quarta-feira, 28 de março de 2012

DEP Millor Fernandes

Morreu na noite da última terça, 27, o escritor carioca Millôr Fernandes. Ele estava com 87 anos e, segundo o portal G1, foi vítima de falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. Millôr morreu em casa, em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, de acordo com o que revelou o filho do escritor, Ivan Fernandes. O velório acontecerá na próxima quinta, 29, entre 10h e 15h, no cemitério Memorial do Carmo, no Caju, na Zona Portuária do Rio. O corpo será cremado em seguida.

Millôr ficou mais conhecido como escritor, mas era desenhista, jornalista, dramaturgo e tradutor. Ele também foi um dos maiores tradutores de peças de Shakespeare no país. Começou a carreira como colaborador da revista O Cruzeiro quando tinha somente 14 anos. Na década de 60, foi um dos fundadores do lendário O Pasquim, jornal revolucionário de papel importantíssimo na luta contra o regime militar no Brasil.

André Bracinsky: Morreu Millôr Fernandes. Jornais e sites vão publicar obituários bem completos e elogiosos ao homem. Não vou ficar aqui chovendo no molhado, dizendo como ele era brilhante, influente, etc.

Vejo a morte do Millôr como mais um passo do nosso processo de emburrecimento. Só de saber que ele continuava ali, escondido na cobertura em Ipanema, mesmo que velhinho e frágil, dava uma sensação de conforto. Agora nem isso temos mais. Quando Paulo Francis morreu, pelo menos tínhamos o Millôr como farol. E agora?

Cada vez mais esse país me deprime. Na época do Millôr também era deprimente, mas pelo menos havia ele e alguns outros para colocar as coisas em perspectiva. Outro dia, participei de uma entrevista com Agildo Ribeiro. Sujeito culto, irônico, cheio de idéias e opiniões. E foi um comediante de sucesso na TV aberta. Fiquei pensando como um sujeito talentoso daqueles deveria se sentir, vendo o nível do entretenimento popular que temos hoje.

Não sei de Millôr, mas imagino que ele devia se sentir assim também: isolado, falando para as paredes, até meio desorientado no meio de tanta burrice, de tanto analfabetismo funcional, de tanto radicalismo sectário, de tanta gente entorpecida por TV ruim e filosofia de redes sociais.

Ontem, o técnico da Seleção Brasileira, que não vê problema em fazer comercial de cerveja, foi pego na blitz da Lei Seca e se recusou a fazer o teste do bafômetro. O que diria Millôr sobre isso? Que pena saber que ele não estará aqui para escrever sobre a Copa e nosso ingresso no Primeiro Mundo.

O mirante de Ipanema está vazio. Estamos sozinhos. Agora é cada um por si.


sexta-feira, 23 de março de 2012

RIP Moebius

(wikipedia) Jean Giraud (8 de maio de 1938 - 10 de março de 2012) foi um artista francês de história em quadrinhos que também colaborou na produção de diversos filmes. Giraud é também conhecido pelos pseudônimos de Moebius e Gir. Ele começou a publicar suas primeiras tiras aos 18 anos, logo tornando-se um dos ilustradores mais consagrados da Europa.

Sua primeira história publicada foi "Frank et Jeremie" para a revista Far West, em 1956, publicada antes de seus 18 anos. Ainda na década de 50, fez quadrinhos para a Sitting Bull, Fripounet et Marisette, Âmes Vaillantes e Coeurs Vaillants.

Sua carreira foi interrompida pelo serviço militar que prestou na Argélia, porém, ao retornar, se tornou aprendiz de Jijé, um dos principais quadrinistas europeus da época, com quem colaborou Jerry Spring. Giraud foi por ele indicado para desenhar a série de faroeste Blueberry, que seria publicada pela revista Pilote.

Em 1963, Moebius aparece pela primeira vez na revista Hara Kiri. Nela, foram publicadas 21 tiras em 1963 e 64, e então se passou quase uma década até que o pseudônimo fosse utilizado novamente. Em geral, Giraud assina como Moebius em seus trabalhos de ficção científica e fantasia, que costumam ser mais experimentais.

Em 1974, ele formou os Humanoïdes Associés junto com Jean-Pierre Dionnet, Philippe Druillet e Bernard Farkas. No mesmo ano, lançaram a revista de fantasia e ficção científica Métal Hurlant, que se tornaria muito influente. Já em seu primeiro volume, a capa era de Moebius e Philippe Druillet, e havia as primeiras histórias de Arzach e Major Grubert.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

CABRUNCO!

Começo dos anos 1990. O mundo dos fanzines ia seguindo a sua vida habitual. Cada um no seu quadrado, fazendo seu protesto aqui, divulgando sua banda acolá, espalhando suas histórias em quadrinhos mais adiante… Enfim, fazendo o underground acontecer.

Tudo ia muito calmo até que Rafael Jr. e Adolfo Sá resolveram dar o seu recado por intermédio de um fanzine. Então, nascia em abril de 1995 o Cabrunco. Poderia passar batido se fosse um zine assim como os demais contemporâneos, mas essa publicação tinha alguns diferenciais. Primeiro, por deixar de lado o habitual recorta e cola manual e partiram já, naquela época, com uma editoração mais moderna, diagramado em computador e com um visual mais clean. Bacana, né? Para a “polícia do underground” isso era uma traição inadimissível em épocas em que o computador começava a ser um item dentro das casas.

E por ser polêmico. Os editores não tinham papas nas línguas para questionar a qualidade de uma banda ou de outra publicação, assim como alimentavam e conduziam discussões de assuntos velados por uma maioria. Não tardou para também serem enquadrados nesse quesito pelos “undergroundmente corretos”.

Para ambos os casos, tocaram o foda-se e continuaram produzindo, mantendo a mesma linha editorial que se manteve (e evoluiu) nas oito edições que formam a saga desse filho bastardo de Aracaju. Por essas e por outras, tornou-se um dos zines mais significativos, respeitados e influentes do fanzinato nacional. Mesmo lançado há quase duas décadas, esse fanzine se mostra muito à frente de seu tempo até mesmo se levarmos em consideração os tempos atuais. Durante as gravações para o documentário “Fanzineiros do Século Passado”, uma das perguntas que fiz para os entrevistados foi: “qual é o zine que você gostaria de ter feito?” Posso garantir que 70% citou este zine. E eu sempre o cito quando sou questionado.

“Isso é papo de vovô, que fica falando que na sua época era melhor”, diriam os jovens que estão se enveredando no universos dos fanzines agora. Não é. E para provar isso, em uma missão em parceria com os próprios editores do Cabrunco e o Zinescópio, consegui garimpar e escanear todas as edições do zine e disponibilizar para a posteridade!

Esse é o meu presente para o primeiro aniversário do Zinescópio e a maioridade que o Cabrunco completaria se estivesse em atividade. Pensando bem …

Na verdade, é um presente para o fanzinato nacional!

