terça-feira, 23 de junho de 2009

Cine Cult - “Aracaju com jeito de cidade grande”



por Adelvan Kenobi

“Aracaju com jeito de cidade grande”. Por conta da inauguração de um viaduto na cidade a prefeitura nos brindou com essa pérola de provincianismo em forma de slogan publicitário. Sim, com o novo viaduto do DIA Aracaju fica, realmente, com cara de cidade grande, pois começa a apresentar os problemas que as cidades costumam apresentar quando crescem, a saber, no caso, o transito caótico, conseqüência de uma mentalidade insana que privilegia a posse do carro de passeio individual em detrimento do transporte publico de massas. O resultado da equação é fácil de entender, não é preciso ser matemático: mesmo que todas as pessoas pudessem possuir um carro de passeio, o que parece ser o ápice do sonho de consumo estimulado diariamente pela publicidade, não haveria espaço. Em nenhuma cidade do mundo. Simples assim. Mas aos olhos de todos parece mais adequado adaptar a realidade ao sonho, o que gera distorções como o dispêndio de enormes somas de recursos públicos que poderiam estar sendo direcionadas para áreas fundamentais como a saúde e educação e mesmo para meios de transporte público mais eficientes e de qualidade, como o metrô, para a construção de viadutos, para que o transito possa fluir por mais algum tempo até que a incessante entrada de novos veículos em circulação provoque novos engarrafamentos onde eles, supostamente, não deveriam existir.

Esta é uma das conseqüências ruins do crescimento urbano. Aparece de mãos dadas com o aumento da violência e a deterioração da qualidade de vida (mal que, pelo menos por enquanto, graças a algumas ações acertadas do poder publico nos últimos anos, inclusive no transito, com a implantação de ampla rede de ciclovias, ainda não sofremos). Mas há também o fator positivo: o aumento das opções de entretenimento e cultura, propiciado por uma concentração maior de pessoas dispostas a bancar espetáculos e eventos de qualidade. Há dois anos nasceu em Aracaju uma idéia que, por ter frutificado de forma surpreendente, demonstra um salto qualitativo no aspecto cultural da cidade: A Sessão “Cine Cult”, exibida diariamente no cinemark, atualmente detentor das únicas salas de exibição de cinema em Aracaju. O sucesso do Cine cult demonstra que havia uma demanda reprimida por uma programação diferenciada entre os amantes da sétima arte, para além dos simples consumidores de pipoca e adeptos do bate-papo dos Blockbusters (impressionante como tem gente que parece que considera o cinema o lugar ideal para se ir para ... conversar!). O projeto já existia há alguns anos nos cinemas do Shopping Riomar, mas nessa nova fase tornou-se diári0, com uma sessão a preços populares às 15:00 e uma sessão extra na quarta à noite. Uma avanço considerável, tendo em vista que antes acontecia apenas nos finais de semana, às 11:00 da manhã.

Para comemorar 1 Ano do Cine Cult foi promovida uma Virada Cinematográfica: uma única sessão com 3 filmes, ao preço de uma sessão normal, começando à 0:00 do sábado e terminando às 6:30 da manhã do domingo, 15 de junho de 2008, com direito a intervalos de meia hora regados a refrigerantes, salgadinhos e bolo de aniversário, e um café da manhã reforçado ao final da maratona. O publico, mais uma vez, compareceu em massa ao evento, que contou com a presença do produtor e da protagonista do filme que abriu a sessão, “Deserto Feliz”, de Paulo Caldas. O segundo filme era surpresa, foi revelado apenas no momento da exibição: “Minha vida não cabe num opala”. Ambos ainda inéditos no circuito comercial nacional. Para encerrar, “Beijo Roubado”, do coreano Wong Kar Wai. A Virada também foi um sucesso e teve mais três edições, sendo que a última, a quarta, acontecida no dia 13 de junho de 2009, serviu também para marcar os dois anos do Cine Cult, cujo sucesso levou o Cinemark a estender o projeto ao país inteiro. Hoje, o Cine Cult atua nos complexos do Cinemark nas seguintes cidades: Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Florianópolis, Jacareí, Manaus, Natal, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro (Downtown e Carioca), Salvador, São José dos Campos (Colinas e Center Vale), São Paulo (Santa Cruz, Villa Lobos e Metrô Tatuapé) e Vitória.

O Sucesso da Virada Cinematográfica deu origem, inclusive, a uma nova sessão, a NOTÍVAGOS, bastante inovadora e também de bastante sucesso – pelo menos em sua primeira edição (a segunda foi prejudicada por uma greve no transporte publico). Trata-se de uma sessão de cinema seguida de uma apresentação musical no Hall do multiplex. Na primeira edição foi exibido o filme “Repulsa ao sexo”, de Roman Polanski, estrelado por Catherine Deneuve, seguido de uma apresentação da banda sergipana The Baggios. O publico compareceu em bom número – mas infelizmente se comportou muito mal durante a exibição do filme, com muito barulho e gargalhadas absolutamente inconvenientes. Já o show da The Baggios foi impecável – destilaram seu blues rock minimalista com a competência e o entusiasmo de sempre, só que desta vez num ambiente inusitado – foi a primeira vez que eu assisti a um show no hall de um cinema. Para Aracaju, pelo menos, foi um fato inédito. Na segunda Sessão Notívagos foi exibido o filme "O Fim da Picada" (Sinopse: Macário, personagem principal, participa de uma orgia satanista numa praia brasileira no ano de 1850. Na manhã seguinte, inicia sua difícil viagem subindo a serra em direção à cidade de São Paulo, montado em seu burro. No trajeto encontra Exú-Lebara, versão feminina da entidade fantástica de origem afro-brasileira. Decidem seguir juntos a viagem para São Paulo. No entanto, Exú engana Macário durante a viagem, fazendo-o acordar em São Paulo, mas no ano de 2008, na mega-metrópole com quase 20 milhões de habitantes. Macário fica atordoado e torna-se um mendigo, vítima da cruel e desumana realidade em que passa a viver). Era pra ter havido, na sequencia, um debate com o cineasta, crítico e professor da UFF Daniel Caetano, mas o que se ouviu na realidade foi um profundo silêncio, fruto provavelmente do impacto provocado pela fita, extremamente experimental, com uma narrativa fragmentada e imagens fortes, metafóricas e/ou alegóricas, na cabeça dos expectadores (para que se tenha uma idéia, a primeira imagem da fita é um close numa vagina tatuada com o “numero da besta”, 666, sendo masturbada). Além disso, o publico foi bastante reduzido, fato devido, muito provavelmente, à greve dos transportes públicos já citada. A banda que se apresentou na noite foi a Daysleepers, revelação do cenário local, com seu folk rock sofisticado e muito bem executado.

A seguir, puxarei um pouco pela memória e exporei minhas impressões sobre alguns dos filmes que assisti nestes dois anos de Cine Cult (não vi todos, longe disso), a começar pelos exibidos durante a última Virada:

VALSA COM BASHIR – Excelente. Gosto muito de animação, e esta aqui é primorosa, tanto em termos de realização quanto na temática, que resgata um dos acontecimentos mais infames da recente historia humana, o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano, ocorrido nos anos 80. O traço é muito bom, e a animação combina muito bem o estilo tradicional com a tecnologia digital. Destaque para a trilha sonora, que recria o clima da época (numa das cenas os jovens tentam esquecer os horrores da guerra numa boate ao som de “this is not a Love song” do PIL), e para a combinação de realismo com imagens oníricas para representar o estado de espírito dos personagens. No final, cenas reais do massacre garantem um soco no estômago da platéia.

CONTOS DE CANTEMBURY: O “filme surpresa” da última Virada foi este clássico de Píer Paolo Pasolini, parte de sua chamada “trilogia da vida” e baseado nas obscenas histórias de Geoffrey Chaucer do século XIV. Perversão sexual e libertinagem até dizer chega, com um forte teor anti-clerical que culmina numa imagem do inferno de dar inveja ao célebre pintor Hieronymos Bosch, onde os monges habitam o ânus do demônio. Adorei.

GOMORRA: Foi o ultimo filme da noite, exibido pro volta das 4 da manhã. Não tinha como ver direito, por causa do sono, mas do que vi, gostei muito. Hiper-realista, seco e violentíssimo, como o próprio tema representado – a temida camorra, a máfia napolitana. É baseado num livro best-seller na Europa que transformou seu autor, Roberto Saviano, num alvo da Máfia, que prometeu matá-lo até o fim do ano.Um filme sujo, feio e malvado, exatamente igual ao tema retratado – me impressionou especialmente o fato de que os bandidos fazem negócio até com lixo tóxico, sem dar a mínima para as conseqüências (e elas são terríveis) de seus atos. “O cenário é pobre, de uma feiúra perturbadora, os protagonistas, com exceção de um ou outro personagem, inspiram repulsa por serem justamente a antítese daquele ideal mafioso forjado no cinema hollywoodiano. Ninguém aqui é bonito, bem-vestido ou ligeiramente sedutor. A máfia de Gomorra é tão imunda, e parece tão real, quanto as ruas de Nápoles, que até há pouco tempo estavam entupidas de montes de lixo por conta da paralisação da coleta municipal” (Omelete). Preciso urgentemente ver direito, sem cochilos.

ESTÔMAGO: É uma pena que os filmes nacionais que fazem realmente sucesso, em sua maioria, são os pastiches globais comandados por Daniel Filho. Este filme, “Estômago”, merecia muito ser visto por um grande público. Excelente atuação de João Miguel na pele do cozinheiro de boteco Raimundo Nonato, cujo talento o leva a galgar novos horizontes, para logo a seguir ser puxado de volta à lama e rumo ao cárcere por sua índole destemperada e sua ignorância. Mas, como diz a sinopse, “Na vida há os que devoram e os que são devorados”, e Raimundo Nonato está, definitivamente, na primeira categoria, pois aprende a conquistar status fazendo o que faz melhor, cozinhar. Seduzidos por seus dotes culinários, seus companheiros de cela e prováveis algozes acabam “presos pelo estômago.”. Não deixe de ver. E clique AQUI para baixar o livro de receitas.

BEIJO ROUBADO: Entre um cochilo e outro, na primeira Virada, deu pra notar que é mais interessante que o outro filme que tinha assistido do mesmo diretor, 2046, também na sessão Cinecult da época do Shopping Riomar. Ainda estiloso, porém menos confuso. Um pouco ingênuo, talvez vazio de conteúdo, mas interessante. Boa atuação de Natalie Portman como uma jogadora profissional, boa estréia de Norah Jones, cantora consagrada, como atriz.

PARANOID PARK – Curioso e competentíssimo exercício estilístico de Gus Van Sant. Belas imagens e pouquíssimos diálogos para ilustrar a vida vazia e alienada de uma certa parcela da juventude atual, tudo centrado no universo do skate e girando em torno do acobertamento de um acidente fatal. O resultado reflete bem o universo retratado: muito estilo e pouco conteúdo.

