
A obra demonstra uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo. Como pano de fundo, a valorização da cultura, expressa através da tecnologia e, principalmente, da arquitetura. O ponto alto e grande mote do filme é, sem dúvida, o final - onde a metáfora "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!" se concretiza no simbólico aperto de mão mediado por Freder entre Grot (líder dos trabalhadores) e Jon Fredersen - o empresário. Este final foi entendido à época como uma alusão ao ideal de conciliação entre capital e trabalho proposto pelo partido nacional-socialista alemão (nazista), o que atraiu para o diretor as atenções do então aspirante a chanceler Adolf Hitler. Metropolis impressionou tanto o "fuhrer" que, quando este chegou ao poder, solicitou ao ministro Goebbels que abordasse Lang, convidando-o a fazer filmes para o partido nazista. Enquanto Thea Von Harbou, sua esposa à época, mergulhou no projeto, Lang evadiu-se para Paris, onde chegou a produzir filmes de conteúdo antinazista, viajando posteriormente para os Estados Unidos, onde faleceu.

Por Adelvan Kenobi (with a little help from wikipedia)
* * *
Em Silêncio, mais de 12 mil pessoas assistem "Metropolis" no Ibirapuera

Quem estava sentado na grama, tomado pelas imagens de Fritz Lang (1890-1976) e pela orquestra regida ao vivo, não podia supor que tantos outros milhares de olhos e ouvidos estavam ali também. Não podia supor que, depois de mais de três horas de sessão, com um frio que o descampado tornava maior, pelo menos 12 mil pessoas sairiam caminhando pelas avenidas que torneiam o parqu. Eram 11 e meia da noite quando os espectadores se descobriram milhares e deram seu próprio fecho a "Metrópolis".
São Paulo, cidade que como a cidade de Lang fora enrijecida pela velocidade, pelas máquinas e pelos relógios vivia, de repente, o seu tempo da delicadeza.
VERSÃO INÉDITA - A versão de "Metrópolis" que São Paulo recebeu traz 25 minutos inéditos desse clássico do cinema mudo. Os rolos perdidos foram encontrados em Buenos Aires.
Depois de recuperada, a cópia foi exibida no Portão de Brandemburgo, durante o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. Esta é sua primeira exibição na América Latina.A projeção foi feita na parede de trás do Auditório Ibirapuera. Sob a tela, os 82 músicos da Orquestra Jazz Sinfônica executaram a música original do filme, composta pelo alemão Gottfried Huppertz, no tempo em que a técnica não permitia que os personagens falassem. E é absolutamente única a experiência de ouvir a trilha sonora moldar, ao vivo, cada uma das cenas de um filme. Trata-se, na definição do maestro João Maurício Galindo, de uma "partitura gestual", que leva as notas a acompanharem o ritmo da ação.
Quando os trabalhadores correm pela tela, são corridos os compassos. Quando o relógio marca a vida regrada dos homens, a percussão potencializa a força da imagem.
Há, também, registros emocionais. Quando, após uma série de turbulências, os dois protagonistas se reencontram, é romântica a melodia. "Nessa cena, a música talvez emocione até mais do que aquilo que se vê", disse Galindo, em entrevista à Folha, antes do concerto.
EXPERIÊNCIA COLETIVA - Passados mais de 80 anos de sua primeira exibição, na Alemanha, "Metrópolis" chegou a São Paulo, pela primeira vez, tal e qual imaginado por Lang -- completo e com a orquestração original.
Chegou sem uma ruga sequer. E a cidade, discretamente, prestou sua homenagem a esse filme de imagens inesquecíveis, definitivas.
Uns espectadores levaram mantas, uns levaram garrafas e taças de vinho, outros levaram seus cães. Mas todos, em silêncio, viveram o cinema como arte, como experiência que, só se for coletiva, é completa de verdade.
* * *
Em uma noite tipicamente paulistana - vento frio e com momentos de garoa -, milhares de pessoas se reuniram no Parque do Ibirapuera para assistir a um filme ao ar livre.
O que motivou a multidão a vencer as adversidades e ficar até o final do evento, depois das 11 da noite, foi a exibição do clássico "Metrópolis" (1927), longa futurista alemão dirigido por Fritz Lang. O evento faz parte da programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema.
O filme mudo foi restaurado recentemente e quase meia hora de cenas que eram consideradas perdidas foram recuperadas. Outro atrativo para o evento foi a Orquestra Jazz Sinfônica, que executou ao vivo a trilha enquanto o filme era projetado na parede do Auditório do Ibirapuera.
O longa foi apresentado pelos diretores da Mostra. Leon Cakoff e Renata Almeida subiram ao palco para os agradecimentos. "Somos o primeiro país da América Latina a ver essa cópia nessa noite mágica e fantástica", concluiu Leon.
Cinéfilos de todas espécies - As condições meteorológicas foram um motivo de hesitação para muitos dos presentes. "Espero que não chova", disse Mário Reys, que antigamente se considerava "um rato de Mostra". Para ele, "Metrópolis" foi o primeiro evento da agenda cinematográfica. "Ainda pretendo ver o vencedor de Cannes na quinta-feira, mas não tenho outros planos definidos", relatou.
A plateia era heterogênia, com famílias, casais, grupos de amigos, jovens, idosos. Retrato da pluralidade que acompanha a Mostra. A pequena Victória Shahini, de 9 anos, teve de insistir para que sua mãe a levasse para a sessão. "Eu não queria vir por causa do frio, mas ela brigou", afirmou Denise Shahini. "Achei a ideia disso super legal", comentou Victória.

Outra figura que curtia a programação musical da noite era Billy, o cachorro de Ana Alves. "Espero que essa noite quebre a rotina para que eu comece a semana energizada", disse Ana. "Acho bom que esse evento é totalmente livre, até para o Billy". O cãozinho está acostumado a ouvir música em casa e se comportou muito bem no meio dos espectadores.
Frequentadores de outras atividades do parque receberam a novidade de braços abertos. "Costumo correr aqui no parque e confiro a programação para ver outros eventos", falou o vendedor Felipe Costa. "Hoje resolvi dar uma esticada aqui."
Reencontro de cinema - Muitas das pessoas no Ibirapuera não conheciam "Metrópolis", mas outros resolveram enfrentar a noite fria para rever o clássico alemão. O filme mostra alguns princípios que estavam estrapolados no Cinema Expressionista Alemão de obras como "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920).

Também no Ibirapuera para rever a fita estava Sonia Manholer, em um "evento bárbaro e bem especial", segundo ela. "Estou muito emocionada de estar em um evento com essa qualidade", relatou Sonia durante um dos intervalos da sessão.
Pessoas das mais diversas tribos e origens estavam reunidas, mas todas concordaram sobre a qualidade do acontecido. Finalizada a projeção, boa parte da plateia aplaudiu de pé o filme e a competente orquestra.
#
Nenhum comentário:
Postar um comentário