Clique AQUI para ler as resenhas e baixar as edições do zine em PDF
por Marcio Sno

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Vibrações negativas

Resolvi abrir o Glorioso ano da graça de 2012 fazendo mal uso da internet. Explico: Há alguns dias um estudante sergipano resolveu repassar via Facebook uma materia do ano passado do Correio Braziliense que fala sobre irregularidades na captação de dinheiro público para a maior prévia carnavalesca do estado, o famigerado "PreCaju". O bagulho repercutiu muito, o que levou o mentor da tal festa, um daqueles eternos parasitas do poder publico, a processar o rapaz por um suposto "mal uso da internet". Uma emissora de TV local, afiliada à Rede Record, chegou inclusive a fazer uma materia em seu telejornal exclusivamente com este enfoque: "mal uso da internet", com o referido pilantra que se acredita dono de uma das principais avenidas da cidade durante 4 ou 5 dias do ano posando de vítima. Tudo isto com a conivência - diria mais, com a adesão irrestrita e entusiasmada - dos alcaídes locais, prefeito e governador do estado (um se diz comunista, o outro socialista), que adoram posar com seus abadás em plena folia. Inacreditável, não ? Coisas de Sergipe Del Rey. LEIA AQUI a materia original e confira a cara de pau dos elementos, especialmente quando falam que o Precaju, que é uma festa gigantesca que poderia muito bem se bancar sem o uso dos preciosos recursos publicos tão em falta na educação, saude e segurança publica, NÃO DÁ LUCRO !!!! Seria cômico, se não fosse trágico.

Abaixo, uma excelente matéria do jornalista Rian Santos sobre o assunto:


A Associação Sergipana de Blocos e Trios (ASBT) está na mira dos artistas sergipanos. O destempero do empresário Fabiano Oliveira – que deu um tiro no pé e interpelou um estudante judicialmente, constrangendo o rapaz a comparecer diante de um magistrado para explicar porque teve a ousadia de compartilhar matéria publicada pelo Correio Braziliense numa rede social – saiu pela culatra e finalmente tirou a classe da letargia.
O coletivo de músicos Serigy All-Stars está recolhendo as assinaturas dos alforriados para devolver a chicotada do sinhozinho. Eles pretendem apresentar denúncia no Ministério Público Federal questionando a ASBT a respeito da utilização de recursos públicos repassados para a Associação. A suspeita de irregularidades foi levantada por relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), mas a insatisfação com a prévia carnavalesca realizada todos os anos com a bênção da Prefeitura de Aracaju e Governo do Estado de Sergipe vem crescendo há muito tempo, independente de eventuais conflitos com a letra da lei.
Cala a boca já morreu! – A matéria mencionada, causa e catalizador da indignação dos músicos sergipanos, foi publicada em 16 de dezembro de 2010, sem que qualquer ação judicial tenha sido imposta ao diário. Nela, o jornalista Lucio Vaz explica como a ASBT, uma associação sem fins lucrativos, consegue financiar uma festa privada com um montante milionário, retirado dos cofres do Ministério do Turismo por meio de emendas parlamentares.
De acordo com o Correio Braziliense, Albano Franco (PSDB), Jackson Barreto (PMDB), Jerônimo Reis (DEM), José Carlos Machado (DEM) e Valadares Filho (PSB), além do baiano Emiliano José (PT), então deputados federais, julgaram proveitoso destinar quase R$ 16 milhões para que a ASBT promovesse três edições de uma prévia carnavalesca que afronta claramente uma série de direitos dos cidadãos sergipanos, impedidos de trafegar livremente pelas principais vias da cidade nos dias em que a festa é realizada.
No entanto, a boa vontade dos entes públicos com as empresas que formam o grupo não para por aí. O Pré-Caju foi incluído no calendário turístico e cultural da capital por lei municipal em 1993. Três anos depois, outra lei reconheceu a ASBT como entidade gestora e organizadora do evento. Depois, ela foi agraciada com o certificado de utilidade pública estadual. Hoje, a micareta é reconhecida pelas autoridades como um evento estratégico, uma das principais cartadas para promover o turismo local. Nossos gestores não explicam, contudo, porque depois do investimento vultoso, realizado durante anos a fio, nem mesmo o principal provedor da festa reconhece a capital sergipana como destino apropriado para os visitantes.
Há menos de uma semana, o Ministério do Turismo indicou os 184 destinos para turistas durante a Copa do Mundo de 2014. No Nordeste, só foram contempladas cidades do Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará. O objetivo é aumentar o fluxo turístico e a geração de renda e emprego. Entre os nove estados nordestinos, Sergipe foi o único que ficou de fora.
Para o cantor e compositor Deilson Pessoa, que também integra a direção do Fórum de Música de Sergipe, a iniciativa do Serigy All-Stars já pode ser considerada bem sucedida. Para o coletivo de músicos, importa o exercício da cidadania, o devido respeito à coisa pública, a saúde de nossa democracia. “O espírito do Cacique Serigy com certeza agradece a todos que subscreveram a denúncia que vamos apresentar ao MPF contra a ASBT e a má utilização de dinheiro público na realização dessa festa privada. O que nós, artistas sergipanos, estamos reivindicando é um olhar mais atencioso com a nossa gente e cultura. Só você muda a maneira como é visto”.
É como se os músicos respondessem à tentativa de cerceamento da informação, manifesta na ação movida pelo empresário Fabiano Oliveira, respondendo em alto e bom som: Quem manda em mim sou eu!
riansantos@jornaldodiase.com.br

O Excelentíssimo Senhor governador do estado aplaude de pé.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIVA O GRANDE LÍDER!

Capítulo 1 – Do outro lado do mundo existe uma república popular

Vista de dentro do pequeno Citroen vermelho, a cidade parecia estranha. Chegar em Pequim é sempre uma coisa preocupante. As multidões, a poeira, as bicicletas como um enxame de abelhas, a indelicadeza de seus habitantes, tudo parece minar a confiança do forasteiro. A confusão urbana ajuda a lembrar que aquele é um território ainda desconhecido e perigoso.

A Estação Rodoviária Oeste, aonde cheguei no trem proveniente de Hong Kong, seria, segundo a propaganda oficial, a mais moderna de toda a China. Estava semi-escura, cheia de gente e tumultuada. Quando saí para a rua e peguei um táxi, já estava começando a anoitecer.

Já tendo estado antes em Pequim, eu conhecia mais ou menos o trajeto que o táxi deveria fazer para chegar ao hotel onde eu tinha reserva, localizado na Dongsanhuan, a terceira perimetral leste. Mas, dentro do carrinho vermelho, rapidamente perdi o senso de orientação e comecei a suspeitar que o motorista estivesse dando uma volta monumental em torno do centro para chegar ao hotel. E o pior: com pouco dinheiro em iuane no bolso, eu temia não ter como pagar a corrida. Não seria possível que, após dez minutos de percurso, o taxímetro ainda estivesse marcando 10 iuanes. Barato demais para ser verdade.

Ao contrário da confusão presenciada na estação de trem, seguíamos agora por grandes avenidas asfaltadas, passando velozmente em frente a arranha-céus iluminados por letreiros em néon. O pequeno táxi era acompanhado nas vias expressas por centenas de carros de todos os lados. Esta não era a Pequim de quatro anos atrás. Onde estava a velha China dos riquixás e da população vestida de azul ? Observada do meio das avenidas do novo capitalismo, a cidade cheirava a tinta e surgia como uma miragem refletindo um inimaginável progresso material. Lembrava mais Los Angeles do que uma metrópole asiática. A sensação de riqueza reforçava minha preocupação com o táxi. Aquilo ia me custar uma fortuna. Somente depois de uma meia hora de dúvidas, chegamos ao Hotel Golden Era. O táxi custou 27 iuanes – pouco mais de três dólares – e eu nem fiz questão do troco. Estava vencida a primeira batalha na capital chinesa.