UMA JUVENTUDE COMO NENHUMA OUTRA – (alguns) dia(s) na vida de Mirit e Smadar, duas jovens israelenses recrutadas para o serviço militar obrigatório de seu país. Passam o dia patrulhando as ruas e recolhendo informações sobre os palestinos que cruzam o seu caminho. Smadar despreza totalmente seu trabalho, preocupando-se apenas em não ser pega pela sua supervisora ao negligenciá-lo, enquanto Mirit, tímida e retraída, procura apenas cumprir suas obrigações da melhor maneira possível. “Enxergar a realidade de Jerusalém, uma realidade difícil de assimilar, através do olhar naturalmente incerto de uma garota a caminho da vida adulta é o grande achado do filme. Se de um lado Mirit tem as suas aspirações, do outro o mundo continua a lhe dizer para não sonhar alto demais” (omelete). Um pequeno grande filme.

A CRIANÇA – Co-produção belgo-francesa ganhadora da palma de ouro de Cannes em 2005. Drama existencial focado nas dificuldades de relacionamento de um casal diante do nascimento de um filho. Ela quer cuidar da criança, mas o pai quer apenas continuar sua vida medíocre sustentada em pequenos furtos, e enxerga no pequeno rebento apenas mais uma oportunidade de negócios – excusos, evidentemente. Bom filme.

PERSÉPOLIS – Sensacional animação baseada na auto-biografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, indicada ao Oscar. Conta sua vida, passada em grande parte no Irã dos aiatolás, sob o signo da repressão e da intolerância religiosa. Uma situação, por sinal, por si só intolerável para a autora, um espírito livre e rebelde, que não conseguia ficar calada diante dos absurdos que via a seu redor a todo instante e, por conta disso, se metia em uma confusão atrás da outra, até ser mandada definitivamente ao exílio por sua família, zelosa por sua segurança. Vivendo exilada em paris, com o sucesso de seu filme, se tornou, hoje, uma voz respeitada em assuntos relacionados à terra dos antigos persas, como pode-se notar por esta entrevista na qual discorre sobre os recentes acontecimentos de sua terra natal. Mesmo que tivesse trazido apenas este filme à tela grande em Aracaju, o Cine Cult já poderia dar como cumprida sua missão.

SICKO – Virou meio que moda falar mal de Michael Moore depois dele ter ganho o Oscar. É insistentemente chamado de Panfletário, maniqueísta e manipulador. E pode até ser que seja (panfletário é, sem sombra de dúvidas), mas qual político não acaba sendo também um manipulador ? – e o que Michael Moore faz em seus filmes é política. Ele mira num alvo e, a partir daí, faz o possível para tentar nos convencer de que está certo. No mínimo, levanta questionamentos inquestionavelmente relevantes e incômodos que, de outra forma, seriam irremediavelmente varridos para baixo do tapete pelo “status quo”. Se ele omite alguns fatos com a intenção deliberada de nos manipular é dever de seus críticos apontá-los e denunciá-los, coisa que, particularmente, não vi até agora. Vejo apenas acusações vazias, sem que se aponte onde está, afinal, toda essa manipulação. A acusação de maniqueísmo também é, a meu ver, injusta, tendo em vista que ele não hesita em descer seu tacape também no lombo de figurões do Partido Democrata - quando eles “agem como republicanos”, evidentemente, porque Michael Moore tem lado e não esconde isso. O que, no Brasil, a terra da dissimulação, longe de ser um mérito, parece mais um defeito, e dos mais graves. Neste filme, que trata da falta de um sistema de saúde universal e gratuito nos Estados Unidos (e só por considerar isso uma obrigação do estado ele já marca posição contra republicanos e neo-liberais), por exemplo, ele não perdoa a Senadora Hilary Clinton, rendida ao lobby empresarial. Mais um tiro certeiro do gordinho impertinente. Mais um convite á reflexão. Um Michael Moore incomoda muita gente.

LADY VINGANÇA – já tinha ficado impressionado com “old boy”, a segunda parte desta trilogia, e este aqui não deixa a peteca cair. Mais uma parábola sobre vingança contada de forma vigorosa e original pelo diretor Park Chan-Wook, desta vez sob o ponto de vista feminino, o de Geum-Ja, que passou 13 anos de sua vida planejando uma vingança contra seu namorado, o verdadeiro culpado pelo crime pelo qual foi presa, o assassinato de um garoto de 7 anos de idade. Excelente fotografia contrastando branco e vermelho.

O HOSPEDEIRO – Foi o primeiro filme a ser exibido no Cine Cult, o que significa que o projeto começou com o pé direito. Trafega por vários gêneros, indo da comédia ao suspense, do horror à critica social com um ritmo ágil e maestria impressionante, mas no final das contas é um “filme de monstro” ao estilo coreano - e que monstro! A criatura é impressionante, feia como o diabo e muito ágil. Tem cenas assustadoras, como as que se passam no porão onde a garota protagonista fica presa junto a uma pilha de cadáveres. Cult.

PRINCESAS – Drama realista sobre a vida de prostitutas estrangeiras na Espanha. A discriminação e as conseqüências psicológicas da banalização do sexo permeiam a historia, que é comovente e contada de modo acessível e fluente, de forma dura, “pero sin perder la ternura jamás”

INFÂNCIA ROUBADA – Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, esta película sul-africana tem lá suas qualidades, mas meio que se perde numa pieguice açucarada sem fim, especialmente do meio para o final, com uma solução dramática das mais pueris. Vale mais pelo aspecto antropológico, no sentido de ficar conhecendo o dia-a-dia da periferia de Johannesburgo, que se tem muito em comum com as periferias de qualquer parte do mundo, goza também de algumas peculiaridades, como o curioso dialeto local.

A CASA DE ALICE – Um drama naturalista. Um daqueles filmes que muitos detestam por, supostamente, apenas mostrar o cotidiano aparentemente sem nenhum interesse especial de pessoas comuns. Mas, como dizia Shakespeare, há sempre “mais coisas entre o céu e a terra do que supões a nossa vã filosofia”. Aqui temos uma mulher aprisionada por suas escolhas, presa a um marido dissimulado que tem um caso com a vizinha adolescente, aos filhos que “escondem segredos auto-destrutivos” e à mãe, que é vista pelo marido como um fardo. “Não é nada que outras famílias também não sofram, e Teixeira toma a casa de Alice justamente como amostragem desse estrato social que se limita a sobreviver e, o tempo inteiro, a sufocar eventuais ambições de vida. Alice é bela, honesta, tem suas paixões e os seus anseios. Mas o mundo ao seu redor lhe impede de praticá-los. A questão central do filme é saber até quando Alice aguenta.” (omelete). Magnífica interpretação de Carla Ribas no papel da protagonista. Gostei muito, e recomendo.

A VIA-LÁCTEA – O contrário de “A Casa de Alice”. Pretensioso e chato – mas devo admitir que bem realizado. A montagem é primorosa.

BATISMO DE SANGUE – De boas intenções o inferno está cheio, já dizia (muito bem) o ditado popular. Este aqui é mais um daqueles filmes com ótimas intenções mas que derrapa num academicismo exagerado em sua realização. Baseado num livro de Frei Beto, conta a historia dele e dos demais frades dominicanos que se envolveram com o combate á ditadura nos anos 70, com especial destaque na figura trágica do Frei Tito, que não conseguiu se desvencilhar dos traumas da tortura e acabou se suicidando no exílio, na França. Não chega a ser de todo ruim, mas é dispensável – a não ser que você tenha um interesse muito específico pelo tema e não queira ler direto da fonte de onde foi tirado.

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO – Almodóvar em grande forma. Excelente.

CÃO SEM DONO – Drama pesado, arrastado e existencialista dirigido com maestria por Beto Brant. Nas mãos de um diretor pretensioso porém sem talento seria insuportável, mas aqui é comovente. Não há pano de fundo social, há apenas o beco sem saída de um personagem que parece não se adaptar á sua própria condição miserável de ser humano, mesmo tendo em seus braços uma namorada belíssima, fato que, por si só, já seria, presumivelmente, de levantar o astral de qualquer ser devidamente provido de testosterona. Testosterona não falta a Ciro, vivido por Júlio Andrade, que até que dá uma assistência legal á sua namorada Marcela (Tainá Muller). Falta-lhe o resto. Um rumo na vida. O personagem parece viver encalhado em uma eterna crise existencial, mergulhado numa vida medíocre sobrevivendo como tradutor de textos em russo. Um torpor do qual só desperta quando seu “quase-namoro” é interrompido de súbito por um acontecimento trágico. Um filme maduro, de um cineasta que domina de forma magistral sua arte.

HERCULES 56 – Excelente documentário sobre o destino dos prisioneiros libertos em troca do embaixador americano seqüestrado no episodio já anteriormente explorado pelo polêmico “que é isso companheiro”, de Bruno Barreto. O diretor teve a excelente idéia de colocar 5 dos envolvidos numa mesa de bar (aparentemente sem a presença de bebida alcoólica ) e entrevistá-los todos de uma vez, de forma a evitar algumas armadilhas bastante comuns em depoimentos históricos, como a tendência a se moldar os fatos de forma favorável ao entrevistado. De quebra, a memória de um compensa os lapsos da memória do outro, e um painel bem mais claro e amplo acaba se configurando – auxiliado por ricas e até então inéditas imagens da época. Fato curioso: um dos presos políticos libertados é Sergipano e vive até hoje em Aracaju, Agonalto Pacheco, velho militante comunista. Fato lamentável: o péssimo hábito de confabular no cinema enquanto o filme é projetado não é privilegio de sessões de blockbusters americanos povoados de adolescentes, como pude comprovar por um grupo de pessoas atrás de mim que pareciam estar promovendo um verdadeiro debate com o filme em pleno andamento. O fato se agravava toda vez que aparecia na tela a figura do ex-ministro José Dirceu (vivíamos o auge do escândalo do “mensalão”), quando os “debatedores” não conseguiam se conter e irrompiam em xingamentos exaltados de baixo calão.

PARIS, TE AMO – curiosa declaração de amor à cidade de Paris realizada com a costura de pequenos contos dirigidos por nomes como Alfonso Cuarón, Walter Salles, Wes Craven e Gerard Depardieu, tendo como resultado um amplo painel do cinema contemporâneo. Como não poderia deixar de ser, o resultado final é irregular mas, a meu ver, bastante satisfatório.

BUBBLE – Um filme israelense que versa sobre o amor homo-erótico entre um judeu e um palestino. Mais polêmico, impossível. O próprio título deixa claro que os protagonistas vivem numa “bolha”, no caso, a cidade de Tel-Aviv, mais cosmopolita e aberta que o restante de Israel, eternamente atolado numa guerra sem-fim contra seus vizinhos indesejados. As confusões decorrentes do choque cultural são bastante previsíveis, mas no final das contas resulta num bom filme, surpreendentemente leve e otimista até, apesar da premissa original prenunciar um apocalipse regado a intolerância.

2H37 – filme australiano com uma premissa bem parecida à de “Elefante”, de Gus Van Sant – uma tragédia anunciada num ambiente escolar repleto de adolescentes desajustados. O final surpreende, pois o desfecho trágico não decorre dos conflitos com maior destaque na trama.

A MORTE DO BOOKMAKER CHINÊS – Um filme cru, que dá a impressão de ter sido feito de improviso, num esquema “qualquer nota”. Lendo a respeito, soube que não foi, já que o diretor John Cassavetes era famoso por ensaiar exaustivamente cada cena antes de registrá-la. Certamente um belo exercício de estilo, mas um tanto quanto cansativo para uma tarde de domingo modorrenta. Confesso que “morguei” e, com isso, perdi a oportunidade única de ver na tela grande a obra de um grande diretor. É a vida.

