quarta-feira, 5 de março de 2014

1 Ano sem Hugo Chávez

De vez em quando a história ilumina um personagem que não entra em nenhum dos moldes que forjou a própria história. O mártir dos Andes, Salvador Allende, nos convenceu de que não se podia tentar uma reforma profunda da sociedade pela via pacífica e muito menos uma revolução, e de repente, quando ninguém esperava, como um trovão numa noite de verão, das entranhas de nossa América do Sul, da comarca do maior dos libertadores de nosso Continente, Simón Bolívar, aquele que nosso visceral José Enrique Rodó definiu como o barro da América, atravessado pelo sopro do gênio, surge uma revolução que rompe todos os moldes e contradiz todos os manuais.  
Por Federico Fasano Mertens, do La República - Abril de 2011.
Uma revolução pacífica, uma revolução dentro do sistema capitalista. Definem-na como a revolução na revolução. Não tem o apoio dos sindicatos operários, amarrados a seus privilégios, nem das organizações estudantis menos conscientes. Se apoia fundamentalmente nos pobres, nos marginais, os deserdados da terra, os “sans culottes”, os desempregados, os sub-empregados, os autônomos. E também os soldados, os marinheiros, pilotos e oficiais, as Forças Armadas, majoritariamente de extrato popular, não elitista, cuja origem de classe surge da pequena burguesia.
Uma revolução que não prega a ruptura anticapitalista, que respeita as classes médias, que se beneficiaram com o crédito, a moradia, os automóveis como nunca antes se haviam beneficiado. Mas também uma revolução que avança inexoravelmente em direção à mudança profunda das injustas estruturas do centenário sistema oligárquico da Venezuela.
As cifras de igualdade sustentadas pelo duas vezes prisioneiro de Yare e do forte Tiuna assombram pelo salto quântico que representam e que nunca antes se haviam conseguido na história da Venezuela.
Este é o marco em que queremos que se desenrole esta entrevista.
Fasano: A revolução bolivariana parece ser um modelo novo, diferente das quatro únicas revoluções sociais da América Latina. A mexicana de 1910, a boliviana de 1952, a cubana de 1959 e a nicaraguense de 1979. Três delas foram derrotadas, como todos sabemos, e todas sem exceção chegaram ao poder pela via armada, não pacífica, e de imediato começaram a construir organismos de poder popular.Trotsky dizia que a revolução política modifica o sistema institucional, enquanto que a revolução social transforma as relações de propriedade. A revolução bolivariana é uma revolução política ou uma revolução social? Que tipo de revolução é?
Chávez: Muito obrigado pelo teu convite, Federico, La República é um grande jornal, obrigado. É bastante amplo teu enfoque.
Fasano: Eu te pediria respostas, digamos, concisas, para dar lugar a todas as outras. Porque todas as outras vão compondo o quebra-cabeças para decifrar o enigma de teu projeto histórico.
Chávez: Entendo, porque você monta o quebra-cabeças depois, você é um montador de quebra-cabeças. Veja, faz uns minutos que estava conversando com Eduardo Galeano, e ele me falava de sua admiração por um venezuelano, Simón Rodríguez, mestre, entre outros, de Bolívar. Bolívar depois chama Rodríguez  de “o Sócrates de Caracas”. Segundo Galeano, foi o mais profundo filósofo de nossa América do século 18, um grande pensador e um grande projetista do futuro. Você me fala do projeto histórico, nosso projeto histórico vem de lá, do projeto que foi concebendo o caraquenho –Bolívar dizia que era um caraquenho universal. Elaborou um grande projeto de libertação da América do Sul toda, e dizia que tinha que tomar dos incas a figura histórica e fazer um Incanato e também previa a unidade política, geopolítica da América do Sul sob o nome de “Grande Colômbia”. Esse projeto é de (Francisco de) Miranda e o elaborou em seu longo périplo como revolucionário. Miranda participou na revolução de independência dos EUA comandando tropas, foi amigo de Washington, Jefferson, depois foi coronel russo na corte de Catarina, e então foi marechal da França revolucionária. Napoleão disse: “É um Quixote sem loucura”. E, aos 60 anos –para aquela época é o equivalente a uns 100 hoje–, cruzou o Atlântico em uns barquinhos, colocou a bandeira tricolor, desembarcou na Venezuela e lançou o projeto, e faz 200 anos segue sendo o líder da primeira república com o grau de Generalíssimo. Miranda, daí vem o projeto histórico, e logo vem Bolívar, o toma e o encarna (e Simón Rodríguez e muitos outros lutadores e pensadores venezuelanos), um projeto de libertação, uma revolução política, social, econômica, cultural –uma revolução tem de ser integral. Rodríguez dizia: “Simón, os americanos mais meridionais devem fazer uma revolução política e devem começar pela revolução social, cultural, econômica”. E dizia mais: “comecem pelos campos”. Enfim, uma revolução integral, são as bases históricas fundamentais. Esta revolução começou há 200 anos, só que havia desaparecido no caminho e rebrotou do fundo da terra.
Fasano: Você definiu o marechal Antonio José de Sucre como um socialista. Um homem honesto que não gostava do exercício do poder, e, bom, terminou assassinado. Continua pensando o mesmo sobre Sucre já que estás falando do profundo da história?
Chávez: Bom, o socialismo, você sabe que tem distintas facetas. Do meu ponto de vista, Cristo foi socialista. Você lembra daquela frase: “É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Cristo e o profeta Isaías que dizia: “Pobre daquele que se dedique a acumular terra, terra e terra e tire terra dos demais, porque lhes darei com o látigo da Justiça”. Cristo no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres, porque deles será o reino dos céus”. A igualdade. Cristo diz que o único caminho para a paz é a igualdade. Isto é socialismo, mas, bem, numa época em que não se utilizava o termo.

