domingo, 13 de abril de 2014

A História do PT

A guerra é o embate político levado ao extremo do choque das armas. Revolução, no sentido clássico da palavra, é guerra, posto que é uma ruptura radical da ordem vigente, e os grupos e classes sociais prejudicados em seus interesses por essa ruptura tendem, naturalmente, a resistir. Precisam ser, portanto, derrotados, para que a revolução aconteça. Isso raramente ocorre sem uma luta fraticida e sangrenta - vide o terror da revolução francesa, a guerra da independência e a guerra civil norteamericanas, ou mesmo a Revolução Russa, à qual se seguiu uma brutal guerra civil.

A opção é tentar fazer as mudanças pela via do reformismo, usando o convencimento dentro das regras da legalidade institucional para mudar a correlação de forças no seio da sociedade. Um  processo longo e errático, geralmente. Mas isso vale mesmo para os processos revolucionários, já que os embates costumam se estender para além do momento da ruptura em si, com o risco permanente de ser, inclusive, revertido - vide a queda do comunismo soviético.

O PT surgiu no final da década de setenta como uma alternativa à derrota da luta armada e ao raquitismo de horizontes dos que escolheram o embate dentro dos marcos institucionais - na medida do que isso é possível em uma ditadura. Foi uma espécie de "começar de novo" para a esquerda nacional e latinoamericana. No processo, foi aos poucos se acomodando às mudanças conjunturais até se tornar, efetivamente, uma alternativa de poder. Fato que se concretizou com a eleição de Lula à presidência da república em 2002.

Um processo que é dissecado de forma brilhante no pequeno grande livro "História do PT", do professor Lincoln Secco, que foi publicado num charmoso e funcional formato de bolso e que eu praticamente devorei enquanto esperava pelas conexões de minha última viagem a São Paulo. Nele, utilizando-se de recursos didáticos como gráficos e glossários, além de escrever numa linguagem acessivel e com um poder de síntese admirável, o autor discorre sobre os principais fatos contextualizando-os dentro de ciclos previamente demarcados, numa análise equilibrada, embora distante da falácia da completa isenção, virtualmente inatingível. Com direito, inclusive, ao relato de alguns "causos" pitorescos de saborosa degustação ao longo do texto.

Recomendo fortemente a leitura para todos os que se interessam pela conjuntura política do país nos últimos 30 anos.

Abaixo, reproduzo uma série de entrevistas com o autor sobre o livro e seu objeto de estudo:

(***) Entrevista Lincoln Secco - "O PT é a esquerda que o Brasil conseguiu ter"

“O PT ampliou o seu discurso para cima (burguesia) e para baixo e conquistou parte das classes desamparadas. Assim, não podemos negar que Lula e o PT tiveram a capacidade de compreender as contradições sociais de seu tempo. Eles encontraram a forma na qual as contradições podiam se mover. E este é, no fim das contas, o método pelo qual elas são resolvidas segundo disse Marx. Ao menos até o instante em que o leito em que adormecem os conflitos se torne estreito demais para acomodá-los.”

O parágrafo final do livro História do PT (Ateliê Editorial), de Lincoln Secco, professor da matéria desde 2003 na USP, resume bem o tom e os objetivos da obra recém publicada. Como aponta o autor, não há uma história do Partido dos Trabalhadores, nem mesmo uma oficial feita pela agremiação que governa o país desde 2002.

A partir de um olhar que “não se pretende nem oficial nem de um dissidente”, é a complexidade da trajetória de um partido que nasce negando as vanguardas e o Leste Europeu, em meio a diversidade de formas políticas que voltaram a ganhar fôlego com o ocaso da ditadura configura- se com uma inédita convivência de tendências e com o tempo acaba colocando como horizonte organizador da vida partidária não mais estas tendências, mas os parlamentares e o jogo institucional que Lincoln Secco (autor também de Caio Prado Júnio - o sentido da revolução – Boitempo) apresenta e analisa em seu novo livro, e sobre a qual conversou com a revista Caros Amigos na entrevista que segue.

Em primeiro lugar, gostaria que você comentasse o que o motivou a escrever esta história do PT. Nota-se que há preocupação em que o livro seja leve e acessível ao público em geral, para além da academia, gostaria que comentasse essa opção também.

Lincoln Secco -
Eu notei que não havia uma história abrangente do PT e que agora era o momento de alguém fazer isso, porque o PT passou por todas as fases possíveis, das greves do ABC paulista ao governo do Brasil. Eu também fui testemunha ocular de algumas coisas, embora na base do partido. Assim, pude ver bagrinhos de ontem tornarem-se os capas pretas de hoje, como se diz no jargão petista. Numa condição assim, eu nem poderia fazer uma obra estritamente acadêmica. Além disso, eu acho que a história do PT pode ser lida de maneira mais equilibrada pelos jovens que nem tinham nascido em 1989, por exemplo, e por um público amplo, politizado, mas nem sempre partidarizado.

Em diversos momentos do começo da história do PT você tem o cuidado de ressaltar o número de vezes em que a palavra “socialismo” é pronunciada, em encontros e documentos, por exemplo. É possível dizer que o PT nasce como um partido socialista?

Ele nasce como espaço em disputa por muitas tendências socialistas ou não. Florestan Fernandes achava que o PT era operário e socialista, ainda em 1990. Ele tinha que dizer isso, porque estava disputando o PT. Eu sempre fui admirador dele no partido e ainda penso que ele foi o intelectual mais importante que o PT teve. Mas hoje, vejo que o PT nasceu com linguagem radical e extraparlamentar até que se tornasse o contrário disso por volta de 1990. Ou seja: o futuro do PT não estava definido em 1980, mas uma vez que o caminho trilhado se completou, nós podemos vê-lo como uma típica trajetória social democrata.

Em seu livro notam-se algumas datas chave na história do PT, como 1978, 1984, 1989, 2002 e 2005. Algum destes momentos pode ser destacado como mais marcante nesta trajetória?

É difícil escolher. Mas eu apontaria dois muito próximos: a chegada de Lula à presidência em 2002 e a crise do PT em 2005, quando pareceu que Lula poderia ter sofrido um impeachment de consequências mortais para o partido.

Você destaca muito o papel, retórico e prático dos núcleos de base na trajetória do PT, especialmente nos anos 1980. A perda de importância dos núcleos é causa ou consequência da crescente priorização da via eleitoral na vida do partido?

Esta é uma excelente questão, porque ambos os processos andaram combinados. Eu diria que um alimenta o outro. Como eu mostro no livro, os núcleos do PT não desapareceram. Eles estão aí ainda hoje. Por outro lado, mesmo no início eles tinham dificuldade de influenciar a vida partidária. A tensão dialética entre o impulso eleitoral e a força militante se resolveu na forma de um partido ao mesmo tempo parlamentar e hegemônico nos movimentos sociais. Mas lembremos que a burocratização não foi só do PT. Não ocorre o mesmo com a CUT e, em menor medida, com a UNE e o MST?

O PT teve, desde seu início, forte ligação com movimentos sociais. Como você avaliaria o peso de movimentos como CUT e MST na história do PT? O partido sempre criticou a tática de movimentos serem utilizados como “correia de transmissão” de ideais partidários, é possível dizer que, com o tempo, o próprio PT acabou atuando desta forma em relação aos movimentos sociais?

O que aconteceu é que os movimentos sociais também se submeteram à lógica da sociedade que os acolheu. Assim como o PT foi se inserindo na Ordem, os movimentos também foram. A situação mudou em 2002. Ali, sim, os movimentos se submeteram, mas não ao PT e sim ao Governo Federal. O próprio PT submeteu-se inteiramente ao governo.

Qual o papel que a derrota nas eleições de 1989 tem na trajetória subsequente do PT? Caso Lula vencesse, seria possível governar o país com as proposições e a conjuntura daquele momento?

Como historiador, eu devo dizer que só em circunstâncias muito específicas me interessa o que deveria ou poderia ter acontecido. Esta é uma delas, porque nos faz pensar nas vias que a esquerda tentou para chegar ao poder na América Latina. É provável que a um hipotético Governo Lula, em 1990, fosse um fracasso do ponto de vista econômico e terminasse desmoralizado pela inflação, embora não por corrupção, como aconteceu com Alan Garcia no Peru. Mas o que importa é o fato de que a derrota foi importantíssima para que o PT escolhesse de vez o caminho da integração à Ordem estabelecida, até mesmo expulsando as tendências que não concordavam com o aggiornamento.

(**) Historiador e professor de História Contemporânea na USP, Lincoln Secco traçou em seu livro “A História do PT” o surgimento e o desenvolvimento do partido que governa o país há dez anos. Ainda filiado ao PT, mas sem exercer nenhum tipo de militância orgânica, o pesquisador analisou o comportamento das tendências internas da legenda e avalia que as forças mais à esquerda tiveram que ser “domesticadas” para que o partido pudesse chegar ao Palácio do Planalto.

Ele aponta que esse processo começou a partir de 1989, quando Lula perdeu o segundo turno das eleições presidenciais para Collor. “Os dirigentes entendiam que o PT precisava se preparar para governar. E isso implicava afastar um pouco tendências radicais no partido”, recorda.

Nesta entrevista ao Sul21 o professor Lincoln Secco fala sobre o surgimento do PT – que diz ter sido bastante vinculado à Igreja – e projeta que o futuro do partido dependerá cada vez mais do sucesso dos programas sociais do governo federal. “Não se sabe até que ponto essa estranha união dos muito pobres sem oposição dos muitos ricos não causará conflitos – especialmente entre os muito ricos. Pode haver um momento em que o cobertor não seja suficiente para todos”, observa. 

Sul21 – O que o PT representava na época de seu surgimento, no início dos anos 1980?
Lincoln Secco – Antes de qualquer coisa, o PT foi uma inovação na esquerda brasileira, porque conseguiu combinar diferentes forças políticas que geralmente, na trajetória da esquerda, não conversavam entre si. Trotskistas, stalinistas, ex-militantes da luta armada, militantes da Igreja progressista, sindicalistas… O grande mérito do PT foi, na esquerda brasileira, conseguir ter uma diversidade cultural, social e até ideológica que outros grupos de esquerda nunca conseguiram. 

Sul21 – É possível fazer alguma comparação com o processo de fundação da Frente Ampla no Uruguai?
Secco – A Frente Ampla foi uma junção de organizações que pré-existiam. No caso do PT, houve também uma entrada de organizações clandestinas que ainda atuavam no final dos anos 1970, mas a maioria dos militantes que ingressaram no PT eram pessoas sem experiência em organizações prévias. No meu livro “A História do PT”, fiz uma pesquisa que mostra uma diversidade regional muito grande do PT no Brasil. O PT no Ceará, no Maranhão e no Amazonas é totalmente diferente do PT no Rio Grande do Sul, no Paraná ou em São Paulo.

Sul21 – Havia uma coesão ideológica dentro do PT quando o partido surgiu? Ou não havia preocupação em se defender uma única ideologia?
Secco – O partido sempre se preocupou em ter uma coesão ideológica, em termos de programa. Mas o PT nunca conseguiu definir que tipo de socialismo queria. Naquele momento, nos anos 1980, o mais importante era a luta contra a ditadura, a superação de resquícios da ditadura, então isso não foi o mais importante para o partido. O PT começou a se preocupar com definição ideológica após a queda do muro de Berlim e após a derrota de Lula em 1989. 

Sul21 – O partido sempre adotou a retórica de ter um programa de “frente popular”. Essa seria a base ideológica do PT? De que forma essa retórica o diferencia do socialismo?
Secco – Hoje o que se pergunta é se o PT não cumpriu o mesmo papel da social-democracia europeia. É um partido que tinha entre suas bases uma classe operária bastante concentrada no ABC paulista. O PT nasce como um partido radical, mas depois modera o discurso e vira um grande partido eleitoral de massas. De fato, há uma semelhança com a social-democracia europeia. É claro que as especificidades brasileiras são muitas. Uma coisa que não havia, salvo engano, em nenhum partido europeu, é a forte presença da Igreja. A Igreja na Europa sempre foi muito mais conservadora. Para o PT, a Igreja não foi um fator de menor importância, porque tinha uma capilaridade social e regional que nenhum partido no Brasil possuía. Em alguns lugares, o PT nasceu dentro da Igreja. No meu livro, mostro que houve cidades em que o PT foi fundado no salão paroquial. Isso é um grande diferencial em relação à social-democracia europeia. Mas a definição estratégica mais importante na história do PT se deu em 1987, quando se define que o centro da estratégia do partido é a atuação dentro da legalidade. Além disso, neste encontro o partido definiu que a eleição do Lula seria o centro de sua estratégia. 

