sexta-feira, 10 de setembro de 2010

para senador ...



Com relação aos candidatos com chance de vencer a corrida para o senado em Sergipe, façam-me o favor ... É só lixo ! Não vou nem falar de indivíduos como Albano Franco e José Carlos Machado, pois estes já estão automaticamente fora de cogitação pelo simples fato de serem expoentes do que há de mais atrasado no estado, as velhas oligarquias da cana e do cimento. Mas mesmo os candidatos da coligação do governo, supostamente uma coalizão de centro esquerda e "progressita", não me agradam. Eduardo Amorim eu mal sei quem é mas pelo pouco que sei, nem tenho vontade de saber mais. Já em Valadares eu fiz uma promessa para mim mesmo de jamais votar quando de sua desastrosa passagem pelo governo do estado. Na época ele era do PFL e aliado de João. Fiz essa promessa depois do vergonhoso episódio da tentativa de proibição de manifestações na Praça Fausto Cardoso (na época o Palácio Olimpio Campos ainda era a sede do governo), que não foi adiante por um motivo simples: era uma idéia totalmente anti-constitucional, uma flagrante violação do direiro de expressão. Naquele tempo o povo (ou a parte dele que era organizada nos movimentos sociais) tinha essa mania irritante e fora de moda de fazer protestos de rua. Valadares não hesitou e mandou a Tropa de Choque bater em professores, na minha modesta opinião um pecado mortal imperdoável. Inclusive nosso atual governador Déda, então deputado estadual, tomou umas lapuadas na ocasião - será que ele lembra disso e já comentou o fato entre uma dose de uisque e um tapinha nas costas com nosso ilustre senador? Ninguém fala mais neste episódio, mas eu não esqueci. Depois ele supostamente virou "socialista", mas o que é na verdade é um cacique local do PSB, um dos muitos "chefes políticos" (eufemismo para o antigo e desgastado termo "coronel") interioranos, de Simão Dias. Nunca foi 100% fiel a esta suposta opção de esquerda - lembremos que foi candidato a prefeito de Aracaju apoiado por João Alves disputando e sendo derrotado, se não me engano, pelo próprio Déda. Ouvi um discurso ultradireitista de sua boca na ocasião num almoço de apoio no Clube de Dirigentes Lojistas, no qual se dedicou a pintar o PT como a imagem do demônio na terra. Ok, Marcelo Déda deve ter (e certamente tem) seus motivos para estar do lado desta gente - a tal da "governabilidade" - mas eu sou apenas um cidadão comum com um pequeno porém importante direito de escolha, então faço questão de colocá-lo em prática.

Pois bem, não que isso vá fazer grande diferença, mas procurei algumas alternativas para não anular meu voto e encontrei estes dois senhores abaixo: Atamário, pelo PSOL, que eu não conhecia, e o professor Marques, um antigo colega de universidade que já era comunista no longiquo ano de 1989 e, depois de um breve período no PPS (ninguém é perfeito) voltou ao bom (há controvérias) e velho (com certeza) "partidão" (definitivamente, não). Sou daqueles que ainda acham que a coerência e a convicção de princípios (sem sectarismo, por favor) é importante, e penso nisso na hora de votar (ou não).

Abaixo, duas entrevistas com meus candidatos a senador.

Espero que sejam úteis.

A.

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Candidato ao Senado da República pelo PSOL de Sergipe, Atamário diz não querer ser uma especie de herói

Entrevista com o candidato ao Senado da República pelo PSOL de Sergipe, o servidor público federal Atamário Cordeiro. De acordo com ele, a melhor maneira de contribuir com o Estado de Sergipe, caso se eleja, é incentivando trabalhadores e a juventude. Confira:

Portal Infonet - O que o levou a candidatar-se a uma vaga para o Senado da República?
Atamário Cordeiro - No PSOL uma candidatura não é a expressão de vontade pessoal e sim uma tarefa de representar o partido em mais um momento da vida social do país, neste caso as eleições. Como o PSOL decidiu sair sem coligação nesta eleição, para consolidar o partido junto aos trabalhadores sergipanos, procuramos ocupar todos os espaços possíveis de debate de idéias e a disputa ao senado é um espaço privilegiado. Fui escolhido para representar o partido e aqui estou com muito orgulho.

Infonet - Quais os seus principais projetos caso seja eleito?
AC - Nosso partido nacionalmente trabalha com 5 eixos fundamentais para mudar a realidade do Brasil, são eles: Reforma Agrária, Reforma Urbana, Redução da Jornada de Trabalho, Educação e Saúde. Por isso todos os meus projetos e minha atuação serão fundamentalmente baseados nestes eixos, porém sempre olhando para questões mais específicas em todos os estados brasileiros. No entanto não quero ser uma espécie de herói que resolve os problemas das pessoas, e sim um lutador que resolve os problemas com as pessoas, por isso, usarei estes eixos como norteador mas os projetos serão construídos juntamente com os trabalhadores e movimentos sociais de forma democrática e participativa.

Infonet - De que maneira pretende contribuir para o Estado de Sergipe?
AC - A melhor maneira de contruibuir com Sergipe é incentivando que os trabalhadores e a juventude sejam os atores e atrizes principais de sua vida, pois são eles que sabem quais os reais problemas por que passam e qual a melhor forma de resolvê-los. Por isso minha atuação política será baseada no incentivo a auto-organização do povo Sergipano, que terá no PSOL um parceiro para debater e constribuir com as soluções de seus problemas e uma voz para ecoar estes anseios.

Infonet - Como pretende conscientizar o eleitor de que é o diferencial?
AC - Mostrando para eles que não precisamos de um padrinho ou coronel que pense por nós, que a transformação que eles querem e Sergipe precisa só será possível se construída coletivamente e eu estou à disposição de todos os trabalhadores e categorias profissionais para debater e construir reais soluções para melhorar suas vidas.

Infonet - O que levará em conta na hora de votar no Orçamento da União?
AC - O PSOL desde sua fundação luta para que seja feita uma auditoria da dívida pública que hoje tira dos brasileiros 35,57% do orçamento. Qualquer debate de orçamento que não passe por este tema é demagogo e por isso o PSOL estará sempre na linha de frente desta luta. Paralelo a isso buscarei dialogar com trabalhadores e movimentos sociais sobre quais as suas prioridades sobretudo nas áreas de saúde e educação e a partir de suas demandas votaremos o orçamento. Em um eventual mandato de senador nossa marca será a participação e o diálogo com os trabalhadores e na questão do orçamento não pode ser diferente.

Infonet - Como irá fiscalizar o presidente da República?
AC - O principal foco de nossa fiscalização será no uso da máquinas estatal para beneficiar partidos, políticos, empreiteiras, bancos e etc sobretudo quando esse beneficiamento prejudicar diretamente a vida dos trabalhadores. Pois ou o presidente está do lado dos trabalhadores ou do lado de empreiteiras, do agronegócio, dos banqueiros, enfim da elite econômica que nos explora a mais de 500 anos. O PSOL escolheu estar junto aos trabalhadores, por isso qualquer ação que os prejudique será imediatamente combatida. Dentro dessa perspectiva sabemos que se o presidente eleito for o Plínio não teremos dificuldades na fiscalização e sim muito trabalho para construir as mudanças tão prometidas e jamais cumpridas.

Por Aldaci de Souza

Fonte: Infonet

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O Professor Marques defende uma revolução na educação e na cultura para construir um sistema educacional que rompa com a reprodução da ideologia dominante.

Entrevista com o candidato ao Senado por Sergipe, professor Marques, do PCB. Ele defende, caso seja eleito, a criação de empresas produtivas estatais com a participação direta dos trabalhadores. Acompanhe:

Portal Infonet - O que o levou a candidatar-se a uma vaga para o Senado da República?

Professor Marques - Essa é uma decisão política do PCB após a realização do Congresso Nacional do Partido. Em todos os estados, o PCB definiu por lançar candidatos a governador e senadores comprometidos com as e caminhos de luta para a superação dos graves problemas que afligem a grande maioria da população. Muito mais que pedir votos, contribuiremos para os trabalhadores brasileiros fazerem uma reflexão sobre seu futuro e o futuro do país. Nossa candidatura não é pessoal. Faz parte de um projeto mais amplo de construção de um programa anticapitalista e antiimperialista para o Brasil.

Infonet - Quais os seus principais projetos caso seja eleito?

PM - Os projetos para o senado refletem a visão do PCB sobre a atuação parlamentar. Na nossa visão política, defendemos que o desenvolvimento científico e tecnológico, a Educação, a Saúde, a Habitação, a Cultura, os transportes públicos e as demais áreas vitais para o desenvolvimento social devem ter caráter predominantemente estatal, de acesso universal e alta qualidade, com o aumento radical de sua participação nos orçamentos e com a instauração de mecanismos de controle direto pelos trabalhadores. Com relação à organização da classe trabalhadora, defendemos a instituição de novas formas de repre sentação direta dos trabalhadores – o Poder Popular –, que viabilizarão a mais ampla liberdade de opinião, com a participação de movimentos organizados e partidos políticos, a estatização dos principais meios de produção em substituição à grande propriedade privada, industrial, comercial e agrária, assim como de todo o setor financeiro, com o controle progressivo de todas as grandes empresas pelo Estado e pelo Poder Popular. Com a nossa presença no Senado federal proporemos de imediato ao governo a Criação de grandes empresas produtivas estatais, com a participação direta dos trabalhadores na sua gestão; defenderemos com vigor o Monopólio estatal do petróleo, com a Reestatização plena da Petrobrás, a extinção da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e a anulação de todos os contratos de risco e leilões realizados em território brasileiro; a Gerência dos recursos do pré-sal pela Petrobrás, garantida sua distribuição aos Estados na proporção inversa do IDH; a Reestatização da Vale do Rio Doce, da Embraer e de todas as empresas estatais estratégicas que foram privatizadas; bem como Reestatização do sistema de geração e distribuição de energia elétrica; e o fim das agências reguladoras, passando suas atribuições para os respectivos Ministérios.

Infonet - De que maneira pretende contribuir para o Estado de Sergipe?

PM- As proposições do PCB ao senado atenderão a Sergipe, bem como os estados menos privilegiados da federação em termos de recursos, infraestrutura e serviços. Para contribuir com o desenvolvimentos dos estados brasileiros os comunistas defendem a radicalização da reforma urbana para além do atual Estatuto da Cidade para recuperar a justiça social nas nossas cidades. A moradia digna, a educação, a saúde, o saneamento básico, o transporte, a cultura, o lazer, ou seja, os serviços sociais públicos, com qualidade, são direitos do cidadão e como tal devem ser universalizados através do Estado. O controle democrático radical das políticas públicas se dará por meio da construção do Poder Popular, para promover a verdadeira revolução na administração pública, retirando o caráter de mercado dos serviços sociais e garantindo a sua universalização como direitos. Defendemos para o estado, uma revolução na educação e na cultura para construir um sistema educacional que rompa com a reprodução da ideologia dominante e a desigualdade de acesso ao conhecimento, à cultura e à arte universais, promovendo a escola pública integral e humanista, capaz de romper com a mercantilização da formação e da educação hoje vigente. Os enormes ganhos que a escola privada hoje obtém devem ser taxados para financiar a expansão da rede pública, contribuindo para o combate à lógica da reprodução capitalista que reserva à escola pública a formação para o trabalho assalariado, a promoção do desenvolvimento voltado para a inclusão e a igualdade social, com a garantia do emprego, da moradia, da geração de renda e a dignificação das condições de trabalho e remuneração do quadro de servidores públicos; a reforma urbana e a expansão da presença do Estado para a universalização do acesso e retirada do caráter de mercado dos serviços urbanos (saneamento, água, luz, gás, etc) e dos serviços sociais básicos (saúde, educação, cultura, lazer, segurança, habitação); e o planejamento econômico e social participativo visando o crescimento ordenado das cidades e do campo, a promoção do uso social da propriedade e o desenvolvimento com qualidade de vida, priorizando ações voltadas às camadas populares.