Fasano: Você concorda com o presidente Rafael Correa, que quando o entrevistei me falou entusiasmado do socialismo cristão.

Chávez: O socialismo cristão. O socialismo inca, para não ir tão longe, às ruas de Nazaré e da Galiléia. Há um conjunto de estudos fundamentados que falam da existência do socialismo indo-americano, que você sabe que aportou muito a respeito. Tudo isso são nutrientes. Sucre, quando é eleito presidente da Bolívia, começa a entrar em choque com a oligarquia. Ele vai embora. Simón Bolívar fica, e começam as conspirações, lhe dão um golpe de Estado, quase o matam, lhe deram um tiro num braço. Então, Sucre é socialismo. Quando a América foi batalhar por sua emancipação, entendeu que o fazia também pela justiça, pela igualdade, ambas são irmãs inseparáveis. Liberdade e igualdade. Então esses são os nutrientes. As bases de nosso projeto socialista do século 21. Mas vem de longe. Igualdade, liberdade, paz, justiça social, uma revolução integral.

Fasano: Parodiando o manifesto de 48, podemos dizer que hoje um fantasma percorre o mundo. O fantasma da democracia participativa, que o projeto da revolucão bolivariana está propondo. O fantasma que percorria a europa feudal era a democracia formal. A de hoje, a participativa. Como vocês pensam em concretizar o socialismo do século 21, o difícil trajeto que vai da democracia formal surgida na revolução francesa até a democracia participativa que o socialismo real soviético não pôde concretizar? Qual é a rota crítica desse trajeto?

Chávez: O poder. A rota crítica é o poder. A democracia, o poder do povo. Agora, a democracia meramente participativa é antinômica, não tem solução dentro de si mesma, porque termina sendo uma maneira de expropriar o poder ao dono do poder, e este termina concentrado. O poder político, o poder midiático, econômico, econômico cultural, etc. A hegemonia na elite: essa é a democracia que pregam os EUA, que tanto defendem o chamado pós-modernismo, porque termina tirando o poder, eliminando do povo todo vestígio de poder. Deixa-o impotente.

Fasano: Essa velha democracia não compartilha o poder.

Chávez: Não, o hegemoniza para seu próprio fim. Entende o poder como o poder em si, o poder como o fim último. Agora, veja, na Venezuela nossa Constituição o permite, do princípio ao fim. Permita-me ler só um artigo, o artigo 2, dos princípios fundamentais. A Venezuela se constitui em um Estado democrático e social de Direito e Justiça –não só de Direito. É a teoria fundamental–, de Direito e de Justiça que propugna como valores superiores de sua ordem jurídica e de sua atuação a vida, a liberdade, a justiça, a igualdade, a solidariedade, a democracia, os direitos humanos. A proposta socialista. Você me perguntava o caminho crítico. O poder, é a concepção de poder, uma nova concepção do poder e uma nova forma de criar poder e distribuir o poder. E é por isso que as elites se opõem com tanta fúria a um projeto como o nosso, que está distribuindo o poder, mas sob um novo conceito. É o que diz um bom argentino, filósofo que, recentemente, ganhou o Prêmio Pensador Libertador, Enrique Dussel: o poder obediência. Eu sou presidente, mas não para mandar. Mando obedecendo. Eis o caminho crítico.