Sul21 – Ainda havia uma disputa interna por uma atuação fora da institucionalidade?
Secco – Até então, não se afastava nenhuma proposta de luta armada ou de ruptura com a legalidade. Havia a tendência do Partido Revolucionário Comunista (PRC), que tinha muitos militantes no sul e era o grupo do José Genoíno, por exemplo. Eles defendiam a luta armada em seus documentos internos. Havia outros grupos também. 

Sul21 – O partido realizou mudanças e inflexões muito profundas em seu programa para atingir esse objetivo?
Secco - Essa redefinição do partido foi mais importante  não tanto devido ao impacto da derrota do Lula em 1989, mas da sua quase vitória. Quando o Lula foi ao segundo turno e teve aquela votação expressiva, foi como se tivesse acendido uma luz amarela no partido dizendo: “Olha, agora o partido pode governar”. Os dirigentes entendiam que o PT precisava se preparar para governar. E isso implicava afastar um pouco tendências radicais no partido. Houve outro aspecto importante, que foi a queda do socialismo real. Isso trouxe um debate interno muito grande no partido. A esquerda do PT até conquistou por alguns anos a direção do partido mas, a partir de 1990, Lula é quem foi se separando um pouco da dinâmica interna do PT. Ele adquiriu uma expressão de marca que permitiu que fizesse as caravanas da cidadania, como se o PT vivesse uma dupla vida. Enquanto a esquerda do PT ficava disputando a ideologia dentro do partido, Lula falava com as massas e era o candidato natural. Lula não tinha naquela época a possibilidade – que depois teve – de domesticar o partido para que se adotasse um programa palatável para chegar ao governo. Lula nunca teve muita paciência para as reuniões internas do partido. Quando participava de reuniões, raramente votava. Ele não se dispunha a dividir o partido, já que estava acima das tendências. Esse processo de disciplinar o partido para que se tivesse um programa palatável foi obra do José Dirceu.

Sul21 – E esse processo começou a ocorrer a partir de 1989?
Secco – Gradualmente, sim, no plano dos programas que eram apresentados nas eleições. Dentro do partido já havia até quem flertasse com o neoliberalismo nos anos 1990. Esquece-se que Antônio Palocci, muito antes de ser ministro da Fazenda, foi prefeito de Ribeirão Preto e privatizou a companhia telefônica local. Isso foi um escândalo dentro do PT e aconteceu também em Londrina. Mas, na avaliação dos dirigentes, o mais importante era a domesticação das tendências internas. Mesmo que elas fossem derrotadas no congresso do partido, ainda conseguiam, às vezes, 40% dos votos. 

Sul21 – Quando o partido chegou à presidência da República, houve uma debandada de setores mais à esquerda? O PSOL, por exemplo, surgiu nesse processo.
Secco – Não foi uma debandada, porque boa parte da esquerda do partido permaneceu. Até porque, por mais que houvesse uma crítica a mudanças no discurso e nas práticas que ocorrem em um governo de coalizão, a esquerda do PT também era atraída por cargos, assim como a direita do partido. Todas as tendências do PT estão representadas no governo federal e em governos locais. As correntes possuem certa autonomia interna para fazer um discurso mais radical, mas o que permitiu a Lula domesticá-las foi o processo de eleição direta dentro do partido. O PT não elegia diretamente seus presidentes, mas a partir da eleição do primeiro presidente de forma direta – que foi José Dirceu -, concentrou-se mais poder na figura do presidente e da executiva do partido. As tendências continuaram tendo uma grande participação no diretório nacional e na executiva, mas o presidente do partido adquiriu uma legitimidade muito maior. José Dirceu teve um peso muito grande nesse processo que viabilizou depois a redação da Carta ao Povo Brasileiro. 

Sul21 – Hoje em dia, percebe-se que o PT que está no governo e o PT que comanda sindicatos e centrais sindicais nem sempre estão alinhados. É possível falar na existência de dois PTs?
Secco – Recentemente Lula fez uma declaração nesse sentido. Principalmente durante os dois governos de Lula, houve quase uma simbiose entre o PT e o governo. Qualquer crítica interna feita no PT contra alguma medida do governo era vista como algo que poderia ser colocado ao lado da oposição. Nos últimos dez anos, temos visto que é muito difícil para um grupo que esteja mais à esquerda dentro do partido fazer uma crítica ao governo que não se confunda com a oposição da direita. Isso afetava muito o partido. Depois da saída do Lula da presidência, o PT se viu em uma nova situação, porque possui a presidente da República, mas possui também uma figura com um peso simbólico maior fora do governo. Isso pode ter aberto um caminho – ainda que muito limitado – para que o PT comece a apresentar uma agenda fora do governo. Isso não significa ruptura ou oposição com o Palácio do Planalto. Mas, hoje, o PT defende reforma política, democratização dos meios de comunicação e algumas outras propostas um pouco mais radicais do que as bandeiras do governo. Inclusive, às vezes, são propostas criticadas pelo próprio governo.

Sul21 – O PT tem perdido espaços de poder no movimento sindical ligado ao setor público. Partidos como PSOL e PSTU têm conseguido mais espaço em algumas entidades que antes eram dominadas por petistas. Essa é uma tendência que pode se aprofundar?
Secco – No setor público, devido à própria natureza da ocupação, os trabalhadores têm estabilidade e raramente são demitidos em uma greve. Esse setor tende a apoiar políticas mais radicais. Mas, no setor privado, principalmente nas categorias de maior relevância econômica – como metalúrgicos -, o PT ainda mantém sólidas posições ao lado até dos sindicalistas que estão historicamente à sua direita, como a Força Sindical. Mas talvez em médio prazo o PT comece a perder influência nos movimentos sociais e sindicais. Pode ser que isto já esteja ocorrendo no setor público. 

Sul21 – O mensalão teve um impacto muito grande no partido?
Secco – Teve. Um dos elementos do discurso do PT, especialmente nos anos 1990, era o da ética na política. O mensalão teve um efeito muito grande, eu diria quase devastador, em 2005, sobre a direção do partido e sobre boa parte dos filiados. Isso foi muito mais importante do que aquela divisão que deu origem ao PSOL – que foi uma divergência específica sobre a reforma da previdência e representou um racha parlamentar. O mensalão atingiu o imaginário da base petista. O PT não reagiu e não reage ao mensalão, não diz nem que reprova os procedimentos que o partido utilizava até 2005, nem que defende seus ex-dirigentes condenados pelo STF. Essa postura política dúbia permite que a oposição mantenha o mensalão na agenda muitos anos após ele ter ocorrido – se é que ocorreu exatamente na forma como a oposição vendia. 

Sul21 – Mas houve fortes manifestações do presidente nacional do PT, Rui Falcão, contra o STF e contra a mídia em função do mensalão.
Secco – Ao mesmo tempo em que o presidente Rui Falcão concedia essas declarações, o governador Tarso Genro dava declarações contra José Dirceu e contra os condenados do mensalão. Depois, parece que ele acabou dando um passo atrás. Mas várias personalidades do PT disseram que o partido tinha que se afastar dos condenados e que esse passado apenas atrapalhava. Até mesmo correntes de esquerda no partido tentaram fazer vários atos internos de solidariedade ao José Dirceu e outros condenados. Isso houve em várias cidades no Brasil, mas esses atos não tinham o apoio da direção, as grandes figuras do PT não se faziam presentes. Basta ver que Lula nunca quis dar declarações sobre o mensalão. 

Sul21 – Politicamente, como esses dez anos no governo federal afetaram o PT? O leque de alianças amplia-se ainda mais com a entrada do PSD no governo, através do Guilherme Afif, que é vice-governador do Estado comandado pelo principal partido de oposição ao PT.
Secco – A política de alianças aumentou depois da vitória de 2002, mas o PT, nos anos 1990, já começava, em nível local, a fazer alianças que antes eram impensáveis para o partido. Não acho que esse seja o maior problema do PT. Claro que há casos simbólicos que descontentam a militância, como a aliança com Paulo Maluf em São Paulo. Mas o PT sempre dirá aos seus filiados e apoiadores que o problema está no sistema político, que para governar é preciso montar uma ampla coalizão com partidos de centro e de centro-direita. Então o partido vai acumulando uma dívida com sua própria base social e eleitoral ao não impulsionar a reforma política. Não se sabe até que ponto isso não irá desgastar o PT no futuro. O PSDB – em um nível muito menor – passou por algo muito semelhante quando chegou à presidência da República e se aliou ao DEM. Claro que o PT era um partido muito mais à esquerda e com uma origem social diferente. Mas o DEM, de certa forma, foi um peso conservador no governo de Fernando Henrique Cardoso. Dentro do governo havia uma disputa, ainda que tênue, entre desenvolvimentistas e monetaristas. E o DEM sempre foi contra os desenvolvimentistas. Talvez o PMDB esteja cumprindo um papel semelhante no governo Dilma, sendo um peso conservador e impedindo uma agenda progressista que talvez o PT desejasse colocar em prática. Isso pode ser muito preocupante para o PT.

Sul21 – O senhor disse que estudou os diferentes PTs existentes no país. O que o senhor poderia comentar sobre o PT gaúcho?
Secco – Quando comparamos com outros estados brasileiros, percebemos que o PT surge no Rio Grande do Sul com uma força e uma diversidade ideológica que não possui em outros lugares. A presença de trotskistas era muito forte. E também havia grupos regionais ideológicos que só existiam no Rio Grande do Sul. Isso é fruto da polaridade política e ideológica que atravessa a história do Rio Grande do Sul. A médio prazo, o PT gaúcho conseguiu se apropriar da tradição trabalhista da esquerda – uma tradição que nunca se impôs em São Paulo. No Rio Grande do Sul, o PT conviveu com o brizolismo e, com o passar dos anos, o engoliu. Sempre achei que o PT deu certo no sul porque conseguiu se enraizar na história do trabalhismo. 

Sul21 – Como o senhor projeta o futuro do partido?
Secco – Como historiador, não costumo fazer previsões. De qualquer forma, acho que a médio prazo o PT vai continuar dependendo do sucesso das políticas sociais do governo federal. Não sabemos qual será o ponto de exaustão dessas políticas. A pobreza no Brasil é um fenômeno tão grande e marcante que as políticas sociais de Lula e Dilma ainda são suficientes para que se mantenha um alto índice de apoio ao PT. O modelo implantado pelo PT traz as camadas sociais que estavam excluídas do consumo para a cidadania e para o consumo. Ao mesmo tempo, mantém uma política econômica com certo apoio dos industriais, para que não haja uma grande oposição dos setores econômicos mais importantes do país. Não se sabe até que ponto essa estranha união dos muito pobres sem oposição dos muitos ricos não causará conflitos – especialmente entre os muito ricos. Pode haver um momento em que o cobertor não seja suficiente para todos. Em momentos de crise econômica, será que o governo irá manter os investimentos na área social?

(*) Daniel Golovaty - Lincoln, na “orelha” do seu livro, Ciro Yoshiyasse afirma: “não exagero quando digo que este livro foi pensado vinte e cinco anos atrás, por um jovem na periferia de São Paulo”. Como foi essa história?

Lincoln Secco – Como boa parte de minha geração, eu despertei para o socialismo no movimento pelas eleições diretas em 1984. Ingressei no PCB por acaso, pois tinha lido o Manifesto Comunista. Eu tinha 15 anos! Mas no ano seguinte já percebi que o PT tinha uma linha muito mais radical e ingressei primeiro na campanha de Florestan Fernandes a deputado constituinte. Florestan incendiava os corações e mentes dos jovens militantes com seus artigos na Folha de São Paulo. Desde então, militei num núcleo do PT na zona leste paulistana e, depois, no núcleo de estudos de O Capital, o qual se reunia no escritório político de Florestan. Mas sempre tive atuação de bagrinho (como se diz no jargão petista). Nunca assumi cargo no partido ou em função dele, embora tivesse sido convidado nos anos de 1990. Quando Lula venceu em 2002, afastei-me da militância “orgânica”.

D.G. – Como militante, “testemunha ocular da historia”, você certamente formou convicções sobre a origem e o significado históricos do PT. Quais delas foram confirmadas ou refutadas pela sua pesquisa?

