domingo, 23 de março de 2014

KARNE KRUA

Karne Krua, de Aracaju, Sergipe, é, muito provavelmente, uma das bandas punk mais antigas em atividade ininterrupta no norte e nordeste do Brasil. Nunca pararam! Posso atestar isso, já que os acompanho desde 1987, quando fui ao meu primeiro show de rock “underground”. Sobrevive às idas e vindas de componentes graças à persistência de Silvio, o vocalista e único membro original remanescente.

Idas e vindas que, felizmente, já cessaram há um bom tempo: a formação mais recente, com Adriano na bateria, Alexandre na guitarra, Ivo Delmondes no baixo e Silvio nos vocais, é uma das mais estáveis e duradouras. E, provavelmente, também a melhor, conseguindo o feito de superar a “clássica”, com Silvio, Marlio, Marcelo e Almada - aquela que definiu a sonoridade da banda e compôs verdadeiros hinos do Hard Core undergound nacional.

A Karne Krua existe desde 1985. Havia na época um cenário “roqueiro” pulsando nos submundos da cidade, herdeiro direto da nova onda do rock nacional que tomava conta do país. Vieram, no entanto, com uma proposta ousada para a provinciana capital do menor estado do país: radicalizar na postura e na sonoridade. Fazer punk rock e Hard Core cru, bruto e engajado. Fizeram barulho e chamaram a atenção, aglutinando ao seu redor toda uma nova cena com nomes como Manicômio, Condenados, Cleptomania, Logorreia, Forcas Armadas e Sublevação. Dessas, algumas tiveram vida curta e sumiram na poeira do tempo, deixando pouco ou nada para trás. Outras sobrevivem até hoje. Mas nenhuma com a força e a capacidade de se renovar e renovar seu público, de geração a geração, que a Karne Krua tem.

Como toda banda que dura tanto, passaram por várias fases e diferentes variações de sonoridade. Tudo devidamente registrado na farta discografia e “demografia”, que começou com a tosca “As Merdas do sistema”, alcançou uma certa maturidade com a clássica – embora ainda tosca – “labor Operário”, experimentou o primeiro gosto do profissionalismo com “Suicídio”, a primeira gravada em estúdio, no Recife, e se “consagrou” – na medida do possível para uma banda totalmente independente – com o primeiro registro em vinil, o LP auto-intitulado, de 1994.

O primeiro disco da Karne Krua está fazendo 20 anos de lançado e, apesar de seus defeitos gritantes – de gravação e mixagem, principalmente – é um clássico. Principalmente porque foi gravado ainda com a formação mais célebre - que logo depois se dissolveu definitivamente – e tem um repertório impecável, fruto da excelente fase pela qual passavam na época e que rendeu pérolas do quilate de “O vinho da História” e “A Noite do Deus morto”. Além disso, havia a bagagem que já vinham acumulando em quase 10 anos de atuação nos porões do punk rock nordestino, período no qual compuseram alguns clássicos que até hoje são cantados em coro nos shows: “America latina now”, “cenas de ódio e revolta” e “Sindicato”, dentre outras. Músicas que, para além da simplicidade dos acordes primários típicos do estilo, carregavam uma poesia improvável em suas letras, como na de “política da seca” - um lamento que, a meu ver, poderia constar tranquilamento ao lado de grandes canções icônicas sobre a tragédia do sofrimento do povo do nordeste, como “Asa Branca” e “A Triste partida”. Seus versos são um verdadeiro soco no estômago do conformismo e não me deixam mentir: falam de “pessoas castigadas pelo sol e pela fome” que “lamentam a dor de mais um ano que passou”. Porque “os miseráveis são fonte de renda, mão de obra barata. Voto Comprado. Essa é a grande armadilha, e deverá ser cultivada”.

O disco foi lançado tardiamente, numa época de transição para a industria da musica, do analógico para o digital. Não teve versão em CD e, muito por conta disso, teve uma repercussão reduzida. Hoje, no entanto, a situação se inverteu: é cultuado justamente por ser, além do primeiro registro “oficial” de uma banda clássica do cenário local e nacional, um dos poucos discos sergipanos a ter tido uma edição em vinil.

Seguiram em frente: ao longo das décadas de 1990 e 2000 foram absorvendo novos membros e novas influências, notadamente do Hard Core novaiorquino - Biohazard, Agnostic Front - e da música regional – o repente e o “aboio”, principalmente. Novas fitas demo foram lançadas – “Máscaras para o caos”, de 1997, e “Instantes Irreversíveis”, de 1999 – e finalmente, em 2002, o segundo disco, agora em CD: “Em Carne viva”. O lançamento aconteceu numa noite inesquecível daquele início de século, quando conseguiram o feito de lotar o Espaço Emes, maior arena de shows local, que já serviu de palco para nomes consagrados da música popular e do rock, como Roberto Carlos, Sepultura e Ana Carolina. Tudo registrado em vídeo e disponível em DVD.

O maior triunfo da banda, no entanto, ainda estava por vir: o álbum “Inanição”, uma verdadeira obra-prima do gênero em terras brasilis. Gravado num momento de transição, ainda com o grande baterista Thiago “Babalu”, que se mudou para São Paulo e hoje toca com Siba, ex-Mestre Ambrosio, e Alexandre, o guitarrista, fazendo também o papel de baixista, demorou uma eternidade para ser lançado. Só veio ao mundo em 2012, exatos dez anos depois do segundo. Mas valeu a pena a espera: trata-se de uma impecável coleção de canções que, alinhadas, traçam um impressionante painel de angustia e revolta diante das injustiças do mundo, do drama dos retirantes ao sofrimento dos animais usados em testes de laboratório. E tem, pelo menos, um novo clássico: a música título, “inanição”. Nele a banda consegue finalmente registrar todo o potencial que, até então, só se revelava em toda a sua plenitude em cima do palco. É um registro que não pode faltar na coleção de ninguém que se diga apreciador do combativo e altivo punk rock nacional.

Hoje, prestes a completar 30 anos de carreira ininterrupta, continuam tocando principalmente em sua cidade e regiões circunvizinhas, porque não têm estrutura nem suporte financeiro para vôos mais altos. Mas seguem vivo e ativos. Acabam de lançar um EP 7 polegadas - formato outrora popularmente conhecido no Brasil como "compacto" - em parceria com o "Besthoven", de Brasília. Trata-se de um verdadeiro soco sonoro em forma de 4 músicas emendadas, uma espécie de "suíte" Hard Core versando sobre os horrores da guerra. A edição é caprichada, com prensagem de qualidade a cargo da renascida polyson, única fábrica de discos de vinil ainda em atividade no país, e uma excelente arte de capa de autoria de Thiago Neumman, o popular "Cachorrão".

Às vezes eu tenho a impressão que a Karne Krua nunca vai acabar. Sei que sim – porque tudo, um dia, acaba. Mas torço para que não.

Que seja eterna enquanto dure, como dizia o poeta.

por Adelvan

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2 comentários:

André Alexandre disse...

Realmente fudido! Viva Karne Krua! Orgulho de ser sergipano e ter essa banda para nos representar!

casadorock disse...

Bela resenha, como sempre. Conheci a Karne Krua no clássico show de 2002 e desde então tenho uma profunda admiração por ela e por Sílvio. Vida longa à Karne!

Murillo Viana