Há alguns anos uma polêmica envolveu o âncora e editor do Jornal Nacional, Willian Bonner, e a revista “Carta Capital”*. Tudo começou quando a mesma publicou um texto de Laurindo Lalo Leal em que ele descreve uma reunião de pauta do telejornal de maior audiência do país à qual teve acesso na qual o referido repórter escolhia as matérias que iriam ao ar através da seguinte pergunta: “Será que o Hommer (não preciso explicar a você quem é o Hommer, né) vai entender isso” ? Sem meias palavras: trata seu expectador como um quase débil mental que não tem a menor condição de tirar conclusões por conta própria, precisando, portanto, ter tudo mastigado, escarrado e cuspido didaticamente em sua cara para que entenda o conteúdo do que está sendo mostrado na tela – conteúdo este no qual, diga-se de passagem, está quase sempre embutido, subliminarmente, todo um arcabouço ideológico que, espera-se, seja absorvido pelo receptor sem qualquer senso crítico.
Pois bem: Foi exatamente isso que Guel Arraes, outrora tido (inclusive por mim) como o mentor de uma verdadeira “ilha de qualidade” e criatividade em meio ao mar de obviedades que nossa “Vênus platinada” produz diariamente, fez com a sensacional “peça que virou novela que depois virou seriado” “O Bem Amado”, de Dias Gomes. O filme, em cartaz nos cinemas de todo o Brasil, só não é um lixo completo porque Marco Nanini conseguiu a proeza de incorporar a figura já clássica de Odorico Paraguassu de uma maneira quase tão perfeita e genial quanto seu mais célebre intérprete da TV, o saudoso Paulo Gracindo. Todo o resto é descartável, com especial destaque (negativo, claro) para a trilha sonora, que tem (oh! Que surpresa!) Caetano Veloso e a vexaminosamente xaroposa Malu Magalhães. Mesmo alguns excelentes atores, como Matheus Nachtergale e José Wilker, nos papéis de Dirceu Borboleta e Zeca Diabo, respectivamente, não conseguiram fazer jus às versões televisivas. Culpa, provavelmente, do roteiro confuso, da direção frouxa, da edição “picotada” e, principalmente, dos péssimos diálogos, declamados de forma absolutamente anti-naturais por alguns envolvidos, como Caio Blat (que rende muito quando é bem dirigido) e Maria Flor. Já Tonico Pereira, coitado, parece que se confundiu: pensou que estava gravando mais um episódio de “A grande família” e repetiu todos os trejeitos de seu personagem da séria, o Mendonça (sensacional, diga-se de passagem).
Lamentável que uma obra tão grandiosa e que merecia já a algum tempo ser resgatada do limbo dos arquivos empoeirados tenha tido esse tratamento na tela grande. Ao ver o filme, pensei como seria legal se, pelo menos, o pastiche fizesse sucesso ao ponto da Globo se animar e lançar, finalmente, os DVDs com a série dos anos 80 (não perdia um episódio) ou, quiçá, a telenovela dos anos 70 (esta eu era muito novinho para ter visto). Estava achando bem difícil, até porque a globo não publicou no formato ainda nenhuma de suas telenovelas quando me deparo, navegando pela net, com o anúncio do lançamento dos DVDs de nada mais nada menos que “Roque Santeiro”, um verdadeiro clássico da teledramaturgia brasileira, também de autoria de Dias Gomes. (NOTA: Hoje - junho de 2013 - já existem várias novelas da Globo disponíveis em DVD. Inclusive "O Bem Amado").
Roque Santeiro foi, provavelmente, a melhor novela que já assisti. Acompanhei na época e quando foi reprisada, no “Vale a pena ver de novo”, religiosamente – acho que não perdi um capítulo sequer. Inesquecíveis os gritos histéricos da “Viúva Porcina”, o chacoalhar dos relógios e pulseiras do “Sinhozinho Malta” (“tou certo ou tou errado?”), interpretado pelo melhor ator brasileiro vivo, Lima Duarte; a pompa do “professor Astromar” (“posso penetrar?””penetre, professor, penetre”) e, claro, as pernas de Claudia Raia, às voltas com os ataques do misterioso lobisomem ao som da voz cavernosa de Zé Ramalho em um de seus últimos hits, “Mistérios da meia-noite”. Até o hoje ator pornô “aposentado” (? Nem sei se ele ainda está no “ramo”), Alexandre Frota, marca presença – péssimo ator, é verdade, mas é um cara divertido.
E o que dizer do Beato Salu e seus xingamentos bíblicos? “Meretriz ! Mulher de Putifar !”. Inesquecível.
Comparei, reassistirei e guardarei para as gerações futuras.
Abaixo, mais sobre Dias Gomes e polêmicas televisivas.
Apresentador compara telespectadores do Jornal Nacional a personagem da
série ‘Os Simpsons’ e pai em ‘A Grande Família’. Bonner se justifica
lembrando a “necessidade de sermos rigorosamente claros no que
escrevemos para o público” e Laurindo Lalo Leal, autor do texto que
gerou a polêmica, rebate: “Fui editor de diferentes telejornais e por
onde passei nunca vi uma seleção de matérias feita de forma tão rasteira
e superficial, tendo como referência apenas as opiniões e
idiossincrasias do editor-chefe, como a que presenciei no JN”. Leia aqui
com compilação preparada pela redação, em dezembro de 2005
Pode
ser — essa hipótese não pode ser descartada — que William Bonner,
apresentador do Jornal Nacional, da TV Globo, não saiba quem é Homer
Simpson. Como todo personagem, Homer foi pensado com uma intenção. Matt
Groening, criador da série ‘Os Simpsons’ (1989), tinha algo em mente.
Sou fã da série, então tenho algumas dicas.
Para
começar, indico a síntese da própria Carta Capital (clique na imagem):
“Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e
bebendo cerveja”.
Homer é, na interpretação de quase
todos os que conhecem e admiram a série, o típico pai de família que não
conhece nada sobre o mundo, é obtuso e está sempre “disposto” a...
fazer o mínimo de esforço, seja mental ou físico. É muito parecido com
muitas pessoas que conhecemos. Creio que não era isso o que Bonner tinha
em mente. Mas fica a pergunta: será que involuntariamente ele não
acertou, quando qualificou seus telespectadores desta forma? A matéria
do professor Laurindo Lalo Leal Filho dá dicas de que sim, é por aí.
Foi
Homer que, por exemplo, opinando sobre o Brasil de Bonner, disse em um
episódio, ao planejar suas próximas férias com a família: “Eu adoraria
voltar ao Brasil, mas soube que o problema dos macacos está cada vez
pior por lá”.
Ele também é um “ótimo” pai. Carinhoso
(mas nem tanto, pois às vezes estrangula seu filho Bart), é certo, mas
isso basta? Ele diz coisas como “Crianças, vocês tentaram e falharam
miseravelmente. A lição que aprenderam é: nunca tentem”. Para Lisa, sua
filha inteligente e consciente dos problemas mundiais, costuma dizer
coisas como: “Lisa, minha filha, espero que você tenha aprendido a
lição: nunca ajude ninguém!”
Também é, como o
brasileiro, um homem profundamente ‘religioso’: “Eu nunca fui um homem
de rezar muito, mas, se você estiver aí em cima me ouvindo, por favor,
me salve, Super-Homem”.
Ele também é um filósofo:
“Nunca diga qualquer coisa a não ser que tenha certeza que todo mundo
pense o mesmo”; Consciente de sua condição na sociedade: “Sou um homem
branco, idade média de 29 a 49 anos, todos ouvem minhas sugestões mesmo
sendo ridículas” (Pega uma lata de amendoins e chicletes juntos);
Saudável: “Um viva ao álcool, a causa e a solução de todos os nossos
problemas!” E de uma cultura extremamente refinada: “A TV me respeita.
Ela ri comigo e não de mim”.
Sérgio
Ripardo escreve na Folha Online: “(...) O avanço de "Prova de Amor" no
ibope, ameaçando a liderança do "JN", lança a seguinte questão: o que
está acontecendo com Homer Simpson? Por que ele prefere ver o desfile de
corpos sarados nas praias cariocas, mostrado pela novela da Record, em
vez das notícias do "JN" e o faroeste "Bang Bang", que antecede o
telejornal?
É possível que o "JN" reforce o espírito
"verão" e altere logo sua grade de notícias, ficando mais apelativo,
sensacionalista, atraindo esse público. É o que manda a receita "vamos
dar ao povo o que o povo quer". Não é a primeira vez que o "JN" é
desafiado pela concorrência. Já infestou o telejornal com reportagens
sobre bichinhos para evitar a fuga do telespectador para o "mundo cão"
dos programas policiais, estilo "Aqui Agora", do célebre jornalista Gil
Gomes”.
Em
uma enquete na Folha, 55% dos participantes concordaram que a “TV lida
com públicos de diferentes idades e escolaridades. Um telejornal tem de
ser didático e abordar assuntos de interesse geral. Ele não quis chamar o
público de burro.” Para 29%, a interpretação foi outra: “Bonner
subestimou a inteligência do público, reproduzindo um preconceito
elitista. Sua atitude reflete a arrogância atribuída ao poder de
influência da Globo no país”.
Matéria
assinada pelo jornalista e professor Laurindo Lalo Leal Filho ("De
Bonner para Homer"), publicada na edição com data de 5/12 da revista
CartaCapital, provocou uma resposta de William Bonner, editor-chefe do
Jornal Nacional.
Instado pelo jornalista Claudio
Tognolli (de quem foi colega de turma na ECA-USP) a comentar o texto de
Lalo, Bonner redigiu a manifestação reproduzida abaixo. Ao responder o
pedido deste Observatório para que autorizasse a publicação do texto,
Bonner comentou: "Sinto-me numa situação kafkiana. Meu discurso e minha
atitude em defesa de nossa responsabilidade social viraram armas contra
mim. Ou contra o que represento. Ou contra a empresa que dispõe de minha
força de trabalho. Sei lá a que atribuir isso". Leia aqui a resposta de
Bonner. Ou abaixo:
“No dia 23 de novembro, recebemos,
no JN, a visita de professores universitários. Eles assistiram a uma
reunião matinal, em que se esboça uma previsão da edição daquele dia. E
me ouviram fazer algumas considerações sobre nosso trabalho.
Em palestras que ministro a estudantes que nos visitam todas as semanas, faço o mesmo.
Nestas
ocasiões, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos
rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de
todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o
didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve
aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que
seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem
Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois
casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores,
conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada
de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos
mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de
que falo.
Mas o professor Laurindo tem uma visão
diferente de Homer. Em vez do trabalhador (numa usina nuclear), o
acadêmico o vê como um preguiçoso. Em vez do chefe de família, o
professor Laurindo o vê como um comedor de biscoitos. Esta imagem não é a
que tenho – não é a disponível, num texto bem-humorado, no site oficial
da série Os Simpsons, que faz graça do personagem, mas registra que
Homer é "um marido devotado e que, apesar de poucas fraquezas, ama a sua
família e é capaz de tudo para provar isso, mesmo que isso signifique
se fazer passar por tolo".
Não sei para quantos
professores e estudantes citei Homer, ou Lineu, como exemplo. Mas jamais
tive informação de que alguém guardasse imagem tão preconceituosa, tão
negativa do personagem do desenho.
Como profissional,
como defensor da nossa imensa responsabilidade social, sinto-me
profundamente envergonhado de me ver na obrigação de explicar isso. Como
trabalhador, pai de família protetor, meio Lineu, meio Homer, reconheço
humildemente meu fracasso no desafio de ser claro e objetivo para todos
os meus interlocutores daquela manhã.”.(William Bonner, jornalista e
editor-chefe do Jornal Nacional, dez/2005)
Comentários
à redação Consciência.Net sobre a resposta: “Eita! Nós jornalistas
sabemos que a resposta não colou, né?” (Da lista Ética na Mídia)
Alexandre
Alves, no mesmo fórum: “O que me impressiona é que a pauta e a versão
das notícias são autoritárias, mas todos os outros telejornais vão no
mesmo caminho. Em essência, as notícias e as análises dos telejornais da
Band, do SBT, da Record são idênticas às do JN. Para ser sincero, isso é
uma vergonha... Não estou defendendo o Bonner, só estou considerando
que nos demais canais a coisa não deve ser muito diferente”.
É
por aí. Mas tem uma outra coisa. A Globo tem uma estrutura
infinitamente maior. Jornalistas espalhados por todos os cantos desse
país e muitos recursos técnicos à disposição (coisa de quem tem
monopólio). Basta conversar com o pessoal que já trabalhou na Globo e em
outra emissora (não é o meu caso), o cara fica mal acostumado, reclama
da falta de estrutura, da falta de pessoal de apoio etc. Ou seja, o JN
tinha tudo para fazer um trabalho melhorzinho, mas não, sai ‘isso’. Quem
se informa pela Internet, que é mais independente, fica com indigestão
de ver..(GB)
Paula Batista também dá seu pitaco: “Necessidade de ser claro? Ei Bonner, acende a luz!!” :-)
Ela
diz: “Só faltou o editor do JN dizer que os "homer's" não entendem o
"Homer"... essa é a prova de que os telespectadores são "burros".
Convenhamos, assistir aos Simpsons é bem mais divertido e interessante
do que assistir ao JN. Será que o Bonner não está fazendo chacota, pelo
desenho ser concorrente do programa dele? Taí uma coisa pra se pensar. E
outra: a regra de ouro para os jornalistas - "Nunca menospreze a
inteligência do seu leitor, telespectador ou ouvinte", ou ainda, "não
compare seu telespectador a um Homer preguiçoso, que gosta de tomar
cerveja e comer rosquinhas enquanto assiste ao JN". Isso devia ser
incluído nos manuais, livros, etc, para ser ensinado nas faculdades de
jornalismo, assim as aulas ficariam bem mais divertidas, pelo menos”.
“O
debate que se realiza no Blue Bus em torno do meu artigo publicado na
Carta Capital desta semana - lista de notas abaixo - está ganhando uma
dimensao mais ampla, alcançando outros sites e algumas publicaçoes
impressas
Diante disso, vejo-me obrigado a voltar ao
tema porque ele começa a ser distorcido. A questao central nao é o
perfil do Homer Simpson (embora o personagem tenha sido usado várias
vezes pelo editor-chefe do JN como forma de caracterizar -
pejorativamente - o telespectador médio brasileiro) e sim a forma como
sao escolhidas as matérias que vao ao ar no telejornal de maior
audiência do país.
Fui editor de diferentes telejornais
e por onde passei nunca vi uma seleçao de matérias feita de forma tao
rasteira e superficial, tendo como referência apenas as opinioes e
idiossincrasias do editor-chefe, como a que presenciei no Jornal
Nacional.
Mostro no texto publicado pela revista que o
'outro lado' só é lembrado na reuniao de pauta quando se trata de uma
ameaça ao grande poder (caso do óleo barato da Venezuela para os EUA).
Nos demais nada é dito (ninguém lembrou das posiçoes do juiz de
Contagem, por exemplo, das reivindicaçoes dos grevistas do INSS ou dos
economistas que fogem da linha econômica ortodoxa).
Essa
é a questao central da matéria publicada. Agora que é engraçado ver o
editor-chefe do JN santificando o Homer, isso é. Se o Matt Groening
souber vai ficar preocupado. Afinal uma pessoa de tamanha influência no
Brasil nao consegue alcançar a complexidade do seu personagem.” Original
no BlueBus, 7/12/2005.
Eu só consigo
imaginar a cara dos criadores dos Simpsons caso ouvissem o Bonner
criticando a “imagem tão preconceituosa” de Homer... é o fim do
jornalismo como o conhecemos. No resto, ele não explica por que cortou
(em vez de deixar mais “claro e objetivo”) uma matéria com base no
argumento “essa o Homer não vai entender” e por que não há nenhuma
discussão de pauta, sendo a palavra final do WB, com sua “imensa
responsabilidade social”, conforme o texto do professor Laurindo.
