sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cinema ainda é a melhor diversão

Fui ver Avatar duas vezes no cinema, infelizmente nenhuma das duas da forma como deveria ser visto, em 3D, já que não existem salas deste tipo em minha cidade. Na primeira fui ver dublado, para não perder tempo olhando para as legendas e me concentrar no visual que é, eu já sabia, (para muitos, o único) ponto forte do filme. Confesso que alguns diálogos e cenas, como a da dancinha de invocação da tribo e aquela filosofia new age fajuta, me incomodaram bastante. Na segunda vez vi legendado e com o espírito mais aberto, com a namorada do lado e a fim de ver cinemão pipoca mesmo, me divertir. E foi sensacional, porquê é exatamente isso que o filme é: diversão escapista da melhor qualidade – com uma mensagem edificante um tanto quanto rasteira de pano de fundo, mas com qualidades, sem sombra de dúvidas. O velho combate maniqueísta do bem contra o mal, da ganância do progresso destruindo velhas culturas baseadas no respeito e na interação com a natureza.

De repente me toquei que AVATAR nada mais é do que um faroeste “futurista”. Está tudo lá, especialmente as tribos indígenas cavalgando entre paisagens deslumbrantes e sendo ameaçadas pelo avanço dos “homens brancos” invasores, apoiados pelo aparato bélico infinitamente desproporcional em poder de fogo devido às diferenças no domínio da tecnologia. Me vieram à mente imediatamente as clássicas imagens dos nativos americanos cavalgando seus garbosos corcéis em meio à pradaria, sempre atentos aos movimentos dos “caras-pálida” e seus temíveis “casacos-azuis” (a cavalaria do exército americano). A "virada de casaca" do espião invasor e a clara preferência pelo lado dos N,Avi (como são chamados os habitantes do planeta cobiçado por seu valioso minério) me lembrou “Dança com Lobos”, mas a maior referência é, sem sombra de dúvidas, “Guerra nas Estrelas”. E não apenas em seu conceito e estruturas visual e narrativa, mas também no fato de ser um campeão de bilheteria (ao ponto de já ter superado o recorde – em números absolutos - do próprio diretor James Cameron com seu “Titanic”) e estar sendo considerado por muitos como um novo paradigma para o cinema, uma nova direção a ser seguida no futuro, na eterna luta pela sobrevivência da tela grande que une as pessoas numa experiência coletiva na sala escura contra as novas e cada vez mais avançadas tecnologias que insistem em isolar-nos em nossos cantinhos individuais do mundo.

Chamar a saga ‘STAR WARS” de “Guerra nas Estrelas” denuncia minha idade, já que desde o final dos anos 1990 a franquia foi renomeada com seu título original em inglês em todo o mundo, por uma questão de marketing. Nasci em janeiro de 1971 e a primeira parte da obra máxima de George Lucas foi o primeiro filme que vi no cinema, na época de seu lançamento. Tinha, portanto, entre 7 e 8 anos. Morava em Itabaiana, interior de Sergipe, e não lembro exatamente quando a fita estreou por lá, mas lembro perfeitamente que era um sucesso mundial absoluto, ao ponto do próprio padre, durante a homilia da missa dominical, recomendar aos fiéis que o fossem ver – na verdade ele sempre fazia isso, pois o cinema era instalado num prédio alugado à igreja. Insisti para minha irmã mais velha me levar e, lá dentro, ficava enchendo o saco dela para que me explicasse o que estava acontecendo, já que o filme era legendado e eu ainda não tinha fluência suficiente na leitura. Lembro de ter ficado surpreso ao saber que aquela mulher bonita com os cabelos estranhamente enrolados por cima das orelhas era uma princesa, pois ela não tinha nenhum glamour, especialmente nos trajes, cujo padrão entre os integrantes da aliança rebelde era sempre algo branco e com um corte simples. Mas o visual arrebatador das criaturas alienígenas e das revolucionárias cenas de batalha me deixaram alucinado e fanático pelo filme. Comprei o álbum de figurinhas, o único “souvenir” disponível por lá na época, e colecionava os fotogramas compulsivamente, colando-os no calhamaço de papel com uma goma caseira que o deixava ainda mais volumoso e pesado (ainda não existiam as figurinhas auto-adesivas).