CONCEIÇÃO – AUTOR BOM É AUTOR MORTO – Longa experimental que conta a revolta de um grupo de personagens contra seus próprios criadores. O filme foi realizado com recursos da UFF e tem sua direção assinada por cinco alunos daquela instituição. Os argumentos sugeridos numa mesa de bar, entre copos de cerveja e cigarros de maconha sorvidos um atrás do outro, vão se materializando na tela de forma divertida e aparentemente descompromissada. Uma prova concreta de que uma obra experimental não precisa ser, necessariamente, uma obra chata.

TRANSYLVANIA – O contrário de “conceição”. Chato. Chato pra caralho. Nem um pouco descontraído ou descompromissado. Vale pela beleza e exotismo de Ásia Argento e das paisagens romenas.

ATRAVESSANDO A PONTE – O SOM DE ISTAMBUL - Uma bela surpresa, especialmente para mim, que não sabia que o filme é obra, em grande parte, do baixista da legendária banda de rock industrial alemã Einsturzende Neubaten, que aqui assume o papel principal como “alter ego” do diretor Fatih Akin, também alemão mas descendente de turcos. Mostra a música feita em Istambul, uma mistura de referencias orientais e ocidentais, reflexo do que é a própria Turquia, diga-se de passagem.

MUTUM – Outro “drama naturalista”. Baseado em “campo geral”, de Guimarães Rosa, mostra, sob o ponto de vista de uma criança, o nebuloso mundo dos adultos, repleto de mentiras, traições, silêncios e reações violentas. Me identifiquei bastante. Me lembrei de quando era criança e assistia, meio sem querer, aos filmes de Nelson Rodrigues na televisão. Não entendia e, o pouco que entendia, me causava repugnância. Então era isso, o tal “mundo dos adultos” ? Por pouco não sofro da “síndrome de Peter pan” e me recuso a crescer – ou não, tendo em vista que tenho 38 anos e ainda visto basicamente o mesmo tipo de roupa de quando era adolescente, não sou casado, não tenho filhos, vou a shows de rock pesado e barulhento e adoro ficar em casa no sábado à noite lendo revistas em quadrinhos. E tenho sérias duvidas se quero mudar de comportamento, daqui pra frente .

terça-feira, 2 de junho de 2009

DOSSIÊ ROCK SERGIPANO - versão compacta

NOTA: O texto reproduzido abaixo é antigo, foi publicado numa edição da Revista Laboratório Pop há aproximadamente 5 anos. Por isso não são citados nomes como The Baggios, The Renegades of Punk, Daysleepers, Nautilus, Sign of Hate, Litania Ater, Berzerkers, Impact, Finitide, AliquiD, Urublues, Psicosônicos, Dr. Garage Experience e Karranca, entre outros que surgiram ou passaram a se tornar mais ativos no cenário posteriormente. Algumas informaçẽs desatualizadas foram corrigidas em notas ao longo do texto.

snooze
O rock sergipano como um movimento, uma entidade oriunda da existência de um grupo de bandas com origens em comum que tocam juntas e dão suporte umas às outras, começou a se formar aos olhos do publico (pequeno, porém sempre fiel) no inicio dos anos 80, de carona na grande onda do rock nacional, que por sua vez pegou carona na onda new wave que tomava conta do mundo. Por essa época, começavam a se formar bandas de garagem que tinham na precariedade de recursos compensada por uma vontade de criar e se comunicar através de uma musicalidade marginal, assumidamente “underground”, sua principal característica. Capitaneadas pelas figuras de verdadeiros agitadores culturais dos subterrâneos roqueiros da cidade, como Sylvio “Suburbano” e Vicente “Coda”, surgiram nomes como SEM FREIO NA LINGUA, FOME AFRICANA E THE MERDAS. Esta ultima contava em suas fileiras, então como baterista, com o hoje internacionalmente conhecido DJ Dolores, que na época se assumia como punk e atendia pela alcunha de Helder “podre”. Ficaram célebres as chamadas “rockadas”, festas regadas a muito álcool, rock e algum sexo, algumas inclusive realizadas nas residências dos organizadores e animadas por bandas ao vivo. Consta inclusive que Vicente Coda, então guitarrista e membro-fundador da banda KARNE KRUA (a mais antiga em atividade na cidade), chegou a organizar um festival em sua casa, com a cozinha servindo de palco, o quintal de camarim e o restante do ambiente tomado pelo publico.

Na esteira desses verdadeiros pioneiros, outros grupos foram nascendo, e de diversas matrizes, como a new wave propriamente dita, com CROVE HORRORSHOW, LULU VIÇOSA E ALICE, o punk rock/hardcore, com MANICÔMIO, FORCAS ARMADAS, CONDENADOS, LOGORRÉIA e a já citada Karne Krua, entre outros, e correndo por fora, numa cena à parte, o mundo do metal, cujo maior nome era o já lendário GUILHOTINA. Algumas dessas bandas, como o Crove Horrorshow, tiveram uma certa longevidade, chegando a se apresentar regularmente até meados dos anos noventa, mas a esmagadora maioria teve vida breve. A grande exceção é a Karne Krua, que este ano (2005) completa 20 anos de atividades ininterruptas. Foram inclusive a primeira banda de rock do estado a ter sua musica prensada em um álbum de vinil, no que viria a ser seu primeiro disco “oficial”, auto-intitulado e precedido por inúmeras fitas-demo em k7 como as já clássicas "As Merdas do sistema", “Labor operário” e “suicídio”. Sua discografia conta ainda com um cd, “Em carne viva”, no qual repassam toda a sua carreira, a essa altura emoldurada por uma notável influência da musica regional.

Os espaços para apresentações na cidade sempre foram precários, ainda mais nos idos da década de 80. Mas as tribos tinham seus pontos de encontro, notadamente as lojas especializadas DISTURBIOS SONOROS e LOKAOS, e inclusive contaram, durante um certo período, com o apoio de um programa especializado no estilo em uma radio de grande audiência, o ROCK REVOLUTION. A mesma radio, já por volta do ano 2000, voltou a abrir suas portas por um curto período ao segmento alternativo com outro programa, PLAYGROUND, capitaneado por Rafael Jr., da banda SNOOZE.

Década de 1990
O Snooze pertence a uma segunda geração do rock sergipano, por assim dizer, aquela que surgiu na primeira metade dos anos 90 trilhando o caminho pavimentado pelos bravos desbravadores da década anterior. É um dos grupos locais de maior repercussão nacional. Fazem uma musica que remete à melhor sonoridade alternativa “indie”, chegando inclusive a lançar dois CDs por selos respeitados e de projeção nacional, Short Records e Monstro Discos. E sempre se caracterizou por uma notável preocupação em sair do estado, levar seu som ao maior publico possível país afora, se apresentando em festivais renomados como o Goiânia Noise, de Goiânia, e o Circadélica, em São Paulo, entre outros. Apesar de desfalcado de todos os seus integrantes originais, com exceção do baterista Rafael Jr., segue firme, a caminho do terceiro cd. (Nota: atualmente a banda conta novamente com outro membro fundador, Fabinho, no baixo e vocal, e já lançou há algum tempo o tão esperado terceiro CD).

Junto ao snooze, na mesma época, surgiu, desta vez no interior, aquela que talvez seja a mais peculiar, improvável e experimental formação do rock sergipano, o LACERTAE. Oriundos de Lagarto, região centro-sul do estado, começaram fazendo um som que remetia ao Pantera e demais ícones trash do momento. Contudo, após uma temporada parados, absorveram novas influencias, notadamente do emergente movimento mangue-beat, e ressurgiram como um trio com uma sonoridade própria e instigante, ao ponto de chamarem a atenção, através de sua demo “100km com um sapato”, da gravadora Rock it, do Rio de Janeiro, então capitaneada pelo guitarrista da Legião Urbana Dado Villa-Lobos, que os lançou em sua célebre coletânea “Brasil Compacto”, com o que de melhor era feito no rock brasileiro àquela altura. Depois reduzido a um duo minimalista, apenas guitarra e bateria, o grupo, com sua musica hipnótica, angariou o respeito e foi tema de matérias em publicações especializadas de todo o Brasil, o que os levou a se apresentar em alguns dos melhores palcos nacionais, como os do Abril pro rock, em Recife, e o do Sesc Pompéia, em São Paulo. Lançaram dois discos independentes e continuam firmes em atividade. (Nota: atualmente andam sumidos)

Mas o rock sergipano dos anos 90 não se resumia a esses dois nomes de maior projeção. O “underground” estava mais fervilhante do que nunca, e novos nomes surgiam a todo momento, especialmente nas searas do metal e do punk/hardcore. Nomes ainda hoje (2005) em atividade, como SUBLEVAÇÃO, WARLORD e ANAL PUTREFACTION, e outros que marcaram época mas se foram, como CLEPTOMANIA, OLHO POR OLHO, LECTOSPINOISE, LIPROFENIA, REFUGOS DE BELSEN, EXPLICIT SEX, DEUTERONOMIO, MUCOUS SECRETION, DEVILRY, de Itabaiana, e CAMBOJA. Esta última, uma “one man band”, personificada na figura de Jamson Madureira, tinha também uma sonoridade única, porém, ao contrário do Lacertae, mais calcada no rock industrial de nine inch nails, ministry e afins, o que se fazia refletir em seus riffs minimalistas e repetitivos e letras intimistas que se resumiam à repetição “ad nausea” de uma única frase.

Camboja, Jamson Madureira
Vale ressaltar que também por essa época, numa fase pré-popularização da internet, era grande a produção de fanzines no estado. Alguns ainda oriundos dos anos 80, como o BURACAJU, o CENTAURO SEM CABÊÇA e o ESCARRO NAPALM, e outros nascidos já na década de 90, como o SINAGOGAS BUTTERFLY e especialmente o CABRUNCO, que é considerado por muitos como um dos melhores zines já produzidos no Brasil, vindo a ser resenhado com grande destaque na imprensa nacional.

Os shows se multiplicavam, ainda de forma precária, mas já contavam com o apoio decisivo de alguns abnegados proprietários de bares e casas noturnas, como Jajá, do MAHALO DISCO CLUB, onde ocorreram as mais memoráveis apresentações daquele período, inclusive de grupos de fora do estado, alguns até com uma certa projeção nacional, como o Concreteness, brincando de deus, Living In the Shit, Inkoma (da hoje rockstar Pitty) e Discarga Violenta.

A precariedade das produções só seria superada (pelo menos em parte) no final de 1998, quando aconteceu o festival ROCK-SE, um verdadeiro divisor de águas. Nele, as bandas locais tiveram pela primeira vez, em larga escala, a oportunidade de se apresentar ao lado de grandes nomes do rock nacional, algumas inclusive suas assumidas influências, como O Rappa, Marcelo D2, Eddie, Dois Sapos e Meio, Mechanics e Pin Ups. Uma pena que o futuro atestou que a cidade ainda não estava preparada para eventos desse porte, o que deixou o Rock-se restrito a duas edições.

