terça-feira, 8 de outubro de 2013

De boas intenções o inferno está cheio ...

          “Lênin e Trotsky foram os piores inimigos do socialismo no século XX”. A frase, no mínimo controversa, é de Noam Chomsky, um dos mais importantes intelectuais de esquerda da atualidade. Ela teria me escandalizado em 1989, quando eu estava na Universidade descobrindo o marxismo, abjurando o stalinismo e simpatizando com o trotskismo. Hoje, no entanto, ela apenas me intriga. Não sei se chegarei um dia tão longe em minhas conclusões, mas agora entendo que o stalinismo não foi exatamente uma ruptura completa com os cânones do leninismo, como os seguidores de Trotski parecem querer nos fazer crer. Quanto mais leio sobre o assunto, mais chego à conclusão de que as sementes do autoritarismo foram lançadas lá atrás, na concepção leninista de um partido de vanguarda que supostamente guiaria (na prática, tutelaria) as massas rumo ao futuro socialista. E seguiu sendo cultivada quando eles dissolveram a Assembléia Nacional Constituinte, convocada pela revolução de fevereiro de 1917; esvaziaram os sovietes, depois de justificar a atitude anterior com o argumento de que os conselhos de operários substituiriam a assembléia burguesa; extinguiram os demais partidos políticos e, por fim, proibiram as frações – ou facções - dentro do próprio partido Bolchevique.
          Tudo isso, no entanto, aconteceu em meio a um contexto dramático de agressão e posterior isolamento da Rússia soviética, economicamente atrasada, do resto do mundo. Não creio que isso justifique os equívocos cometidos, mas certamente explica muita coisa. O que sei é que ainda tenho um grande respeito por estas duas grandes figuras – Lênin e Trotski – assim como o tenho por Chomsky. Seguirei, portanto, estudando o assunto. Tirando minhas conclusões, quando possível, aqui e ali, e aceitando a dúvida, sempre. Porque ela é saudável. Mas também tomando posição, quando necessário. Porque às vezes – muitas vezes – a gente tem que escolher um lado, e arcar com os bônus e também com o ônus de nossas escolhas. Não dá pra ficar eternamente em cima do muro. Tenho pôsteres de Marx e de Lênin enfeitando as paredes de minha casa e, pelo menos por enquanto, não penso em retirá-los de lá. “De boas intenções o inferno está cheio”, já dizia o ditado popular. Mas os vacilantes e omissos também devem estar por lá ...
          Um grande – e prazeroso - instrumento de estudo sobre o assunto tem sido, para mim, a leitura da  monumental biografia de Trostski escrita em três volumes por Isaac Deutscher. Estou no segundo, “O Profeta desarmado”. Lá são narrados os pormenores da luta interna pela sucessão de Lenin e, consequentemente, pelo comando dos rumos a serem seguidos pelo novo estado nascido da revolução que, a princípio, era para ser uma trincheira avançada – ou uma ação de ocupação, nas palavras de Chomsky (ver AQUI) – na qual eles se manteriam a postos, segurando posição até que a verdadeira revolução, mundial, eclodisse, a partir da Alemanha. Aos poucos, no entanto, com o fracasso das tentativas de insurreição na Europa, a teoria original do marxismo, que preconizava a deflagração a partir das economias mais desenvolvidas, vai cedendo lugar a uma nova doutrina, defendida por Stalin: a do “Socialismo num só país”. Do mesmo modo, a idéia de que seria possível a existência de uma Democracia interna nas fileiras bolchevistas convivendo harmoniosamente com a Ditadura do proletariado sobre os demais extratos da sociedade sucumbe à realidade imposta pela disputa pelo poder que fez surgir a figura quase religiosa do partido monolítico, centralizado, todo-poderoso e infalível.
          Num dado momento, já enfermo, Lênin parece subitamente se dar conta dos rumos terríveis que os acontecimentos estavam tomando, e decide interferir decisivamente no processo, com a ajuda de Trotski. Este é um dos trechos mais emocionantes do livro: um daqueles momentos em que a História poderia ter seguido outros rumos, muito embora qualquer elucubração sobre quais seriam seja pura especulação. Reproduzo-o abaixo.
          Antes, porém, reproduzo também um outro trecho em que uma divagação de Trotski acerca do futuro do homem sob o comunismo se assemelha curiosamente à teoria do Super-Homem de Nietsche e a uma resposta de Chomski  a uma indagação sobre o processo de avanço do progresso social que vi ontem num documentário veiculado pela TV Escola: ele fez uma analogia com um passeio que havia feito certa vez com sua esposa quando estavam em lua de mel. Decididiram-se por uma caminhada até o cume de uma montanha próxima, apenas para descobrir que aquele não era o cume, havia outro mais elevado, que só se revelou quando cumpriram a tarefa à qual tinham se comprometido. “Assim caminha a humanidade”.
          No final do post, uma entrevista de 2007 publicada no jornal Le Monde Diplomatique da qual eu retirei  a frase que abre este artigo, que na íntegra diz: “lembremos que, na Rússia, a primeira coisa que Lênin e Trotsky destruíram, logo após a Revolução de Outubro, foram os sovietes: os conselhos de operários e todas as instituições democráticas. Lênin e Trotsky foram, neste sentido, os piores inimigos do socialismo no século XX. Porque, marxistas ortodoxos como eram, eles consideravam que uma sociedade atrasada como a da Rússia de sua época não poderia passar diretamente ao socialismo sem ser precipitada à força na industrialização.”
          A revolução russa "deu no que deu", mas também foi a responsável por grandes avanços recentes na história da humanidade. O "estado de bem estar social" europeu, por exemplo, foi montado com o intuito de barrar a influencia dos comunistas sobre a classe trabalhadora da região. Não por acaso, começou a ser desmontado - num processo que se estende até os dias atuais, apesar do ocaso do "neoliberalismo" - quando a "cortina de ferro" começou a desmoronar. Muito longe de renegar completamente seu legado, é necessário aprender com seus erros e começar de novo, tentando fazer diferente o que precisa, ainda, ser feito: superar a exploração do homem pelo homem.
          O povo está na rua.
          A luta continua.