A Saga de Lucas me marcou profundamente e despertou meu interesse pela sétima arte. À medida que fui crescendo fui me tornando um cinéfilo. Lembro que ficava de ouvidos bem atentos quando a propaganda na Radio Princesa da Serra (cujos estúdios ficavam instalados no segundo andar do cinema) anunciava, ao som da musica-tema de Star Wars em BG, a já célebre (pelo menos em minhas memórias) narração: “Cinema ainda é a maior diversão. Hoje, na tela do Cine Santo Antônio ...”. E lá ia eu, caso o filme me interessasse. E muitos interessaram. Foi lá, “na tela do Cine Santo Antonio”, que vi alguns clássicos dos anos 80, como “Conan, o Bárbaro”, “Piranha”, “Piranha 2 – Assassinas Voadoras”, “Ladyhawk, o feitiço de Áquila”, TRON (numa sessão absolutamente caótica, pois foi de graça por conta de uma promoção do Colégio Murilo Braga e estava abarrotada de moleques que só estavam interessados em bagunçar, ou “indiar”, um adjetivo pejorativo bastante usado localmente naqueles tempos ), “Uma Noite Alucinante”, “A Volta dos Mortos Vivos”, "De Volta para o futuro", "Robocop" e “Platoon”, dentre muitos outros.

Me lembro de voltar para casa todo "armado" simulando carregar uma metralhadora depois de ver “Rambo, programado para matar”. Ou de uma sessão tradicional (e bizarra) que acontecia toda sexta-feira santa, onde era exibido uma fita antiqüíssima sobre a vida de Jesus e algumas senhoras a assistiam de joelhos e rezando o terço – nessa época eu já era meio roqueiro pendendo pro ateísmo e achei aquele fanatismo ridículo. “O Dia Seguinte”, o filme-denúncia contra a corrida armamentista, eu vi com amigos e a fim de “indiar” também, para aliviar a tensão – o pesadelo nuclear era sério, uma ameaça real que pairava sobre o mundo e eu tinha ficado absolutamente apavorado com um Globo Repórter sobre o assunto. Lembro também que de vez em quando entravam em cartaz alguns filmes que na época tinham apelo comercial mas hoje andam esquecidos ou são considerados “Cult”, como “Conquista Sangrenta” (Flesh+Blood), de Paul Verhoeven, uma bizarra e brilhante fábula medieval violenta e erótica sobre um farsante (interpretado por Rutger Hauer) que lidera um pequeno exército de fanáticos. Foi lá também que vi pela primeira (e única) vez, já que nunca foi relançado nos cinemas, pelo menos que eu saiba, a primeira obra-prima de James Cameron, “O Exterminador do Futuro”. E o Cine Santo Antonio, veja só, era apenas um dos dois cinemas da cidade. Hoje em dia é luxo uma cidade de pequeno porte do interior ter uma sala de cinema, que dirá então duas. O outro era o “Cine Popular”, mas este eu nunca tive coragem de freqüentar, pois exibia exclusivamente filmes pornográficos e minha timidez e formação católico-repressora rígida nunca conseguiu superar minha curiosidade hormonal adolescente.

Os filmes que eu queria muito ver e não passavam em Itabaiana eu via em Aracaju, depois de muita insistência para que minha mãe deixasse. Foi o caso de “ET – O Extraterrestre”, que eu achei meio decepcionante, meloso demais. Odiei, e ainda odeio do fundo do coração, aquele garoto, Elliot, um dos personagens mais irritantes já produzidos pela sétima arte. Em 1989 me mudei definitivamente para Aracaju e passei a freqüentar os cinemas daqui – mas não a tempo de conhecer o Cine Vitória, que funcionava onde hoje ficam as Lojas Americanas, na época já desativado. Havia também um cinema de bairro na cidade, o Vera Cruz, no Siqueira Campos, que ainda funcionava mas que eu também nunca freqüentei, em boa parte porque já estava em franca decadência, exibindo apenas uma sessão dupla de “sexo e caratê”, a clássica dobradinha de dois filmes (um pornográfico e outro de artes marciais “made in Hong Kong") pelo preço de um, nossa versão tupiniquim para as “grindhouse” americanas. Hoje é a “Catedral da Fé” da Igreja Universal do Reino de Deus em Sergipe. Freqüentei muito o Cine Aracaju, na Rua de Laranjeiras, onde hoje funciona um ... estacionamento. Foi lá que vi “ET”, “Indiana Jones e o Cálice Sagrado”, "o paciente inglês" e muitos, muitos outros. Foi também de lá que saí atordoado com “Parque dos Dinossauros”, imaginando que, ao virar a esquina (depois da tradicional passada pela “Charutaria Chic”, que também funcionava como banca de revistas – minha favorita – e ficava bem em frente) daria de cara com um Tiranossauro Rex ou um bando de velociraptores, tamanho o realismo dos efeitos especiais.