L.S. – Eu não sei se tinha convicções originais. Eu me guiava muito pelo que o Florestan escrevia ou nos dizia em reuniões e debates. Mas ele era ambíguo às vezes (ao menos aos olhos de um jovem como eu era). Florestan achava que o PT deveria ser um partido marxista, como se pode ler no livro O PT em Movimento. Aliás, eu e alguns companheiros lemos e discutimos os rascunhos deste livro antes da publicação. Por outro lado, apoiou Mário Covas no segundo turno de sua eleição para governador. A esquerda petista, no geral, aceitava que o PT tinha uma cultura anticapitalista, mas não precisava se definir como marxista. Eu fui me inclinando para o centro partidário. Posso dizer, com apoio em cartas que publiquei na imprensa do partido na época, que eu achava que a social-democracia seria o fim do PT. Eu estava errado. Minhas pesquisas me levaram a caracterizar o PT como um típico partido social-democrata bem-sucedido.

D.G. - Como tem sido a recepção do seu livro dentro do PT e fora dele? Ela tem te surpreendido?

L.S. – A única surpresa é a primeira edição ter se esgotado em um mês e meio. Embora as tiragens brasileiras não sejam grandes, é surpreendente que qualquer livro que não tenha o aparato comercial de um best-seller venda tão rápido. É que o tema toca o coração de milhares de pessoas que anonimamente ajudaram a construir o PT. O livro foi muito resenhado. A maioria dos meus comentadores recebeu bem a obra. Curiosamente, as críticas mais acerbas, embora respeitosas, foram publicadas no órgão oficial do PT, a revista Teoria e Debate, da qual eu sou membro do conselho de redação. Os demais aceitaram o propósito do livro, que é o debate político e elogiaram muito, embora com divergências em alguns temas. O que é esperado para um livro que trata do PT. Mas a maioria das divergências reside no fato de eu não ter destacado suficientemente (ou respondido) as críticas que Francisco de Oliveira, Paulo Arantes e outros importantes intelectuais fizeram do Governo Lula. Eu posso dizer que num livro propositadamente sucinto, eu fiz escolhas. Não discuti o quanto Lula manteve da política econômica de Fernando Henrique Cardoso ou o quanto os banqueiros continuaram a ganhar. Eu preferi acentuar o que diferencia Lula de tudo o que veio antes. Bem, o seu governo, apesar de tudo, é fruto da história do PT.

Daniel Golovaty e Alexandre Carrasco – No período de formação do partido, você descreve uma dialética interessante entre isolamento político e fortalecimento social, quando o discurso radical do PT o ajudou a forjar sua identidade de oposição no interior dos movimentos sociais. Qual o papel da esquerda do partido neste processo? E, para alem dele, qual o balanço histórico que você faz da esquerda petista?

L.S. – Embora eu tenha ingressado no PT pela porta da esquerda, nunca achei que ela fosse capaz de dirigir o PT. E isto ficou evidente em dois momentos. Na campanha de 1994 a esquerda deixou-se enganar por uma falsa maioria que não tinha projeto político, só projeto de poder interno. E em 2005, no auge da crise do mensalão, setores da esquerda petista erraram a avaliação da correlação de forças interna e externa e entregaram o comando para o campo majoritário. Foi a única vez em que a esquerda mais radical poderia ter comandado o partido sozinha. Mas eu seria injusto se não reconhecesse os méritos da esquerda petista, a qual eu apoiei na maior parte de minha militância. Ela nunca deu muito valor para a “ética na política”, mas também pouco se envolveu em falcatruas, como alguns membros das correntes majoritárias. E muitas vezes ela impediu que o PT fosse ao centro do espectro político cedo demais. Ela foi vital na decisão de não apoiar o colégio eleitoral, de defender sempre candidatura própria para o PT e impedir alianças com a direita, o que teria descaracterizado o partido.

A.C. – Há passagens muito sugestivas em seu livro sobre a relação entre o PT e a “teoria”. O quanto a teoria fez (ou faz) falta ao PT?

L.S. – A maioria do PT sempre desprezou a teoria. O PT foi muito obreirista porque a teoria que se lhe apresentava era um marxismo sem nenhuma incidência na realidade. E sejamos justos. Nós, que éramos marxistas no PT, não sabíamos o que fazer com temas concretos que desafiavam o partido, como a inflação. Tínhamos boas análises globais, sabíamos avaliar o papel que o Brasil estava assumindo na década neoliberal de 1990, impulsionamos a integração da esquerda no subcontinente latino-americano, entendíamos os contornos gerais das crises econômicas, mas nossa teoria não servia para um partido ao mesmo tempo militante e eleitoral. Ainda assim, o pouco que o PT teve em matéria de formação política deveu-se à pressão de suas alas esquerdistas.

D.G. – A sua militância no partido se deu através da mediação da sua participação em um núcleo, o NEC (Núcleo de Estudos do Capital). Você poderia estabelecer como esta vivência influenciou a formação das suas convicções sobre o PT e a sua perspectiva como historiador do PT?

L.S. – Eu tenho uma memória mais viva do núcleo do PT Cangaíba, onde militei anteriormente. O que é engraçado, pois o NEC foi muito mais importante na minha formação. Você conheceu um pouco das atividades do NEC, por isso preciso tomar cuidado com a resposta (risos). Ele nunca teve importância na disputa interna do PT. Mas continuou vivo até hoje! Um dia, um grande companheiro nosso nos criticou: “Vocês são um núcleo de gourmets!”. E o meu camarada Ciro Seiji, sempre perspicaz, respondeu: “É verdade, mas entre um prato e outro nós sonhamos”. Eu penso que fomos além dos pratos. O núcleo seguia duas diretrizes que eu sempre achei corretas. Que o marxismo no Brasil sempre foi abstrato e daí provinha a dificuldade da esquerda do PT dialogar com a base social do partido. E que nós deveríamos aceitar a direção operária e intervir nos seus debates internos para levá-la a posições marxistas. Mas essa era a esperança de um pequeno grupo quando deveria ser da esquerda partidária. Como historiador, eu tentei ser equidistante, o que você como historiador e psicanalista sabe que é impossível. Se não fizemos mais foi porque sempre recusamos disputar cargos.

D.G. - Em seu livro estão muito bem descritas as fases da burocratização do PT: o esvaziamento dos núcleos, a centralização partidária, a progressiva transformação dos militantes em funcionários a serviço de mandatários instalados no aparelho do Estado (parlamento e governos), a autonomização de Lula e de seu círculo mais próximo do efetivo controle do partido e, por fim, a subordinação do partido ao governo. Para este resultado, o quanto pesaram as circunstâncias históricas e o quanto as decisões políticas dos dirigentes do partido?

L.S. – O curso geral dos acontecimentos condicionou um partido que precisou se profissionalizar para disputar o poder. Mas a direita do partido e quase todos os analistas da imprensa cometem o erro sério de acreditar que se foi assim é porque não podia ser de outro jeito. Delfin Neto, por exemplo, sacralizou a carta ao povo brasileiro e os críticos esquerdistas do PT fizeram o mesmo com intenções opostas. Ora, se o PT não tivesse atrás de si o currículo de contestação social não seria alternativa de governo em 2002. Um partido político é determinado no curto e médio prazo pelas decisões políticas de seus dirigentes. E se as decisões são tomadas em momentos cruciais, de possibilidades de mudança estrutural (mesmo que eles não saibam, e raramente o sabem), elas definem o futuro do partido. Ninguém obrigou alguns dirigentes do PT a comprar respaldo no parlamento. O PT precisava, tinha dívidas colossais, mas no fim das contas, manteve-se vivo depois do escândalo de 2005 mesmo sem aquele tipo de apoio e sem parte dos famosos recursos não contabilizados.

D.G. – Eu pergunto isto por que, apesar de você afirmar na conclusão do livro que “se a tese do aburguesamento da social democracia feita por Michels parece inexorável, para a história nada tinha que ser como foi” – apesar desta profissão de fé de historiador – ao final da leitura a impressão que se tem é que o poder das circunstancias superam em muito o das possibilidades históricas que não se concretizaram. Enfim, apesar de seu livro não ter nada a ver com o que seria uma “historia oficial”, fica-se com a impressão de que, em determinados momentos, desliza-se da crítica a uma sutil justificação através da ênfase nas determinações históricas, como resumem as afirmações: “em 2002, muitos intelectuais, petistas até o último momento anterior à posse, não suportaram o toque da realidade (grifo meu) de um governo que declarava ter que atuar dentro dos limites constitucionais e com alianças políticas indesejadas”. Ou, mais ainda: “(...) não podemos negar que Lula e o PT tiveram a capacidade de compreender as contradições sociais de seu tempo. Elas encontraram a forma na qual podiam se mover. E este é, no fim das contas, o método pelo qual elas são resolvidas segundo disse Marx”.

L.S. – Eu posso aceitar esta crítica. Mas permito-me pensar mais nela. Decerto, o Governo Lula poderia ter assumido rumos mais radicais em alguns temas sem perder a direção política do processo. Mas Lula e seus assessores sabiam disso? O que importa é que não quiseram arriscar. Faltou-lhes coragem, vontade política, esperança? Isso o historiador nunca saberá. Mas sob a direção deles o PT cumpriu boa parte de seu programa estratégico, definido muitos anos antes no V Encontro Nacional. O critério que adotei foi o resultado. Não o de fazer história no futuro anterior, como se o resultado estivesse pré-determinado. Mas o de mostrar o quanto a estratégia adotada se revelou capaz de manter a sobrevivência das tropas em momentos cruciais e, no instante em que o terreno se fez favorável, conquistar a vitória, qualquer sabor que ela viesse a ter. Mas no livro eu mesmo avalio o quanto a vitória é de Pirro, aos olhos da tradição da esquerda brasileira. Para vencer, foi necessário adaptar-se e usar as armas do adversário, legitimando o campo de batalha outrora questionado, embora nunca rejeitado. Muita gente de minha geração lamenta que se nós vencêssemos em 1989 seria diferente. Bem, nós não vencemos. A vitória veio depois. O fruto colhido na juventude teria outro sabor, mas também outros perigos.

D.G. – Qual foi o principal efeito da crise de 2005 sobre o PT?

L.S. – Foi um desastre. Eu acredito que o PT vinha se transformando num partido da Ordem e eleitoreiro há muito tempo, mas aquela crise destruiu sua capacidade militante. Embora o processo seja contraditório, pois a derrocada ética e ideológica do PT coincidiu com o retorno de sua militância ao centro do embate político e até mesmo com uma retomada do discurso socialista. O que de modo nenhum intriga o historiador acostumado aos descompassos entre o que um partido é o que ele diz de si mesmo. Mas alto lá! O PT ainda tem reservas militantes. É o “espírito de Sumaré”, para fazer uma brincadeira com André Singer, que gosta da palavra ”espírito” em suas análises do partido. Num encontro de macro regiões na cidade paulista de Sumaré, em junho de 2011, a base petista revoltou-se contra sua direção e lhe impôs uma derrota.

D.G. – Em seu livro, você defende a tese de que, na crise de 2005, a militância petista, ao contrário de seus dirigentes, salvou o partido. Mas não faltou aí uma etapa fundamental, a da depuração ou refundação do partido? Afinal, milhões de eleitores consignaram ao PT suas esperanças e seu voto por sinceramente acreditar no discurso de que o PT era um partido diferente.

L.S. – A militância que salvou o partido era só a sombra da nova, formada por funcionários pagos. Ela voltou para defender um PT que não existia mais. O PT de sua memória e de seu passado. Com isso, salvou a agremiação que, apesar de tudo, é fruto daquele esforço militante dos anos 1980 e 1990. A depuração foi inviabilizada pela derrota da esquerda no processo eleitoral interno.

A.C. – Você acredita que o episódio do chamado “mensalão” significou, de maneira dramática, a conversão do PT ao tradicional sistema de representação política do Brasil, esterilizando qualquer energia que houvesse no PT (acredito que ainda há) para “reformar” o nosso sistema de representação?

L.S. – Não foi o mensalão que mudou o PT. O PT que se envolveu naquele escândalo já era um partido diferente. Eu concordo com você que o PT ainda tem energias para estimular a renovação do ambiente político em que atua. Isso ficou patente no seu último congresso, realizado em 2011. O partido aprovou limite de mandatos para seus parlamentares, 50% de mulheres na sua direção e quota para jovens. Também isso reflete o passado, o peso da história do PT. Veja, eu não quero mostrar um PT que é igual aos demais partidos. O PT é diferente e só ele podia ter sido o primeiro a eleger à presidência da República um operário e uma mulher.