por Adelvan k.


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          “É difícil dizer antecipadamente quais os limites de autodomínio que o homem poderá alcançar, tal como é difícil prever até que ponto poderá desenvolver seu domínio técnico da natureza. A construtividade social e a auto-educação psicofísica tornar-se-ão aspectos gêmeos de um mesmo processo. Todas as artes – literatura, teatro, pintura, escultura, música e arquitetura – transmitirão àquele processo uma forma sublime. (...) O homem se tornará incomparavelmente mais forte, mais sábio, mais sutil. Seu corpo se tornará mais harmonioso; seus movimentos, mais rítmicos; sua voz, mais musical. As formas de sua existência adquirirão uma qualidade teatral dinâmica. O homem médio ascenderá à estatura de Aristóteles, Goethe, Marx. E acima dessas culminâncias novos picos surgirão.”

Trotski, em “Literatura e revolução”, conforme citado por Isaac Deutscher.

Tradução de Waltensir Dutra

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         “(...) Lenin escrevera uma carta a Stalin ameaçando “romper todas as relações pessoais”. Stalin comportara-se de forma agressiva para com Krupskaia (NOTA: a esposa de Lenin), quando esta recolhia informações destinadas a Lenin sobre o caso georgiano (NOTA: perseguição de Stalin aos dirigentes do partido no país vizinho) e quando este ficou sabendo do incidente, a custo conteve sua indignação. Resolveu, segundo Krupskaia disse a Kamenev, “esmagar Stalin politicamente”.
          (...) Trotski tinha confiança em que o triuvirato (NOTA: Stalin, Zinoviev e Kamenev haviam se unido para enfrentá-lo nas instancias superiores do partido) se desfaria e Stalin seria batido. Era o vencedor e poderia ditar seus termos. Seus adversários também pensavam assim. Quando, em nome deles, Kamenev procurou Trotski em 6 de março, estava abatido, pronto a aceitar o castigo e ansioso em apaziguar Trotski.
          Não era necessário muito apaziguamento. A vingança de Trotski era demonstrar magnanimidade e perdão. Esquecendo a advertência de Lênin (NOTA: ele insistira com Trotski para que não demonstrasse fraqueza ou vacilação, não confiasse em nenhum “acordo podre” que Stalin pudesse propor), aceitou um “acordo podre”. Lenin pretendia rebaixar Stalin e Dzerzhinski (NOTA: fundador da “cheka”, depois rebatizada como KGB) e até mesmo expulsar do partido “pelo menos por dois anos” Ordjonikidze(outrora seu discípulo favorito) devido ao seu comportamento brutal em Tíflis, capital da Georgia. Trotski assegurou a Kamenev que não proporia represálias tão brutais. (...) Queria de Stalin apenas que ele modificasse seu comportamento, passando a comportar-se lealmente para com os colegas, apresentasse um pedido de desculpas a Krupskaia e deixasse de perseguir os georgianos.
