quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Eu quero o cheiro das manhãs da minha terra" ...



"Depois de 9 anos na Europa, aprendi sobretudo a dar valor ao que eu desprezava, às pequenas coisas da vida, às raízes locais, e senti crescer um mim um certo pendor provinciano, embora seja um provincianismo distinto de sua acepção tradicional."

Pra mim é bem curioso o caso de Juliano Mattos, um cara que foi morar na Europa e vive com saudades de Aracaju. Curioso porque convivo dia-a-dia com pessoas que morrem de vontade de sair de Aracaju. "o sentimento mais provinciano que existe é o desejo de sair da provîncia", já disse um poeta cujo nome me escapa ...

Mais Juliano Mattos em http://errocrasso19.blogspot.com

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Há 10 Anos ...
por Juliano Mattos

Quando o ponteiro do relógio saltar das 23:59 do dia 31 de Dezembro de 2009 para as 00:00 do dia 1 de Janeiro de 2010, estarão completando 10 anos do começo do ano mais incrível e surreal da minha vida.

Há 10 anos, tudo mudava. Deixei de seguir o caminho dos outros e passei a seguir o meu. Desviei-me, completamente, do mundinho do Bê a Bá das gentes normais e mergulhei no desconhecido. Um mergulho de corpo e alma, sem pestanejar, sem olhar para trás, numa busca voraz na esperança de encontrar refúgio nalgo distinto do mundo em que vivera. A minha sede era tanta, que o Rock que eu havia começado a acompanhar a partir de 1998 não me satisfazia, parecia um deserto de mais do mesmo, reprodutor que era do recheio da sociedade contra a qual eu declarava guerra. Mas foi no meio desse deserto que encontrei um oásis: o Punk.

A rebeldia insaciável do Punk condizia com o meu estado de espírito, e foi dele que me revesti para afrontar a tudo e todos, para cuspir naquilo que acompanhava a minha vida desde sempre como sendo coisas intrínsecas à existência.

Certamente os psicólogos diriam que foi resultado de uma infância difícil no seio de uma família desmembrada e nômade, da sujeição a um estilo de vida desregrado e errante que caracterizou-se por não possuir raízes devido a inúmeras mudanças de casa, de bairro, de cidade, de estado e até de país.

Que seja! O certo é que por mais difícil que possa ser enveredar por caminhos paralelos ao que se está estabelecido, não há nada pior e mais deprimente do que a futilidade e a mediocridade de toda a normalidade. No ano 2000 finalmente descobri que odiava profundamente tudo o que era normal, tudo o que caracterizava (e caracteriza) por excelência a sociedade na qual vivia. E quando descobri que existia possibilidade de seguir um rumo diferente, quando conheci rumos diferentes, não pestanejei, não fiz qualquer ponderação e mergulhei no oásis de corpo e sobretudo de alma.

No ano 2000 aconteceram mais coisas na minha vida do que em todos os anos anteriores juntos. Ao entrar prá valer na cena Punk de Aracaju, o meu mundo transformou-se, as minhas perspectivas posicionaram-se para um novo horizonte que me oferecia um leque de novidades absolutamente avassalador. Até então eu era um mero apreciador de Rock, sem grandes pretensões quanto ao papel transformador da música. Mas bastou ir ao primeiro show da minha vida, na ATPN em Aracaju, para sentir a transformação me consumir as entranhas. O ambiente era mágico, lavava-me a alma e dotava-me de energia para afrontar a sociedade e buscar a afirmação da minha personalidade.

Entre 2000 e 2001 foram dezenas de shows, praticamente não havia semana em branco. Em 1 ano apenas, conheci mais pessoas do que todas aquelas que conhecera até então, fiz as amizades mais marcantes e sinceras da minha vida - algumas delas ainda hoje perduram graças ao advento da internet -, arranjei um trabalho escravo para ganhar 50 reais por mês somente para poder ir a todos os shows e para alugar discos de Punk na locadora CD Club, formei bandas de garagem que nunca dela saíram, mas que representaram momentos inesquecíveis de pura pujança juvenil. Tomei os meus primeiros porres de verdade, arranjei as minhas primeiras namoradas, abandonei o futebol para andar de skate, sobretudo depois da perda do meu saudoso avô, grande companheiro de jornadas futebolísticas. Abandonei a escola em nome da rebeldia, deixei o cabelo crescer, levantei moicano, rasguei as roupas, conheci as fanzines, entrei verdadeiramente no underground e comecei a pensar pela própria cabeça. Troquei os vícios e costumes banais e corriqueiros pela Freedom, pela Little Music Underground, pela ATPN e pelo Rock na esquina com os amigos, troquei a televisão pela vida real, comecei a tocar guitarra, abracei o vegetarianismo para não mais o largar, afirmei o meu ateísmo até então auto-reprimido, dinamitei toda e qualquer moralidade religiosa e conservadora, questionei a autoridade, conheci Bakunin e abri-me para o mundo em detrimento do provincianismo limitador.

Todas as estruturas da minha vida foram abaladas. O Punk tornara-se na minha tectônica. O ano 2000 representou a minha orogenia hercínica pessoal, numa analogia geográfica (mais geológica) com o fenômeno responsável pelo período mais ativo da dinâmica da Terra, durante o qual as massas continentais dispersas se uniram numa só (Pangea) e cadeias montanhosas foram erguidas.