D.G. – No livro, você atribui a corrupção partidária à nossa tradição clientelista e fisiológica. Mas não seria também necessária uma critica interna à cultura partidária que promoveu e, em parte, até justificou (muitos ainda justificam!) a corrupção?

L.S. – Você tocou num problema delicado para a esquerda e que ultrapassa a questão da corrupção. Eu mesmo ouvi de dirigentes do PT em 2005 que não era errado roubar pelo partido e sim para proveito pessoal. Alguns companheiros da esquerda petista iam além e consideravam que o problema não era o PT usar métodos ilegais, mas sim usá-los para um projeto político tão moderado e pífio. Se nós observarmos bem a história recente do PT, a única pessoa que mereceu desprezo do partido foi o dirigente que ganhou um automóvel. O tesoureiro foi reintegrado porque, afinal, aguentou sozinho nas CPIs e não “entregou” ninguém. Não quero discutir a culpa formal dele. Quem vai decidir é o Supremo Tribunal. Mas, no mínimo, o PT deveria tê-lo condenado definitivamente por ter feito uma série de acordos, empréstimos e ações que quase o destruíram. Se estivéssemos numa guerra, o caso seria para corte marcial por facilitar ao inimigo obtenção de informações sigilosas, ainda que por negligência. Diferente foi o caso de José Dirceu, vítima de um esperado ataque de todos os inimigos do PT. Mas a analogia com a guerra nos leva a aprofundar sua questão. O equívoco do PT foi manter o leninismo só como técnica? Sem o conteúdo histórico que o engendrou? Numa situação de guerra é correto usar todas as artimanhas para vencê-la? E numa democracia? Algumas armas se tornam proibidas, embora o segredo e a arte do engano continuem usuais, pois a representação sempre pressupõe certa apatia ou ignorância por parte do representado. Um grande amigo e mestre me disse que ler O Capital e ignorar Da Guerra, de Clausewitz, é como querer andar com uma perna só. Nós esquecemos que Lenine e todos os grandes líderes comunistas eram clausewitzianos.

A.C. – Sobre a tese de André Singer (As raízes ideológicas do lulismo) que você menciona no livro e, pensando no impasse que parece viver o PT – partido popular ou de dirigentes –, quais os limites que você veria neste arranjo? Se o PT realizar o vaticínio de Lula e permanecer 20 anos no poder, não corre o risco de esgotar o conteúdo do lulismo muito antes de poder evitar se transformar no novo PMDB, centrista, regionalista e conjunturalmente de direita? A História do PT já não é a história do fim do PT?

L.S. – Quando algo começa a interessar um historiador, todo mundo já desconfia que é algo acabado. E de certa forma, é verdade. Um ciclo do PT se fechou. Ele surgiu de movimentos sociais, cultivou um ideário radical, institucionalizou-se e chegou ao poder. Que mais podemos esperar dele senão ações para se perpetuar no governo federal? Convenhamos, o PT nos anos 1980 protagonizou a cena política brasileira fora do poder. Hoje, no poder, ele tende a conservar e não a mudar a sociedade. Quanto ao lulismo, a tese de André Singer também já faz parte da história. E digo isso como elogio. Ele pautou a estratégia eleitoral de 2010. Ele percebeu o que o PT procurava no lugar errado. Ao longo de vinte anos o PT tentou encantar a parte da classe média que não votava nele. Em 2006, Lula encontrou as classes desamparadas. Mas há o risco de considerarmos as camadas mais baixas como desprovidas de ação política. Elas sempre atuaram num nível local (via mutirões e outras formas de solidariedade) e pressionando o Estado, já que a esquerda organizada não tinha vez num país que sempre viveu sob ditaduras. Lula surgiu com a sua desconfiança, mas uma vez no poder e com políticas sociais visíveis, passou a ser reorientado por aquela massa empobrecida. Não foi Lula quem criou a sua nova base social, foi o contrário. O Lulismo foi a forma que uma parte da população excluída da luta sindical e partidária encontrou para impor os seus interesses materiais. E dentro da democracia isso não tem volta. É difícil que a direita consiga seduzir a base lulista. A não ser que o próprio PT se recuse a aprofundar suas políticas redistributivas. O lulismo traz certo conforto material sem instigar conflitos sociais. Mas paradoxalmente o seu limite será determinado pelo quanto a atual estrutura de classes poderá suportar um arranjo desses. Num momento de crise, em que alguém tiver que perder um pouco, o lulismo implode. E o PT poderá escolher (se é que terá isso no seu horizonte) entre enfrentar interesses oligopolistas ou sacrificar sua base social.

D.G. – No seu livro você dialoga com muitos pesquisadores e intérpretes. A grande exceção (perdoe-me insistir neste ponto) parece ser um ex-militante histórico do PT, o já citado Chico de Oliveira. Ele é mencionado apenas uma vez e, mesmo assim, trata-se de uma tese já antiga sobre o neodesenvolvimentismo do PT – que, aliás, ele parece ter descartado em seu livro Ornitorrinco. O que você pensa das teses do Chico de Oliveira sobre a transformação do PT e o lulismo? Eu pergunto isto por que a crítica dele não se confunde com a dos chamados “revolucionários”, que acusam o PT por não ter sido algo que ele nunca se comprometeu a ser. Sobre os mandatos de Lula, Chico de Oliveira diz que teria sido “intensamente reformista no sentido clássico que a sociologia política aplicou ao termo: avanços na socialização da política em termos gerais e, especificamente, alargamento dos espaços de participação nas decisões da grande massa popular, intensa redistribuição da renda num país obscenamente desigual e, por fim, uma reforma política e da política que desse fim à longa persistência do patrimonialismo. Os resultados são o oposto dos que o mandato avalizava”. O que você tem a dizer sobre esta avaliação?

L.S. – Eu não ignoro os problemas estruturais do país sob o governo Lula e o quanto ele deixou de resolvê-los. Como historiador eu procurei realçar a novidade do novo ciclo político do PT na forma de partido governista. Mas eu o fiz dentro de meus limites. Não criei uma teoria para explicar o lulismo e nem quis polemizar com grandes intérpretes do Brasil. Como dizia Fernand Braudel, os historiadores têm sempre certa dificuldade de filosofar e acabam por limitar-se a multiplicar os exemplos. Mas o leitor do meu livro verá nas entrelinhas, ou entranhada na própria narrativa, a minha avaliação do lulismo que, no fim das contas, é um petismo ampliado.

D.G. - Uma última questão. No livro você contabilizou a freqüência, nos documentos do PT, da palavra “socialismo”. Apesar de não contabilizada, pela leitura podemos concluir que a palavra “democracia” sempre foi muito utilizada. Mas, e sobre a palavra “república”?

L.S. – Eu usei o número de referências só como um índice (no sentido que a linguística dá a essa palavra). Eu sei que muitos documentos do PT apenas repetiam partes de documentos anteriores. Mesmo assim, não deixa de ser curioso que o socialismo foi desaparecendo do discurso petista depois que Lula ganhou em 2002, reapareceu um pouco em 2005 por causa da crise e também no IV Congresso depois da vitória de Dilma Rousseff, quando muitos acreditaram numa virada à esquerda ou num mandato mais radical do que o de Lula. Respondendo a você como memorialista, eu diria que as palavras mais fortes no PT não eram “socialismo” ou “revolução” e sim “democracia” e “ética” e, mais tarde, “cidadania”. Mas a ética era a ideia que unia a base social petista. Não a militância orgânica, do dia a dia, mas a do simpatizante e do militante em épocas eleitorais. A palavra “república” veio tarde demais, quando o PT já não tinha a mesma riqueza de debate interno, estava no governo e sob acusações, em grande medida injustas, de aparelhar o Estado. Foi uma palavra reativa. Mas isso é só um registro histórico e não afeta em nada a minha análise da história do PT. Eu procurei dar contorno às formas pelas quais as contradições que animavam o partido encontravam para se movimentar. Fiz um ensaio sobre formas, mais do que discussões acerca de conteúdos programáticos ou sobre a evolução dos conceitos. Por isso a escolha de uma síntese. É que outra história seria um pouco idealista. E há muitas análises “marxistas” idealistas! Veja o exemplo de Lula. Ele nunca mudou muito o seu discurso básico ou mudou demais (risos). Mas seguramente suas ações eram mais radicais nos anos de 1980. Qual a razão? Nós a encontraremos nos conceitos que ele reivindicou para si? Em parte sim. Mas fundamentalmente na forma do partido, que era um agregado de militantes, tendências de esquerda e movimentos sociais. O estudioso que lê só resoluções ou a “evolução das frases” pode crer nelas. Cabe ouvir outras fontes, propor outras perguntas e adotar uma abordagem “dialética” (ainda que eu tema um pouco a palavra). Aquelas resoluções, por exemplo, podem ser apenas os ecos longínquos, talvez até invertidos, das lutas de classes no Brasil.

(***) Caros Amigos, via Blog da Editora Boitempo
(**) sul 21 via Luiz Nassif Online
(*) revista fevereiro

A.

#











Noé, o fundamentalista vegetariano ...

Um filme bíblico dirigido por um ativista vegetariano radical e ateu confesso. O consumo de carne é, portanto, mostrado como um dos pecados mortais que provocaram a destruição da humanidade primitiva. Noé, por outro lado, é retratado como uma espécie de anti-herói, já que a certa altura se mostra um fundamentalista obcecado capaz de sacrificar crianças inocentes em nome do que acredita ser a vontade do "Criador".

O tom é de fantasia, e é mais do que apropriado. O mundo retratado não é exatamente o nosso: há estrelas visíveis no céu pelo dia, por exemplo. E anjos caídos petrificados se tornam criaturas fantásticas e monstruosas. Uma espécie de "terra média", com direito, inclusive, ao seu próprio "Sauron" - Ele mesmo, o Todo Poderoso, que nunca é visto, mas comanda o destino de todos com mão de ferro e desígnios misteriosos, cruéis e implacáveis.


Assim como "O Senhor dos Anéis", o filme é inspirado num livro de fantasia "capa e espada" fantástico, cheio de sangue e sexo e um dos piores vilões já criados - um ser rancoroso, vingativo e sádico, que ordena, por exemplo, que um de seus servos sacrifique o próprio filho só pra testar sua obediência. Quando o resignado Abrahão já está prestes a consumar o crime hediondo, ele aparece e diz que "é brincadeirinha, mas eu tô com sede de sangue mesmo, então mata aquela ovelhinha ali, do nada e pra nada, só de sacanagem." Não tem Darth Vader nenhum que possa competir, tanto que a parte da humanidade que acreditou no livro e repassou a crença aos seus descendentes vive com medo de ser mandada para o inferno por esse filho da puta (com as devidas desculpas às profissionais do sexo) até hoje.

Não resisti e fui ver, já que se trata de mais uma idéia ousada de um diretor que já produziu pepitas cinematográficas do quilate de "pi", "O Lutador" e "Réquiem para um sonho". Quase me arrependi. Tem bons momentos, mas no geral é bem chato, com personagens mal desenvolvidos e subtramas capengas que não decolam e não convencem.

Não sei se recomendo não. Se tiver muita curiosidade de conferir o resultado, vá.

Por sua conta e risco ...

A.

#




quinta-feira, 10 de abril de 2014

#EUNOLOLLABR2014

“Uma sequência de canções como Ceremony, Bizarre Love Triangle, True Faith, The Perfect Kiss e Blue Monday, para quem aprecia o artesanato pop, traz um sentimento de se estar diante de uma obra clássica, algo como apreciar o Davi de Michelangelo.” Esta frase de Jotabê Medeiros, no Estadão, ilustra bem o meu sentimento por ter estado diante do palco da clássica e lendária banda de Manchester na noite de encerramento do Festival Lollapaloosa Brasil 2014, ocorrido no último final de semana no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Foi uma celebração.

Que começou em clima de expectativa entre os que escolheram ignorar o “hypado” Arcade Fire, se apresentando num palco ao lado – o maior - no mesmo horário. Eu havia desistido de tentar ver de perto o Soundgarden, que tocou antes, ao ver a impressionante multidão que se direcionava ao palco ônix depois do show do Pixies. Tracei, então, uma nova estratégia: vi os heróis do grunge de Seattle sossegadamente, de longe, sentado na grama do alto de uma das colinas que circundavam o local da apresentação, aproveitando para descansar e ver, finalmente, um show completo, de perto, de forma decente. Do New Order.