          (...) Os triúnviros sabiam que Trotski prometera a Lenin levantar a questão dos desviacionistas georgianos e transmitir ao Congresso do partido sobre as políticas relacionadas às nacionalidades não-russas as opiniões de Lenin. A principal preocupação de Stalin era agora impor-se a Trotski e não agir segundo a vontade deste. Não fizera ele tudo o que Trostki desejara? Certo, e por isso Trotski concordou em apresentar as notas de Lenin ao politburo e deixar que este resolvesse se, ou de que forma, elas deveriam ser transmitidas ao congresso.  O Politburo (NOTA: dominado pelo triunvirato) resolveu que as notas em caso algum deveriam ser publicadas e que somente certos delegados deveriam tomar conhecimento delas, em caráter rigorosamente confidencial. Lenin não esperara que Trotski agisse assim e insistiu com ele para que fosse inflexível, falasse ao congresso com toda a franqueza e não aceitasse nenhum acordo para a solução de diferenças. Mas suas advertências não foram ouvidas e Trotski, com sua magnanimidade, ajudou os triúnviros a esconder do mundo a confissão feita por Lenin no seu leito de morte, de vergonha e culpa pelo renascimento do espírito tzarista no estado bolchevique.
          (...) A verdade é que Trotski absteve-se de atacar Stalin (NOTA: com a retaguarda garantida por Lenin, pela primeira e única vez) porque se sentia seguro. Nenhum contemporâneo, e ele menos do que todos, via no Stalin de 1923 a figura ameaçadora e preponderante que ele viria a ser. Parecia a Trotski quase que uma pilhéria de mau gosto ter como rival Stalin, e homem decidido e esperto, mas medíocre e pouco expressivo, que ocupava sempre o segundo plano. Não queria preocupar-se com ele (...) e, acima de tudo, não daria ao partido a impressão de que também ele, Trotski, participara do jogo indigno dos discípulos de Lenin sobre o seu caixão ainda vazio.”

Isaac Deutscher, em “Trotski – o profeta desarmado”

Tradução de Waltensir Dutra

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América Rebelde - Uma entrevista com Noam Chomsky

As manipulações da mídia e a fabricação do consentimento, o isolamento político do governo norte-americano, o totalitarismo e a essência da democracia: estes e outros temas sob a ótica de um dos mais importantes intelectuais de nossa época

por Daniel Mermet

Tão respeitado nos pequenos seminários acadêmicos quanto nas grandes reuniões do Fórum Social Mundial, Noam Chomsky é um dos mais importantes intelectuais da atualidade. Com 78 anos, esse professor do renomado MIT (o Instituto de Tecnologia de Massachusetts) tornou-se uma referência mundial, seja no domínio da lingüística, sua área de especialização científica, seja nas fileiras da esquerda, seu campo de atuação política. Como lingüista, Chomsky teve o nome internacionalmente projetado por sua teoria acerca dos princípios estruturais inatos da linguagem. Como político, tem-se destacado na crítica à globalização neoliberal e aos mecanismos de controle dos regimes totalitários e das sociedades ditas democráticas.

De origem judaica (seu pai, professor em escola religiosa, foi um dos grandes eruditos da língua hebraica), não poupa críticas a Israel, pelo tratamento dado aos palestinos e pela prática do que qualifica como “terrorismo de Estado”. Nascido em Filadélfia (o berço da identidade nacional norte-americana), é um dos principais opositores da política imperialista dos Estados Unidos, em geral, e do governo George W. Bush, em particular. Intelectual engajado (que se define como “socialista libertário”), vem sendo tão radical na condenação do stalinismo quanto do nazismo. Sua independência intelectual tem-lhe valido pesados ataques, vindos de várias direções. Mas também lhe tem granjeado amplas simpatias e apoios.

