segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Spartacus - O Mito, a Série ...


Espártaco, todos sabem, e se não sabem deveriam saber, foi gladiador e líder da mais célebre rebelião de escravos da Roma antiga, ainda republicana, em 73 A.C. Chegou a liderar um impressionante exército que contava com cerca de 100.000 ex-escravos no que ficou conhecida como "Terceira Guerra Servil", "Guerra dos Escravos" ou "Guerra dos Gladiadores". Seus feitos foram tais que são lembrados até os dias de hoje, tendo sido tema, inclusive, de um dos melhores filmes épicos da História do cinema, dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Kirk Douglas em 1960. Agora também é o mote de mais uma excelente produção para a TV a cabo “cometida” por Sam Raimi, o homem por trás das séries cinematográficas “Uma Noite Alucinante” e “Homem-Aranha” e de “Xena, a princesa guerreira”. A protagonista desta última, Lucy Lawless, por sinal, está presente na nova produção, no papel da esposa de Lêntulo Batiato, o proprietário da escola de Gladiadores para a qual o herói foi enviado.

O episódio piloto é plasticamente bonito porém um tanto quanto artificial e nitidamente xerocado, visualmente falando, de 300, o filme baseado nos quadrinhos de Frank Miller. Chega a repetir, inclusive, o irritante exagero no abuso das câmeras lentas nas cenas de violência. Mas o que a princípio parecia ser mais uma produção apelativa e vazia vai aos poucos (nem tão aos poucos, no segundo episódio a história já começa a engrenar) se encorpando e envolvendo o expectador. Os personagens são bem desenvolvidos e a atuação de alguns atores, como John Hannah, no papel de Batiatus, é excelente. Lucy Lawless também está muito bem como sua bela e maquiavélica esposa. Um verdadeiro casal de serpentes, se movendo com agilidade num ninho de cobras movido a sangue, sexo e conspirações palacianas.

Também impossível (e desnecessário) não comparar "Spartacus - Blood and sand" à célebre “Roma”, uma co-produção da HBO e da BBC de Londres que é, também, a mais cara série de TV já produzida. Ambas usam o eficiente recurso de se misturar personagens fictícios a personalidades e fatos históricos. Feitas as devidas e mais do que necessárias ressalvas quanto às liberdades artísticas, serviriam como excelente material de ensino, já que através desse tipo de produção as pessoas podem notar a História como uma aventura – a grande aventura da humanidade em sua conturbada passagem pelo planeta terra – ao invés de uma maçante e repetitiva sucessão de datas, acontecimentos e conceitos aparentemente abstratos. Isso, claro, fora da escola, pois dentro do ambiente acadêmico os pais e educadores mais conservadores iriam certamente levantar a voz quanto ao conteúdo realista no que toca às imagens de sexo e violência. Nesse quesito, se “Roma” já impressionava, “Spartacus” avança alguns degraus, não se furtando a mostrar de frente a nudez, inclusive masculina, o que costuma ser um tabu, e cenas de sexo bastante ousadas, incluindo de homosexualismo. É sempre bom lembrar que a história se passa antes do nascimento de Cristo e posterior “invenção” do Cristianismo por Paulo de Tarso, o que significa que os costumes e tabus relativos ao ato libidinoso eram bem diferentes. São cenas tórridas, muitas excitantes mesmo, como aquela em que um dos gladiadores “come” uma submissa escrava postada de quatro como uma exibição de seu talento para uma nobre convidada na casa de Batiatus. Também é comum ver o senhor (Dominus) se “aquecendo” com uma de suas servas antes de penetrar sua senhora. Excitante ver Lucy Lawless, no esplendor de uma impressionante maturidade física, pedir para que seu marido, literalmente, coma o cu da escrava mais próxima na sua frente para excitá-la – no que é prontamente atendida, evidentemente. Já as cenas de violência não são, necessariamente, realistas, muito pelo contrário: usam e, em alguns momentos, abusam de uma plasticidade exagerada que, se não convence como representação da realidade, funciona muito bem como espetáculo, especialmente quando os exageros são evitados e os recursos são usados de forma mais comedida, no decorrer da série. Antológicas as batalhas encenadas, especialmente a que elevou o nome de Spartacus ao status de mito, quando derrota um gigante tido como imbatível.

Assisti aos 8 primeiros episódios enviados num DVD-R por meu amigo Ronaldo, do Rio (valeu mais uma vez, cara) de uma tacada só, num domingo. Foram quase 8 horas de deleite em frente à TV. Ao final da jornada, nada de cansaço, muito pelo contrario, uma sensação de satisfação e desejo de “quero mais”. É impressionante a qualidade artística que a TV anda alcançando nos últimos tempos, chegando a rivalizar com o cinema, em muitos casos – fruto, muito provavelmente, da evolução das tecnologias de efeitos especiais.