Depois, lá na faculdade, nós da imprensa alternativa é que implicamos
com os caras..(GB, 6/12/2005)
Arte: Tribuna
da imprensaDeu na Tribuna da Imprensa, Laurindo mais a nota “William
Bonner ironiza crítica”, com a foto ao lado na primeira página do
online, com a legenda “Bonner disse que sua preocupação é dirigir-se com
didatismo a todos os telespectadores”.
Já Tutty
Vasques brinca, no sítio NoMínimo: “Fogo amigo - Não convidem William
Bonner e os Simpson para a mesma mesa. Homer, em especial, não gostou
nada de ser usado pelo jornalista como paradigma de telespectador médio
do "Jornal Nacional". Quem está muito chateada com toda essa história é a
Fátima Bernardes, que adora a Marge”.
Eliakim
Araújo, ex-âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e
noticiarista da Rádio JB, publicou no Direto da Redação (DR) em
8/12/2005:
“O professor Laurindo cita em seu artigo o
comportamento do editor-chefe ao recusar matéria da sucursal da Globo em
NY sobre a oferta do governo venezuelano para venda de petróleo a
preços mais baratos para atender comunidades carentes dos EUA. Assunto
da maior relevância naquele dia de novembro, e neste momento quando o
gás venezuelano já está atendendo a 8 mil famílias pobres do Bronx, em
Nova Iorque, como se pode ler na coluna de hoje do Eduardo Graça, aqui
mesmo, no DR.
Não sei qual o critério usado por Bonner
para recusar a matéria. Se foi político, é preocupante. Se não, foi um
grave erro de avaliação. Gostando-se ou não de Hugo Chávez, temos que
reconhecer sua importância no cenário político internacional. Ele hoje é
notícia em qualquer lugar do mundo. Não só porque preside um país que é
um dos maiores produtores de petróleo, como também porque é um dos
raros líderes a enfrentar a prepotência de Bush e seu desprezo pelas
regras internacionais de convivência.”
O
jornalista e professor da ECA-USP e do Unifiam-Faam, Claudio Tognolli,
registra em sua coluna, no Portal AOL, em 8/12/2005: “(...) Disso tudo
fica uma questão muito rasteira: quem é Homer Simpson? Lalo projetou
nele o que vê de pior na Globo. Bonner, também, projetou no velho Homer
algo que ele mesmo (Bonner) enxerga em si próprio: um trabalhador
preocupado com a família. Os psicanalistas lacanianos chamam essa
multiplicidade de papéis de spaltung, ou clivagem. São esses multitons
de percepção que nos tornam humanos, demasiadamente humanos.
Mas
tais multiplicidades também são usadas por maus políticos, quando
afundam atirando e encontram na autopiedade uma forma de sobrevivência.
Aí, ensaiam um papel que jamais tínhamos imaginado. Que tipo de Homer
será José Dirceu?”
No
mínimo curioso um dos trechos da carta de William Bonner, se
justificando por ter comparado o telespectador padrão do Jornal Nacional
com o Homer Simpson. Bonner disse ao Observatório da Imprensa o
seguinte: “Meu discurso e minha atitude em defesa de nossa
responsabilidade social viraram armas contra mim. Ou contra o que
represento. Ou contra a empresa que dispõe de minha força de trabalho.”
E
não é que nós já ouvimos isso antes... O ex-deputado José Dirceu, em
artigo publicado pouco antes de ser cassado na Câmara dos Deputados,
dizia que estava sendo julgado “pelo que represento na história da
esquerda, do PT e do governo Lula”. É bom lembrar que o JN, desculpe a
expressão, ‘desceu o sarrafo’ em Dirceu um dia após sua cassação, como
registrado aqui. E se jornalista pudesse ser cassado por quebra de
decoro jornalístico, será que Bonner iria para a rua pelo que
representa? Olha, esse mundo é redondo, mas está ficando cada dia mais
chato!.(GB, dez/2005)
"Bonner
diz que a linguagem que ele procura usar deve ser uma linguagem que
atinja e não afaste nem o intelectual e nem a pessoa sem escolaridade. A
Globo dele se preocupa em atingir os dois. Esta afirmação traz à
memória um outro texto da Globo que está transcrito no livro “A História
Real”, de Josias de Souza e Gilberto Dimenstein. Estávamos em 1994,
durante a campanha do FHC contra Lula. O comitê de propaganda da
campanha do tucano passou uma cartilha para FHC aprender a falar 'para a
maioria'. (...)"
Texto de Vito Giannotti, janeiro de 2006, para o Núcleo Piratininga de Comunicação.
(Wikipedia) Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido como Dias Gomes, (Salvador, 19 de outubro de 1922 — São Paulo, 18 de maio de 1999) foi um dramaturgo e autor de telenovelas brasileiro.
Essencialmente um homem de teatro, aos 15 anos Dias Gomes escreveu sua primeira peça, A Comédia dos Moralistas, com a qual ganharia o prêmio do Serviço Nacional de Teatro, no ano seguinte. Em 1942, sua peça Amanhã Será Outro Dia chega às mãos do ator Procópio Ferreira que, empolgado com a qualidade do texto, chama o autor para uma conversa. Embora tivesse gostado do que lera, tratava-se de um drama antinazista e Procópio achava arriscado levar à cena um espetáculo desse porte em plena Segunda Guerra Mundial. Quando questionado se não teria uma outra peça, de comédia talvez, Dias lembrou-se de Pé de Cabra, uma espécie de sátira ao maior sucesso de Procópio até então, e não hesitou em levá-la ao grande ator que, entusiasmado, comprometeu-se a encená-la.
Sob a alegação de que a peça possuía alto conteúdo marxista, Pé de Cabra seria proibida no dia da estreia. Curioso notar que, embora anos depois o autor viesse a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro, até então Dias Gomes nunca havia lido uma só linha de Karl Marx.
Graças à sua influência, Procópio consegue a liberação da peça, mediante o corte de algumas passagens, e a mesma é levada à cena com grande sucesso. No ano seguinte, Dias Gomes assinaria com Procópio aquele que seria o primeiro grande contrato de sua carreira, no qual se comprometia a escrever com exclusividade para o ator. Desse período nasceram Zeca Diabo, João Cambão, Dr. Ninguém, Um Pobre Gênio e Eu Acuso o Céu.
Infelizmente nem todas as peças foram encenadas, pois logo Dias e Procópio se desentenderam por sérias divergências políticas. Refletindo o pensamento da época, Procópio não concordava com as preocupações sociais que Dias insistia em discutir em suas peças. Tais diferenças levariam o autor a se afastar temporariamente dos palcos e ele passou a se dedicar ao rádio.
Foi no ambiente radiofônico que Dias Gomes travou contato pela primeira vez com aquela que viria a se tornar sua primeira esposa, a então desconhecida Janete Emmer Janete Clair. Com ela, teria três filhos: Alfredo Dias Gomes, Guilherme Dias Gomes[1] e Denise Emmer[2].
De 1944 a 1964, Dia Gomes adaptou cerca de 500 peças teatrais para o rádio, o que lhe proporcionou apurado conhecimento da literatura universal.
Em 1960, Dias Gomes volta aos palcos com aquele que viria a ser o maior êxito de sua carreira, pelo qual se tornaria internacionalmente conhecido: O Pagador de Promessas. Adaptado para o cinema, O Pagador seria o primeiro filme brasileiro a receber uma indicação ao Oscar e o único a ganhar a Palma de Ouro em Cannes.
Em 1965, Dias assiste, perplexo, à proibição de sua peça O Berço do Herói, no dia da estreia. Adaptada para a televisão com o nome de Roque Santeiro, a mesma seria proibida uma década depois, também no dia de sua estreia. Somente em 1985, com o fim do Regime Militar, o público iria poder conferir a Roque Santeiro - que, diga-se de passagem, viria a se tornar uma das maiores audiências do gênero.
Com a implantação da Ditadura Militar no Brasil, em 1964, Dias Gomes passa a ter suas peças censuradas, uma após a outra.
Demitido da Rádio Nacional, graças ao seu envolvimento com o Partido Comunista, não lhe resta outra saída senão aceitar o convite de Boni, então presidente da Rede Globo, para escrever para a televisão.
De 1969 a 1979 Dias Gomes dedica-se exclusivamente ao veículo, no qual demonstra incomum talento.
Em 1972 Dias Gomes levaria o povo para a televisão ao ambientar Bandeira 2 no subúrbio carioca.
Em 1973 escreveu a primeira novela em cores da TV brasileira, O Bem Amado.
Em 1974 já falava em ecologia e no crescimento desordenado da cidade com O Espigão.
Em 1976, com Saramandaia, abordaria o realismo fantástico, então em moda na literatura.
O fracasso de Sinal de Alerta, em 1978, leva Dias a se afastar do gênero telenovela temporariamente.
Ao longo de toda a década de 80, Dias Gomes voltaria a se dedicar ao teatro, escrevendo para a televisão esporadicamente. Datam desse o período os seriados O Bem Amado e Carga Pesada (apenas no primeiro ano), e as novelas Roque Santeiro e Mandala, das quais escreveria apenas parte.
Viúvo de Janete Clair, que morrera um ano antes, em 1984 Dias casa-se com a atriz Bernadeth Lyzio, com quem tem duas filhas: Mayra Dias Gomes (escritora) e Luana Dias Gomes .[3]
Nos anos 90, Dias Gomes viraria as costas de vez para as telenovelas, dedicando-se única e exclusivamente às minisséries.
Em meio à preparação de mais um trabalho para a televisão, a minissérie Vargas - baseada em sua peça Dr. Getúlio, Sua Vida, Sua Glória -, Dias Gomes morre num trágico acidente automobilístico, ao sair de um restaurante no centro de São Paulo.
Além da autoria de 13 novelas - entre elas "Roque Santeiro", "O
Bem-Amado" e "Saramandaia" - e 3 minisséries, entre outras tantas
colaborações na TV, o dramaturgo
deixou uma obra extensa também no quesito família. Com
, seu par na vida e nas tramas globais, ele se casou em 1950 e teve 4 filhos:
. Do segundo casamento, em 1985, com
, que fizeram uma compilação de entrevistas do pai e as reuniram no
livro "Dias Gomes", lançado em 19 de outubro, dia em que ele completaria
90 anos, pela editora Azougue.
, Mayra, a mais velha, conta da vontade de homenagear o pai e das
lembranças que guarda dele, que morreu em um acidente de carro quando
ela tinha 11 anos, em maio de 1999. Suas entrevistas foram o que ficou
para ela saber o que ele pensava de muitos assuntos que ainda não a
interessavam quando ele partiu.
Meu pai faleceu quando eu tinha onze anos de idade; minha irmã tinha
oito. Com essa idade, eu nunca havia conversado com ele sobre diversos
assuntos que hoje me fascinariam. Minha convivência com ele era a de
uma criança com seu pai. Eu e minha irmã nunca teríamos autoridade para
escrever uma biografia sobre Dias Gomes. Além disso, ele mesmo já o fez,
na biografia “Apenas Um Subversivo”. Esse livro foi a maneira que eu e
minha irmã Luana encontramos de conhecer melhor nosso pai. No processo
de pesquisa, pudemos entender melhor suas ideologias e sua trajetória.
Nós passamos a conhecê-lo através de suas próprias palavras, podendo
enxergar também a evolução de seu pensamento pela cronologia das
entrevistas. Trabalhamos nessa pesquisa por três anos, com a ajuda da
minha mãe e da editora. Resolvemos lançar agora porque meu pai estaria
completando 90 anos, e achamos que estava na hora de lembrar um dos
maiores dramaturgos que o país já teve.
Meu pai já não acompanhava as novelas quando faleceu, em 1999. O tempo
não permitia, ele escrevia diariamente. Na verdade, quando ele faleceu,
reclamava muito da falta de criatividade e inovação nas novelas, no
teatro, e nas artes em geral. Ele definia o período como decadente para
as artes. Eu estou morando nos Estados Unidos há quase quatro anos,
então não posso opinar sobre as novelas atuais. Quando estive no Brasil
no mês passado para o lançamento do livro, assisti o final de “Avenida
Brasil” e o início de “Salve Jorge”, mas não assisti o suficiente para
ter uma opinião formada.
Ele era um ateu convicto. Sua crença não influenciava em sua vida
diária, até porque minha mãe sempre foi católica, mas certamente está
imprimida em toda a sua obra, repleta de críticas à religião. Uma das
coisas mais interessantes que descobri durante a minha pesquisa é que
Dias Gomes teve uma formação católica rígida. Ele acreditava em Deus com
seriedade quando era jovem, e somente iniciou seus questionamentos
religiosos aos dezessete anos, ao ler um livro chamado “Formação da
mentalidade”, que o fez rever todas as suas crenças e se perguntar se
ele realmente acreditava na existência de Deus. Eu não acredito, por
exemplo, que ele trabalharia numa emissora que impusesse restrições
religiosas, ou em uma emissora que impusesse qualquer tipo de restrição
ao seu texto. No livro ele conta que sempre teve liberdade para escrever
o que quisesse dentro da Globo. Esse foi um dos motivos pelo qual ele
aceitou escrever para a televisão, apesar da crítica de muitos colegas,
que diziam que ele havia “se vendido” para a televisão.
: Acho que só ele poderia dizer quem eram seus atores preferidos. Sei
que ele era um grande fã do Paulo Gracindo, Lima Duarte, Fábio Junior e
Claudia Raia.
: Essa pergunta é realmente difícil! Precisam ser dois grandes atores, cativantes e engraçados.
: Não, não tenho nenhum envolvimento na adaptação de “Saramandaia”, mas estou muito ansiosa para ver o resultado.
: Não sei se seria a melhor Dona Redonda, mas imagino que a Claudia
Gimenez poderia fazê-la muito bem, porque ela é engraçada demais. Acho
que a Fabiana Karla também poderia ser ótima.
Eu adoraria assistir as minisséries “O Fim do Mundo” e “As Noivas de
Copacabana”, e as novelas “Mandala” e “Roque Santeiro”. Ele deixou
textos inéditos para a televisão e o teatro, mas ainda não sabemos o que
acontecerá com eles.
Como minha irmã Denise Emmer disse em uma de suas entrevistas recentes,
tenho certeza de que meu pai estaria acompanhando os escândalos
políticos como o mensalão e que se aproveitaria desse momento no nosso
país para escrever sobre o assunto. Acho que ele também estaria de olho
no julgamento escandaloso do goleiro Bruno, pois era um Flamenguista
doente.
Estou terminando de escrever meu terceiro romance, que deve ser
publicado pela Record no ano que vem. O livro é baseado em um
assassinato que presenciei em Hollywood e fala sobre o mundo obscuro da
cidade para onde todos vêm com o objetivo de realizar seus sonhos ou se
tornar uma estrela. Além disso, meu primeiro livro, “Fugalaça”, está
sendo traduzido para o alemão para ser lançado na Feira do Livro de
Frankfurt em 2013, e será produzido para o cinema.
Como aconteceu o lançamento do seu primeiro livro?
Eu comecei a escrever “Fugalaça” durante este momento de depressão, aos
dezesseis anos, por influência da minha mãe e da minha terapeuta. Não
estava pensando em como iria publicá-lo inicialmente. O processo durou
seis meses. Quando terminei, minha mãe me levou para uma reunião na
editora Record. Saí de lá aos prantos, pois não acreditava que
conseguiria ser publicada. Eu havia despejado minha alma naquele livro e
esperava que meus sentimentos fossem compreendidos como arte, mas ainda
não tinha confiança em mim mesma. Alguns meses depois a editora me
ligou e me disse que meu livro era emocionante. Eu havia conseguido.
Como você foi morar nos EUA? Foi quando você conheceu seu marido [o ator e roqueiro Coyote Shivers]?