A segunda batalha começaria no dia seguinte, um sábado. Eu estava em Pequim, desta vez, com um único objetivo: embarcar para a Coréia do Norte, que é considerada como o país mais fechado do planeta. Para se chegar à Coréia do Norte é necessário uma passada obrigatória na China, sobretudo para se conseguir uma forma de transporte até Pyongyang. No sábado de manhã, caí em campo para tentar comprar uma passagem no trem que partiria na segunda-feira à tarde em direção a Dandong, na fronteira da China, seguindo depois ate Pyongyang. Fui ao local mais apropriado para estrangeiros poderem comprar passagens: uma agência do Serviço de Viagens Internacionais da China, a CITS, no Beijing International Hotel. Apesar do padrão luxuoso do hotel, localizado na moderníssima avenida Jianguomennei, o serviço na CITS ainda é soviético. Um atendente que não falava inglês me informou bruscamente, e de má vontade, que não havia passagem à venda. Tudo esgotado. Passagem só com um mês de antecedência. Um burocrata norte-coreano, que panava para conseguir seu bilhete para uma data posterior, me confirmou:

- É muito difícil conseguir passagem de trem. Por que você não tenta o avião ?

por Marcelo Abreu

+ AQUI

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Dean Moriarty


Fui apresentado recentemente, através da leitura do clássico “on the road”, a Dean Moriarty, um daqueles personagens eternos e fascinantes que povoam a história da literatura mundial, digno de ocupar o mesmo panteão onde estão Ahab, de “Moby Dick”, Raskólnikov, de “crime e castigo” e a nossa Emilia, do “Sítio do Pica-pau amarelo”, dentre outros. Baseado na figura real de Neil Cassady, escritor "beat", ele é o rolo compressor incansável atrás do qual está sempre o autor da narrativa, Jack Kerouak, aqui atendendo pela alcunha de Sal Paradise.

Lendo o livro, uma pergunta não me saía da cabeça: Como diabos não fizeram ainda um filme adaptando esta história? O papel de Dean Moriarty já teria um dono certo, a meu ver: Dennis Hopper. Era a imagem dele que me vinha a mente sempre que o texto discorria sobre aquele maluco sedutor irresistível que todos sabiam ser um canalha mas quase ninguém conseguia odiar, ou mesmo evitar. Uma daquelas pessoas que possuem uma personalidade magnético em torno da qual gravita um séqüito de seguidores devotados, e o mais célebre e devotado deles era, justamente, Jack kerouak/Sal Paradise.

Tarde demais: Hopper já morreu. Mas os planos de uma adaptação para o cinema seguem vivos, desta vez num projeto confuso que está nas mãos do cineasta brasileiro Walter Salles. Reza a lenda que as filmagens já terminaram e o filme entrará em cartaz no ano que vem. No papel de Dean, um tal de Garrett Hedlund. Sua namorada (e amante de Sal), Marylou, será vivida por Kristen Stewart, a “Bela” da saga Crepúsculo. Seja lá o que Deus quiser ...

“On the road”, que recebou o subtítulo “pé na Estrada”, no Brasil, é um relato das viagens do alter ego de seu autor pelas rodovias norteamericanas no final dos anos 40 e início dos anos 50. Tudo gira em torno de Dean, pelo qual Sal, o narrador, é absolutamente fascinado. É Dean que o tira da letargia da vida pacata e monótona de classe média na costa leste para cair na estrada, sempre rumo ao oeste, do atlântico ao pacífico, à toda velocidade em carros possantes nem sempre adquiridos de forma legal – Dean é um ladrão habilidoso. É também um louco, que não hesita em abandonar seus amigos e companheiras nas piores situações quando lhe dá na telha, para reaparecer do nada algum tempo depois e voltar a seduzi-los com a promessa de novas aventuras. É assim durante toda a narrativa. Dean Moriarty parece incansável, e Sal Paradise está sempre na sua cola.

Não foi assim na vida real, evidentemente. Chegou uma hora em que Kerouac, aparentemente, cansou. Normal: (quase) todo mundo cansa. De tudo. Cansou da estrada e de tudo o que sua célebre obra-prima literária provocou: uma verdadeira revolução comportamental que culminou no verão do amor hippie e, posteriormente, no niilismo da “geração x”, aquela que não tinha futuro. Desiludido e solitário, foi morar com a mãe em Long Island. Sob a influência da matriarca, o vigor deu lugar ao cansaço e o escritor que inspirou os loucos e rebeldes de todo o mundo (ocidental, principalmente) revelou-se um católico conservador resmungão cuja vida resumia-se a sentar no sofá o dia inteiro assistindo a programas de auditório pela TV. Morreu cedo, aos 47 anos, na Florida, para onde se mudou com a última esposa e a mãe.

Já Neal Cassady eu não diria que "cansou", mas certamente tentou, em vários momentos, atender aos apelos de suas companheiras e levar uma vida mais sossegada, mais equilibrada, mais responsável, enfim - afinal ele tinha filhos para criar. Mas nele o apelo da estrada parecia ser mais forte, portanto continuou sua saga alucinada e chegou a se unir, nos anos 60, aos célebres Merry Pranksters, um grupo de amigos que percorria os Estados Unidos divulgando seus experimentos com LSD. Morreu em 1968, em decorrência de uma mistura fatal de drogas e álcool, logo após sair de uma festa de casamento.

por Adelvan

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

5 Anos sem Joacy Jamys

Nunca encontrei Joacy Jamys pessoalmente, mas ele era meu amigo. Amigo à distancia de uma época pré-internet, quando nos comunicávamos via correio ou telefone. Trocamos várias longas cartas e alguns igualmente longos telefonemas, nos quais falávamos dos nossos interesses em comum e também de nossas discordâncias num clima de camaradagem, sem estresse. Os assuntos em comum eram geralmente o rock underground e os quadrinhos. As divergências ficavam no campo político: ele era um punk anarquista convicto e eu um simpatizante do PT.

Jamys era um artista “underground”, portanto pouco conhecido na chamada “grande mídia”, mas bastante reconhecido no cenário alternativo dos quadrinhos e do movimento punk. E foi justamente quando eu comecei a me aventurar por estas paragens inóspitas que o conheci : ele já era um veterano quando eu estava dando meus primeiros passos. Adorava receber seus zines, tanto as voltados para a musica, como o “Sociedade dos Mutilados”, quanto os dedicados aos quadrinhos, como o “Legenda” e o “Singularplural”. Admirava muito sua competência e consistência, apesar da eterna tosquice. Sim, porque as cópias de suas publicações e as gravações das bandas das quais participava eram sempre toscas, mas por trás daqueles ruídos quase inaudíveis e daquelas páginas xerocadas em máquinas vagabundas havia muito conteúdo – especialmente os desenhos, sempre muito bons, com um traço sinuoso e elegante. Das bandas, confesso que não gostava muito. A que mais me agradou foi a Última Marcha, a última (sic) da qual participou. Já a Estrago e a Terror Terror eram “feijão com arroz” demais, aquele punk rock panfletário musicalmente pobre e clicheroso até a medula. Nunca deixei, no entanto, de admirar sua persistência e convicção de idéias, algo sempre importante, especialmente nesses tempos confusos em que vivemos.

Joacy morreu há exatos 5 anos, no dia 16 de dezembro de 2006. Era carioca de nascença (1971) mas radicado no Maranhão desde os 14 anos. Em seus 35 anos de vida deixou um currículo lotado de Quadrinhos modernos e música revoltada, além de exemplos de solidariedade, generosidade e, sobretudo, muita atitude. Viverá para sempre na memória e no coração de todos os que o conheceram.

