Fui surpreendido há alguns anos com a publicação no Brasil, via
Panini, de uma História em quadrinhos de fantasia e ficção científica soberba
produzida na França por um brasileiro do qual nunca tinha ouvido falar: “Aldebaran”,
de Leo – Luis Eduardo Oliveira. Nela, somos levados a um admirável mundo novo
fictício, com toda uma flora e fauna própria descrita em detalhes numa trama
muito bem amarrada que prende a atenção do leitor da primeira à última página.
Conta uma história do amor entre dois adolescentes em meio à colonização por terráqueos de um planeta distante, com as virtudes e viscissitudes oriundas do processo. Com direito,
inclusive, a um forte cunho político, naturalmente, já que o autor tem uma história
de vida rica neste sentido: ele saiu do Brasil como exilado pela ditadura
militar.
Infelizmente a edição passou despercebida nas bancas e nunca
mais foi lançado nada dele por aqui. Merece muito, no entanto, ser
redescoberta. CLIQUE AQUI para baixar scans das revistas. AQUI você conhece os
mundos de Aldebaran em detalhes num site interativo com trilha sonora produzido
pela editora que publica os quadrinhos na França, a Dargaud. Abaixo, uma
entrevista com o autor, publicada originalmente no site português Blogue De Banda Desenhada.
Formou o seu nome artístico, Leo, com as iniciais do seu nome real: Luís Eduardo Oliveira. Nasceu no Rio de Janeiro a 13 de Dezembro de 1944. Residindo em Paris desde 1981 e casado com uma portuguesa (Isabel) da Ilha da Madeira, onde passa largo tempo do ano, sobretudo para se escapar às agruras do Inverno da continental Europa. Hoje muito conceituado no mundo das HQs, sobretudo entre os francófonos, dedica-se muito (quase que exclusivamente) ao tema da ficção-científica. E tanto funciona só enquanto desenhista, como, outras vezes, como argumentista e, outras ainda, como autor total. Foi homenageado ao vivo no Salão Internacional "Sobreda-BD / 2000", tendo então recebido o Troféu Sobredão.
Porém, se hoje está tranquilo a narrar aventuras através da 9.ª Arte, foi antes uma aventura de si próprio que viveu e sofreu. Sempre inclinado para o desenho, após terminar o seu curso de engenheiro mecânico enveredou um tanto pela militância política. Em 1971, para escapar à ditadura militar brasileira, fugiu para o Chile. Dali torna a fugir, desta vez para a Argentina, quando o general Pinochet tomou o poder. Em 1974, regressa clandestinamente ao seu Brasil, onde se dedica ao desenho publicitário em S.Paulo.
Em 1981 abalou-se à aventura para a Europa, estabelecendo-se em Paris, sonhando com a carreira nas HQs. Foi uma época de angústias pois a 9.ª Arte franco-belga atravessava então uma das suas piores crises. Mesmo assim, publica alguma coisa nas revistas "L'Echo des Savanes" (1982) e "Pilote" (1985). Com o apoio de Jean-Claude Forest, em 1986 publica algumas histórias realistas na "Okapi" e, em 1989, é editado o seu primeiro álbum, "Gandhi, le Pélerin dela Paix ", com roteiro de Benoît Marchon. No
entanto, algum tempo depois começa uma parceria com o roteirista Rodolphe, com
as séries "Trent" (um western em oito livros), "Kenya" (em
cinco livros) e "Namibia" (a decorrer), mas agora como co-roteirista,
e Marchal sendo o desenhista.
Porém, se hoje está tranquilo a narrar aventuras através da 9.ª Arte, foi antes uma aventura de si próprio que viveu e sofreu. Sempre inclinado para o desenho, após terminar o seu curso de engenheiro mecânico enveredou um tanto pela militância política. Em 1971, para escapar à ditadura militar brasileira, fugiu para o Chile. Dali torna a fugir, desta vez para a Argentina, quando o general Pinochet tomou o poder. Em 1974, regressa clandestinamente ao seu Brasil, onde se dedica ao desenho publicitário em S.Paulo.
Em 1981 abalou-se à aventura para a Europa, estabelecendo-se em Paris, sonhando com a carreira nas HQs. Foi uma época de angústias pois a 9.ª Arte franco-belga atravessava então uma das suas piores crises. Mesmo assim, publica alguma coisa nas revistas "L'Echo des Savanes" (1982) e "Pilote" (1985). Com o apoio de Jean-Claude Forest, em 1986 publica algumas histórias realistas na "Okapi" e, em 1989, é editado o seu primeiro álbum, "Gandhi, le Pélerin de
Além de ter participado em álbuns coletivos, Leo foi
roteirista das séries "Dexter London" (arte de Sergio Garcia),
"Terres Lointaines" (arte de Icar) e "Mermaid Project"
(arte de Fred Simon). Todavia, pelo seu encantador talento, o que podemos
considerar como a sua notável criação (até agora) é a série "Os Mundos de
Aldebaran", dividida em quatro ciclos: "Aldebaran",
"Betelgeuse", "Antares" e "Survivants
(Sobreviventes)", estando estes dois últimos ainda em curso na Europa. Pois
aí vai a entrevista com Leo:
BDBD - Foi dura a tua
caminhada pela Banda Desenhada, sobretudo na América do Sul, mas hoje tens um
justo estatuto de autor-BD confirmado. Porquê a França como tua opção?