Eu havia acabado de lançar meu segundo livro, “Mil e Uma Noites de
Silêncio” e resolvi passar um mês em Hollywood. Queria encontrar
inspiração para um novo livro e respirar novos ares. Sempre que viajo
para outros países tento marcar entrevistas com artistas que podem
interessar aos veículos para quais eu escrevo. Desta vez eu tinha uma
entrevista marcada com o músico e ator Coyote Shivers, de quem era fã
por causa do filme “Empire Records” em que ele canta com a Reneé
Zellweger. Eu havia lido sobre a batalha judicial que ele tem com a ex
mulher, a atriz Pauley Perrette, de NCIS, e fiquei extremamente
interessada pelo caso dele. Ele estava sofrendo acusações falsas desde
que se divorciou dela, em 2004, e estava sendo retratado como um monstro
pelo time de publicidade dela. Comecei a investigar o caso e senti uma
vontade absurda de ajudá-lo a limpar seu nome dessas acusações. Parecia
que minha missão era salvá-lo. Marquei uma entrevista com ele com a
intenção de vender sua história para algum veículo, mas assim que o
conheci percebi que sua história dava um livro. E a verdade é que nós
nos apaixonamos neste primeiro encontro, e imediatamente ele me pediu em
namoro. No início do nosso relacionamento, passei muito tempo
investigando todos os aspectos da sua história, para ter certeza de que
não estava cometendo um erro. Três meses depois que nos conhecemos, ele
me pediu em
casamento. Seis meses depois nós nos casamos em Las Vegas. Estamos juntos há três anos.
Qual é a relação que o Coyote tem com a ex? Como ela interfere na sua vida?
O Coyote se divorciou da Pauley Perrette em 2004, depois que ele a
pegou traindo-o. Ela não queria que a traição dela fosse descoberta, por
isso ela começou a ameaça-lo durante o divórcio. Disse que iria mentir
para obter uma ordem de restrição e usaria esta ordem para retratá-lo
como o perseguidor dela. Ela embarcou numa vingança sem fim para tentar
destruí-lo completamente. Eles já estão batalhando na corte há oito anos
e ela já tentou acusá-lo de diversos crimes, com o propósito de
colocá-lo atrás das grades. Estamos casados há três anos e eu já passei
por dois julgamentos criminais por causa de acusações fabricadas por
ela. Não existe sensação pior neste mundo. Em abril deste ano fomos
jantar em um dos nossos restaurantes preferidos em Hollywood e ela
estava lá nos esperando, sabendo que iríamos lá. Tudo para chamar a
polícia e o TMZ. Meu marido acabou sendo preso sob fiança de 100 mil
dólares e agora está enfrentando um ano e meio de cadeia por ter entrado
comigo em um restaurante [por conta da ordem restritiva]. Sei que é
difícil de entender que essa história é real, pois parece loucura, mas é
como as coisas funcionam em Hollywood. Ela é uma mulher doente e
vingativa, com muito dinheiro e fama, e está tentando tirar meu marido
de mim. Espero poder desmascarar suas mentiras no julgamento, agora em
setembro. Acredito que esta é uma oportunidade para trazer à tona o
abuso de ordens de restrição que existe neste país. Ordens de restrição
deveriam proteger as vítimas, mas acabam sendo usadas como arma. Se o
juiz desse ordens de restrição para os dois, tudo se resolveria, mas ela
não concorda, tudo é briga. Tudo que o Coyote quer é que ela fique
longe da nossa vida.
Apesar deste problema, você costuma dizer que vive uma vida de sonhos nos Estados Unidos. O que faz do seu dia a dia glamouroso?
Hoje eu moro no apartamento dos meus sonhos, que fica no prédio
Hollywood Tower, onde pessoas como Marilyn Monroe, Humphrey Bogart e
Charlie Chaplin moraram e também inspirou o brinquedo Tower of Terror,
da Disney, onde o elevador cai. O prédio existe desde os anos 20. É uma
mistura de glamour e de histórias mal assombradas. Temos uma estação de
rádio no prédio, a 98.7, e todos os meses recebemos shows privados de
bandas enormes no nosso telhado. Já tivemos Jane’s Addiction, Incubus,
Florence and The Machine, 30 Seconds to Mars, Garbage, Bush, e muitos
outros. Sou apaixonada pelo lugar onde moro. Tenho muitas amigos e
amigos nos Estados Unidos. Sinto que construi uma nova vida, uma nova
família. Me sinto feliz e completa morando em Los Angeles, e acho que
não gostaria mais de morar em lugar algum. Essa cidade me inspira e isso
é muito importante para mim.
Não tem saudade do Brasil?? O que mais gosta de fazer quando está no país?
Meu processo de imigração foi demorado, então só estive no Brasil uma
vez desde que me mudei para Hollywood, há três anos. Às vezes a saudade
dói demais, mas são escolhas que eu fiz e preciso aceitar. Quando fui ao
Brasil só estava preocupada em matar a saudade da minha família, dos
meus amigos, meus cachorros, minha casa, meu quarto, a comidinha de
casa. Eu sinto falta das coisas simples da minha vida no Brasil.
Quais seus sonhos? Voltaria a morar no Brasil? Gostaria de ter filhos?
Sonho em continuar escrevendo e continuar criando. Tenho muitas
aspirações dentro da minha carreira literária e jornalística, mas
prefiro deixá-las guardadas até serem realizadas. Sonho sim em ter
filhos, mas não no momento, pois ainda quero viajar muito. Não pretendo
voltar a morar no Brasil, mas quero poder estar aí com muito mais
frequencia, pois a saudade é grande.
Você posaria nua novamente? Como sua família reagiu?
Eu gostei muito da experiência de posar nua, pois trouxe uma grande
segurança em mim mesma. Eu costumava achar que nunca posaria, mas acabei
me surpreendendo com o quanto foi legal. Tanto minha família quanto meu
marido me apoiaram a posar para a “Sexy”. Meu marido, inclusive,
acompanhou todo o ensaio. Eu aceitaria posar de novo, sim, e não somente
pela remuneração, mas também pelo prazer de de fazer o trabalho. Sem
querer gerar
polêmica, eu teria prazer em fazer a “Playboy”.
Você fala muito sobre o primeiro livro, mas e os seguintes? Também têm traços autobiográficos?
O segundo livro é uma ficção, mas de uma forma ou outra, tudo que eu
escrevo acaba sendo sobre mim mesma. O que me motiva a escrever são meus
sentimentos, e escrever para mim é terapia. No caso do segundo livro,
eu estava me sentindo extremamente solitária no mundo. A personagem
principal não tem nada a ver comigo, mas foi deste meu sentimento que
surgiu “Mil e Uma Noites de Silêncio”. O terceiro livro, "Dias Gomes",
eu organizei com a ajuda da minha irmã e da minha mãe e foi uma
experiência maravilhosa poder conhecer e descobrir a mente do meu pai.
Ele era um homem brilhante e suas ideias sobre teatro, TV, política e
censura são fascinantes. O livro traz entrevistas que meu pai deu desde
os anos sessenta até sua morte e através do seu pensamento mostra também
as mudanças que ocorreram no Brasil. Quando a Azougue Editorial nos
convidou para organizar este livro, ficamos muito felizes, pois
queríamos homenagear os 90 anos do meu pai e também os 50 anos do prêmio
de “O Pagador de Promessas” em Cannes. O livro já está à venda e terá
lançamento no Brasil em outubro.
Quais são seus próximos projetos? Está escrevendo um novo livro?
Além de o lançamento de “Dias Gomes”, estou terminando de escrever meu
próximo livro, que é um thriller baseado em um assassinato que
presenciei em Hollywood, e fala também sobre o lado mais obscuro da
cidade. Meu livro “Fugalaça” vai virar filme também. Com meu marido eu
estou trabalhando em um documentário e um livro sobre a história dele.
##########
Dias Gomes no programa Roda Viva, em 12/06/1995
Há mais de 50 anos ele coleciona os tipos de uma
enciclopédia chamada Brasil. Os pagadores de promessas, os reis de
ramos, os roques santeiros, os bem amados, os arapongas. No capítulo de
hoje do
Roda Viva está Alfredo de Freitas
Dias Gomes, dramaturgo, autor de novelas e membro da Academia Brasileira de Letras. Para entrevistar o autor e escritor
Dias Gomes, nós convidamos hoje à noite: o Alberto Guzik, crítico de teatro do
Jornal da Tarde. A editora executiva do programa
Metrópolis
da Rede Cultura, Maria Amélia Rocha Lopes. Rita Buzzar, escritora e
autora de novelas. O jornalista Hamilton dos Santos, crítico de livros
da revista
Maire Claire. Claudinei Ferreira, apresentador do programa
Certas Palavras da rádio CBN. Esther Hamburger, colaboradora da
Folha de S. Paulo e pesquisadora do Cebrap, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Boa noite,
Dias Gomes.
Dias Gomes: Boa noite.
Matinas Suzuki: Você poderia contar um pouco para nós o que é esse livro que você está lançando,
Decadência?
Dias Gomes: Decadência é...
Matinas Suzuki: É o país?
Dias Gomes: É uma metáfora do país nos últimos anos, principalmente na última década, a partir da morte de Tancredo [Neves] até o
impeachment
de [Fernando] Collor [de Mello]. Através de uma família tradicional,
que passa por todas essas crises pelas quais passou o país nesses
últimos anos. A crise econômica, a crise moral, a crise ética, a perda
de valores, de identidade etc. e tal. Então este é um romance
despretensioso, não tem nenhuma pretensão senão contar uma história de
uma maneira simples, direta...
Matinas Suzuki: O livro vai virar uma minissérie, como a gente
falou, [mas eu tenho] uma pergunta que eu acho que todo mundo deve lhe
fazer. Esse livro não está saindo em uma hora um pouquinho errada? Ou
seja, não é no momento em que o país está com perspectivas de mudanças,
que as pessoas parecem que voltaram a acreditar em uma transformação do
Brasil, existe uma certa expectativa.
Dias Gomes:
Por causa disso nós não vamos falar do passado? Não, vamos refletir
sobre o passado, já que é sobre ele que nós vamos construir um Brasil
novo. Inclusive o romance termina com um sopro de otimismo, esperando
que o país tenha mudado. Eu não sei se é otimismo ou é ironia.
Maria Amélia Rocha Lopes: Dias Gomes, dessa vez você fez o processo inverso. Primeiro nasceu a minissérie e depois o livro.
Dias Gomes: É, eu fiz a coisa de cabeça para baixo. [risos]
Maria Amélia Rocha Lopes: Agora, você não acha que isso, de
certa maneira, poderia ter prejudicado um pouquinho o romance? Eu estou
falando como leitora. Eu acabei de ler e eu comecei a ver, à medida que
eu ia lendo, eu fui vendo atores. Então a impressão que me deu é que era
muito mais um roteiro do que um romance mesmo, na acepção da palavra...
Dias Gomes: É possível.
Maria Amélia Rocha Lopes: Quer dizer, esse processo inverso não prejudica um pouco o livro?
Dias Gomes:
Não sei. Eu sinceramente não sei responder. Algumas pessoas que leram
acharam que isso até era uma coisa inovadora, porque pela primeira vez o
romance recebe uma influência da televisão. Porque o romance recebeu
influências neste século, por exemplo, muita influência da psicanálise,
depois foi a influência do cinema. E a televisão, que é uma coisa dos
nossos
dias,
você não nota uma influência sensível no romance. Quer dizer, pode ser
que através disso se tenha conseguido uma certa influência. O romance
realmente pode ter sido influenciado pela televisão, porque a minissérie
foi feita antes. Se isso é bom ou mal eu não sei.
Maria Amélia Rocha Lopes: Quando você fez o livro, você já ia
pensando em personagens? Porque eu não vi a minissérie, não tenho idéia
de quem trabalha, de quem atua nela.
Dias Gomes: Não. Quando eu escrevi...
Maria Amélia Rocha Lopes: Mas tem alguns personagens em que você começa a enxergar alguns atores, assim, é muito curioso.
Dias Gomes:
Quando eu escrevi o livro, ainda não tinha sido escolhido o elenco.
Então os personagens estavam na minha cabeça, mas com a sua fisionomia
própria, não aquela do ator que vem depois. Portanto essa influência não
tem.
Esther Hamburger: Muitas vezes as suas novelas e minisséries vieram de adaptações das suas próprias peças de teatro.
Dias Gomes: Quase todas.
Esther Hamburger: Eu acho que isso é uma coisa bem
interessante, meio específica sua. Você podia falar um pouco como é que
é? Por que começa sempre pelo teatro? Por que o teatro é privilegiado
aí?
Dias Gomes:
Porque eu comecei pelo teatro, eu comecei como autor de teatro. A minha
vida profissional começa no teatro, em 1942, quando eu tive a minha
primeira peça encenada. Antes disso, eu tinha escrito já uma peça que
foi premiada [
A comédia dos moralistas, premiada pelo Serviço
Nacional de Teatro (SNT), em 1939], aos 15 anos de idade, mas que
infelizmente não foi encenada. Então eu comecei no teatro, depois eu
tive uma breve incursão pelo rádio, até aqui em São Paulo,
por motivos econômicos eu tive que aceitar o emprego no rádio. Depois
eu voltei ao teatro, então foi aí que realmente eu tive um... eu escrevi
a maioria da minha obra mais conhecida.
Alberto Guzik: Dias,
você passou pela história do teatro brasileiro recente, por quase toda
ela. 1942, aí você pega... você não entra no TBC [Teatro Brasileiro de
Comédia], mas você entra no final do TBC, pela mão do Flávio [Nogueira]
Rangel [(1934-1988), diretor e destacado encenador, pertence à primeira
geração de brasileiros na era pós-Teatro Brasileiro de Comédia], para a
sua consagração com
O pagador de promessas [peça encenada pela primeira vez em São Paulo, em 1960] e
A revolução dos beatos
[peça criada em 1962 pelo Teatro Brasileiro de Comédia, com direção de
Flávio Rangel, recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de
melhor texto]. Depois você vai para a televisão. Como é que você vê esse
processo? O que você sente de fundamental, se mexeu no teatro, e o que
de fundamental se mexeu na sua obra nesses 53 anos?
Dias Gomes: É, até houve uma intriga feita por um repórter, um jornalista, que fez uma manchete escandalosa em um jornal no Rio em 1980. A
manchete era assim: "Que Nelson Rodrigues [(1912-1980), importante e
polêmico dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro] não me ouça, mas
eu sou o teatro brasileiro". [risos] Eu nunca disse isso.
Alberto Guzik: Você nunca disse isso?
Dias Gomes:
Nunca disse isso. Ele é que me disse, focalizando esse meu tempo de
teatro, que eu comecei nos anos 1940, ainda no velho teatro, eu passei
pela renovação...
Alberto Guzik: Você começou com o Procópio Ferreira? [nome
artístico de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, (1898-1979), ator,
diretor de teatro e dramaturgo brasileiro, atuava no circo-teatro, que
além de números de acrobacias, malabarismo e palhaçadas, apresentava a
adaptação de peças de teatro. Do circo-teatro passou às comé
dias,
produzindo uma inovação: lançou o teatro de frases, com tiradas e
expressões cortantes para substituir a tradicional comédia de costumes]
Dias Gomes:
Com o Procópio Ferreira. Eu passei pela renovação, tenho a pretensão de
ter contribuído até um pouco para a renovação da dramaturgia
brasileira. E até hoje estou na militância. Então, ele referindo-se a
isso, disse: “Poxa, você é todo o teatro brasileiro”. E eu disse: “que
Nelson Rodrigues não nos ouça”. Ele pegou e fez uma intriga e levou para
o Nelson, e o Nelson ficou uma fera. [risos] Me esculhambou e tal, aí houve uma polêmica. Eu estava lançando uma peça,
Campeões do mundo,
a produção da peça achou ótimo, começou a estimular a polêmica, porque
fazia propaganda da peça. Aí ele disse que eu tinha começado imitando
Joracy Camargo [(1898-1973), jornalista, cronista e primeiro dramaturgo
brasileiro a abordar questões do proletariado], e eu disse que ele era o
Tennessee Williams [pseudônimo de Thomas Lanier Williams (1911-1983),
dramaturgo norte-americano, consagrou-se com a peça
Um bonde chamado desejo,
de 1947, com a qual ganhou o Prêmio Pulitzer] de Madureira... [risos] A
coisa pegou fogo, mas foi tudo armado. Evidentemente foi uma polêmica
armada pela imprensa. A imprensa, você sabe, arma essas coisas.
Rita Buzzar: Dias,
você acha que a dramaturgia está em crise? Quer dizer, tanto a
dramaturgia de televisão, novela, minissérie e do teatro também?
