segunda-feira, 14 de maio de 2012

Avião ...

E moto, carro, cachorro, criança, banda de rock tocando, pessoas passando na frente da câmera e entrevistados pouco a vontade ao serem filmados. Assistir aos “Erros de gravação” do DVD “Fanzineiros do Século Passado - Capítulo 2: O fanzine a serviço do rock, os fanzineiros deste século e os estímulos para a produção impressa” nos dá uma idéia das dificuldades passadas por Marcio Sno para concluir sua obra. E olha que é uma trilogia, ainda falta a terceira parte ...

Nunca tive problemas com a palavra “amador”. Porra, vem de “amar”. Amadores devem amar o que fazem, já que, justamente por não serem profissionais, não trabalham em troca de remuneração. O problema é que associou-se esta simpática palavra a algo feito às pressas, sem dedicação ou esmero – “nas coxas”, pra ficar num termo mais chulo e popular. Mas não precisa ser assim, e o filme do Sno é um grande exemplo disto. Salta aos olhos que não foi feito por profissionais: é gritante a disparidade de qualidade entre imagens e a deficiência na captação de som de alguns (muitos) trechos. Isto não o torna, no entanto, menos atraente, e muito menos menos importante. Pelo contrário: confere ao trabalho um certo charme alternativo que se confunde com o próprio objeto abordado, o universo dos fanzines e da chamada “imprensa alternativa” em geral. 

O capricho aparece já na apresentação do DVD, que vem embalado por um belíssimo livreto que é, por si só, um fanzine xerocado. Ótima cópia, por sinal. Valoriza o trabalho dos colaboradores - uma coisa que me irritava muito nos meus tempos de correspondência era quando eu recebia um material de qualidade com uma cópia sofrível. Na capa, Henry Jaepelt, e no miolo textos explicativos assinados por Cecilia Fidelli e pelo próprio Sno (os não assinados acredito que sejam dele) emoldurados por ilustrações de Marcatti, cópias de páginas de zines diversos e tirinhas produzidas por Pedro de Luna e Maria Jaepelt.

O disco é personalizado e vem num  envelope dentro do “zine”. Ao colocá-lo no DVD player, sugiro diminuir primeiro o volume da televisão, especialmente se você estiver vendo de madrugada com a mulher dormindo no quarto ao lado, porque os riffs toscos do primeiro disco da Gangrena Gasosa, que servem de trilha para o menu, explodirão nos alto-falantes. Na tela aparecerá a imagem da capa numa reprodução nítida em fundo colorido com os itens a serem escolhidos: além do documentário em si, os extras trazem a primeira parte do filme, o treiler e os já citados erros de gravação – 17 minutos hilários onde se destaca a luta de entrevistador e entrevistados contra, principalmente, o barulho dos aviões e uma simpática dobermam que insiste em se fazer ouvir até, finalmente, dar as caras no canto da tela ...

Um grande problema da primeira parte foi resolvido de forma elegante por Sno: à medida que os personagens vão se manifestando, muito do que é dito é ilustrado na tela com legendas (em fontes bonitas e legíveis) e imagens (muito bem diagramadas). Enriqueceu muito o resultado final, visualmente falando. Já os conceitos e tópicos abordados, por sua vez, aparecem um tanto quanto fragmentados pela edição ágil porém excessivamente picotada, na maior parte do tempo. Este aspecto melhora no final, quando o filme passa a enfocar algumas experiências específicas, como a Ugra (que não se sabe bem o que  é, se uma editora, um blog ou um fanzine, ou tudo ao mesmo tempo agora – o mais provável), o Zinescópio (este sim, definitivamente um blog, dedicado a disponibilizar scanners de fanzines originalmente publicados em impressos de papel) e a Livraria HQ Mix.