Nesta entrevista exclusiva a Le Monde Diplomatique, ele discorre extensamente sobre alguns dos temas mais relevantes do mundo contemporâneo (nota da edição brasileira).

Diplomatique Comecemos pela questão da mídia. Na França, em maio de 2005, por ocasião do referendo sobre o Tratado da Constituição Européia, a maioria dos meios de comunicação de massa era partidária do “sim”. No entanto, 55% dos franceses votaram “não”. O poder de manipulação da mídia não parece, portanto, absoluto. Esse voto dos cidadãos representaria um “não” também aos meios de comunicação?

Chomsky O trabalho sobre a manipulação midiática ou a fábrica do consentimento, feito por mim e Edward Herman, não aborda a questão dos efeitos das mídias sobre o público1. É um assunto complicado, mas as poucas pesquisas detalhadas sugerem que a influência das mídias é mais expressiva na parcela da população com maior escolaridade. A massa da opinião pública parece menos dependente do discurso dos meios de comunicação.

Tomemos como exemplo a eventualidade de uma guerra contra o Irã: 75% dos norte-americanos acham que os Estados Unidos deveriam pôr fim às ameaças militares e privilegiar a busca de um acordo pela via diplomática. Pesquisas conduzidas por institutos ocidentais mostram que a opinião pública dos Estados Unidos e a do Irã convergem também sobre certos aspectos da questão nuclear: a esmagadora maioria das populações dos dois países acha que a zona que se estende de Israel ao Irã deveria estar totalmente livre de artefatos nucleares, inclusive os que hoje estão nas mãos das tropas norte-americanas na região. Ora, para se encontrar esse tipo de opinião na mídia, é preciso procurar muito.

Quanto aos principais partidos políticos norte-americanos, nenhum defende este ponto-de-vista. Se o Irã e os Estados Unidos fossem autênticas democracias, no seio das quais a maioria realmente determinasse as políticas públicas, o impasse atual sobre a questão nuclear estaria sem dúvida resolvido.

Há outros casos parecidos. No que se refere, por exemplo, ao orçamento federal dos Estados Unidos, a maioria dos norte-americanos deseja uma redução das despesas militares e um aumento correspondente das despesas sociais, dos créditos depositados para as Nações Unidas, da ajuda humanitária e econômica internacional. Deseja também a anulação da redução de impostos que beneficia os mais ricos, decidida por Bush.

Em todos esses aspectos, a política da Casa Branca é contrária aos anseios da opinião pública. Mas as pesquisas de opinião que revelam essa persistente oposição pública raramente são publicadas pelas mídias. Resulta que não somente os cidadãos são descartados dos centros de decisão política, como também são mantidos na ignorância sobre o real estado da opinião pública.

Existe uma preocupação internacional com o abissal déficit duplo dos Estados Unidos: o déficit comercial e o déficit orçamentário. Estes somente existem em estreita relação com um terceiro: o déficit democrático, que aumentar sem cessar, não somente nos Estados Unidos, mas em todo o mundo ocidental.

Diplomatique Toda vez que perguntamos a uma estrela do jornalismo ou a um apresentador de grande jornal da televisão se ele sofre pressões ou censura, a resposta é invariavelmente “não”. O jornalista diz que é totalmente livre, que somente expressa suas próprias convicções. Conhecemos bem os mecanismos de dominação ideológica das ditaduras. Mas como funciona o controle do pensamento em uma sociedade democrática?

Chomsky Quando os jornalistas são questionados, eles respondem de fato: “nenhuma pressão é feita sobre mim, escrevo o que quero”. E isso é verdade. Apenas deveríamos acrescentar que, se eles assumissem posições contrárias à norma dominante, não escreveriam mais seus editoriais. Não se trata de uma regra absoluta, é claro. Eu mesmo sou publicado pela mídia norte-americana. Os Estados Unidos não são um país totalitário. Mas ninguém que não satisfaça exigências mínimas terá chance de chegar à posição de comentarista respeitável. Esta é, aliás, uma das grandes diferenças entre o sistema de propaganda de um Estado totalitário e a maneira de agir das sociedades democráticas. Com certo exagero, nos países totalitários, o Estado decide a linha a ser seguida e todos devem se conformar. As sociedades democráticas funcionam de outra forma: a linha jamais é anunciada como tal; ela é subliminar. Realizamos, de certa forma, uma “lavagem cerebral em liberdade”. Na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos – o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários.