Fasano: Tuas palavras me recordam Federico II, que disse: “Só sei mandar obedecendo”. E foi dos governantes mais democráticos que essa monarquia teve. Creio que você fala do poder, mas eu te vejo mais como o anti-poder. Você desmitificou o poder e o aproximou das pessoas. O compartilhou, conectou o cidadão com o poder. Porque o poder antes era para uma elite, para 10% das pessoas. Tenho a impressão que hoje este processo bolivariano está mudando a concepção mais tradicional, inclusive marxista do poder. Você acaba de dizer que a chave está no poder ao povo. O poder passa a ser compartilhado. Por isso falo em anti-poder. Não acha que pode ser pensado sob este ângulo?

Chávez: O poder é aproximar o povo do poder. Estava lembrando de uma canção. Lembra daquel cantor norte-americano que cantava “Quando o poder do amor for superior ou se impuser ao amor ao poder haverá vida, haverá paz”? Então se trata de outra concepção do poder e, neste sentido, você tem razão, eu me situo no campo do anti-poder. Porque é um poder contra outro poder, o poder clássico, despótico, para dominar. O poder para apropriar-se. O poder para a dominação. Este poder que representamos é exatamente o contrário, e você também o representa e Pepe (Mujica) também. Nós formamos parte de um poder de libertação, sob uma nova concepção do poder. Creio que não se trata de aproximar o povo do poder. Porque imagine um menino de quem você aproximasse um sorvete. Ele quer o sorvete, não estar próximo a ele. Tem que dar, transferir, poder ao povo. Muita gente dirá: o que é o poder? Bom, o poder é poder viver. Quer dizer, muita gente diz a frase “querer é poder”. Não necessariamente, o povo quer viver, viver plenamente, o povo terá poder quando possa –parece redundante, mas é necessário–, dispor dos recursos e meios necessários para continuar vivendo, para viver plenamente. Para satisfazer suas necessidades. Raúl Sendic falava muito bem das necessidades, das leis da sobrevivência, alimentos, medicamentos, as necessidades de subsistência, as da vida e as suntuárias (de luxo, suntuosas). Não me refiro às suntuárias, que são inesgotáveis, que são até destrutivas. Me refiro às necessidades da vida, de um ser humano, de um coletivo. Isso é, no fim, aonde chega toda a filosofia e todo o conceito de poder.

Fasano: Acha que o povo venezuelano está preparado para o socialismo à venezuelana?

Chávez: É um processo. Compare as épocas. Bom, Federico, inclusive –não faça isso nunca, te sugiro– se você fosse revisar os discursos do velho Chávez, desde que me tornei conhecido, no dia que me rendi…

Fasano: Desde que tinhas 38 anos…

Chávez: Sim, desde o golpe. E, depois, em todos estes anos até o dia em que cheguei à presidência e ainda uns aninhos mais, jamais propus o socialismo. Sempre manifestei respeito à teoria, mas lembre-se de onde vínhamos. A queda soviética, a bandeira do socialismo foi arriada em quase todo o mundo. Mas, na dialética e no caminho, eu pessoalmente e muitos de nós fomos nos convencendo que é falso aquilo de uma terceira via entre o capitalismo e socialismo. Socialismo ou barbárie, como dizia Rosa de Luxemburgo. E então veio o golpe de Estado, em 2002, toda a agressão dos EUA e seus aliados. A partir daí todos nós começamos a levantar a nova bandeira e lançamos a bandeira socialista. Nestes anos, se você perguntasse na Venezuela à população, em uma pesquisa séria, não chegavam aos 5% as pessoas que apoiavam o socialismo. E a maior parte eram esses velhos militantes, irredutíveis. A maioria de 80 anos para cima, talvez. Hoje em dia, as pesquisas indicam que cerca da metade da população ou mais opinam a favor do socialismo em diferentes intensidades. Mas o mais importante é que nas pesquisas o capitalismo abertamente não chega a 10%. É um caminho.

