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É curioso que a melhor adaptação já feita para o cinema de um videogame não tenha existido previamente como um jogo. Wright leva a estética dos games às telas, traduzindo em cores e gráficos toda uma geração de títulos clássicos em uma verdadeira celebração do "8 bits". Scott Pilgrim (Michael Cera, fazendo a única coisa que sabe) é inocente como Mario, luta como Ryu e tem mais corações que Link. Parte do visual criado aproveita também a origem de Scott Pilgrim nos quadrinhos, incluindo onomatopeias, recordatórios em quadro e influências de mangá.

Mais que um interesse romântico, Ramona é verdadeiro MacGuffin, o objeto de desejo que, segundo o termo cunhado por Alfred Hitchcock, direciona os esforços dos protagonistas, que se sacrificam para obtê-los. Na trama, Scott Pilgrim é movido pela presença da enigmática Ramona e decide enfrentar os "sete ex-namorados do mal" da moça mesmo sem saber quem exatamente ela é.

Confunde-se a história simples e bem-humorada com "infantilizada". Preguiça, desconhecimento ou puro preconceito, não importa. Os sentimentos e as metafóricas situações em Scott Pilgrim são absolutamente reais, algo que o cinema de gêneros com apelo pop teima recentemente em deixar em segundo plano. E daí se o protagonista é capaz de feitos incríveis e trafega por mundos fantásticos? Se o amor que ele diz sentir não é demonstrado na tela, corre-se o risco de parecer tão empolgante quanto uma cópia em alta definição da Mona Lisa.
Scott Pilgrim Contra o Mundo é, assim, um épico pós-moderno para a geração criada dentro de casa. Uma imperdível celebração da cultura pop e dos relacionamentos complicados.
> Biutiful (Época, por Laura Lopes) é sobre a morte. Morte coletiva, solitária, por doença, velhice, acidente, assassinato… Sobre a morte dos relacionamentos, o sofrimento de se sentir outsider em uma terra que não é sua e longe de quem se ama, ou daquele que tem qualquer tipo de sofrimento mental. Há a imagem de pessoas mortas, mas o filme também tem uma estética esquisita, de ambientes sujos, empoeirados, úmidos, melados. É tudo grudento, e um pouco repulsivo, sem ser escatológico.

O que é a morte? Para onde ela leva? Quais são as palavras que aquele que se foi gostaria de ter dito? Isso alivia sua passagem? Existe essa passagem? Tais questionamentos vêm à mente até de pessoas céticas a desprovidas de crenças religiosas como eu.
Iñárritu junta todas essas questões, muito subjetivas, a elementos da vida em uma cidade grande, como Barcelona. E de uma maneira muito pragmática e natural, fazendo com que elas apareçam sem descambar para um roteiro de filme além-vida ou de temática espírita. Entram na trama o trabalho escravo, imigrantes ilegais chineses e senegaleses, a corrupção policial e a produção e comércio de produtos falsificados. O filme tem tantos elementos que transcorrer mais sobre o enredo seria perda de tempo.

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