Abaixo, uma entrevista conduzida em 2004 por Ademir Pascale para o site Cranik:

Ademir Pascale: O que você acha do Gênero Fantasia-Fantástica nos dias atuais?
Joacy James: Quase não existe mais a produção no Brasil. Depois da Art &Comics, muitos de nossos artistas enveredaram e adaptaram suas HQs para tentar uma chance no mercado dos Estados Unidos. Muitos zineiros novos seguiram (e seguem) esta meta, sempre tentando fazer trampos voltados para conseguir um contrato (de escravidão, na maioria das vezes, servem de mão-de-obra barata do Terceiro Mundo, da globalização, pois o tal mercado paga bem abaixo do valor real para artistas estrangeiros). Porém, outros muitos continuam firmes, inclusive os “novatos”. O mangá também invadiu o mundo, mexeu até com o mercado europeu. A gurizada se vicia nisto tentando adaptar culturas que não compreendem/vivem. A própria fantasia-fantástica é da escola franco-belga, Moebius, Caza e tal. Foi minha influência no começo quando adolescente. Mas, fiz uma adaptação para minha realidade e eles reconheceram isto lá, quando comentavam meus trabalhos na Europa. A fantasia-fantástica perdeu muito de seus expoentes no Brasil. Mas, outros continuam produzindo outras linhas autorais e expressionistas, como Andraus e Edgar Franco. Contudo, a Fantasia quase não se tem mais desenhistas fazendo, eu mesmo estou produzindo aos poucos. Adoro este gênero. Também existem outros gêneros/linhas que foram perdendo sua força, como fazia Alberto Monteiro, Ricardo Borges, Hermuche e outros.

Ademir Pascale: Poderia comentar sobre o Zine Legenda?
Joacy James: Ele é o primeiro de quadrinhos no Maranhão e ainda resiste. Desde 1990, seguiu a linha editorial autoral, onde um autor tem uma coletânea de seus trabalhos e a apresenta. Depois lancei o Legenda Comix, que segue a linha mista, HQs nacionais e estrangeiras (não pirateadas, mas que autores enviam), notícias, entrevistas, artigos etc. O mais atual é o nº 27, com coletânea de meus trabalhos chamada “Canciones de sangre”, só HQs na linha existencial, tristes...muitas inéditas.

Ademir Pascale: E o que você diz sobre a primeira edição de quadrinhos pós-modernos Brasileiros?
Joacy James: O Flávio Calazans sempre está incentivando e estudando, pesquisando e dando conceitos sobre trabalhos que acha interessante. Isto é bom. Vejo que ele sempre teve uma atenção com meus trampos. Quando lancei o “Legenda 20 – Contos Fictícios”, que reuniu em 1990, 20 HQs desta série de fantasia-fantástica, ele tratou-a como “pós-moderno”. Este zine está entre os três principais títulos publicados até hoje no Brasil, ao lado de “Psiu Mudo” (Edgar Guimarães) e “Guerra das Idéias” (Calazans), tem outros ainda que não podem ser esquecidos como “Psiu Mudo” e “Psiu Ecologia”. É uma pena não termos mais iniciativas editoriais como estas, de grandes zines que realmente mudam coisas, que infincam idéias e mostram que há trabalhos inteligentes com quadrinhos de qualidade. Lembro ainda das edições do Henrique Magalhães, do Worney , do Calazans e Edgard Guimarães. O Legenda 20 – Contos Fictícios, ainda virou material de estudo na USP e UFMS. Em breve estarei lançando a 2ª parte desta minha série, que chegam a 35 HQs, publicadas em diversos zines brasileiros e Portugal.

Ademir Pascale: Como surgiu o grupo “Singularplural”?
Joacy James: Reunião de alguns adolescentes e fanzineiros em 1989, que queriam não só ficar produzindo quadrinhos e zines, mas montar uma associação. Como tínhamos poucos autores, o jeito foi criar um grupo, como propôs o Iramir. Desde 1991, a formação mudou muito, primeiro foi o nome Grupo de Risco para Singularplural Quadrinhos (Singularplural era o nome do zine do Grupo de Risco, que na verdade foi um “marco”, digo porque publicava mais de 25 quadrinhistas por edição e foi o primeiro a divulgar o cenário de quadrinhos, eventos e grupos do mundo no Brasil – não existia internet! Tudo pesquisado por mim...êta, como não tenho modéstia! Desculpem estas falhas humanas. Veja quantas citações o Henrique Magalhães fez em seu livro “Rebuliço Mundo dos Fanzines” (desculpe se o título certo não é este). Abria os capítulos sobre “fanzines” com citações em matéria publicada em nosso zine. Mais de uma década depois, ele lembra disso.

Ademir Pascale: Além de produzir quadrinhos e ilustrações, você ainda é vocalista da banda anarcopunk Última Marcha, e mantém a distribuidora/selo “Grito Punk Prod”, também organiza eventos de quadrinhos e shows punks. Como você organiza todas essas tarefas no seu dia-a-dia?
Joacy James: Ainda tenho família e trampo o dia inteiro. Todos sempre perguntavam sobre isso do meu tempo e conciliação. Digo que é teimosia e insatisfação. Insatisfeito em ficar parado, em não poder somar com nada. Quando tudo isto vira sua vida, fica mais fácil e prazeiroso em fazer. Você não se cansa. Além do que citou, ainda colaboro com zines (e agora sites), faço diversos sites, respondo trocentas cartas do Brasil e exterior, produzo quadrinhos, cartuns, fanzines, revistas e ainda bebo cachaça com os(as) amigos(as) no final de semana.

Ademir Pascale: Poderia comentar sobre os concursos e exposições no qual participou e ainda participa?
Joacy James: Ganhei Menção Honrosa no Concurso de Carlos Barbosa/RS (HQ) e Mostra de Humor do Maranhão (cartum). Participei de exposições em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Maranhão, Piauí, Portugal, Cabo Verde e etc. Sejam exposições de quadrinhos, cartuns e zines.

Ademir Pascale: Fiquei sabendo que você já Publicou na Espanha, Dinamarca, Portugal, França, Polônia entre outros lugares. Como o seu trabalho é visto fora do Brasil? Quais são os comentários dos críticos?
Joacy James: sempre recebo bons comentários. Agora mesmo, o editor da Atomik (França) elogiou bastante uma tira que publicou na revista dele em 1995! Disse que surtiu ótimo efeito entre os leitores. Com a fantasia-fantástica, produzi muitas HQs sem diálogos, ficando fácil publicar no exterior. Algumas HQs são em inglês e espanhol. A PLG (uma das maiores associações de quadrinhistas franceses),tratou meus trabalhos como o “Moebius” brasileiro. Sempre mantive bons contatos com os estrangeiros e tive diversos trabalhos lá, até um especial em Portugal. Também sempre enviei trabalhos de brasileiros para o exterior, eles adoram. Preferem raízes, não adaptações de mangás e super-heróis, todos cansam disso. Olha que gosto de muitos mangás e super-heróis melhores produzidos (atual Demolidor e Hulk, por exemplo).