Dias Gomes: Eu acho que a dramaturgia universal está em crise, aliás, eu acho que todas as artes estão em crise. Nós vivemos um fim de século, um característico fim de século, em que realmente não há nada. Nós esperamos que
vá acontecer alguma coisa, e certamente irá acontecer talvez no início
do século XXI. Mas nós vivemos em todas as artes uma espécie de
entreato, uma espécie de tempo de espera, muito propício ao
charlatanismo, aos neo qualquer coisa e tal - compreendem? - que
escondem uma crise de criatividade. Nós não temos no momento um grande
movimento artístico de parte nenhuma, como o romantismo, o modernismo,
nós não temos. Temos o chamado neo-modernismo que não é nada, é um
rótulo apenas para encobrir o grande vazio em que nós estamos. Então não
é só a nossa dramaturgia que está em crise, é a dramaturgia universal, a
americana, a francesa, européia...
Rita Buzzar: Mas isso é uma crise de identidade cultural que traz essa...
Dias Gomes: Eu acho que é uma crise de criatividade, de alguma coisa nova, de uma reação que deve vir...
Matinas Suzuki: Dias,
nós temos aqui dois telespectadores que, por coincidência, são da
Freguesia do Ó, aqui em São Paulo. E a pergunta deles vai nessa direção,
já estão chegando aqui as primeiras perguntas, as primeiras
participações. A que você atribui essa falta de criatividade? Por que as
novelas estão insistindo nos temas tradicionais e não inovadores? Essa é
a questão que os dois telespectadores nos colocam aqui. O Claudinei
Barbosa e o Zeno Pereira.
Dias Gomes:
Bom, a televisão faz parte desse contexto cultural e evidentemente não
podia escapar a essa crise. No caso específico da novela, eu acho que
falta a inquietação, por exemplo, nos anos 1970 a
busca de novos formatos, de novas temáticas que existiu durante os anos
1970, quando a novela firmou a sua linguagem popular, de meio de
expressão popular, uma linguagem própria, que não era mais aquela
linguagem radiofônica do início, nem o mau teatro, nem uma cópia do
cinema. Mas era uma coisa como um meio de expressão popular com uma
linguagem própria de televisão. Então, nos anos 1970, houve uma busca de
linguagem, e com isso houve experiências. Cada novela era uma
experiência nova, que não se sabia se ia dar certo ou não, era cercado
de grande expectativa. A Globo, por exemplo, onde se desenvolveu mais
essa busca de linguagem, tinha um horário, às 10 horas da noite, que não
interferia na programação. Quer dizer, se não desse certo, não
derrubava a programação toda, onde se podia fazer uma experiência nova.
Quase todas as novelas que eu escrevi naquela época foram ao ar embaixo
de enorme apreensão. A primeira novela que eu fiz assim -
Bandeira 2 [exibida de outubro de 1971 a
julho de 1972] - passada em um sub-mundo de bicheiros, de escola de
samba, foi debaixo de enorme expectativa. Achávamos que o público não
estava preparado para receber isso, porque o público da novela era um
público romântico e tal. E eu fui botar um herói, velho, bicheiro, um
mau caráter e tudo - no entanto, a novela deu certo. E com isso aí se dá
um passo adiante. Como sempre aí se assimila aquilo que tinha sido
contestado. E quase todas as experiências nessa ocasião... Foram vários
depois de mim, foram vários autores de teatro para a televisão, como
Jorge Andrade [(1922-1984), dramaturgo e escritor brasileiro, abordou,
em suas peças e novelas, a desordenada passagem do Brasil rural para o
urbano], Lauro César Muniz [(1938-), escritor brasileiro, famoso autor
de telenovelas, roteiros cinematográficos e peças teatrais] já estava
lá... E cada um se animou a fazer uma experiência nova e tal... E a
maioria dos autores, como eu e o Jorge Andrade, que eu falei agora,
levavam a sua temática teatral para a televisão.
O bem amado
[exibida em 1973, foi a primeira novela em cores na TV brasileira. Como
série, estreou em 1980 e ficou no ar até 1984] é uma peça de teatro,
Roque Santeiro [sua exibição na TV foi censurada em 1975 durante a ditadura militar. Em 24 de junho de 1985, a telenovela estreou na Rede Globo] é uma peça de teatro também.
O espigão
[exibida pela Rede Globo de abril a outubro de 1974, foi a primeira
telenovela a tratar de ecologia na televisão], no início, é uma peça de
teatro que depois eu desenvolvi. Então isso, no meu caso, era mais ou
menos uma questão de segurança. Eu ia para um meio cuja linguagem eu não
dominava, eu tinha já nome no teatro, eu tinha uma responsabilidade. Eu
digo “muito bem, pelo menos na temática eu vou me segurar, não vou
abrir mão da minha temática, ninguém vai dizer o que eu vou escrever”.
Agora eu vou buscar, pesquisar uma linguagem nova nesse veículo aí que
eu não tenho condições, seria até contraditório eu recusar essa
experiência. Então...
Claudinei Ferreira: Eu quero só te perguntar simplesmente o
seguinte. Você disse que a dramaturgia mundial está em crise,
evidentemente a gente percebe isso. Eu quero saber se a dramaturgia de
Dias Gomes está em crise e por quê?
Dias Gomes: Também eu faço parte, não é?
Claudinei Ferreira: Por quê? Como é que você percebe que está em crise?
Dias Gomes:
Eu acho que depois... no caso específico nosso aqui [no Brazil], nós
passamos por uma ditadura, nós aprendemos a escrever sob censura, a
escrever com metáforas. E toda aquela dramaturgia que é rotulada como a
nova dramaturgia brasileira, surgida nos anos 1950 e 1960, passou pela
ditadura e teve que sobreviver a ela, debaixo de um teatro metafórico.
Depois que houve a abertura, quando as peças passaram a não ser mais
proibidas, nem cortadas, etc e tal, o mundo havia mudado também. Já
tinham se passado vinte anos e a situação era outra, e impunha-se uma
linguagem nova. E eu acho que nós ficamos em uma certa perplexidade da
busca dessa linguagem...
Alberto Guzik: Você sente isso na sua geração?
Dias Gomes:
Eu sinto isso na minha geração. Alguns até pararam de escrever. Eu
tentei buscar essa identidade com o novo público, que além do mais, era
muito influenciado pelo audiovisual, que nesses vinte anos tomou conta,
passou a fazer um outro tipo de leitura. Então é preciso levar tudo isso
em conta, as mudanças no mundo, tudo isso aí. Então eu tentei, fiz
algumas experiências como os
Campeões do mundo, é uma experiência...
Claudinei Ferreira: Qual foi a última peça que você escreveu e que o empolgou?
Dias Gomes:
São todas uma tentativa de busca, mas eu acho que elas transpiram a
perplexidade em que eu me encontro. E isso atingiu a todos os autores...
Hamilton dos Santos: Dias,
quando você diz que a dramaturgia em geral está em crise, você inclui
também a teledramaturgia. No sentido específico da teledramaturgia, você
acha que o trabalho em equipe para se escrever novela
mais acentua essa crise de falta de criatividade ou contribui como uma
possibilidade, um caminho para melhorar isso?
Dias Gomes:
Talvez seja uma das conseqüências. É mais uma conseqüência do trabalho
exaustivo, brutal, que é escrever uma novela sozinho. Coisa que eu fiz
algumas vezes, e [é] terrível. Você, solitário dentro de casa, passar um
ano inteiro escrevendo 30 e tantas laudas por dia, sem poder ir a lugar
nenhum, sem poder ir a teatro, a cinema, sem poder conversar com os
amigos sequer. Porque dentro daquele mundo que você criou... isso é uma
coisa terrível, desgastante, que a Globo teve o bom senso de procurar,
pelo menos, solucionar, já que os velhos autores, os veteranos, que
começavam a ficar cansados, alguns morreram até, outros já estavam muito
cansados, e os novos não tinham a mesma cancha.
Hamilton dos Santos: Uma das coisas que eu queria saber do
senhor é a seguinte. A sua teledramaturgia e a sua dramaturgia também
sempre foram veiculadas pela Globo. O senhor já sofreu algum tipo de
convite de outras televisões? Porque esse relacionamento assim tão
próximo da Globo?
Dias Gomes:
Não, eu fui contratado pela Globo em 1969. Antes disso eu fiz
televisão, até fiz televisão, mas ninguém sabe. [risos] Porque eu fiz
televisão, primeiro com pseudônimo...
Maria Amélia Rocha Lopes: Qual?
Dias Gomes:
É uma história, se quiserem eu conto. Em 1953, eu fui à União
Soviética. Naquele tempo, ir a União Soviética era um crime. Eu fui
escondido, eu fui em uma delegação de escritores, era a segunda
delegação de escritores brasileiros que ia...
Matinas Suzuki: Você era do Partido Comunista naquele tempo?
Dias Gomes:
Eu era do Partido Comunista, justamente essa viagem foi programada pelo
partido. E, para ir, eu tive que fingir que eu ia para a Inglaterra,
fui para Praga; de Praga eu peguei um avião, fui para Moscou. Enquanto
eu estou em Moscou, o Carlos Lacerda [(1914-1977), jornalista, fazia
ferrenha oposição ao governo de Getúlio Vargas, sendo considerado o pivô
do atentado que provocou o suicídio do então presidente], que era
diretor [e fundador] da
Tribuna de Imprensa, descobriu...
Matinas Suzuki: Que você estava lá.
Dias Gomes: ...que eu tinha ido. Eu era diretor da Rádio Clube do Brasil...
Matinas Suzuki: Tinha informações da KGB [sigla de Komitet
Gosudarstvenno Bezopasnosti (Comitê de Segurança do Estado). Criada em
1954, era a principal agência de inteligência e segurança da extinta
União Soviética]. [risos]
Dias Gomes:
Então ele descobriu, não sei como ele achou até uma foto minha, na
Praça Vermelha [praça localizada em Moscou, de grande importância
histórica, pois foi palco de execuções políticas, comércio popular,
comícios, desfiles, festas religiosas. Foi na Praça Vermelha que Lênin
discursou no primeiro aniversário da Revolução Russa], carregando uma
coroa de flores para o túmulo de [Vladimir] Lênin [(1870-1924), líder da
Revolução Russa (1917) e chefe de governo da Rússia de 1917 a 1922]. [risos]
Dias Gomes:
Então ele fez uma manchete lá: “Diretor da Rádio Clube vai a Moscou
depositar flores para o túmulo de [Joseph] Stalin [(1897-1953), político
soviético bolchevista que governou a então União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS) por quase 30 anos. Após a Revolução Russa,
tornou-se secretário geral do Partido Comunista, em 1922], com dinheiro
do Banco do Brasil”. [risos] O dinheiro [para a viagem] eu tomei com um
agiota, na ocasião, e levei um ano pagando. Mas como ele [Carlos
Lacerda] estava em uma campanha contra o Samuel Wainer [(1912-1980),
jornalista, fundador, editor-chefe e diretor do jornal
Última Hora,
abertamente favorável ao governo de Getúlio Vargas], aquela célebre
campanha que levou o Getúlio [Dornelles Vargas (1882-1954), governou o
Brasil de 1930 a 1945 no Estado Novo; e de 1951 a
1954, como presidente eleito pelo voto direto] ao suicídio, e um dos
inimigos dele era o Samuel Wainer, que havia tomado um empréstimo do
Banco do Brasil, facilitado pelo Getúlio Vargas. Então por isso ele
estava combatendo a
Última Hora e a Rádio Clube, que era do
Samuel. E eu entrei bem nessa história. Quando eu cheguei aqui, fui
demitido. Era a época do macarthismo [referência às ações adotadas por
proposta inicial do senador estadunidense Joseph McCarthy, entre a
década de 1940 e 1950, caracterizadas por perseguição política, prisões,
denúncias sem provas, estímulo à delação, formulação de listas de
suspeitos e agressão às liberdades individuais nos EUA], então eu fiquei
em uma espécie de lista negra, e durante um ano, eu não consegui
trabalhar.
Matinas Suzuki: Mas não pediu aposentadoria também, não?
Dias Gomes:
Não, nem tinha na época. Surpreende essa aposentadoria especial. E eu
fiquei sem poder assinar meu nome em lugar nenhum, nem em jornal, nem em
revista, nem nada. Porque eu fiquei marcado [como] aquele cara que foi a
Moscou. Então na época, foi um escândalo. Então eu comecei a escrever
para a TV Tupi, que estava começando, e não tinha redatores contratados,
comecei a escrever no nome de três pessoas. Eu tinha que escrever
muitos programas que eram pagos a cachê, o cachê era miserável. Para
sobreviver, eu tinha que escrever muito programa, então eu arranjei três
amigos. Um deles era a minha própria mulher, a Janete [Clair
(1925-1983), autora de folhetins para rádio e televisão, foi uma das
principais novelistas da Rede Globo, onde ficou conhecida como a “Maga
das Oito”, pelo grande sucesso de suas novelas, exibidas às oito da
noite], e mais dois amigos que assinavam, iam lá, negociavam e me davam o
dinheiro. Assim eu sobrevivi durante um ano, fazendo televisão. Por
isso eu digo ninguém sabe que eu [...] Mas essa foi a minha estréia na
televisão, com pseudônimo.
Matinas Suzuki: E aí você foi para a Globo?
Dias Gomes: Mas a Globo foi muito depois, a Globo foi em 1969, quando quase todas as minhas peças já estavam proibidas pela censura.
Esther Hamburger: Como é que foi a influência dessa militância no Partido Comunista no seu trabalho? Como é que você vê isso?
Alberto Guzik: O que o levou para o partido também. O que o fez se aproximar do partido?
Dias Gomes:
Eu sempre fui um rebelde. Um rebelde na juventude, nos movimentos
estudantis. Eu participava, não tinha nenhuma ideologia na cabeça. Tinha
aquele negócio, aquela revolta da juventude, que eu impulsionava contra
qualquer coisa. Isso me levou naturalmente, normalmente me levou ao
partido aqui em São Paulo. Mas, antes disso, eu participei de campanhas,
campanha para o Brasil entrar na guerra, como estudante, em 1942. Eu
era um rebelde sem causa, sem ter ideologia. E até que aqui, em São
Paulo, eu fui normalmente bater no partido. Tornei-me um militante do
partido, fui um péssimo militante, tanto que nos anos 1970 eu fiz uma
autocrítica e resolvi sair do partido, achando que realmente eu não
tinha nenhuma vocação para militância. Sempre fui muito indisciplinado, e
o militante tem que ser disciplinado; uma decisão do partido é uma
decisão que tem que ser obedecida. Eu, por exemplo, nunca submeti nada
que escrevia ao partido...
Alberto Guzik: Mas não é de lei isso? O senhor não tem que...
Dias Gomes: Nunca submeti...
Hamilton dos Santos: E aos censores da televisão?
Dias Gomes: Ah, bom, isso sim.
Esther Hamburger: E o partido aprovava o trabalho na televisão? Como é que o partido via o trabalho na televisão?
Dias Gomes:
Quando eu fui para a televisão, eu já estava mais ou menos saindo do
partido, foi em 1969. Nos anos 1970, eu já estava cheio de inquéritos
policiais militares, e logo uns dois ou três anos depois eu me desliguei
do partido. Quer dizer, não houve um problema de televisão no partido, o
problema era teatro. As peças teatrais poderiam ter sido censuradas
pelo partido se eu submetesse, como muita gente submeteu. Eu sei de caso
até do Jorge Amado [(1912-2001), escritor brasileiro dos mais
consagrados e traduzidos, cujas obras foram das mais adaptadas para a
televisão], por exemplo, que submetia os romances ao partido. Uma coisa
que eu jamais admiti. E por isso eu acho que não houve nenhuma
influência. Eu não sei, vocês que são críticos é que têm que analisar
isso.
Hamilton dos Santos: Mas dentro da televisão, além de censura
política que deve ter havido muitas vezes, também houve algum outro tipo
de censura como temática, por exemplo?
Dias Gomes:
Sim. Primeiro havia a censura federal, a censura era federal no tempo
da ditadura. Quem cortava, quem proibia era Brasília, era a censura em
Brasília.
