terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Balada de um derrotado.

Tá bom, é inveja, eu admito. Mas não é sem motivo! O filho da puta era o maior vagabundo, um parasita! Vivia de bobeira às custas da mãe. Seus dias se resumiam a chegar em casa de madrugada, acordar por volta do meio-dia e voltar à rua, não sem antes sorver com apetite o almoço que a pobre coitada preparava com todo o carinho.

Confesso que a sua simples presença era suficiente para me tirar do sério. Aqueles olhos sonolentos, aquela conversa mole, e a bajulação - porra, como bajulavam aquele cara! "Bicho, quando é que tu pinta lá no ensaio?". "Vou dar uma festa lá em casa mas só pros mais chegados, tu tá convidade e pode chamar quem quiser". "Cara, valeu pelo show, foi de fuder"

Mas isso não é nada, o cara era simpático mesmo. Boa pinta. Além do mais, eu sempre soube que as garotas gostavam mesmo era dos cafajestes. Quanto mais machuca, mais elas se derretem. As mulheres parecem ter desenvolvido, em nossa sociedade machista, uma estranha compulsão para a dependência, para o masoquismo. O pior era a banda. A porra da banda. "Vermes da lepra" era meu grupo preferido, a mais fodida banda de death metal que já apareceu por estes lados - e olha que nossa região é pródiga de bandas do estilo. Um dia, eles perderam o vocalista. Eu não falei nada, mas acredito que tava na cara, era meu sonho! Eu vivia babando atrás dos caras, ia a todos os ensaios. Era fã de carteirinha. Chegaram até a comentar, certo dia, que meus vocais "guturais" eram legais e que se eles um dia ficassem sem vocalista iriam me chamar para a vaga. Mas não me surpreendi quando me chamaram para assitir ao primeiro ensaio com o novo vocalista. Ele, sempre ele! Parecia disposto a acabar de vez com a minha vida, a me perseguir até o fim dos meus dias. A partir daquele momento, passei a demonstrar abertamente a minha antipatia, o que me afastou ainda mais de pessoas que, até pouco tempo, eram como irmãos para mim.

Nas rodas de conversa, tudo o que ele dizia era motivo para chacota de minha parte. E era pretensioso, o canalha! Espalhava pra Deus e pro mundo que tinha planos de, um dia, viajar pros Estados Unidos, entrar pra industria de filmes pornô, ganhar uma grana preta (dava grana, naquela época) e ainda por cima, pasmem, comer o cu da Belladona! Vejam só vocês, ele falava sério! Foi um dos meus poucos momentos de triunfo. Porque, claro, esta ninguém engoliu e o babaca recebeu, finalmente, o que merecia: o riso e o escárnio de todos.

E assim foram se passando os dias, eu cada vez mais afastado da antiga turma, até me desligar por completo. Arrumei um emprego estável, casei e isolei-me em casa com a família. Tornei-me o esterótipo perfeito do homem de classe média conformista e acomodado: gordo, sedentário, apático, dividindo o tempo entre o trabalho e o aparelho de televisão. Me afastei da cena também. Nem tinha internet, não acompanhava mais as notícias e os lançamentos do mundinho do rock underground. Só não parei de ver filmes pornográficos. Gostava de pornografia, e sei que a net tá cheia disso, mas preferia ver em DVD.

Um dia soube que o filho da puta havia sumido. Circulavam boatos de que havia embarcado clandestinamente no porão de um navio rumo aos "states". Não dei ouvidos. Achei que ele tinha era jogado uma mochila nas costas e pegado a estrada, deixando os baba-ovos de sempre chupando vento. Hoje, bicho-grilo que era, estaria vendendo bugingangas numa calçada imunda, barbudo e sujo como um hippie fora de época.

É foda. Nunca vou esquecer aquela olhadinha que ele deu para a câmera, os mesmos olhos mortiços e embaçados que povoavam meus pesadelos e pareciam sussurrar em meus ouvidos: "você nunca vai deixar de ser o que sempre foi: NADA".

publicado originalmente no Fanzine Escarro Napalm # 4.

por Adelvan.

4 comentários:

Samara Peixoto disse...

Porra! Adorei o texto... Anda escrevendo ficções é Adelvan? Pra mim isso é novidade. :)

Adelvan disse...

Porra, gostou mesmo? Sério? Isso me anima, heim. Então, esse texto é antigaço, é uma das pouquíssimas incursões que eu fiz pela ficção, este e outro contozinho curtinho também (apesar de um pouco maior que este) que eu também publicarei assim que a preguiça permitir - tenho que digitar, pois foram publicados, ambos, na versão xerocada do Escarro napalm, nos anos 90 do século passado, quando eu ainda usava uma máquina de datilografar !!!!

Samara Peixoto disse...

Não falo pra agradar ninguém não. Gosto do jeito como escreve. E nem sabia que era seu. Mas imaginei que fosse, pois, não mencionou autor. Então, virei aqui animá-lo mais vezes. :)

eu disse...

Mencionei o autor sim, tá lá no final: por Adelvan