Ademir Pascale: Qual é a sua visão dos desenhistas nos dias atuais no quesito “criatividade”?
Joacy James: meio à meio. Temos ótimos quadrinhistas e argumentistas. O pessoal evoluiu muito, falando sério. Invejo muitos jovens que estão arrebentando. Aqui em São Luís mesmo, tem um pessoal novo que detona. Até o pessoal que está produzindo super-heróis e mangás, estão bons. Infelizmente, muitos se pasteurizaram, ficando bonitinhos demais e estão atolados em temas que não somam com nada, transformando ARTE em apenas PRODUTO. O Brasil está cheio de artistas-produtos, preocupados com elogios e status em grupos fechados. Mas, tem outros que mantém trabalhos coerentes e interessantes. Veja o pessoal da revista Graffiti (MG), Front (SP), Ragú (PE), Fúria (MA) e outros. Tem gente boa por aí, sim. Veja os sites. Tem coisas bem trabalhas e produzidas.

http://www.cranik.com/entrevista10.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Goiânia Noise

(recordar é viver) Sempre tive bons contatos e ainda melhores amigos em Goiânia e, muito por conta disso, nutria desde tempos imemoriais uma vontade de, um dia, aparecer por lá. Aconteceu, finalmente, em novembro de 2003, aproveitando a data para conferir, “in loco”, mais uma edição do Goiânia Noise Festival – minha primeira e, pelo menos por enquanto, última vez.
Era bem mais barato ir daqui (Aracaju) pra São Paulo e de lá para Goiânia, então foi o que fiz, me programando para, já que teria que passar por lá mesmo, ficar uma semana (das duas que tinha disponíveis) na terra da garoa. Não sem antes fazer uma volta absurda, parando primeiro em Maceió e depois em Petrolina, Pernambuco (o aeroporto de Petrolina parecia um sítio, apenas uma casinha no meio de um descampado)! Coisas da finada BRA ...
Não conhecia absolutamente nada de Goiânia, por isso entrei na net para pesquisar pontos turísticos e coisa e tal. Não achei praticamente nada, a não ser uma estátua de Ananhguera* que parece ser, realmente, um ponto de referência. Bom, pelo menos eu senti que estava finalmente na capital de Goiás ao me ver em frente ao referido monumento.
O centro da cidade é interessante, lembra um pouco Aracaju no sentido de haver uma curiosa mistura de cidade grande com aquele clima de interior: num momento você está numa avenida enorme e movimentadíssima cercade de prédios, mas então vira uma esquina e se depara com uma rua só de casas onde as pessoas ainda se sentam na porta para conversar. É legal isso. É aconchegante, como aconchegante foi o hotelzinho 5 cruzes onde eu me hospedei até conseguir finalmente entrar em contato com meu camarada de longa data Marcio jr., na casa de quem ficaria.
Aproveitei para freqüentar dois cinemas de rua que ainda existiam por lá – sempre aproveito essas viagens para ver filmes em cinemas de rua nas cidades que porventura ainda os tenha. Vi a parte final de “Matrix” em um e o filme d’Os Normais” em outro. Nada de muito incrível, nem os filmes, nem os cinemas, mas tava valendo. O que mais me impressionou, no entanto, foi a incrível quantidade de sebos, de livros e de discos, que havia na cidade. Até me arrependi de ter gastado quase toda a minha grana em Sampa, já que vi coisas bem mais interessantes e, mais importante, mais baratas, por lá.
Mas vamos ao festival: Lá vi, pela primeira vez, o Matanza, ainda não tão famoso. Grande show. Grandes shows também fizeram o Relespública, de Curitiba; Os Astronautas, de Recife; o Mukeka di rato, do Espírito Santo (este com direito à presença de uma vaca cenográfica que eles capturaram de um depósito ao lado no palco); Walverdes, de Porto Alegre, e Autoramas, do Rio. Das bandas locais destacaria O Mechanics, que são sempre bons, especialmente ao vivo, Hang The Superstars e MQN. O MQN foi mais que bom, foi ótimo – Fabrício Nobre é um ótimo performer e tem o público na mão. Me lembro da preocupação dele com um gordinho (maneira de dizer, o cara era OBESO, MUITO GORDO) do publico que, me parece, teve um ataque cardíaco durante o festival ...
Já excelentes foram os shows do Ratos de Porão, dos Retrofoguetes, de Salvador – estes são sempre ótimos, é até covardia comparar – e, principalmente, do Guitar Wolf, legendária formação de garage rock do Japão. Merecem, inclusive, um parágrafo à parte ...
Não foi bem um show, foi uma perfomence regada e muito barulho e insanidade. Os caras, pelo que lembro, praticamente não tocaram nenhuma musica inteira - apenas começavam algum riff e partiam pra ignorância, para a microfonia pura e simples, se contorcendo e se jogando no palco e/ou oferecendo os instrumentos para que o publico tocasse, no que foram atendidos diversas vezes. Musicalmente caótico, mas valeu pela catarse coletiva. Foi divertido. Aliás, os caras são muito divertidos: São rock and roll até a medula! Saí com eles e uma galera pra bater um rango num boteco depois do show e ficava impressionado com o cuidado que eles tinham com os topetes e com a quantidade de fotos que os pessoas que os acompanhavam tiravam. Era foto de tudo: do cardápio do bar, dos copos, das mesas, dos pés, do cachorro que passava pela rua ...
Um registro: vi também o Mundo Livre S/A, e foi estranho ver o Mundo Livre S/A fora do Recife, ou do nordeste. Mas de repente não foi nem isso, já que o Mundo Livre é meio estranho mesmo: às vezes fazem shows sensacionais, outras vezes nem tanto. Foi lá também, no Jóquei Clube de Goiás, uma das ultimas vezes em que eu caí no pogo, ao som do crustcore preciso dos candangos da Terror Revolucionário, banda capitaneada pelo herói da resistência Fellipe CDC, meu amigo de longa data. Foi muito bom revê-lo, assim como foi rever Renzo (com o qual esbarrei em plena roda de pogo) e Phu, ex-DFC. Perguntei pelo Túlio e Phu respondeu que “Túlio é playboy, não vem pra esses rocks não”.
Foi muito bom também rever, mesmo que brevemente, meu amigo de fé, irmão e camarada Oscar F., hoje Fortunato, artista plástico conceituado na cidade. E conhecer pessoalmente, finalmente, alguns grandes correspondentes dos tempos das cartas e zines, como o (então) casal Eduardo e Lorena D’Allara, dos Resistentes – que também tocaram no festival. Eduardo era impressionante, uma verdadeira enciclopédia viva de punk rock nacional. Era também meio esquisito, tinha uns tiques nervosos com sanduíches com maionese, por exemplo, mas normal. “De perto, ninguém é normal”, já dizia Caê.