Hamilton dos Santos: Não, eu digo internamente, dentro da televisão.
Dias Gomes:
Internamente, depois que caiu a censura federal de Brasília, aí a
empresa teve que assumir a censura. Então existe naturalmente uma
censura...
Hamilton dos Santos: Você teve que abandonar algum tema dentro
da televisão, algum tema que o senhor queria desenvolver, numa certa
novela, que o senhor teve que abandonar?
Dias Gomes: Bom,
não sei se isso é censura. Mas você, na televisão, o mecanismo é o
seguinte. Você apresenta uma sinopse, uma história para ser aprovada ou
não. Então pode não ser aprovada e ninguém vai dizer que foi censura.
Maria Amélia Rocha Lopes: Dias,
nos anos 1970 qual era o tema que virtualmente poderia ser proibido? Se
você apresentasse uma sinopse com determinado tema em que ele não
passaria? Qual era o assunto mais...
Hamilton dos Santos: Homossexualismo, por exemplo...
Dias Gomes: Olha, é muito difícil responder essa pergunta...
[...]: Relações raciais.
Dias Gomes: ...porque a censura...
Maria Amélia Rocha Lopes: Não, estou falando dentro da Globo.
Dias Gomes: ... sempre foi sempre sem critérios...
Maria Amélia Rocha Lopes: Não, estou falando assim, dentro da Globo, quando você apresentava uma sinopse.
Dias Gomes: Não, nos anos 1970 a censura não era da Globo, a censura era federal.
Maria Amélia Rocha Lopes: Não, quando passou a federal, como você falou agora há pouco...
Dias Gomes: Aí já não era mais anos 1970, aí já foi na abertura...
Maria Amélia Rocha Lopes: A Globo já começou a exercer o papel da censura, você falou...
Dias Gomes: Sim.
Maria Amélia Rocha Lopes: Nesse período, qual era o tema mais difícil de ser aprovado?
Dias Gomes:
Não sei, quase todos os temas têm uma certa dificuldade, sempre bate em
alguns problemas. Eu não posso especificar exatamente um tema que seja
proibido, porque essa coisa...
Rita Buzzar: Qual o tipo de censura [é] mais dolorida para o autor? É a censura do Estado ou a censura dentro do meio de produção?
Dias Gomes:
Eu acho que a censura da empresa é pior, porque contra ela você não
pode fazer nada. A censura de Brasília, por exemplo, eu ia para
Brasília, discutia com a censura, às vezes conseguia convencer o censor a
liberar algumas coisas, algumas cenas e tal, havia uma negociação.
Quando a censura é da empresa, é um problema da empresa, pronto e
acabou.
Claudinei Ferreira: Dias,
qual era a sua atitude profissional diante da censura? Você já escrevia
pensando na censura - essa censura federal, a institucionalizada? Você
já escrevia pensando na censura ou você falava: bom eu faço a minha
parte, o censor faz a dele? Qual era a sua atitude profissional? E conte
um caso, porque os casos que os escritores contam da censura são
hilariantes. Você deve ter milhões de casos absolutamente hilariantes,
conte um caso. Então qual era a sua atitude profissional e um caso.
Dias Gomes: Minha atitude era a seguinte: eu vou fazer a minha parte, e o problema de censurar é com eles.
Claudinei Ferreira: Você escrevia livremente?
Dias Gomes:
Eu não vou me censurar jamais. Eu não vou deixar de escrever uma cena
porque eu acho que ela vai ser cortada. Às vezes, eu até fazia sabendo
que ia ser cortada. Você aprende durante esse período ditatorial também a
jogar com a censura. Então muitas vezes, eu fiz cenas para serem
cortadas, que é uma maneira de você entregar o boi...
Alberto Guzik: Para negociar outras que poderiam passar no balde?
Dias Gomes:
Aquele boi de piranha, né? Você entrega um boi para passar o outro. Eu
sempre fiz muito esse jogo. E, como eu disse, a censura primava pela
falta absoluta de critérios, era muito difícil você saber exatamente o
que ia ser proibido.
[...]: Por exemplo?
Dias Gomes:
Porque mudava, a censura sempre ia de acordo com... Às vezes, era a
influência da mulher do general, que falou contra isso ou contra aquilo,
então a censura resolveu, tal. É muito difícil ter um código. Uma vez
eu disse isso, eu disse até a um chefe de censura isso. Ele já havia
censurado uma novela minha,
Saramandaia [exibida na Rede Globo
de maio a dezembro de 1976]; ele havia cortado várias cenas, a novela
estava quase que impraticável de tanto corte. E havia um corte em uma
cena que eu não conseguia detectar a razão do corte, não tinha nenhum
problema político, não tinha nenhum problema moral, não tinha nada. Eu
digo “mas por que ele cortou, era uma cena”... Aí então eu disse a ele:
“olha, vamos supor que eu queira, de hoje em diante, ser um bom moço e
queira escrever para não ser proibido. Então eu preciso ter critérios,
por exemplo, entender porque vocês cortam. Esta cena aqui, por exemplo.
Me explica qual foi o critério para cortar essa cena, porque eu não
consigo entender”. Aí o chefe da censura leu e disse: “É, realmente eu
não sei... Quem foi que censurou?" [risos] Aí mandou chamar o censor:
“Foi você que cortou essa cena”? Ele leu e disse: “Ah, foi sim”. “Então
me explica por quê, porque eu não entendo. É uma cena que não tem nada”.
Ele deu uma risadinha e disse: “Aí não tem nada, mas o que você estava
pensando quando escreveu isso é que é o problema”. [risos] O cara leu o
pensamento...
Matinas Suzuki: Dias, você falou em
Saramandaia. A Lídia Costa da Penha quer saber por que você não insiste com a Rede Globo para passar novamente
Saramandaia?
Dias Gomes: Eu não tenho que insistir, isso é um problema da Globo. Isso é um problema empresarial.
Alberto Guzik: Eu queria saber se a censura do teatro era
diferente da televisão e qual foi o texto teatral que mais deu problemas
com a censura?
Dias Gomes: Foi o
Berço do herói, que foi o
Roque Santeiro depois, que foi proibido na noite da estréia...
Alberto Guzik: Conta essa história.
Dias Gomes: O texto tinha sido liberado, e na noite da estréia, já com o público na platéia, já...
Matinas Suzuki: Que ano foi?
Dias Gomes: Foi em 1965. Veio a proibição, e é uma história
kafkiana [absurda, incoerente. O termo foi inspirado no escritor Franz Kafka (1883 - 1924), que em suas explora
situações estranhas da opressão da sociedade e suas instituições
burocráticas] porque os censores haviam aprovado o texto e, de repente, o
espetáculo foi proibido. Aí, então, eu perguntava: “tudo bem, mas se o
texto foi aprovado, por que o espetáculo”... “Ah, bom, é porque o
espetáculo alterou o texto”. Eu digo: “muito bem. Então suponhamos que
eu queria encenar a peça sem essas alterações. Vocês me digam quais
foram essas alterações e nós vamos encenar o texto rigorosamente como
vocês aprovaram”. “Ah, não, não pode”. Digo: “por quê?” "É porque o
texto foi alterado." [risos] Então é uma coisa kafkiana, que ficou sem
sentido. Na verdade, eu lembro que foi feita uma campanha para a
liberação da peça, aí chegou um dia em que uma delegação de atores foi
ao Carlos Lacerda, que era governador do então estado da Guanabara
[tornou-se, mais tarde, o Rio de Janeiro], para pedir a ele para
intervir. E ele teve a seguinte surpresa, ele disse: “Quem proibiu a
peça fui eu! Eu proibi essa peça porque ela é imoral e subversiva”. Até
algum ator lá disse assim: “Mas o Nelson Rodrigues é imoral e é
encenado”. Ele disse: “Mas o Nelson Rodrigues é só imoral, não é
subversivo”. [risos] Então descobriu-se que o Lacerda tinha proibido a
peça por pressão dos militares. Porque o herói da peça é um cabo da
Força Expedicionária Brasileira que deserta. E, como você sabe, soldado
brasileiro não deserta, não é covarde. Então, por isto, os militares
insistiam na proibição da peça. Dez anos depois, em 1975, eu resolvi
adaptar essa peça para a televisão, e como eu sabia qual era a razão da
proibição, que era justamente o personagem central, eu transformei esse
cabo em um santeiro, fazedor de santos, e desenvolvi a minha matemática
da peça e tal. Era a mesma coisa, mas mudando o nome dos personagens e
tal. E surpreendentemente a novela foi proibida também. Também não se
entendeu por quê, porque também a censura não explicava por quê tinha
proibido. Era também um jogo kafkiano, a TV Globo ficou uma semana
inteira lutando para liberar a novela, não conseguiu. No dia da estréia
da novela foi feito um editorial, dizem até que foi redigido pelo doutor
Roberto Marinho, contra a censura. Ninguém entendeu, a Globo se
rebelando contra o regime. E ficou esse tempo todo sem ninguém saber
exatamente por que Roque Santeiro foi proibido. Até porque dez anos
depois, em 1985, foi exibida a novela, ela já tinha 51 capítulos
escritos antes. Todo mundo olhava e dizia: “Mas por que foi proibido
isso”? Não se entendia. Até que com a abertura dos arquivos do Dops
[Departamento de Ordem Política e Social, foi o órgão do governo
brasileiro criado durante o regime militar para controlar e reprimir
movimentos políticos e sociais contrários ao poder estabelecido],
encontrou-se lá o registro de telefonemas gravados. E um dos telefonemas
gravados era entre o historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999) e eu.
E ele me perguntava pelo telefone: “O que você está fazendo”? Eu disse:
“eu estou fazendo aqui uma pequena sacanagem. Eu estou adaptando o
Berço do herói
para a televisão, mudei o título”. Ele disse: “Mas não passa, você sabe
que os militares”... Eu disse: “não, mas eu fiz uma tapeação aqui,
[risos] mudei o nome dos personagens, é a mesma coisa, mas eles não vão
perceber não”. Aí o Nelson deu uma gargalhada e disse: “É, não vai,
esses milicos são muito burros”... [risos] E tudo sendo gravado. E por
causa disso é que foi proibido, e eles não podiam dizer, a censura não
podia dizer, porque não podia dizer que gravou uma conversa, não é?...
Matinas Suzuki: Estava grampeado.
Dias Gomes:
Então ficou aquela coisa que ninguém sabia o que era, é proibido para o
horário. Aí eu disse assim: “se levar em outro horário, pode”? “Aí vai
ter muitos cortes”. “E quantos cortes?” “Em cada capítulo, restam uns
dez minutos, assim”... “Mas diz quais são”. “Bom, aí tem que rever, pode
ser que não restem nem 10”. Era uma conversa assim, porque eles não
podiam dizer que tinham proibido porque tinham gravado uma conversa
telefônica.
Esther Hamburger: Agora o
Roque Santeiro é um dos marcos, é uma das telenovelas que teve maior audiência, e é de certa forma um marco...
Dias Gomes: É, foi uma novela que teve uma audiência espantosa.
Esther Hamburger: Daí em 1985, dez anos depois, inclusive fora do Brasil, ela tem uma repercussão muito grande...
Dias Gomes:
É, foi em Portugal, Cuba também. Em Cuba, há uma história muito
engraçada. Quando a novela foi lançada nos Estados Unidos entrevistaram
um cubano, porque tinha sido um grande sucesso em Cuba, um cubano
anti-castrista. E [sobre] esse cubano - me mandaram a reportagem -
declararam que ele tinha fugido de Cuba na hora da novela porque naquela
hora estava todo mundo vendo a novela, até o Fidel Castro [(1926-),
tomou o poder em 1959 e permaneceu no governo de Cuba até 2008, quando,
devido a problemas de saúde, transferiu o comando a seu irmão, Raúl
Castro]. [risos] Ele botou o barquinho no mar e se mandou. E eu fiquei
com um remorso desgraçado, [de] colaborar para um anti-castrista.
Indiretamente eu tinha colaborado.
Matinas Suzuki: Dias,
um pouco sobre essa questão, já devem ter feito essa pergunta para você
n vezes, mas... Você em algum momento teve alguma crise de consciência,
por exemplo, nos anos mais terríveis da ditadura, de estar produzindo
novelas para a Rede Globo, que no noticiário, por exemplo, escondia...
Você tentava colocar uma mensagem nas novelas que o noticiário da Rede
Globo estava escondendo todo dia? Isso chegou a dar algum drama de
consciência a você?
Dias Gomes: Não. Nunca me deu drama de consciência porque eu tive...
Matinas Suzuki: Como é que você resolveu isso para você mesmo?
Dias Gomes:
Eu sempre escrevi o que quis escrever. Nunca eu recebi encomendas,
nunca a Globo me disse “Você tem que fazer isto ou fazer aquilo”. Eu
apresentava os meus temas, minhas histórias, eram aprovadas ou não. E eu
sempre escrevi sem intervenção nenhuma. Quer dizer, eu podia ser um som
dissonante dentro da Globo, como era
O bem amado, por exemplo,
que era um programa que passava alguma crítica ao regime, em uma época
em que não se podia criticar nada. Então eu tinha aquela janelinha lá e
tal, como alguns de vocês que são jornalistas trabalharam em jornais
também que apoiavam a ditadura, mas tinham que trabalhar, como
profissional. Eu sei até de jornalistas que faziam editoriais de jornais
reacionários, [mesmo] sendo homens de esquerda. Porque como
profissionais, têm que trabalhar. Então não tem nada a ver uma coisa com
a outra, e sim uma confusão. É claro que houve um patrulhamento, quando
eu entrei para a Globo, por exemplo, houve um certo patrulhamento, não
de pessoas que eu respeitasse. Eu acho que os intelectuais de respeito
não caem nesse tipo de colocação. Mas houve um certo patrulhamento, uma
certa área, mas eu nunca tive nenhum problema de consciência, por causa
disso não, eu acho inteiramente idiota.
Matinas Suzuki: Já que a gente está falando da Rede Globo, a
Globo publicou recentemente, semana passada, nos jornais, uma fórmula
que me pareceu bastante engraçada, que era o seguinte: 30% de drama, 24%
de traição, 45% de suspense, 1% de felicidade. Tudo isso pode fazer uma
vida detestável ou uma novela adorável. Você acha essa fórmula correta
para fazer novelas?
Dias Gomes:
Esse problema de fórmulas é que está levando, acho, à crise atual.
Porque eu acho que tem que quebrar a fórmula; se você começa a cair na
fórmula começa a se repetir. Se você tem uma fórmula para tudo, vai
cansando. O que é preciso é sair da fórmula.
Hamilton dos Santos: E foi esse o motivo que o levou a parar, a não querer mais escrever novela?
Dias Gomes: Não.
Hamilton dos Santos: O medo de se repetir?
Dias Gomes:
Não foi bem esse, não. Eu nunca tive preconceito contra novela porque
eu não tenho preconceito contra nada, eu acho preconceito uma atitude
burra. É você ter, como a palavra diz, pré-conceito, antes do conceito,
você já ter uma colocação. Então eu não tenho preconceito contra novela,
tanto que eu encarei a novela de frente e tal. E fiz novela com a mesma
seriedade com que eu escrevia as minhas peças, não é esse o problema.
Eu acho é que a novela é um trabalho exaustivo, não é um meio de vida, é
um meio de morte! A novela deveria ser feita por um autor só, e
reconheço que realmente para um autor fazer uma novela...
Hamilton dos Santos: Por quê? Você acha que a equipe assim... O
autor de novela que sempre assim... Embora criticado pelos
intelectuais, ele sempre teve certo prestígio e bastante dinheiro. Você
acha que com uma equipe, o autor acaba perdendo também esse prestígio?
Dias Gomes: Eu acho que perde a unidade, por mais que você...
Rita Buzzar: Você acha que perde a marca do autor? Quer dizer...
Dias Gomes: Eu acho que perde...
Rita Buzzar: A marca do...
Dias Gomes: Necessariamente perde. É impossível não perder...
Rita Buzzar: Fica um pouco um sistema industrial [de] escrever?