Infelizmente o tempo entre o fim de um e o começo do outro era de apenas cinco minutos, o que tornaria impossível ver os dois na íntegra, já que a distancia entre os palcos era muito grande. Tive que sair, portanto, antes do fim do show do Soundgarden, pois estava decidido a ver a apresentação do New Order por inteiro. Cheguei a tempo: os técnicos ainda davam os últimos retoques na estrutura, com uma tela preta ao fundo onde o nome da banda aparecia ocasionalmente ...

E então eles entraram, foram ovacionados pelo público e começaram com “Crystal”, uma boa faixa mais recente, do álbum “get ready”, de 2001 – note: “mais recente”, no caso, já significa 13 anos de lançada! Pra “compensar”, mandaram uma nova mesmo, inédita, chamada “singlularity” – anunciada com uma verdadeira obsessão por Bernard Summer, o vocalista. Que parecia estar um pouco “alto” – não por acaso disse que amava as “caipirinhas”.

“Singularity” é muito boa e cumpriu com louvor a função de provar que eles ainda podem ter balas guardadas na agulha, mas vamos ao que realmente interessa: os hits! Show de banda clássica em megafestival não é lugar para novidades, já que muita gente – eu, por exemplo – tem ali uma rara oportunidade de ver pela primeira vez ao vivo as músicas que embalaram sua vida. O “bailão” começa pra valer com “Transmission”, do Joy Division, e a partir daí foi só alegria, com os grandes sucessos se sucedendo enquanto o telão mostrava imagens artísticas sofisticadas, algumas extraídas dos clipes, outras que parecem ter sido feitas especialmente para serem exibidas ao vivo, como o belíssimo filme que ilustra “your silent face”, de “Power, corruption and lies”. A platéia ia à loucura assim que reconhecia as introduções dos clássicos, como “The perfect Kiss” e “Bizarre Love triangle”. Em “Blue Monday” Bernard toma o lugar de Gillian Gilbert e improvisa um solo nos teclados, conseguindo, ao final, extrair um sorriso da sempre séria e compenetrada tecladista/programadora. Entre uma musica e outra o “frontman” fala muito com o público - algumas besteiras, inclusive, e pelo menos uma "gafe": agradeceu com um "Muchas gracias" - e, quando não está empunhando a guitarra, arrisca alguns passos de dança desengonçados. A banda, como um todo, parecia animada e estava bem afiada, com destaque para Stephen Morris, já "coroa" – todos eles estão, com excessão do baixista – competente – que substituiu Peter Hook e do outro guitarrista – destruindo lá atrás, na bateria “turbinada” com instrumentos de percussão eletrônica.

O Bis foi magistral: começa com o telão mostrando as imagens dos encapuzados carregando os quadros do Joy Division na praia enquanto a banda toca “Atmosphere” e termina, como não poderia deixar de ser, com “Love Will tear us apart”, enquanto uma apresentação de fogos de artifícios anunciava o fim daquela edição do festival. No telão, a sentença: JOY DIVISION FOREVER. Fui às lágrimas. Foi bem mais fácil encarar a maratona da volta – uma longa caminhada até a estação de trem para viajar em pé em vagões lotados – assim, de alma lavada.

Uma maratona insana que começou na noite anterior. Como só o Nine Inch Nails, praticamente, me interessava, cheguei tarde, depois de uma verdadeira via crucis para conseguir trocar meus ingressos comprados pela internet. Tudo era muito organizado e bem sinalizado, mas também muito, MUITO longe - e grande. Uma falha aqui e ali, passagens estreitas para o fluxo de pessoas que causavam aglomeração, mas nada de muito sério. Por conta das distâncias, principalmente, já cheguei acabado e fui logo aproveitando uma tenda montada para que as pessoas descansassem em frente ao palco em que Lorde cantava “Royal”.

O tempo vai passando e eu de repente me toco que não sabia exatamente quando nem onde o Nine Inch Nails iria tocar. Vou à loja de merchandising e peço pelo folheto com o roteiro dos shows, que eles não tinham. Mas uma moça simpática tinha e me mostra que já estava na hora do show. Onde? No palco ônix, lá atrás, depois da roda gigante. “QUE RODA GIGANTE????!!!”. “Pois é, daqui não dá nem pra ver a roda gigante, mas se você for por ali – e me mostra uma passarela interminável lotada de gente – depois da curva você vê, lá longe. É lá.”

PÂNICO! Disparei pelo local indicado até ver, finalmente, a tal roda gigante – que ficava MUITO longe. E, no caminho, havia um tumulto, muita gente indo e vindo, tava tudo parado, com os monitores desesperados tentando organizar a circulação das pessoas. Eu não estava só: um carioca e dois pernambucanos, desconhecidos, me acompanharam na tarefa de vencer a multidão e a enorme distancia até finalmente ouvir, ao longe, “March of the pigs”, uma de minhas favoritas. Chegamos, finalmente, a tempo de ver, ainda, cerca de 45 minutos de show. Bom, pesado e com uma iluminação criativa, apesar de um tanto quanto anticlimático no meio, com algumas canções hipnóticas e experimentais não muito apropriadas para um festival. Os fãs ficaram em transe, o resto foi se posicionar para ver o Muse. Ao final, no bis, uma emocionante interpretação de “Hurt”, uma das melhores músicas “pop” (ênfase nas aspas) já feitas. Um daqueles momentos que fazem você perceber que valeu a pena o sacrifício – e olha que o saldo daquela noite, numa análise fria, foi pra lá de negativo: tanto esforço pra ver tão pouco tempo de uma banda que eu já tinha visto ao vivo antes, no Claro que é rock de 2005! Bom, pelo menos eu já sabia me localizar e tratei de me preparar melhor para a noite seguinte. Aproveitei o resto do sábado para explorar as atrações paralelas, como uma simpática loja de discos de vinil montada num espaço da Skol onde encontrei algumas pérolas: além dos discos das bandas que se apresentariam no festival haviam bolachas do Fugazi, Bikini Kill, Eddie – “original Olinda Style” – e até um raro exemplar da coletânea “Cult” “Another kind of noise”. Só biscoito fino, tudo estalando de novo, lacrado – menos a coletânea, que saiu nos anos 1990 e, que eu saiba, nunca foi relançada.

No domingo cheguei cedo porque queria ver Johnny Marr. Mas não tão cedo ao ponto de não pegar o show começado: era no distante palco ônix, também. Frustrado, já começava a considerar aquele um verdadeiro “festival de coitos interrompidos”, mas tratei de relaxar e curtir a apresentação. Que foi muito boa, mesmo acontecendo sob um sol escaldante. E surpreendente: num dado momento ele chama ao palco ninguém menos que Andy Rourke, o baixista dos Smiths, e juntos eles tocam “How Soon is now”. Lágrimas. E mais lágrimas na sequencia, com “There´s a light that never goes out” cantada a plenos pulmões pela platéia emocionada. Além dessas, dos Smiths, ele tocou também "Bigmouth Strikes again" e “Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before”, num set recheado de boas canções extaídas do primeiro álbum solo, recém-lançado.

De lá fui para o primeiro palco, “Interlagos”, para ver o Savages. No caminho, uma inglesinha bonitinha mas ordinária da qual eu nunca tinha ouvido falar cantava umas musiquinhas pop sem vergonha no gigantesco palco “Skol”. Cheguei exausto, claro – as distancias eram inacreditáveis, não se contavam em metros não, é coisa de quilômetros rodados mesmo – então vi a  primeira parte do show de longe, da tenda “relax”. Savages é uma banda inglesa relativamente nova, formada só por mulheres, que faz um som bastante derivativo do chamado “post punk” dos anos 80, com forte influencia de Siouxsie and the Banshees, especialmente nos vocais – o que está muito longe de ser um demérito, muito pelo contrário. Muito bom show. Já mais descansado, me aproximei e cheguei quase à beira do palco, pois a área estava semivazia – para os padrões de um grande festival, que fique claro. E pude, finalmente, ver um show do Lollapalooza completo e, pelo menos em parte, de perto, quase sentindo o suor da vocalista – estilosíssima, toda de preto com um sapato de salto alto vermelho.  

E então rumo ao palco maior, “Skol”, para esperar pelos Pixies. Já cansado de novo – ah, meus vinte e poucos anos e vários quilinhos a menos que não voltam mais – por isso vi de longe. Mas foi um show foda, muito bom. Entraram todos juntos, saudaram a platéia e sentaram o pau numa saraivada de canções pop ácidas e barulhentas, já tão conhecidas que nem soam mais tão deliciosamente estranhas como quando ouvi pela primeira vez, em vinil, na extinta loja “akydiscos” – a primeira vez que seus ouvidos tomam contato com “Debaser” você nunca esquece.

Assim como no New order, faltava alguém no comando das 4 cordas, mas a baixista que cumpria a ingrata tarefa de substituir Kim Deal, a  argentina - criada nos Estados Unidos - Paz Lenchantin, se saiu muito bem. Não falou nada, e poderia ter se comunicado bem, já que é fluente no espanhol, mas exibiu o tempo inteiro um belo sorriso, o que era, também, uma das marcas da musa. Era não, é: Kim seguem em frente, preparando uma carreira solo.

Comunicação zero com a platéia – sério, nem uma palavra. A não ser pelo que realmente importa: a música. Algumas novas, e boas, inclusive. Comunicação não é exatamente o forte dos Pixies, como pode ser comprovado no documentário "loudQUIETloud", e é provavelmente isso que dá às suas apresentações um clima estranho, meio distante, que só não é "frio" porque a entrega na execução das canções é palpável, visível e audível, especialmente quando Frank Black - ou seria Black Francis? - se esgoela no microfone.

5 minutos para o Soudgarden e me parece que vacilaram, pois tinha mais gente para ver Cornell e Cia. que os pixies, num palco menor e distante. Desisti: ia pegar começado mesmo e jamais conseguiria chegar perto do palco, a julgar pela multidão inacreditável se dirigia ao “Ônix”. Fiz mais um pit stop estratégico em outra tenda “relax” e aproveitei pra comer um sanduíche ruim e caro, claro. Não fosse assim, não seria um “mega” festival. Só então fui lá, ver uma das bandas mais aguardadas de todo o evento - primeira vez deles no Brasil! Vi, mas de longe, de MUITO longe. De cima de uma das várias colinas que circundavam o palco ônix. Até que o visual era bonito, parecia Woodstock. Mas o som, dali, estava sofrível. No entanto, não tinha jeito: era muita gente e muito cansaço, de minha parte. Foi aí que tomei a decisão de repensar a estratégia final, bem sucedida, como vocês puderam ver no início deste relato.

Saldo pra lá de positivo, apesar dos  pesares. Cheguei no hotel em que estava hospedado, no centro de São Paulo, destruído. Mas feliz. Que venha a próxima edição.

Ou não. Nâo sei se tenho pique pra outra não ...

A

#


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Eles voltam ...

Cris, crescendo ...
E eis que temos, vindo de Pernambuco, mais um pequeno estudo cinematográfico da alienação, falta de ligação afetiva e isolamento dos membros das classes mais abastadas - chega de chamar de "classe média", até parece que não existe mais classe "alta", só médias e baixas - diante da realidade da desigualdade social. "Eles voltam", o filme, parte de uma premissa interessante e inusitada, o abandono de uma jovem de apenas 12 anos - Maria Luiza Tavares, em boa atuação - na beira da estrada da zona da mata pernambucana, para desconstruir as expectativas irrealistas do espectador.

Promissora estréia do diretor Marcelo Lordello, brasiliense radicado no Recife, é uma espécie de choque de realidade em baixa tensão, com planos longos, ritmo lento e reflexivo. Lembra, como já deve ter ficado evidente, "o som ao redor", só que, repito, o nível de tensão, aqui, é bem mais baixo. É, também, mais intimista. Está mais próximo da estética do cinema iraniano, ou seja: não é para todos. As massas acostumadas ao ritmo frenético e barulhento do cinemão "pipoqueiro" passarão longe. É "cine cult". Mas não deixa de ser também, num certo nível, povoado por clichês. Difícil escapar, já que a própria vida "real" é cheia deles.

