quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um sergipano ( de coração ) no Velho Mundo

Há algum tempo me deparei com um cara que mora na Europa, em Portugal ( mas que está sempre em Praga, Republica Checa, lar de sua namorada ), perguntando sobre a Karne Krua e os shows na ATPN numa comunidade do orkut. Respondi suas perguntas e acabamos nos tornando amigos virtuais. Foi quando soube que ele morou por muito tempo em Aracaju, e tem saudades daqui, apesar de viver no chamado " primeiro mundo ".

Recentemente, em seu blog, ele publicou a postagem que reproduzo abaixo, fazendo uma interessante analogia entre o Muro de Berlin ( 20 Anos da queda ) e os muros do condominio onde vivia.

Com vocês, Juliano Mattos:

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O Muro de Berlin, 20 Anos depois

por Juliano Mattos

Em 1989 eu era um guri desfrutando ao máximo da minha feliz infância em Aracaju. Uma criança como qualquer outra, que passava a vida jogando futebol, cheio de ilusões e borrifando-se para o mundo.

Nessa época eu vivia num condomínio fechado de classe média chamado Flamboyant. Nele havia uma piscina grande, uma quadra poliesportiva, um salão de jogos, com bilhar e tênis de mesa, e um parquinho de diversão infantil. A minha vida resumia-se ao perímetro do condomínio e dali eu só saia para ir à escola, situada ao lado do Flamboyant. Desde 1987 ali, eu vivia entre dois apartamentos, o dos meus pais e o dos meus avós. No 11º andar do Bloco A, na porta número 1104, viviam os meus avós e a minha tia Mina, e no 2º andar do Bloco E, na porta 204, viviam os meus pais. Eu gostava mais do apartamento dos meus avós porque ele me proporcionava uma vista para fora do condomínio, da fortaleza. De lá eu conseguia ver, a jusante, o emaranhar de prédios que começava a se configurar na Treze de Julho, o Rio Sergipe, a Barra dos Coqueiros e atrás dela o mar.

Já para oeste, eu costumava contemplar os contornos da Serra de Itabaiana que se desenhava ao fundo, uma das mais belas atrações para turismo de natureza do estado de Sergipe. Hoje arrependo-me de nunca a ter visitado. Quem diria que 20 anos depois eu estaria estudando Geografia e me debateria no estudo da geomorfologia?

Mas olhar pela janela do apartamento dos meus avós era uma forma de imaginar o mundo fora do Flamboyant, de avistar coisas diferentes e as fantasiar. Eu imaginava a Serra de Itabaiana como uma cadeia montanhosa gigantesca, embora seu ponto mais alto atinja apenas os 600 metros de altura. Quando mudei-me definitivamente para o Bloco A devido ao divórcio dos meus pais, passei a observar cada vez mais o mundo fora do condomínio.

Em Novembro de 1989 eu tinha 7 anos de idade. Não tenho nenhuma lembrança marcante de acontecimentos ligados à Guerra Fria. A minha única grande lembrança envolvendo política está ligada à enorme frustração pela vitória de Collor nas eleições daquele ano. Minha mãe e tia eram militantes moderadas do PT e dentro do Flamboyant era muito frequente ouvir aquela emblemática música da campanha eleitoral petista, intitulada "Lula lá". Todos os dias de manhã eu punha-me na varanda para ouvi-la ser ecoada de algum outro apartamento. Eu tinha uma fitinha K7 com ela e não a parava de tocar. Foi certamente a primeira vez que senti-me emocionalmente ligado a uma ideia política, a letra da música soava-me bem, justa, e com aquela idade eu achava que a prática política era fiel à teoria.

No seio da minha família, algumas posições sempre foram mais explicitamente assumidas. Lembro-me das camisetas alusivas às Diretas Já, os quadros de Che Guevara na parede de casa e os comícios do Lula, aos quais eu era levado por minha mãe e tia e adorava. Não pela política em si, mas pela festa.