Mas o principal cinema da cidade era, sem sobra de duvidas, o Cine Palace, que ficava no Calçadão da João Pessoa, ao lado do então palácio do governo. Era bem maior e mais luxuoso (e confortável) que o Aracaju, e lá também vi fitas célebres e populares, como “Os Bons Companheiros” de Martin Scorcese, e até filmes “Cult”, como “Sid & Nancy, amor mata”, sobre a vida e o relacionamento conturbado do símbolo-mor do punk junkie e ex-baixista do Sex Pistos, Sid Vicious, e sua namorada-problema Nancy Spungen. O último filme que assisti lá foi “Waterworld”, de Kevin Costner – defenestado pela crítica, mas que eu nem acho tão ruim assim. É uma espécie de “Mad Max aquático”, e eu sou fã da franquia Mad Max e de filmes futurista-apocalípticos “trash” em geral. Este cinema eu fiquei especialmente triste quando fechou, pois era realmente um verdadeiro símbolo da sétima arte no estado. Funcionou por um tempo como bingo (ironicamente mantendo o mesmo nome, “Bingo Palace”) e hoje está lá, abandonado, num verdadeiro tributo ao descaso com a cultura, tão comum em nosso país.

Só não é maior que o descaso para com o Cine Rio Branco, o último cinema de rua de Aracaju a cerrar suas portas. Quando fechou, era um dos mais antigos ainda em funcionamento no Brasil, já que fora inaugurado em 1913, primeiro como Teatro Carlos Gomes, depois como Cine-teatro Rio Branco e finalmente apenas como cinema, não sem antes receber em suas luxuosas dependências artistas do nível de Procópio Ferreira e Bidu Saião. Era de propriedade do Sr. Juca Barreto e chegou a ser tombado e depois "destombado" pelo patrimônio histórico. A partir dos anos 80, foi arrendado e passou a exibir apenas filmes pornográficos até sua demolição, já por volta dos ano 2000. Hoje funciona como uma loja de tecidos. Poderia muito bem ter sido comprado pelo estado ou pela prefeitura e ter se transformado num centro cultural com filmes exibidos a preços populares, como existe em Recife com o Cinema Teatro do Parque, cujo preço do ingresso custa apenas R$ 1,00 graças aos subsidios da prefeitura. Em todo caso, foi nele, no cine Rio Branco, que entrei pela primeira e única vez num cinema pornô, uma experiência que considerei, devo confessar, repulsiva ...

Não por moralismo, pois sempre gostei de pornografia, mas como uma atividade solitária. Nada a ver ficar num ambiente público com pessoas se masturbando ao seu redor. É anti-higiênico e constrangedor – ok, eu também era um punheteiro inveterado e confesso mas o fazia no conforto do meu lar, auxiliado por aquela maquininha maravilhosa que mudou nossas vidas chamada vídeo-cassete - dá pra imaginar um tempo em que para assistir um filme você tinha que esperar por sua estréia na tela grande ou posterior exibição na TV aberta ? Pois esse tempo existiu, antes do vídeo-cassete. Fui ao Rio Branco única e exclusivamente para ver um filme de minha musa maior da industria pornô, Traci Lords, que estava tendo uma verdadeira retrospectiva de sua carreira por lá (detalhe: os filmes não poderiam ser exibidos, já que haviam sido banidos depois de constatado que a atriz era menor de idade quando os fez). Foram vários os títulos estrelados por ela, em sequencia, um verdadeiro festival, mas infelizmente, devido à minha hojeriza à experiência em si, vi apenas um.