Dias Gomes: É, fica um sistema industrial de produção, exatamente.
Maria Amélia Rocha Lopes: Dias, você, além de escrever, você assiste a novelas?
Dias Gomes: Não.
Maria Amélia Rocha Lopes: Por quê?
Dias Gomes:
Eu só assisto as minhas por obrigação. [risos] É porque a novela prende
muito, eu tenho outras coisas que fazer. Você ficar preso a uma
novela... Geralmente eu vejo um capítulo ou outro assim...
Maria Amélia Rocha Lopes: Você não está acompanhando, por exemplo, nenhuma das que estão no ar agora na Globo?
Dias Gomes: Não, não estou.
Maria Amélia Rocha Lopes: Quer dizer, você não poderia dizer quem seria agora o seu autor preferido de novela?
Dias Gomes: Não, não poderia.
Hamilton dos Santos: Essas muitas outras coisas, o que fazer,
que você disse, “eu tenho muito mais coisas para fazer”, inclui escrever
muito. Atualmente, em que forma você se sente melhor escrevendo? Em
forma de romance, teatro? O que mais lhe dá prazer hoje em dia?
Alberto Guzik: Eu queria acrescentar uma coisa. Como é o seu
método, como é que você escreve? Você tem algum método? Você tem um
processo? Você vai todo dia de manhã para a máquina ou para o
computador? O Sábato Magaldi [(1927-), historiador, jornalista,
professor, ensaísta e crítico teatral brasileiro] até hoje escreve na
máquina de escrever, ele tem pavor de computador. Você também é assim?
Dias Gomes:
Não, eu escrevo em computador há muito tempo já, e não sei mais
escrever à máquina. Se me obrigarem a escrever à máquina eu vou ter uma
grande dificuldade, já me habituei ao computador. Não tenho propriamente
um método não. Eu tenho uma hora que me parece mais agradável
escrever, que é no fim da tarde. Entre cinco e oito horas da tarde, que é
uma hora meio morta; mas se for preciso, eu escrevo de manhã, escrevo
de noite. De uns tempos para cá, eu resolvi resistir a esse negócio de
escrever à noite. Há uma frase, um chavão, “a noite é feita para o
amor”. E eu estou inteiramente de acordo. [risos] A noite é feita para o
amor e para as coisas que você gosta, para as coisas às quais você tem
amor também. Então a noite é feita para ir ao teatro, é feita para ler, é
feita para namorar, para fazer amor, não é feita para trabalhar, eu
acho.
Rita Buzzar: Você escreve todos os
dias, é um escritor compulsivo ou é aquele que é difícil? Como é que é?
Dias Gomes: Eu sou compulsivo desde os 15 anos de idade. [risos]
Rita Buzzar: Todo dia...
Dias Gomes:
Eu escrevo todo dia, todo dia, todo dia, e é a mesma compulsão.
Inicialmente eu escrevia compulsivamente, escrevia todos os gêneros ao
mesmo tempo: fazia teatro, romance, conto. Perpetrei até algumas poesias
que felizmente tive o bom senso de rasgar. Compulsivamente porque eu
achava que eu ia morrer cedo...
Rita Buzzar: Por quê?
Dias Gomes:
Aquela coisa meio romântica assim né, Castro Alves [(1847-1871), poeta
brasileiro do romantismo conhecido como “Poeta dos Escravos”] morreu aos
24 anos, [Manuel Antônio] Álvares de Azevedo [(1831-1852), escritor,
contista, dramaturgo, poeta e ensaísta brasileiro da segunda geração
romântica] também, eu deveria morrer por aí. Então eu tinha aquela febre
de escrever.
Alberto Guzik: Isso foi em 1820...
Dias Gomes:
Pois é, mas eu tinha essa idéia romântica que eu deveria morrer cedo.
Então eu tinha que escrever depressa, muita coisa e tal. Tanto que eu
comecei a escrever aos 15 anos; até os 21, 22 anos eu escrevia
compulsivamente. Depois eu passei a escrever por ofício, porque eu acho
que o escritor de ofício tem que escrever todo dia. Ele tem, todo dia,
que escrever alguma coisa...
Rita Buzzar: Como é, por exemplo, ao longo de sua carreira
toda, esse escrever todo dia? Você sente que está se renovando, que está
conseguindo, de repente, encontrar uma emoção, uma palavra, muito mais
precisamente do que há um ano ou dois anos? Aquele original que você
guardou, aí você vai olhar de novo, você critica. Como é esse processo?
Dias Gomes:
Por isso que eu não leio muito aquelas coisas que eu escrevo no
passado, porque eu sempre tenho vontade de fazer de novo e diferente.
Você sempre acha que pode fazer melhor, pode até não poder, mas acha que
pode. Acha que devia mudar aquilo, uma palavra aqui, uma palavra ali. E
se você ficar a vida toda a reescrever as próprias peças... eu
reescrevi muitas peças, quase todas as minhas peças foram reescritas,
mas na mesma época.
O Pagador [
de promessas] eu
escrevi três vezes. A versão que foi encenada aqui [São Paulo] em 1960,
pelo Flávio Rangel, no TBC, foi a terceira. A primeira já havia ganhado
um prêmio, mas eu continuei e tal. Eu fui para a Bahia, depois eu
submeti a críticos, eu recebi algumas críticas, fiz outra versão. A
primeira versão, por exemplo, não tinha o problema do sincretismo
religioso, que só foi aparecer na terceira, que é fundamental para a
peça.
Esther Hamburger: Depois você ainda reescreveu para o cinema e como mini-série. Como que é essa coisa de reescrever para os diferentes meios?
Dias Gomes:
No cinema eu não reescrevi propriamente, eu até procurei colocar o mais
possível a peça no filme, por uma questão até de garantia. É preciso
entender que nós estávamos ainda em 1960, 1961, e o cinema brasileiro só
tinha uma tradição que era a chanchada [denominação, inicialmente
pejorativa, dada a filmes simplistas, com humor ingênuo, burlesco e de
caráter popular do cinema brasileiro; que foram as primeiras
experiências em produção cinematográfica de longa duração no país]. O
Anselmo Duarte [(1920-), ator, roteirista e cineasta brasileiro] que ia
dirigir o filme, que vinha das chanchadas e tal. Então, para me
garantir, digo: “bom, pelo menos eu vou mostrar a minha peça”. Tanto que
o filme é a peça filmada; há duas ou três cenas fora, mas o resto, se
você acompanhar, vai ver que é igualzinho quase. Que era uma prova da
minha insegurança com relação ao cinema. Então eu disse “vou me
garantir”. Isso fez até um certo mal, talvez, ao filme, ficou um filme
talvez muito acadêmico, embora seja realmente um trabalho muito bom do
Anselmo. Eu tenho até que louvar essa fidelidade dele ao meu texto, foi a
única vez que eu tive um texto no cinema com absoluta fidelidade. De um
modo geral, você não se reconhece mais no filme. Quando você vende um
argumento e vai ver o filme, não se reconhece, o diretor mudou tanto que
não há mais nada...
Matinas Suzuki: Mudando um pouco a nossa conversa, desde 1991
você é um membro da Academia Brasileira de Letras. O público de fora... a
percepção que a gente tem hoje é que a Academia está mudando, está mais
dinâmica, tem escritores agora que vieram de uma tradição política que
era diferente da tradição que a gente acostumou a ver da Academia dos
anos militares e essa coisa toda. Antônio [Carlos] Calado [(1917-1997),
jornalista e romancista brasileiro, cujo reconhecimento literário se deu
com o lançamento de
Quarup, em 1967] está lá, Jorge Amado está lá e você está lá. O que está mudando na Academia? Você poderia dizer para nós?
Dias Gomes:
Bom, eu não sei se já mudou alguma coisa, pelo menos na composição já
há pessoas que são de formação anti-acadêmica, como eu, por exemplo. Eu
jamais me imaginei na Academia. Isso aconteceu, as coisas acontecem na
vida da gente, você é levado às vezes por uma coisa que você nunca
esperava. Eu resisti muito à Academia, e um dia um grupo de amigos me
fez uma pressão, um convite, eu titubeei e no dia seguinte estava
candidato. E fui eleito. Eu acho que continuo com absoluta falta de
vocação acadêmica, mas sinto que a Academia está mudando, pela eleição
de pessoas que têm uma mentalidade anti-acadêmica, como João Ubaldo
[Ribeiro (1941-), jornalista, professor, roteirista e escritor
brasileiro], como o Calado e outros, como Jorge, que já são veteranos.
Não que eu tenha algo contra a mentalidade acadêmica, mas isso talvez
seja um sopro de renovação na Academia, ou talvez esses novos levem a
Academia a uma posição mais popular, a uma atuação maior no contexto
cultural, a uma presença maior; e deixe de ser apenas um clube fechado,
de 40 pessoas...
Matinas Suzuki: Como é que você imagina que possa ser essa atuação maior?
Dias Gomes:
Participar mais da vida cultural do país, participar mais. A Academia
tem meios para isso. Por exemplo, a Academia tem um teatro. Parece que
até vão abrir agora. Precisam abrir esse teatro ao público e aos autores
de um modo geral. Para a dramaturgia brasileira, vamos supor, é mais um
espaço teatral, não para representar ali peças só de acadêmicos...
Seria ficar fechado, não é?
Maria Amélia Rocha Lopes: Dias, como é a rotina da Academia?
Dias Gomes:
Eu participo muito pouco, até porque a hora que eu gosto de trabalhar,
como eu disse aqui, de cinco às oito da tarde, é a hora da sessão da
Academia, às quintas-feiras. Então eu não tenho tempo para ir à
Academia. Eu não vou à Academia há mais de um ano ou dois...
Maria Amélia Rocha Lopes: E você não é cobrado por isso, pela ausência?
Dias Gomes:
É, de vez em quando o Josué me telefona, faz um apelo, e eu prometo...
Mas eu não participo muito dessa rotina acadêmica. Não tenho nada
contra...
Maria Amélia Rocha Lopes: O que é? O fraque? São as conversas?...
Dias Gomes:
Inclusive não é muito do meio feitio. Eu nunca fui de participar de
grupos. Você focalizou ainda há pouco a minha trajetória no teatro
brasileiro. Quantos grupos teatrais que influíram decisivamente no
teatro brasileiro eu vi se formarem ao meu lado e eu nunca participei de
nenhum.
[...]: O teatro se passa em 40...
Dias Gomes:
Estava-se organizando os comediantes, que tanta influência tiveram na
renovação do espetáculo com o [Zbigniew Marian] Ziembinski [(1908-1978),
pintor, fotógrafo, ator e diretor polonês bastante polêmico, que se dizia o "criador do teatro brasileiro"]
e tal.
Eu
estava estreando no momento em que os comediantes estavam estreando
também, e eu não participei dos comediantes. Nos anos 1960: Teatro de
Arena, Oficina depois o grupo Opinião. Todos eles eram formados não só
de amigos meus como de pessoas que pensavam parecidos comigo. Havia até
uma influência esquerdista em todos eles, e eu nunca participei de
nenhum também. Eu nunca fui... eu sempre tive um caminho meio solitário.
Então a Academia é um grupo fechado de 40 pessoas, entre as quais eu
tenho amigos, tenho pessoas que prezo, que admiro, mas eu não tenho
muita vocação para esse convívio, eu sou um socialista insociável.
[risos]
Matinas Suzuki: Você ainda é de esquerda?
Dias Gomes: Sou.
Matinas Suzuki: O que significa ser de esquerda hoje?
Dias Gomes:
É uma bobagem esse negócio de pensar que não existe mais esquerda e
direita. Então nós estaríamos em uma sociedade igualitária e justa, se
não existe mais esquerda e direita. Porque enquanto houver pobres e
ricos, opressores e oprimidos haverá esquerda e direita. Haverá aqueles
que querem mudar tudo e aqueles que querem mudar só algumas coisas para
que tudo continue como está, que é o conservador. Então sempre haverá
esquerda e direita.
Rita Buzzar: Qual a sua utopia possível dentro de um horizonte?
Dias Gomes:
Toda minha juventude, e maturidade até, eu alimentei, como toda a minha
geração, a utopia de uma sociedade igualitária, uma sociedade
socialista. Infelizmente a tentativa, o projeto dessa sociedade, na
União Soviética, nos países do leste europeu, foi um projeto deformado
em sua essência, que excluía uma coisa essencial ao socialismo que é a
liberdade. E no momento em que você exclui a liberdade, você não está
mais realmente em um projeto socialista.
Esther Hamburger: Dias,
você já falou uma vez que existe uma missão para o teatro, que é a
missão de sensibilizar as pessoas para a possibilidade de
transformações. E a televisão, como é que entra nessa... Tem uma missão
também?
Dias Gomes:
É muito diferente do teatro, porque o teatro tem um poder de reflexão
que a televisão não tem. A televisão não é um meio propício a reflexão.
Então essa missão...
Alberto Guzik: Por quê?
Dias Gomes:
Do teatro, por exemplo, de conscientizar. Na televisão ela é muito
dificultosa, pelo processo mesmo em que a televisão é feita e exibida. A
televisão é exibida em uma sala, com luz acesa, com criança chorando,
cachorro latindo, campainha tocando e tal. Então você propor uma
reflexão profunda sobre algum tema na televisão, você está inteiramente
deslocado. No teatro você pode fazer isso...
Alberto Guzik: O ritual do teatro...
Dias Gomes: É outro.
Alberto Guzik: Ele estabelece essa comunicação com o telespectador.
Dias Gomes:
No teatro você vai para uma sala, tem todo um ritual, você sai de casa,
se veste, vai a uma casa de espetáculos, onde a luz é apagada, é acesa a
luz do palco. Toda a sua concentração... há um certo ritual que te leva
a uma concentração, e onde o autor pode propor uma reflexão.
Esther Hamburger: Por outro lado, a televisão está na intimidade das pessoas todo dia...
Dias Gomes:
É, tem o outro lado da televisão, o impacto da televisão é terrível, o
impacto de denúncia da televisão é terrível. É superficial, mas é
fortíssimo, inclusive porque atinge o mundo todo. A televisão está aqui e
está no outro lado do mundo. Você assistiu à Guerra do Vietnã [conflito
armado ocorrido entre 1958 e 1975, entre Vietnã do Norte e Vietnã do
Sul, tendo este sido apoiado pelos EUA], os americanos assistiram aos
filhos, parentes, os irmãos morrerem diante da tela. Isso é um impacto
terrível que pode inclusive influir na opinião pública. Mas não é o
problema da reflexão que é proposta do teatro, de mudar as coisas
através de uma conscientização do espectador. Não que o teatro possa
mudar alguma coisa, eu acho que o teatro não muda nada. Mas pode levar o
espectador à consciência da necessidade de mudar. Então a mudança é
feita lá fora, politicamente e tudo, mas o teatro tem esse poder.
Claudinei Ferreira: Você quando era jovem, escrevia com um sentido revolucionário?
Dias Gomes: Até hoje. [risos]
Claudinei Ferreira: O que é esse sentido revolucionário?
Dias Gomes: Esse sentido eu não...
Claudinei Ferreira: Quer dizer, uma pessoa vê a sua novela...
Dias Gomes: A palavra revolucionária talvez esteja um pouco gasta, né?...
Claudinei Ferreira: Ou um pouco forte...
Dias Gomes: Sentido [de] inconformista. Todo o meu teatro, como tudo o que escrevo, é inconformista.
Claudinei Ferreira: O que é um teatro [inconfomista]?
Dias Gomes:
Eu acho que quando você se conforma, não há por que escrever mais. Se
você está de acordo com tudo, se não tem nada para denunciar, não há
razão para ocupar o tempo de ninguém.
Claudinei Ferreira: Qualquer texto de
Dias Gomes - teatro ou a ficção ou a televisão - qualquer texto é inconformista?
Dias Gomes: É inconformista. Eu acho que essa é a chama, quando apagar, acabou. Quando eu me conformar com tudo, é melhor morrer.
Matinas Suzuki: Dias,
por favor, eu tenho aqui várias perguntas que se direcionam à sua
relação com a Janete Clair. Um telespectador que não se identificou
pergunta: “Qual a influência de Janete Clair nas suas obras”? A Silva
Doria, de Moema, pergunta: “Como era a sua relação com a Janete Clair”?