Fasano: Agora, é gradual. O fundamentalismo do mercado é um osso muito duro de roer. Eu vejo que as duas grandes linhas da revolução bolivariana passam pela democracia participativa de um lado e a substituição gradual do fundamentalismo de mercado, por outro. Mas é um osso duro de roer. Como pensam em substituí-lo? Acaso se inspiram na economia das equivalências, como uma forma de ir avançando até a substituição paulatina da economia de mercado? Há algum plano sobre isso? O que está pensando e fazendo a revolução bolivariana no tema crucial da onipotência do mercado?

Chávez: Eu te diria que há um plano grande e um conjunto grande de planos pequenos, médios, e vamos avançando com muitas dificuldades. Não é fácil. Mas há uma orientação estratégica e um caminho que estamos andando. Me explico. Fundamentalismo de mercado, neoliberalismo: nós começamos a combatê-lo desde o primeiro dia e estamos aprofundando a intensidade e o ritmo. Trata-se de criar –e é uma das grandes linhas gerais do projeto bolivariano, histórico– uma economia diversificada, uma democracia econômica e isso só é possível com um modelo socialista. Estamos inventando novas formas de economia popular. Você lembra aquela outra frase de que o socialismo não pode ser decalcado nem copiado, que deve ser uma invenção heróica? Simón Rodríguez outra vez. “Inventamos ou erramos”. Somos obrigados a inventar. Estamos investindo muito, por exemplo, na criação de cadeias produtivas para toda a economia. É vital. As cadeias produtivas, desde o setor primário, passando pelo setor secundário de processamento, armazenamento, produtos finais, até a distribuição. Quando eu não era presidente, e o povo não tinha o poder popular, não havia nem um mercadinho para vender arroz, pão, nada. Hoje, ao final deste ano, estamos chegando a mais de 50% de incidência das cadeias produtivas. Todo o alimento que se subministra na Venezuela vem por meio da propriedade social. Quer dizer, não passa pelas mãos especulativas e especuladoras das cadeias capitalistas que compram um quilo de milho a 1 bolívar, lá no produtor primário, e vem vendê-lo, processado em qualquer cidade da Venezuela, a 100 bolívares, inflacionando tudo. Incluindo a mais-valia, mas ademais da especulação capitalista, está a avareza capitalista. Então é preciso criar o modelo, e estamos criando-o, repito, desde o setor primário, até o setor do comércio, o setor terciário.

Fasano: Que empresas estratégicas seria necessário nacionalizar no futuro, para ir avançando rumo ao Socialismo do século 21? Já foram nacionalizadas algumas essenciais, mas vocês têm previsto outro tipo de nacionalizações?

Chávez: Nós temos um esquema de nacionalizações. O que fizemos primeiro foi frear o processo de privatizações de empresas estratégicas, como o petróleo da Venezuela. Recuperamos plenamente a soberania petrolífera e isso nos permite agora implementá-la em função do projeto histórico. As grandes empresas básicas do Estado –siderúrgica, petroquímica, alumínio– também tinham sido privatizadas, e as recuperamos. E agora estamos aplicando algo muito novo na Venezuela, muito da teoria socialista: o controle operário. Bom, com muitas dificuldades, às vezes estrondosas, mas vai avançando o controle que possui a classe operária organizada. Não aqueles velhos sindicatos pelegos, como vocês chamavam ou chamam ainda, mas o poder operário, conselhos de trabalhadores, e também os sindicatos. A recuperação da terra é fundamental. Nacionalizamos, recuperamos ou expropriamos quase 4 milhões de hectares nestes anos e vamos continuar. Dentro de uns dias vamos fazer um evento de recuperação de cerca de 300 mil hectares que tinha uma companhia inglesa, explorando a terra, explorando os trabalhadores, enriquecendo e levando embora os lucros. Nacionalizamos a telefonia, por exemplo, o banco da Venezuela, o banco patrimonial que haviam privatizado. Nós também nos dedicamos a criar espaços de propriedade social, para ir convivendo e até nos aliando com alguns setores da empresa privada. Não negamos isso. Dizemos que a empresa privada, o setor privado da economia, pode perfeitamente seguir existindo e estamos dispostos inclusive a apoiá-lo, como fizemos, sempre e quando seja no marco do projeto desta Constituição e do interesse social que aqui está planteado como estado de Direito.

