sábado, 28 de setembro de 2013

15 Dias ...

Generals gathered in their masseeeeeeeesssss

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Libelu: Trotskismo tropicalista

O nome é simpático. Lembra o apelido carinhoso de uma moça, a palavra amor em alemão, a corruptela de “libelo”, um poema concreto. Liberdade e Luta: Libelu. A corrente de inspiração trotskista seduziria centenas de jovens em meados da década de 1970, quando o movimento estudantil começava a renascer no Brasil, ainda durante a ditadura militar. Eu não alcancei a Libelu. Na minha época de estudante, mais de uma década depois, só havia duas opções: ser do PCdoB (Viração, a quem chamávamos, na Bahia, de “cururus”) ou anarquista. Gostei mais dos anarquistas, eram mais divertidos e não proibiam a maconha.

Curioso é que, se não conheci nenhum na faculdade, hoje em dia, para qualquer lado para onde olho, vejo um ex-Libelu –à esquerda, mas também à direita. Talvez você não saiba, mas pode haver um Libelu a seu lado neste momento, no jornalismo, nas trincheiras partidárias ou em uma atividade sem nenhuma relação com a política. O ex-ministro Luiz Gushiken, morto no dia 14 de setembro, foi da Libelu, assim como o também ex-ministro Antonio Palocci e Clara Ant, assessora de Lula. Markus Sokol, candidato à presidência na atual sucessão à direção nacional do PT, é outro ex-Libelu.

Na Folha de S.Paulo, onde trabalhei muitos anos, eu nem sabia, mas estava cercada por ex-militantes do braço estudantil da OSI (Organização Socialista Internacionalista), que tinha como um de seus dirigentes Luis Favre. Caio Túlio Costa, que foi secretário de redação e ombudsman do jornal, Matinas Suzuki, Laura Capriglione, Mario Sérgio Conti e o crítico de gastronomia Josimar Melo, entre outros, foram da Libelu. À frente da Folha em sua renovação, no início da década de 1980, Otavio Frias Filho empregou muitos militantes de esquerda no jornal, que tinha, talvez até por isso, um perfil muito menos conservador do que hoje. Além dos ex-Libelu, havia também, ocupando postos importantes na redação, ex-militantes do MR-8 e da Refazendo. Nesta época, a Folha, que apoiara o golpe militar, fez campanha pelas Diretas Já.

Por que havia tantos jornalistas na Libelu? Ao que tudo indica, porque a ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP estava tomada por eles. Caio Túlio, que deixou a militância ao sair da faculdade, em 1979, foi o responsável por levar muitos companheiros de tendência para a Folha. “O Otavio não era simpatizante da Libelu, mas gostava da ‘disciplina’ dos trotskistas. Ele era simpatizante da Vento Novo, uma corrente (de centro) que havia na São Francisco”, conta Caio Túlio. “Fui o primeiro Libelu contratado para começar a renovação do jornal, em 1981. E fui trazendo os melhores jornalistas que conhecia, o Matinas, o Conti (que estava confinado na Câmara dos Vereadores como setorista e eu trouxe para a Ilustrada e o Folhetim), o Rodrigo Naves, a Renata Rangel, o Zé Américo, a Cleusa Turra, o Bernardo Ajzenberg, o Ricardo Melo. Muita gente, não me lembro de todos… Cada um foi trazendo outros. Eram bons, muito bons.”

Em março de 1982, Cleusa Turra, hoje diretora do núcleo de revistas da Folha, chegou a dar entrevista para as páginas amarelas da Veja como militante do PT e da Libelu eleita presidente do DCE da USP. “Não conheço nenhum militante do Liberdade e Luta que tenha aderido ao PDS. Não existe nenhuma lei segundo a qual os jovens devam ser contestadores e os velhos, acomodados”, afirmava Cleusa, aos 23 anos, apelidada “Pituca” no movimento estudantil. “Se tivesse que escolher entre ter uma cabeça como a do governador Paulo Maluf e não ter cabeça nenhuma, preferiria morrer sem juízo, lutando pelos meus direitos.”

Paulo Moreira Leite, que foi redator-chefe da Veja, dirigiu a Época e hoje está na revista IstoÉ, também foi Libelu e se mantém progressista. Mas, ao contrário do que previa Cleusa, uma parte dos ex-Libelu acabaria descambando para a direita mais feroz, como o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo (que também trabalhou na Folha na fase Libelu) e o sociólogo e colunista do Estadão Demétrio Magnoli. Com o nascimento do PT, em 1979, muitos dos seus quadros migraram para o partido, embora, num primeiro momento, tenham acusado o metalúrgico Lula de ser “pelego”. Alguns foram integrar a corrente O Trabalho com Sokol, e outros, como Palocci e Clara, ficaram no entorno de Lula na Articulação. Outros ainda, como os jornalistas citados, simplesmente deixaram a militância de esquerda.

A Libelu foi, de certa forma, uma corrente à frente de seu tempo. Primeiro por retomar o slogan “Abaixo a Ditadura” antes de todo mundo; depois, por criticar o autoritarismo e as barbaridades dos regimes comunistas muitos anos antes da queda do muro de Berlim ou da Perestroika. Trotskista, a OSI, a quem a Libelu era vinculada, já nasceu fazendo a crítica ao stalinismo. Apoiava os esforços de democratização do socialismo no Leste europeu, denunciou a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia e, mais tarde, fez campanha de apoio ao sindicato Solidariedade na Polônia. Sua visão era de que, sem uma revolução política na União Soviética, haveria uma regressão econômica, através da restauração do capitalismo. E não deu outra.

Apesar de trotskistas, os militantes da tendência não toleravam o culto à personalidade em figuras como o líder chinês Mao Tsé-Tung. “Os Libelu eram muito severos em relação a Mao, ao Livro Vermelho, à revolução cultural, ao culto à personalidade, ao autoritarismo, aos assassinatos etcétera e tal”, conta Caio Túlio Costa. “Mas teve um caso engraçado. Na tentativa de criticar o culto à personalidade, fizemos uma edição do (jornal) Avesso cuja capa era o Mao, num dos retratos do realismo socialista da época, grandão, o povo em reverência, abaixo, e inserimos uns versos de Neruda para distanciar o leitor: ‘Só o espanto era invisível, foi a proliferação daquele impassível retrato que incubou o desmedido’. Evidentemente que ninguém entendeu o espírito crítico atrás da foto e do poema, e a edição esgotou. Contrariamente a todos os nossos intentos, os maoístas fizeram da capa pôster de parede…”

O hino da Libelu era uma versão da canção entoada no filme O Incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli, com uma sacada divertida: “Branca, Branca, Branca, Leon, Leon, Leon”. Em homenagem a, claro, Trotski. É difundidíssima a versão de que as festinhas da Libelu eram as mais animadas do movimento estudantil e com as garotas mais bonitas, e que havia uma certa liberação no que tange à maconha, ao contrário das demais tendências de esquerda do período. “A Libelu era um curioso e original amálgama político-comportamental, em que o trotskismo convivia com o rock, com o fuminho e com as meninas do pós-queima-dos-sutiãs”, escreveu Matinas Suzuki na Folha de S.Paulo em 1997.

Mas essa concepção festiva não encontra unanimidade entre outros ex-Libelu. “Isso é lenda. As festas da Refazendo eram tão boas quanto às da Libelu. Todos eram muito liberais quanto aos costumes. Não havia Aids. As pessoas estavam sempre muito juntas, fazendo política quase que 24 horas por dia! Eram poucos os que saíam para ‘a noite’. As festas eram nas casas ou repúblicas das mesmas pessoas”, conta Caio Túlio. “Droga era considerada ‘oficialmente’ alienante, mas muitos, muitos, a usavam. Não acredito que a Libelu fosse mais ou menos tolerante do que as outras correntes, onde sempre havia alguém que usava droga, em geral a maconha. Entre a liderança, no entanto, na Libelu, eram pouquíssimos os que usavam drogas.”