Personagens mais ou menos famosos e semi-anônimos desfilam nos 60 minutos de filme falando principalmente de São Paulo (normal, lembro que, quando eu estava “na ativa”, cerca de 60% da correspondência que recebia vinha de lá), mas também de Londres, do Canadá, Rio de janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba. O autor não viajou até lá para gravar as imagens, elas foram captadas e enviadas poramigos e colaboradores, o que resulta numa ligeiramente desconfortável diferença de som e imagem que faz você ora ver tudo nitidamente, ora não ver quase nada, como no caso das entrevistas com Wander Wildner, BNegão e Bacalhau do Autoramas, que foram feitas com iluminação precária no Backstage de algum show. Além disso, terá que regular o volume da TV a todo momento - especialmente se estiver na condição de não poder perturbar o sono de alguém, como no meu caso.

No final das contas o saldo é pra lá de positivo e já é, definitivamente, um marco no que se refere ao registro do que se propõe a registrar. Não é completo porque o tema é por demais amplo e difícil de ser avaliado por nível de importância – alguns dos personagens retratados, por exemplo, me eram totalmente desconhecidos ou conhecia apenas vagamente de nome, mas parecem ter atuado de forma decisiva no cenário de um modo geral. Nem tudo chegava a mim, afinal. Não chega, nem poderia chegar.

Mas confesso que o que mais me emocionou, de tudo, foi a dedicatória que encerra a exibição: além da merecidíssima porém mais que esperada citação ao grande Redson, do Cólera, são lembrados também Joacy Jamys, um verdadeiro baluarte do cenário alternativo nacional, falecido há 5 anos, e, aí sim, para minha surpresa, o meu grande amigo de fé, irmão e camarada Marcos OF, do Rio de Janeiro. Surpresa porque ele era um cara discreto que não fazia muito alarde do que fazia e, que eu saiba, publicou apenas duas edições de seu simpático fanzine “Meleka Korroziva” no início da cada vez mais distante década de 1990 do século passado. Se foi de forma abrupta e inesperada, ainda muito jovem – tinha a minha idade, 40 e poucos anos. Fiquei muito feliz em ver que não foi esquecido ...

A primeira tiragem do DVD, de 200 cópias, está esgotada, mas eu imagino que se muita gente começar a pentelhar o Sno requisitando sua parte que lhe cabe nesse minifúndio ele vai acabar cedendo e imprimindo mais algumas unidades. Comece agora, mandando um e-mail para marciosno@gmail.com, clicando em  Márcio Sno para mandar um recado via facebbok ou acessando o blog http://marciosno.blogspot.com


Para assitir On line, clique aqui.

por Adelvan





3 comentários:

URUBLUESBASS disse...

É, cutuca o SNO, vale à pena. Imperdível!

márcio sno disse...

Adelvan, muito obrigado pela divulgação desse trabalho.
Os apontamentos foram sinceros e precisos, principalmente no que se refere aos problemas técnicos, as quais tentei reduzir ao máximo, mas não deu.
Já fui taxado de ser etnocentrista por ter "privilegiado" a galera do sul e sudeste. E você apontou certamente ao comentar que todos os depoimentos que captei foram feitos em SP, afinal não tive (não tenho) grana pra viajar e realizar as gravações. As que vieram de fora, foram contribuições de amigos que registraram e me mandaram. Enfim, são aquelas coisas que temos que ficar justificando quando colocamos algo para circular.
Mas tenho plena convicção que o que eu faço é, ante de qualquer coisa, sincero.
Obrigado pelas palavras motivadoras!
Grande abraço!

Adelvan disse...

É como eu disse: a esmagadora mairoria das cartas que eu recebia eram de SP, então, mesmo que você tivesse tido grana pra viajar, creio que o foco acabaria sendo maior por aí mesmo, porque afinal é onde as coisas acontecem, pois o Brasil É realmente desigual (não só o Brasil, na Italia, por exemplo, é notório que o sul é menos desenvolvido que o norte) e há uma tendencia de concentração nas grandes metrópoles.