O Céu parece ser o limite. Que venham mais e ainda melhores séries.

A.

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(Wikipedia) O nome Espártaco foi usado no Reino do Bósforo, fundado por Espártaco I em 438 a.C.[2]. De acordo com vagas referências de autores romanos (Apiano, Floro e Plutarco), Espártaco era de origem trácia[3][4] e, por ter desertado de uma tropa auxiliar do exército romano, foi capturado e reduzido à escravidão. Devido à sua força física, foi comprado por um mercador a serviço do lanista [5], Lêntulo Batiato, e levado para a escola de gladiadores de Cápua, na Campânia (Itália). Sobre ele, dizem os autores antigos:

* Plutarco: "Era um homem inteligente e culto, mais helênico do que bárbaro" [6]
* Floro: "... mercenário da Trácia, admitido em nosso exército, soldado desertor, bandido promovido a gladiador por sua força" [7]

Em 73 a.C., cerca de duzentos escravos da escola de Batiato revoltaram-se, devido (segundo Plutarco) aos maus-tratos que recebiam do lanista, e armados apenas com facas de cozinha, atacaram os guardas da escola. Ainda segundo Plutarco, setenta e oito deles (ou apenas trinta, segundo Floro) conseguiram fugir. No caminho, depararam-se com umas carretas carregadas de armas usadas pelos gladiadores, apoderando-se delas. Com esse armamento, repeliram a guarnição de Cápua, enviada para capturá-los.

Roma então organizou a primeira expedição contra os revoltosos. À frente de três mil homens, o pretor romano Clódio sitia-os em seu forte, um outeiro de subida penosa e estreita rodeado de altos rochedos talhados a pique, tendo no cimo grande quantidade de videiras selvagens. Sendo a subida guardada por Clódio, os sitiados cortaram os rebentos mais longos e fortes de tais videiras, fizeram com eles compridas escadas que roçavam a planície, e, amarrando-as no alto, por elas desceram todos sossegadamente. Apenas um deles ficou em cima, para jogar-lhes as armas, findo o que também se pôs a salvo. Os romanos não suspeitaram da operação; rodeado o outeiro, os sitiados atacaram-nos pela retaguarda, afugentando-os e tomando-lhes o acampamento. Muitos boiadeiros e pastores que guardavam seus rebanhos juntaram-se aos fugitivos, sendo uns armados por eles e outros mandados a espionar.

Nessa ocasião, foi mandado de Roma outro comandante, Públio Varínio, para desbaratá-los, do qual primeiramente derrotaram em combate um tenente denominado Fúrio, com dois mil homens e 3 ursos, e a seguir um outro, denominado Cossino, que lhe haviam impingido como conselheiro e companheiro, e com grande poder. Vendo Espártaco que ele se banhava num lugar chamado Salinas, tentou aprisioná-lo, mas o comandante, custosamente, conseguiu salvar-se. Não obstante, Espártaco apoderou-se de toda a sua bagagem, e, perseguindo-o tenazmente apoderou-se também de seu acampamento, tendo-lhe custado a vida de muitos dos seus homens, entre os quais Cossímo. Tendo também vencido em muitos encontros o próprio pretor-chefe, e aprisionado os sargentos que conduziam os machados à sua frente, bem como seu próprio cavalo, Espártaco adquiriu tal valor que todos passaram a temê-lo. Todavia, calculando cuidadosamente suas forças e dotes, e vendo que elas não podiam superar as dos romanos, levou seu exército para os Alpes, sendo de parecer que, uma vez transpostos os montes, cada qual voltasse para sua terra, isto é, para a Gália e para a Trácia. Seus homens, porém, fiados em seu número, e prometendo grandes realizações, não o quiseram atender, e recomeçaram a percorrer e a saquear toda a península Itálica.

Achando-se o senado inquieto, não só pela vergonha e afronta de serem seus homens vencidos por escravos sublevados, como pela apreensão e pelo perigo em que se achava toda a península Itálica, mandou para ali os dois cônsules, como se fosse uma das mais árduas e perigosas guerras que deveriam enfrentar. Lúcio Gélio Publícola, um dos cônsules, atacando de surpresa uma tropa de germanos, que por altivez e desprezo, se havia separado e afastado do acampamento de Espártaco, submeteu-a toda ao fio de espada; Lêntulo, seu companheiro, com numerosas forças sitiou Espártaco e todos os que o seguiam, atacou-os, venceu-os, e apoderou-se de toda a sua bagagem. Razão por que, avançando para os Alpes, Cássio, pretor e governador da Gália do subúrbio do rio Pó, enfrentou-o com um exército de dez mil homens. Travou-se um grande combate, no qual ele foi derrotado, tendo perdido muitos soldados e conseguido salvar-se a muito custo e às pressas. Ciente disto, o senado declarou-se bastante descontente de seus cônsules; ordenando-lhes que não mais se envolvessem nesta luta, atribuiu todo o encargo a Marco Licínio Crasso em 71 a.C., que foi seguido por numerosos moços nobres, graças à sua elevada reputação e à grande estima que lhe votavam.