Hoje, cinema por aqui só em shopping-centers. Não têm o mesmo glamour mas, por outro lado, têm muitas salas (são os chamados multiplex), o que nos dá mais opções. Como tudo o mais na vida, há os prós e os contras. A lamentar mesmo, realmente, apenas a total falta de salas no interior do estado. Mas antes mesmo da chegada do primeiro multiplex, o Cinemark do Shopping Jardins, funcionaram por um bom tempo, em paralelo aos cinemas de rua, no Shopping Riomar, dois cinemas do tradicional Grupo Severiano Ribeiro. Ainda tentei realizar uma antiga fantasia de transar numa sala de cinema por lá quando soube que iria fechar. Acertei tudo com uma amiga com a qual “ficava” mas demos com a porta na cara – ou fechou antes da data anunciada ou nós que nos atrapalhamos e ficamos, literalmente, na mão – ou não, não lembro se consumamos o ato em outro local menos excitante porém mais apropriado ao pudor e aos bons costumes.

Depois disso, por saudosismo dos cinemas de rua, principalmente, passei a freqüentá-los todas as vezes em que viajava para cidades em que eles ainda existiam. Lembro que assisti ao “Titanic” de James Cameron em 1998 num dos vários cinemas (alguns belíssimos) do largo do Machado, no Rio de Janeiro. Também no Rio, já em 2005, vi “Cidade Baixa” no reformado “Cine Odeon”, na Cinelândia. Em São Paulo assisti “Falcão Negro em perigo” de Ridley Scott num cinema do centro com as pernas para cima para não ser mordido por uma das inúmeras ratazanas que passeavam livremente pelo local. Já em Recife, tive a honra de freqüentar, por pelo menos uma sessão, o majestoso Cinema São Luiz, de frente para o Rio Capiberibe. Neste caso o que interessava nem era o filme em si (aquele do ratinho simpático adotado por uma família de humanos, cujo nome nem lembro no momento), mas a sala, com sua suntuosa decoração de mármore, vitrais e lustres. Realmente exuberante. Já não tão luxuoso era o Cinema Glauber Rocha, no centrro de Salvador, onde vi “AI – Inteligência Artificial” com o nariz ardendo devido ao cheiro de mofo. Ou as simples porém simpáticas e aconchegantes salas dos cinemas de rua de Goiânia onde eu vi o capítulo final da trilogia “Matrix” e o primeiro filme da série “Os Normais”.

