles, não é uma marca das nossas elites que aparece muito na rede?
MRK:
Veja, a internet divulgou essas correntes preconceituosas, apócrifas, que sempre começavam assim: “uma prima minha”, “um parente meu”, “um amigo da minha empregada”, sempre assim. Mas por outro lado, o que tem de legal, é que, por exemplo, este meu artigo foi mais lido que qualquer outra coisa que eu jamais tenha escrito. Se ele tivesse ficado apenas no Estadão, ele teria sido lido, mas jamais deste jeito. Isso é uma coisa muito legal.

CC: Falemos de ética: você acha que o caso Erenice atingiu eleitoralmente esta classe média?
MRK:
Eu acho que sim. Eu li um artigo dizendo que o caso Erenice foi mais decisivo para exigir o segundo turno que essa “fofocaiada” toda sobre o aborto. E, infelizmente, está certo. O governo para o qual eu voto e continuo votando tem uma leniência com a questão da corrupção, que deixa até difícil um petista defender, tenho que dizer isso. Lula naturalizou a corrupção, como sendo parte do jogo político. E aí, está bom, quando fica mais escandaloso, demite. Mas “deixa acontecer”, entendeu? Renan Calheiros, Sarney, são vergonhas que a gente tem que engolir, fica parecendo que é culpa da oposição agitar isso. Claro que ela vai agitar. Nós agitaríamos isso se aparecesse uma coisa tão escandalosa na outra campanha. A diferença aí – que é a favor da atitude do governo Lula, mas que ao mesmo tempo não o torna vítima – é que o governo Lula não consegue blindar a imprensa como o governo do PSDB consegue, porque tem a imprensa na mão. Então, quando surge alguma coisa, surge como fofoca que desaparece no dia seguinte. Como a coisa do Paulo Preto, que o Serra não respondeu no debate e ficou por isso mesmo. A gente sabe que é um governo que blinda. O Alckmin, como a candidatura dele estava bem, teve a campanha toda em céu de brigadeiro, do começo ao fim, não tinha ninguém que pudesse pegar alguma coisa e contestar. E se pegasse, não ia sair na imprensa. De fato, a grande imprensa se encarrega de censurar quaisquer denúncias sobre os governos que ela apoia. Mas mesmo que a imprensa seja parcial ao denunciar um caso como o da Erenice, o caso em si está errado, não poderia aparecer.

CC: O governo não poderia ficar surpreso com a “escandalização” feita pela grande imprensa, certo?
MRK:
Claro! Ele sabe qual é o jogo e não era para ter corrupção deste jeito. Uma coisa ou outra você não controla, uma coisa pequena, mas para mim é difícil responder quando as pessoas dizem: “mas, como? Estava no nariz dela! Era uma coisa que estava a família inteira metendo a mão”. Coloca os petistas numa situação difícil.

CC: Esta eleição está sendo marcada também pela discussão de temas no campo da moral: aborto, religião. O que te parece isso?
MRK:
Eu acho que isso mostra o atraso da sociedade brasileira. Porque, claro, nenhum candidato vai ser eleito se estiver em descompasso com a maioria da sociedade. O Plínio foi um exemplo ótimo, de um cara que falava tudo o que tinha na cabeça, tudo o que ele pensa de verdade, de uma forma consistente, porque ele não tinha compromisso de se eleger. O que me espanta é o atraso da sociedade brasileira. E a ignorância aí é apoiada pelo Serra de misturar questões religiosas com questões políticas. Como é que as igrejas começam a pautar a lei agora? Uma coisa é eles decidirem o que é pecado e o que não é, outra coisa é eles decidirem o que é ilegal e o que não é.

CC: E isso acabou virando pauta de campanha presidencial, não é?
MRK:
Vira pauta e vira motivo de constrangimento. A campanha do PSDB tem responsabilidades sim, de acirrar esta intolerância religiosa neste momento da campanha. A Dilma respondeu duas vezes no debate da Band que neste País não tem intolerância religiosa. Fica esta irresponsabilidade feia do PSDB estar acirrando isso, mas ao mesmo tempo a sociedade mostra neste ponto como é atrasada. Aparecem comentários de que a Dilma é a favor do aborto como se ela tivesse o poder de decidir, se ela apoia o aborto, vai ter aborto. Como se isso não tivesse que passar pelo Congresso. Além de tudo joga muito com a ignorância do povo.

CC: E os candidatos chegam a “endireitar”, fazer campanha nas igrejas e citarem Deus à exaustão. Não acha que isso tem um papel deseducador, em particular para crianças e adolescentes?
MRK:
Isso é o pior. Por um lado, eu acho que o problema da corrupção não é da responsabilidade do PSDB, eles vão extrair o máximo de vantagens que puderem arrancar deste caso da Casa Civil. Por outro lado, é responsabilidade sim, do PSDB e da campanha Serra o tom fascistóide que estas coisas estão adquirindo. É horrível que os candidatos tenham que aparecer ajoelhados comungando, dizendo que são a favor da vida…claro que são a favor da vida, quem é que não é?Agora, é a Igreja que não é a favor da vida. Aí é uma opinião minha. A ONG Católicas pelo Direito de Decidir me convidou para debater e elas pensam assim: a criminalização do aborto é uma questão contra a liberdade sexual da mulher, ponto.Não pode usar camisinha, porque a Igreja também é contra. Então é uma questão de dizer: sexo só dentro do casamento e só para ter filho. É isso, que não está escrito assim, mas é o que está dito. Se não pode usar preservativo, não pode evitar filho, não pode nem evitar infecções, epidemias como o HIV que mata milhões na África, que “a favor da vida” é esse?

CC: O Dafolha divulgou uma pesquisa que diz que a posição contra o aborto na sociedade aumentou depois destas semanas de discussão na campanha, veja o efeito nocivo.
MRK:
Claro, porque o que circula é uma desinformação, “coitadinha da criancinha”, “eu poderia ter sido abortado” e “porque eu não fui abortado eu estou aqui”, não é neste grau. E a Marina tem responsabilidade nisso. Mesmo que a Dilma ganhe, a sociedade retrocedeu muito e isso é responsabilidade da campanha. É terrível

por Celso Marcondes

Carta Capital