“Eu sempre brinco e digo que isto é ‘calúnia’ dos adversários. Fazíamos grandes festas públicas, sempre para arrecadar fundos para o grupo. Havia festas mais fechadas, mas longe do que o mito criou. Sobre os costumes, sim, éramos o grupo mais avançado. Havia respeito e luta pela igualdade de gênero, todos nos considerávamos feministas, defensores da livre orientação sexual”, diz Adeli Sell, ex-vereador do PT-RS e ex-Libelu. “A gente não tinha uma visão moralista do uso das drogas, a restrição era por conta da repressão, porque usando drogas era mais fácil ‘cair’. Até sem usar, muitas vezes a polícia enxertava drogas para uma prisão. Mas muita gente continuava ‘dando uns pegas’ em baseado. Nunca vi nem ouvi falar de outras drogas na época.”

“As festas eram boas, em primeiro lugar, porque os militantes eram jovens. Hormônios em altíssima voltagem, num ambiente de nenhum moralismo. Adversária do dirigismo cultural e de qualquer coisa que pudesse lembrar o chamado realismo socialista, a OSI/Libelu não estimulava o preconceito contra o rock, o que era muito frequente naquela época. O pessoal gostava de MPB e ouvia muita Rita Lee, Mutantes e mesmo sucessos estrangeiros. Havia espaço para Cartola e Paulinho da Viola, também. Certa vez, Baby Consuelo, em fase pré-pentecostal, naturalmente, foi a estrela de um dos shows promovidos pela Libelu. Mas ela não era simpatizante. Cobrou cachê”, conta um ex-militante que prefere se manter na clandestinidade até hoje. Segundo ele, a maconha não era nada tolerada e teve até dirigente expulso por ser flagrado puxando fumo. “Nunca se aceitou a noção da contracultura de que as drogas poderiam auxiliar na formação da consciência das pessoas. A visão era de que a consciência se forma por uma compreensão racional da política e da história. As drogas também eram consideradas portas de contato com a polícia e criminalidade, o que deveria ser evitado a qualquer custo.”

“As festas eram ótimas, sim. Nunca pensei que alegria e compromisso social fossem incompatíveis. Mas em outras organizações eram abominadas e seus militantes tinham vida de monastério”, lembra Luis Favre. “Diziam que as mulheres eram mais bonitas, mas o que em realidade acontecia é que elas tinham destaque na disputa política estudantil. Ao mesmo tempo, a juventude vivia sob o impacto do maio de 68 na França, da primavera de Praga, e a Libelu era das poucas que se identificava com ambos os processos, pois condenava não só o capitalismo, como aquele sinistro sistema pretensamente ‘socialista’.” Sobre as drogas, diz Favre, “a condenação era muito estrita na corrente trotskista. Não se brincava com isso, ainda mais no período militar”.

O jornalista Alex Antunes, também ex-Folha e ex-Libelu, é peremptório: “As festas eram as melhores mesmo. Por uma questão simples: o povo das outras tendências, particularmente os cururus (PC do B), acreditavam numas teses culturais como a do nacional e popular, esse tipo de bobagem de viés realista-socialista. Só nas festas da Libelu tocava Stones e outras bandas de rock, esse é um fato; e as pessoas não implicavam nada com Caetano e Gil, como acontecia naquela época de enfrentamentos como o da ‘tanga do Gabeira’. E nós da ECA ainda metemos o punk e pós-punk na parada. Não tinha essa abertura estética em nenhuma outra tendência. Quanto às garotas, ou melhor, à liberalidade de costumes, era na base da Libelu, particularmente em escolas como a ECA e a FAU, onde as coisas aconteciam. Foi o primeiro lugar onde eu vi homem cumprimentar homem com selinho. E as garotas eram lindas mesmo, muito auto-suficientes e estilosas hippinhas“.

Pergunto aos ex-militantes algo que me deixa particularmente curiosa: como é que alguns membros da vanguardista Libelu foram parar na direita mais reacionária?

Paulo Moreira Leite:

– Acho que em anos recentes os grupos conservadores recrutaram militantes em todas as correntes da esquerda brasileira. Possivelmente por causa de seus laços com a ditadura, nossos conservadores nunca tiveram meios de formar seus próprios quadros civis para atuar numa democracia. O PPS, que era o antigo Partido Comunista, foi em bloco para a direita e hoje se dedica a combater o PT. É sua razão de ser. Muitos quadros do PSDB que fizeram a privatização de estatais no governo de Fernando Henrique Cardoso vieram da Ação Popular e do PCB. Você encontra antigos militantes da ALN de Marighella entre pessoas que são anti-petistas 24 horas por dia. Os principais dirigentes da OSI ajudaram a fundar o PT e quem continuou em sua atividade política na vida adulta continua neste partido. A organização teve uma divisão importante na década de 1980, quando eu já não era mais militante, mas todos ingressaram no PT. Antes, outros fundaram o PCO. Mas é certo que alguns quadros, que foram militantes na juventude, seguiram outra perspectiva na vida e se tornaram intelectuais orgânicos de grupos conservadores. Não vejo nada de muito especial nisso. Não foi a regra. Alguns casos você pode explicar pelos confortos que o conservadorismo pode proporcionar. Ele dá prestígio, promove as pessoas. Mas não só. O país se democratizou, o PT se consolidou. Ocorreram mudanças muito importantes no mundo, a começar pela queda do Muro de Berlim e tudo o que ela representou. Apareceram questões e desafios diferentes para todo mundo.

Adeli Sell:

– Bem, aqui em Porto Alegre tem um aguerrido militante que foi para posições bem à direita, como sei do caso do comentarista da Band. Mas de resto não sei se foram para a direita. Deve ter mais alguns, mas a maioria dos que conheço está no PT. Alguns foram para o PSOL, o que lastimo profundamente, pois foram estes quatro ou cinco militantes que foram fundamentais para a minha entrada na Libelu e minha formação política. Pelo que vejo aqui e dos que encontro espalhados pelo país, a maioria continua com posições avançadas, de esquerda, militando ativamente.

Luis Favre:

– Em todas as organizações juvenis encontramos casos de indivíduos que evoluíram para o extremo oposto de suas primeiras convicções. Mas, pelo contrário, o mais notável no caso da Libelu é que uma grande parte de seus quadros participaram e participam ainda hoje da CUT e do PT. E muitos dos que se afastaram da atividade militante ou política continuam do mesmo lado, em termos gerais, dos ideais que abraçaram na juventude. Encontrei muitos deles acompanhando e despedindo-se do nosso querido Luiz Gushiken.

Caio Túlio Costa:

– Não foram só integrantes da Libelu que mudaram de posição radicalmente na vida. Alguns ex-Libelu chamam a atenção porque eram todos jovens trotskistas, de extrema-esquerda, e se transformaram em pessoas bastante conservadoras. Acho que esses fenômenos fazem parte do movimento normal da vida; não me assusto com isso, não. A rigor, na realidade, veja bem, eles não mudaram, continuam extremistas…

Uma vez Libelu sempre Libelu? Há algo da corrente que permanece nos ex-militantes até hoje?

Caio:

– Em alguns, certamente. A formação política rigorosa (muita leitura, grupos de estudo, reuniões intermináveis, assembleias estudantis, luta política, alinhamento internacional, ceticismo em relação às instituições “burguesas”) deixa marcas profundas. Gushiken, por exemplo, ou alguns dos líderes de então, como o Markus Sokol ou o Julio Turra. Estes serão sempre Libelus autênticos.