por Adelvan Kenobi

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Avatar (e Star Wars) - O Triunfo da Imagem
No visual exuberante e no espírito inovador, Avatar é uma revolução comparável a "Guerra nas Estrelas". No enredo, os dois filmes exaltam um mesmo ideário: a contracultura dos anos 60
Por João Gabriel de Lima
Fonte: Revista Bravo! - Fevereiro/2010
De tempos em tempos uma tribo alienígena desce de uma nave espacial e balança a história do cinema. Isso aconteceu, por exemplo, em 1977 - a nave se chamava Millennium Falcon e um de seus ocupantes era o peludo Chewbacca, espécie de elo perdido entre o homem e o macaco. Na ocasião, Guerra nas Estrelas propôs uma nova maneira de fazer e comercializar filmes. Agora, os ocupantes da nave são índios azuis vindos diretamente do planeta Pandora. Avatar, maior sucesso de bilheteria da história, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme na categoria Drama e candidato a bicho-papão do Oscar, é a maior revolução do cinema desde Guerra nas Estrelas. Quando a saga que opunha Luke Skywalker a Darth Vader foi lançada, a maior crítica de filmes da história da imprensa americana - Pauline Kael, da revista The New Yorker - escreveu que o cinema, para o bem e para o mal, nunca mais seria o mesmo. Do mesmo modo, Avatar parece destinado a dividir o invento dos irmãos Lumière em antes e depois. Há mais semelhanças entre os dois filmes do que pode supor a impenetrável filosofia Jedi - ou vá lá, a peculiar compreensão do mundo dos azulados índios Na'vi.
Quando se fala em revolução, não se trata apenas de uma questão estética. Ela existe, mas é secundária. Guerra nas Estrelas e Avatar se parecem, antes de qualquer outra coisa, por propor soluções originais para dilemas da indústria cinematográfica em suas respectivas épocas. Quando Guerra nas Estrelas foi lançado, o cinema americano vivia uma fase de excelentes diretores - Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Michael Cimino, Steven Spielberg - mas, exceto por algumas produções deste último, havia perdido a conexão com o mundo da cultura pop. Era um tempo em que o Oscar era dominado por filmes "adultos", muitos deles meditações sobre a Guerra do Vietnã, o atoleiro em que os Estados Unidos haviam se metido na época. George Lucas, diretor de Guerra nas Estrelas, queria voltar a fazer cinema para o público jovem. Sobretudo, queria fazer filmes que fossem mais do que filmes. Produções que - como ocorria em outras áreas da cultura pop, como o desenho animado ou os quadrinhos - fossem o ponto de partida para a venda de produtos: brinquedos, roupas, máscaras e os recém-inventados videogames.
Guerra nas Estrelas foi pensado com essa finalidade. E o resultado não poderia ser melhor. Foi o primeiro filme da história a faturar mais com merchandising do que com bilheteria - na época do lançamento, os três primeiros longas da série geraram 1,3 bilhão de dólares, enquanto os badulaques criados a partir da história, como a máscara de Darth Vader, arrecadaram 4 bilhões. O sucesso foi tanto que, na década seguinte, o cinema se voltou para o público para o qual Lucas olhara de forma pioneira: o adolescente do sexo masculino, que pagava ingresso e ainda comprava as traquitanas.
Avatar, do mesmo modo, é uma resposta a um dilema do nosso tempo, este muito mais dramático: a própria existência do cinema. Refletindo sobre o assunto, o jornalista David Denby, que sucedeu Pauline Kael como crítico da mais influente publicação cultural americana, criou a expressão "agnóstico de plataforma". Ele se refere a toda uma geração que não vê diferença entre assistir a um filme no cinema ou na tela de um computador, ou mesmo no microvisor de um telefone celular. Se os agnósticos de plataforma se tornassem maioria, escreveu Denby, os cinemas estariam destinados a acabar, e com eles toda uma fantástica tradição de obras de arte pensadas para a tela grande - ou alguém imagina assistir a clássicos como A Doce Vida, de Federico Fellini, ou O Leopardo, de Luchino Visconti, na tela de um iPhone?
CERVEJA LIGHT E CALÇA JEANS
Avatar é uma das respostas possíveis a esta questão. O filme dá um xeque-mate nos agnósticos de plataforma ao oferecer ao espectador uma experiência estética que só é viável dentro de uma sala de projeção. Apenas em frente à tela grande é possível sentir maravilhamento e medo quando harpias coloridas dão vôo rasante sobre os espectadores - ou quando, assumindo o ponto de vista dos índios que pilotam as aves, nos vemos dando mergulhos acrobáticos em clareiras de uma selva exuberante. O filme ressuscita a técnica do filme em terceira dimensão, que agora finalmente funciona direito - nada parecido com os ineficazes óculos de duas cores usados na pré-história do gênero. Assim como Guerra nas Estrelas teve vários sucessores, já estão anunciados filmes infanto-juvenis feitos com a mesma técnica de Avatar - séries como Shrek e Toy Story ganharão suas versões em três dimensões. Até George Lucas planeja relançar sua saga em 3D.