Mas o cenário não seria mais o mesmo depois daquele festival. Uma nova geração foi tomada de assalto pela sedução dos acordes de guitarra. Uma nova cena nasceu ali, ancorada pela difusão de mídias alternativas atravésa da internet e das TVs por assinatura. Uma nova geração que não demorou a gerar seus frutos em novos nomes como FLUSTER, GEE-O-DIE, MERDA DE MENDIGO, LLLY JUNKIE (primeira banda integralmente formada por meninas a tocar regularmente) , EXPRESSO SUBURBANO, ANTI-SOCIAL, MAQUINA DE ÓDIO, SILVER TAPE, ELOQUENTES (depois ROCKASSETES) e SONNET, entre muitos outros, todos compostos por adolescentes com os hormônios à flor da pele e bastante dispostos a se fazer ouvir.

A cena foi crescendo e se diversificando. Havia o reggae, personificado na REAÇÃO, com seu som de protesto com forte apelo popular e ampla penetração na programação das rádios locais, o regionalismo das bandas NAURÊA e MARIA SCOMBONA, e o metal, sempre o metal., cujos nomes de maior destaque atualmete, além do WARLORD, incansável, são SCARLET PEACE, com um som que oscila entre o gótico/doom e o death metal – primeira banda do segmento do estado a ter um disco oficial lançado – e a TCHANDALA, esta guardiã do que há de mais tradicional no estilo. Há também uma cena Black metal ultraradical cujo maior nome é a MYSTICAL FIRE, com seu show regado a cusparadas de fogo, cabeças de porco apodrecidas e imprecações blasfêmicas.

Houve, por esta época, um novo festival de renome, o PUNKA, que conseguiu a façanha de superar o rock-se não apenas em numero de edições, mas na quantidade e qualidade de grupos de projeção nacional apresentados. Por seus palcos passaram nomes como Los Hermanos, Autoramas, Street Bulldogs, jason, Retrofoguetes, brincando de deus, Bosta Rala, The Honkers, Torture Squad e muitos outros, sempre ao lado do que de melhor podia oferecer a produção local.

E passando ao largo de tudo isso, impassível, segue sua saga o incansável Silvio Campos, outrora autodenominado “suburbano”, que além da Karne krua é membro fundador de muitas outras bandas importantes para a cena, como A CASCA GROSSA, ETC, 120 DIAS DE SODOMA, TEMPESTUOUS, MAQUINA BLUES, LOGORREIA e WORD GUERRILLA.

Mas a banda que a meu ver sintetiza toda essa terceira geração do rock sergipano, por sua excelência técnica e talento para compor somente comparável ao que de melhor o rock brasileiro já produziu, é o PLASTICO LUNAR. São jovens (com exceção do já não tão jovem baterista, Marcos Odara, veterano dos anos 80), mas foram buscar suas influências nos anos 60 e 70, e com isso se inserem naturalmente num ambiente povoado por temas psicodélicos, viagens instumentais intermináveis e rock de primeira qualidade. A projeçao nacional (seja no mainstream ou num circuito mais alternativo porém já bastante amplo) de nomes como Cachorro Grande e Mopho, de Maceió, que rezam mais ou menos na mesma cartilha, dá a eles a oportunidade de se destacarem nacionalmente, fazendo a diferença nos futuros anais do rock brasileiro. Qualidade não lhes falta. É certamente a mais promissora das bandas sergipanas.

A sorte está lançada! Quem viver verá - mas em todo em caso adianto, desde já, que não foi em vão.

por Adelvan Kenobi

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Deus, um delírio

Num determinado trecho de "1984" de George Orwell, o personagem Winston Smith fica maravilhado ao ter em mãos o proibidissimo livro do inimigo numero 1 do Estado comandado pelo Grande Irmão, Goldstein (numa clara referencia a Stalin e Leon Trotsky). Ao lê-lo, Smith constata que "os melhores livros são aqueles que traduzem idéias que nós, no fundo, já sabíamos, mas não tínhamos capacidade para articulá-las de forma clara e objetiva". Meu "livro de cabeceira" atualmente, "Deus, um delirio", de Richard Dawkins, se encaixa perfeitamente neste perfil. Graças a ele, voltei a ser um "ateu militante", atitude que tinha abandonado por pura falta de saco para discutir idéias irracionais. Mas concordo com o autor de que a situação está ficando dramática, e torna-se necessário que os ateus "saiam do armário" para combater a atual onde de ataques fundamentalistas. Nesse quesito, ele presta um grande serviço, pois seu texto é bastante fluente e acessível. Não fosse pelo assunto espinhoso, que forçosamente encontrará resistencia entre as camadas populares e veiculos de midia de massa, Richard Dawkins poderia ser considerado um legítimo sucessor de Carl Sagan na árdua tarefa de popularização da ciência.

Você pode baixar o livro aqui, mas ler em papel é muito mais gostoso. Sentir o cheiro, a textura, o volume nas mãos ...

Agradeço imensamente a meu amigo de longa data Reinaldo por ter me dado esta oportunidade ao me emprestar seu exemplar.

Abaixo, um pouco do que tem sido dito a respeito de livro e de seu autor:

Num tempo de guerras e ataques terroristas com motivações religiosas, o movimento pró-ateísmo ganha força no mundo todo. E seu líder intelectual é o respeitado biólogo Richard Dawkins, eleito um dos três intelectuais mais importantes do mundo (junto com Umberto Eco e Noam Chomsky) pela revista inglesa Prospect. Autor de vários clássicos nas áreas de ciência e filosofia, ele sempre atestou a irracionalidade de acreditar em Deus e os terríveis danos que a crença já causou à sociedade. Agora, neste Deus, um delírio, ele concentra exclusivamente no assunto seu intelecto afiado e mostra como a religião alimenta a guerra, fomenta o fanatismo e doutrina as crianças.

O objetivo principal deste texto mordaz é provocar: provocar os religiosos convictos, mas principalmente provocar os que são religiosos "por inércia", levando-os a pensar racionalmente e trocar sua "crença" pelo "orgulho ateu" e pela ciência.

Dawkins despreza a idéia de que a religião mereça respeito especial, mesmo se moderada, e compara a educação religiosa de crianças ao abuso infantil. Para ele, falar de "criança católica" ou "criança muçulmana" é como falar de "criança neoliberal" - não faz sentido.

O biólogo usa seu conceito de memes (idéias que agem como os genes) e o darwinismo para propor explicações à tendência da humanidade de acreditar num ser superior. E desmonta um a um, com base na teoria das probabilidades, os argumentos que defendem a existência de Deus (ou Alá, ou qualquer tipo de ente sobrenatural), dedicando especial atenção ao "design inteligente", tentativa criacionista de harmonizar ciência e religião.

Mas, se é agressivo para expressar sua indignação com o que considera um dos males mais preocupantes da atualidade, Dawkins refuta o negativismo. Ser ateu não é incompatível com bons princípios morais e com a apreciação da beleza do mundo. A própria palavra "Deus" ganha o seu aval na ressalva do "Deus einsteiniano", e o maravilhamento com o universo e com a vida, já manifestado em seus outros livros, encerra a argumentação numa nota de otimismo e esperança.

"Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem." - Richard Dawkins

"Em Deus, um delírio, a debilidade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela." - The Times

"Este livro é um apelo declarado para que não nos acovardemos mais." - The Guardian

"Richard Dawkins é nosso ateu mais brilhante." - The Spetactor

Tradução:Fernanda Ravagnani


Richard Dawkins

Nasceu em Nairóbi, Quênia, em 1941, e cresceu na Inglaterra. Formou-se pela Universidade de Oxford e deu aulas de zoologia na Universidade da Califórnia em Berkeley. Em 1995, também em Oxford, ocupou a cátedra de Compreensão Pública da Ciência, então recém-criada. Recebeu inúmeras homenagens e honrarias, incluindo o prêmio da Royal Society of Literature em 1987, o premio Michael Faraday em 1990, o premio Cosmos Internacional para Realizações nas Ciências Humanas em 1997 e o premio Shakespeare em 2005. Publicou O gene egoísta (1989, Itatiaia/Edusp) e O rio que saía do Éden (1996, Rocco).