Adeli:

– Tem uma liga, uma solidariedade, um profundo companheirismo, carinho, muitas e muitas identificações. Tanto é assim que pretendemos ainda neste ano fazer a grande festa da Libelu. Com a morte do Gushiken, todos impactados com a grande perda, achamos que devemos nos encontrar e festejar o que fizemos.

Luis:

– Uma parte importante da Libelu conseguiu superar suas limitações, sua estreiteza ideológica, seu sectarismo e intelectualismo, em parte desconectado da realidade, para, junto a outros militantes, de outras origens, com outra história, construir uma central sindical e um dos maiores partidos de esquerda do mundo. Ter contribuído um pouquinho no que essa central sindical e esse partido aportou ao progresso social do Brasil, já é fonte de satisfação para os que participamos dessa “nossa” história. Mudamos muito, sem mudar de lado.

Paulo:

– A militância politica é uma experiência única na existência, faz parte de sua memória para sempre. Acontece com a OSI ou outras organizaçãos. Ninguém passa impunemente por isso. Você entra em contato com forças absolutas, tem a nítida sensação, correta ou não, de que está mexendo na roda da história. Dedica as melhores horas de seu dia e possivelmente alguns dos melhores anos de sua vida para construir uma sociedade diferente. Os livros que você lê, os filmes que assiste e até seu trabalho como cidadão comum têm outro sentido. Hoje você pode até achar que estava sonhando, mas aquele momento foi maravilhoso. Os projetos podem ter dado errado, a vida pode ter tomado outro rumo e muitos amigos de antes até se mostraram uma decepção, mas você aprendeu ali algumas verdades que vão te acompanhar pelo resto da vida.

Este post é uma homenagem do Blog Socialista Morena a Luiz Gushiken (1950-2013), ex-Libelu, homem de esquerda honrado e bacana a quem a imprensa brasileira deve um pedido de desculpas por tê-lo acusado durante anos injustamente. RIP Gushi.

por Cynara Menezes

Socialista Morena

Para a Liberdade e Luta

Me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão 

Paulo Leminsky


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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

RiR no Sofá da Má – ultima noite

Não é nada mal essa brincadeira de assistir os shows de grandes festivais no sofá de casa. Já tem um tempo que me convenci de que não tenho mais saco nem disposição para essas super maratonas: horas na fila, empurra-empurra, banheiros a 300 km de distancia, sol e chuva e, no fim, você ainda assiste o show em um telão. Em casa é no meu sofá e no meu banheiro, na hora certa, sem sol nem chuva, com lanchinho e sofá e amigos. Depois do show do Paul McCartney decidi que só iria para outra maratona daquelas se fosse por algum artista do mesmo “naipe”, do mesmo grau de importância pra mim. Por isso, assistir a esse Rock in Rio no sofá de casa está mais do que excelente, na minha avaliação. Talvez tirando o Iron Maiden, não trocaria o sofá e a companhia do meu ídolo-amigo e jedi favorito AdelvanKenobi por nada. Combinamos de ver juntos os dois dias em que o line-up realmente contemplou o rock, na quinta e no domingo. Só nesse último tivemos a ideia de botar no papel algumas das besteiras (ou não) que a gente soltava enquanto assistia os shows. É uma tentativa de compartilhar a diversão com mais gente.

Sepultura e Zé Ramalho

Primeira coisa que eu estranhei: porque o Sepultura tocou duas vezes, hein? Alguém explicou isso aí? Não que eu esteja reclamando, mas foi estranho e meio sem proposito, não foi não? NO show de quinta eles dividiram o palco com uns batuqueiros franceses. Negócio super esquisito por sinal: metal em francês vamos combinar que já não combina, e europeu batendo lata a la olodum e dizendo que é metal... bom, sem comentários. Curti não. Já o show de domingo me pareceu mais “o show do Sepultura mesmo”. Aí, pra não ficar na cara o jabazão, a galera chamou o Zé Ramalho pra fazer a segunda metade do show. Infelizmente, foi justamente a parte que eu não vi por conta dos afazeres domésticos (ok, tem essa desvantagem de assistir em casa). Mas a primeira metade do show eu achei sensacional. Um desfile de classicões do Sepultura, banda afiadaça, som bom, não me lembro de nada pra falar mal do show em si. Alguns comentários que fizemos, eu e Adelvan, sobre o Sepultura hoje em dia, que também não devem ser novidade pra quem acompanha a carreira da banda: 1) o Derrick não é um vocalista virtuoso, é estranho ele estar há tanto tempo na banda; 2) sem comentários a falta que o Igor faz na batera. Esse garoto novo é bom, mas não chega aos pés; 3) o Paulo nunca foi nada além de um baixista medíocre; 4) CONCLUSÃO RÁPIDA E SEM NENHUM APROFUNDAMENTO: o Sepultura hoje tá na mão do Andreas Kisser. Ok, tem um pouco de exagero aí, mas é um desfalque imenso mesmo. E é uma pena porque sempre foi uma banda fodona. Só orgulho de cá.

SLAYER!!!

Maíra estava ocupada e viu de relance, mas eu (Adelvan) não poderia perder uma de minhas bandas favoritas do metal extremo tocando no maior festival do Brasil – e um dos maiores do mundo. Bastante desfalcados, é verdade, mas é o Slayer, porra! É Reign in Blood! É Tom Araya e é Kerry King. E é Gary Holt, do Exodus. E Paul Bostaph ...

Com todo respeito a Jeff Hanneman, o grande desfalque é, realmente, o de Dave Lombardo. Trata-se, afinal, do maior baterista de Heavy Metal de todos os tempos – considerando-se que o Led Zeppelin não era Heavy Metal, evidentemente. NUNCA, JAMAIS, ninguém vai conseguir substituí-lo. Porque ninguém consegue fazer as viradas que ele faz com a elegância e a velocidade que lhe é característica. Dito isso, sigamos em frente ...

O show foi bom, mas não foi 100%. Som bom, execução precisa, barulho do inferno, Araya sempre simpático e sorridente, uma bonita homenagem ao guitarrista falecida e é isso. Tá dado o recado. Na moral, quem ficou ali depois do Slayer pra ver Avenged Sevenfold merece no mínimo uma surra de cipó de aroeira ...

Nota 8.

DVD Gangrena Gasosa Ao Vivo no inferno

Daí que o Adelvan trouxe o DVD do Gangrena pra gente assistir o show ao vivo porque ele já sabia que o Avenged Sevenfold era uma merda. Mas eu, feito uma idiota, por alguns minutos ousei duvidar da opinião do mestre. Bastou, entretanto, rolar um VT de apresentação dos caras, antes mesmo do show começar, pra eu entender que se tratava de uma espécie de Charlie Brown Jr do Metal, ou um “emo-metal”, e entender que JAMAIS se duvida da opinão de um Jedi do rock.

Fomos para o inferno assistir Gangrena. Nada mais apropriado para a noite. Aliás, taí uma banda que colocaria no chinelo uma meia dúzia de farofeiro que passou por esse Rock in Rio.

Conheci o Gangrena Gasosa recentemente, justo com esse mesmo DVD – que é duplo e o primeiro volume é um documentário (impagável) que conta a história da banda. Virei fã imediatamente. Espero poder vê-los ao vivo algum dia.