Vi no Cine Vitória, que fica no centro de Aracaju - lugar ao qual, por sinal, muita gente hoje em dia tem medo de ir, especialmente à noite, por medo da violência. Boa localização - sim, existe vida fora dos shopping centers e condomínios fechados - boas instalações, atendimento cordial e, o mais importante: excelente programação alternativa aos "blockbusters" acerebrados e quase sempre, agora, dublados! Só falta melhorar a qualidade do som: nos filmes nacionais a gente sempre perde alguns diálogos - o que não deixa de ser saudosista, já que remete aos tempos em que o cinema nacional padecia desse mal crônico. Mas não, prefiro entender ...


"Cine Lou Reed", segundo RAS.

"Eles Voltam"
Gênero: Drama
Direção: Marcelo Lordello
Roteiro: Marcelo Lordello
Elenco: Clara Oliveira, Elayne de Moura, Georgio Kokkosi, Germano Haiut, Teresa Costa Rêgo, Irma Brown, Jéssica Silva, Maria Luiza Tavares, Mauricéia Conceição
Produção: Mannuela Costa
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Trilha Sonora: Caçapa
Duração: 100 min.

A.

#

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"O Bolsa Família não gera dependência"

Está entre aspas porque não sou eu quem está dizendo. Sempre achei ridícula a afirmação de que as pessoas "se acomodam, não vão procurar emprego e viram vagabundas" por causa do Bolsa Família.  Arup Banerji, 51 anos, economista e diretor do Banco Mundial, também concorda comigo. Ele defende, em entrevista conduzida por Michel Alecrim publicada na revista Istoé desta semana, que os programas de transferência de renda são fundamentais para garantir uma alimentação adequada e, assim, um futuro às crianças.

O economista indiano construiu uma sólida carreira no Banco Mundial acompanhando as políticas de proteção social e de emprego em diferentes partes do mundo. Já atuou no Leste Europeu, no Oriente Médio e na África, experiências que resultaram em livros sobre questões econômicas desses lugares, entre outros trabalhos que publicou. Agora, como diretor global para Proteção Social e Trabalho da instituição sediada em Washington (EUA), onde mora, ele aposta no Bolsa Família como forma eficaz de combate à pobreza e como solução para as principais mazelas dos países em desenvolvimento. O programa, segundo ele, tem resultados cientificamente comprovados e acerta ao escolher as mulheres como gestoras do benefício dado pelo governo federal. Banerji veio ao Brasil para o seminário “Fórum de Aprendizagem Sul-Sul 2014”, no Rio de Janeiro, que reuniu representantes de 70 países, e falou com exclusividade à ISTOÉ.

Istoé - O programa Bolsa Família é eficiente no combate à pobreza?

Arup Banerji - Há muitos anos, o Banco Mundial vem avaliando o que funciona ou não nas políticas de transferência de renda. O Bolsa Família passou a ser uma experiência muito discutida por conta de alguns aspectos importantes. Em primeiro lugar, porque foi ambicioso na escala que tentou atingir. Muitos países que adotaram programas parecidos usaram um esquema de cima para baixo. O Estado apenas se preocupa em transferir dinheiro para os pobres. O Bolsa Família fez uma inversão, pensando primeiro na pessoa. E os bons resultados estão sendo comprovados através de pesquisas científicas. Não são apenas comentários.

Istoé - Por que frisa a importância de dar atenção à pessoa? 

Arup Banerji - Vou dar um exemplo. Se você digitar Bolsa Família no Google Imagens, a foto mais comum que vai aparecer é de uma pessoa  sorrindo e segurando o cartão do programa. Para muitas dessas pessoas esse cartão mostra que estão vinculadas ao Estado pela primeira vez. Pessoas pobres muitas vezes não se sentem parte de um país. São subjugadas, tratadas como se fossem de fora. O cartão estabelece uma relação legal e formal com o Estado. Equivale a dizer: ‘O País valoriza você e sua família e por isso estamos repassando esses recursos.’ A pessoa passa a ser cidadã de um país e, consequentemente, começa a valorizar a educação dos filhos, a criá-los bem nutridos, e os filhos, por outro lado, passam a cuidar mais de suas mães. Cria-se, assim, uma relação de mútua responsabilidade. Esse é um dos aspectos centrais do Bolsa Família. 

Istoé - Uma das principais críticas a esse tipo de programa é a dependência que supostamente gera, e não autonomia.

Arup Banerji - No caso do Brasil, eu não concordo com isso. Em outros lugares do mundo, talvez. O que significa a dependência econômica? Em poucas palavras, seria o seguinte: a pessoa que recebe ajuda chega à conclusão de que é melhor não fazer nada o dia inteiro e não procurar emprego porque o valor recebido compensa. O segredo do sucesso é que o pagamento não seja tão alto que leve a esse tipo de situação nem tão baixo que não dê nem para as famílias se alimentarem. É importante que o benefício não chegue a um salário mínimo. Estudos comprovam: depois de dez anos do Bolsa Família, não há dependência. 

Istoé - Qual é, hoje, a extensão de programas de transferência de renda no mundo?

Arup Banerji - Programas de transferência de renda de todos os tipos já foram implementados em mais de 100 países em desenvolvimento. Mas como o brasileiro, com responsabilidades compartilhadas, estão em cerca de 50 países. O maior foco é na educação e na saúde. Além de manter as crianças na escola, devem vaciná-las e, em alguns casos, há necessidade de as mulheres grávidas passarem por exames. 

Istoé - Pode dar exemplos?

Arup Banerji - Um dos primeiros foi na Turquia e começou dois anos depois do Bolsa Família. Mas lá não foi um programa nacional. Foi voltado para o lado leste do país, que é mais religioso e conservador.  O problema, lá, é que as meninas não iam para a escola. E a condição era que não só os meninos, mas também as meninas fossem para a escola para o pagamento ser liberado. Resultado: em três anos, a taxa de meninas que frequentavam o ensino médio saltou de 38% para 50%. Na África, onde não há uma estrutura estatal como a brasileira, optou-se por um controle menos rígido porque não há quadros de funcionários para checar bem a presença na escola, nem como fazer pagamentos com cartão. Mas, para receber o auxílio, as mães precisam assistir a uma aula sobre a importância da educação e da nutrição. Acabou dando certo também. É o mesmo conceito e a mesma ideia, mas que se adaptam à realidade de cada país. 

Istoé - Mas por que países africanos, mesmo com dificuldades, obtiveram resultados e em Nova York a proposta não vingou?

Arup Banerji - Em Nova York, implantaram o programa Opportunity, que teve bons e maus resultados. O que realmente não deu certo foi justamente algo que diz respeito a um ponto-chave do Bolsa Família: enquanto no Brasil dão o dinheiro para a mulher, no Opportunity davam para as crianças. A mãe costuma gerir melhor os problemas da família que o pai. Uma criança pode estar fora da escola não só por questões financeiras, mas também por ser rebelde ou porque a escola fica muito longe. Em todas as situações é a mãe que tem que manejar isso dentro da família. Também temos que olhar para a qualidade das escolas. Algumas escolas de Nova York são muito violentas, com professores não tão bem qualificados e com um entorno também problemático, com muitas tentações. O programa, lá, ainda está fazendo análises, mas sabe-se que os números não são muito bons. Agora estão vendo o porquê. Com certeza, um dos motivos é terem dado o dinheiro para as crianças. 

Istoé - Os programas sociais teriam a ganhar se incluíssem metas de desempenho escolar?

Arup Banerji - O México fez essa mudança. O programa de lá começou focando apenas na matrícula escolar. O Progresa foi até anterior ao Bolsa Família. Mas logo concluíram que as famílias faziam a matrícula, mas nem sempre os alunos compareciam. Aí, a presença virou condição fundamental. A questão, agora, é se de fato estão aprendendo. O México é o primeiro país que está começando a pensar nisso. Há muitos desafios para se medir o aprendizado porque não é só verificar as notas. É preciso pensar em avaliações de aprendizado. É recomendável fazer isso, mas é preciso ter cuidado. A ideia é continuar fazendo o pagamento, mas dar um adicional se a criança for bem nos estudos. Toda sociedade precisa ter consciência de que não basta as crianças estarem na escola. Precisamos saber se estão aprendendo. Mas para isso é preciso exigir que as escolas sejam boas. Haja vista o exemplo de Nova York. É um processo casado e, por isso, tão desafiador.

Istoé - Os gastos com os grandes eventos são um desperdício diante das carências nos setores da educação e da saúde?

Arup Banerji - Só poderia comentar isso com base num estudo sobre o retorno desses investimentos, e não é minha especialidade. 

Istoé - A África do Sul, que sediou a Copa de 2010, continua com altas taxas de desemprego?

Arup Banerji - O desemprego na África do Sul já existia antes da Copa e continuou. As razões não têm a ver com a falta de investimentos, mas com questões históricas, por causa do apartheid. Por isso, tento separar esses eventos particulares, como Copa ou Rio + 20, que são curtos, e foco nas políticas de longo prazo. A própria África do Sul tem algumas políticas de combate ao desemprego que não mudaram por causa da Copa. O mesmo serve para o Brasil. O Bolsa Família não é tão duradouro que possamos saber o que resultou para as crianças depois de adultas, mas no México, que é o mais antigo, estamos encontrando os primeiros estudos. Há sinais de que os beneficiados estão encontrando empregos com mais facilidade e conseguindo salários melhores.
Istoé - É porque eles têm mais escolaridade?

Arup Banerji - Não só por isso. Uma boa nutrição é o mais importante para se prosperar. Descobertas científicas mostram que a maioria dos neurônios do cérebro é formada nos dois primeiros anos de vida. Crianças mal alimentadas nessa fase não têm o mesmo desenvolvimento neurológico. Quando uma criança pobre recebe comida, acaba tendo suas funções cerebrais equiparadas às outras. Por isso as políticas de longo prazo são importantes. 

Istoé - Programas sociais têm reflexos no combate à violência?

Arup Banerji - É possível dizer que essas transferências de recursos são importantes, mas não são suficientes para o combate à violência. O que esses programas fazem é dar esperança, cidadania, mostrar que a pessoa é importante para o Estado. Há um efeito psicológico, ou seja, eles agem na redução das frustrações. Isso pode reduzir a violência. No entanto, não podemos excluir os investimentos em policiamento, Justiça e no combate às drogas. Mas estudos mostram que programas sociais reduzem a  violência doméstica. Há redução das agressões contra as mulheres que recebem benefícios. Como elas recebem o dinheiro, ganham autoridade. Isso foi comprovado em muitos países, como a Índia, de onde eu venho. 

Istoé - Que país é um bom exemplo de proteção social?

Arup Banerji - A Alemanha, país europeu que reagiu melhor à crise. Saiu da recessão e lá o desemprego é baixo inclusive para os jovens. E o que fizeram depois da crise? Diferentemente de outros países que tomaram medidas que causaram demissões, a Alemanha adotou um sistema de work sharing (trabalho partilhado), que mantém o trabalhador empregado em meio expediente. A diferença é coberta pelo seguro-desemprego. É interessante que uma economia bastante liberal tenha adotado uma política, digamos, mais intervencionista por parte do Estado, e ainda com a colaboração dos sindicatos. É um exemplo fantástico. 

Istoé - Qual é a diferença entre países onde a previdência é controlada pelo Estado e outros onde a responsabilidade é dos trabalhadores?

Arup Banerji - O que o Banco Mundial aconselha é um sistema que mescle  diferentes fontes de recursos para se alcançar a soma que uma pessoa idosa precisa para sobreviver. Países como o Brasil, que têm uma massa muito grande de jovens, costumam recolher contribuições desse grande contingente para pagar de imediato as aposentadorias do pequeno percentual de idosos. Mas esse sistema não tem como durar. Logo haverá mais velhos que novos. Por isso, é preciso um sistema privado, em que os trabalhadores economizem para a velhice.

#

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os aviões ficaram no chão ...

Eram no mínimo dez os sargentos, na maioria do Exército, a quem Marighella fez a derradeira recomendação no entardecer de 30 de março de 1964: ali mesmo, na residência onde a janela da sala contemplava o Morro Azul, que ninguém deixasse de vestir a farda para a manifestação noturna. Quanto mais uniformes militares colorissem os salões do Automóvel Club do Brasil, mais escancarado seria o respaldo às decisões recentes do governo. Não era a primeira vez que ele se encontrava com praças das Forças Armadas no apartamento de fundos na Marquês de Abrantes, rua do bairro do Flamengo celebrizada como corredor de pensões no século XIX. Os inquilinos eram seus correligionários João Batista Xavier Pereira e a mulher, Zilda Paula. Marighella também se reunia com sargentos no subúrbio. Chefe da seção armada do PCB, Salomão Malina observara que em 1961 o camarada “começou a depositar [...] uma esperança [...] exagerada em certos movimentos da área militar''. Conversou com ele, que não lhe deu ouvidos.