Bem legal também participar dos bastidores do evento – Almoçar arroz de pequi com pimenta com os Retrofoguetes, relembrar o Punka com Gabriel do Autoramas, os tempos do rock alagoano com Wado (que eu não lembrava que eu já conhecia do tempo em que andava por lá com os caras da Living In the Shit), ouvir as merdas do Finatti e as reclamações do Gordo do Ratos - especialmente quanto à viagem de avião, que também foi pela BRA. De “quebra”, me batí com Pompeu, do Korzus, que era técnico de som do Ratos, e com Juninho, o baixista, que me reconheceu e foi logo cantando algumas singelas composições da minha banda de grindcore pornográfico, a 120 Dias de Sodoma, que ele havia conhecido algum tempo antes quando havia tocado aqui em Aracaju com a Discarga.
Amanhã começa mais uma edição do Goiânia Noise. É a décima sétima (a que eu fui foi a nona). Não vai dar pra mim, mais uma vez, mas tenho saudades. Qualquer dia apareço de novo por lá ...
por Adelvan
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* Goiás tira seu nome dos extintos índios Goyazes, que eram considerados bonitos, de pele clara, acolhedores e de trato ameno. E por isso mesmo tomaram na tarraqueta. Os Goyazes dominavam uma grande região às margens do Rio Araguaia. Viviam tranqüilos, pescando e dormindo. Até que lá pelo século XVII, atrás de ouro, pedras preciosas e escravos, chegaram os bandeirantes paulistas. Em 1647, o sanguinário Manuel Correia encontrou ouro em quantidade considerável na terra dos Arais. Regressou a São Paulo levando uma penca de índios, que eram torturados das formas mais absurdas.
Sabendo do ouro e das índias bonitonas, outros bandeirantes sanguinolentos despencaram para cá: Francisco Lopes Benevides, Francisco Ribeiro de Morais, Jerônimo Bueno, João Martins Heredia, Antônio Ribeiro Roxo, entre outros elementos de pouca cultura e moral.
Tentaram alcançar o cerradão. Mas cobra, onça, índio bom de flecha, mosquito, enfermidades e o calor insuportável desviaram essa corja rumo ao Pará, Pernambuco e Bahia. Outros foram para o Sul. E alguns, sem querer, acabaram voltando para São Paulo. E os Goyazes haviam tirado o seu da reta por mais um tempo.
Até que em 1682, o malcheiroso Bartolomeu Bueno da Silva resolveu seguir o rastro deixado por Manoel Correia, trazendo seu filho infelético de mesmo nome. Bartolomeu era sobrinho do nefando Amador Bueno, irmão de Jerônimo Bueno, o qual a indiada encheu de flechas, à beira do rio Taquari.
O safado alcançou o Rio Vermelho, onde travou contato com os Goyazes, que lamentariam para sempre aquele encontro. Aquela estória de colocar fogo em um prato cheio de aguardente para forçar a indiada abrir o bico e falar onde estava o ouro é atribuída, segundo o historiador Pedro Taques, ao bandeirante Pires Ribeiro, sobrinho de Fernão Dias Paes Leme. Afirma ele ainda que o apelido Anhanguera se deva a outra razão. Imaginem: os Goyazes, lá no meio do mato, pescando e nadando com suas índias formosas. Aparece um homem fedorento, cabeludíssimo, coberto de piolhos e com um dos olhos furados. Não deu outra, acertaram-lhe a alcunha.
Primeira coisa que o biltre fez foi jogar os Arais contra os Goyazes, aprisionar um monte de índios e voltar para São Paulo.
1722. Lembram do Anhanguerinha? Pois é, o sifilítico junto com João Leite da Silva Ortiz, comandando cem homens, seguindo o caminho do pai, descobriram os rios: dos Pilões, Corumbá, das Almas, Rico e da Perdição. Uma centena de homens rudes e violentos no meio do mato não poderia acabar bem. Brigas, ataques dos Caiapós e enfermidades deixaram um monte de paulistas no meio do caminho. Os que voltaram levaram ouro que não dava para cobrir os gastos da expedição. Ainda assim, três anos depois, o piolhento Anhanguera Júnior chegou ao Rio Vermelho. Dois índios velhos o reconheceram e o caldo entornou. Controlada a situação com os nativos que queriam vingança, fez um trato com os índios, que liberaram seus homens a fornicarem com as índias. Resultado? Além dos filhos feios, fundaram os arraiais de Santana, Barra, Ferreira e Ouro Fino. Voltando a São Paulo, mostrou, ao então Governador Antônio da Silva Caldeira Pimentel, tanto ouro que o safardana financiou uma nova expedição.
A Ordem Régia de 14 de março de 1731 outorgou ao Anhanguerinha, filho de meretriz portuguesa, a patente de Capitão-mor e governador das terras por ele descobertas. Começou então a chegar todos os tipos de patifes, ladrões e gente de quinta categoria, atrás de ouro e das índias. Fundaram as povoações de Meia Ponte, Santa Cruz e Orixá. Sendo Goiás longe dos grandes centros, tinham ouro mas não tinham o conforto das cidades. Viviam miseravelmente, cobriam-se com trapos. Entregaram-se ao vício da bebida, ao roubo, mataram os Goyazes dizimando uma boa parte de seus compatriotas.
Em 11 de fevereiro de 1736, uma Ordem Régia tornou Goiás comarca dependente de São Paulo. Nomeou Agostinho Pacheco Teles primeiro Ouvidor-Geral. Pouco depois, Antônio Luís de Távora, então governador paulista, elevou o povoado à condição de vila passando a se chamar Vila Boa. Mas o pau continuava quebrando e os poucos Goyazes que restaram comeram o pão que o diabo amassou na mão dos novos mandatários. Em 1739, Luis de Mascarenhas instalou o Senado da Câmara, construiu uma igreja, uma cadeia e uma forca que era “um monumento de pronta justiça que intentava fazer nos malfeitores”. Os mais chegados à confusão, arrumaram as trouxas e subiram para o Norte.
Um alvará de oito de novembro de 1744 tornou Goiás independente. D. Marcos de Noronha, o tal de Conde dos Arcos, foi o primeiro governador e Capitão-General da nova capitania, em 1749. Seguiram-se a ele vários governantes que mantiveram a política de extermínio aos índios. João Manuel de Melo, José de Almeida Vasconcelos e Tristão da Cunha Menezes. Esse último expulsou os Caiapós das terras onde viviam desde antes do Descobrimento. Socaram o cacete nos Xavantes, que fugiram para selva e lá ficaram isolados por muito tempo.
Durante o século XVIII, acharam mais ouro e diamantes nas lavras de Cocal, Tesouras e Fundão. A casa de fundição, que funcionava em São Félix, mudou-se para Cavalcanti, em 1798. Dezesseis anos depois, uma nova Carta Régia transformou a então Vila Boa de Goiás em cidade. Luís da Cunha Menezes, urbanista, alinhou as ruas, construiu pontes, criou as milícias, “pacificou” os Caiapós e começou a dar os contornos atuais de nosso Estado.
Em nove de novembro de 1942, uma estátua de corpo inteiro foi erguida no cruzamento das avenidas Goiás e Anhanguera, criação do artista plástico Armando Zago, com a inacreditável inscrição “à nobre estirpe dos Bandeirantes”. Essa homenagem a esse ASSASSINO permanece lá, envergonhando um Estado inteiro. Existem tentativas de substituir o abominável genocida por uma estátua de Atílio Correa Lima, esse sim merecedor de justa homenagem. A praça do Bandeirante, na verdade, se chama Praça Atílio Correa Lima.
por Oscar Fortunato
Fonte: Plus galeria