LEO - No Brasil eu fiz umas tentativas de trabalhar em BD,
mas não deu certo. Não há mercado para BD's adultas. Foi o que me levou a vir
para a França. No Chile e na Argentina, eu não trabalhei com a BD e, na época,
eu não pensava nisso. Eu era um refugiado político, fugindo à ditadura brasileira,
e me dedicava à ação política.
BDBD - E voltares a viver no teu Brasil, está fora de questão?
BDBD - E voltares a viver no teu Brasil, está fora de questão?
LEO - Sim, foi tão difícil conseguir estabelecer-me em
França, onde passei vários anos como imigrante clandestino, que não tenho
nenhuma vontade de sair daqui. Ainda mais porque profissionalmente é aqui que
eu construí toda a minha carreira na BD.
BDBD - Curiosamente, tens ligações a um outro país do nosso
idioma, precisamente Portugal. Para além de teres sido homenageado no salão
"Sobreda-BD /2000", és casado com uma portuguesa (da Madeira)...
Portugal será um dia o território para residires em definitivo?
LEO - Não creio, pelos mesmos motivos que exponho acima. Mas
pretendo passar longos períodos na Madeira, principalmente no Inverno. Acho a
Madeira um lugar fantástico!
BDBD - Estranhamente, da tua vasta obra nada está editado em
Portugal!... É um fato pouco simpático e desatento em relação à tua obra, não
achas?
LEO - Alguns dos meus álbuns foram editados em Portugal
alguns anos atrás, mas, infelizmente, a eterna questão do mercado pequeno para
a BD adulta não permitiu que a coisa se renovasse. A mesma coisa aconteceu no
Brasil, onde o fato de eu ser brasileiro não ajudou em nada as vendas. É uma
pena!...
BDBD - Para além de desenhares, também tens sido, às vezes,
roteirista. O que preferes: desenhar ou escrever?
LEO - Não dá para escolher uma ou outra, pois são coisas bem
diferentes e ficaria muito frustrado se
tivesse que abandonar uma dessas atividades. É claro que, quando eu desenho - e
atualmente eu só o faço quando eu mesmo escrevi o roteiro e, com isso, o
resultado é bem pessoal - é mais forte. Como roteirista, escrevendo sozinho ou
em parceria com outros, eu posso expressar a minha imaginação de outra maneira
e é uma atividade fascinante.
BDBD - "Gandhi, o Peregrino da Paz" foi um
interessante trabalho teu enveredado pela biografia. O que sentes por Gandhi
para teres pegado neste projeto? Pensas repetir a experiência versando
biografias?
LEO - Devo confessar que esse trabalho foi feito numa época
em que eu aceitava qualquer coisa que surgisse para que a minha conta bancária
saísse do negativo! Felizmente, o Gandhi foi um personagem interessante mas
fazer BD's históricas não é o meu terreno, pois sempre preferi a
ficção-científica.
BDBD - Ora aqui está!... Excluindo a bela série
"Trent", o teu tema favorito é a ficção científica, cheia de
hipóteses no futuro e de maravilhosos aspectos insólitos. É mesmo o tema que
mais te entusiasma?
LEO - É o meu universo preferido. Desde sempre. Ele permite
toda a liberdade criativa, onde tudo se pode inventar. Todos os roteiros que
escrevi até hoje são de ficção-científica, o que é bem sintomático...
LEO - Infelizmente, não. É o meu lado engenheiro bem
racional...
BDBD - O Salão da Sobreda, onde foste homenageado em 2000,
parece que se finou de vez. Mas, em Portugal, existem dois anuais (Amadora e
Beja) e mais dois bienais (Moura e Viseu). Estarias disposto em participar em
algum deles?
LEO - Nos últimos tempos tenho trabalhado tanto que evito os
festivais. Especialmente quando incluem viagens. Mas eu gosto muito de
Portugal, então, quem sabe?...
BDBD - A terminar, deixa aqui uma breve mensagem aos
bedéfilos portugueses, em especial aos que te admiram... Desde já, muito
obrigado, Leo.
LEO - Evidentemente eu fico muito orgulhoso e contente de
saber que portugueses conhecem as minhas
histórias, apesar delas não serem atualmente traduzidas na minha língua
materna. Portugal possui uma cultura de BD's adultas que, infelizmente, meu
país ignora. E, meu caro Luiz Beira, sou eu que agradeço!
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