Tenho muito mais recordações acerca da derrota de Lula para Collor no segundo turno das eleições, em Dezembro de 1989, do que dos acontecimentos na Alemanha. Lembro-me da enorme tristeza que pairou sobre o Flamboyant com a vitória de Collor. Na verdade acredito que a maior parte dos habitantes do condomínio fazia festa, mas a minha lembrança resume-se ao rosto das pessoas mais próximas a mim e à minha família.

Todavia, tenho algumas recordações, bastante diluídas, sobre uma tal grande mudança no mundo, sobre o anunciar de uma nova Era, etc. Para mim, Alemanha, URSS e EUA eram tão longes que eu os encarava como sendo outros planetas. Eu não podia ver nenhum desses países olhando da janela do Flamboyant.

Hoje, a sensação de saber que vivi os 7 primeiros anos da minha vida numa outra "Era", num outro contexto geopolítico, causa-me estranheza. Geralmente a Guerra Fria só existe nos anais da História para as gerações mais novas, e saber que ainda assim vivi um período que hoje é pura história faz-me sentir que presenciei duas fases diferentes e que fui contemporâneo a um dos momentos mais importantes do século XX.

Aquele menininho ruivo, inocente, medroso e acanhado jamais imaginou que duas décadas depois encontraria refúgio no leste europeu ao arranjar uma namorada checa e apaixonar-se por Praga, e que a partir dali visitaria 8 países que estavam "do outro lado", além do próprio centro da Cortina de Ferro, Berlim.

A vida é estranha e dá voltas inacreditáveis. Quando visitei Berlim, em Setembro de 2008, eu só pensava em ver o muro. A capital da Alemanha unificada possui dezenas, centenas de atrações, mas eu queria era ver as ruínas de um paredão cinzento. Para mim era muito mais impactante do que quaisquer outras coisas por mais interessantes que fossem.

Durante o meu primeiro contato visual e físico com o muro a minha mente remetia-me para a minha infância e para os tempos de Aracaju, como se automaticamente estabelecesse um paralelismo temporal de eventos tão distantes um do outro em espaço.

Eu só conseguia pensar que nunca imaginara ser possível estar ali. O mesmo se sucedeu no último mês de Agosto, quando visitei Auschwitz. Mas o Muro de Berlim tem um peso histórico maior, porque simbolizou todo um período iniciado no pós-guerra.

Ver e tocar o muro foi uma das experiências mais impressionantes pelas quais já passei. A confusão de sentimentos que emanam em simultâneo é perturbador.

A primeira vez que vi o muro foi na Postdamer Platz, na área central da cidade. Dois blocos permanecem ali como os únicos vestígios do muro numa praça que já foi um autêntico deserto e hoje é rodeada por arranha-céus modernos. Mas o maior impacto deu-se quando deparei-me com a East Side Gallery, um pedaço de quase 1Km do muro que foi preservado e hoje é uma galeria a céu aberto, repleto de pinturas alusivas ao próprio muro.

A foto ao lado mostra a Martina e eu no ponto de partida da East Side Gallery. Na época em que lá estivemos as pinturas encontravam-se vandalizadas por pichações e mensagens idiotas de turistas igualmente idiotas. Recentemente as pinturas foram restauradas.

Desde que o muro foi destruído, as suas milhares de pequenas partes transformaram-se em sourvenirs para os turistas. Há cartões postais com supostos pedaços do muro à venda em lojas, e muita gente aproveita para depreda-lo para obter pedaços originais dele. Além de desrespeito a um monumento histórico, é um desrespeito à cidade de Berlim e sua memória.

Mas é claro que é tentador estar ali ao lado do muro. Passou-me pela cabeça levar um pedacinho para casa, mas em momento algum eu pensei em quebrar partes do muro. Então, fiquei procurando pelo chão pedacinhos soltos, mas não encontrei nada. Até que lembrei-me de reparar no início do muro, onde ele havia sido cortado, deixando seu material interior exposto. Foi ali, num buraquinho, que encontrei quatro pedacinhos semi-soltos e consegui chegar lá com um dedo.

Pronto! Não foi preciso imitar os turistas idiotas para conseguir uma recordação idiota. São quatro pedacinhos pequenos de cimento, quatro pedrinhas cinzentas, daquelas que abundam nas ruas de qualquer cidade, mas que revestem-se de um simbolismo muito forte por serem parte de Muro de Berlim e, consequentemente, da História.