sábado, 26 de novembro de 2011

O ódio

O flagrante orbitou pelo mundo. E o rosto de uma adolescente de 15 anos tornou-se a imagem oficial da intolerância racial na América.

Ódio revisitado

por Dorrit Harazim
na piauí

Nada mais fugidio e elusivo do que o “momento decisivo” perseguido e fotografado por Henri Cartier-Bresson ao longo da vida – aquele que define a essência de uma situação. Não raro, esse instante se apresenta sem avisar. Com frequência, sequer é percebido por quem o captou.
Cinquenta e quatro anos atrás, um jovem fotógrafo do Arkansas Democrat conseguiu encapsular um desses momentos com sua primeira Nikon S2, máquina da era pré-digital. Carregou a máquina com um filme Kodak Plus X, ótimo para manhãs ensolaradas de final de verão, e foi cobrir o primeiro dia de aula de um grupo de estudantes negros na maior e melhor escola média de Little Rock. Esse pedaço de história ficou gravado no negativo de número 15.

WASP
Eram apenas nove os jovens negros selecionados pela direção do principal colégio da cidade, o Central High School, para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. Segundo David Margolick, autor do recém-publicado Elizabeth and Hazel: Two Women of Little Rock (ainda inédito no Brasil), a peneira foi cautelosa. A busca se concentrou em colegiais que moravam perto da escola, tinham rendimento acadêmico ótimo, eram fortes o bastante para sobreviver à provação, dóceis o bastante para não chamar a atenção e estoicos o suficiente para não revidar a agressões. Como conjunto, também deveria ser esquálido, para minimizar a objeção dos 2 mil estudantes brancos que os afrontariam.

Assim nasceu o grupo que entraria na história dos direitos civis americanos como “Os Nove de Little Rock”. Eram todos adolescentes bem-comportados, com sólidos laços familiares, filhos de funcionários públicos e integrantes da ainda incipiente classe média negra sulista. Entre eles, a reservada Elizabeth Eckford, de 15 anos.

Os pais dos nove pioneiros foram instruídos a não acompanharem os filhos naquele 4 de setembro de 1957, pois as autoridades temiam que a presença de negros adultos inflamasse ainda mais os ânimos. Por isso, os escolhidos agruparam-se na casa de uma ativista dos direitos civis e de lá seguiram juntos para o grande teste de suas vidas. Menos Elizabeth, que não recebera o aviso para se encontrar com os demais e partiu sozinha rumo a seu destino.

e longe ela avistou a massa de alunos brancos passando desimpedidos pelo cordão de isolamento montado pela Guarda Nacional do Arkansas. Ao tentar fazer o mesmo, foi barrada por três soldados que ergueram seus rifles. Elizabeth recuou, procurou passar pela barreira de soldados em outro lugar da caminhada e a cena se repetiu. Alguém, de longe, gritou “Não a deixem entrar” e uma pequena multidão começou a se formar às suas costas. Foi quando Elizabeth se lembra de ter começado a tremer. Com a majestosa fachada da escola à sua frente, ela ainda fez uma terceira tentativa de atravessar o bloqueio em outro ponto do cordão de isolamento.

Como pano de fundo, começou a ouvir invectivas de “Vamos linchá-la!”, “Dá o fora, macaca”, “Volta pro teu lugar”, frases proferidas por vozes adultas e jovens. Atordoada, dirigiu-se a uma senhorinha branca – a mãe lhe ensinara que em caso de apuro era melhor procurar ajuda entre idosos. A senhorinha, porém, lhe cuspiu no rosto.

Como não conseguisse chegar à escola, a adolescente então tomou duas decisões: não correr (temeu cair se o fizesse) e andar um quarteirão até o ponto de ônibus mais próximo. Um aglomerado de cidadãos brancos passou a seguir cada passo seu. Imediatamente às suas costas vinha um trio de adolescentes, alunas do colégio. Entre elas, Hazel Bryan.

“Vai pra casa, negona! Volta para a Á”– clic– “frica!” Segundo o autor do livro centrado no episódio, foi este o instante em que a câmera de Will Counts captou a imagem que se tornaria histórica.

Hazel, de quinze anos e meio, não carregava qualquer livro escolar. Apenas uma bolsa e um inexplicável jornal. Ela não planejara nada para aquela manhã. Vestira-se com o esmero que era sua marca – roupas e maquiagem ousadas para uma adolescente daquela época – e arvorou-se de audácia ao ver tantos fotógrafos e soldados da Guarda Nacional. Nada além disso. O resto pode ser debitado à formação que recebera em casa – família de origem rural, ideário fundamentalista cristão, atitude racial aprendida com o pai.

foto que correu mundo e fez a alegria da União Soviética naquele auge da Guerra Fria é tudo, menos estática. Ela fala, grita, tem vida e movimento. Mostra Elizabeth num vestido de algodão feito em casa, estalando de branco, com um fichário e um livro apertados contra o peito e medo escondido por óculos escuros. Em meio à massa de brancos que a seguem, Hazel. Olhos e sobrancelhas franzidos, a boca aberta contorcida pelo ódio e pela raiva. Foi assim que Elizabeth e Hazel se “encontraram” sem se conhecerem. E é o que as manteve ligadas, ora contra, ora por vontade própria, por mais de cinquenta anos.

Assim como Hazel se converteu na imagem oficial da intolerância, a caminhada solitária de Elizabeth virou bandeira para toda uma geração de atletas, advogados, professores negros decididos a não recuar. Décadas depois do episódio, Bill Clinton, que governou o mesmo Arkansas nos anos 80, admitiu o quanto a foto fez com que ele acertasse seu compasso moral.

Em seu livro sobre essas duas vidas, o jornalista David Margolick responde a todas as perguntas que a foto deixa suspensas, e vai além. Editor da revista Vanity Fair, ele já havia escrito Strange Fruit – The Biography of a Song, a canção que Billie Holiday imortalizou em 1939 e que já expunha o racismo e denunciava os linchamentos de negros.

O episódio daquela manhã de 1957 levou Little Rock à combustão e convenceu o presidente Dwight Eisenhower a enviar tropas da 101ª Divisão Aerotransportada para assegurar a integração escolar decidida três anos antes pela Suprema Corte. Ironicamente, Hazel e Elizabeth jamais chegaram a se cruzar nos corredores da Central High School, pois os pais da menina branca, assustados com a repercussão da foto, preferiram trocá-la de escola. Mas “Os Nove de Little Rock”, uma vez admitidos, viveram anos de pavor. Semana após semana, foram alvo de agressões – desde cusparadas a cacos de vidro no chão do chuveiro na hora do banho. Elizabeth, primeira a ser empurrada escadaria abaixo, só teve o rosto preservado por ter usado como escudo o mesmo arquivo que segura na foto.

ali em diante, em plena era Kennedy dos anos 60, Hazel, a garota branca, seguiu seu destino. Abandonou o colégio, casou-se aos 17 anos, teve três filhos, morou em trailers, partiu de Little Rock e fez paradas temporárias em atividades tão distintas como apresentações de dança do ventre e trabalho voluntário junto a crianças carentes negras. De volta a Little Rock, despencou para perto da linha da pobreza e era vista como um fantasma a rondar o passado de violência da cidade. Decidiu então ir ao encontro de seu indesejado papel na história americana e embarcou em ações sociais e ativismo comunitário.

Elizabeth, enquanto isso, passou cinco anos servindo no Exército, mas conseguiu formar-se em história pela Universidade do Estado de Ohio. Mãe solteira de dois filhos e recorrendo ao auxílio-desemprego nos anos 80, beirou a depressão. Um de seus filhos, também depressivo, acabou sendo morto por um policial ao sair dando tiros pela rua.

Somenteem 1997 as duas mulheres, então com 55 anos de idade, se encontraram de verdade. A ocasião foi um evento, com novo espocar de flashes e publicidade: o 40º aniversário da fatídica manhã de 4 de setembro de 1957. Várias décadas antes, Hazel conseguira localizar Elizabeth pela lista telefônica, tomou coragem e discou o número para pedir desculpas. Elas foram aceitas sem, contudo, entreabrir qualquer contato pessoal.

