
Há cerca de 20 anos, quando me mudei para Aracaju mas ainda passava os fins de semana em Itabaiana, descobri uma verdadeira mina de ouro cultural que me ajudou a matar o tédio na "cidade serrana": a Super Vídeo Locadora, de Ivan Valença (notório crítico de cinema local). Lá encontrava (em VHS, claro, pois nem se sonhava com a existência do DVD) os filmes dos quais sempre tinha ouvido falar mas nunca tinha tido a oportunidade de assistir, como O Encouraçado Potemkin de Einsenstein, Cidadão Kane de Orson Welles, Amarcord de Felline e muitos, muitos outros – isso sem ter que passar pelo constragimento de ter atendentes me recomendando o mais novo de Jean Claude Van Damme ou fazendo comentários como um que ouvi certa vez sobre “A Laranja Mecânica”: “esse filme tem uma mensagem ótima e edificante”. “Qual seria”, perguntei à solícita atendente, intrigado. “Aqui se faz, aqui se paga”, ela respondeu.
Então ta.


O filme é realmente deslumbrante e foi apresentado com propriedade por Suyene, além de ter sido seguido por um interessante debate que lançou algumas luzes sobre alguns detalhes da obra que enriqueceram bastante a experiência. Por exemplo: Ficamos sabendo que o “Marquês”, que comanda o passeio, representaria a cultura européia, daí suas fustigadas ao que ele chama de “talento russo para a cópia”, chamando a atenção para o fato de que aquele povo estava sempre em permanente busca por uma identidade própria, fato explicado em parte pela localização geográfica em si do país, parte na Ásia, parte na Europa. Houve também uma inesperada, pelo menos para mim, leitura política, com a insinuação de que o filme faria uma “ode” ao luxo e refinamento aristocrático em contraposição à mediocridade do chamado “realismo socialista”, cujo maior expoente foi, pelo menos em sua primeira fase (ainda não contaminada pelo esquematismo stalinista), o cineasta Sergei Eisenstein que, pode-se dizer, foi uma espécie de criador da montagem cinematográfica, eliminada em “A Arca Russa” pelo recurso do plano sequencia. Meus brios socialistas adormecidos foram atiçados, mas me dei por satisfeito com um comentário de Suyene de que era necessário lembrar que fora daquele palácio, muito longe daquele luxo exuberante, havia uma massa de operários e especialmente camponeses que passavam fome e todo tipo de necessidade, o que legitimava, de certa forma, o processo revolucionário, por mais penoso e tortuoso que o mesmo tenha sido. Valeu também a lembrança de que o filme já havia sido exibido no cinema na extinta Sessão “Cinema de Arte” do antigo Moviecon, em mais uma iniciativa do produtor Roberto Nunes. Infelizmente, essa eu perdi ...

Para acompanhar a programação do “Cine Experiência” e do Palácio-Museu, consulte o site http://www.palacioolimpiocampos.se.gov.br/
por Adelvan
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+ sobre " A Arca Russa " :
Os 97 minutos sem cortes que compõem o filme de Alekxandr Sokurov apontam para um dos caminhos do cinema no futuro
Por: Rodrigo Carreiro
NOTA DO EDITOR: ★★★★☆
Fonte: Cine Repórter
A simples realização de “Arca Russa” (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002) já seria suficiente para inscrever o nome do cineasta Alekxandr Sokurov em uma nova página da história do cinema. A rigor, o longa-metragem nem precisava ser bom para conseguir marcar esse tento. É simples: “Arca Russa” consegue a proeza tecnológica de ter um único plano-seqüência. Ou seja, o filme inteiro numa tomada única. São 97 minutos gravados em um só fôlego, sem cortes. Além disso, o projeto leva, a uma série de reflexões acerca da natureza da arte cinematográfica.