Infonet - Como pretende conscientizar o eleitor de que é o diferencial?

PM - Para os comunistas brasileiros, a miséria e as precárias condições de vida que afligem a maioria da população brasileira têm uma causa central: o sistema capitalista, mantido pela dominação da classe proprietária dos meios de produção sobre o conjunto da classe trabalhadora. No Brasil, construiu-se um capitalismo desenvolvido, com relações sociais burguesas plenamente consolidadas. Nesse quadro, somente uma grande frente anticapitalista e anti-imperialista - envolvendo organizações políticas, movimentos populares e setores progressistas da sociedade - será capaz de organizar e mobilizar os trabalhadores, não apenas para as eleições, como é praxe nos partidos burgueses e reformistas, mas principalmente para lutar pelas transformações sociais, econômicas e políticas necessárias para a superação do capitalismo. A disputa entre as maiores coligações partidárias nestas eleições é apenas superficial, pois não coloca em jogo a natureza do Estado brasileiro, vinculado aos interesses do grande capital financeiro e industrial. O PCB rejeita a falsa polarização imposta pelos meios de comunicação, que querem transformar essas eleições em mera escolha de quem será o melhor gerente para o capitalismo brasileiro e tentar afastar a população de uma alternativa popular para o Brasil. O PCB está lançando uma campanha política, não apenas uma campanha eleitoral. Será uma CAMPANHA MOVIMENTO, uma CAMPANHA MANIFESTO, em que não apresentaremos propostas para humanizar e moralizar o capitalismo, que é intrinsecamente desumano e corrupto. Denunciaremos a farsa da democracia burguesa. Deixaremos claro que nossas propostas somente poderão se tornar realidade com o apoio, a mobilização e a organização dos trabalhadores, reunidos em uma ampla Frente Anticapitalista e Anti-imperialista. O PCB vai qualificar o debate, colocar o dedo na ferida. Apresentamos aqui os eixos políticos do nosso PROGRAMA ANTICAPITALISTA E ANTI-IMPERIALISTA PARA O BRASIL, para serem aprofundados durante e depois da campanha eleitoral.

Infonet - O que levará em conta na hora de votar no Orçamento da União?

PM - Para o PCB, a crise econômica internacional revela a face real e crua do capitalismo. Ela desvendou o caráter de classe do sistema: enquanto os governos da burguesia injetaram trilhões de dólares para salvar os banqueiros e a elite parasitária, os trabalhadores estão perdendo seus empregos, direitos e salários. Mais e mais homens, mulheres e crianças passam a viver na miséria absoluta. Entendemos que o orçamento público da união deve ser aplicado para superar o estado de miséria dos mais pobres, estabelecendo um Programa Nacional de Abastecimento para garantir os direitos de moradia, alimentação, saúde, água tratada, energia, comunicação, transporte e Lazer da população. Os recursos sociais devem ser investidos para garantir o direito universal à educação básica, em todas as localidades do pais, inclusive reservas indígenas, quilombolas e extrativistas. A recuperação salarial da classe trabalhadora deve ser prioridade na votação do orçamento, valorizando as categorias dos trabalhadores urbanos e rurais sem distinção de salário. Defendemos que este recursos seja utilizado para fortalecer programas de erradicação do trabalho infantil, de construção de programas que garantam a segurança alimentar e nutricional da população mais carente, a garantia da seguridade social, a política nacional de reforma agrária, assentamento, agricultura familiar e saneamento básico das cidades brasileiras.

Infonet - Como irá fiscalizar o presidente da República?

PM - O PCB entende que o governante da nação deve preocupar-se com o quadro geral da distribuição de renda no país que se alterou muito pouco, sendo alarmante o número de residências precárias e sem saneamento básico (mais de 50%) e situadas em áreas desprovidas de infraestrutura urbana, o elevado patamar de desemprego, a alta incidência de verminoses e doenças decorrentes da subnutrição e outras que já haviam sido erradicadas, a total falta de proteção previdenciária aos trabalhadores, a insuficiência e fragilidade dos sistemas públicos de saúde de educ ação, de transportes e outras áreas de interesse social. Estas questões são prioritárias para qualquer governante e nos estaremos fiscalizando de perto as ações do governo eleito nestas áreas.

Por Aldaci de Souza

Fonte: Infonet

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

World War Z


Dica de leitura: RELATOS DO APOCALIPSE ZUMBI - Livro "Guerra Mundial Z", de Max Brooks, se inspira em conjunto de relatos da 2ª Guerra. E nasce um clássico do terror moderno.

fonte: Rock Loco
por Franchico

O mundo como o conhecemos não existe mais. Uma misteriosa pandemia global, iniciada na China, erradicou boa parte da população mundial, depois que os infectados se tornaram zumbis canibais, gerando a chamada Guerra Mundial Z. Dez anos depois, um funcionário da Comissão Pós-Guerra da ONU compila depoimentos de sobreviventes do conflito.

É esse relatório que agora chega às livrarias, em Guerra Mundial Z (Rocco), de Max Brooks. Aclamado pela crítica como uma reinvenção do subgênero de zumbis – dentro de um gênero maior, o de horror – o livro de Brooks é uma fascinante compilação de relatos orais que primam pela verossimilhança, de acordo com a atividade e a nacionalidade de cada entrevistado pelo agente da ONU.

Há médicos chineses, cientistas alemães, militares indianos, políticos sul-africanos, soldados norte-americanos, traficantes de órgãos taiwaneses e até um cirurgião brasileiro.

Pós-Katrina - Parte da crítica norte-americana saudou o livro como um típico romance pós-furacão Katrina e pós-11 de setembro: “As advertências iniciais são ignoradas, relatórios cruciais passam despercebidos, empresários lucram bilhões vendendo placebos, o exército se equipa de forma inadequada e a população desconhece a extensão da ameaça – até que a encara face-a-face. Eis aqui, portanto, um típico conto de zumbis pós-Katrina“, escreveu o crítico Alder Utter, do jornal The Eagle, de Washington.

Já o interesse por zumbis, que parece ter aumentado bastante nos últimos anos, graças a uma enxurrada de filmes, games, livros, HQs e até séries de TV, tem pelo menos duas explicações, na visão de Klaus‘berg Bragança, mestre em comunicação pela Facom (Ufba): “A representação do morto-vivo fascina porque a imagem que temos de um morto é que ele deveria continuar morto. Ele rompe uma barreira natural que é totalmente absurda, mas que, na ficção, é muito original“, reflete.

“E mais: a metáfora daquele que volta do túmulo resgata narrativas orais que remontam à tradição bíblica, com Lázaro e o próprio Jesus“, lembra.

O Grande Pânico - A Guerra Mundial Z, que durou dez anos, quase erradicou os seres humanos e, quando acabou, virou de cabeça para baixo a configuração geopolítica planetária. A China virou uma democracia. A capital dos EUA foi transferida para o Havaí. A Rússia se transformou numa teocracia ortodoxa expansionista. E a maior economia do mundo é Cuba. No leito dos oceanos, milhões de zumbis ainda perambulam, vindo dar em praias ou surgindo nas redes de pesca.

Tudo começou na China, de acordo do com o primeiro entrevistado, o médico Kwang Jingshu, que tratou do chamado “paciente zero“, um menino de 12 anos de um vilarejo rural.

Através da fuga em massa de refugiados chineses e do tráfico de órgãos a partir de Taiwan, o vírus começa a se espalhar e chega à África do Sul, aonde acontece o primeira epidemia.

A imprensa global logo chama a doença de “raiva africana“. Na sequência, Israel anuncia um período do quarentena total e se fecha para o mundo. O Japão é evacuado.

Nos Estados Unidos, o governo ignora os alertas que varrem o mundo e permite que um grupo farmacêutico lucre bilhões comercializando uma falsa vacina, a Phalanx. Até que um massacre sem precedentes ocorre na cidade de Yonkers (estado de Nova York). A partir daí, o mundo entra em um período de caos e salve-se-quem-puder global: é O Grande Pânico.

As táticas de “choque e pavor“ ianques não causam qualquer efeito contra as hordas de milhões de zumbis, e para completar, todo o treinamento de tiro dos soldados é direcionado para mirar no peito – o chamado “centro de massa“ – dos oponentes. Mas este inimigo só cai ao ser atingido na cabeça.

Romero e a boa guerra

A opção narrativa de Max Brooks parte de duas influências bem claras – e assumidas: os filmes de George Romero, considerado o “pai“ do gênero zumbi, e o livro The Good War (1985), do radialista norte-americano Studs Terkel.

Pode-se dizer que, do primeiro – Romero –, Brooks aproveitou a temática do comentário social a partir da metáfora dos zumbis perambulantes.
Já de Studs Terkel, ele pegou a forma. Nunca publicado no Brasil, The Good War (A boa guerra) é uma compilação de relatos orais de sobreviventes da 2ª Guerra Mundial.

Guerra Mundial Z / Max Brooks / Tradução: Rita Vinagre / 368 páginas / R$ 49,50 / Editora Rocco

ENTREVISTA: MAX BROOKS

Nascido em Nova York, em 1972, Maximillian Michael Brooks veio ao mundo como um privilegiado: filho do genial comediante Mel Brooks e da atriz Anne Bancroft (a inesquecível Mrs. Robinson, sex-symbol nos anos 1960), ele conta em seus créditos, como escritor e roteirista, participações no programa Saturday Night Live e três livros: Guerra Mundial Z, Guia de sobrevivência a zumbis e Recorded attacks. Como ator (e dublador de desenho animado), participou de séries como Roseanne, Pacific Blue, Batman do Futuro e Liga da Justiça. É casado desde 2003 com a roteirista Michelle Kholos, com quem tem um filho, Henry.

Pergunta: É espantoso como seu livro cobre os mais diversos campos de conhecimento nos relatos. Há Psicologia, Política, Geografia, Medicina, História, Estratégias e Armamentos Militares, Relações Internacionais, Arquitetura e outros. Quanto tempo levou para você efetivamente colocar tudo em ordem? Ou você escreveu e pesquisou ao mesmo tempo?

Max Brooks: Redigir os relatos foi a parte fácil. A pesquisa... isso sim, foi difícil. Levou anos. Tive de organizar minha própria biblioteca, com milhares de livros e mapas. Também passei horas e horas conversando com pessoas que trabalham nos campos sobre os quais estava escrevendo. Chega a ser irônico o fato de que um livro de entrevistas fictícias não seria possível sem as entrevistas reais.

P: Há uma enorme variedade de diferentes vozes no livro, e cada uma delas utilizando uma linguagem especializada específica, de acordo com sua atividade. Como você fez para alcançar esse nível de verossimilhança?

MB: A linguagem (dos personagens do livro) foi um ponto muito importante para mim. Eu queria traçar as enormes diferenças que existem entre um soldado de classe média-baixa como Todd e um aristocrata dos tempos modernos, como Arthur Sinclair. A parte difícil foi a pesquisa sobre as gírias locais ao redor do mundo, tentando extrair aquelas pequenas nuances de forma a faze-las funcionar. Estou certo que falhei tanto quanto fui bem sucedido.