Foi por ocasião do evento comemorativo de 1997 que as duas mulheres estabeleceram um tênue laço. Participaram de um seminário sobre questões raciais, deram palestras, foram entrevistadas por Oprah Winfrey. Chegaram a cogitar escrever um livro a quatro mãos. E posaram também, desta vez lado a lado, para nova foto feita pelo mesmo Will Counts. Nela, as duas aparecem sorrindo em frente ao portal da Central High School, e a imagem acabou sendo transformada num pôster intitulado “Reconciliação”. E quando a sessão de fotos se encerrou, com ambas já fora de enquadramento, as duas mulheres iniciaram uma tentativa de amizade.

À medida que Elizabeth foi ganhando em autoestima, porém, ela voltou a tomar distância de Hazel. A bordo do cargo de oficial de justiça e agraciada com uma Medalha de Ouro do Congresso, ela foi se tornando mais exigente, mais crítica, menos disposta a oferecer perdão em nome de um final feliz. Desconfianças antigas reemergiram e quando o episódio completou meio século, em 2007, a relação tinha azedado de vez. Naquele ano, Elizabeth acusou Hazel de se esconder atrás de uma confortável amnésia sobre o incidente – ela havia descoberto que a adolescente branca mantivera contato o tempo todo com os alunos da escola que infernizaram a vida dos nove negros, e que Hazel fazia parte de um grupo organizado que os atacava fisicamente.

Hazel, por seu lado, mantém até hoje que naquela manhã de 54 anos atrás ela não pestanejou nem se sentiu mal. Para o autor de Two Women [Duas Mulheres], em momento algum ela achou ter feito algo errado. Ou inusitado. Ou que marcaria a sua vida para sempre. Ela estava apenas traduzindo o que ouvira em casa durante quinze anos.

Ambas chegam à terceira idade cansadas de dar palestras e entrevistas que apenas reavivaram ressentimentos e frustração – Hazel diz que não aguenta mais pedir desculpas; Elizabeth sustenta que sua nêmesis, no fundo, sequer sabe do que está se desculpando. “Elizabeth só então se deu conta do quanto de amargura carregava no peito, e o quanto de raiva e ódio a haviam paralisado”, escreveu Margolick. E conclui: “Ela sempre teve melhor formação e foi mais intelectualizada do que Hazel, mas Hazel acabou mais bem ajustada no seu entorno social.”

Segundo o autor, novas barreiras substituíram as antigas e o embrião de amizade acabou sendo solapado pelas mesmas fissuras e incompreensões que continuam a permear as relações raciais nos Estados Unidos. Margolick vai além do simples acompanhamento das duas mulheres idade adentro. Ele amplia a narrativa, torna-a mais complexa. As vidas entrelaçadas de Elizabeth e Hazel servem de metáfora para o país, sem soluções fáceis para um impasse moral dessa grandeza.

Elizabeth não se dispôs a entrar na Central High School em 1957 para fazer amizades. Ela sentou nos bancos da escola segregada para quebrar as barreiras legais e institucionais que negavam aos negros americanos oportunidades iguais. Hoje, as barreiras legais não mais existem. Mas a cor da pele ainda marca bairros, igrejas, prisões e também escolas nos Estados Unidos. Em 2007, meio século depois que Elizabeth e Hazel protagonizaram o “momento decisivo” captado em foto, 40% das crianças negras americanas ainda frequentavam escolas quase totalmente segregadas.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Balada de um derrotado.

Tá bom, é inveja, eu admito. Mas não é sem motivo! O filho da puta era o maior vagabundo, um parasita! Vivia de bobeira às custas da mãe. Seus dias se resumiam a chegar em casa de madrugada, acordar por volta do meio-dia e voltar à rua, não sem antes sorver com apetite o almoço que a pobre coitada preparava com todo o carinho.

Confesso que a sua simples presença era suficiente para me tirar do sério. Aqueles olhos sonolentos, aquela conversa mole, e a bajulação - porra, como bajulavam aquele cara! "Bicho, quando é que tu pinta lá no ensaio?". "Vou dar uma festa lá em casa mas só pros mais chegados, tu tá convidade e pode chamar quem quiser". "Cara, valeu pelo show, foi de fuder"

Mas isso não é nada, o cara era simpático mesmo. Boa pinta. Além do mais, eu sempre soube que as garotas gostavam mesmo era dos cafajestes. Quanto mais machuca, mais elas se derretem. As mulheres parecem ter desenvolvido, em nossa sociedade machista, uma estranha compulsão para a dependência, para o masoquismo. O pior era a banda. A porra da banda. "Vermes da lepra" era meu grupo preferido, a mais fodida banda de death metal que já apareceu por estes lados - e olha que nossa região é pródiga de bandas do estilo. Um dia, eles perderam o vocalista. Eu não falei nada, mas acredito que tava na cara, era meu sonho! Eu vivia babando atrás dos caras, ia a todos os ensaios. Era fã de carteirinha. Chegaram até a comentar, certo dia, que meus vocais "guturais" eram legais e que se eles um dia ficassem sem vocalista iriam me chamar para a vaga. Mas não me surpreendi quando me chamaram para assitir ao primeiro ensaio com o novo vocalista. Ele, sempre ele! Parecia disposto a acabar de vez com a minha vida, a me perseguir até o fim dos meus dias. A partir daquele momento, passei a demonstrar abertamente a minha antipatia, o que me afastou ainda mais de pessoas que, até pouco tempo, eram como irmãos para mim.

Nas rodas de conversa, tudo o que ele dizia era motivo para chacota de minha parte. E era pretensioso, o canalha! Espalhava pra Deus e pro mundo que tinha planos de, um dia, viajar pros Estados Unidos, entrar pra industria de filmes pornô, ganhar uma grana preta (dava grana, naquela época) e ainda por cima, pasmem, comer o cu da Belladona! Vejam só vocês, ele falava sério! Foi um dos meus poucos momentos de triunfo. Porque, claro, esta ninguém engoliu e o babaca recebeu, finalmente, o que merecia: o riso e o escárnio de todos.

E assim foram se passando os dias, eu cada vez mais afastado da antiga turma, até me desligar por completo. Arrumei um emprego estável, casei e isolei-me em casa com a família. Tornei-me o esterótipo perfeito do homem de classe média conformista e acomodado: gordo, sedentário, apático, dividindo o tempo entre o trabalho e o aparelho de televisão. Me afastei da cena também. Nem tinha internet, não acompanhava mais as notícias e os lançamentos do mundinho do rock underground. Só não parei de ver filmes pornográficos. Gostava de pornografia, e sei que a net tá cheia disso, mas preferia ver em DVD.

Um dia soube que o filho da puta havia sumido. Circulavam boatos de que havia embarcado clandestinamente no porão de um navio rumo aos "states". Não dei ouvidos. Achei que ele tinha era jogado uma mochila nas costas e pegado a estrada, deixando os baba-ovos de sempre chupando vento. Hoje, bicho-grilo que era, estaria vendendo bugingangas numa calçada imunda, barbudo e sujo como um hippie fora de época.

É foda. Nunca vou esquecer aquela olhadinha que ele deu para a câmera, os mesmos olhos mortiços e embaçados que povoavam meus pesadelos e pareciam sussurrar em meus ouvidos: "você nunca vai deixar de ser o que sempre foi: NADA".

publicado originalmente no Fanzine Escarro Napalm # 4.

por Adelvan.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Metamorfose, de Franz Kafka

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado,desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação,não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.

Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá à casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.

À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.

— Gregório — disse uma voz, que era a da mãe, - é um quarto para as sete. Não tens de apanhar o trem?

Aquela voz suave! Gregório teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:

— Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.

( ... )