Bem, depois de exibir-me com um pedacinho do muro, nessa foto horrível devido à falta de talento do meu irmão, passarei para o lado político do Muro de Berlim e da Guerra Fria.

Costuma-se dizer que o acontecimento representou o fim do Comunismo. É certo que foi o fim da União Soviética e do bloco de leste. Eu diria que findou o imperialismo russo. A União Soviética era um império que controlava os demais países do leste europeu, que eram satélites à sua mercê.

Até aí tudo bem, a questão é mais ou menos pacífica, a não ser para os nostálgicos defensores do totalitarismo soviético, que conseguem justificar o injustificável apelando a uma série de fantasmas e desculpismos ridículos.

Mas a queda do Muro de Berlim não representou o fim do Comunismo. O Comunismo nunca existiu nem na União Soviética e nem em qualquer país do mundo. O Comunismo como é concebido em teoria nunca foi posto em prática à escala nacional ou continental. Os dias seguintes à Revolução Russa, com a queda do Czar, já configuravam uma ditadura de partido único, com censura, perseguição e burocracia estatal. Aqueles que ficaram conhecidos como os mais importantes marxistas, Lenin e Trotsky, ao apoderarem-se de forma oportunista do processo revolucionário em curso, trataram de fundar a estrutura basilar de uma ditadura que não tinha nada de proletária, internacionalista e socialista. Fundaram um regime escravista, imperialista, e incrementaram a burocracia estatal ao capitalismo.

Durante o século XX há registro de algumas experiências mais ou menos profundas de socialismo. Alguns exemplos são a Revolução Mexicana de 1910 com a aclamada Republica Socialista de Baja California, ou com os Kibutz de Israel, a Makhnovtchina da Ucrânia, que resistiu como pôde à tirania dos bolcheviques, ou a Revolução Espanhola, que ocorreu em simultâneo à Guerra Civil de 1936-39 e representou a maior e mais profunda experiência de comunismo do século XX e talvez de toda a história da civilização, e que, não por acaso, foi esmagada pelo stalinismo. Isso para não falar nas experiências do século XIX, inclusive no Brasil, como a Colônia Cecília.

A União Soviética configurava um regime totalitário, opressor, era a materialização do terror de George Orwell. Na verdade o 1984, sua obra prima, foi concebida com inspiração no terror stalinista que Orwell presenciou quando combateu na Guerra Civil Espanhola.

Hoje, os meios de comunicação, meros propagandistas do sistema que vigora, difundem a ideia de que a URSS representava não apenas um sistema político e económico, mas era a materialização fiel de uma ideia, o socialismo, para assim difamarem um modelo alternativo ao liberalismo selvagem. Um grupo muito restrito de grandes empresas muito poderosas controla os meios de comunicação, e todos os dias nos impingem com comentadores e especialistas que propagandeiam as ideias do modelo instituído. As diferenças que existem são partidárias, não ideológicas, salvo raríssimas exceções.

Nas esferas da comunicação social das massas, diz-se que o Comunismo falhou e acabou com o colapso da URSS. Dizem que o Comunismo é intrinsecamente tirânico e que o Capitalismo é a única solução para o mundo.

Anunciaram o triunfo do Capitalismo e com o colapso soviético o economista e ideólogo do reaganismo e do neoconservadorismo, Francis Fukuyama, chegou a anunciar o fim da história.

Bastaram poucos anos para essas profecias patéticas serem desmentidas. O mundo continuou em constante mudança, e revezou momentos de evolução com momentos de regresso. Vários novos conflitos se iniciaram, novas rivalidades surgiram, as crises financeiras sucederam-se e novos paradigmas afloraram. Hoje temos o terrorismo islâmico e o aquecimento global (embora este último eu considere uma enorme farsa).

Francis Fukuyama e todos os que o seguiram na profecia do fim da história contemplam hoje um mundo mais complexo do que aquele que existiu durante a Guerra Fria. Até então, tudo era muito claro, duas grandes potências, inimigas uma da outra, dividiam a influência no mundo. Hoje, temos um contexto geopolítico extremamente diversificado e pouco se pode dizer sobre o futuro.