P: Ao invés de simplesmente narrar os fatos de forma linear, você compôs um mosaico de relatos orais. Como você chegou nesse formato? Já leu outros livros similares? Qual foi a inspiração?

MB: Minha inspiração foi The good war, de Studs Terkel (A boa guerra, 1985, conjunto de relatos sobre a 2ª Guerra Mundial, não publicado no Brasil). Seu uso da narrativa oral ficou comigo para sempre. Considerei que era a única forma de contar uma história gigantesca como a Guerra Mundial Z.

P: Nos últimos anos, os zumbis sofreram uma enorme popularização. Mas por que? Será que é por que, em última análise, eles somos nós – pessoas comuns que infelizmente morreram (e retornaram) – e não só mais um psicopata com uma máscara e um machado, e por isso, é muito mais fácil para o espectador se identificar com a situação?

MB: Eu acho que zumbis são uma forma de explorar nossos medos em relação ao apocalipse. Existem diversos problemas bem reais no mundo hoje: aquecimento global, recessão econômica, fome, doenças, ameaça de guerra nuclear. São quase reais demais para se pensar. Apavorantes demais. Numa história de zumbis, você está livre para falar sobre o fim do mundo. É algo seguro, por que zumbis não são reais.

P: Com a explosão dos filmes, o subgênero se misturou a diversos outros. De fato, essa característica jaz na sua própria gênese, com George Romero, que usava os zumbis para tecer comentários sociais sobre racismo e a Guerra do Vietnã. Que direção você acha que o gênero deve tomar nos próximos anos?

MB: Honestamente, não sei o que o futuro reserva para o gênero. Só espero que continue fiel ao (espírito de) comentário social preconizado por George Romero e não fiquem focados apenas nas cabeças decapitadas voando.

P: Em certos trechos, Guerra Mundial Z parece um estudo psicológico sobre as reações humanas às grandes catástrofes. Você teve algum tipo de consultoria?

MB: Quem dera eu tivesse tido psicólogos consultores. Teria tornado o meu trabalho bem mais fácil. O fato é que sempre fui fascinado pelas reações humanas aos grandes desastres. Eu moro em Los Angeles, aonde temos incêndios (na temporada de seca, durante o verão), enchentes, terremotos e tumultos sociais... fora os problemas regulares de crime, drogas e AIDS. Como as pessoas reagem às ameaças, é, para mim, mais interessante do que as ameaças em si.

P: E quanto ao filme baseado no livro? Brad Pitt está no elenco? Marc Forster está confirmado na direção? Quando estreia?

MB: O que eu posso te dizer é que Brad Pitt concordou em estrelar o filme, e que está previsto para estrear em 2012. É tudo o que sei até agora. Mantenho meus dedos cruzados.

P: Seu livro anterior, O guia de sobrevivência a zumbis (2006, Rocco), é mais uma peça no mosaico de Guerra Mundial Z?

MB: O Guia de sobrevivência a zumbis é, literalmente, um livro sobre como enfrentar zumbis. Ele te diz o que fazer no caso de uma epidemia; aonde ir, o que levar na mochila, que armas deve-se usar. É tudo o que você precisa saber. Espero que seja de alguma serventia, caso os zumbis ataquem algum dia.

P: O Internet Movie Database lista todos os seus três livros como "em desenvolvimento". Todos eles serão adaptados?

MB: Boa pergunta. Acho que a Paramount Pictures está focada em Guerra Mundial Z. Se / quando esse filme ficar pronto, eles devem começar a olhar para os outros livros.

P: O que você acha de The Walking Dead (Os Mortos-Vivos, publicada pela HQManiacs Editora), de Robert Kirkman? Já pensou em trabalhar, quem sabe, roteirizando a série de TV que está sendo lançada pelo canal AMC?

MB: Eu amo The Walking Dead e acho que será um enorme sucesso no AMC. É uma excelente série em quadrinhos e com Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, 1994) na direção, como pode dar errado? O cara é um gênio!

P: Vi no seu site pessoal que você escreveu uma minissérie em quadrinhos dos personagens GI Joe (os antigos Comandos em Ação, no Brasil), para a editora IDW, com desenhos do grande Howard Chaykin (Black Kiss, O Sombra). Como foi trabalhar com ele?

MB: Nunca o encontrei. Todo o nosso trabalho em conjunto foi através de um editor. Mas eu AMO o seu trabalho. Ele e Antonio Fuso são as verdadeiras estrelas de GI Joe: Hearts and Minds. É como eu me sinto quanto a escrever quadrinhos. É uma forma visual de arte. Meu último livro de zumbis foi Recorded Attacks (Registros de ataques), uma adaptação visual do Guia de sobrevivência a zumbis. Foi desenhado por Ibraim Robertson, o qual, eu acho, é a verdadeira estrela deste projeto, e não eu.

P: Qual o seu filme de zumbi do George Romero favorito? Por que? E sem ser dele?

MB: Meu filme de zumbi do George Romero favorito é Amanhecer dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978). É um filme incrível, e diz tanto sobre os Estados Unidos nos anos 1970. Já meu filme de zumbi não-Romero favorito é Wild Zero (2000, inédito no Brasil), uma película japonesa com aliens, rock 'n' roll, travestis e, é claro, zumbis! Todos os fãs de zumbis deveriam correr para alugar Wild Zero agora mesmo!


GUERRA MUNDIAL Z: TRECHOS

“Aquelas bichas instruídas demais. Sabe quem as ouvia? Ninguém! Quem se importava com a minoria de mídia alternativa sem contato com a corrente dominante? Quanto mais os intelectuais gritavam ‘os mortos estão andando‘, mais os americanos da vida real davam as costas a eles“.

Grover Carlson, personagem do livro A Guerra Mundial Z, de Max Brooks

“Havia milhões de almas infelizes espalhadas pelo planeta, todas gritando em seus transmissores de rádio, enquanto os mortos-vivos passavam por suas defesas. (...) Mesmo que você não entendesse a língua, não havia como confundir o tom de angústia humana“.

Barati Palshigar, personagem do livro Guerra Mundial Z, de Max Brooks.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

fuck yeah - gostosa que se acha gorda

pára com isso, mulher ...

http://gostosa.tumblr.com/



















True Blood, recomendo

Se você nunca assistiu essa série, não pense que tem algo a ver com "Crepusculo". Até porque é do mesmo cara que criou a também excelente (e "cult") "A Sete palmos", que eu também recomendo imensamente. Abaixo, trecho da matéria de capa da Rolling Stone norte-americana sobre a série, publicada na íntegra na edição deste mês da edição brasileira.

As Alegrias do Sexo Vampiresco - Os segredos do sucesso da série True Blood, que vem conseguindo injetar sangue na desgastada fórmula dos vampiros sensuais.

Há alguns anos, Anna Paquin não estava feliz. Ela viajava muito a trabalho, quase como uma cigana, e estava cansada de sempre ser chamada para interpretar a garota inteligente e articulada em filmes independentes. "Estava procurando algo diferente, um desafio", ela conta. "Tinha feito muitos papéis estranhos e [de personagens] torturados, queria tentar uma coisa nova." Por isso, agarrou a chance de interpretar Sookie Stackhouse, a garçonete caipira e telepata de True Blood, a série vampiresca da HBO - agora altamente bem sucedida, com mais de 12 milhões de telespectadores por semana nos Estados Unidos (em uma rede de TV paga!). "A Sookie é doce, boa e pode te arrebentar usando salto alto e vestido", diz a atriz de 28 anos. "Não é assim que as pessoas me viam." Ela ri um pouco, com a voz cheia de sarcasmo. "Sabe, a garota de cabelo escuro deve ser séria", afirma. É engraçado ver Anna, uma ativista de esquerda com uma rica inteligência emocional, dar uns amasses em um vampiro em True Blood, o que não deixa de ser uma empreitada imensamente tosca. Afinal, ela também é vencedora do Oscar - uma das atrizes mais jovens a ganhar esse prêmio - por seu papel em O Piano, de 1993, aos 11 anos. Antes disso, era uma garota que tocava violoncelo em uma cidade pequena da Nova Zelândia, com pais que insistiam em aulas de música erudita para os três filhos na esperança de que eles formassem um trio de câmara ("Éramos aquele tipo de família", conta) e, depois do sucesso do filme, ela voltou para a escola. "Comecei a trabalhar um pouco, até a atuação virar algo que eu estava procurando conscientemente, não u ma coisa que meus p ais me deixavam fazer para me divertir um pouco", diz.

Depois de estrelar em X-Men como Vampira, Paquin frequentou a Universidade de Columbia por um ano e morou em Nova York, onde quer ser "enterrada", conta, de tanto que ama a cidade. Estava preocupada por se mudar de volta para Los Angeles, onde nunca se sentiu confortável, porque é "no fundo uma garota gótica de 14 anos", afirma. "Eu era skatista - não era ótima, mas era boa em ficar com cara de tédio enquanto os meninos andavam de skate." Ela ainda escuta Metallica e Nirvana no fone de ouvido enquanto malha, e mal disfarça sua irritação com quem possa tentar obrigá-la a fazer algo que ela não queira - como o dentista, com quem se consultou na adolescência, que sugeriu que ela fechasse o diastema, espaço entre os dentes. "Enquanto ele colocava o dedo na minha boca e dizia que poderia consertar aquilo, eu pensava 'ok, e eu podia morder seu dedo agora mesmo'", conta.

Hoje, True Blood não só tornou Anna uma estrela maior do que ela era na época de O Piano, mas ela também conheceu o marido, Stephen Moyer, no set. Ele faz seu par amoroso vampiresco, Bill Compton, veterano da Guerra Civil norte-americana com quem Sookie perde a virgindade. Essa não é a grande única mudança de sua vida: há alguns meses, Anna Paquin causou polêmica quando decidiu se assumir bissexual, algo que afirma "não ser novidade" para ela, mas que sempre escondeu em Hollywood. Foi convidada para fazer um anúncio de utilidade pública pró-gays, no qual celebridades aparecem explicando por que apoiavam os direitos gays, e pensou: "Por que não?" Contaria a todos quem realmente era.

"Não sei qual foi a reação, mas que bom que fiz isso", diz. "Há um impulso tão grande de transformar isso em algo sensacionalista, quando na verdade eu esperava dizer que é normal e nada interessante." Sorri. "Eu me sinto muito sortuda agora. A vida está ótima." Aí está: a liberação pode vir em vários disfarces, e às vezes até via uma série de TV novelesca e trash sobre vampiros.

O mito moderno sobre vampiros foi criado em 1816, quando alguns amigos, entre eles Lord Byron, seu médico John Polidori e Mary Shelley, foram a uma vila no lago Genebra para o verão. Chovia muito e havia nuvens de cinzas devido a erupções vulcânicas, então eles decidiram ficar em casa e se divertir lendo histórias de fantasmas uns para os outros. Isso não era suficientemente assustador, então Byron os desafiou a criar suas próprias histórias. Shelley, que tinha apenas 18 anos, sonhou com a ideia de Frankenstein. Polidori inventou uma história chamada "O Vampiro", que reformulava o mito antigo de vampiros, que até então eram cadáveres fedorentos, com lábios inchados e unhas em forma de garras. A partir daí, se tornaram um novo ícone do sexo - p arte predadores, parte sedutores românticos.