O sistema de controle das sociedades democráticas é mais eficaz; ele insinua a linha dirigente como o ar que respiramos. Não percebemos, e, por vezes, nos imaginamos no centro de um debate particularmente vigoroso. No fundo, é infinitamente mais teatral do que nos sistemas totalitários.

Tomemos, por exemplo, o caso da Alemanha dos anos 1930. Temos a tendência a esquecer, mas era então o país mais avançado da Europa, na vanguarda em matéria de ciência, técnica, arte, literatura e filosofia. Depois, em pouquíssimo tempo, houve uma grande reviravolta, e a Alemanha tornou-se o mais letal, o mais bárbaro Estado da história humana.

Tudo isso foi feito espalhando-se o medo. Medo dos bolcheviques, dos judeus, dos ciganos, dos norte-americanos – em suma, de todos aqueles que, segundo os nazistas, ameaçavam o coração da civilização européia, herdeira direta da civilização grega. Era o que escrevia o filósofo Martin Heidegger em 1935. Ora, a maior parte da mídia alemã, que bombardeou a população com esse tipo de mensagem, usou as mesmas técnicas de marketing utilizadas por publicitários americanos.

Não esqueçamos de como uma ideologia se afirma. Para dominar, a violência não basta. É preciso uma justificativa de outra natureza. Assim, quando uma pessoa exerce poder sobre outra, seja um ditador, um colonizador, um burocrata, um patrão ou um marido, ele precisa de uma ideologia justificadora, que sempre redunda na mesma coisa: a dominação é exercida para “o bem” do dominado. Em outras palavras, o poder se apresenta sempre como altruísta, desinteressado, generoso.

Nos anos 1930, as regras da propaganda nazista consistiam, por exemplo, em escolher palavras simples e repeti-las sem parar, associando-lhes emoções, como o medo. Quando Hitler invadiu os Sudetos, em 1938, ele o fez invocando os objetivos mais nobres e caritativos: a necessidade de uma “intervenção humanitária” para impedir a “limpeza étnica” da população de língua alemã e garantir que todos pudessem viver sob a “asa protetora” da Alemanha, com o apoio da mais avançada potência do mundo no domínio da cultura.

Em propaganda, se de alguma maneira nada mudou depois de Atenas, houve certamente aperfeiçoamentos. Os instrumentos sofisticaram-se muito, em particular e paradoxalmente nos países mais livres do mundo: o Reino Unido e os Estados Unidos. Foi lá, não em outra parte, que a moderna indústria das relações públicas, isto é, a fábrica da opinião ou a propaganda, nasceu nos anos 1920.

Estes dois países haviam de fato progredido em matéria de direitos democráticos, com o voto feminino, a liberdade de expressão etc. A tal ponto que o desejo de liberdade não podia mais ser contido somente pela violência estatal. Convertemo-nos, assim, às tecnologias da “fábrica do consentimento”2. A indústria das relações públicas produz, no sentido próprio dos termos, consentimento, aceitação, submissão. Ela controla as idéias, os pensamentos, os espíritos. Em relação ao totalitarismo, foi um grande progresso: é muito mais agradável sofrer o efeito de uma publicidade que se ver em uma sala de tortura.

Nos Estados Unidos, a liberdade de expressão é protegida em um grau sem paralelo em qualquer outro país do mundo. Isso é muito recente. Desde os anos 60, a Suprema Corte deu grande proteção e garantia à liberdade de expressão, o que traduz, na minha opinião, um princípio fundamental estabelecido desde o século XVIII pelo Iluminismo. A Suprema Corte afirma que a palavra é livre com a única ressalva de não participar de ato criminoso. Se, por exemplo, entro em uma loja para roubar, um de meus cúmplices tem uma arma, e eu digo “atire!”, isso não será protegido pela Constituição. Quanto ao resto, o motivo deve ser particularmente grave para que a liberdade de expressão seja posta em xeque. A Suprema Corte já reafirmou este princípio até mesmo em favor dos membros do Ku Klux Klan. Na França, no Reino Unido e, me parece, no resto da Europa, a liberdade de expressão é definida de maneira muito mais restritiva.