Crasso foi assentar seu acampamento na Romanha, para esperar a pé firme Espártaco, que se dirigia para ali, e mandou Múmio, um dos seus tenentes, com duas legiões, envolver o inimigo pela retaguarda, ordenando segui-lo sempre no encalço, e proibindo-lhe expressamente atacá-lo e escaramuçá-lo de qualquer modo. Não obstante todas estas determinações, logo que Múmio se viu na possibilidade de fazer alguma coisa, atacou-o, sendo derrotado, com perda de muitos dos seus homens. Os que conseguiram salvar-se na fuga, apenas perderam suas armas. Crasso irritou-se bastante com ele; e, recolhendo os fugitivos, deu-lhes outras armas, exigindo-lhes fiadores que garantissem seu melhor serviço dali por diante, coisa que nunca fora feito antes. E, os quinhentos que estiveram nas primeiras filas, e que foram os primeiros a iniciar a fuga, ele dividiu-os em cinquenta dezenas, em cada uma das quais sorteou um, sujeito à pena de morte. Reviveu assim o antigo modo dos romanos castigarem os soldados covardes, coisa que de há muito havia sido abandonada, por ser ignominiosa, e produzir horror e espanto à assistência, quando realizada publicamente.

Castigando assim seus soldados, Crasso lançou-os diretamente contra Espártaco, que recuou sempre e tanto que, pela região dos lucanianos, chegou à costa, encontrando alguns navios de corsários cilícios no estreito de Messina. Isto animou-o a ir à Sicília; e, para enviar para lá dois mil homens, para sublevar escravos de lá. Mas Crasso tomou medidas para o impedir de enviar homens para a para a Sicília para amotinar os escravos da ilha. Razão por que, lançando-se inesperadamente longe da praia, ele foi assentar seu acampamento na península dos régios, onde Crasso foi encontrá-lo; e, vendo que a natureza do lugar mostrava-lhe como devia agir, decidiu cercar de muralhas o istmo da península, dando assim ocupação aos seus homens e impedindo que os inimigos recebessem víveres. Trabalho demorado e difícil, que ele executou em bem pouco tempo, contra a opinião de todo o mundo, e fez abrir uma trincheira através da península, de quinze léguas de comprimento, quinze pés de largura e quinze pés de profundidade. Sobre a trincheira fez construir uma muralha muito alta e forte, da qual Espártaco a princípio zombou. Quando, porém, sua pilhagem começou a falhar, e se viu na impossibilidade de obter víveres em toda a península, devido àquela muralha, numa noite bastante áspera, de neve espessa e vento impetuoso, ele mandou encher de terra, pedras e galhos de árvores um trecho não muito extenso da trincheira, por onde fez passar um terço do seu exército.

A princípio, Crasso receou que Espártaco tomasse a resolução de seguir para Roma; logo, porém, tranquilizou-se, pois soube haver sério desentendimento , entre eles, e que uma grande tropa, amotinada contra Espártaco, separara-se dele e fora acampar junto a um lago da Lucânia, cuja água de tempos a tempos torna-se doce, e a seguir tão salgada que não pode ser bebida. Tendo-os atacado, Crasso expulsou-os dali, mas não conseguiu matar grande número, nem afastá-los para muito longe, porque Espártaco apareceu de repente com seu exército, e fez cessar a perseguição.

Crasso, que havia escrito ao Senado ser necessário chamar Lúculo da Trácia e Pompeu da Hispânia, arrependido de havê-lo feito, esforçava-se o mais possível de dar fim a esta guerra antes que eles chegassem, por saber que atribuiriam toda a glória da sua conclusão ao recém-chegado que lhe fosse em auxílio, e não a ele. Por isso ele resolveu primeiramente atacar os que se haviam revoltado e entrincheirado à parte, às ordens dos capitães Caio Canício e Casto. Para tal, fez seguir seis mil soldados de infantaria, para assenhorear-se de uma eminência, ordenando-lhes que tudo fizessem para não serem vistos nem descobertos pelos inimigos. O que eles procuraram realizar o melhor possível, cobrindo seus morriões e elmos. Não obstante, eles foram percebidos por duas mulheres que às escondidas faziam sacrifícios em favor dos inimigos, e estiveram em risco de ficar todos perdidos. Crasso, porém, socorreu-os a tempo, dando aos inimigos o combate mais áspero de quantos se realizaram naquela guerra. Na luta, pereceram doze mil e trezentos homens, lutando valorosamente frente a frente.