Não é de surpreender que, quase 200 anos depois, os puritanos norte-americanos transformassem essa figura complexa em um maricas insosso como Edward, o personagem de Robert Pattinson em Crepúsculo, a imagem dominante do vampiro nos últimos cinco anos. A saga Crepúsculo é essencialmente uma alegoria sobre castidade, uma espécie de fantasia pré-adolescente sobre manter os homens em um estado de agonia perpétua. O subtexto de Crepúsculo é claro: se Edward transar com Bella, ela poderá ser arruinada para sempre, então os dois simplesmente correm por aí, nunca consumando seu amor. Um escritor afirma que as histórias de vampiros para garotas de Crepúsculo são "o equivalente ao pornô lésbico para homens: ambos criam uma atmosfera de abandono sexual que não é ameaçadora". Stephen King é mais claro sobre o apelo dos vampiros para os jovens, tanto garotos quanto garotas: "A impotência nunca é uma ameaça, pois os anseios sexuais dos vampiros são completamente orais", já alegou. "Eles são especialmente interessantes para adolescentes inseguros sexualmente."

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PLÍNIO NEWS


O candidato à presidência do Psol, Plínio de Arruda Sampaio, afirmou, em entrevista concedida ao Jornal do SBT, nesta terça-feira (7), que é "perfeitamente possível" ser, ao mesmo tempo, católico e marxista. "Eu sou católico e sou marxista, porque o marxismo me explica as coisas da Terra, mas não explica todas as coisas que acontecem. Aliás, o marxismo tem que mudar. Tem que entender que é possível uma explicação além do que ele explica", disse o candidato.
Plínio voltou a defender o que chama de uma "reforma radical do capitalismo". Ele diz que pretende implantar, caso eleito, uma reforma agrária radical, a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, reforma urbana, educação e saúde públicas. "Não estou propondo que se termine com a propriedade privada e com a livre iniciativa. Estou propondo uma reforma radical do capitalismo".
O socialista voltou a defender a limitação da propriedade de terra a 500 alqueires. Questionado se tal reforma não provocaria um derramamento de sangue, Plínio afirma que não necessariamente haveria uma luta armada. "Não necessariamente teria derramamento de sangue. Quando as forças não são parelhas, tudo se faz e se resolve na paz. Se o candidato do Psol chegar à presidência, é porque a correlação de forças mudou de uma tal maneira, que, realmente, o povo acordou para necessidade de terminar com isso", disse.

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A propaganda eleitoral gratuita do candidato à presidência pelo Psol, Plínio de Arruda Sampaio, veiculada na noite desta terça-feira (7), contou com um depoimento do caseiro Francenildo Santos Costa. Ele teve seu sigilo bancário violado em 2006 quando acusou o ministro da Fazenda na época, Antonio Palocci, de frequentar uma casa em Brasília acompanhado de lobistas, o que rendeu a destituição de Palocci do cargo.
Na peça do partido, Francenildo critica a comparação que o candidato à presidência tucano, José Serra, vem fazendo do seu caso com as recentes violações de sigilo de pessoas ligadas ao PSDB, inclusive da filha do candidato, Verônica Serra. "Pra mim ele está sendo oportunista. Acho errado, porque ele está usando minha honestidade", afirma o caseiro no depoimento.
Em seguida, o candidato do Psol aparece em defesa de Francenildo. "Quantos Francenildos estão hoje pelo Brasil afora com seus sigilos violados, seus direitos desrespeitados? Isso acontece quando a política vira um vale-tudo, sem ideologias, sem moralidade. O pior é que isso desvia o debate eleitoral dos grandes problemas", diz.
Francenildo, que é filiado ao Psol, pede votos ao partido e diz que este é o único que esteve sempre ao seu lado. Segundo reportagem publicada nesta segunda-feira (6) na Folha de S. Paulo, a cúpula tucana convidou o caseiro para participar da propaganda eleitoral de Serra, mas ele teria declinado.

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O candidato à presidência da República, Plínio de Arruda Sampaio (Psol), não quis comentar as acusações que seu adversário, José Serra (PSDB), fez ao PT e à candidata Dilma Rousseff (PT) sobre a relação que haveria entre eles e as violações de sigilos na Receita, mas lamentou a diminuição da discussão de propostas por conta do escândalo. "Não tenho nenhuma informação sobre isso. Apenas lamento que quando a política vira um 'vale tudo' prejudica o debate político, o que interessa é a educação, a saúde", disse neste sábado (4), durante corpo a corpo no centro de Campinas, no interior de São Paulo.
Questionado se um dos motivos que levou sua saída do PT está relacionado com algum caso de corrupção que tenha conhecimento, Plínio negou que soubesse de qualquer ato ilícito e apontou a questão ideológica como motivo. O candidato, entretanto, não deixou de criticar seu antigo partido, ao dizer que a moral estava corrompida. "Eu sai do PT porque o PT se desviou ideologicamente e eu até calculava: se desviou ideologicamente, a moral vem em seguida, como veio".
Durante a caminhada pelas ruas do centro da cidade, Plínio parava para cumprimentar eleitores e pedir voto. O candidato ao governo de São Paulo, Paulo Búfalo, não pode aguardar a chegada de Plínio e pediu à militância presente que caminhasse junto com o presidenciável, fazendo campanha e "remando contra a maré".
Debate e Pesquisa - Plínio disse estar preparado e confiante para os próximos debates. Segundo o socialista é o momento que tem para discutir propostas sem máscaras. "Estou confiando muito porque o debate é a hora da verdade. É a hora que o candidato não tem nenhum marqueteiro para maquiar a cara dele. Ele tem que falar o que é e o que não é. E nessa hora nós vamos obrigá-los a dizer de fato que interesse eles defendem nesta eleição", afirmou.
Questionado se pretendia roubar a cena no debate da próxima quarta-feira (8), promovido pela TV Gazeta/Estadão , ele negou que costuma fazer isso. "Eu não tomo a cena. Eu digo o que acho o que deve ser dito. Como o que eu digo é muito diferente do que os outros dizem, então parece um jogo cênico, mas não tem nada de cênico", declarou.
Na última pesquisa Ibope, publicada neste sábado, Plínio continua não pontuando, mas acredita que fazendo campanha nas ruas e participando de todos os debates pode surpreender. "Pesquisa é um negócio que está sempre correto quando a gente está por cima, e sempre errada quando está por baixo. Eu, se fosse técnico de futebol, já estava fora, porque eu não consigo pontuar. Mas eu vou pontuar no fim", disse.
Dilma - A ausência da candidata Dilma Rousseff (PT) no debate da próxima quarta foi motivo de crítica de Plínio. Segundo o socialista, trata-se da "arrogância de quem acha que ganhou" as eleições. E criticou a petista: "o comparecimento ao debate devia ser obrigação do candidato porque o povo tem o direito de saber o que ele pensa. Não pode ficar só naquilo que é maquiado pela sua propaganda".

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Plínio foca sua campanha na internet. Com pouco tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV, o candidato do Psol aposta no espaço virtual para conquistar mais eleitores. Após o primeiro debate entre presidenciáveis transmitido pela Band, dia 5 de agosto, o socialista conquistou mais de 2 mil seguidores em seu Twitter.
Sem ser convidado para o debate transmitido na internet e promovido pela Folha-UOL, na última quarta-feira (18), o candidato movimentou o Twitter e chegou a primeira posição do treding topics (tópicos mais citados no miniblog) brasileiro e oitavo mundial. Plínio convidou os eleitores para um "twitaço" e fez comentário durante todo o debate.

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O candidato à presidência da República pelo Psol, Plínio de Arruda Sampaio, reafirmou a defesa da estatização da saúde privada no Brasil. Para ele, os serviços só vão melhorar quando forem os mesmos para toda a população. Vão melhorar "na hora que o Antônio Ermírio de Morais, o Eike Batista, o Safra, esses ricaços, tiverem de sentar em uma enfermaria com seis leitos", disse, citando grandes empresários do País.
A declaração foi dada durante entrevista à TV Brasil, que vai ao ar nesta quarta-feira. Confrontado com o fato de que isso só ocorreria se ele mandasse fechar os grandes hospitais privados do País, o candidato foi categórico: "Vira tudo estatal. Tudo".
O candidato também foi questionado sobre sua posição a respeito da legalização do aborto. "Como cristão, sou contra o aborto. Admito que na concepção você tem uma vida que é sagrada. Agora eu, eventual presidente da República, governarei para uma sociedade que não tem a mesma fé e para quem a vida não começa exatamente da maneira como os cristãos admitem. Não posso impor a minha fé a quem não tem fé".
Plínio Sampaio também defendeu uma reforma urbana baseada em desapropriações e combate à especulação imobiliária. "Ninguém pode segurar um terreno ou uma casa para esperar a valorização".
O candidato admitiu, contudo, que a ruptura ao sistema capitalista que é a base da sua proposta não será imediata. "Não existe condições objetivas e subjetivas para uma ruptura imediata. O programa do Psol é de dar soluções efetivas, não paliativas. O programa supõe que vai existir propriedade privada, livre iniciativa, apenas ela será radicalmente controlada".
Plínio Sampaio considera que seu partido apresenta uma "tentativa de reconstruir uma esperança que foi enorme e que naufragou". E faz críticas ao atual governo. "O povo brasileiro acreditou no PT, no Lula, no socialismo e que o Partido dos Trabalhadores era um partido socialista, um partido da transformação social, revolucionário. Mas chegando ao governo, o partido adota a mesma postura dos governos anteriores".
Para ele, "era necessário estar presente com esta proposta, de transformação da sociedade brasileira. Fui encarregado pela militância de base do partido para expressar esse sentimento, desejo, essa ânsia na eleição".
O candidato também falou que ele mesmo escreve suas mensagens no Twitter e comemorou o contato com os jovens e o que considera uma pressão bem sucedida para que fosse entrevistado pela Rede Globo.
"O que mais encanta nessa campanha é que a garotada foi com a minha cara. Toda a molecada está animadíssima. Eu tuito pessoalmente, respondo as perguntas deles. A razão maior pela qual a Globo me convidou... eu estava com processo no tribunal, mas ela não teve medo do tribunal, teve mais medo dos tuitadores que começaram a descer o pau".

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QUEM É PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO



Candidato: Plínio de Arruda Sampaio (Psol)

Nascimento: 26 de julho de 1930, em São Paulo (SP)

Estado Civil: Casado

Formação: Formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com mestrado em Desenvolvimento Econômico Internacional pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Atuou como promotor público e deputado federal. Exilado no Chile, trabalhou na FAO, braço da ONU que cuida de agricultura e alimentação, sendo diretor do organismo por 10 anos. Foi professor da Fundação Getúlio Vargas, fundou o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Atualmente, preside a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA).

Histórico de filiações partidárias: PDC, MDB, PT e Psol.

Cargos relevantes: Coordenador do Plano de Ação do governo de São Paulo (1959-1962). Secretário de Negócios Jurídicos do governo de São Paulo (1961). Secretário do Interior e Justiça da prefeitura de São Paulo (1961-1962). Deputado Federal (1962 - 1964. PDC-SP). Deputado Federal (1986 - 1989. PT-SP).

Domicílio eleitoral: São Paulo

Plínio de Arruda Sampaio em resumo: quem é o candidato do Psol à presidência?

"Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer barba, há outro que me obriga a ser comunista". A frase do escritor português José Saramago, morto em junho deste ano, cai como uma luva para explicar a personalidade de Plínio de Arruda Sampaio. Seu nome foi ventilado como possível candidato à presidência pela primeira vez durante o II Congresso do Psol, em 2009, como parte da construção de um programa que o partido espera que enfrente os efeitos da crise econômica, buscando a unidade da esquerda. É a segunda eleição que Plínio disputa pelo Psol, partido no qual ingressou em 2005. Ele tentou, sem sucesso, se eleger governador de São Paulo no pleito de 2006.