A meu ver, a questão essencial é: o Estado tem o direito de definir qual é a verdade histórica e punir quem dela se afasta? O pensamento tende a se acomodar a uma prática stalinista. Os intelectuais franceses têm dificuldades em admitir que é bem esta a sua inclinação. No entanto, a recusa de tal abordagem não deveria comportar exceção. O Estado não deveria possuir nenhum meio de punir quem quer que pretenda que o Sol gire em torno da Terra. O princípio da liberdade de expressão tem algo de muito elementar: ou o defendemos no caso de opiniões que detestamos, ou renunciamos por completo à sua defesa. Mesmo Hitler e Stalin admitiam a liberdade de expressão daqueles que defendiam seus pontos de vista.(3)

Acrescento que há algo de muito perturbador e mesmo de escandaloso em debater essas questões dois séculos após Voltaire, que, como sabemos, declarava: “Odeio as suas opiniões, mas daria a minha vida para que você pudesse expressá-las”. Seria prestar um triste desserviço às vítimas do holocausto adotar uma das políticas fundamentais de seus carrascos.

Diplomatique Em um de seu livros, você comenta a frase de Milton Friedman “ter lucro é a própria essência da democracia”...

Chomsky A bem dizer, as duas coisas são de tal forma contrárias que não há sequer comentário possível. A finalidade da democracia é que as pessoas possam decidir suas próprias vidas e fazer as escolhas políticas que lhes concernem. A realização de lucros é uma patologia de nossas sociedades, associada a estruturas particulares. Em uma sociedade decente, ética, a preocupação com o lucro seria marginal. Tome como exemplo meu departamento universitário, no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Lá, alguns cientistas trabalham duro para ganhar muito dinheiro. Mas são considerados um pouco marginais, um pouco perturbados, quase casos patológicos. O espírito que anima a comunidade acadêmica é, antes, o da descoberta, a um só tempo por inteesse pessoal e para o bem de todos.

Diplomatique Em texto que lhe é dedicado, Jean Ziegler escreve: “Existem três totalitarismos: o totalitarismo stalinista, o totalitarismo nazista, e, agora, o ‘tina’(3).” Você compararia esses três totalitarismos?

Chomsky Eu não os colocaria no mesmo plano. Combater o “tina” é afrontar uma construção intelectual que não pode ser comparada aos campos de concentração ou ao gulag. Além disso, a política norte-americana suscita oposição em escala planetária. Na América Latina, a Argentina e a Venezuela expulsaram o FMI. E os Estados Unidos não puderam recorrer ao que seria a norma há vinte ou trinta anos: o golpe militar. O programa econômico neoliberal que foi imposto à América Latina durante os anos 80 e 90 é hoje rejeitado no continente. Vemos esta mesma oposição à globalização econômica por toda parte.

O movimento global pela justiça, sempre sob o foco da mídia na época de cada reunião do Fórum Social Mundial, trabalha na realidade durante todo o ano. É um fenômeno muito recente na história, que marca talvez o início de uma verdadeira Internacional. Seu principal cavalo de batalha é a existência de uma alternativa. Aliás, que melhor exemplo de uma globalização diferente do que o próprio Fórum Social Mundial? As mídias hostis chamam aqueles que se opõem à globalização neoliberal de “os antiglobalização”, quando, na verdade, eles lutam por uma outra globalização, a globalização dos povos.

Podemos observar o contraste entre uns e outros, porque, no mesmo momento, ocorre o Fórum Econômico Mundial, que trabalha para a integração econômica planetária, mas somente em prol dos interesses das altas financeiras, dos bancos e dos fundos de pensão – potências que controlam também as mídias. É a concepção deles de integração global: uma integração a serviço dos investidores. As mídias dominantes entendem que somente essa integração global merece o título oficial de globalização. Eis um belo exemplo de funcionamento da propaganda ideológica nas sociedades democráticas. A tal ponto essa propaganda é eficaz que mesmo os participantes do Fórum Social aceitam às vezes a qualificação pejorativa de “antimundialistas”. Em Porto Alegre, compareci ao Fórum e participei da conferência mundial dos camponeses. Eles representam, sozinhos, a maior parte da população do planeta...