Fasano: Uma revolução se mede pela forma em que se cria e distribui a riqueza. Vi algumas cifras que me assombram, me diga se estão corretas. A pobreza extrema estava em 20% quando você entrou…

Chávez: Um pouquinho mais… 25%. Agora está a menos da metade disso, está em 7%.

Fasano: 7%? Eu pensava que tinha baixado a 9%. A pobreza geral estava em 50%.

Chávez: E até mais. Chegou a 60%, por aí, ao final dos anos 1990. E agora está em 33%.

Fasano: Há um assunto que se discute muito porque é essencial para o Uruguai. O abismo entre riqueza e pobreza que o modelo progressista no Chile não conseguiu diminuir e que nosso modelo uruguaio tampouco pôde. Observe que aqui diminuiu a pobreza e a indigência em níveis surpreendentes, ainda que não tanto como em seu país, mas não conseguimos reduzir a brecha entre a pobreza e a riqueza. E vejo as cifras venezuelans, e bom, me parece, não podem estar corretas. A desigualdade estava em 28% e caiu a 18%, 17%.

Chávez: Sim, estão certas. A América Latina é o continente mais desigual, em todas as medições mundiais.

Fasano: Mais que a África.

Chávez: Exatamente. Agora a Venezuela é o país, e isso é reconhecido pela ONU, pela Cepal, que mais avançou nesta década na redução da desigualdade e estamos à frente na América Latina, com o menor índice de desigualdade. Isso tem uma razão: é, outra vez, o poder. Os recursos. Preste atenção. Nos últimos 20 anos, no que nós chamamos de Quarta República, os governos anteriores, o investimento social na educação, na saúde, chegava a apenas 30% dos recursos, nós o elevamos a mais de 60%. Duplicamos o investimento social na educação, na saúde, o desemprego era de quase 20% e agora é 7%, 8%. O salário mínimo na Venezuela era uma miséria, hoje é o mais alto da América Latina (equivalente a U$697,09). E não nos cansamos, além disso, de inventar mecanismos de redistribuição. Por exemplo, agora mesmo nos caiu o inverno. Primeiro uma seca terrível, depois um inverno atroz. E neste momento nós temos mais de 120 mil pessoas abrigadas em quartéis, em instituições do Estado, em acampamentos, mas dignos, inclusive no Palácio do Governo. E inventamos uma lei –nós inventamos leis para obrigar a nós mesmos– que diz que, enquanto essas famílias estiverem abrigadas, vão receber um bônus quase equivalente ao salário mínimo. A Previdência Social: na Venezuela havia 300 mil pensionistas. Hoje temos 5 vezes mais e andamos em busca de anciãos para completar as cotas dos que não podem pagar e que portanto não estavam registrados na Previdência Social, que estava sendo privatizada quando chegamos. Inventamos outra lei e já temos mais de 20 mil pescadores, velhos pescadores, velhos camponeses, na Previdência Social e agora estamos fazendo uma lei popular e eu vou aprová-la logo, para que os senhores que cuidam edifícios, os porteiros, que tampouco têm Previdência Social. Não nos cansamos de buscar maneiras de distribuir até onde nos alcance, buscando sempre os equilíbrios macro-econômicos.

Fasano: Essa riqueza já existia antes também e no entanto…

Chávez: Uuuuu…! O governo da Venezuela foi o primeiro exportador de petróleo cru no mundo, de 1925 até 1970. Uma coisa horrível.

Fasano: Deve ter havido expropriação fraudulenta dos direitos do povo venezuelano! Sobre o aumento do poder aquisitivo me deram 400% de aumento. São as últimas cifras que disponho, é isso mesmo?

Chávez: É provável. Tem que considerar a inflação que segue sendo alta na Venezuela…

Fasano: Mas não tão alta como nos governos de 1984 até 1999, quando você assumiu.