Para o deputado federal Ivan Valente, companheiro de partido, "as candidaturas que aí estão têm essencialmente a mesma proposta sobre política econômica. Já a candidatura de Plínio materializa uma experiência, um projeto político mais avançado. Ele só precisa furar o bloqueio que há contra ele".

Sempre ligado à Igreja Católica, Plínio começou a militar na Juventude Universitária Católica. Depois, passou para a Ação Popular, uma organização de esquerda que surgiu a partir de movimentos de dentro da Ação Católica Brasileira. Nessa época, conheceu sua mulher, Marieta, com quem está casado há 55 anos e tem seis filhos. "Quando nos conhecemos, éramos estudantes. Ele de Direito e eu no colegial. Estávamos na colônia de férias da Juventude Católica e reconhecemos um no outro uma série de identidades que facilitou nosso namoro", disse Marieta.

Após se formar na faculdade do Largo São Francisco, Plínio atuou como promotor público. Elegeu-se deputado federal em 1962 pelo Partido Democrata Cristão e tornou-se membro das comissões de Economia, Política Agrícola e Legislação Social do Congresso. Foi escolhido para ser relator do projeto de reforma agrária que integrava as reformas de base do governo João Goulart. O modelo que ele propôs irritou sobremaneira os latifundiários e políticos mais conservadores.

Quando os militares deram o golpe, em 1964, Plínio foi um dos primeiros brasileiros com direitos políticos cassados pelo Ato Institucional n°1. "Vivemos um período de tensão. Ele foi demitido do Ministério Público pelo Adhemar de Barros (então governador de São Paulo). Foi uma demissão política. Não sabíamos no que daria aquilo. Ele não tinha condição de trabalhar, então, se exilou no Chile. Plínio foi antes para arrumar um emprego, depois fomos com o resto da família. Fomos muito bem recebidos no Chile pelo presidente Eduardo Frei Montalva, que era do Partido Cristão e fez questão de ser solidário, especialmente com o Plínio e o Paulo de Tarso, que eram ligados aos cristãos aqui. Na época, esse partido era outra coisa, bem diferente desse do Eymael", afirmou Marieta.

A casa da dona Marieta
No Chile, Plínio trabalhou no organismo agrícola da ONU (FAO), sendo transferido em 1970 para os Estados Unidos, onde desenvolveu projetos para a entidade em todos os países da América Latina. Durante todo o tempo em que esteve exilado, Plínio nunca perdeu contato com os militantes brasileiros, recebendo muitos deles que chegavam também fugidos da ditadura. Dentre os hóspedes que ficaram por lá estavam Márcio Moreira Alves e Paulo Francis.

Em sua casa, aconteciam reuniões constantes para discutir os principais problemas que a esquerda enfrentava dentro da conjuntura política da época. Sua intensa atividade política não o permitiu estar sempre presente na vida familiar. Marieta conta que foi ela quem segurou a barra de cuidar da casa e dos filhos, mas faz questão de frisar que sempre pôde contar com o marido.

Com a família de volta ao Brasil, ele ingressou na luta pelo fim do regime militar e pela anistia política. Idealizou um novo partido, que se posicionaria à esquerda do MDB (legenda que abrigava os opositores do regime militar). Participou da campanha de Fernando Henrique Cardoso ao Senado, em 1978, com o acordo de que, se este recebesse mais de um milhão de votos, fundariam a nova sigla. FHC desistiu do acordo após ter sido eleito, o que fez com que Plínio rompesse com o partido.

A criação e a saída do PT
"Na época que antecedeu a criação do PT, nossa vida foi uma dureza danada. Ele estava sem emprego, mas ia de casa em casa, junto com os demais militantes, coletando assinaturas e explicando para as pessoas do que se tratava aquele novo partido e da necessidade de fundá-lo", conta a esposa. Plínio foi o autor do estatuto do PT e um dos idealizadores de seus famosos núcleos de base.

"Eu o conheço da época da fundação do PT. Em 1985, tivemos o primeiro teste eleitoral. Tinha a candidatura dele, do José Genoíno e do Eduardo Suplicy. Por incrível que pareça, apoiávamos o Genoíno. O Plínio era o mais à direita dos três. Ele fez parte do grupo majoritário do partido até sair candidato a governador em 1989", lembra o deputado Ivan Valente.

Em 1986, Plínio se elegeu deputado federal constituinte e ganhou destaque com sua proposta de reforma agrária que pretendia acabar com os latifúndios. Foi líder do partido no Congresso e continuou militando internamente no PT. Disputou as prévias para a prefeitura de São Paulo, em 1989, sendo derrotado por Luiza Erundina. Em 1990, ainda tentou se eleger governador de São Paulo, mas foi derrotado.

"Já antes da posse do Lula, tínhamos uma visão crítica do que seria o governo. E nos três anos em que ainda estivemos no PT, lideramos um grupo grande que era contrário ao pragmatismo e ao rebaixamento programático colocados. No desenlace da saída do PT, disputamos a presidência do partido pela última vez. Fizemos uma dobradinha e depois saímos juntos do PT", conta Valente.

Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, tem uma visão diferente da história. "Foi um erro político imperdoável. Em 2005, a esquerda ganhou o primeiro turno na disputa pela presidência nacional do PT. Perdemos o segundo turno, entre outros motivos, porque ele saiu do partido. Além disso, as críticas que ele faz são fora de hora. O PT de hoje é, em parte, produto das políticas que Plínio defendeu nos anos 1980 e mesmo antes da criação do PT. Ele passou de moderado a esquerdista, sem conseguir parar no lugar certo".

O Psol e a atual candidatura
Saindo do PT, Plínio logo se filiou ao Psol. Defensor do socialismo, entra em divergência com as maiores correntes do partido e com sua direção majoritária, acusando-os de repetir os erros do PT. "Ele é uma pessoa versátil e experiente. Tem todas as condições de fazer uma grande campanha e um grande governo", diz Ivan Valente.

Para Pomar, o Psol é um projeto fracassado, "principalmente pelo erro cometido por Heloísa Helena em 2005-2006, quando se aliou objetivamente à direita 'demotucana' contra o PT. A avaliação que ele faz sobre o papel histórico do governo Lula é equivocada. O Psol reproduz, de forma piorada e udenista, o erro que o Partido Comunista cometeu frente ao governo Vargas, pouco antes do suicídio". Apesar das críticas, Pomar considera a candidatura de Plínio uma opção melhor do que se fosse Heloísa Helena quem disputasse novamente as eleições.

Plínio tenta, aos 79 anos, ser o primeiro presidente socialista do Brasil. Em sua jornada, conta com apoio de diversos intelectuais, como Francisco de Oliveira e Paulo Arantes. Mas é à noite, antes de se deitar, que ele debate suas ideias com a pessoa que mais lhe importa e que o ajuda nas tomadas de decisão - inclusive na de se lançar numa corrida eleitoral. "Hoje em dia, ele me pede mais conselhos do que antes. Eu ficava muito aborrecida, porque gosto de política. Quando ele era mais imaturo, convencido, ele me consultava muito menos. Mas, em geral, eu participo direto das decisões", finaliza Marieta.

fonte: TERRA

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Feliz 7 de setembro


Dica de Leitura: "1822", de Laurentino Gomes. Após 1808, em que mergulha na chegada da família real ao Brasil, escritor e jornalista analisa a Independência nacional.

por Pedro Alexandre Sanches

Fonte: IG

Não é todo dia que um livro vende 600 mil exemplares no Brasil. A façanha foi alcançada por 1808, lançado em 2007, e este é o momento da expectativa pelo que acontecerá com o segundo livro de seu autor, o jornalista Laurentino Gomes, de 56 anos, nascido em Maringá (PR) e radicado paulista.

Se na primeira aventura literária ele mergulhava na história da vinda da corte portuguesa para o Brasil (no ano que dá título ao livro), no novo 1822 Laurentino estuda o processo que levou à declaração de independência, sob o protagonismo de Dom Pedro I, príncipe nascido em Portugal e futuro imperador do novo país.

Em palavras mais diretas: não foi um livro qualquer que convenceu 600 mil leitores a comprá-lo, e sim um livro de história do Brasil, sobre a corte portuguesa de Dom João VI, sobre temas que o senso comum considera chato, maçante, desinteressante. O autor tenta decifrar o fenômeno: “As pessoas não estão lendo história do Brasil apenas em busca de personagens pitorescos. Não, elas estão em busca de explicações para o Brasil de hoje”.

O que essas pessoas encontram em 1808 (e encontrarão em 1822) é um tratamento algo divergente daqueles a que nos acostumamos, excessivamente oficialesco nos livros escolares, e incomodamente jocoso em trabalhos de ficção como o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, ou a série global O Quinto dos Infernos (2002).

Ele não evita aspectos ridículos ou constrangedores contidos nos episódios históricos, mas tampouco teme enaltecer feitos relevantes de personalidades como Dom João VI, Dom Pedro I, Imperatriz Leopoldina ou José Bonifácio de Andrada e Silva. Empenha-se em despir seu país do que chama de “síndrome de viralatismo” e em construir um retrato nem só heroico, nem só vexatório. Oferece a seus leitores, assim, um Brasil menos maniqueísta que contraditório, mais próximo da vida cotidiana que da história abstrata. E se torna fenômeno pop num país que, de acordo com os clichês mais desgastados, não gosta nem um pouco de ler.

Laurentino, o autor, vive e trabalha na ampla e confortável casa instalada num condomínio fechado em Itu, chamado Vila Real – o nome condiz com sua antipatia por certa elite que não se reconhece no Brasil, batiza seus edifícios de Maison Versailles e assim se acredita francesa. Ali, recebeu a reportagem do iG para uma entrevista em que falou sobre os pais agricultores “semianalfabetos”, sobre os mais de 30 anos de militância no jornalismo, sobre rivalidades entre jornalistas e historiadores. E, claro, sobre a história de um país que, como ele indica no longo subtítulo de 1822, “tinha tudo para dar errado… e no entanto deu certo”.

Pode contar sobre sua história anterior à fase de escritor?
Sou filho de agricultores da região de Maringá (PR). Meu pai era de família mineira, e a minha mãe, de família italiana. Essas duas famílias entraram no norte do Paraná quando essa região estava sendo desbravada pela Companhia Melhoramentos, de capital inglês. Nasci em Maringá, a cidade só tinha nove anos. Era uma família muito pobre, de pequenos agricultores, então morei na roça durante os primeiros dez anos, em Água Boa, uma cidadezinha a 20 quilômetros de Maringá. Era uma vida muito isolada, só o trem chegava lá uma vez por dia, não tinha jornal, televisão, rádio era novidade. Aos 10 anos, cumpri a tradição da minha família mineira: o filho mais velho tinha que ser padre. E lá fui eu para o seminário (risos). Vim para São Paulo, fiquei dois anos e meio num seminário interno dos Paulinos, que têm as Edições Paulinas. Realmente não era minha vocação, saí e voltei.