Isso tudo resultou numa nova personalidade que me remetia ao experimento. Eu mergulhava profundamente em tudo aquilo que me atraía, algumas vezes sem conseguir suportar o peso das consequências, mas em geral sempre desvendando novos horizontes, sempre buscando aventuras como se fosse o meu último ano de vida. E foi, de certa forma.

Em Março de 2001, após mais de 1 ano em suspenso, finalmente chega a hora da partida para Portugal. Era a interrupção de uma festa em seu apogeu. Após quase 14 anos, sou arrancado de Aracaju como as raízes de uma árvore são arrancadas da terra. As amizades são cortadas, os sonhos desfeitos, todo esse novo mundo se desfazia em seu auge, quando eu vivia aquele que foi o momento mais feliz, satisfatório, surreal e enriquecedor da minha vida. Essa mudança de cidade, de país, de continente, representou também o fim da minha adolescência e me obrigou a ser adulto. 10 anos depois dessa epopeia começar, ainda não vivi nada semelhante. Aquele ano foi tão surreal que os meus flashbacks de costume o remetem à ilusão, ao mito, ao épico, à fantasia. Ele aconteceu, mas não parece, sobretudo quando faço um apanhado em ordem cronológica dos meus 27 anos. O ano 2000 foi um marco, e sempre tenho a sensação de que ele durou tanto quanto todos os outros 26 anos juntos. Se um dia eu escrever uma biografia, o ano 2000 deverá ter não só um capítulo dedicado a ele, mas um volume inteiro.

10 anos depois, boa parte daquela energia, daquela vontade de desvendar, daquele impulso incontrolável, foi desfeita pelas desilusões e pelo desgaste psicológico de viver contrariado. Nunca aceitei a minha vinda para a Europa, e quanto mais penso nisso, mais vontade tenho de regressar a um período onde tudo era magia.

Depois de 9 anos na Europa, aprendi sobretudo a dar valor ao que eu desprezava, às pequenas coisas da vida, às raízes locais, e senti crescer um mim um certo pendor provinciano, embora seja um provincianismo distinto de sua acepção tradicional.

Depois de percorrer a Europa, conhecer gente de todos os países, aprender a falar outras línguas, crescer culturalmente e aprofundar-me no underground europeu, cheguei a um ponto em que nada mais pode ser novidade, nada mais me toca e me empolga, nada mais me suscita tanto interesse e vontade incontrolável. Desde 2001 que a tendência é decrescente, não apenas porque no ano 2000 eu ainda não havia me "desvirginado" culturalmente, mas sobretudo porque a Europa não é o meu habitat e eu, alóctone desde sempre, nunca tive o dom da adaptação, tão só do improviso temporal.

A minha incessante busca pelo resgatar da epopeia é o meu revivalismo, a minha utopia pessoal. Há 10 anos a minha alma adentrava no dito oásis para nunca mais sair. Desde então, vivo sem ela. Porque eu vim para a Europa e ela ficou em Aracaju, que por ter sido a cidade dos meus sonhos, hoje é a cidade dos meus pesadelos.

2 comentários:

Juliano Mattos disse...

"durante o qual as massas continentais dispersas se uniram numa só (Pangea) e cadeiras montanhosas foram erguidas". Putz, CADEIRAS montanhosas é boa! hahaha São cadeias!

Você deve ter percebido logo o teor nostálgico, mas sobretudo que qualquer texto que eu tente escrever sobre algo no passado em Aracaju acaba desaguando nessa mágoa profunda por ter sido arrancado daí. O texto até começa focalizando o Rock e o Punk, mas a partir de um momento sai disso e entra na nostalgia. Eu até tento, mas não consigo evitar.

Se você tivesse presenciado o meu último dia em Aracaju...eu me embebedei todo para não sofrer muito, mas acabou sendo ainda pior, fiz um enorme papelão. Na manhã do vôo, foram alguns amigos que vieram à minha casa, me deram banho e me colocaram roupa, porque a minha ressaca unida à tristeza era algo contra a qual eu não podia lutar. Até chorei quando me despedi do zelador do meu prédio. No aeroporto ainda teve mais papelão hehehe

Mas tentando deixar isso de lado, o ano 2000 foi realmente foda, tudo o que aconteceu nele mudou-me para sempre e reflete no que sou hoje, sem dúvida.

E quando eu for a Aracaju, é claro que você estará à minha espera no aeroporto, oxente!

Adelvan disse...

"Eu até tento, mas não consigo evitar." - Ué, não tente. "Recordar é viver". Mas desencana, cara, vc mora na europa, porra. Com certeza tem MUITA coisa interessante para ver/fazer/conhecer por aí. Mas se depois de 9 anos vc ainda tem essa saudade toda, tem jeito mesmo não ... Dá a impressão que vc vai acabar voltando pra cá um dia. Caso isso ocorra, espero que dê tudo certo pra ti, e tamos aí (quer dizer, aqui). Te pago uma macaxeira de forno na Casa do cuzcuz.