O aitolá dos ateus

Richard Dawkins é o líder de uma nova cruzada, desta vez contra Deus

Texto: Barbara Axt para a Revista Superinteressante, Edição 242, agosto de 2007

João reza todos os dias a uma chaleira de porcelana que está no céu, em órbita entre a Terra e Marte. Ele só namora moças que também acreditam na Chaleira e nunca usa camisetas verdes, pois isso é uma grande ofensa à Toda-Poderosa.
Renato, vizinho de João, acredita que o mundo foi criado por um gigantesco monstro voador feito de espaguete. Todo mês se encontra com um grupo de espagueteiros para cantar músicas sobre como o Monstro é bacana. Um belo dia, depois do café-da-manhã (sem pão, pois sua religião proíbe comidas feitas com farinha), Renato veste uma camiseta verde e sai para trabalhar.
Ao encontrar com ele, João fica muito chateado com sua roupa. Renato fica meio sem graça, afinal ele não é um seguidor da Grande Chaleira, e sim do Monstro de Espaguete. Mas promete que vai usar sua camiseta verde menos vezes.
Parece loucura? É mais ou menos assim que o zoólogo Richard Dawkins vê o mundo, com pessoas seguindo reli¬giões cegamente, obedecendo a regras sem sentido e acreditando em deuses e milagres sem ter evidência nenhuma.
Para expor esse ponto de vista o cientista inglês, professor de compreensão pública da ciência na Universidade de Oxford, publicou no final de 2006 “ Deus, um Delírio”. O livro, que chega este mês às livrarias brasileiras, é um grande manifesto ateu – mas, ironicamente, acabou se tornando um presente de Natal bem popular em países de língua inglesa. Nele,¬ Daw¬kins afirma que as religiões não são só coisas sem sentido, como monstros de espaguete voadores. Elas também são altamente prejudiciais à sociedade.
“Meu grande sonho é a completa destruição de todas as religiões do mundo”, dispara, com sua voz tranqüila, depois de dois minutos de entrevista. A Super conversou com o cientista em sua confortável casa de tijolinhos na cidade inglesa de Oxford onde, sentado no sofá e vestido como um perfeito inglês, de paletó, camisa social e colete de lã, ele completou o raciocínio: “Mas eu sei que isso é ambicioso demais. Na verdade, eu quero atingir as pessoas que estão em cima do muro. Pensando no assunto, talvez elas percebam que não são religiosas”.
Radical ateu
Dawkins é considerado um dos mais importantes intelectuais do mundo e um dos mais famosos divulgadores de assuntos científicos. Ele já publicou 8 livros, que venderam centenas de milhares de cópias e foram traduzidos em mais de 25 línguas, começando pelo best seller “O Gene Egoísta”, de 1976. O livro revolucionou a área de biologia evolutiva ao explicar a Teoria da Evolução de Darwin pelo ponto de vista dos genes. De acordo com sua perspectiva, a seleção natural não favorece os organismos mais adaptados à sobrevivência, mas, sim, os genes mais eficientes em se multiplicar. Depois que Darwin provou que os seres humanos não foram criados à imagem e semelhança de Deus – eles evoluíram a partir de animais mais simples –, Dawkins tirou os animais, as plantas e os seres vivos em geral do papel de protagonistas da evolução, afirmando que nós não passamos de máquinas de sobrevivência projetadas pelos genes. Agora volta sua bateria para Deus.
A maior parte das religiões afirma que estamos sendo acompanhados de perto por um ser superior e que isso dá sentido à nossa vida. Uma imagem tão confortante quanto sem sentido, na opinião de Dawkins. “Existe um propósito na nossa existência, que é a propagação do DNA. Pode não parecer muito nobre, porque não é o tipo de objetivo que as pessoas procuram”, explicou em uma entrevista à BBC.
Criado em um lar anglicano, Dawkins descobriu que era ateu aos 17 anos, quando se convenceu de que a Teoria da Evolução de Darwin explicava o mundo muito melhor do que qualquer religião. Mas, só agora, aos 65 anos, decidiu se dedicar de corpo e alma (ops!) a uma cruzada pela ciência e contra o obscurantismo. Seu objetivo é combater o poder crescente das religiões como forças absolutas e inquestionáveis – cita como exemplos o fundamentalismo islâmico e o que ele chama de talibã cristão nos EUA. “Supostamente os EUA são um Estado desvinculado de religião, mas George W. Bush está levando o país na direção de uma teocracia, dizendo que fala com Deus e que Deus lhe disse para invadir o Iraque”, afirma. Para combater esse tipo de atitude, criou a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência, que “tem como objetivo defender a ciência contra os ataques da ignorância organizada”, definição que inclui tanto os defensores do ensino de criacionismo quanto as pseudociências (astrologia, homeopatia, ufologia etc.). A fundação pretende financiar pesquisas sobre a psicologia das crenças, apoiar a educação científica e ajudar a divulgação de idéias racionais.
Ele é o primeiro a reconhecer que suas opiniões são polêmicas. “Se você colocar meu nome no Google, vai encontrar um equilíbrio: há coisas muito negativas escritas por gente religiosa e coisas muito positivas escritas por gente não religiosa”, se diverte. Ocorre que até entre os ateus existe gente que discorda de suas idéias, como o físico brasileiro Marcelo Gleiser. “Acho que o Dawkins escreveu um livro provocativo para polarizar ainda mais as tensões entre ciência e religião, o que é inútil”, reclama. “As pessoas se sentem ameaçadas pela ciência, achando que ela vai ‘matar’ os deuses. É essa distorção que os cientistas devem combater, e não a fé. A ciência não quer roubar Deus de ninguém”, diz Marcelo.
Bem, não é bem isso que Richard Dawkins pensa. Ele discorda radicalmente da posição liberal de ateus como o paleontólogo Stephen Jay Gould, que afirmava que religião e ciência são assuntos que não se misturam e podem coexistir em paz, cada um ocupando partes diferentes da vida (e da mente) humana. Para Dawkins, isso não passa de duplipensamento, a técnica descrita por George Orwell no livro 1984: acreditar em duas coisas conflitantes ao mesmo tempo. No caso, o Gênesis e a Teoria do Big-Bang.
Em sua opinião, essa posição conciliadora mais atrapalha do que ajuda. Quem não se opõe abertamente às religiões ajuda, com sua omissão, a fortalecer o poder que elas já têm. Ainda assim ele nega que seja um radical: “As pessoas acham isso porque já se acostumaram a falar de religião sempre pisando em ovos”, argumenta. “É possível questionar e discordar de alguém sobre economia, esporte ou qualquer outro assunto. Quando se trata de religião, é proibido falar qualquer coisa.”
Em termos: as religiões vêm, sim, sendo questionadas em vários livros sobre ateísmo lançados recentemente. Dawkins faz parte desse movimento, ao lado de pensadores como os americanos Daniel Dennett (autor de Quebrando o Encanto) e Sam Harris (autor de O Fim da Fé). Em sua casa é possível ver várias dessas obras, que são citadas em Deus, um Delírio, pelas estantes, em cima das mesas e até mesmo no banheiro.
Movimento dos sem-deus
O cientista compara a situação dos ateus hoje em dia com a dos homossexuais nos anos 50. Para mostrar o preconceito contra as pessoas sem religião, ele cita uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup em 1999. Segundo o levantamento, 95% dos americanos votariam em uma mulher para presidente, 92% em um negro ou judeu e 79% em um homossexual. Mas apenas 49% colocariam um ateu na Casa Branca. “Enquanto o número de judeus nos EUA é muito menor do que o de ateus, eles são muito mais poderosos, pois foram capazes de se organizar e criar lobbies políticos para defender seus interesses”, diz Dawkins. “Os ateus americanos, que são entre 20 milhões e 30 milhões, não fazem isso.”
Na verdade, é difícil até mesmo perceber que a quantidade é tão grande, porque muitos deles evitam manifestar publicamente sua ausência de crenças. “Muita gente veio me agradecer por ter escrito o que elas não tinham coragem de dizer”, se anima Dawkins. “Apesar de não ter escrito o livro pensando nessa conseqüência, agora eu acho que talvez a melhor coisa que ele pode fazer pelas pessoas é encorajá-las a sair do armário.”
Ao que parece, a porta do armário foi arrombada: uma pesquisa feita em 2006 pela companhia Harris Interactive mostra que menos da metade dos ingleses, dos alemães e dos espanhóis crêem em Deus ou em algum tipo de ser supremo. Na França, são apenas 27% da população. No Brasil os números ainda são bem diferentes, mas dá para perceber que alguma coisa está ocorrendo (apesar de o questionário do IBGE não incluir a opção “ateu”). No censo de 1991, o número de pessoas que disse não ter religião foi de 4,7%. Já em 2000 esse percentual foi de 7,4%.
Para Richard Dawkins, a pior coisa das religiões é a idéia de fé. A simples idéia de acreditar em algo que não pode ser provado é capaz de tirá-lo do sério – o que significa, para um britânico tão educado, levantar uma das sobrancelhas. “Fé é algo em que você acredita sem evidência. Pior: quanto mais absurdo o artigo de fé, mais virtuoso é o fato de se acreditar nele.” Dawkins crê que a aceitação de dogmas pode levar a sérios problemas. “Disputas entre crenças incompatíveis não podem ser resolvidas com argumentos racionais”, disse à revista online americana Salon. “Cientistas discordam entre si usando fatos e evidências para decidir quem está certo. Mas é impossível argumentar racionalmente se você simplesmente sabe que o seu livro sagrado contém a verdade absoluta dita por Deus, e a pessoa do outro lado pensa a mesma coisa sobre o próprio livro. Não surpreende que, ao longo da história, fanáticos religiosos tenham lançado mão de torturas, execuções, cruzadas, jihads e guerras santas.”
O teólogo e químico Alistair McGrath, que também é professor em Oxford, está lançando um livro em resposta a Deus, um Delírio, com o título de The Dawkins Delusion (“O Delírio de Dawkins”, sem tradução para o português). McGrath, um ex-ateu que se tornou religioso, acha que o colega apresenta as religiões de uma forma injusta. “Dawkins defende seus argumentos representando o cristianismo da pior maneira possível.” E provoca: “Concordo com Dawkins que é muito perigoso acreditar em alguma coisa sem investigar por conta própria. Mas acho que essa atitude de checar por si mesmo deve ser usada tanto para as religiões quanto para o próprio ateísmo”. Ainda que um consenso não esteja à vista, os dois têm opiniões muito parecidas em assuntos fundamentais: ambos apóiam a separação entre Estado e religião e são contra o ensino de criacionismo nas escolas, entre outras coisas.
“Acredito que é possível ter uma atitude crítica em relação às religiões. Eu costumo perguntar a alguns amigos muçulmanos onde no Alcorão está escrito que a violência, especialmente o terrorismo, é encorajada. E ninguém me responde, porque não existem esses trechos que legitimam a violência”, observa McGrath. “É essencial questionar o porquê das coisas, afinal a capacidade de fazer perguntas é muito importante para tornar o mundo um lugar mais seguro.” Uma opinião que não poderia gerar nenhuma reclamação do próprio Dawkins.
O plano assassino
Quando perguntado como poderíamos acabar com as religiões do mundo, a resposta de Richard Daw¬kins é bem clara: dando uma boa educação a todo mundo. Ele explica que o número de pessoas praticantes de religiões entre os mais educados é menor do que entre os menos educados. E cita uma pesquisa publicada pela revista Nature, mostrando que, entre os cientistas da Academia de Ciências dos EUA, mais de 90% são ateus ou agnósticos e apenas 7% acreditam em Deus.
“É importante ensinar que pensar é uma coisa boa, virtuosa. Todas as crianças deveriam ser estimuladas a pensar. E elas também não deveriam seguir automaticamente a religião de seus pais”, afirma. Ele acredita que as crianças deveriam crescer conhecendo um pouco de cada religião, inclusive sabendo que é possível não escolher nenhuma. E depois de crescidas escolherem que caminho tomar. “Não se deve atribuir automaticamente a religião dos pais a uma criança. Expressões como ‘criança católica’ ou ‘criança muçulmana’ deveriam nos dar arrepios. Ninguém fala em crianças marxistas ou neoliberais, por que com as religiões deveria ser diferente?”
Ou seja, o cruzado antideus é na verdade um defensor do conhecimento e da liberdade de escolha – além de um inveterado polemista. Radicalismos à parte, seu discurso prega que uma dose de bom senso melhoraria muito a situação. O ponto nevrálgico da causa de Dawkins é a adoção de uma separação real entre Estado e religião – isso significa a exclusão dos dogmas e pressões de religiosos na implementação de leis que regulam assuntos como aborto e homossexualismo, por exemplo.
Mas, no final das contas, se todo mundo tivesse acesso à educação, não se deixasse levar por fundamentalismos religiosos nem se metesse na maneira como os outros vivem sua própria vida, talvez não fizesse mais a mínima diferença se uma pessoa acredita em Maomé, numa chaleira sagrada, num monstro de espaguete ou em nada.
ATEÍSMO PARA PRINCIPIANTES
Como boa parte do pensamento ocidental, o ateísmo tem suas raízes na Grécia antiga. Mais exatamente nos filósofos materialistas, que só acreditavam na existência daquilo que pudesse ser percebido pelos sentidos (visão, olfato, tato etc.). O primeiro ateu célebre da história foi o filósofo Epicuro, que afirmou não acreditar na existência de Deus nem na vida após a morte. Séculos depois, suas idéias foram difundidas em Roma pelo poeta Lucrécio. A discussão morreu depois da queda do Império Romano, já que na Idade Média questionar a existência de Deus era suficiente para levar uma pessoa para a fogueira. O assunto voltou a público lá pelo século 16, quando surgiu o conceito de deísmo – a crença em um Deus, mas não em uma religião. Foi a deixa para que as pessoas começassem a questionar as religiões. Textos da Antiguidade Clássica foram resgatados e alguns filósofos, como Thomas Hobbes, foram preparando o terreno para o crescimento do ateísmo como o conhecemos hoje.
Esse novo pensamento possibilitou o surgimento dos Estados laicos (em que governo e religião são separados), como o francês. No final do século 19, havia uma crença disseminada de que um dia a ciência explicaria tudo no mundo e ninguém mais precisaria de religião. O filósofo alemão Nietzsche disse “Deus está morto”. Hoje já sabemos que matar Deus não é tão fácil e que as verdades científicas não fazem necessariamente as pessoas deixar de lado suas idéias religiosas. Apesar disso, o que não falta é gente tentando juntar ciência e religião “na marra”, como os defensores do design inteligente, que nada mais é do que o velho criacionismo vestido de ciência.

Deus, um Delírio
Richard Dawkins, Companhia das Letras, 2007.