A família permitiu?
Sim, fui em 1966 e voltei em 1969. Meus pais eram semianalfabetos, minha mãe tinha primeiro ano primário e meu pai tinha quinto ano só, mas eles valorizaram muito a educação e a leitura. Queriam que os filhos fizessem faculdade, e por isso foram morar em Maringá. Lá fiz um pouco de tudo. Fui jardineiro, empacotador de supermercado, office-boy, cartorário, mecânico. Fiz curso de tornearia, eu e o Lula somos torneiros mecânicos (ri), a diferença é que tenho todos os dedos, e ele, não. E ele é presidente da república e eu sou um mero escritor. Em 1976 fui para Curitiba fazer jornalismo na Universidade Federal do Paraná. Aí começa a grande aventura da minha vida, que é o jornalismo. Foi realmente espetacular quando entrei numa redação pela primeira vez, num jornal que não existe mais, Correio de Notícias, como repórter de política. E era tão bom ser jornalista que achei que ganhar salário era exagero, não precisava (ri).

Mas ganhava um salário?
Ganhava, ganhava. Não era um grande salário, mas ganhava. Aí ocorreu uma grande transformação na minha vida. Quando era criança e jovem, eu era muito tímido. Quando chegava gente em casa, eu corria pra me esconder atrás da porta. Era um garoto de roça, de sítio, né? E no jornalismo não há espaço para timidez, você tem que entrevistar gente, fazer reportagem.

O menino tímido que vai fazer jornalismo está procurando se livrar da timidez?
Sim, está procurando confusão (ri). Trabalhei no Estado do Paraná, aí entrei na sucursal de Curitiba do Estado de São Paulo. Em 1984, entrei na editora Abril, fui trabalhar na Veja. Ali fiz um tour pelo Brasil, saí de Curitiba, fui trabalhar em Belém, cobrindo toda a região amazônica. Eu era um repórter cobrindo 57% do território brasileiro (risos). Foi uma grande aventura, era um período importantíssimo. Serra Pelada estava no auge, eu estava lá na época daquele formigueiro humano do Sebastião Salgado. Carajás estava sendo inaugurado. Chico Mendes estava em atividade no Acre. Rondônia tinha acabado de ser criada como estado. Em 1985, durante um ano, entrou 1 milhão de gaúchos, paranaenses e catarinenses em Rondônia. Depois fui para o Recife, cobri a eleição do Miguel Arraes. Aí fui para Brasília, sempre pela Veja, era a época da Constituinte. E finalmente cheguei a São Paulo, que é a cidade onde morei durante 20 anos. Tive quatro filhos, e eles foram nascendo país afora: dois em Curitiba, um em Belém e um em São Paulo. Em 1988 fui para o Estadão, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, como editor de política e geral. Em 1990 voltei para a Abril, para fazer as Vejinhas regionais, fiquei até 2001. Aí fui dirigir revista feminina, Cláudia, Elle, Nova, Manequim, Capricho, depois revistas populares, revistas masculinas, decoração e arquitetura. Fiz pós-graduação em administração na USP, para aprender a administrar empresa de comunicação.

Já pensava em se tornar autônomo?
Na verdade fui cuidar de uma unidade de negócios da Abril. Cuidava de circulação, marketing, publicidade. E então fui colhido pelo fenômeno 1808. Era um projeto que estava na minha gaveta, eu tinha começado a pesquisar o assunto em 1997, quando era editor-executivo da Veja, que tinha cancelado um projeto (de lançar especiais sobre história do Brasil que seriam distribuídos com a revista), como contei na abertura do livro. Chegou um momento que fiquei com muita preguiça de escrever o livro, quase que não escrevi 1808, mas quase mesmo. Mas estava chegando a comemoração dos 200 anos da corte portuguesa no Brasil, e eu criei coragem, terminei a pesquisa e publiquei o livro. E de repente esse livro começa a vender muito mais do que eu imaginava, muito. Não tinha nem a remota expectativa. Meu plano era vender 20 mil livros, mas planejei para mim mesmo, não contei para ninguém. Aliás, um amigo meu, quando soube que eu ia fazer um livro sobre Dom João VI, disse: “Ô, Laurentino, muda de assunto, ninguém quer ler sobre Dom João VI e história do Brasil”.

O que você pensava sobre isso?
Eu achava que ele tinha razão, Dom João VI não era assunto de best-seller. Tinha que ser livro de esoterismo, autoajuda. Mas ao mesmo tempo eu tinha confiança de ter feito uma reportagem bem-feita. Pesquisei ao longo de dez anos, li mais de cem livros. Trabalhei em jornal e revista por mais de 30 anos, então sabia o que é uma reportagem bem-feita e o que não é. E tinha ali um livro-reportagem no qual aplicava tudo que tinha aprendido como jornalista. Às vezes vejo pessoas fazerem mudanças muito bruscas de carreira, acho que nunca você tem que deixar totalmente para trás o que aprendeu antes. É diferente de ser jornalista e ir tocar uma pousada em Porto Seguro ou fabricar sabão, salsicha. Não, eu mudei de formato, mas o que sempre fiz é jornalismo, continuo fazendo em livro. Acho que tem no 1808 uma lição preciosa para nós, jornalistas: quando o leitor reconhece o jornalismo como uma coisa valiosa, que mexe na vida dele, a reação é poderosa. Foi o que aconteceu, o livro ganhou Prêmio Jabuti, prêmio da Academia Brasileira de Letras. E eu fui confrontado com uma decisão inadiável: ou eu ficava na minha carreira de executivo na Abril e abandonava o livro, ou largava tudo que tinha feito até então e ia cuidar do livro. E foi o que eu fiz. Um autor precisa trabalhar pelo seu livro, botar o pé na estrada, ir atrás dos leitores, ajudar a vender.

Quanto 1808 tinha vendido quando decidiu sair?
Já tinha vendido 200 mil exemplares, então não foi um salto no escuro. Vi como estava a curva de venda, calculei quanto faltava para pagar de escola até os filhos se formarem na faculdade. A casa já estava paga. É uma decisão que aos 22, 23 anos provavelmente eu não tomaria. Mas aos 52, já tendo feito uma carreira e o livro vendendo nesse ritmo, achei que dava para ir em frente. E, olha, foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Desde então, tenho levado uma vida maravilhosa, viajando pelo Brasil, fora do Brasil, dando aula, dando palestra, tendo contato com os leitores, atualizando Twitter, Facebook e site na internet, pesquisando.

Livre das redações…
É, tem essa novidade. Agora, toda vez que entro numa reunião, sei exatamente por que estou nela. Antes nem sempre eu sabia (ri), diria que em metade das reuniões de que participava eu estava meio assim... Você tem que ter reunião de tecnologia, recursos humanos, marketing. Agora cuido da minha carreira, e principalmente tenho tempo para pesquisar. Essa é a grande diferença do 1822 para o 1808. Minha impressão é de que este livro está mais redondo. Com um sucesso inesperado, num primeiro momento você se surpreende, perde o sono, mas o que vier é lucro. O segundo livro, não, ele impõe uma responsabilidade muito grande. Como resolvi isso, para não perder o sono definitivamente? Me escudando numa pesquisa muito profunda. Durante três anos, aproveitei as viagens do 1808, pesquisei no Brasil, pesquisei em Portugal, li mais 70 livros além dos cem. Uma diferença em relação ao trabalho de um pesquisador acadêmico convencional é que não faço apenas pesquisa em biblioteca e documentos, eu faço reportagem. Ou seja, eu vou aos locais em que as coisas aconteceram. Embora os eventos tenham ocorrido há 200 anos, esses lugares contêm informações muito preciosas se você tiver um olhar atento ao que está ocorrendo ali. No capítulo sobre o grito do Ipiranga, por exemplo, faço uma descrição detalhada de como se encontra hoje o riacho do Ipiranga. É um riacho morto, não tem mais oxigênio, não tem peixe. A cidade matou o riacho do Ipiranga. É um olhar jornalístico, uma forma diferente de contar a história do Brasil, e de torná-la inclusive mais palatável para o leitor. O 1808 teve uma acolhida muito boa também em Portugal, vendeu 50 mil exemplares, proporcionalmente é como vender 1 milhão no Brasil, impressionante.

Você cita em 1822 como Brasil e Portugal desconhecem a história um do outro – como o Dom Pedro I daqui é totalmente diferente do de lá, por exemplo.
Conto em detalhes o que aconteceu com Dom Pedro depois de ele abdicar do trono brasileiro. Geralmente, os brasileiros acham que ele evaporou no ar, sumiu. E não, ele voltou para Portugal para enfrentar o irmão numa guerra épica entre liberais e absolutistas. Venceu essa guerra, mesmo tendo tudo contra ele – desembarcou na cidade do Porto com 7 mil soldados, e o irmão tinha 80 mil. E virou o jogo, ganhou a guerra, se revelou um general carismático, brilhante, que passava as noites nas trincheiras ao lado dos soldados. Morreu em seguida, porque a guerra contra o irmão destruiu a saúde dele. A autópsia revelou um corpo destruído: tuberculose, sífilis, o coração e o baço inchados, o pulmão sem funcionar. Se você compara as iconografias, o Dom Pedro IV de Portugal não tem nada a ver com o Dom Pedro I do Brasil. Aqui é um rapaz quase imberbe, muito jovem, um príncipe de 23 anos que faz a independência. Lá, não, é um rei envelhecido, com olheiras, a barba comprida. É como se o Dom Pedro de Portugal fosse o pai ou o avô dele. Até na iconografia esses dois países não se reconhecem no mesmo personagem. Ele passou a vida dividido entre os negócios de Portugal e do Brasil, tentando equilibrar esses dois pratos. E depois da morte continua dividido: o coração está guardado na cidade do Porto e os restos mortais, aqui no Ipiranga. É um personagem que passa para a história de uma forma muito pejorativa, como se fosse apenas um mulherengo, boêmio, inconsequente. Ele era, sim, mas não era só isso. É um grande transformador da realidade de Brasil e de Portugal naquele momento, um chefe liberal. Outorgou ao Brasil em 1824 uma das Constituições mais liberais do mundo na época – mas ele outorgou, não deixou a Constituinte fazer. É um homem de índole autoritária e discurso liberal. Admirador de Napoleão, que tinha feito o pai dele fugir de Portugal. Foi parente duas vezes de Napoleão, nos dois casamentos.

Chama atenção nos dois livros o fato de você retratar não só Dom Pedro, mas todos esses personagens de modo respeitoso, sem se deter só no lado pejorativo.
É, vejo que a história às vezes é muito maniqueísta. De um lado é a história oficial, que celebra os heróis nacionais, pessoas impolutas… Amigos historiadores fizeram observações que fiquei chocado: “Mas você vai mesmo dizer que Dom Pedro estava com dor de barriga no grito do Ipiranga?”. Por que não, se ele estava? “Não fica bem, isso é um detalhe secundário, para que dizer isso? Para que dizer que ele tinha tantas amantes, tantos filhos bastardos?” É um jeito de ajeitar a história com a mão. E tem o outro lado, que é um esforço de desqualificação da história. Não é recente, no livro de Paulo Setúbal, As Maluquices do Imperador (de 1927), já tinha esse viés de desqualificar o passado. Com uma pesquisa séria, equilibrada, a constatação é que a história é feita por gente, gente de carne e osso, ponto. Por mais humilde e desconhecido, qualquer ser humano tem uma história espetacular para contar se você jogar luz em cima dele. E os reis também são assim. Dom Pedro tinha amigos desqualificados, fazia negócios escusos, mas é um príncipe que faz a independência do Brasil aos 23 anos, governou o Brasil em meio a uma crise horrorosa, depois foi a Portugal e recuperou o trono que o irmão tinha usurpado. Não é ser leniente com o personagem, relevar seus defeitos e os erros que cometeu, mas também não julgá-lo. Quando dá dimensão humana aos personagens, a história também fica mais assimilável para um público mais leigo, mais amplo, estudante, adolescente, criança.