O Capitalismo não vingou, continuou spobrevivendo sob crises sistemáticas e sistêmicas. Suas maravilhas não foram cumpridas. Recentemente, com a última crise, o paradigma neoliberal sofreu o mesmo processo de colapso que a URSS, mas não há alternativa formada. O Capitalismo substitui-se a si próprio porque, infelizmente, a esquerda é burra e tapada.

Os que não se deixam reciclar politicamente pela democratura plutocrática do Capitalismo, continuam alimentando a fantasia macabra de que a União Soviética era um paraíso na Terra. Os PCs, mundo afora, continuam seguindo a cartilha stalinista, continuam defendendo atrocidades, justificando assassinatos e fantasiando regimes atrozes, como a Coreia do Norte ou Cuba.

Os propagandistas do Capitalismo gostam de falar em Socialismo Real e Socialismo Utópico para afirmarem, como roupagem de conveniência ideológica, que o único socialismo que existe é o totalitário, é a tirania, a opressão, e que somente os tolos e sonhadores podem acreditar nalgo diferente disso.

A queda do Muro de Berlim foi a melhor coisa que aconteceu para o Socialismo no mundo, mas a esquerda não soube aproveitar a oportunidade que lhe surgiu. Boa parte até lamentou o fim do monstro jurássico. Se a esquerda socialista tivesse compreendido o que a União Soviética representou, poderia tirar partido do colapso do monstro e assumir uma nova posição perante o Capitalismo. Poucos o fizeram, poucos abriram mão de status partidários e ideológicos para o fazerem.

20 anos depois, a esquerda continua burra e tapada, e o Capitalismo vai se arrastando e sobrevivendo por não haver um inimigo que lhe espete a estaca no coração. A última crise colapsou importantes pilares da ideologia dominante e não houve nenhuma alternativa pronta para a substituir.

20 anos depois, espera-se que os fantasmas do passado deixem de assombrar a lucidez das mentalides presentes. Espera-se que o futuro consiga concretizar todo um pacote ético que tem o socialismo como essência. Será que existirão pessoas suficientemente éticas para o fazerem? A evolução ética da sociedade tende a chocar-se cada vez mais com as estruturas do Capitalismo, de forma que a evolução das mentalidades e, consequentemente, dos comportamentos, poderá chegar a uma sociedade socialista mais rapidamente do que revoluções violentas que acabem por fazer toda uma estrutura ética desmoronar e voltar ao ponto inicial.

Não há lugar para mais muros, embora os EUA e Israel pensem o contrário. Sobretudo, não há lugar para regimes que, alavancados por distorções grotescas de ideais sublimes, configurem o mais puro terror e a mais opressiva tirania.

20 anos depois da queda do Muro de Berlim, o Socialismo continua inédito à escala nacional, continua sendo um ideal demasiado avançado para o nível de desenvolvimento atual, e caberá à humanidade conseguir atingi-lo, apesar de todas as forças contrárias e retrógradas que depois de anunciarem o fim da história, tratam de travar a evolução e manter tudo como está, num eterno presente que é a cada dia mais insuportável perante uma humanidade que reclama para ela a modernidade ética sem no entanto estar disposta a coloca-la em prática.

Um comentário:

Juliano Mattos disse...

Pô, o relato dessa cara e sua própria aparência são-me familiares...hehehe

Cara, eu escrevi isso sem perceber a potencial analogia entre os muros do Flamboyant e o Muro de Berlin, só percebi quando falei contigo onteontem. Sem dúvida essa analogia poderá ser melhor desenvolvida. grande ideia você me deu :-)

E eu não sou apenas sergipano de coração. O sou de corpo e alma. Eu sou o que sou (com todos os aspectos positivos e negativos) só porque vivi 14 anos em Aracaju.

Ver o Muro de Berlim foi algo absolutamente surreal, mas não poderá haver nada mais surreal e avassalador do que o meu regresso a Aracaju, algo que pretendo concretizar.