Na batalha pela posse de Jango, a guarnição do contratorpedeiro Ajuricaba aprisionara os oficiais. Marighella confiava em tal combatividade não apenas para referendar a agenda de Goulart, mas para ultrapassá-la. Em 1962, Prestes anotara: “Marighella — Em vez de colocar como questão central as reformas de estrutura, colocar o problema de luta por um novo poder''. Se dois anos mais tarde o PCB aparentava se diluir na frente reformista do presidente, Marighella preservara a ruptura revolucionária no horizonte.

Enquanto ele se despedia dos sargentos, Goulart titubeava em comparecer ao ato pelos quarenta anos da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar. O deputado Tancredo Neves desestimulou-o, pois o desgaste com a oficialidade já fora demasiado com a anistia aos marinheiros. No Gabinete Militar o capitão Eduardo Chuahy, receoso de nova afronta à hierarquia, labutou pelo forfait. O presidente deu de ombros aos rumores de provocações, desceu na rua do Passeio e adentrou o prédio em cujo interior rodaram a chanchada O homem do Sputnik. Não teria por que rir da noite do último discurso em seu país.

A exaltação dos mais de mil militares e policiais era tamanha que eles achincalharam com vaias um sargento que enumerou reivindicações, mas descartou opinar sobre política para não ferir os regulamentos corporativos. Os apelos de Jango — “respeitem a hierarquia legal'', sejam “cada vez mais disciplinados'' — contrastaram com o abraço espalhafatoso entre o almirante Aragão e o Cabo Anselmo. No entanto, seu raciocínio fazia sentido:

“Na crise de 1961, os mesmos fariseus que hoje exibem o falso zelo pela Constituição queriam rasgá-la e enterrá-la sob a campa fria da ditadura fascista.''

Como em uma carta-testamento que jamais escreveria, Goulart evocou o religioso católico dom Hélder Câmara e seu sermão:

“Os ricos da América Latina falam muito de reformas de base, mas chamam de comunistas aqueles que se decidem a levá-las à prática.''

A estrela da festa no Automóvel Club cuspiu fogo e bafejou mistérios. Ao colunista Paulo Francis, do vespertino Última Hora, Jango se afigurou “pálido, assustado, semicoerente''. Um acompanhante de Goulart, a caminho da solenidade, confidenciou ao jornalista Janio de Freitas que o presidente aceitara por duas vezes “bolinhas'' — estimulantes — do patrão de Francis, Samuel Wainer. Nem no texto preparado por assessores, nem nos improvisos apimentados o orador atordoado mobilizou, para barrar eventual golpe de Estado, os milhões de cidadãos que o escutavam no rádio.

Antes de Jango concluir seu discurso, o general Olímpio Mourão Filho recolheu-se aos seus aposentos em Juiz de Fora, na zona da mata mineira. O comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria engatilhara o plano: entre as quatro e as cinco horas da manhã da terça-feira, 31, suas tropas marchariam com destino ao Rio de Janeiro para depor o presidente. O putsch deveria eclodir dias depois, mas o general à testa da Infantaria Divisionária em Belo Horizonte, Carlos Luís Guedes, preferiu antecipá-lo para prevenir dissabores astrais: ao lançar a sorte no terreno de operações, o oficial costumava fugir da Lua minguante, temida por ele como a Lua cheia pelos lobisomens.

“Os generais Guedes e Mourão Filho são dois velhinhos gagás, não são de nada!'', fanfarreou o general Assis Brasil diante de Jango, na atmosfera farsesca do palácio Laranjeiras. Pelo meio-dia, com os soldados sob as ordens dos golpistas a caminho do Rio, Goulart insistiu que havia “muito boato''.

Embora não fosse o alvo da ofensiva, o general Castello Branco talvez tenha se espantado mais que o presidente. A conspiração dominante gravitava na órbita do chefe do Estado-Maior do Exército. Em seus cenários para a derrubada de Jango, o pior seria jogar-se ao assalto do poder, concedendo ao antagonista a bandeira da legalidade. “Fomos surpreendidos pela ação de Mourão'', reconheceu o general Ernesto Geisel, então encostado em cargo irrelevante. “Castello achou que o movimento era prematuro, que o Mourão tinha agido afoitamente.''

O cearense Castello era general-de-exército (quatro estrelas), acima do general-de-divisão Mourão (três) e do general-de-brigada Guedes (duas). Nada que constrangesse os mineiros: a dupla havia maquinado uma empreitada autônoma, em consórcio com o governador Magalhães Pinto e empresários. Nem Mourão, aos 63 anos, nem Guedes, aos 58, prestavam-se ao papel de anciãos senis do vitupério do guia do “dispositivo militar'' janguista. O camisa-verde Mourão Filho criara, em 1937, o diabólico Plano Cohen, falsidade atribuída aos comunistas que serviu de pretexto para a ascensão do Estado Novo. Agora não era um protagonista nas trevas: golpeava à luz do sol — e da Lua cheia que iluminou a virada para abril. Guedes já comparava sua ofensiva sem sustos “às blitzen da Alemanha contra a Polônia, com a diferença de que, até o momento, não foi disparado um só tiro''.

O chumbo viria, profetizou a estação da CIA no Brasil em um cabograma de 30 de março. A agência tratou, como os golpistas, a quartelada iminente como “revolução'': “A revolução não será resolvida rapidamente e será sangrenta. Os combates no Norte podem continuar por um longo período''. No dia 27, o embaixador Lincoln Gordon remetera às autoridades de segurança nacional americanas um telex top secret encomendando “o mais rápido possível'' armas para os aliados de Castello Branco em São Paulo. Justificou a pressa: “Existe o perigo real de irrupção da guerra civil a qualquer momento''. Com o bloco dos generais na estrada, os Estados Unidos se moveram rápido. Não faltava tarimba a quem apeara um governo no Irã, em 1953, outro na Guatemala, no ano seguinte, e se engalfinhava com guerrilheiros no Vietnã.

Como considerava o Brasil território em disputa no duelo da Guerra Fria, a Casa Branca desencadeou as ações inventariadas no dia 31 pelo secretário de Estado, Dean Rusk, ao embaixador Gordon. Logo após o meio-dia, horário de Brasília, Rusk telegrafou pormenorizando o suporte inicial aos pelotões anti-Goulart: quatro contratorpedeiros, dois contratorpedeiros de escolta, um porta-aviões e quatro petroleiros. Uma reunião com Gordon dez dias antes, em Washington, previra também um contingente de fuzileiros. Para efeitos diplomáticos, a força-tarefa naval desenvolveria manobras inofensivas em águas adjacentes ao litoral brasileiro. Precisariam de 24 a 36 horas para dez aviões cargueiros, protegidos por seis caças, decolarem com 110 toneladas de munição. A operação foi batizada como Brother Sam.

A causa do Tio Sam era a mesma de espaçosa coalização nacional, da extrema direita belicosa a confrarias liberais de tradição. Além do colega mineiro, os governadores da Guanabara, Carlos Lacerda, e de São Paulo, Adhemar de Barros, mancomunaram-se com o levante. A Igreja reproduziu no interior paulista a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e nova multidão era aguardada quinta-feira, no Rio. Se dependesse do tenente Reynaldo de Biasi Silva Rocha, não seria mais uma jornada de protesto, e sim a celebração da queda de Jango. Às sete horas da terça-feira, 31 de março, ele ministrou uma instrução de combate à baioneta em Juiz de Fora.

“Quem quer passar fogo nos comunistas levante o fuzil!'', exclamou. A tropa ergueu as armas e partiu para o Rio de Janeiro.

* * *

Há 50 anos, o Brasil mergulhava nas trevas. O golpe de Estado de 1º de abril de 1964 depôs o presidente João Goulart e inaugurou a ditadura que sobreviveria por 21 anos. Narrei as horas quentes da derrubada de Jango no capítulo “Os aviões ficaram no chão'', da biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo'' - trecho reproduzido acima.

A narrativa começa no fim da tarde de 30 de março e vai até a derrota.

A Companhia das Letras liberou o capítulo gratuitamente, na internet.

Para ler completo, clique AQUI.

por Mário Magalhães

#




NINF()MANÍACA

Forte. Excessivo. Desconcertante. São as palavras que eu encontro pra definir "Ninfomaníaca", último e pra lá de polêmico filme de Lars Von Trier - a respeito do qual você já deve ter lido mais do que o suficiente para ter uma idéia do que vai encontrar pela frente caso resova enfrentar a maratona de mais de quatro horas de duração, divididas em duas partes.

Ou não. Porque não é uma obra de fácil assimilação, muito embora seja, paradoxalmente, um de seus filmes mais "pop", em termos de narrativa. Chega a ser, inclusive, didático, o que alguns enxergaram como defeito. Eu não. Adorei os recursos gráficos usados para explicar o que a gente via na tela. Ajudam a não perder o fio da meada da longa e, muitas vezes, surpreendentemente divertida, narrativa. Ora ressaltando algo que já estava evidente, ora chamando a atenção para as metáforas. Algumas, também, evidentes - entre a pesca e a caçada sexual na viagem de trem, por exemplo - outras mais rebuscadas, como a que compara os relacionamentos de Joe à estrutura de uma sinfonia.

Visto apenas pela primeira parte, parece misógino, porque focado na visão negativa de Joe diante das consequencias de seus atos. Perto do final, chega-se a uma nova conlusão: é, na verdade, um libelo libertário feminista. É também, a meu ver, um estudo sobre o poder dos impulsos mais primitivos do ser humano, notadamente o sexual, evidentemente. E é com essa energia, selvagem, descontrolada, instintiva, que o filme é estruturado. Daí o excesso. Daí o choque. Daí o final, em que o impulso e a herança cultural determinista vencem, mais uma vez.

Adorei assitir, do lado de uma senhora de idade, na primeira parte, e de uma bela jovem, na segunda, ambas desconhecidas, a cenas, a princípio, desconcertantes, mas filmadas de forma até poética, em alguns casos, embora sempre sem concessões. Nada de desviar a câmera para poupar os moralmente recatados do constrangimento. "Felatios" e penetrações em closes ginecológicos, membros eretos em profusão, masturbações infantis criativas, lubrificações escorrendo pelas pernas diante da morte, espancamentos consentidos e até um boquete "por caridade".

Pornografia existencialista com pitadas, aqui e ali, de um humor negro que beira a morbidez.

Adorei.

A

#

terça-feira, 1 de abril de 2014

Hoje é o dia da mentira.

Hoje, dia PRIMEIRO DE ABRIL de 2014, faz 50 anos que uma conspiração destruiu uma democracia com o argumento cínico de que estava exatamente preservando a democracia. O que havia de mais atrasado na sociedade da época se juntou na trama: militares, CIA, políticos conservadores e grandes empresários do jornalismo, como os Mesquitas, Roberto Marinho e Octavio Frias de Oliveira. A administração que nasceu dessa aliança foi um colosso da inépcia. O Brasil piorou dramaticamente – excetuado o pequeno grupo que tomou conta do Estado.

A desigualdade floresceu. O país se favelizou. Conquistas trabalhistas foram extirpadas. Greves – a única arma dos trabalhadores – foram proibidas. O ensino público, que era excelente – e promovia a mobilidade social – foi devastado, com a perseguição a professores e o controle obsceno do que era ensinado nas salas de aula.

Os generais presidentes – Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo – merecem um esculacho eterno. Falavam em combater a corrupção dos civis e não conseguiram criar em seu partido, a Arena, nada que fosse além de Paulo Maluf.

Alguns cúmplices dos militares acabaram também se dando mal. Carlos Lacerda, o eterno conspirador, queria que eles derrubassem João Goulart e preparassem o terreno para que ele, Lacerda, ascendesse à presidência.

Os Mesquitas foram obrigados a publicar receitas para ocupar o espaço de textos censurados.
Frias foi submetido à humilhação de receber uma ordem telefônica para demitir o diretor de redação Claudio Abramo, e obedeceu.

O Brasil deu um passo gigantesco para trás em primeiro de abril de 1964.

Foram mais de vinte anos de pesadelo.

Passou.