Outra semelhança entre Avatar e Guerra nas Estrelas é que os dois filmes abraçam um ideário que vem resistindo ao tempo de forma surpreendente: o da contracultura dos anos 60. A saga de George Lucas opunha um Império militarizado, comandado por Darth Vader, a um bando de hippies que acreditavam em coisas como pensamento positivo e percepção extra-sensorial - a chamada "força". O Império era eficiente e planejado. Os hippies, liderados por um velho guru, Obi-Wan Kenobi, e seu epígono, Luke Skywalker, eram desorganizados e intuitivos. Avatar segue a mesma linha, acrescentando pitadas de discurso ecológico. No filme, uma grande corporação quer expropiar índios de suas terras para explorar economicamente um minério valiosíssimo - ao qual o diretor James Cameron deu o irônico nome de "unobtainium", algo que não se pode obter. Para conseguir o seu intento, ela contrata um exército de mercenários e cria uma fantástica tecnologia de espionagem, na qual os informantes podem assumir corpos de índios -são eles os chamados "avatares".
Estão dadas as condições para um desfile de clichês politicamente corretos. A vida comunitária é boa, mas as grandes corporações são más. A ciência - os pesquisadores que querem usar os avatares com fins pacíficos - é "do bem", enquanto a tecnologia é "do mal". Sobretudo, não há espaço para nuances. Quando fez Guerra nas Estrelas, George Lucas disparou uma pedrada no relativismo moral dos anos 70. Ele queria, segundo declarou em entrevistas, fazer um filme onde fosse fácil distinguir o bem do mal, como nos antigos faroestes. Avatar segue a mesma linha. A cada quadro (se é possível chamar de quadro uma imagem que se projeta sobre o espectador) o diretor James Cameron deixa bem claro para quem devemos torcer.
Os diálogos vão na mesma direção. Numa cena em que alguém fala em intercâmbio de cultura entre nós, terráqueos, e os índios puros e idealistas que habitam o planeta Pandora, o protagonista do filme, o ex-fuzileiro naval Jake (interpretado pelo ator Sam Worthington), diz: "O que teríamos para oferecer a eles? Cerveja light e calça jeans?". Claro que ele poderia falar também numa sociedade menos machista (os índios azuis tratam suas mulheres como fazíamos na época das cavernas), ou em realizações artísticas como a Capela Sistina de Michelangelo ou a Nona Sinfonia de Beethoven. Mas aí o filme teria espessura, complexidade, faria pensar - o que não se enquadra na regra do faroeste que baliza tanto Avatar quanto Guerra nas Estrelas.
ROBÔS DE "METRÓPOLIS"
Outra coisa que George Lucas elevou à máxima potência e James Cameron de certa forma segue são as referências à história do cinema. Em Guerra nas Estrelas, os robôs são idênticos aos de Metrópolis (1927), clássico do diretor alemão Fritz Lang, enquanto os figurinos do mestre Obi-Wan Kenobi e demais cavaleiros Jedis são claramente copiados do filme Lawrence da Arábia (1962), a obra-prima do britânico David Lean. Nos anos 70, isso se chamava citação e era considerado "pós-moderno". Avatar, por seu turno, faz um verdadeiro inventário do cinema americano politicamente correto, com referências que vão de Pocahontas (1995) a Dança com Lobos (1990). As referências, no entanto, estão mais no tema abordado - o homem ocidental que se encanta com uma cultura diferente - do que no visual e figurinos.
Além da sensível distância no capítulo efeitos especiais - usando o metro de Avatar, até agora o maior triunfo da era da computação gráfica, as naves espaciais de papelão de Guerra nas Estrelas parecem ainda mais toscas - a grande diferença entre os dois filmes é que, em tempos céticos como os atuais, não se acredita mais em produções que determinem um rumo único para o cinema. Nos anos 70, os intelectuais que na época eram chamados de "apocalípticos" previram que Guerra nas Estrelas e seus sucessores varreriam do mapa as produções calcadas na dramaturgia adulta - ela seria substituída por arrasa-quarteirões com cara de história em quadrinhos. Isso não aconteceu: diretores devotados ao diálogo, como o americano Woody Allen, ou cultores do chamado "filme de arte", como o espanhol Pedro Almodóvar, continuaram existindo e fazendo sucesso. Ao propor, pela via do visual, uma nova experiência estética ao espectador, Avatar é uma resposta poderosa aos dilemas do cinema atual. Na época incerta e fascinante que vivemos, no entanto, sabemos que não é nem será a única.