Ronaldo Correia, de Brasília, pergunta: “Nos anos 1970, como você e a
Janete Clair escreviam, trabalhavam”? E a Selma Solera, da Vila Mariana,
pergunta se há espaço ainda para uma teledramaturgia ou uma dramaturgia
como era a da Janete Clair. Perguntam também por que
Irmãos coragem [telenovela exibida pela Rede Globo de junho de 1970 a junho de 1971] não deu certo? O
remake [regravação].
Dias Gomes:
Vamos começar pelo princípio, senão aí vai ser um... Eu e Janete éramos
pessoas muito diferentes, talvez por isso nos déssemos tão bem. O nosso
casamento durou 33 anos, mas nós tínhamos visões de mundo muito
diferentes. Janete era católica, eu sempre fui ateu, eu fui marxista,
tive formação marxista e tudo. E ela tinha também um estilo de realismo
romântico, e eu sempre fui um realista empedernido. O meu realismo sofra
talvez um pouco do fantástico, do absurdo, da mágica. Mas, de qualquer
maneira, é uma posição realista. Então eu acho que não houve influência
propriamente; há influência profissional sim, quer dizer, Janete não
escrevia quando eu casei com ela, veio a escrever depois. Evidentemente
ela aprendeu comigo, depois seguiu o seu próprio caminho, as suas
novelas refletem a sua visão de mundo, é uma visão romântica,
privilegiando muito a arte acima de qualquer coisa, até mesmo acima da
lógica e da realidade. Essa é a posição dela, que é uma posição de
artista: "Dane-se a realidade, se eu posso fazer uma coisa bonita e
emocionante, essa é a posição". Já aquelas pessoas de formação muito
lógica, como eu, cartesiana, tem uma enorme dificuldade de se desprender
da lógica. É na marra que você corta com muita dor, muito sacrifício.
Então éramos pessoas muito diferentes; as novelas que ela fez eram
bastante diferentes das minhas em estilo, vocês todos naturalmente
viram. Agora, nós éramos pessoas que viviam sob o mesmo teto,
evidentemente conversávamos muito, opinávamos...
Matinas Suzuki: Não tinha uma "copiazinha"
ali no texto do outro...
Dias Gomes: Mas não tem nada que escrevíamos juntos...
Matinas Suzuki: De vez enquando ali umas frases, uns diálogos...
Dias Gomes:
Não. Há conversas e tal, cada um conversava com o outro sobre o que
estava escrevendo, e isso era uma troca de idéias. Na hora de escrever,
cada um escreve conforme o seu estilo.
Esther Hamburger: Dias, uma vez você falou em
Verão vermelho [telenovela exibida pela Rede Globo de janeiro a julho de 1970] e
Irmãos Coragem como
os marcos da teledramaturgia brasileira, uma novela da Janete Clair e
uma sua. Então juntando aí esse discussão como é que...
Dias Gomes: Eu não tenho a pretensão de que
Verão vermelho
seja um marco. Eu me referi naturalmente ao começo da teledramaturgia
brasileira na Globo. Porque, como vocês sabem, antes de eu entrar para a
Globo, a Globo só levava novelas folhetins escritas por uma senhora
chamada...
Alberto Guzik : Glória Magadan...
Dias Gomes: Gloria Magadan, uma cubana fugida de Cuba.
Esther Hamburger: Onde está ela agora?
Dias Gomes: Eu não sei onde anda. E que era uma senhora que tinha uma posição radical contra a...
Matinas Suzuki: Parece que está em Miami.
Dias Gomes:
...dramaturgia brasileira. Janete foi primeiro para a Globo do que eu,
ela foi em 1967. E me irritava muito esse negócio dessas novelas
passadas no deserto,
O Sheik de Agadir [telenovela de Glória Magadan, baseada no romance
Taras Bulba, de Nicolai Gogol, exibida na Rede Globo de julho de 1966 a
fevereiro de 1967], outras que passavam, sei lá, no Caribe, e não havia
nada passado no Brasil. Então um dia eu chamei a Janete e disse assim:
“Por que você não fala para essa senhora aí para fazer uma novela
brasileira”? Porque a Janete, por exemplo, adaptava as novelas que ela
tinha escrito para o rádio, [as] que se passavam no Brasil, e ela
obrigava a Janete a transpor essa novela para a Espanha, para o Caribe,
não sei o que lá. Eu digo “mas por que isso”? A Janete aí falou com ela,
e ela disse assim: “Porque o Brasil não é um país romântico. Um herói,
um galã, não pode se chamar João da Silva”. [risos] Tem que se chamar
Ricardo Montalban, uma coisa assim, sonora, essa era a posição dela.
Quando eu fui para a Globo, foi justamente quando ela saiu. A primeira
novela que eu assinei foi
Verão vermelho, que se passava na
Bahia, com personagens, com capoeiristas, poetas de cordel, coronéis e
tal, personagens bem brasileiros. Nessa época foi que a Janete começou a
fazer
Irmãos Coragem também... Aí foi o começo da
teledramaturgia brasileira na Globo. Não que não tenha sido feita alguma
coisa, outras novelas, em outras emissoras, eu acho que foram feitas.
Mas com uma seqüência, como um movimento realmente de teledramaturgia,
foi na Globo que isso se fez. E posteriormente nesta época aí, nos anos
de 1970, é que começou. Isso é o que eu quis dizer.
Matinas Suzuki: Vocês tinham a vantagem de ser um casal com separação de horários. [risos]
Dias Gomes:
Ela fazia a novelas das oito, eu fazia a das dez. E você sabe que ela
escreveu cinco novelas em seguida, sem descanso, porque a Globo só tinha
dois autores contratados naquela época, eu e ela. Então não tinha um
autor para substituir, e ela fez cinco novelas, terminando no sábado uma
e começando outra na segunda-feira. Entre elas,
Irmãos Coragem,
que teve 320 e tantos capítulos. Era uma estupidez! Eu cheguei a fazer
três novelas em seguida, até a Globo contratar um autor para revezar
comigo e outro para revezar com ela. Quer dizer, a Globo era muito
pobrezinha naquele tempo. [Depois] foi enriquecendo e foi contratando
mais autores.
Matinas Suzuki: Agora, sobre essa remontagem...
Alberto Guzik: Remake de
Irmãos Coragem...
Matinas Suzuki: Remake de
Irmãos Coragem, o que você...
Dias Gomes: Bom, no final a novela acabou, vai terminar bem. Houve uma série de equívocos no início, diretoriais...
Matinas Suzuki: Você começou refazendo, foi isso?
Dias Gomes: Não, a Globo me encomendou...
[...]: Você escreveu os primeiros trinta capítulos, né?
Dias Gomes:
...vinte capítulos iniciais. Eu reescrevi os vinte primeiros capítulos,
no vigésimo capítulo, eu tive um infarto, justamente quando eu estava
terminando a tarefa encomendada pela Globo. Vim até aqui para São Paulo
para colocar duas pontes de safena e uma mamária com o doutor Adib
Jatene. Então depois a novela seguiu com uma equipe que já estava
programada, o Marcílio [Moraes], o [Ferreira] Gullar [o primeiro
colaborou na adaptação do
remake de
Irmãos Coragem e o
segundo atuou como colaborador]. E houve uma série de equívocos
diretoriais no início. Por exemplo, a proposta era para atualizar a
novela e o diretor, ao invés de atualizar, recuou no tempo, o que deu
uma tremenda confusão. Houve também uma escolha de locação errada da
cidade, figurinos, uma série de equívocos que depois foram sanados. A
direção foi substituída e a novela entrou no seu ritmo, ficou mais uma
novela de Janete Clair do que era no início, porque havia uma série de
equívocos.
Matinas Suzuki: Você acha que o horário foi bom?
Dias Gomes:
Também há um equivoco de horário. Eu acho que não era uma novela para
esse horário. Tanto que em Portugal, por exemplo, era novela das nove
horas da noite e tinha um grande sucesso. Era o maior sucesso da
televisão portuguesa, porque vai [ao ar] às nove da noite. Às seis horas
realmente era um horário mal escolhido.
Alberto Guzik: Dias,
onde que o autor sente mais a sua presença, quer dizer, onde a obra é
mais dele, no teatro ou na televisão? Televisão é mais um processo
coletivo do que uma obra de autor? Até que ponto um autor interfere em
uma novela?
Dias Gomes:
Eu acho que no teatro, realmente, quando o autor é presente, como eu
sempre fui, eu sempre fui um autor que acompanhou, que acompanha os
ensaios...
Alberto Guzik: Você já censurou alguma direção sua?
Dias Gomes: Não, mas eu sempre...
Alberto Guzik: Alguma direção de texto seu?
Dias Gomes:
Eu sempre gostei de participar da direção e sempre gostei de diretores
que gostavam disso. Por isso, talvez, o Flávio Rangel foi quem dirigiu
mais peças minhas, ele dirigiu umas cinco ou seis. Porque o Flávio
gostava, ele me pedia para ficar junto dele na hora do ensaio. Então,
depois do ensaio a gente batia um papo, conversava. E saía uma coisa
harmoniosa, conjunta, nós discutíamos. Há diretores que não gostam. Eu
me lembro do Ziembinski, por exemplo, quando foi minha primeira versão
do
Santo inquérito [peça em dois atos, de 1966], [no] primeiro
ensaio, ele fez uma homenagem a mim, eu fiquei muito emocionado, depois
que acabou a homenagem, ele estendeu a mão e disse: “Muito bem, agora
volte no dia da estréia”. [risos] Ele me despachou...
Hamilton dos Santos: Dias,
como é essa história que você costuma dizer que o público brasileiro
costuma pensar que tem alguma influência na direção das novelas? Porque
você acha, ao contrário, que não tem a menor influência. Poderia
explicar melhor?
Dias Gomes: Tem alguma, mas não tanto quanto ele imagina. O capítulo que está indo ao ar hoje foi escrito há trinta
dias,
já foi escrito um mês atrás, geralmente, quando a novela não está
atrasada. E não é possível todo dia você estar, como imaginam alguns,
consultando a opinião [do público]. Eu, pelo menos, nunca me direcionei
por pesquisas, sempre joguei no lixo todas elas. Às vezes mandavam
pesquisas, eu achei que isso sempre atrapalhava. E se no momento, este
ou aquele personagem não está agradando, tudo bem, depois vai agradar.
De qualquer maneira, eu vou fazer o que está na minha cabeça. Então não
há essa influência tão grande assim. Há uma certa influência e essa
influência vem sendo parece que crescente, eu reconheço isso. Quer
dizer, o aparelho vai ficando mais complexo. Essa influência de
pesquisadores, de analistas etc. e tal é hoje muito maior do que era,
por exemplo, nos anos 1970, quando eu escrevi quase todas as minhas
novelas.
Hamilton dos Santos: Quando você fala de influência, eu queria
saber também... Você falou da sua formação marxista, você falou do
ritual do teatro também, eu queria saber quais os autores, quais os
dramaturgos que mais lhe marcaram, além dessa formação marxista. Ou
seria impossível responder sem...
Dias Gomes: Na linha marxista, naturalmente o
Bertold Brecht.
Não sei, essa é uma opinião [pergunta] que deve ser feita a um crítico,
porque a gente não tem consciência da influência que recebe... Claro
que aqueles autores que você mais admira devem ter influenciado mais,
nesse caso vamos dizer... eu admitiria uma influência de
Shakespeare,
o que seria uma enorme pretensão.[risos] Mas naturalmente, é o maior de
todos, é o nosso pai; o primeiro autor que eu li foi o
Shakespeare...
É claro que essa influência é inconsciente. Agora, como naturalmente
nós não estamos aqui na era elisabetana [referência ao período em que
reinou a rainha Isabel ou Elizabeth I (1558-1603), cujo ápice foi a
renascença inglesa, quando a literatura e a poesia do país floresceram.
Shakespeare é um dos destaques desta época], os autores modernos devem ter me influenciado mais. Como eu disse, o
Bertold Brecht,
Arthur Miller [(1915-2005), um dos principais autores do teatro
norte-americano contemporâneo], são autores da minha época e que
pensavam parecido também, tinha uma filosofia de teatro muito parecida,
embora realmente alguns estivessem equivocados. O próprio Brecht estava
um pouco equivocado...
Rita Buzzar: Voltando um pouco para a novela, o senhor acha que
a novela, o formato da novela está esgotado? Ela precisa de uma
reciclagem? Por exemplo, [a novela]
Irmãos Coragem,
em um primeiro momento, pareceu muito fragmentada, pelo menos a mim. E
depois como se resgatasse o folhetim. A novela é fadada a ter uma base
de folhetim para funcionar?
Dias Gomes: Não acho.
Rita Buzzar: Se o formato está esgotado, quer dizer, ele está se esgotando?
Dias Gomes:
Eu já falei sobre isso aqui. Eu acho que falta uma inquietação, faltam
experiências, falta um horário experimental, sem compromisso, para
tentar resgatar a novela desse formato que se estabeleceu...
Alberto Guzik: Quer dizer, falta ousadia então, falta coragem?
Dias Gomes:
Hoje em dia, há uma competição muito grande entre as emissoras no campo
da novela. Quase todas as emissoras estão com novelas, então nenhuma
quer arriscar nada porque tem o ibope [índice de audiência], para não
perder o ibope. Então vai-se em cima sempre daquilo que já deu certo. As
emissoras que estão entrando, inclusive no mercado agora, fazem
remakes
porque foram novelas que fizeram sucesso. Quer dizer, estão lendo em
cima de coisas que deram certo e [isso] impossibilita uma experiência
nova, uma mudança de formato...
Esther Hamburger: Irmãos Coragem não era uma mudança nesse sentido?
Dias Gomes: Não era o quê?
Esther Hamburger: A estética inicial dos
Irmãos Coragem não era experimental nesse sentido?
Dias Gomes:
É, mas era equivocada. Eu acho que é um equívoco você querer fazer
cinema na televisão. Cinema você faz no cinema, como o teatro deve ser
feito no teatro, televisão se faz em televisão. É tão equivocado fazer
cinema na televisão, como fazer cinema no teatro. São linguagens
diferentes. Então você querer fazer na televisão uma linguagem
cinematográfica, você está substancialmente equivocado. A televisão tem a
sua linguagem própria, e você tem que fazer...
Esther Hamburger: Então fala um pouco dessa linguagem, como é essa fórmula que está esgotada?
Hamilton dos Santos: E por falar em linguagem própria, como é
que você está se sentindo agora que a sua biografia e sua obra vão sair
em CD-ROM? Você chega também na mídia computador?
Dias Gomes:
É uma coisa nova, dos novos tempos, é uma coisa instigante. A
tecnologia é uma coisa meio assustadora pela sua evolução, seu
progresso. Hoje nós estávamos comentando, vai chegar um tempo em que
você não vai sair mais de casa, tudo você faz no computador; capaz até
de fazer amor no computador... [risos]
[sobreposição de vozes]
Dias Gomes: Um jeito de você fazer amor para você não ter que ir para a cama...
Matinas Suzuki: Dias, por favor, a Vanda Estefânia [atriz brasileira] que está vendo você, pergunta se você já leu a peça do José Celso Martinez Corrêa, chamada
Cacilda! [produzida em 1998].
Dias Gomes: Não.
Matinas Suzuki: E o que você acha do teatro do José Celso?
Dias Gomes:
Como dramaturgo, eu não conheço José Celso, eu só o conheço como
diretor. Como dramaturgo, eu realmente não posso opinar, eu não conheço
nada dele. Como diretor, ele foi um diretor de grande talento, inovador
nos anos 1970, só o que eu tenho a dizer dele.
Matinas Suzuki: E o Gerald Thomas [dramaturgo e diretor de
teatro, ousado e polêmico pela abordagem em relação ao textos e pelas
atitudes com os atores e público]?
Hamilton dos Santos: Que você disse que só solta fumacinhas...