Existe uma visão muito mais negativa desses personagens do que eles foram de fato? Por quê?
Houve uma ruptura fortíssima no processo político, que é a Proclamação da República. Isso só aconteceu no Brasil. Nos outros países da América, os “pais da pátria” são os mesmos, fizeram a independência e criaram a república. São celebrados até hoje pelo mesmo regime político, que se legitimou desde então. No Brasil, não. Durante 77 anos houve uma monarquia que celebrava seus heróis, e aí vem uma república que rompe com esse modelo. Ela precisa se legitimar, então o que faz? Desqualifica o período anterior. Todos os heróis da monarquia são desqualificados de propósito pela república. Dom João VI vira um bobalhão comedor de franguinhos, Dom Pedro é um sujeito devasso. E aí começa outra construção mitológica, republicana. Acham um sujeito chamado Tiradentes, que passa mais de 100 anos incógnito na história do Brasil, porque tinha sido executado pela monarquia. Na república, começa essa construção do Tiradentes como um herói do espírito nativista, das liberdades civis. É uma construção muito bem-sucedida, porque apela ao imaginário religioso do povo, a associação de Tiradentes e Jesus Cristo. É uma construção muito difícil, porque quando a corte chega a gente tem uma pequena elite ilustrada imperial tentando organizar uma grande geleia geral embaixo, constituída por escravos, analfabetos, pobres, mestiços, índios, mulatos, gente completamente à margem de qualquer oportunidade. Dom João VI cria o Estado brasileiro, e não existe sociedade embaixo. Tinha elite, mas não tinha povo. Nos Estados Unidos é o oposto, lá em 1776 havia uma sociedade alfabetizada, porque eram protestantes, precisavam alfabetizar os escravos, que liam a Bíblia em casa e nos cultos dominicais, com alto senso de participação comunitária. Essa sociedade relativamente organizada cria o Estado norte-americano. São processos inversos. Essa nossa construção nacional de cima para baixo vem até 25 anos atrás, quando, aí sim, pela primeira vez a gente tem democracia e participação de todos. Ela se reflete hoje numa estranheza da sociedade brasileira em relação às instituições nacionais que estão em Brasília. As pessoas dizem “o Congesso é corrupto mesmo”, “vamos votar nulo”, “a Justiça não funciona”. A gente não se reconhece no que está em Brasília, não porque poderia existir lá alguma coisa muito melhor ou pior que a média da sociedade brasileira. O que está lá é um espelho do que nós somos. Mas porque o povo não foi chamado a participar da construção das instituições, então ele não se reconhece. Fica uma ilusão de que se a gente tivesse sido chamado a participar teríamos construído alguma coisa melhor.

Nós teríamos?
Acho que não, dadas as condições que tivemos até agora. Provavelmente no futuro vai ser melhor, sim, porque a gente está distribuindo renda, acabando com o analfabetismo, promovendo as pessoas – o Brasil está melhorando. Mas o Brasil sonhado é melhor que o real, então temos uma crise de autoestima gravíssima. É curioso observar como a elite batiza seus condomínios, Costa Malfitana, Maison Versailles. Você projeta lá fora uma coisa, como se dissesse: “Moro num edifício chamado Maison Versailles, sou francês, não vou me misturar com esse bando de gente pobre e analfabeta aí na rua”. Mas esse espírito de viralatismo do Brasil de hoje se projeta na história também. É como se a nossa história fosse viralata também. Fiz essa volta toda para chegar à sua pergunta: nossos heróis também são viralatas, nossa origem portuguesa é viralata. É como se a colonização portuguesa fosse pior que a média das outras colonizações, o que é besteira, porque colonização é colonização em qualquer lugar do mundo. É exploração, opressão. Então acho que está na hora de fazer uma coisa um pouco mais equilibrada, tanto em relação aos personagens quanto ao próprio Brasil. Observar o passado e ver que não é só problema. Há no passado virtudes, a chamada de capa do 1822 é “como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro I a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado”. Aí você vira para a contracapa: “…e no entanto deu certo”. O país podia ter se inviabilizado na independência, a chance de dar errado era muito maior do que de dar certo.

E é admirável que não tenha se inviabilizado, não?
É uma virtude. Bem ou mal, por uma combinação de sorte, acaso, improvisação, mas também de alguma sabedoria de figuras como José Bonifácio, o país foi se viabilizando na sua forma atual. Isso é um sinal para otimismo – não que a gente deva aceitar o Brasil que está aí, corrupto, desigual, violento, ineficiente. Mas este país conseguiu chegar até aqui resolvendo problemas muito mais graves que os que a gente tem hoje. Quando falo da origem colonial, da opressão, das desigualdades, me perguntam se sou pessimista em relação ao futuro do Brasil, e digo que não, porque a rigor a gente está construindo este país mesmo de 25 anos para cá. Não tem outro jeito de construir um país, é por democracia, participação de todos, é isso aí. Apesar da aparente calmaria e pasmaceira desta campanha eleitoral entre Serra e Dilma, que são pessoas sem nenhum carisma, o Brasil está passando por um momento de reflexão muito grande a respeito de si. É um bom sinal.

Este Brasil que tenta se olhar mais no espelho, se compreender, explicaria o sucesso inesperado do seu primeiro livro?
Ah, eu acho. As pessoas não estão lendo história do Brasil apenas em busca de personagens pitorescos. Não, elas estão em busca de explicações para o Brasil de hoje. Não é achômetro meu, tenho observado isso nas mais de 200 palestras que dei pelo Brasil. Falo de um evento de 200 anos atrás, e quando jogo para a plateia imediatamente a discussão vem para o Brasil de hoje. São perguntas assim: “E a corrupção, de onde vem?”, “a herança portuguesa foi boa ou ruim para o Brasil?”. Não dá para dizer que a culpa da corrupção é de Portugal, é só o que faltava, estamos conduzindo este país há 200 anos e vamos dizer que o culpado é português? Também não é verdade que a origem colonial defina de modo automático o sucesso ou o fracasso de um país. A África do Sul foi colonizada por ingleses e holandeses, deu no país mais racista do mundo. O Haiti, colonizado por franceses, é hoje o país mais pobre do mundo. Congo, colonizado por belgas, está mergulhado em guerra civil, mesma coisa da Etiópia e da Somália, que foram colonizadas por italianos. É essa síndrome do viralatismo que faz com que Portugal pague o pato. Não, são nossas raízes históricas que nos trouxeram até aqui assim.

Quem está lendo 1808? Quem vai ler o segundo?
Acho que todo mundo está lendo. Dei palestra em Ourinhos e estava cheio de estudante, até na calçada, uma coisa linda. Tiram foto no celular, mandam eu fazer bilhetinho naqueles cadernos com abelhinha (risos). Já falei para generais, juízes, empresários, professores. É um livro que conseguiu pegar quase toda a faixa da população que se interessa por leitura. E atingiu inclusive um público que não estava lendo, modestamente também pelo trabalho de divulgação que fiz. Fui a lugares a que autor normalmente não vai: TV evangélica, TV católica, Globo Rural, canal em que eu tinha que jogar videogame com o apresentador (risos). Fui numa rede evangélica, era um programa jovem, tinha uma menininha de minissaia que cantava “saia, saia da contramão, Jesus é a solução” (risos). Dois meses depois comecei a viajar pelo Norte e Nordeste e comecei a encontrar a audiência dessa rede, que é pessoa mais conservadora, mais velha, interiorana, e que segue ao pé da letra o que o pastor manda. Ou seja, é gente que não frequenta a Livraria Cultura ou Saraiva, não lê caderno de cultura do Estadão e da Folha, não lê o iG. Se você não vai lá, não consegue atingir essa audiência. Você vê que é gente mais conservadora, que só vê aquele canal, dogmática…

Mas é meio a mesma metodologia dos livros, você trata com respeito esse público, e ele escuta você.
Ah, sim, não estou desqualificando, trato com o maior respeito, são pessoas simples. Dei uma entrevista na rádio Eldorado, eu falando, falando, falando, tinha um zelador de uniforme azul, parou, ficou olhando, pessoa muito simples. Quando saí, ele falou: “Esse seu livro aí, onde eu acho? Eu queria comprar para o meu filho”. É isso, é incrível. Aí surge do meu lado um senso de missão muito forte. É legal vender livro, ganhar prêmio, mas aonde isso leva? Não sei, já tenho uma casa, um carro, o que mais? Aí você vê que está mexendo com a vida das pessoas, transformando, lidando com educação. Ouço coisas incríveis, adolescentes dizendo “eu não gostava de história, depois que li seu livro estou gostando”, “por sua causa decidi ser jornalista”, “decidi ser historiador”. O livro tem um poder enorme, é um objeto de transformação mesmo, uma criatura que você solta no mundo e ela vai transformando tudo que encontra pela frente. E a minha contribuição é de linguagem, de linguagem jornalística. Não é que fui lá descobrir um personagem ou acontecimento novo. Não, peguei a história que já estava aí contada pelos historiadores e converti num livro de linguagem acessível ao leitor comum. Mas as pessoas vêm me dizer coisas assim: “Que bom que você veio escrever a verdadeira história do Brasil”. É uma coisa que eu não fiz, não escrevi uma outra história. Por tudo que a gente falou, mas também por um problema de linguagem, existe a sensação no brasileiro de que há uma agenda oculta, como se houvesse uma história escondida, ainda para ser revelada.

Não seria algo até sofisticado, de que quem lê percebe que não é um livro sobre mocinhos e bandidos?
Talvez, talvez seja isso. Essa história foi tão manipulada até hoje, e não é só característica do Brasil. Manipular o passado em favor de bandeiras políticas do presente é da natureza de qualquer sociedade, democrática ou não democrática. Não é à toa que Lula repete com tanta frequência “nunca antes na história deste país se fez tal coisa”. Ele está tentando reescrever o passado para justificar o governo dele. Ele faz isso, o regime militar fez, Getúlio Vargas fez, a monarquia fez, todo mundo fez. Mas essa história foi tão manipulada o tempo inteiro que o brasileiro de hoje, que está neste momento de grande reflexão, entende corretamente que há uma agenda escondida mesmo dentro da história do Brasil. Quando alguém conta uma história jornalística, feita com certa isenção e equilíbrio, tratando os personagens de modo divertido, mostrando o lado bizarro, mas também mostrando a obra política corajosa que fizeram, ele aí tem um deslumbramento: a história foi revelada.

Os historiadores ficam enciumados com seu sucesso? Existe mesmo uma rixa entre historiadores e jornalistas?
Sim, mas acho natural. A atividade acadêmica tem todo um sistema interno de referendo e validação. São especialistas, um passa pelo crivo do outro, com tese de mestrado, doutorado, pós-doutorado. Aí vem um jornalista e entra pela porta dos fundos, não pede licença, não se submete a nenhuma banca examinadora. Mas isso é da natureza do jornalismo, por isso a sociedade às vezes convive muito mal com ele. Não são só os historiadores, todo especialista, quando você vai fazer uma reportagem, fica assim, “o que esse cara vai fazer comigo agora?”. É claro que os historiadores têm um ciúme natural também, que é do ser humano. Você estudou sua vida inteira a história da corte portuguesa no Brasil, vêm os 200 anos e você não teve a ideia de fazer um livro como esse e ele virar um best-seller. Aí você quer morrer, né? A primeira coisa que você faz é desqualificar quem fez.