Eles costumam ser definidos como Saravá Metal, estilo, aliás,que ninguém nunca ousou imitar. A estética musical é basicamente trash (NOTA: sem o H mesmo) metal, mas a banda persegue um conceito, no visual e nas letras, que tira sarro com a umbanda e o candomblé. Tem que ter coragem mesmo. Os caras se vestem das diversas facetas do capeta, do modo como são vistos por ambas as religiões. A ideia é “pagar de satanista”, só que tirando uma onda pesada.

Durante muito tempo a ligação com essas religiões foi só no visual e nas letras. Mais recentemente, eles chamaram percussionistas – atualmente uma percussionistA, fêmea – e gata. Comprometida, com Ângelo/Zé Pilintra, o vocalista - pra fazer parte da banda incorporando o “batuque do terreiro” na sonoridade também.

Agressivo, competente, hilário, inteligente e devidamente DO MAL, como todo metal deve ser. Altamente recomendado. Foi uma ótima pedida pra esperar... O SHOW.

Iron Maiden

Tudo isso era pra chegar aqui. A gente queria mesmo era ver e ouvir o Iron. Qualquer roqueiro que se preze teve sua fase metal e, muito provavelmente, ela começou pelo Iron Maiden. E quando passou deixou marcado pelo menos uma meia dúzia de riffs inesquecíveis que passam de geração a geração e são esperadas ansiosamente a cada show. Era o que a gente estava esperando também. E não nos decepcionamos.

Particularmente, eu, Maíra, achava que já não ia lembrar de muita coisa. Junto com o Rush e o Metallica, o Iron Maiden foi uma das primeiras bandas de rock que eu ouvi na vida, só que eu gastei menos tempo com eles.

Conversamos um pouco sobre isso, inclusive, aqui no sofá da Má. Não era tão simples escutar um disco naquela época. No meu caso, por exemplo: primeiro eu era tão nova, tipo 10 ou 11 anos, que sequer tinha autonomia de gosto, ou de grana, pra dizer que queria comprar um disco. Acho que nem mesada eu recebia ainda. Fora isso, o único toca discos da casa ficava na sala. Não era tão simples pegar e colocar um disco de metal no meio da sala da família pra tocar. Aí um dia eu pedi o fone de ouvido do meu pai emprestado. Era um fone grandão, caro, e o cabo era curto. Ou seja, eu tinha que sentar no chão, no meio da sala, atrapalhando o caminho até o telefone, por exemplo, pra ouvir um disco. E além disso o meu pai não curtia estar me emprestando o fone dele. Enfim, a molecada de hoje tem bem mais sorte. Ainda assim a gente furou a bolha. Porque quando tem que ser a gente vai lá e é.

Mas eu tava dizendo que achava que não ia lembrar das musicas. Rá. Riff bom é riff que gruda. A cada começo de musica era mais emoção. Do meio pro fim do show, gritinhos e sorrisos. Não tinha como ser menos emocionante.

O foco no “Seventh son of a seventhson” nos fez sentir privilegiados: é um discaço mesmo e tem uma das musicas que nós dois consideramos uma das que nós mais gostamos: “The evi lthat men do”. A execução da faixa título também foi de arrepiar. Para além de análises de técnica ou estética, a gente aqui só conseguia mesmo dizer algumas poucas palavras, não das mais refinadas, mas tudo no bom sentido: “porra, caralho, putaquepariu, vai tomar no cu e etc e tal...

Alguns comentários foram inevitáveis: que vitalidade invejável do Bruce Dickinson, hein? O cara pilota o avião, tá com a voz (e o “corpitcho”) super em forma, corre e pula pra todo lado o show inteiro, pratica esgrima e ainda toma cerveja e caipinha! Porra, vai se lascar! (Pode ser lá em casa, ok? *diz a Má) E o Steve Harris, é tipo o Dracula, né? Não muda a cara nem o cabelo nunca. Segundo Adelvan, no dia que ele cortar o cabelo acabou o metal.

Já o Janick Gers tá fazendo o quê no Iron Maiden ainda, hein minha gente?? Entrou pra substituir o Adrian Smith. Daí o cara volta, toca muito mais que ele, por sinal, e ele agora fica saltitando feito uma gazela no palco! Quequéisso!! Cadê o respeito?

Eu (Adelvan) não me iniciei no rock exatamente com o Iron Maiden, muito embora costume dizer que comecei a aprender o que era realmente esse tal de rock and roll com o primeiro Rock in rio, de 1985. Sacumé, né, ta na Globo, ta na boca do povo. Ainda hoje é assim – impressionante a quantidade de gente que vem me perguntar, no trabalho ou nas reuniões familiares, porque eu não estava lá. Quando estou de bom humor respondo que vou estar no Black Sabbath, mas aí é uma confusão, porque você tem que explicar o que é o Black Sabbath e porque eles, sozinhos, são mais importantes e valem um ingresso mais caro que todo o rock in rio junto.

Então: comecei com o (nem sempre) bom e velho (dependendo do ponto de vista) rock brasileiro dos anos 80, que tocava no rádio. E eu ouvia rádio. Claro, todo mundo ouvia. Como sou cara de pau, não tenho vergonha de confessar que já fui, inclusive, fã do RPM. Todo mundo era, ora. Aí um dia, não sei muito bem como nem porque, eu descobri que não precisava ser como todo mundo. Acho que foi quando escutei o Camisa de Vênus cantando “Silvia”, uma das musicas mais escrotas já feitas, em todos os entidos, no rádio, que me dei conta disso. Decidi que iria comprar um disco deles, e eis que “Viva, Ao vivo”, se tornou a aquisição número um de minha coleção. “Vivendo e não aprendendo” do Ira! foi o número 2. E aí veio o Iron Maiden, com “Somewhere in time” – lançamento, na época. Quando aqueles primeiros acordes de guitarra sintetizada espocaram em minha caixa de som – no mesmo esquema da Má, som da família, tinha que esperar papai e mamãe irem pra missa no domingo à noite pra ouvir no volume adequado – minha vida mudou. Literalmente. Parei de ir à igreja, virei ateu. Parei de pegar no pé de minha irmã por besteira – ela adorou, mas não gostou quando, algum tempo depois, eu comprei o LP “Descanse em paz”, do Ratos de Porão, que tem a imagem de uma senhora morta na capa. Ela tinha pesadelos com aquilo e eu, quando queria irritá-la, saía correndo atrás dela com o disco na mão. Virei “roqueiro”. Em Itabaiana, nos anos 80. Parada dura.

Acompanhei o Iron até justamente o “Seventh  son of a seventh son”, o disco enfocado na atual turnê. Depois meu gosto musical se ampliou ao ponto de quase esquecê-los. Mas sempre os tive como uma memória boa de um tempo bom, de descobertas. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo pela primeira vez no Recife, há uns dois anos. Devia isso ao meu eu adolescente. Foi o show mais bem produzido e organizado que eu já fui em toda a minha vida, em todos os sentidos – até as placas de sinalização eram bonitas e perfeitamente posicionadas. Vi da área vip – “I sold my sou for rock and roll” – e chorei feito um bebê. Fui embora feliz, ao som de música que encerra “A Vida de Brian”, do Monty python – os caras são foda! Mas admito: tanto os show da turnê anterior, que dava uma geral na carreira da banda, quanto este, da “Maiden England Tour”, são melhores do que o que eu vi. Eles estavam lançando disco novo e por isso tentaram nos empurrar material mais recente, não apenas do “Final Frontier” como de coisas dos anos 2000, que eu absolutamente desconheço. Não foi ruim, claro. Mas o show que vi na madrugada do domingo para a segunda-feira no Rock In Rio foi perfeito.

