segunda-feira, 8 de março de 2010

Ser ou não ser, eis a questão



Venho notando, de alguns anos para cá, que vários de meus amigos ou pessoas próximas a mim têm se tornado vegetarianos. Os argumentos são os mais diversos, mas o principal é o da pena - pena dos pobres animaizinhos mortos para alimentar os malvados carnívoros. Cheguei a ouvir, estupefato, num debate que aconteceu logo após um show promovido por vegans (também não entendo essa fixação por termos em inglês, pra mim isso soa a colonialismo cultural), que os adeptos da alimentação vegetariana não deveriam distinguir os carnívoros dos nazistas. Sem maiores comentários. Se alguém pudesse ter me convencido através deste argumento teria sido Morrissey quando cantou "is death for no reason and death for no reason is murder", em "Meat is Murder", dos Smiths. Porque eu também tenho pena dos animais - dos que são torturados ou sacrificados sem necessecidade. Sou absolutamente contra a caça esportiva, ou atividades culturais que resultam em sofrimento desnecessário para os bichos, como as touradas da Espanha ou as "vaqueijadas" e rodeios. Aliás, eu odeio rodeio do fundo de meu coração, odeio tudo o que se relaciona àquilo, não apenas a tortura dos animais. Costumo dizer que quando eu morrer, se eu for para o inferno (é provável que não, pois sou um cara bonzinho), vou acordar em Barretos. Já conheci muita gente que sentia prazer em torturar animais, e sempre os abominei. Mas me recuso a sentir asco de uma pessoa que mata um bicho para comer. Esse argumento da pena é puramente humano, um julgamento moral. Não existe na natureza. Os predadores naturais não demonstram nenhum remorso ao executarem suas vítimas. Mas concordo que o homem tem opção pois é, supostamente, racional, e pode muito bem se alimentar de forma saudável dispensando a proteína animal. O argumento mais válido a favor disso, a meu ver, é o que é descrito no artigo abaixo: a longo prazo, a pecuária tende a se tornar economicamente inviável, devido ao grande consumo de água e de terra que são necessários para a criação de gado. Terra esta que poderia estar sendo usada para a agricultura, fonte primária de energia. É provável que um dia a humanidade desperte e todos nós sejamos obrigados, afinal, a nos tornarmos vegetarianos. Se isso acontecer, para mim, não será nenhuma catástrofe pois, felizmente, meio que como de tudo - do rim cozido que minha mãe preparou para mim ontem, delicioso, ao almoço magnificamente bem temperado que sorvi com minha namorada num restaurante vegetariano, hoje.

É isso.

A.

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Terra é incapaz de acompanhar ritmo atual de consumo de carnes e pescado

Por Anne Chaon, em Paris

No topo absoluto da cadeia alimentar, os seres humanos se dão ao luxo de comer de tudo, mas a um preço elevado: a pesca massiva está levando as espécies marinhas à extinção, e a piscicultura polui a água, o solo e a atmosfera - o que precisa fazer com que mudemos de hábitos.

Alimentar a humanidade - nove bilhões de indivíduos até 2050, segundo as previsões da ONU - exigirá uma adaptação de nosso comportamento, sobretudo nos países mais ricos, que precisarão ajudar os países em desenvolvimento.

Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), publicado nesta quinta-feira, a produção mundial de carne deverá dobrar para atender à demanda mundial, chegando a 463 milhões de toneladas por ano.

Um chinês que consumia 13,7 kg de carne em 1980, por exemplo, hoje come em média 59,5 kg por ano. Nos países desenvolvidos, o consumo chega a 80 kg per capita.

"O problema é como impedir que isso aconteça. Quando a renda aumenta, o consumo de produtos lácteos e bovinos segue o mesmo caminho: não há exemplo em contrário no mundo", destacou Hervé Guyomard, diretor científico em Agricultura do Instituto Nacional de Pesquisa Agrônima da França (INRA), responsável pelo relatório Agrimonde sobre "os sistemas agrícolas e alimentares mundiais no horizonte de 2050".

Atualmente, a agricultura produz 4.600 quilocalorias por dia e por habitante, o suficiente para alimentar seis bilhões de indivíduos.

Deste total, no entanto, 800 se perdem no campo (pragas, insetos, armazenamento), 1.500 são dedicadas à alimentação dos animais - que só restituem em média 500 calorias na mesa - e 800 são desperdiçadas nos países desenvolvidos.

Por outro lado, o gado custa caro ao meio ambiente: 8% do consumo de água, 18% das emissões de gases causadores do efeito estufa (mais que os transportes) e 37% do metano (que colabora para o aquecimento do clima 21% mais que o CO2) emitido pelas atividades humanas.