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Avatar e Amor Sem Escalas - Imagem X Palavra
Já se disse várias vezes que o cinema-espetáculo engoliria os outros gêneros, mas o chamado "filme de diálogo" continua forte. Avatar e Amor Sem Escalas expressam, hoje, essa saudável disputa
Por João Gabriel de Lima
Fonte: Revista Bravo! - Fevereiro/2010
"Rose! Jack! Jack! Rose! Rose! Jack!". No filme Titanic (1997), o personagem Jack, interpretado por Leonardo diCaprio, chama por sua amada Rose 51 vezes. Já Rose, vivida por Kate Winslet, pronuncia, grita ou sussurra o nome de seu namorado Jack 78 vezes (curiosamente, nenhuma delas na tórrida cena de amor em que a moça embaça o vidro de um calhambeque). Apesar do diálogo repetitivo e mal escrito, Titanic era até o mês passado o recordista de bilheteria em todos os tempos, com um faturamento de US$1.8 bilhão. Está em cartaz no Brasil o filme que o superou: Avatar, que em fins de janeiro bateu essa marca impressionante. Além do sucesso, Titanic e Avatar têm em comum o diretor James Cameron, feliz maestro dos filmes mais assistidos da história. E também a ruindade dos diálogos. Só que, em lugar de "Jack! Rose! Rose! Jack!", a saga dos índios azuis abusa dos clichês politicamente corretos. Daria para fazer um best-seller de auto-ajuda com eles.
Claro que os espectadores que deixaram mais de US$3 bilhões na bilheteria dos dois filmes não estão loucos. Titanic e Avatar não podem ser julgados apenas pelas falas de seus personagens. As duas produções - cada uma em sua época - proporcionam ao público o melhor do que se convencionou chamar de "cinema-espetáculo". Além da história de amor entre os protagonistas (acho que não é o caso de repetir o nome deles), Titanic enchia os olhos com a reconstituição do navio mais luxuoso de todos os tempos, e com o impressionante realismo das cenas de naufrágio. Já Avatar ressuscita o cinema tridimensional e propõe uma experiência visual única. O crítico de cinema David Denby, da revista "The New Yorker", escreveu que se trata da produção hollywoodiana plasticamente mais bela em todos os tempos.
O adjetivo "hollywoodiano" costuma ser associado a grandes momentos do cinema-espetáculo como Titanic e Avatar, mas fazer uma ligação imediata entre filmes americanos e produções grandiosas é injusto. Fitas de orçamento altíssimo são exceção, e não regra, em qualquer cinematografia. Até porque não são necessariamente um bom negócio. ...E O Vento Levou (1939) foi um tremendo sucesso, mas um ponto fora da curva. Tentou-se repetir o fenômeno várias vezes com superproduções como Cleópatra (1963), A Maior História De Todos Os Tempos (1965) e A Bíblia (1966) - e todas elas levaram milhões de dólares à tumba. Para não falar de O Portal do Paraíso (1980), que praticamente acabou com a carreira de Michael Cimino, considerado um dos quatro grandes talentos do cinema americano dos anos 70 - os outros eram Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e Martin Scorsese. Em valores da época, o filme custou US$50 milhões. Faturou apenas US$1,5 milhão.
Executivos de Hollywood tremem ao ouvir o nome de Cimino, e até recentemente tinham o mesmo pavor de Cameron (que, antes de acertar a mão com Titanic, protagonizou fiascos como o terror submarino O Segredo do Abismo, de 1989). No passado, no entanto, os olhos dos executivos brilhavam à menção do nome de Billy Wilder, o maior roteirista de todos os tempos (autor de Crepúsculo dos Deuses, de 1950 e Quanto Mais Quente Melhor, de 1959, entre outros). A mesma indústria capaz de financiar superproduções atraiu para Hollywood alguns dos melhores dramaturgos do mundo, como o austríaco Wilder - e os diálogos afiados se tornaram a marca do cinema americano tanto quanto a grandiosidade. No negócio das imagens, palavras valem milhões. Em 2006, um grupo de produtores pagou US$250 mil por um roteiro que, com poucas locações e bons atores, daria um filme de, no máximo, US$8 milhões. Depois de encantar a crítica no Festival de Sundance, Pequena Miss Sunshine faturou US$40 milhões na bilheteria, cinco para cada dólar investido. Histórias de sucesso como essa são mais comuns do que superproduções que dão certo.
Existe, assim, uma saudável dualidade no cinema americano. De um lado, as produções "para ver" - os filmes caros, grandiosos, que enchem os olhos. De outro lado, os filmes "para ouvir" - aqueles que ganham o jogo pela força dos diálogos. Nas premiações deste ano cada tendência terá um forte representante. De um lado do ringue, o já citado Avatar, que já ganhou o prêmio máximo - melhor drama - do Globo de Ouro, a prévia do Oscar (leia texto na página 64). No outro corner está Amor Sem Escalas, de Jason Reitman, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no mesmo Globo de Ouro (leia texto a partir da página 60). Sempre que aparece uma superprodução que desafia padrões, como Avatar, ressurgem os comentários segundo os quais o cinema se aproxima dos jogos de computador e negligencia os temas "adultos", desenvolvidos na boa dramaturgia. Bobagem. Filmes "de espetáculo" e filmes "de diálogo" sempre existirão. Numa oposição saudável que gera inovações dos dois lados e traz vitalidade ao cinema.