O Fim da Fé
Sam Harris, Tinta da China, Portugal, 2007.

Quebrando o Encanto
Daniel Dennett, Globo, 2006.

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Do Site Jornal da ciência

JC e-mail 2777, de 30 de Maio de 2005.

Richard Dawkins: “A conquista de Darwin é universal e atemporal”

O zoólogo britânico diz que “um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx, cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial, "terreno"

Jerônimo Teixeira escreve para a revista “Veja”:

No início do ano, o zoólogo britânico Richard Dawkins, de 64 anos, visitou o arquipélago equatoriano de Galápagos, no Oceano Pacífico.

Estava seguindo os passos da excursão científica realizada em 1835 por seu herói intelectual – o naturalista inglês Charles Darwin, autor de “A Origem das Espécies”, obra que se tornou a base da biologia moderna ao lançar, em 1859, a idéia de que a vida evoluía por meio da seleção natural.

Autor de verdadeiros clássicos da divulgação científica como “O Gene Egoísta” e “O Relojoeiro Cego”, Dawkins é – ao lado do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que morreu de câncer em 2002 – um dos maiores propagandistas do darwinismo.

Seu novo livro, “O Capelão do Diabo”, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é uma coletânea de ensaios que dá uma boa amostra de sua paixão pela ciência – e de sua oposição à religião, tema de uma das seções mais incendiárias do livro. Por telefone, de seu escritório na Universidade de Oxford, onde leciona, o zoólogo concedeu a seguinte entrevista a “Veja”.

Veja – Passados quase 150 anos desde a publicação de A Origem das Espécies, qual a força do pensamento de Charles Darwin?

Dawkins – A conquista de Darwin é universal e atemporal. Os processos evolutivos descritos por ele devem acontecer em qualquer lugar do universo onde porventura exista vida. Em um dos ensaios de ‘O Capelão do Diabo’, afirmo que um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx – a quem ele já foi comparado –, cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial, "terreno". Quando releio Darwin, sempre me surpreendo com quão moderno ele soa. Considerando que suas concepções de genética estavam erradas, é impressionante como ele conseguiu acertar em todo o resto. Com um princípio básico, a seleção natural, o darwinismo é capaz de explicar uma enorme variedade de fenômenos complexos. É uma teoria muito elegante.

Veja – Pode-se dizer que o darwinismo é hoje uma teoria bem compreendida e assimilada?

Dawkins – Infelizmente, não. As pessoas pensam que o darwinismo é uma teoria do acaso, quando é na verdade a teoria que nos permite escapar ao acaso na biologia. Darwin não diz que organismos tão formidavelmente complexos quanto aqueles que vemos sobre a Terra surgiram de maneira fortuita. A seleção natural não opera cegamente: de geração em geração, ela preserva os genes que trazem vantagens e elimina aqueles que trazem desvantagens aos organismos. É assim, dessa forma gradual, que a evolução acontece. Muitos argumentam que a beleza e a complexidade da vida só podem significar que por trás dela há um projeto deliberado, um "desenho inteligente" feito por Deus. Não é assim: a alternativa para o acaso não é um "projeto", mas a seleção natural.

Veja – Hoje há um embate entre evolucionistas como o senhor e os criacionistas. Por que o senhor considera inaceitável a idéia de que a vida foi criada por Deus?

Dawkins – Postular a existência de um Deus que criou a vida é o tipo de idéia que só complica as coisas. É um raciocínio contraprodutivo, pois traz a necessidade adicional de explicar a existência desse ser. A partir de elementos muito simples, a seleção natural mostra como e por que a natureza abriga a imensa complexidade, a imensa variedade dos seres vivos existentes. Esse é o poder desse conceito. Com ou sem um ser divino no início de tudo, a seleção natural ainda teria a mesma capacidade de explicar o funcionamento da natureza.

Veja – Por que o senhor chama a religião de "vírus da mente"?

Dawkins – Isso está relacionado à idéia de meme, que lancei em 1976 no meu livro O Gene Egoísta. Cunhei o termo – que já foi incorporado pelo dicionário Oxford – em analogia com gene. Assim como os genes são unidades auto-replicadoras que passam de uma geração a outra, também os memes seriam capazes de replicar a si mesmos e passar de uma mente para a outra. Esse conceito é útil se explica por que uma idéia em particular se disseminou. Um meme pode ser uma idéia científica, uma melodia, um poema, e nesse caso ele se dissemina por seus méritos. A religião seria um memeplexo, isto é, um conjunto de memes que costumam florescer na presença uns dos outros, tal como acontece com certos complexos de genes. Mas, ao contrário dos bons memes, a religião não se dissemina porque é útil. Ela salta de uma mente para outra como uma infecção, ou como um vírus de computador, que só se propaga porque traz embutida uma instrução codificada: "Espalhe-me".

Veja – O senhor já observou que a ciência pode ser "religiosa, no sentido não sobrenatural da palavra". Poderia explicar essa expressão?

Dawkins – Eu não estava falando da religião que acredita em um Deus que ouve nossas preces. Einstein considerava-se religioso, embora não acreditasse em nenhum plano sobrenatural. Ele só usava a palavra "religião" para definir seu sentimento de espanto e mistério diante do universo. Eu empreguei a palavra no mesmo sentido em um ensaio, mas isso talvez não seja recomendável. Há muita gente ansiosa por deturpar formulações como essa. Muitos gostariam de trazer pessoas como Einstein para o bloco dos crentes, ao qual ele certamente não pertencia.

Veja – Um cientista não pode ser religioso?

Dawkins – Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Tenho dificuldade em simpatizar com isso. Se eu mantivesse crenças contraditórias, tentaria refletir sobre o tema até me decidir por um lado ou outro.

Veja – O senhor afirma que evolucionistas não deveriam participar de debates públicos com partidários do criacionismo. Por quê?

Dawkins – Essa é uma proposta minha e do paleontologista americano Stephen Jay Gould. Pretendíamos escrever um texto conjunto sobre o tema, mas Gould morreu antes de revisar o esboço que apresentei a ele. Os criacionistas buscam esse debate para conquistar um verniz de respeitabilidade intelectual. Eles não têm esperança de "vencer" a discussão: querem apenas ser reconhecidos no mesmo palanque ocupado por um cientista de verdade. Por isso devemos evitar esses encontros.

Veja – Essa recusa não passaria a idéia de que os darwinistas são arrogantes ou temem o debate?

Dawkins – Talvez sim. É muito difícil lidar com esse problema. Gould e eu podemos estar errados, mas essa é a posição que tomamos, e, no momento, eu ainda a sustento. Talvez, para evitar o perigo de conferir status demais ao criacionismo, o ideal seria que apenas estudantes de pós-graduação ou mesmo de graduação participassem desse tipo de debate. Eles estariam tão capacitados quanto eu para refutar os criacionistas, cuja argumentação não é tão refinada assim.

Veja – A espécie humana não teria uma necessidade natural de religião?

Dawkins – Não creio que seja uma necessidade universal. Se a demanda é por reverência e espanto diante da vida e do universo, a ciência pode satisfazê-la. Se a demanda é por conforto diante da morte, então talvez a ciência não possa satisfazê-la. Seja como for, reconhecer que existam necessidades pessoais ou coletivas atendidas pela religião não equivale a dizer, de maneira nenhuma, que exista verdade nas concepções religiosas.

Veja – O senhor acredita que algum dia a humanidade possa viver sem religião?

Dawkins – Não por um longo tempo. E eu jamais proporia qualquer forma de proibição à atividade religiosa. A resposta está na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais difícil será para a religião sobreviver.

Veja – Há beleza na ciência?

Dawkins – A verdade é bela em si mesma. E existe uma elegância própria do conhecimento. Einstein comovia-se com a beleza das equações. Além disso, os fenômenos que biólogos ou astrônomos estudam – árvores, pássaros, estrelas – são belos em si mesmos. Lidar com eles é lidar com o belo.

Veja – Quando se discute bioética, a questão da clonagem humana é sempre levantada. Seria mesmo o problema mais importante hoje?

Dawkins – Não, não é um problema tão importante. As pessoas se opõem a essa idéia por razões variadas. Todas as tecnologias reprodutivas envolvem a morte de embriões, e há um preconceito religioso contra isso. Há quem reaja com nojo diante da idéia de clonagem humana. Imaginam, digamos, centenas de Saddam Hussein marchando no mesmo passo, o que de fato é uma perspectiva aterrorizante. Mas ela está calcada em idéias falsas como, por exemplo, a de que um clone não teria personalidade individual. Geneticamente, gêmeos idênticos são clones um do outro – e têm, como bem sabemos, personalidades independentes. Há muita mistificação sobre esse tema.

Veja – O senhor acredita que esse tipo de clonagem vá ocorrer?

Dawkins – Não com a tecnologia que temos hoje, que produziu a ovelha Dolly, um único clone, ao custo de muitos embriões perdidos. De qualquer forma, a criação de um clone humano nunca foi proposta seriamente. Propõe-se, isso sim, a clonagem de células-tronco, para propósitos médicos. As únicas objeções a isso, repito, têm motivação religiosa, e são estúpidas.

Veja – Devem-se impor limites ao conhecimento científico?

Dawkins – Questões sobre o que é certo ou errado não comportam verdades absolutas. São matéria de julgamento e ponderação. A ciência não pode decidir sobre esses problemas – pode apenas demonstrar incoerências nas posições que tomamos. A decisão, por exemplo, de proibir ou não o desenvolvimento de armas biológicas não é um problema científico. É algo que tem de ser discutido pela sociedade em geral – políticos, juristas, cidadãos.

Veja – O senhor já demonstrou entusiasmo pela idéia de que um dia talvez seja possível reconstituir geneticamente o elo perdido entre o ser humano e os outros primatas. Como seria isso?

Dawkins – O geneticista sul-africano Sydney Brenner propôs que um dia talvez possamos, a partir do genoma do homem e do chimpanzé, fazer uma projeção retrospectiva até nossos antepassados. Uma espécie de "média" entre os dois genomas seria próxima do ancestral comum de homens e chimpanzés, que viveu em torno de 6 milhões de anos atrás. Com esse código genético em mãos, talvez a tecnologia embriológica do futuro seja capaz de criar esse ser vivo, um espécime do nosso antepassado comum, o elo perdido. Teríamos vivo, respirando na nossa frente, um ser que é intermediário entre o homem e outra espécie animal. Um experimento desse tipo seria um duro golpe contra a arrogância humana. Isso poderia mudar o antropocentrismo da nossa ética e da nossa moral. Hoje, todos os intermediários estão extintos, o que fomenta a idéia falsa de que ocupamos um espaço à parte na natureza. A biologia atual não vê o homem como o pináculo da evolução. O darwinismo não faz valorações desse tipo. Quando um darwinista fala em um animal "melhor" quer dizer apenas melhor em reproduzir-se, em passar adiante sua carga de genes.

Veja – O senhor tem escrito muitos artigos criticando o presidente americano George W. Bush. Faz isso como cientista ou como cidadão?

Dawkins – Existem cientistas cujo interesse em política é tão dominante que acaba colorindo suas pesquisas, inclusive as mais técnicas. Creio que esse tipo de mistura não é aconselhável. Digamos que me pronuncio como um cidadão com um nível elevado de conhecimento científico. Bush não tem nenhum interesse em ciência, a não ser na medida em que ela possa ser usada para fins militares, e é uma ameaça ao meio ambiente, pela recusa em assinar o Protocolo de Kioto. O mundo seria um lugar melhor sem ele.