Mas é bom não esquecer.

por Paulo Nogueira

DCM

#


O golpe, por Darcy Ribeiro

O governo Jango não caiu por seus defeitos –um dos principais seria minha presença no posto-chave de chefe da Casa Civil–, ele caiu por suas qualidades. Essencialmente porque representava uma ameaça inadmissível para as classes dominantes. Quem viveu aqueles últimos meses de tensão recordará tanto a animosidade e o ódio que se alastraram por toda a casta de privilegiados contra o governo nacionalista e sindicalista, como o entusiástico apoio popular ao governo trabalhista e reformista.

Jango assume a presidência com a vocação de ser um poder conciliatório que só aspirava realizar reformas sociais indispensáveis e inadiáveis pelo caminho da persuasão. De fato, o governo de Jango surge e se define desde a primeira hora como uma alternativa à revolução cubana num mundo marcado pela presença de J. F. Kennedy e de João 23. Por desgraça, o Santo Papa morre, Kennedy é assassinado e João Goulart se vê sozinho no seu intento conciliatório.

A velha classe infecunda –dos que não plantam nem deixam plantar– que infelicitou nosso País ao longo da História, impedindo que o povo brasileiro realizasse suas potencialidades, só queria perpetuar a velha ordem. Vale dizer, este estilo de prosperidade não generalizável aos trabalhadores que, no passado, dava nominalmente a negros que duravam menos de 10 anos no eito a renda per capita mais alta do mundo. Este mesmo estilo que, perpetuado e ampliado, faz do Brasil de hoje um grande produtor de soja, reduzindo simultaneamente de forma tão drástica a produção de alimentos que condena o povo à fome. Para perpetuar os interesses desta velha classe é que Goulart foi derrubado e se impôs a política econômica oposta, no curso da qual se ampliavam exorbitantemente os latifúndios. Em lugar de milhões de pequenos proprietários rurais, o que se viu foi multiplicarem-se superlatifúndios de milhões de hectares.

Derrubado o governo trabalhista de Jango, com ele caem a democracia e a ameaça de uma reforma agrária e de uma lei de controle das multinacionais, bem como toda uma política de defesa dos recursos nacionais e das conquistas sociais dos trabalhadores.

A derrubada do governo de João Goulart foi o primeiro movimento decisivo da nova estrutura mundial de poder, comandada pelas empresas multinacionais. Ao golpe de 1964 no Brasil seguiram-se outros que, mediante conspirações urdidas internacionalmente, desestabilizaram todos os governos nacionalistas e democráticos –sobretudo os de pendor socialista– da América Latina. Implantou-se, assim, desde Washington, a nova safra de ditaduras militares latino-americanas, todas elas de caráter regressivo no plano social e repressivo no plano político. 

(trechos do artigo 1964: Um Testemunho, publicado na Folha de S.Paulo em março de 1982)

***

A PROPAGANDA ANTI-JANGO

O pequeno expediente da Câmara de Deputados se converte numa campanha diária de denúncia do suposto golpismo do governo e de advertência contra o projeto de Jango, que queria rasgar a Constituição e levar o Brasil ao comunismo. Os discursos parlamentares eram reproduzidos por conta do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), por estações de rádio do país inteiro, criando um clima de pânico. A certa altura a campanha era tão alarmista que mandei quebrar as máquinas de gravação e transmissão instaladas por José Bonifácio no corredor que liga a Câmara ao Senado. É de assinalar que essa campanha milionária foi montada e executada precisamente pelos deputados udenistas, que pretendiam rasgar a Constituição e implantar a ditadura, como, de fato, o fizeram.

A Comissão Parlamentar de Inquérito criada para examinar os negócios do Ibad consegue provar, apesar de todo o escamoteio, que entre os principais financiadores estavam a Texaco, Shell, Ciba, Schering, Bayer, GE, IBM, Coca-Cola, Souza Cruz, Belgo-Mineira, Herm Stoltz e Coty.


A direita vai à guerra. Frente à maré montante do movimento pelas reformas de base e convencida de que não podia manter a velha ordem desigualitária através de eleições que perdia sucessivamente, a direita unificada contra o governo reformista do presidente João Goulart opta pela guerra civil. Procura e alcança, para isso, o apoio do governo norte-americano de Lyndon Johnson, que não só ordena a organização e o financiamento do golpe para derrubar Goulart, como admite que se chegue até à guerra civil, aceitando o risco de abrir, no Brasil, um novo Vietnã, pela invasão de nosso país por suas tropas, para dar apoio, aqui, aos velhos aliados e aos gestores de suas empresas, cujos interesses estavam ameaçados.

Brizola expressa a Jango a conviccão da esquerda radical de que, tendo fracassado a política de concliliação do chamado caminho brasileiro, paralisado, cumpria assumir o comando do movimento popular e partir para a revolução. Jango retruca: “Não assumo a responsabilidade de lançar o país numa revolução inconsequente”. San Thiago Dantas tenta em vão articular uma Frente que unifique esquerdistas e progressistas para enfrentar a sedição das direitas e efetivar as reformas de base.

A sedição é articulada tecnicamente, em Washington, com vasto assessoramento científico, como a primeira operação complexa de desestabilização de governos sul-americanos. A operação tem início com campanhas milionárias de difamação do governo pelos jornais, pelo rádio, pela televisão, com o objetivo de apavorar as classes médias contra o aparente continuísmo de Jango e, sobretudo, contra sua suposta orientação sindicalista e pró-comunista. Simultaneamente, se desencadeia a batalha psicológica através de procissões político-religiosas, montadas espetacularmente pelos governos de vários estados, chamando grandes contingentes das classes médias, sobretudo as mulheres, para uma posição ativa de oposição ao governo. A operação é coroada com uma série de provocações militares programadas para indispor a oficialidade contra o governo.

ESQUERDA X ESQUERDA

1963. Almino Afonso, afastado por Jango do ministério do Trabalho, procura ativar no PTB o Bloco Compacto, a partir do qual criaria, com apoio comunista, um novo partido de esquerda sindicalista, hostil ao governo. Com uma inflação superior a 80% e a consequente insatisfação dos assalariados, a manobra era preocupante.

A luta ideológica divide as esquerdas. San Thiago Dantas começa a falar de esquerda positiva e de esquerda negativa, distinguindo os reformistas dos radicais. Estes últimos contestam que o importante a diferençar é a esquerda fisiológica e oportunista, encarnada pelo próprio San Thiago, da esquerda ideológica e combativa, representada por Brizola, Arraes e Julião.

Carvalho Pinto, também candidato à presidência, ameaça demitir-se do Ministério da Fazenda, diante da suposição de que o governo daria o 13º salário para os funcionários públicos. Afinal, se demite por outras razões, principalmente por intrigas juscelinistas. Começa então a campanha tão inesperada quanto insensata de exigir de Jango a nomeação de Brizola para o Ministério da Fazenda. Miguel Arraes, igualmente insensato, preferia que o ministro da Fazenda fosse eu.

Paulo de Tarso, ministro da Educação, se demite porque o governo não seria suficientemente esquerdista para o seu gosto. A Frente de Mobilização Popular publica nota dizendo que sua “posição é de total independência em relação à política de conciliação do presidente da República e em relação a todo o esquema de poder vigente. É a tal doença infantil.

As esquerdas se radicalizam rapidamente.

1964. Tento, em vão, convencer líderes de esquerda –inclusive Prestes e Arraes– de que não há qualquer risco de continuísmo por parte de Jango. O que está em marcha, dizia eu, é um golpe da direita. A informação não passa. É inverossímil demais.

As esquerdas entram em desvario. Até Prestes destrambelha, dizendo que Jango é o porta-bandeira da revolução brasileira, e ameaçando: “Não há condições para o golpe reacionário, e se os golpistas tentarem, terão suas cabeças cortadas”.

Juscelino Kubitschek e o general Amaury Kruel propõem ao presidente uma virada total para a direita, expressa através do fechamento da UNE e da CGT, seguida da demissão de Raul Riff e Darcy Ribeiro.

San Thiago Dantas e Samuel Wainer aconselham o presidente João Goulart a não resistir. O primeiro informando que o ataque ao Palácio do governador Carlos Lacerda provocaria a invasão da baía de Guanabara por navios da armada norte-americana, que já estariam em nossos mares. O segundo insinuando que sua saída seria como a de Getúlio, a premissa necessária a um retorno vitorioso. Para ambos e para muitos companheiros mais, o pior era Jango ficar e implantar as “reformas de base”, disputando o poder com as esquerdas radicais.

O GOLPE

Os candangos reunidos aos milhares, no teatro de Brasília, em vigília para defender Jango, foram dispersados pelas tropas do general Fico, que prometeu defender a legalidade mas aderiu na última hora, rendendo-se a uma ordem telegráfica de Costa e Silva. Brigamos.

As primeiras prisões foram de líderes da CGT, que tentavam, às pressas, improvisadamente, resistir ao golpe. A verdade é que ninguém, nem eu, esperava golpe antes de 1º de maio. Depois, sim, ele era certo. Ainda creio que (o general) Mourão foi uma “fagulha saltada”.

Três dias depois, Waldir Pires –procurador-geral da República– e eu voamos num aviãozinho monomotor, conseguido por Rubens Paiva –morto anos depois, assassinado pelos torturadores da Base Aérea do Galeão –, para irmos ao encontro de Jango. Acabamos em Montevidéu. Era o exílio.

Para o povo, o golpe foi cruento. Principalmente para os camponeses das ligas de Julião, assaltados e assassinados em seus ranchos, em atos de pura cureldade, pelas polícias regionais e pelos jagunços dos senhores de engenho, a fim de demonstrar ao povo nordestino que seu destino é o cambão.

(Aos Trancos e Barrancos – Como o Brasil Deu no que Deu, editora Guanabara)

***

O que se pretendia era uma reforma estrutural de caráter capitalista. Elas foram, porém, vistas como revolucionárias em razão do caráter retrógrado do capitalismo dependente que se implantou no Brasil sob a regência de descendentes de senhores de escravos e testas-de-ferro de interesses estrangeiros. Jango dizia e eu repetia até à exaustão que com milhares de pequenos proprietários a propriedade estaria mais defendida e muito mais gente poderia comer e educar os filhos. O apoio popular a este programa não podia ser mais entusiástico. Nem mais fanática a oposição a ele por parte dos latifundiários e agentes dos interesses estrangeiros. Unidos eles montaram a maior campanha publicitária que se viu no País, para convencer as classes médias que o governo marchava para o comunismo.

O ambiente de odiosidade que se criou dividiu as forças armadas e pôs o Brasil sob ameaça de invasão pelos Estados Unidos, a pedido do governo de Minas Gerais. Nestas circunstâncias, João Goulart teve de optar entre deixar-se derrubar ou resistir, permitindo que se desencadeasse no país uma guerra civil que podia custar milhões de vidas.

Seguiu-se o golpe e se seguiu o regime militar de 1964, que passa a governar como um negativo fotográfico do programa de Jango. Em lugar de democracia e liberdade sindical, ditadura e arrocho salarial. Em lugar de milhões de pequenos proprietários, milhões de hectares para superproprietários. Em lugar do controle das multinacionais a entrega total do Brasil ao controle delas.

***

JANGO

Jango, com seu reformismo, foi o governo mais avançado que tivemos, aquele que lutou mais fundamente para implantar as bases de um Brasil novo, capaz de gerar uma prosperidade extensível a todo o povo. Embora reformista, ele foi percebido, sentido e temido como revolucionário, provocando uma contra-revolução preventiva para impedir a execução das reformas de base que estavam sendo levadas a cabo. A esquerdinha, em sua eterna ingenuidade, só admite uma revolução pronta e perfeita, como nunca sucedeu em parte alguma, dizem eles próprios. Enquanto não se alcança esta tola utopia, se opõem com horror a todo reformismo, preferindo entregar-se à direita como exóticos, mas fiéis serviçais da ordem.

Todos os grandes jornais, toda a imprensa falada e televisiva se mancomunaram para negar a história real e colocar no lugar dela uma ficção enobrecedora da ação golpista dos militares que se deixaram subornar pelos norte-americanos para dar o golpe anticonstitucional que interessava aos latifundiários e às empresas internacionais.

Tiveram êxito, sem qualquer dúvida. Tanto assim que se criou no Brasil uma geração de mulas-sem-cabeça que, desconhecendo o passado, flutua fora da história.

(Testemunho, Fundação Darcy Ribeiro)

Trechos selecionados por Cynara Menezes

#