Dias Gomes:
Eu acho que o Gerald Thomas é um produto desse vazio em que nós estamos
e que possibilita o surgimento de um certo charlatanismo, de uma certa
vanguarda que, na verdade, é uma retaguarda. São coisas
que já foram feitas há muito tempo e que são apresentadas como novas e
tal, e que não têm consistência, e que você sabe que vão passar, que são
ondas. Nos meus cinquenta e tantos anos de teatro, eu vi tanta onda
passar.
Alberto Guzik: O que você vê e que você gosta no teatro,
Dias? Quais os espetáculos que você viu recentemente e de que você gostou? De que autores você gosta? De que diretores você gosta?
Dias Gomes: Eu recentemente acabei de ver uma peça do Edward Albee [dramaturgo norte-americano],
Três mulheres altas,
é um espetáculo bonito. A peça me decepcionou um pouco, pelo sucesso
que vinha precedido, pela fama; eu esperava algo melhor, mais
instigante. Mas é uma peça muito bem escrita, com diálogos muito
inteligentes, com um achado no segundo ato, e de um autor que estava
esquecido. Vi recentemente também - para falar de dramaturgia brasileira
-
Pérola [peça mais premiada do autor], do Mauro Rasi, que me surpreendeu. Eu acho uma peça muito bem feita, eu acho que o Mauro Rasi...
Alberto Guzik: Você não gostava tanto das peças anteriores dele?
Dias Gomes: Eu gostei muito de uma peça dele,
A cerimônia do adeus.
Depois, das que vieram a seguir, eu não gostei tanto, eu achei que ele
estava olhando muito para o próprio umbigo. Quer dizer, ele tinha uma
visão de mundo muito limitada, porque era só ele e a família dele, a
vida dele e tal... Por mais interessante que ele seja, eu quero uma
coisa mais universal. Essa peça estranha-me paradoxalmente, embora
também seja sobre uma peça autobiográfica, ela tem uma certa
universalidade na reflexão sobre sentimentos, a evocação de um certo
tempo. É uma peça de que eu gostei. Não tenho visto muita coisa que eu
gostasse não, na verdade...
Maria Amélia Rocha Lopes: Dias,
deixa eu voltar um pouquinho à questão da televisão. Será que a
minissérie seria o formato para suprir essa ausência do horário mais
audacioso, aquele horário em que entravam as novelas das dez horas?
Dias Gomes: Eu acho que sim.
Maria Amélia Rocha Lopes: Você gosta de fazer minissérie?
Dias Gomes:
Por isso eu prefiro a minissérie, principalmente porque a minissérie
permite um acabamento melhor, você tem mais tempo. A novela é um
trabalho braçal quase. Você entra naquela roda viva de fazer um capítulo
por dia, e a novela está no ar engolindo capítulos e mais capítulos,
você não tem muito tempo para refazer um capítulo, para burilar. Na
minissérie tem, você tem tempo de... É um produto mais bem acabado e
também...
Esther Hamburger: Tem mais autoria...
Dias Gomes: O diretor também tem mais tempo para produzir, a produção... Por exemplo,
Decadência tem 12 capítulos. Ela vai ter três meses para fazer 12 capítulos, então...
Maria Amélia Rocha Lopes: Sai muito mais caprichado...
Dias Gomes: São quatro capítulos por mês... É muito mais do que...
Maria Amélia Rocha Lopes: Você falou duas coisas que me
chamaram bastante atenção aqui. Essa coisa de você não assistir novela e
de a televisão não ser um espaço para a reflexão. Aí eu fico pensando
se você não gosta de televisão.
Dias Gomes:
Não, eu gosto sim, eu gosto de televisão, eu vejo muita televisão. Vejo
mais jornal; programa de televisão eu assisto de vez em quando...
Maria Amélia Rocha Lopes: O que você assiste em televisão?
Dias Gomes:
Mais jornal e filme, como eu sou um cinemaníaco. E programa, uma vez ou
outra, mas também não posso ficar vendo televisão todo dia. Eu tenho
mais coisas para fazer, tenho outros prazeres na vida. Ler também é um
prazer...
Hamilton dos Santos: Um desses seus prazeres me parecer ser o
futebol e sobretudo o Flamengo. Você se definiu como um rebelde sem
causa. Como é que você viu a ida do Edmundo [jogador de futebol,
conhecido por seu temperamento forte] para o Flamengo? E você gosta da
rebeldia sem causa, moderna, dele também?
Dias Gomes: O Edmundo é um jogador que se enquadra muito no Flamengo, o Flamengo é um time emocional...
Hamilton dos Santos: De irresponsáveis...
Dias Gomes:
Um negócio assim, uma mística, é um time místico. Então o Edmundo é
meio isso, ele se enquadra e o Romário também [amigos, Edmundo e Romário
juntaram-se no Flamengo para formarem o que seria o melhor ataque do
mundo. A parceria durou pouco e nenhum título foi conquistado]. São
jogadores que se enquadram no Flamengo, não são burocratas porque o
Flamengo não é um time burocrata. Tem aquela mística, rubro-negra e
tal...
Hamilton dos Santos: Como é que você gosta de ver o futebol, pela televisão ou gosta de ir ao estádio?
Dias Gomes:
Eu já fui muito ao estádio, mas há muitos anos que eu não vou, porque
tornou-se uma coisa muito perigosa. Depois o futebol também teve um
período de decadência, depois da era Zico, ficou um jogo meio chato, sem
criatividade...
Matinas Suzuki: Mas está melhorando outra vez...
Dias Gomes:
Agora está melhorando de novo, felizmente estão voltando ao futebol
arte. Eu acho que o futebol é um grande espetáculo. Eu sempre encarei o
futebol... como autor, é um espetáculo! [risos] Quando não é um
espetáculo, quando passa a ser pura competição, para mim não tem nenhum
atrativo. Pura competição, de força, de velocidade...
Maria Amélia Rocha Lopes: Você não acha que os diretores desse espetáculo estragam muito? Os dirigentes brasileiros não estão à altura dos artistas?
Dias Gomes:
E não entendem muito o valor desse espetáculo. Poderia ser mais
valorizado como espetáculo. Os americanos, por exemplo, têm mais esse
senso de espetáculo. O futebol americano tem aquelas garotas que
movimentam [levanta os braços, movendo-os acima da cabeça] aqueles
negócios, tem um show no meio. Os diretores responsáveis pelo futebol
brasileiro deveriam entender que o futebol é um espetáculo e criar esse
arcabouço, essa moldura de espetáculo no futebol, que se presta muito a
isso...
Alberto Guzik: Seria um futebol festa?
Dias Gomes: Estimular o ver a arte do futebol...Uma festa, exatamente.
Matinas Suzuki: Dias,
por favor. Cortando um pouquinho, o Eduardo Donateli, aqui de Santana,
pergunta se você acha que tem necessidade de tanto sexo nas telenovelas
brasileiras. Espero que ele não seja um senhor de Santana. [refere-se às
Senhoras de Santana] [risos]
Dias Gomes:
Sexo hoje é uma coisa normal, está em tudo. Se a novela quer refletir a
realidade, eu acho que ela não pode fugir desses temas que são atuais.
Houve uma grande revolução a partir dos anos 1960, o problema do
comportamento humano... Hoje uma criança de sete anos sabe o que é sexo,
sabe como se faz sexo, se ensina na escola, as professoras ensinam.
Então acabou o tabu do sexo...
Esther Hamburger: Mas o de raça não. Uma coisa que me
impressiona nas novelas é que embora elas sempre tenham sido abertas a
essas modificações de comportamento; na questão racial, nem tanto. Como é esse contraste? É um tabu a questão racial? Hoje esse tabu está sendo desmontado?
Dias Gomes: Não é um problema racial, o que há é o seguinte... Você está se referindo basicamente ao negro, não é?
Esther Hamburger: É.
Dias Gomes: E que cobra muito...
Esther Hamburger: Não só, porque hoje em dia a gente fala muito
do negro, e eu estou falando principalmente do negro, mas também a
diversidade étnica brasileira não aparece nas novelas.
Dias Gomes:
Por exemplo, se você quiser fazer uma novela com muitos personagens,
por exemplo, de japoneses ou de origem japonesa, você vai ter uma enorme
dificuldade em encontrar muitos atores. Você encontrará poucos, mas não
vai encontrar muitos. Com o negro é a mesma coisa. Nós sempre fomos
muito cobrados e eu sempre tive até uma preocupação de fazer papéis para
negros nas minhas novelas, nas peças principalmente, no teatro. Porque a
comunidade negra cobrava, cobrava inclusive papéis que não fossem de
serventes, de criados, que só se dava esse tipo de papel no teatro
brasileiro. Quando eu estreei na década de 1940, eu escrevi uma peça que
se chamava originalmente
Sulamita. Era uma peça sobre o
problema racial. O personagem principal era um negro, negro que se
formava em medicina e sofria o preconceito da sociedade, apesar de
conseguir uma ascensão na escala social, ele sempre era olhado como um
negro. Isso foi escrito nos anos 1940. Essa peça, que foi escrita para o
Procópio Ferreira, foi encenada por ele aqui em São Paulo. Eu não
assisti aos ensaios, vim só assistir à estréia. O título foi mudado para
Doutor Ninguém. E eu tive a grande surpresa de chegar aqui...
Alberto Guzik: O Procópio mexeu muito na peça? Porque ele era famoso por isso, não é?
Dias Gomes:
Não, ele mexeu apenas no seguinte: o personagem que era negro virou
branco. [risos] O preconceito de cor passou a ser um preconceito de
classe. Primeiro, ele era filho de uma lavadeira. Então mudou a peça
toda. Quando acabou a peça, eu fui falar com ele: “pô, você mudou tudo”!
Ele disse: “Meu filho, há coisas que você não pode mudar no teatro. Há
tabus que você não pode vencer. Esse é um deles: negro tem que ser
sempre o criado, assim como o padre tem que ser sempre bonzinho”.
Felizmente nós quebramos todos esses tabus no decorrer do tempo. Essa
era a mentalidade do teatro da época, tanto que o Otelo [personagem da
tragédia de mesmo nome de William Shakespeare]
era sempre feito por um branco, era pintado de preto. Paulo Autran fez
Otelo pintado de preto. Aí há um outro problema também, o problema da
falta de atores negros, que não é por falta de talento da raça. Nos
Estados Unidos, se você puser um anúncio para atores negros, vai ter 3
mil negros na porta do seu teatro, grandes atores. Mas aí há um problema
econômico da classe dos negros no Brasil, [eles] ainda estão sendo
oprimidos, não têm acesso à escola, e não se formam grandes atores
negros...
Maria Amélia Rocha Lopes: Talvez eles não queiram fazer papel
de serventes, por exemplo. Talvez eles estejam cansados de fazer o papel
da empregada doméstica, do motorista, talvez seja isso também.
Dias Gomes:
Não é isso não. Se você faz realmente uma peça só de negros, enfrenta
uma enorme dificuldade. Você encontra dois ou três grandes atores negros
e os outros são deficientes; mas não é por culpa dos negros, é a culpa
da própria sociedade que marginaliza o negro. O negro geralmente é
pobre, no Brasil é uma raridade o negro ser rico, o negro ter um status
social são exemplos raros. De um modo geral, o negro é marginalizado, e
nisso você tem toda razão, há um preconceito hipócrita porque nós
dizemos que não temos preconceito, nós nos arrogamos de ser um povo sem
preconceito racial e todos dizem: “não, nós somos uma...” Mas na
verdade, existe o preconceito disfarçado.
Matinas Suzuki: Agora, sobre esse assunto, por exemplo, há uma
tendência nos Estados Unidos de você estabelecer cotas étnicas. Você é
obrigado a pôr 20% de hispânicos, 20% de... Como é que você enxerga
isso?
Dias Gomes:
Não se faz isso, isso nunca dá certo. Você impor uma cota disso ou
daquilo. Não é assim, você tem é que mudar a sociedade. Por exemplo,
houve época no cinema brasileiro em que havia uma cota. Os cinemas eram
obrigados a exigir tanto por cento de filme brasileiro, não deu em nada,
o filmes brasileiro morreu. Morreu, está ressuscitando agora. Não é
assim por lei, por decreto, que você muda uma sociedade. Você tem que
mudar, mudando a própria sociedade.
Claudinei Ferreira: Qual é o seu personagem negro preferido da
sua dramaturgia ou de novela? Qual o personagem negro importante seu,
que você escreveu, que você trabalhou?
Dias Gomes:
Vários. O Milton Gonçalves, por exemplo, que é um grande ator negro, é
um dos maiores atores do país, fez vários personagens negros. No
Vargas [criada em 1968, com o título de
Dr. Getúlio, sua vida, sua glória, a peça foi rebatizada em 1983 como
Vargas, e foi escrita em parceria com o poeta Ferreira Gullar]
, por exemplo, ele fez o [...] no teatro, muito bem. O
Vargas,
por exemplo, era cheio de negros. Eu não sei se vocês viram aqui a
peça, mas ela foi encenada no Rio de Janeiro, era um musical sobre a
morte e os últimos
dias
de Getúlio Vargas. E eu fazia, por exemplo, o ministério todo de
negros. Todos os ministros eram negros, porque era uma versão de uma
escola de samba, um desfile de escola de samba sobre a vida de Getúlio.
Então por isso o ministério todo era de negros com aquelas cabeleiras de
carnaval etc e tal. Foi uma enorme dificuldade de você conseguir vários
atores negros bons...
Claudinei Ferreira: A família Vargas gostou?
Dias Gomes:
Gostou. Até o Lutero Vargas [filho mais velho de Vargas] pediu para a
peça ser reencenada no aniversário do Getúlio em 1982, me parece... Não,
1984 era o aniversário de Getúlio. Ele pediu ao [Leonel] Brizola
[(1922-2004), em 1984, ele estava no início de seu primeiro mandato como
governador do estado do Rio de Janeiro] para reencenar a peça e o
estado reencenou a peça.
Claudinei Ferreira: Só para terminar,
Dias,
independente da novela ou do teatro, se a pessoa não quiser assistir à
novela e nem ir ao teatro, ela pode ler seus textos que estão aí nas
livrarias e bibliotecas. Indique um só para o nosso telespectador.
Indique pelo menos um texto seu de teatro, uma vez que...
Dias Gomes: Todas as minhas peças estão publicadas,
O pagador de promessas,
O santo inquérito, que são peças inclusive adotadas em escolas. Todas
elas estão publicadas. Há uma coleção também da editora Bertrand, que
já está no quinto volume, e cada volume envolve duas ou três peças, com
críticas, fotos...
Alberto Guzik: Qual é sua peça preferida? Você tem alguma que é a sua peça do coração?
Dias Gomes:
Isso é como perguntar ao pai qual é o seu filho preferido. [risos] Essa
é uma pergunta que a gente nunca responde. A peça preferida é sempre
aquela que você está escrevendo. Você tem sempre a impressão de que vai
ser melhor do que todas as outras. Ou pelo menos você se imbui dessa
convicção, porque senão você não escreve. Se for fazer uma peça sabendo
que ela vai ser pior, então você não escreve. Então você sempre acha que
aquela vai ser a grande peça.
Matinas Suzuki: Dias, o nosso tempo está esgotando...
Dias Gomes: Já?!
Matinas Suzuki: Eu queria lhe fazer uma última... Já, para você
ver, passa muito rápido. O Marcelo de Lourenze, que tem 15 anos,
pergunta para você o seguinte: “Como é que é dividir um lugar na
Academia com o doutor Roberto Marinho [presidente das Organizações
Globo] [risos], que foi seu patrão durante anos e é ainda?".
Dias Gomes: Não há nenhuma divisão porque o Roberto senta em uma cadeira e eu sento em outra, porque não há nenhum conflito. [risos]
Matinas Suzuki: Bem,
Dias, eu queria agradecer bastante a sua presença nesta noite...
Dias Gomes: Muito obrigado.
Matinas Suzuki: Há oito anos que o
Roda Viva tenta lhe entrevistar...
Dias Gomes: Enfim me pegaram...
Matinas Suzuki: E foi lhe pegar no dia dos namorados, o que eu acho que é uma injustiça com você...
Dias Gomes: Exatamente, pois é, eu acho até que, como eu disse a vocês, o estupro até não foi tão doloroso. [risos]
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