Veja – O senhor recentemente esteve em Galápagos, onde Darwin fez muitas observações que embasaram sua teoria. Ainda é um local privilegiado para observar a evolução?

Dawkins – Sim. As ilhas são muito novas, têm só 3 ou 4 milhões de anos, e nesse tempo limitado houve nelas uma diversificação de espécies fabulosa. É impressionante como os animais lá são pouco ariscos. Talvez porque tenha havido muito pouca predação, você pode caminhar até muito próximo deles. E eles não fogem. É como estar em um imenso zoológico a céu aberto, sem jaulas. Muito pouco mudou desde a época em que o jovem Darwin esteve lá, em 1835, perguntando-se exatamente sobre o "mistério dos mistérios" que era o surgimento de novas espécies. Embora o triunfo de Darwin pudesse ter sido gestado em qualquer lugar do universo, ele foi fruto de uma viagem de cinco anos ao redor do planeta, na qual Galápagos foi uma das escalas mais importantes.
(Veja, 1º/6)

sábado, 16 de maio de 2009

A Eterna Maldição do Cacique Serigy



Aperipê e Serigy eram os principais caciques das terras indígenas onde posteriormente foi criada a capitania de Sergipe D,El Rey. Derrotado este último, reza a lenda que ele lançou sobre seus algozes uma maldição que dizia que nesta terra nenhum fruto, de qualquer espécie, vingaria. Há quem diga que a praga é real e perdura até hoje. Alguns amigos meus fizeram um filme tendo como base esta lenda. Será lançado dia 20/5/2009, às 19:30h, na Sociedade Semear. Compareça, é de graça.

Eu assisti com exclusividade (ou não – não sei ao certo, mas tanto faz) a referida fita e gostei bastante. Esteticamente remete ao cinema marginal e ao cinema novo, de modo geral – o que quer dizer que tem CARA de cinema, e isso é muito bom – aliás, o material publicitário também tem “cara” de cinema, e é bem legal. A fotografia, talvez por conta da temática e dos cenários parecidos, me lembrou “Macunaíma”. Os diálogos são afiados e bem colocados – muito embora a dublagem seja totalmente fora de sincronia, segundo Alessandro “Cabelo”, propositadamente. Devo ressaltar que Estranho está muito bem no papel do Cacique, numa interpretação intensa e despojada. Incorporou. E é surpreendentemente bem-humorado, o filme – num dos treilers o narrador pomposamente fala que é uma aventura repleta de AÇÃO (e passam cenas de ação), SUSPENSE (cena de suspense), AMOR (e somos brindados com uma imagem em que uma mulher indigena de pernas para cima recebe estocadas do branco invasor). Um dos diálogos também é especialmente hilário – nele o Cacique Serigy faz um questionamento ao pajé e recebe uma longa e elaborada digressão filosófica como resposta, que replica com um “não entendi nada do que você quis dizer, pajé, mas acho que concordo”. Enfim, é um filme muito interessante, com imagens fortes produzidas por gente que demonstra em cada “frame” que sabe o que está fazendo, têm referencias e sabe como usá-las. Têm “know how”, como dizem os “gringos”.

Por Adelvan kenobi

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publicado originalmente no site overmundo
por Lu Almeida

O curta-metragem sobre lenda indígena sergipana mais famosa vai ser apresentado em sua primeira exibição pública, na quarta-feira, dia 20 de maio, às 19h30 no auditório da Sociedade Semear. Os realizadores Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano escreveram, produziram e filmaram um curta com duração de 14'59'', quatro meses de produção e orçamento de pouco mais de R$ 30,00. Segundo Alessandro Santana “ é um filme eminentemente político que trata da formação do passado e da contemporaneidade da nossa terra de uma forma crítica e alegórica. É um filme político pela sua natureza”.

E se precariedade é uma característica do Brasil , a falta de recurso dá margem para criatividade. Com esse espírito, oito amigos se reuniram e fizeram “um filme humano, principalmente, ou até, no seu sarcasmo” como explica Mauro Luciano. Para Hernany Donato, interpretando Cristóvão (o homem-branco), existia uma vontade muito grande de fazer algo relacionado à produção cultural daqui do Estado. "Isso precisava remeter a um certo mal-estar coletivo. Precisávamos colocar em prática nossas idéias e bons devaneios. Eis que surge a figura insistente e lúcida do Cacique Serigy", finaliza o ator.

Você confere a história completa entre o encontro do colonizador e a resistência do índio tupinambá na avant-première. O treiler pode ser visto no Youtube.

SINOPSE
Um homem em pleno contato com a natureza se vê ameaçado por uma estranha embarcação. Depois que ela aportou, nada mais foi paz no seu jardim das delícias. Um filme eletrizante que traz à tona a estória de um mito. O mito de uma tribo qualquer brasileira que se prostra diante do canto embriagante e conveniente de invasores. Muito embora imerso nesse contexto de inanição de desejos mais concretos, aflora nas brenhas deste solo as forças da natureza personificadas na figura densa do cacique Serigy, esbravejador de uma tradição contrária às tradições, esta ao mesmo tempo que se esmaga, camufla-se nas estruturas desgastadas de povos quaisquer às nossas vistas, no lugar sem dono, desértico em atitudes, só ele, o cacique para nos dar essa idéia.

FICHA TÉCNICA
Dados: Ficção, 14:59 minutos, Colorido, Stereo.
Elenco: Andrezza Poconé, Estranho, Fred Leão e Hernany Donato.
Roteiro e Direção: Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano.
Produção: Bruno Monteiro e Alessandro Santana.
Fotografia: Bruno Monteiro.
Still: Anderson Bruno.
Edição: Alessandro Santana.

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Entrevista com os realizadores do filme

Luciana Almeida, para o overmundo

Os realizadores Alessandro Santana, Bruno Monteiro e Mauro Luciano escreveram, produziram e filmaram a “A eterna maldição do Cacique Serigy” ao lema do diretor Rogério Sganzerla: "quando a gente não pode nada, a gente se avacalha e se esculhamba”. O curta com duração de 14'59'', quatro meses de produção e orçamento de pouco mais de R$ 30,00 promete ser tímido só em números. Parece até mentira, mas cinema de invenção também é feito em Sergipe. Confira, abaixo, a entrevista com Alessandro Santana e Mauro Luciano onde falam sobre sobre cinema, política e ação cultural (não necessariamente nessa mesma ordem).

Luciana Almeida - Como foi fazer o curta-metragem?

Mauro Luciano - Na minha opinião foi um fardo em se tratando de uma produção executiva, mas por outro lado uma experiência revigoradora por conta da união da equipe. Não é a história de cair na mesmice de reclamar de falta de dinheiro pra se fazer filmes, ou de falta de atenção por parte de instituições públicas que se dizem prestar serviço ao audiovisual. A questão é em se fazer um filme de qualidade sem recurso técnico algum. Muita gente tem feito isso - inclusive em Aracaju, um lugar muito atrasado no campo do audiovisual. Dá pra ver no youtube, algumas das experiências neste curso. Mas a forma do filme evidencia uma ingenuidade que, de certa maneira, é reflexo dessa incipiente produção provinciana e "quase" miserável. Então a idéia inicial foi essa: fazer um manifesto em forma de audiovisual contra a parquice da arte audiovisual do local (ainda que o filme possa ser visto como nacional também, já que a situação da miséria cultural no Brasil ainda é generalizada).

Alessandro Santana - Fazer esse curta foi um tipo diferente de experiência pra mim, pois nunca tinha trabalhado como diretor de ficção, nunca tinha trabalhado com não atores (nem atores)... Sempre acreditei e tive simpatia pela lenda da maldição. Me uni com mais alguns amigos que também são simpáticos à idéia do indígena em questão e, em 4 meses escrevemos o roteiro, gravamos e finalizamos o curta. Participei de todos os processos (roteiro, produção, e pós produção) e digo: é estressante. Crianças, não tentem fazer isso em casa.

Luciana Almeida - Qual a importância do curta-metragem? Enquanto percebemos uma produção cinematográfica cada vez menos politizada, o "Cacique" segue no sentido contrário?

Alessandro Santana - O curta não tem importância nenhuma. É só mais uma produção audiovisual. Se ele se tornará importante, só a história dirá e mesmo assim eu sei que não vou ganhar nada com isso (além da inimizade de pessoas que por ventura se sintam atingidas pelo humor ácido do filme). Sim, ele é um filme eminentemente político que trata da formação do passado e da contemporaneidade da nossa terra de uma forma crítica e alegórica. É um filme político pela sua natureza. Se eu fosse marxista diria que era “um filme sobre luta de classes”, mas também não é deste tipo de política que estamos tratando. É algo bem maior que isso, que perdura nos séculos e essa História está mais pra terror que pra amor.

Mauro Luciano - Não acho que o filme siga contra a maré. O filme é humano, principalmente, ou até, no seu sarcasmo. Contra a maré é fazer filme pra ganhar dinheiro às custas de verba pública. Assim deveria ser visto por todos - e assim é ético. Um ponto dele que me incomodou é o ressentimento ao falar desse assunto, como se eu, Cabelo e Bruno tivéssemos raiva da produção artística de Sergipe. Bem, dá pra ver de outra maneira - é uma tentativa de crítica ao status quo de uma estética do irracional, e de um primitivismo sem raiz alguma em conceitos. Um espontaneísmo idiota que toma conta de gente que se chama de artista e intelectual (se é que essas máscaras ainda existem, na sociedade de consumo desenfreado e ávida por surrealismos pops midiáticos). Acho que nesse ponto que o filme é político também - ao impôr uma reflexão a quem assiste. Além, claro, da revigoração de uma lenda que dá um contorno ao imaginário radical de Sergipe. Até Antônio Cândido já falou desse radicalismo em personagens públicos de Sergipe. E não é por acaso, também, que partidos de esquerda ditem novas formas de gestão pública no Estado. No entanto, o radicalismo virou só fachada, perdeu o vigor (como, por exemplo, um partido comunista estar na frente com propostas evidentemente liberais, denotando uma farra de ornintorrincos, tal como Chico de Alencar deu o nome a esse novo político que bota ovos e mama, ao mesmo tempo). É uma lástima que, se vista com ressentimento, fica inaudível. Por isso é melhor ver o filme sobre uma maldição do Serigy como violento e bobo, igual a uns filmes B que vão surgindo aos montes - mas com a diferença da mensagem (militante, até) significativa que ele traz nas entrelinhas.

Luciana Almeida - Quais são as influências/referências no “Cacique”? Glauber Rocha? A idéia da produtora "Faz o que pode" lembra Sganzerla & Bressane também...

Alessandro Santana - Definitivamente temos influência de tudo aquilo com o que convivemos. Cinematograficamente falando, você está correta: temos referências no cinema novo e no cinema marginal como um modo brasileiro de ver e contar a estória, assumindo a precariedade e fazer o que é NECESSÁRIO fazer, além do que, nós três que dirigimos esta obra gostamos da estética do Glauber e do anti-cinema da BelAir, mas, por incrível que pareça, uma das minhas maiores influências foi a música sergipana. Esse barato de exaltar o ‘quase-nada’ me deixa perplexo.