2 comentários:

Rodrigo Amaral disse...

Meu velho, que post sensacional! Viajei nas lembranças aqui. Abraço!

Juliano Mattos disse...

E aí Adelvan, beleza? Ando meio sumido porque estou em Praga. É só neve por aqui. Peguei o inverno mais rigoroso do novo milênio, estou aqui há 1 mês e só esta semana começou a ter temperaturas acima de 0º grau. Antes era só -15º, -10º, e neve o tempo todo. Não nevava assim por aqui há tempos, dizem.

Bem, eu vi Avatar com a Martina (na verdade ela me obrigou). Mas não foi no cinema, baixamos pela net e vimos no computador. Chegamos a reservar cadeiras no cinema mas ao chegarmos lá o filme (em 3D) não era legendado, era dublado em checo, então desistimos. Mesmo a Martina, queria ver o filme com as falas originais, claro. O jeito foi ver em casa.

Adorei o termo "cinemão pipoca" hahahaha. Cara, o filme me surpreender numa coisa: o tema. Eu já imaginava que a animação fosse assim, então não fiquei muito surpreendido, mas pensava que o tema seria mais infantil, pensei que fosse um típico fairy tale estadunidense, mas não. O filme faz uma claríssima alusão ao imperialismo dos países centrais, que colonizaram e devastaram povos indígenas e suas culturas para poderem rapinar seus recursos naturais. Nisso achei bem legal. E achei muito interessante a forma como os papéis foram invertidos, ou seja, nos filmes de hollywood os humanos são sempre os bonzinhos e lutam contra seres malvados de outros planetas para salvarem a maravilhosa Terra hehehe. Em Avatar os humanos são os vilões e são derrotados no final. Achei legal isso.

Mas, enfim...eu nunca daria um prêmio de melhor filme para Avatar, numa escala de 0 a 10, dou um 6.

Fora isso, nas últimas duas semanas eu e a Martina fizemos várias sessões de filmes aqui em casa e também no próprio cinema. Em casa vimos A Lista de Schindler, O Pianista, Invictus, Blind Side, An Education e After Hours. Os dois sobre o Holocausto eu já tinha visto, mas a Martina não. Sobre os demais, Blind Side está concorrendo ao Oscar de melhor filme, mas achei meio fraco. Invictus é legal, é sobre a posse de Nelson Mandela na África do Sul e como ele se relacionou com a seleção nacional de Rugbi (composta por brancos e símbolo nacional da parte branca da população), evitando que houvesse vingança contra os brancos pelos anos de Apartheid. After Hours é um filme de Scorsese dos anos 80, muito louco, você precisa ver. É um cara que por acaso vai até o bairro de Soho em Nova Iorque e não consegue sair de lá devido a uma série de acontecimentos estranhos.

No cinema vimos dois filmes espanhóis, parte de um festival de cinema espanhol que está tendo aqui em Praga, chamado La Película. Primeiro vimos Un Novio para Yasmina, sobre imigrantes árabes no sul da Espanha, e o outro foi Camino, inspirada em fatos reais, sobre uma menina que faz parte de uma família membro da Opus Dei. O filme fala sobre os limites entre a fé e o fanatismo. É bastante interessante. A menina sofre de uma doença grave sem cura, e após ser internada num hospital católico, os diretores dizem à mãe da menina que a doença da filha é uma dádiva de Deus, e que ela deve se alegrar por isso.

Bem, na próxima semana estarei regressando a Portugal, infelizmente. Já vi que Varukers vai tocar no Abril. Você vai? Abraço!