Adorei a cenografia, a pirotecnia, o figurino, o set list, os Eddies – até mesmo aquele bonecão desengonçado de sempre – tudo! Bruce, que parece estar deixando novamente os cabelos crescerem, estava especialmente teatral e brincalhão, como quando fez um merchandise “ixpierto” da recém lançada cerveja “the Trooper” ou quando chacoalhou a base elevada onde estava no verso “balancing on the edge” de “The Evil that men do”. Sua perfomance – e a da banda – na épica e climática faixa título, “seventh son of a seventh son”, foi coisa de mestre. E têm o público na mão, como de praxe: a turba ensandecida de 85.000 “metaleiros” respondia a todos os seu comandos, o que deve ter causado uma inveja danada em algum político sem carisma que só consegue se eleger na base da propina que por ventura estivesse insone naquela madrugada ...

Enfim, tem que ser muito ranzinza pra não gostar do Iron Maiden. Ou não – mas as exceções eu nem comento, porque não entendo. Iron Maiden fez e, pelo jeito, sempre fará parte da minha vida. 

HALLOWED BE THY NAME!

Amém.

10. 

Maíra Ezquiel escreveu sobre o Sepultura, a Gangrena Gasosa e o Iron Maiden
Adelvan escreveu sobre o Slayer e o Iron Maiden.

UP THE IRONS
SLAYER!!!

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Rock. In Rio. No sofá.

Há uma tendência recente entre críticos de musica consagrados porém meio “cansados de guerra”, como os Andrés Forastieri e Barcinscky, de fazer resenhas de grandes festivais a partir do que vêem na TV, no conforto de seus lares. Para, segundo eles, evitar os transtornos que os megaeventos inevitavelmente proporcionam. Eu não tenho esse problema não. Ainda não consei de vez, e é sempre, sem exceção, infinitamente melhor ver ao vivo e em carne osso, de corpo presente.  Até poderia ter ido ao Rock in Rio, mas como dinheiro não é capim e eu já vi “cara a cara” boa parte das atrações que me são interessantes – Sepultura, Slayer  e Iron Maiden – resolvi guardar minhas energias e economias para o Black Sabbath, que toca pela primeira vez no Brasil com Ozzy Osbourne nos vocais mês que vem . Em todo caso, animei-me em ver a cobertura do Multishow desta quinta, praticamente o primeiro dia dedicado inteiramente ao rock do festival que começou sexta-feira passada com Ivete Sangalo, Beyoncê, Justin Timberlake e Cia. Ltda. Escalei-me no sofá de minha amiga Maíra e só saí de lá incríveis 8 horas depois. Abaixo, o que vi e ouvi ...

Sepultura começou pontualmente às 18:30, como marcado. Show energético e competente. Bom. Mas teria sido melhor se os caras não insistissem em focar nas chatíssimas músicas da fase Derick Green – que já está, inacreditavelmente, há mais tempo na banda do que o próprio Max, ex-vocalista e membro fundador. E convenhamos: ele é ruim demais! Muito ruim! Ruim que dói! Um vocalzinho gutural chimfrim genérico que qualquer um faria, totalmente sem personalidade, e uma presença de palco sempre meio atabalhoada. A impressão que tenho é que ele até hoje ele não sabe ao certo o que está fazendo ali. Mas os caras – Andreas e Paulo - são teimosos e agora, com o suporte de uma grande gravador do gênero, a Nuclear Blast, é que vão insistir mesmo. Só que não tem jeito: ao vivo ainda seguram uma onda, mas a banda está desfigurada demais! Restou apenas Paulo Xisto, o menos talentoso- embora gente finíssima, é a impressão que tenho - da formação original. Pra mim, Sepultura acabou assim que Max saíu. E olha que sou dos menos radicais, tem gente que acha que já era desde o “Beneath the remais” ...

É legal a participação do tal Tambours du Bronx, mas nada demais. Dá a impressão de que eles precisaram contratar aquele povo todo pra substituir Igor Cavalera. Aliás, foi a primeira apresentação que vi com o “novo” baterista, Eloy Casagrande, e não me impressionei muito não. Tem energia e técnica, o moleque, mas falta o “mojo”. É meio “durão”. Não sei, não curti.

Mas o grande ponto fraco do show, a meu ver, foi o set list, com pouquíssimos clássicos. Dentre eles aquela que talvez seja minha faixa preferida – não por acaso do melhor álbum – da banda, “Refuse/Resist”. Só que massacrada pelo vocal genérico e insosso de Derick. Lamentável. De boa surpresa mesmo, apenas duas do Tambours Du Bronx metidas no meio do set. Meio tribal/industrial, e com o vocal agressivo em francês, lembrou o Young Gods, seminal grupo suíço, um dos precursores do uso do sampler como instrumento musical.

Nota 6

Na sequencia, num palco menor, tivemos Rob Zombie pela primeira vez no Brasil em carreira solo. Bom show, com aquele visual meio exagerado de praxe e o mesmo tipo de som da antiga banda, o White Zombie: uma espécie de rock industrial com “groove”. Alguns clássicos, como “Dragula” e “More Human than Human”, e pelo menos uma música com um título sensacional: “Mars Needs Women”. Destaque para a presença de palco do maluco zumbi/mendigo e pro guitarrista prodígio John 5, que segue um pouco aquela linha masturbatória a la Steve Vai e Joe Satriani, mas que não sei porque eu gosto ...

Nota 6,9998 – a la Igor Matheus ...

E então veio a grande incógnita da noite: Ghost. Banda nova, quase ninguém conhece fora dos círculos fechados do mundo do Heavy Metal. E olha que eles nem são tão “metal” assim: seu som está mais para um “classic rock” meio setentista com clima de Missa Negra – inclusive nas letras, explicitamente satanistas. Mais pra Blue Oyster Cult ou Pentagram que pra Mercyful Fate – com o qual são insistentemente e, ao meu ver, erroneamente, comparados. Especialmente pelos vocais, que são muito diferentes. O conceito visual é impactante: trata-se de um vocalista, Papa Eméritus II, trajado a rigor em vestes litúrgicas porém com uma maquiagem de zumbi, e 5 comparsas com fantasias iguais e identidades anônimas – todos atendem por Nameless Ghouls.

O show começa morno e assim vai até o final, mas é isso mesmo: a banda conduz o espetáculo como se estivesse realmente num culto, mas daqueles mais solenes, contidos. Mais pra católico ou ortodoxo tradicional que pra “gospel” pentecostal.  Gosto das músicas, têm um bom senso melódico e refrões surpreendentemente “pop”. Também gostei dos guitarristas, que não são “firuleiros” e têm uma boa pegada, e do tecladista, que garante o clima sombrio. Mas detestei o baterista. Inacreditavelmente ruim. Chega a ser bizarro, de tão tosco. Limita-se a marcar o ritmo da forma mais primária possível, e olhe lá. Até eu faria melhor – mentira, sou péssimo! Não tenho a menor coordenação motora pra isso ...

Outra decepção foi o vocal. A impressão que tive foi que a máscara (pensei que fosse uma maquiagem) limita os movimentos labiais e interfere na perfomance do cara, já que em estúdio o resultado é bem mais interessante. Por outro lado, o som das guitarras ao vivo ganha peso e se torna mais encorpado, mais “Heavy Metal” mesmo. Foi um show irregular, muita gente detestou, mas no geral eu curti. Ainda mais pelo ousadia “blasfema” da caracterização.

Nota 7 pra eles.

Entre o Ghost e o Alice In Chains nada aconteceu, então tivemos que aturar as encheções de lingüiça dos apresentadores cretinos caçadores de celebridades do Multishow. A âncora, Titi, ex-MTV – tinha que ser – parece que é retardada, não é possível. Numa das entrevistas mais bizarras que já tive o desprazer de assistir, perguntou a dois dos Nameless Ghouls do Ghost se eles pegavam gropies assim mesmo, mascarados! Isso depois de chamá-los de Darth Vader e interpelá-los quanto ao satanismo, que eles confirmaram com a maior naturalidade. Haja “cunhão”, como dizemos por aqui...

