
Quando ainda fazia programa humorístico – e era engraçado –
Jô Soares tinha um quadro em que um general entrava em coma na posse do presidente Figueiredo, o último ditador, e acordava já na “Nova Republica” (muita
ênfase nessas aspas, por favor) de Sarney & cia. Espantado com as mudanças,
repetia o bordão “me tira o tubo” a cada constatação das voltas que o mundo dá.
Às vezes fico imaginando o que o general diria se acordasse hoje, com um papa
argentino, um negro na presidência dos Estados Unidos, uma ex-guerrilheira –
mulher! – presidindo o Brasil e, agora, o PCdoB à frente do Ministério da
Defesa.
Sim, aquele mesmo PCdoB, o Partido COMUNISTA do Brasil. Fruto
de uma dissidência stalinista – depois maoísta, “albanista” e, por fim, petista
– do “partidão”. O “partidinho” – era pequeno, na época – que organizou a
guerrilha do Araguaia, o mais planejado e consistente – ou menos delirante
- projeto de combate armado à ditadura.

Médici deve ter dado algumas voltas no túmulo, certamente. Mas
o mesmo quadro do programa do Jô terminava sempre com o general pedindo para
manter o tubo ao constatar que, no final das contas, nem tudo havia virado de
pernas pro ar. As coisas mudam, às vezes, para continuarem as mesmas. Com
efeito, a presença da legenda de João Amazonas à frente da pasta à qual estão
subordinadas às Forças Armadas não causou nenhum assombro, a não ser entre os
cães raivosos que se recusam a notar que o mundo é outro e a guerra fria já
ficou há muito tempo para trás.
O próprio PCdoB mudou, e muito. Na cerimônia de
passagem de cargo Aldo Rebelo, o novo ministro, prometeu apoiar “cada uma das
agendas estratégicas das Forças”. Citou nominalmente projetos como o Programa
de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), da Marinha; o Sistema Integrado de
Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), do Exército; e o FX-2 para aquisição dos
caças Gripen da Aeronáutica, ressaltando a importância deles para o
fortalecimento da soberania brasileira. Enalteceu a história da fundação das
Forças Armadas e fez questão de elencar algumas conquistas das três
instituições - sem mencionar, claro, o papel dessas mesmas forças na repressão aos movimentos populares. Canudos e Contestado, assim como o golpe de 64 e a ditadura subsequente, foram solenemente ignorados nesse "balanço Histórico" ...
No caso da Marinha, destacou a Batalha do Riachuelo. “Ali, ao
vencer a Armada Paraguaia, o Brasil e a Força Naval abriram caminho para o
progresso das forças terrestres”, disse. Prometeu, ainda, atualizar o Projeto
Nacional de Domínio do Ciclo Nuclear, além de “lutar para preservar a
capacidade operacional da nossa Esquadra”. Já para o Exército, ressaltou que a
Força nasceu nos idos do nacionalismo do País. Citou o “Exército da luta pela independência,
que nos deu essa heroína única de convicções e de bravura, Maria Quitéria. O
Exército de Duque de Caxias e da consolidação da República”. Por fim, sobre “a
mais jovem das Forças”, a Aeronáutica, lembrou que aviadores brasileiros
“deixaram nos céus da Europa o tributo de sangue para que o mundo vivesse em
liberdade”. “À Força Aérea, nós devemos o Correio Aéreo Nacional, que era muito
mais que correio. Era a instituição integradora de um País sem logística,
separado pelas distâncias”, lembrou.
O que Aldo disse era o que o comandante do Exército, o
gaúcho Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, de 63 anos, queria ouvir, a julgar
pela entrevista que concedeu ao jornal Correio Braziliense no dia 27 de
setembro de 2015. Nela, ele exalta a passagem de Lula pela presidência: “Nós
nos acostumamos a matar um leão por dia, mas perdemos a capacidade de pensar a
longo prazo, estrategicamente. Até que veio o governo do presidente Lula e essa
série orçamentária que era declinante se reverteu e começou a melhorar. O marco
foi quando o presidente chamou o ministro (Nelson) Jobim para o Ministério da
Defesa e disse: “Sua missão é colocar a defesa na pauta de discussão nacional”.
E, aí, o ministro Jobim, com o ministro Mangabeira Unger, elaborou uma
Estratégia Nacional de Defesa, um marco na história da defesa. Pela primeira
vez, o poder político disse aos militares qual era a concepção de Forças
Armadas, o que entendiam como necessário para o Brasil.”
De “quebra”, deu uma estocada bem humorada nos “aloprados”
que defendem uma intervenção militar: “É curioso ver essas manifestações. Em
São Paulo, em frente ao Quartel-General, tem um pessoal acampado
permanentemente. Eles pedem “intervenção militar constitucional” (risos).
Queria entender como se faz. O Exército vai cumprir o que a Constituição
estabelece. Não cabe a nós sermos protagonistas neste processo. Hoje o Brasil
tem instituições muito bem estruturadas, sólidas, funcionando perfeitamente,
cumprindo suas tarefas, que dispensam a sociedade de ser tutelada. Não cabem
atalhos no caminho.”
A maior ameaça aos planos dos militares, hoje, não é o
comunismo. É a crise. A maior desde 1929, dizem especialistas. Uma daquelas
crises cíclicas típicas do ...
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