Isso aconteceu?
No começo, sim. Num primeiro momento fui visto com certa desconfiança. Uma vez entrei num blog de historiadores e tinha uma palavra de ordem: “Jornalistas, deixem a história para os historiadores”. Era literalmente isso. É muito comum também dizerem: “Esse livro não tem novidade nenhuma”. De fato não tem, a única novidade é a linguagem. Mas essa é a grande novidade, e eles não conseguem reconhecer isso. Mas isso foi no começo, o reconhecimento veio à medida que foram lendo e entenderam que era uma obra de divulgação do trabalho acadêmico e que não fiquei só na banalidade e na superfície. O que tem mesmo é essa rejeição corporativista às vezes, meio reserva de mercado.

Falando agora com o Laurentino jornalista, você citou antes o maniqueísmo dos historiadores, mas a imprensa, nos maus momentos, também costuma ser muito maniqueísta, não?
É… Essas atividades não estão imunes a contaminação das forças políticas que estão atuando dentro da sociedade. A imprensa acaba sendo afetada diretamente por isso, e a história também. Não é à toa que nas décadas de 1960 e 1970 o pensamento marxista tenha marcado de tal forma o estudo e o ensino de história. Eu não diria que Nelson Werneck Sodré é um historiador, ele é um proselitista. É o uso da história para justificar a bandeira política do presente. Na imprensa acontece isso também. Fui editor de política do Estadão na eleição do Collor, e era uma pedreira, porque os jornalistas estavam contaminados por aquela luta. Imagine editar um jornal num clima desse.

Como você se comportou?
Foi um período muito difícil. As reportagens vinham quadradas da rua, eu tinha que arredondar um pouquinho. Às vezes elas vinham redondas e na hora de editar a direção do jornal deixava quadradas (risos). Ser editor de política de um grande jornal numa eleição como aquela era ser a mortadela do sanduíche, espremido por todos os lados. Recentemente, a gente está vendo a guerra dos colunistas no Brasil, uma pauleira, troca de acusações entre jornalistas de Veja, Estado, Folha e na internet… Um à direita, outro à esquerda, outro no centro, e às vezes com posições muito maniqueístas. A sabedoria do jornalista é manter a sensatez quando a sociedade está maniqueísta. Esta é a grande diferença entre jornalismo e história: o jornalismo é escrito a sangue quente, no calor das paixões, sujeito a erros de avaliação, de informação. Por isso a liberdade de imprensa e a independência editorial não dependem de um único jornalista ou de um único veículo. Dependem da diversidade da grande quantidade de leitores, veículos e anunciantes. Quanto mais diverso for o ambiente da imprensa, mais democrática e pluralista ela vai ser.

Num ambiente de diversidade, não faria mal se um veículo apoiasse um candidato e outro apoiasse outro?
Isso, porque a diversidade é o choque e o confronto de opiniões e de visões, a formação dos leitores. O leitor tem que ver que às vezes um veículo está com uma posição que tem uma premissa favorável a um anunciante, a um candidato, a um governo. Porque é isso mesmo, a imprensa é sujeita a pressão. Quanto maior o número de leitores, veículos e anunciantes, para que a pressão de um não predomine sobre os demais, mais democrático, diverso e pluralista o ambiente da imprensa tende a ser. Na história já não, é a sangue frio, você tem tempo de observar com calma. A história é submetida a uma visão crítica, precisa estar num ambiente democrático, para não ficar maniqueísta como ficou, por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980. Gilberto Freyre era boicotado porque era considerado um cara de direita, Câmara Cascudo também. Quando há uma ditadura, a academia também é contaminada.

Do alto da sua experiência como jornalista, você diria que a imprensa brasileira vive um momento bom, ruim, médio...?
Acho que o Brasil tem uma boa imprensa, profissional, com dificuldades naturais, mais econômicas que políticas. Os veículos estão submetidos a uma pressão horrorosa, em função do impacto das novas tecnologias. Estão perdendo leitores em função da fragmentação de mídia – internet, TV a cabo, rádio segmentada. Estão perdendo receita na publicidade, também em função da fragmentação dos meios. E ao mesmo tempo estão sendo obrigados a investir mais em novas tecnologias. Não adianta mais publicar só um jornal, você precisa ter um bom site. Então estão submetidos a pressão no custo e na receita. Outro perigo grande é um certo empreguiçamento das redações, porque hoje a quantidade de informação de boa qualidade disponível na internet é tão grande que tem gente que não vai mais para a rua entrevistar, virou copidesque. Tem tudo já na internet. Se você quiser empreguiçar-se, faz uma matéria boa sem entrevistar ninguém, então o jornalismo perde a sua alma, que é a reportagem.

Por outro lado, há jornalismo no Twitter, nos blogs?
Tem uma diversidade, novas formas de jornalismo. Vi uma reportagem sobre blogueiros que ficam vigiando linhas de ônibus de São Paulo, para ver se o motorista ou o cobrador cometeu abuso. Antigamente o repórter tinha que ir lá investigar o que faziam de errado, saía uma vez por ano no jornal. Agora você tem um exército de blogueiros fazendo isso. É uma forma de jornalismo? Pode-se dizer que sim, mas não de jornalistas formados. São jornalistas cidadãos…

Uma inteligência coletiva, com um em cada ponto de ônibus dá para cobrir todos.
Isso. Tem um livro chamado Global Brain que defende essa ideia, de que nesta sociedade conectada pela internet os cérebros individuais estão se comportando como se fossem um grande cérebro global, em que cada cérebro fosse uma sinapse de um neurônio. Uma ideia desenvolvida num lugar tem um efeito multiplicador muito rápido, exponencial.

Por que você dedicou um capítulo inteiro de 1822 à maçonaria?
Porque é importante. A maçonaria funcionava no começo do século 19 como a Internacional Comunista na primeira metade do século 20. Ou seja, era um grande centro de conspiração. Os três grandes libertadores da América espanhola, Bolívar, San Martin e Bernardo O’Higgins, frequentaram a mesma loja maçônica em Londres. Quase todos os pais da independência norte-americanas eram maçons. No Brasil, José Bonifácio, Dom Pedro I. Mas tem um mito curioso, de que a maçonaria conspirou e conduziu de forma homogênea o processo de independência. Mostro que não é verdade. A maçonaria funcionou em 1822 como se fosse um protopartido político. Tem alguns centros que unem esses esforços, um deles é a maçonaria, outro é a igreja – e os dois se misturam.

É um tema que atrai muitos leitores, às vezes de modo sensacionalista. Como se faz uma apuração confiável sobre um assunto tido como secreto?
De fato, atrai muita atenção dos leitores. Tem essa coisa de sociedade secreta, conspiração. Na Abril, quando se coloca maçonaria na capa da Aventuras da História ou da Superinteressante, as vendas vão lá em cima. E misturar curiosidades, coisas mais pitorescas, com análise mais profunda, dá molho na coisa. Achei que um capítulo de maçonaria funcionaria muito bem àquela altura do livro. Pesquisei bastante, existem bons livros sobre a maçonaria. Não sou maçom, mas tenho amigos, um irmão meu é maçom. Não sou, embora já tenha dado palestra em lojas maçônicas. Já fui convidado para ser maçom, mas não aceitei, porque acho que tenho que manter certa atitude suprapartidária. Eles me mandaram informações interessantes. Curiosamente, a maçonaria tem documentos que, ao contrário do que se imagina, não são secretos, qualquer um pode pesquisar. Há atas, estudos. É meio como clube do Bolinha, é subir na casinha da árvore e lá dentro ninguém pode ir porque tem segredo lá dentro. No fundo maçonaria é isso, um clube do Bolinha para adulto. Mas o fato é que esse clube do Bolinha funcionou como um grande centro de conspiração. Fez a independência da América espanhola, fez a Revolução Francesa. A maioria dos livros vai pelo viés de conspiração dos sábios do Sião, protocolo de Sião, porque é um jeito de apelar ao imaginário do leitor, especialmente o mais leigo. Fiz um capítulo, mas procurando não cair nessa armadilha.

A esta altura você já sabe qual será o próximo livro e que número vai ter?
Será 1889, e prometo que não vou fazer nenhum outro livro mais com número na capa (risos). Quero fechar uma trilogia do século 19. São as datas que explicam a formação do Estado brasileiro. É 1808, vinda da corte, 1822, independência, e 1889, república. Não posso fazer com pressa. Um perigo quando você faz uma obra best-seller é querer surfar na onda e fazer uma coisa… Para fazer com consistência é no mínimo três anos. Espero lançar em 2013, talvez. Já comecei, até porque um emenda no outro, é uma sequência, né? Depois eu gostaria muito de fazer um livro sobre a escravidão, talvez a Guerra do Paraguai, um assunto que acho que está pedindo um livro-reportagem

Você enxergaria, projetado no Laurentino menino e nos seus pais agricultores, de onde viria o interesse que teria pela história do Brasil?
Acho que sim. Meu pai gostava muito de história. Ele passava o dia inteiro na roça, mas frequentava a igreja e gostava de ler história da igreja. Falava muito da história do Império Romano. Eu ia levar comida para ele na roça, levava a marmita que minha mãe fazia, ele sentava debaixo de um pé de café e ficava conversando comigo sobre história. Eu achava o máximo. Vem daí, talvez, a vocação.

Seu livro cita que o Paraná era um pedaço desmembrado de São Paulo. Também sou de lá, às vezes não parece que é um estado que nem existe?
É (ri), o Paraná é um estado muito curioso, porque é um limbo na federação e está espremido entre dois povos muito fortes, que são os gaúchos e os paulistas. É um estado de formação recente, era a Quinta Comarca de São Paulo. O norte era sertão, foi desbravado há 60, 70 anos, por paulistas. Então é um estado com uma identidade cultural muito frágil, muito indefinida. É um estado intimidado. Nunca produziu um presidente da república, um grande escritor, um grande jornalista.

Ninguém sabe que Sonia Braga é maringaense.
Ninguém sabe. O Paraná é o triunfo da classe média. É uma faixa neutra, nem se destaca pela pobreza extrema, nem por uma história exuberante, um movimento intelectual. Então me sinto muito orgulhoso de, de repente, me destacar desse cenário. O Paraná tem bons escritores, Domingos Pellegrini Jr., Dalton Trevisan, mas acho que estava na hora de o Paraná produzir alguns fenômenos nacionais, sabe?

Por que você mudou de editora depois de um livro de estreia de grande sucesso?
A Planeta tem o mérito de ter apostado num livro em que ninguém acreditava, o 1808, mas tive algumas dificuldades. Era uma empresa que tinha ainda uma estrutura muito precária de marketing. Errou no livro, teve uma hora que misturou meu livro com outro chamado Paixão Índia. Estava na 15ª reimpressão, eu não fui avisado, fiquei sabendo pelos leitores. É uma coisa absurda. Você estava lendo, de repente começava a falar de Indira Gandhi. Eram três capítulos, mais de 100 páginas. Houve um derrame de livros com problemas gráficos, acho que foram cerca de 10 mil exemplares. Isso acontece, mas eu queria ser avisado imediatamente, e principalmente que a editora tivesse uma atitude de fazer um recall de livros, avisar. Não, até hoje estou recebendo e-mails de leitores. Então troquei por essas dificuldades, mas também porque o projeto da Nova Fronteira é muito legal. Vão fazer um projeto multimídia, vai sair o livro adulto, em janeiro o infantil, o livro digital.

Isso aconteceu também no outro, não?
Sim, mas foi a fórceps. Este agora o editor está propondo. Vai fazer o audiolivro, que quem narra é o Pedro Bial. Me encantou, achei legal. Daqui para frente a gente tem que pensar multimídia.