A suntuosidade do projeto também exigiu um ensaio monumental. Não é de admirar que Sokurov tenha sonhado com o o filme durante 15 anos, e que nada menos do que sete meses tenham sido gastos apenas para montar a coreografia do trabalho, que foi gravado em um único dia: 23 de dezembro de 2001. Por sinal, o filme tinha mesmo que sair naquele dia, querendo ou não, pois o Hermitage só permitiu o projeto porque não precisaria fechar a casa por mais tempo.
Um breve resumo do enredo, acrescido de alguns números, podem dar uma idéia do tamanho hercúleo da tarefa. O longa narra um passeio de dois personagens por 35 salas, pátios, corredores e escadas do museu Hermitage, em São Petersburgo (Rússia). Não é uma tour comum; nela, 3 mil figurantes, todos devidamente caracterizados com os figurinos pomposos, característicos da monarquia, encenam grandes e pequenos momentos de 300 anos da história do país, entre os séculos XVII e XX. Os espectadores ficam conhecendo personagens históricos como os czares Pedro o Grande, Catarina a Grande, Catarina II e Nicolau.
Do ponto de vista técnico, portanto, o projeto é capaz de fazer uma campanha logística como a responsável pela trilogia “O Senhor dos Anéis” parecer festa de aniversário de criança. Além disso, a fotografia, a cenografia e os figurinos se casam maravilhosamente, gerando um filme rico de conteúdo e com imagens de beleza plástica inconfundível. Sokurov logra sucesso em um dos objetivos declarados de “Arca Russa”: retratar o museu Hermitage como uma espécie de repositório orgânico, quase vivo, da cultura de um povo. O filme atinge admiravelmente esse propósito, inclusive quando realiza a crítica dessa mesma cultura, através do enigmático personagem do Europeu (Sergei Dreiden). Ele não economiza ironia, ao comentar sobre a vontade dos monarcas russos em copiar os franceses.
Quando se deixa de lado a parte técnica do filme, porém, sobram questões que merecem reflexão. Há uma pergunta que parece fundamental: por que “Arca Russa” precisou ser filmado em uma tomada só, sem cortes? Qual a razão para a utilização dessa técnica específica? Será que o trabalho ficaria pior se fosse filmado de modo tradicional? Essa pergunta permanece sem resposta. Projetos que tentaram experiências parecidas (“Festim Diabólico”, de Hitchcock, e o recente “Timecode”, de Mike Figgis) tinham justificativas mais sólidas. A película de Hitchcock necessitava de um encapsulamento rigoroso dos limites de tempo e espaço, para gerar a tensão necessária no espectador. Já o trabalho de Figgis tem uma semelhança muito maior com o longa de Sokurov, pois inclusive foi filmado com tecnologia digital de captação de imagens. Mas “Timecode” recorta um mesmo período do dia e o narra em quatro janelas simultâneas que se abrem na tela do cinema. Portanto, a continuidade das imagens também é fundamental.
Em “Arca Russa”, nenhuma resposta a essa pergunta satisfaz inteiramente. Parece óbvio, entretanto, que Sokurov tenta travar um diálogo com uma geração anterior; particularmente, com Sergei Eisenstein. O mestre formalista foi o homem que elevou o conceito de montagem ao nível de arte. Através de obras como “O Encouraçado Potemkim” (1925), Eisenstein mostrou que o cinema criava significado através da justaposição de planos – ou seja, através do corte. Em outras palavras, que o significado que emanava do choque entre duas tomadas isoladas não estava, sozinho, contido em nenhuma delas. A cena de uma criança chorando não significa nada além disso. Um plano de um prato vazio também não. Juntas, essas duas imagens geram uma imagem mental na platéia: fome. Esse conceito foi, depois, ampliado e refinado pelos gigantes na arte do filme, como Stanley Kubrick. Todo o cinema contemporâneo presta tributo a Eisenstein.
Talvez “Arca Russa” tenha a pretensão de oferecer um caminho alternativo ao criador de “Potemkim”, porque, de fato, o trabalho de Sokurov consegue ultrapassar esse problema. Mesmo sem cortes, o conterrâneo de Eisenstein também consegue construir imagens mentais que não estão estritamente contidas nas cenas que vemos na tela. Os 30 minutos finais do longa são o melhor exemplo disso – e também o melhor momento do filme. Vemos a última ceia da família Romanov (evocando a Santa Ceia). Depois, o último baile dos nobres russos, antes da revolução de 1917. A saída das centenas de nobres do prédio principal, em silêncio, imprime uma sensação de nostalgia e desolação que correspondem, em última análise, à imagem mental que a montagem de Eisenstein sempre se preocupou em evocar. O fato de o Europeu avisar ao colega-câmera que não pretende deixar o lugar apenas reforça essa nostalgia. Trata-se do final de uma era, o último suspiro de um período. A calma antes da tempestade.
Nada disso teria sido alcançado sem a ajuda, repito, de uma coreografia rigorosa e nunca menos do que espetacular. Nos 97 minutos, a câmera percorre um caminho literalmente impossível, subindo escadas em espiral, passando por sobre o fosso da orquestra (que executa uma ópera para Catarina, a Grande), executando giros de 360 graus e realizando um verdadeiro balé no trecho final, durante o baile de gala dos Romanov, quando chega quase a levantar vôo. Essas proezas técnicas imprimem um ritmo um pouco mais ágil à narrativa, que possui (como qualquer outro filme que usa a noção de tempo real) uma progressão naturalmente lenta. A câmera praticamente não pára, mas também não acelera a ação. Consegue, assim, um meio termo interessante entre a narração e a reflexão. Por tudo isso, “Arca Russa” é um grande programa para os amantes de um cinema que procura algo novo, ao invés de apenas repetir fórmulas consagradas.
O DVD nacional, da Versátil, é de boa qualidade. Traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen 1.78:1 anamórfico), áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0) e um making of.
- Arca Russa (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002)
Direção: Alekxandr Sokurov
Elenco: Sergey Dreiden, Maria Kuznetsova, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani
Duração: 97 minutos
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