Depois desta derrota, Espártaco retirou-se para as montanhas de Petélia, perseguido e escaramuçado sem trégua, pela retaguarda, por Quinto, um dos tenentes de Crasso, e seu tesoureiro Escroía. No fim do dia, porém, tudo mudou de repente, e Espártaco derrotou os romanos, sendo o tesoureiro gravemente ferido e salvo a custo. Esta vantagem obtida sobre os romanos deu origem à ruína final de Espártaco, porque seus guerreiros, quase todos escravos fugitivos, encheram-se de tamanho orgulho e audácia que não quiseram deixar de combater, nem obedeceram mais seu comandante. Pelo contrário, como se achavam a caminho, cercaram-nos e disseram-lhes que, quisessem ou não, era preciso que voltassem depressa e os conduzissem pela Lucânia contra os romanos, que era o que Crasso pedia, pois sabia que Pompeu se aproximava, à que muitos em Roma discutiam e brigavam por sua causa, dizendo que a vitória final desta guerra lhe era devida, e que logo que ele ali chegasse tudo seria decidido com um único combate.

Por isso, procurando combater, e aproximando-se o mais possível dos inimigos, Crasso mandou um dia abrir uma trincheira, que os fugitivos procuraram impedir, carregando furiosamente sobre os que se ocupavam de tal tarefa. A luta tornou-se violenta. E, como, a todo momento, chegassem reforços de parte a parte, Espártaco viu-se obrigado a lançar mão de todos os recursos. Sendo-lhe levado o cavalo em que devia combater, ele desembainhou a espada, e, matando-o à vista de todos, disse: "Se eu for vencido neste combate, ele de nada me servirá. E, se eu for vitorioso, muitos deles, belíssimos e excelentes, terei dos inimigos à minha disposição". Isto feito, lançou-se através da pressão dos romanos, procurando aproximar-se de Crasso, sem o conseguir, e matou dois centuriões romanos que o enfrentaram. Por fim todos os que o rodeavam fugiram, e ele permaneceu firme em seu posto, completamente cercado, lutando valentemente, sendo retalhado.

Embora Crasso fosse muito feliz e satisfizesse todos os seus deveres de bom comandante e de homem valente, expondo-se a todos os perigos, não pôde impedir que a honra do termo daquela guerra fosse atribuída a Pompeu, porque os que escaparam deste último combate cairam-lhe às mãos e ele aniquilou-os, escrevendo ao Senado que Crasso vencera os fugitivos em combate regular, mas ele destruíra todas as raízes desta guerra! Pompeu teve assim entrada triunfal em Roma, por haver vencido Sertório e reconquistado a Hispânia. Crasso não só exigiu o grande triunfo como também o pequeno, que os latinos denominam Ovatio, por fazerem-no vencer, indigna e desumanamente, escravos fugitivos. Crasso puniu os que sobreviveram à sua investida contra Espártaco mandando crucificar 6 000 revoltosos ao longo da Via Ápia (de Cápua até Roma).

5 comentários:

J.André disse...

"Spartacus" é um ótimo livro do celebre escritor ianque Howard Fast. E o nome do terceiro álbum da banda alemã Triumvirat, gravado em 1975. Essa série da TV deve ser interessante.

Adelvan disse...

é MUITO boa. Recomendo.

Helen Dias disse...

Eu tentei assistir a série, mas infelizmente não foi de meu agrado devido ao fato de ter muitas cenas de sexo, nudez e tal...
Eu até poderia gostar, afinal, a história em torno disso é ótima, mas não consigo de maneira alguma assistir algo que contenha algo tão explícito...

Seria bom se tivesse a série censurada...

Anônimo disse...

Sou totalmente contra qualquer tipo de censura, o valor da série inclusive está em ser fiel na reprodução dos fatos históricos reais tal qual eles realmente são.
Creio que nós brasileiros devemos perder esse ranço provinciano, onde nudez e sexo são temas proibidos, pecaminosos, tabu. Em absoluto, dependendo do contexto, e dês que não seja abordado de forma apelativa e vulgar, devem ser abordados pelas artes sempre.
Agora no Brasil tudo é considerado pecado, até mesmo os clássicos de nossa literatura, claro indicativo que nosso país caminha a passos largos para um retrocesso cultural e cognitivo. Isso sim, deve ser fortemente combatido.

Anônimo disse...

Eu amo a série, dizem que a record exibiu com cortes, para quem prefere. Lembro do álbum do Triumvirat, muito legal, abs,

Ana Lucia.