E, mesmo que seja fonte essencial de proteínas, a carne bovina não é "rentável" do ponto de vista alimentar: "são necessárias três calorias vegetais para produzir uma caloria de carne de ave, sete para uma caloria de porco e nove para uma caloria bovina", explicou Guyomard.

Desta maneira, mais de um terço (37%) da produção mundial de cereais serve para alimentar o gado - 56% nos países ricos - segundo o World Ressources Institute.

Seria o caso, então, de reduzir o consumo de carne e substitui-lo pelo peixe?

Os oceanos não podem ser considerados uma despense inesgotável, estimou Philippe Cury, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD).

O número de pescaodres é duas a três vezes superior à capacidade de reconstituição das espécies.

No atual ritmo, a totalidade das espécies comerciais haverá desaparecido em 2050.

Fonte: UOL

4 comentários:

Juliano Mattos disse...

Há várias motivações para o Vegetarianismo e algumas delas não têm nada a ver com libertação animal ou preocupação ambiental. No meu caso, o que me motivou a ser vegetariano quase 10 anos atrás (quando ainda estava em Aracaju), foi a minha sensibilidade para com os animais. Desde criança sempre fui muito afetado pelo sofrimento dos animais e quando o Punk me fez refletir mais profundamente sobre a questão, não tive dúvidas. No começo foi difícil, sobretudo por não encontrar facilmente (e a preços acessíveis) os substitutos da carne. Atualmente está muito melhor, os produtos específicos para vegetarianos, pelo menos por aqui, estão bem mais acessíveis e já começam a ser vendidos normanlente em supermercados (antes era preciso comprar em lojas especializadas).

A questão ecológica para mim é secundária mas igualmente importante, e ela é, além da questão ética, o mais poderoso argumento a favor do vegetarianismo, porque obriga a humanidade a repensar a sua dieta.

Não equiparo os "carnívoros" aos nazistas. Fazer isso é banalizar o termo "nazista". O Nazismo foi algo monstruoso e não vejo monstros nas pessoas que comem carne. Na verdade, os vegetarianos não são mais especiais que os demais, assumem uma postura na vida mais nobre, claro, mas como pessoas não são melhores pelo fato de serem vegetarianas.

Mas sem dúvida podemos ver que coletivamente há a pratica de uma dieta irracional, parte da tradição de comer carne, que poucos ousam questionar. No momento em que comecei a relacionar o bife suculente com a vaca, comecei a sentir nojo e vergonha, e parei de comer carne.

Dentro do processo de cria e abate, os animais sofrem extermínio semelhante aos judeus, mas não são os "carnívoros" que sujam as mãoes, até porque se tivessem que fazer isso muitos (talvez a maioria) se tornaria vegetariana. O que há é comodidade e creio que as pessoas, ao serem confrontadas com a questão da matança de animais, apenas fecham os olhos e procuram pensar noutra coisa menos pesada para a consciência.

Eu acho que o vegetarianismo é uma ideia de futuro, para sociedades eticamente mais avançadas, embora a questão dos recursos econômicos seja também preponderante.

Uma pergunta que faço é: será que com o aumento acelerado da população no planeta e consequente desequilíbrio entre a capacidade de produção do planeta e a superlotação, não chegaremos num estágio em que a produção de carne será dispensada para assim se poder produzir cereais de forma racional e para serem consumidos diretamente pela humanidade? Isso é importante, uma vez que 90% dos cereais produzidos no mundo são destinados à alimentação de animais de abate.

Mas como ser humano, eu preferia que a opção vegetariana vingasse não porque o consumo de carne é insustentável, mas porque à luz da ética e da ciência a matança de animais é inaceitável.

Para finalizar, resgato uma mente do renascimento, que viveu 5 séculos atrás, para dizer que o vegetarianismo será a dieta do futuro: "haverá um tempo em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente da mesma forma como hoje se julga o assassino de um homem".

Essa frase é de Leonardo da Vinci, além de tudo o que foi, também era vegetariano.

Viva La Brasa disse...

puta saco essa pregação 'vegana'.
parecem crentes recém-convertidos.
só lembrando:
Hitler era vegetariano.

tHe HeAdSHakEr disse...

Quando vc diz que "Mas me recuso a sentir asco de uma pessoa que mata um bicho para comer" concordo com você. Mas me diga: conhece alguém que mata pra comer? Duvido... A imensa maioria vai a supermercados limpíssimos, com ar condicionado e simplesmente mandam "...corta aí meio quilo de...".
Se todos tivessem de manchar as mãos de sangue para ter um bife, poucos comeriam carne.
Não teriam coragem nem estõmago.

Adelvan Kenobi disse...

Depende da fome, meu caro ...