Diplomatique Você é classificado na categoria dos anarquistas ou dos socialistas libertários. Na democracia, tal como você a concebe, qual seria o lugar do Estado?

Chomsky Vivemos neste mundo, não em um universo imaginário. Então, neste mundo, existem instituições tirânicas, que são as grandes empresas. É o que há de mais próximo das instituições totalitárias. Elas não têm, por assim dizer, que prestar qualquer esclarecimento ao público ou à sociedade. Agem como predadoras, tendo como presas as outras empresas. Para se defender, as populações dispõem apenas de um instrumento: o Estado. Mas ele não é um escudo muito eficaz, pois, em geral, está estreitamente ligado aos predadores. Há, no entanto, uma diferença que não se pode negligenciar: enquanto, por exemplo, a General Electric não deve satisfações a ninguém, o Estado deve regularmente se explicar à população.

Quando a democracia se tiver alargado ao ponto em que os cidadãos controlem os meios de produção e de troca e participem no funcionamento e na direção do conjunto em que vivem, então o Estado poderá, pouco a pouco, desaparecer. Ele será substituído por associações voluntárias sediadas nos locais de trabalho e de moradia.

Diplomatique Seria uma nova forma de soviets? Qual a diferença em relação aos soviets da Rússia revolucionária?

Chomsky Seriam soviets, sim. Mas lembremos que, na Rússia, a primeira coisa que Lênin e Trotsky destruíram, logo após a Revolução de Outubro, foram os soviets: os conselhos de operários e todas as instituições democráticas. Lênin e Trotsky foram, neste sentido, os piores inimigos do socialismo no século XX. Porque, marxistas ortodoxos como eram, eles consideravam que uma sociedade atrasada como a da Rússia de sua época não poderia passar diretamente ao socialismo sem ser precipitada à força na industrialização.

Em 1989, no momento do desmoronamento do regime comunista, eu pensei que este desmoronamento, paradoxalmente, representava uma vitória para o socialismo. Pois o socialismo, tal como o concebo, implica, no mínimo, eu repito, o controle democrático da produção, das trocas e de outras dimensões da existência humana.

No entanto, os dois principais sistemas de propaganda conspiraram para afirmar que o sistema tirânico implantado por Lênin e Trotsky e depois transformado em monstruosidade por Stálin era o “socialismo”. Os dirigentes ocidentais não fizeram mais do que se deleitar com esse uso absurdo e escandaloso do termo, que lhes permitiu difamar o socialismo autêntico durante décadas.

Com igual entusiasmo, mas em sentido contrário, o sistema de propaganda soviético tentou explorar a seu proveito a simpatia que os ideais socialistas autênticos inspiravam nas massas de trabalhadores. 

Diplomatique Não é verdade que, segundo os princípios anarquistas, todas as formas de auto-organização acabaram por desmoronar?

Chomsky Não há “princípios anarquistas” fixos, uma espécie de catecismo libertário ao qual se deva prestar juramento. O anarquismo, ao menos como o vejo, é um movimento do pensamento e da ação que busca identificar as estruturas de autoridade e dominação, exigindo que elas se justifiquem, e, se elas se mostram incapazes, como acontece freqüentemente, tenta superá-las.

Longe de ter “desmoronado”, o anarquismo, o pensamento libertário, vai muito bem. Ele é a fonte de muitos progressos reais. Formas de opressão e injustiça que mal eram reconhecidas, e muito menos combatidas, não são hoje mais admitidas. É uma conquista, um avanço para o conjunto dos seres humanos, não uma derrota.

1     Herman, Edward e Chomsky, Noam: Manufacturing Nova York, Pantheon, 2002.
2     Expressão do ensaísta norte-americano Walter Lippman, que, a partir dos anos 1920, pondo em dúvida a capacidade do homem comum se determinar com sabedoria, propôs que as elites cultas “lapidassem” a informação antes que ela atingisse a massa.
3     Tina: palavra formada com as iniciais da expressão inglesa “there is no alternative” (não há alternativa), utilizada por Margaret Thatcher para proclamar o caráter inelutável do capitalismo neoliberal.


2007

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