Mas felizmente não demorou muito e os veteranos da cena grunge estavam no palco mandando ver num set list matador, de fazer chorar mais uma vez quem já chorou muito nos anos 1990 embalados pelo vocal angustiado do saudoso Layne Staley e suas letras depressivas com fixação pela morte. Nem há muito o que comentar, pois foi tudo quase perfeito:  o novo vocal segura bem a onda e Jerry Cantrell já não ostenta mais aquela bela cabeleira, mas ainda é o cérebro e o coração por trás da coisa toda. E ainda canta, e bem, em dueto com a voz principal.

Nota 9

Já a espera pelo Metallica, que se atrasou em mais de meia hora, foi um suplício. Primeiro tive que ouvir Jimmy do Matanza cometer o disparate de dizer que aquele show do Alice in Chains foi melhor do que a primeira vinda deles ao Brasil, no auge, início dos anos 90. Faz favor, né. E depois uma sequencia de entrevistas e matérias ridículas e sem sentido que culminaram num bate-papo bizarro entre Beto Lee e ele, o único que consegue rivalizar com Dinho Ouro Preto no quesito vergonha alheia do rock nacional: Tico Santa Cruz. Não vou nem comentar o que foi dito, farei o favor de poupá-los ...

Metallica demorou – não tanto quanto o Guns and Roses, felizmente – mas chegou chutando o pau da barraca com “Hit The Lights”, faixa que abre seu álbum de estréia – 30 anos recém-completos – “Kill em all”, emendada com a faixa-título de seu melhor disco, “Master of Puppets”. E aí foi jogo ganho até o final, tocando com uma energia e velocidade impressionantes até mesmo faixas mais lentas e/ou descaradamente pop, como “The Memory remains”, da controversa fase “Loaded”. Todos os discos foram contemplados – com exceção de “St. Anger” – inclusive o último, o mediano “Death Magnetic”, do qual extraíram a boa “The Day that never comes”. Pontos altos: a satisfação estampada na face de todos, especialmente de James Hetfield, normalmente mais carrancudo, e a monumental execução de “One”, “Blackned” e “And Justice for all”, fazendo justiça (sic) a este álbum injustamente (sic again) tachado de enfadonho e megalomaníaco. O ponto baixo foi a perfomance de Lars Ulrich, ainda pior que o usual.

Nota 9 vírgula alguma coisa.

Domingo que vem tem mais.

UP THE IRONS !!!

SLAYER !!!

A.

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

IRON MAN

Você sabia que Tony Iommi (AKA Deus), o cara que inventou o Heavy Metal com seus riffs de guitarra infernais, é filho de pai brasileiro? Pois é, eu também não. Mas está lá, na página 18 de “Iron Man – Minha jornada com o Black Sabbath”, a autobiografia escrita em parceria com T. J. Mammers recém lançada em terras tupiniquins: “Acho que minha avó era do Brasil. Meu pai nasceu no Brasil”.

Só que não é verdade! É um erro de tradução. O original diz “I think my nan was from Brazil. My father was born here" – “Here”, no caso, é a Inglaterra, onde o músico vive e onde, certamente, escreveu – ou ditou para que seu parceiro escrevesse – o livro. Tremenda bola fora da editora Planeta e de Tatiana Leão, a tradutora, que evidencia a falta de preparo dos envolvidos nas publicações relacionadas à música em nosso país. Uma pena ...

Em todo caso, me diverti com a leitura. Numa narrativa enxuta e sóbria desenvolvida em 90 capítulos curtos ao longo de 400 páginas, o músico reflete sobre tudo o que ele aparentemente lembra ter acontecido em sua vida, sem se furtar a mencionar passagens polêmicos e/ou constrangedoras. Vai de sua infância, passada entre sacos de mantimentos que seus pais armazenavam em casa para abastecer a loja da família, à morte de Ronnie James Dio, ocorrida logo após uma volta triunfal da formação que gravou o clássico “Mob Rules” sob o nome de Heaven and Hell – aqui, aliás, ele me tira uma dúvida: a mudança de nome não se deveu a problemas contratuais, mas à necessidade de diferenciar as duas bandas, já que eles também tocavam eventualmente, na época, como Black Sabbath, só que com Ozzy nos vocais. Como a edição original foi lançada em 2011, não fala da recente gravação do disco com a formação “quase” original - muito embora mencione os planos para que isso aconteça. – nem sobre o câncer que o acometeu, a não ser por uma breve frase que encerra o penúltimo capítulo, no qual discorre sobre alguns de seus problemas de saúde: “Desde que fiz o tratamento com células tronco (para tratar dores nas articulações), não senti necessidade de tomar mais nenhum analgésico nem outros remédios. Tem sido fantástico. Até algo mais surgir ...

É especialmente divertido comparar a forma com que Tony e Ozzy (que também escreveu recentemente uma autobiografia, já resenhada aqui neste blog) narram as mesmas passagens de suas vidas, como a vez em que foram recepcionados por um culto sinistro no corredor do hotel onde estavam hospedados e apagaram as velas que eles acenderam cantando “parabéns pra você”. Os caras ficaram fulos de raiva e, evidentemente, decepcionados. Ou quando Bill chamou acidentalmente a polícia ao confundir um botão de emergência com o interruptor do ar condicionado, o que promoveu o caos na casa em que estavam hospedados, cheia de todo tipo de substâncias ilegais que se possa imaginar. Ambos têm um senso de humor afiado, mas diferente: o de Tony é mais refinado que o de Ozzy, totalmente demente e “escrachado”.

Para os fãs – e o livro é recomendado apenas a eles, já que a narrativa é bastante enxuta, totalmente desprovida de floreios literários – há o deleite de conhecer a visão do homem (há controvérsias. Eu, particularmente, considero-o uma entidade acima de nós, meros mortais) sobre os bastidores das turnês e das gravações dos discos. Interessante notar como ele consegue descrever os amigos com quem trabalhou de forma honesta, apontando inclusive seus defeitos, mas sem perder a elegância e procurando não ser injusto. Quase sempre acentua os pontos positivos das relações, como quando fala dos problemas de Glenn Hughes com as drogas, mas ressaltando sempre que ele era um ótimo cantor, ou quando relata sua relutância ao pedir a Dio para que não falasse mais sobre arco-íris e dragões nas letras do Black Sabbath. “Mas porque? Gosto tanto deles”, respondeu o baixinho, depois finalmente convencido de que o tema estava um tanto quanto repetitivo. Só desce o cacete mesmo, sem dó nem piedade, em quem de direito: nos empresários que os roubaram e em Ernie C., guitarrista do Body Count, que produziu “Forbidden”, décimo oitavo e último disco de estúdio da banda antes do atual “13”. A passagem, por sinal, evidencia o erro que normalmente se faz ao colar em Tony a pecha de autoritário: fica claro durante todo o livro que ele tomava a frente das produções apenas para que as coisas não saíssem do controle, já que o cara estava o tempo todo cercado de lunáticos – e isso inclui ele mesmo, ele admite. A única diferença é que ele conseguia focar no trabalho quando necessário. Na produção de “Forbidden” ele resolve dar uma chance à gravadora para provar que eles estavam errados ao achar que o som do Sabbath estava ultrapassado e necessitava de uma renovação. O resultado foi o pior disco da carreira da banda, na opinião de boa parte dos fãs – e do próprio Tony.