Mauro Luciano - Glauber foi uma moldagem necessária, porque ele tentou inventar um cinema feito no Brasil, e com especificidades do Brasil. Ou seja, o subdesenvolvimento cultural posto em primeiro plano da forma artística, como maneira de se integrar a uma vanguarda. Mas aí vem a história de Ferreira Gullar, no livro Vanguarda e Subdesenvolvimento. O buraco fica mais embaixo, nesse debate sobre uma fórmula pobre mostrada às elites socialistas mundiais. Sem contar que Glauber Rocha foi o único, até agora, que comunicou de maneira profunda na sua alegoria, os problemas dessa ex-colônia portuguesa (ou européia). Eu acho que, até no inconsciente indígena, o Serigy tem uma força nordestina que é própria de um tipo de arte popular, que insistem em chamar de vanguardista. A rememoração de Bressane ou Sganzerla, da BelAir e dos filmes super 8, como figuras autorais desse subdesenvolvimento posto à tona, é também uma homenagem a dois artistas ainda incompreendidos por 99,9% dos espectadores de cinema e TV. Mais especificamente Sganzerla, desde o Bandido, fez esse link com a arte e o popular. Então - como fazer uma experimentação ter ares de cultura popular? Essas são as influências - de artistas que brincavam e brigavam por imagens relevantes.

Luciana Almeida – Uma característica do curta-metragem é a questão da precariedade. Essa característica já é um fato superado na história da arte. Não é o orçamento de um projeto artístico que mede seu valor. Quais foram as condições de produção e como isso interferiu no aspecto estético-narrativo? Podemos falar sobre uma estética do precário? Segundo Helio Oiticica "da adversidade vivemos", isso se encaixa no processo de feitura do curta de vocês também?

Mauro Luciano - Como te falei anteriormente, o curta não passou por um processo longo de produção, muito menos de discussão, elaboração. Nem mesmo teve iluminação, captação de som ambiente, preparação exaustiva de atores, roteiro - nada disso. Foi uma camerazinha amadora digital num tripé e uma idéia na cabeça, se é pra ser generoso com a vontade de se fazer do Cinema Novo. Isso entra como atributo estético? Acho que pode entrar, na medida em que todos que participaram do projeto estavam cientes de que não iriam ganhar dinheiro com aquilo, e nem mesmo sabiam no que ia dar em resultado - imagine-se entrando numa produção desse tipo... É algo que se chamaria no jargão de "fazer por amor à arte", se a arte não estivesse no caixão faz tempo. Então o filme foi feito "por amor ao escracho", já que é a única maneira de provocar algum rebuliço na burrice generalizada. E, convenhamos, se até o funk carioca tem sido visto com outros olhos pela crítica, por que não uma produção audiovisual tosca violenta como o filme do “Cacique” não seria?

Alessandro Santana - A precariedade é uma característica do Brasil e não acredito que num país subdesenvolvido como o nosso, a falta de recurso seja motivo para a não-produção. As nossas condições de produção foram mínimas para que se pudesse ter o resultado final necessário da obra. A gente fez o que pode dentro dos nossos limites, assumindo a precariedade da produção, fazendo claquete de fundo de gaveta e tocando adiante a produção, sem essa de esperar por iniciativas públicas para produzir. Se a imagem não tem alta definição, ou se isso ou aquilo está fora do padrão técnico esperado pela questão de precariedade de equipamentos, é isso aí mesmo o que podíamos fazer para não cair no ostracismo da não produção: Contente-se com o que está aí na tela. É o que tem e sem maquiagem. Acho que essa questão de precariedade cai mais pro lado estético do que pro narrativo, entretanto algumas questões da narrativa tiveram que ser adaptadas às nossas condições técnicas para que a sequência ou o plano pudesse dar a conotação ou resultado imagético esperado para o objetivo final. Enquanto vemos filmes lindos e vazios como uma publicidade de margarina que lhe vende um dia saudável em 30 segundos, temos filmes ‘feios’ que podem te despertar um questionamento. A partir daí, só depende do espectador. Existem os que pensam. Também existem os que só olham e falam, mas que nunca fizeram absolutamente nada além de olhar. A opinião desses não me vale de nada. Se “da adversidade vivemos” é porque “toda unanimidade é burra”. Não fiz o filme para ser adverso. Fiz por necessidade neste exato momento da minha vida, neste lugar que não explode nem se implode.

Luciana Almeida - A “Maldição do Cacique” não deixa de ser uma alegoria sobre nossas limitações? Afinal, o personagem do cacique é um anti-herói?

Alessandro Santana - Sim, o filme é uma alegoria, mas não sobre nossas limitações. Já se deu conta que o mito da maldição do cacique é uma coisa que paira na esfera político-cultural? O personagem Serigy pode ser um anti-herói ou até um semi-herói, pois Herói mesmo é Cristóvão de Barros. Ganhou até nome de santo, nome de cidade, nome de praça... Quando Sergipe se tornou Sergipe, foi uma tentativa de se redimir perante o cacique, mas a maldição já tinha colado e nunca mais ele largou o aerostato.

Mauro Luciano - A maldição do Cacique é uma lenda. Nem tudo o que se escreve faz parte da história - existe, também, uma história oral, que é passada de geração a geração. Na idade média acontecia assim, porque ninguém sabia escrever, só a padraiada entocada nas igrejas. Hoje, a história oral é a história não oficial - a que não aceitam como a tradição porque ainda é contada por gente que não sabe ler nem escrever. Não acho que Sergipe tenha nascido, assim como a Bahia, como Fortaleza, ou mesmo a Paraíba (esse Estado sim, com uma evidente simbologia de luta, vista na bandeira) como se vê nos livros - uma terra linda com palmeiras e sabiás. Claro que o Nordeste é lindo pros europeus, mas no momento de criação dessa região a história foi de apropriação de terras, invasão, roubo, latrocínio, genocídio e estupros. Diferente do que aconteceu na parte Sul do país, que houve uma colonização na melhor acepção da palavra. Até hoje, no Nordeste, a violência é ainda latente, e ela desce até, mais ou menos, às periferias do Sudeste. É a velha história da modernização imposta de um modo conservador ( só pra elites), o que gera e gerou uma periferia marginalizada de pessoas do tipo do cacique - que é uma alegoria clara da periferia que vem desde a suposição de um revolucionário do bando de lampião como o corisco de Glauber, um latino-americano indisposto e tosco, e assim foi aceito em todas as mesas chiques que apareceu. Resumindo - não se trata de uma narrativa convencional - e por isso acho que o Serigy fica parecendo um herói, mas nem tanto -, mas sim de uma lenda oral de um povo marginalizado ( de uma história dos vencidos, como diria Walter Benjamin) transposta pras telas.

Luciana Almeida - No filme "O Bandido da Luz Vermelha" de Sganzerla há célebre frase: "quando a gente não pode nada a gente se avacalha e se esculhamba". A lucidez possível é o riso paródico dentro do “Cacique”?

Alessandro Santana - As graçinhas nas entrelinhas estão lá. A lucidez e o riso estão com o espectador.

Mauro Luciano - Lucidez rima com iluminismo. Acho que todo mundo da equipe era a-luno(a). Não que eu ache que precisasse de um professor pra toda a turma - pelo contrário. Como o filme foi feito sem iluminação, melhor não ter lucidez nenhuma.

Luciana Almeida - E a satirização ... ela surge pelo desencanto? Há um certo desencanto dessa geração? O Cacique Serigy é um símbolo desse sentimento?

Mauro Luciano - O desencanto é característica da modernidade. Vi em Lefebvre que só a ironia é que domina algum tipo de mensagem codificada com o encantamento antigo, e isso o velho feio Sócrates, e o inimigo bonito dele, Nietzsche, tambem diziam. Mas aí é que tá - Sócrates moderno? Nietzsche irônico? É o que diz Lefebvre. A geração desencantada, no caso, é uma geração violentada, usurpada, alienada e toscamente armada. E nisso há razão, há iluminação - mas de outro tipo. Talvez romantizada. Mas eu prefiro achar que é anti-utópica, ainda que revoltada. O Serigy apareceu na hora certa pra mostrar um grito que em vários lugares da américa latina roubada até hoje pelas grandes aristocracias burguesas do mundo deveria ser ouvido. Pra os grã-finos do Banco Mundial ou da ONU ouvissem não só a diplomacia de conversas a sete chaves em ONGs entocadas, mas a indignação de marginais que hoje estão se organizando no crime. Faltou uma bomba atômica na cidade, no fim do filme.

Alessandro Santana - A satirização, no meu caso, já é o que podemos chamar de estilo de vida. Admito: faço parte dos citados na bíblia como ‘a roda dos escarnecedores’. Não perco oportunidade de fazer uma galhofa, e como sergipano, nascido em Aracaju, me sinto com todo o direito de dizer (ao meu jeito) o que eu acho sobre o lugar onde nasci e vivo. Desencanto com este lugar, não tenho porque nunca me encantei com nada por aqui. O filme na verdade é o símbolo de um sentimento de quem se sente roubado por uma pessoa que nunca viu na vida com a conivência dos seus semelhantes, enquanto todos fazem vistas grossas ou reclamam, mas não fazem nada a respeito. Nem um curta-metragem

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Parque dos Falcões



A aproximadamente 45 Km de Aracaju, localizado aos pés da Serra de Itabaina-SE, ao lado do Parque Nacional de Reserva Natural, o Instituto Parque dos Falcões foi construído através do trabalho e esforço de dois sonhadores, José Percílio e Alexandre Correia, e de alguns admiradores e colaboradores.

Alexandre tornou-se "cúmplice" de Percílio no ano de 1999, mas a história do Instituto começou ainda na infância do fundador. Aos 7 anos, Percílio ganhou um ovo de Carcará (Caracara plancus), e depois de 28 dias sendo chocado por uma galinha, nasceu Tito, seu primeiro grande amigo. (Ano de 1984). Hoje, Tito tem 25 anos e o Instituto cuida de mais de 300 aves, entre gaviões, falcões, corujas, socós-boi, pombos, etc.

Já conhecido por muitos turistas, estudantes, biólogos, e pesquisadores brasileiros e estrangeiros, o Instituto é um dos únicos locais do país com autorização do IBAMA para a criação dessas aves em cativeiro. (Ano de 1990). Com o objetivo de salvar e proteger as espécies de aves de rapina que habitam o céu brasileiro, o Instituto Parque dos Falcões tornou-se uma referência no manejo, reprodução e reabilitação desses animais, acumulando um grande conhecimento sobre o seu comportamento. Todos os meses, o Instituto recebe através do IBAMA, da Polícia Ambiental e do Corpo de Bombeiros, aves maltratadas, machucadas ou mutiladas pela ação humana, que parece satisfazer-se com o sofrimento desses e de muitos outros animais.

O Instituto Parque dos Falcões está aberto ao público todos os dias da semana. Para chegar ao centro conservacionista siga de Aracaju em direção à Itabaiana. Depois de passar pelo município de Areia Branca (km-34), percorra aproximadamente 9 km. No lado direito, há uma placa indicativa sobre o Instituto. Entre por essa estrada (única parte do trajeto não asfaltado) e percorra mais 2,5 km. É indispensável agendar previamente a sua visita.

Saiba mais clicando aqui.