Aproveito o ensejo de estar mencionando a opinião do autor sobre terceiros para encerrar com a transcrição do trecho em que ele descreve Lemmy e os caras do Motorhead. Antológico:

“O Motorhead abriu para nós nos Estados Unidos. O vocalista, Lemmy, é uma grande figura.

É lógico que não havia comida no ônibus deles, só bebidas. Você passava pelo camarim deles e não tinha nada para comer, mas tinha muito vinho, cerveja e Jack Daniel´s. Eles são a epítome do rock´n´roll. Nunca saem dessa. Nunca vou esquecer de quando vi o guitarrista, Phil Campbell, ao lado do palco uma vez. Ele vomitou e, no minuto seguinte, estava no palco tocando. Caramba, como é que eles fazem isso? Como eles agüentam? O corpo dele deve ser indestrutível.

Lemmy provavelmente vai morrer no palco. Certamente não o vejo em uma casa de repouso quando mais velho. Ele costumava entrar no ônibus de turnê e sair no dia seguinte com a mesma roupa, no palco também, e assim ia... Motorhead, eles simplesmente vivem como ciganos.

Uma história engraçada que ouvi a respeito de Lemmy. Ele estava tocando e perguntou ao homem do monitor:

- Você consegue ouvir esse som horrível que está saindo dos meus monitores?

- Não – respondeu o cara.

- Nem eu, aumente!

A.

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Mal inerente ...

(ATENÇÃO: SPOILER!) Ainda estou chocado com o que vi no último episódio da sensacional série de televisão "Breaking Bad" que foi ao ar domingo passado nos Estados Unidos - e que está disponível para todo o mundo, via internet. Ao que tudo indica, depois de ter sido incapaz de salvar a vida de seu cunhado Hank, vítima involuntária das pra lá de moralmente questionáveis escolhas que fez ao longo dos últimos anos, Walter White perde, finalmente, os últimos vestígios de humanidade que ainda tinha. O que ele faz com Jesse, na sequencia, é de uma crueldade impressionante até mesmo para uma série que tem se esmerado em mostrar o que de pior uma pessoa pode oferecer de si mesma quando dominada pela ganância fomentadora da falta de escrúpulos.

"Breaking Bad" começou em janeiro de 2008 e conta a história de um professor de química que se descobre com câncer. Desesperado, ele resolve usar seus talentos para conseguir dinheiro para seu tratamento e para deixar sua família numa situação confortável através da produção de um novo tipo de metanfetamina que logo dominará o mercado devido ao seu alto teor de pureza. A história se passa em Albuquerque, Novo México, uma região desolada e desértica próxima à fronteira com o país vizinho. Magnificamente filmada, fotografada e interpretada, com um enredo maduro, roteiro perfeito e diálogos absurdamente acima da média, é superior a praticamente tudo o que foi produzido nos últimos anos para as telas do cinema, normalmente considerado uma arte superior às produções televisivas.

Não é mais. Com séries como "Game of Thrones", "A Sete Palmos", "Família Soprano" e "Breaking Bad", a televisão a cabo se consolida como a melhor opção para quem quer, hoje em dia, algo que vá além do frenesi vertiginoso feito sob medida para vender pipoca e souvenirs do qual Hollywood parece ter se tornado refém.

Se você nunca viu, comece a ver. AGORA! E pare, se for capaz ...

A

"A Pelada" é surpreendentemente divertido ...

Bairrismos e provincianismos a parte, o que me levou a comparecer à abertura do “Curta-Se – Festival Iberoamericano de cinema de Sergipe” ontem à noite no Teatro Tobias Barreto foi, principalmente, a curiosidade de assitir, finalmente, “A Pelada”, primeiro longa metragem de cinema inteiramente rodado em Aracaju. Para nós, nativos do menor estado da federação, é sempre uma novidade se ver retratado na tela grande. Muita coisa foi filmada, inclusive, aqui do lado de minha casa, nas ruas pelas quais passo diariamente e no banco em que tenho conta! Só isso me bastaria. Não nutria grandes expectativas quanto à qualidade artístico/narrativa do filme em si, a julgar pelo treiler que havia visto – divertido, mas nada de mais. Mais do mesmo, era o que parecia.

Me surpreendi. Não vi nenhuma obra-prima da sétima arte, evidentemente, mas me diverti bastante com essa comédia de erros que conta a história de um casal em crise que, por iniciativa da contraparte feminina, decepcionada com a apatia do companheiro, decide ousar, experimentar, “apimentar” a relação. Para tanto sugere um “ménage a trois”, o que assusta o malandro fajuto que vive se vangloriando de suas conquistas amorosas fantasiosas entre os amigos.

As situações embaraçosas em que os protagonistas se metem na tentativa de concretizar a empreitada são criativas, divertidas e bem encadeadas. Resvala-se num ou outro clichê aqui e ali, mas nada que comprometa o resultado final. O mais importante é que a narrativa flui satisfatoriamente, a fotografia é boa e a escolha das locações adequada, mostrando uma Aracaju provinciana porém em pleno crescimento - infelizmente desordenado, como e praxe, com os edifícios brotando ao fundo da paisagem ainda dominada pelas águas - poluídas - margeadas pelos manguezais. O filme tem também uma boa edição e é bem dirigido, o que certamente contribuiu para o bom desempenho dos atores, especialmente do casal em torno do qual a trama gira.

A lamentar apenas o subaproveitamento dos talentos locais, mais uma vez relegados a papeis secundários ou meramente figurativos. Em todo caso, foi bem legal poder ver na telona, em um trabalho cinematográfico profissional, figuras com as quais convivo ou já convivi cotidianamente, como minha amiga “Teteca”(Everlane Moraes), ex-frequentadora assídua do underground noturno do centro de Aracaju. E todos se saíram muito bem, a meu ver. Nada de constrangedor foi mostrado durante os 80 minutos de projeção ...

A noite foi aberta com os tradicionais discursos e a apresentação dos atores do filme presentes. O diretor, o belga Damien Chamin, é simpático, comunicativo – fala muito bem português, já que vive há bastante tempo aqui mesmo, nas terras de Sergipe Del Rey – e estava visivelmente emocionado.

Foi ainda exibida uma interessantíssima mostra de videoclipes com uma qualidade, em termos gerais, muito boa. Especialmente nos três primeiros: “Pele Africana”, do grupo Cataluzes – excelente música, por sinal – dirigido por André Aragão com belas imagens em preto e branco da terra de Fidel Castro; “Hey yo Silver”, da banda cuiabana Vanguart, dirigido por Isaac Dourado com uma excelente edição simulando a dinâmica de uma história em quadrinhos; e “Loreta & Boutique”, da sergipana Coutto e Orquestra, com direção de Marcos Mota e Marlon Delano e belas imagens captadas durante uma apresentação ao vivo.

Encerrando a noite, uma belíssima apresentação dos Grupos Membrana e Pífano de Pife que se encerrou no Hall do teatro, com os músicos interagindo com o público.

A programação do Curta-se se estende por toda a semana em diversos pontos da cidade. Para saber mais, clique AQUI e acesse o site oficial do evento.

E clicando AQUI, você vê o treiler de "A Pelada".

por Adelvan Kenobi.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Allende: O último pronunciamento

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

Salvador Allende (26 de junho de 1908 - 11 de setembro de 1973)

Chile, 40 Anos depois

Se estou vivo hoje, se 40 anos depois posso contar a história do golpe chileno de 11 de setembro de 1973, é graças à generosidade de meu amigo Claudio Jimeno. Eu me lembro dele agora da forma com o vi na ocasião, quando me despedi sem saber que se tratava de um adeus, sem saber que ele em breve estaria morto e eu sobreviveria, nenhum de nós ciente de que os militares o matariam em vez de mim.

Claudio e eu nos conhecemos em 1960 como calouros da Universidade do Chile, onde seu sorriso dentuço e cabeleira negra lhe renderam o apelido de Conejo (coelho), que o seguiria até o dia de sua morte. Ele namorava Chabela Chadwick, uma estudante de química, e quando eu comecei a sair com Angélica, que posteriormente se tornaria minha mulher, nós quatro nos juntávamos a nossos animados colegas de classe para danças, piqueniques na praia e, especificamente, para manifestações de protesto. O que mais me unia a Claudio e nossas namoradas, além de compartilharmos angústias, dúvidas e esperanças, era uma forte sede por justiça social em um continente frustrantemente pobre e mal desenvolvido.

Como centenas de milhares de outros chilenos, Claudio e eu éramos apoiadores fervorosos do socialista Salvador Allende, que --em uma época em que guerra de guerrilha ocorria por toda a América Latina-- acreditava que uma revolução não violenta em nosso país era possível e que podíamos criar uma sociedade soberana e mais justa por meios pacíficos e democráticos. Nosso sonho parecia se tornar realidade quando, dez anos depois, Allende venceu a eleição presidencial de 1970.

Sonhos e realidade, entretanto, não andam de mãos dadas tão facilmente. Em meados de 1973, o governo Allende foi sitiado e ameaçado com a crescente probabilidade de um golpe. Quando Fernando Flores, um membro do gabinete do presidente, me pediu para servir como seu assessor cultural e de imprensa, eu não hesitei. Uma das minhas maiores responsabilidades era dormir uma vez a cada quatro noites em La Moneda, o palácio presidencial em Santiago, mantendo vigilância para que eu pudesse comunicar imediatamente qualquer emergência para Allende. As outras noites eram revezadas entre outros três assessores, um deles Claudio Jimeno.

Quando descobri que tinha sido escalado para passar a noite de segunda-feira, 10 de setembro, em La Moneda, foi a coisa mais natural do mundo trocar de turno com meu velho amigo. Claudio ofereceu ficar no meu lugar e me deu seu turno no domingo, dia 9, para que eu pudesse mostrar ao meu filho de 6 anos, Rodrigo, a galeria com os retratos dos presidentes do Chile e permitir a ele, antes que sua mãe viesse buscá-lo, experimentar o palácio ao cair da noite, a mágica de mil luzes se acendendo.

A gentileza de Claudio não me surpreendeu. Naqueles tempos perigosos, nós assistíamos nossos filhos brincando sem saber ao certo se os veríamos no dia seguinte, de modo que cada hora com eles era inestimável. Claudio ansiava por um pouco de tranquilidade em casa com Chabela e seus dois filhos naquele domingo.

Consequentemente, foi Claudio Jimeno quem atendeu o telefone na madrugada de terça-feira, 11 de setembro de 1973, e soube que um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet estava em progresso. E foi Claudio quem chamou Allende, Claudio quem lutou ao lado dele em La Moneda. Foi Claudio quem foi feito prisioneiro, depois torturado e então se tornou um dos primeiros desaparecidos do Chile, nunca mais visto de novo. Eu acordei naquela manhã ao lado da minha amada Angélica e tentei, sem sucesso, chegar a La Moneda, e agora, quatro décadas depois, me vejo aqui, celebrando meu amigo, o que foi perdido e o que foi aprendido, lembrando, porque Claudio não pode, como mantivemos a esperança viva nas trevas. Aqui estou, incapaz de visitar o túmulo de Claudio Jimeno porque, até hoje, seus executores se recusam a revelar onde enterraram seu corpo despedaçado.

O destino do meu amigo prefigurou o que estava reservado para o Chile. À nossa frente estavam quatro décadas de repressão e temor, de pesar e luta. Mesmo quando conseguimos finalmente derrotar a ditadura, nossa transição para uma democracia plena foi severamente restringida. A sinistra Constituição de Pinochet, aprovada em eleições fraudulentas em 1980, é até hoje a lei suprema do país, tornando reformas urgentes excepcionalmente difíceis de serem executadas.

Mas aquele 11 de setembro de 1973, por mais trágico que tenha sido para tantos chilenos, teve consequências muito além de nossas costas remotas. O fracasso da revolução chilena teve repercussões significativas na Europa, onde levou a uma reorientação fundamental da esquerda em vários países (notadamente, Espanha, França e Itália) e à certeza de que, para gerar transformações radicais na sociedade, um amplo consenso era necessário, não apenas uma maioria eleitoral por margem minúscula.

Nos Estados Unidos, a intervenção (não totalmente) secreta da CIA na queda de Allende foi um dos vários fatores que abriram caminho para investigações do Congresso que estabeleceram leis limitando a extensão com que o Executivo pode interferir em assuntos de governos estrangeiros. Isso abriu uma discussão que é mais relevante hoje, à medida que está claro que os presidentes americanos continuam acreditando ter o direito de interferir, invadir e espionar sempre que acreditam que os interesses e segurança de seu país estão em risco --em outras palavras, todo e qualquer lugar.

Mais crucialmente, entretanto, o legado mais duradouro do 11 de Setembro do Chile foram as políticas econômicas implantadas por Pinochet. Meu país se tornou, na prática, um laboratório para um experimento neoliberal, uma terra de ganância irrestrita onde a extrema desnacionalização dos recursos públicos e a supressão dos direitos dos trabalhadores foram impostas sobre uma população relutante. Muitas dessas políticas impiedosas foram posteriormente implantadas por líderes de todo o mundo.

Apesar de ter levado a uma escandalosa disparidade de distribuição de renda e criado condições convenientes para nossas mais recentes crises financeiras planetárias, o modelo de livre mercado chileno mantém seu apelo. A privatização drástica de Pinochet dos fundos de aposentadoria do Chile é, por exemplo, constantemente apontada como um exemplo de como "resolver" o "problema" do Seguro Social. E um recente editorial não assinado no "The Wall Street Journal" sugeriu que "os egípcios teriam sorte se seus novos generais governantes seguissem o modelo de Augusto Pinochet do Chile".

Felizmente, o Chile não exportou apenas as piores experiências resultantes do golpe militar. Ele também serviu como modelo de como uma população desarmada pode, por meio de não violência e desobediência civil, vencer o medo e derrubar uma ditadura. Os eletrizantes movimentos democráticos e de resistência que nasceram em todos os continentes nos últimos anos provam que o futuro não precisa ser desumano, que o 11 de Setembro chileno não foi o fim da busca por liberdade e justiça social pela qual Claudio Jimeno morreu, e que talvez seu sacrifício não tenha sido totalmente em vão.

Mesmo assim, eu não consigo me consolar, 40 anos depois. Eu ainda me lembro de seu sorriso de coelho enquanto se despedia de mim em La Moneda, na noite de 10 de setembro de 1973. No dia seguinte, aquela terça-feira cheia de terror em Santiago mudou muitas coisas para sempre, incluindo as condições políticas e econômicas que alteraram o Chile e, discutivelmente, o mundo. Mas, quando olhamos para o passado, nós precisamos nos lembrar de que, no final, a história se resume a seres humanos reais, homens e mulheres que são dolorosamente afetados, de cada e todo Claudio Jimeno de nossa espécie, um por um.

Se resume ao que é irreparável e precisa ser lamentado: Claudio não pode, como faço toda manhã, acordar com o canto dos pássaros.

Claudio Jimeno, o amigo que morreu no meu lugar 40 anos atrás, nunca verá seus netos crescerem.

*Ariel Dorfman é autor da peça "A Morte e a Donzela" e, mais recentemente, " Feeding on Dreams: Confessions of an Unrepentant Exile"