Chávez: Não. Nos anos 1990, a inflação era de 100%. Nós temos uma média de 20% ou 21% em todo este período. Mas certamente o poder aquisitivo na Venezuela subiu e não só do ponto de vista clássico do cálculo dos rendimentos. Porque eu sempre digo que há que se levar em conta tudo. Digo a meus companheiros, aos amigos do Banco Central, que calculam tudo e são técnicos. Nós criamos esta rede de alimentos que chega à metade da população. Vamos importar, com certeza, alimentos da Argentina, estamos aumentando a produção. Mas te digo uma coisa: nesta rede que se chama Mercal, se vende desde carne… sobretudo a cesta básica. Nessa rede que atende hoje 14 milhões de venezuelanos num total de 26 milhões de habitantes, a inflação é zero: enquanto o mercado de fora aumenta os preços, na nossa rede estão congelados há anos, e os medicamentos são gratuitos. Nós criamos mais de 6 mil centros médicos, desde pequenos consultórios até grandes hospitais, onde as pessoas vão e não lhes é cobrado absolutamente nada. Operações de coração, tomógrafos, graças à revolução cubana e a esse gênio da raça humana que se chama Fidel Castro, então isso contribui. Enquanto uma família tinha que pagar pelas escolas, agora estamos dando às crianças de primária um computador para cada criança, gratuitamente. Eu dou o exemplo do soldado. Não se dá a ele um fuzil de presente, é para defender a pátria. Nós o equipamos. O fuzil de uma criança é o computador. São uns computadores feitos em Portugal, e agora estamos fazendo-os na Venezuela.

Fasano: É verdade que subsidiam mais de 40% dos produtos básicos em relação ao preço de mercado?

Chávez: Sim, mais de 40% e não só de produtos básicos. Ontem firmamos com a presidenta da Argentina a importação de automóveis feitos lá. Mas os compramos nós diretamente, entes do Estado, e os distribuimos diretamente aos profissionais, ao povo. Veículos familiares, de classe média, classe popular, que pode consumir. Você compra um veículo Volkswagen montado na Argentina que chega à Venezuela por outras vias que é vendido no mercado capitalista e nós o vendemos pela metade do preço. Também outros veículos iranianos que estamos montando na Venezuela com apoio do Irã. Um similar no mercado é vendido lá pela metade do preço. Computadores, telefones celulares. Você sabe a quanto vendemos celulares do tipo Blackberry? 3 dólares. Estamos montando-os agora.

Fasano: Nós podemos importá-los a esse preço, 3 dólares?

Chávez: Sim, claro, e também fertilizantes a um terço do que vendem no mercado especulativo.

Fasano:Vocês investem em educação mais de 5% do PIB, é isso?

Chávez: Mais. Antes, os governos investiam cerca de 2 ou 3%, se chegava a isso. Agora estamos nos aproximando aos 10% porque há muitas formas de investir. Nós temos agora a Educação Inicial, que antes não existia, era para uma minoria. As chamadas crianças em idade de pré-escola. Criamos um sistema que chamamos de “Simoncito”, em homenagem a Bolívar e a Rodríguez. A educação primária toda, a secundária e a universitária. Triplicamos a matrícula universitária. Você vai agora pela Venezuela em qualquer bairro e encontra homens e mulheres de 60 e 80 anos estudando. E de quarenta e de 50, nossa idade, seguindo os estudos secundários que não puderam por causa da pobreza. Ou terminando os universitários. Nós estamos no 5º lugar mundial em matrícula universitária, segundos no continente depois de Cuba. Sem contar as conexões educativas que formaram um sistema complementar ao sistema oficial clássico. Por exemplo: as conexões educativas de alfabetização, de educação para o trabalho, a cultura, as redes de cultura. Enfim, devemos estar muito próximos dos 10% do PIB neste esforço. E, bom, é Bolívar. É a base do projeto histórico. Bolívar dizia: “A educação, a educação, a educação: as Nações marcharão até sua grandeza no mesmo passo com que caminhe sua educação”.

Fasano: Nos preocupa aqui o tema da burocratização. Quais são suas estratégias para evitar a burocratização e a corrupção no aparato do estado?

Chávez: Esse é um tema que é preciso resolver. É um veneno que corrói por dentro, é imanente, forma parte do estado burguês. Sobre o que se fundamentou o estado burguês? A corrupção política. Quando o poder se assume como um fim em si e para si, se acaba a política e daí derivam todas as demais corrupções, para meus amigos e para meu partido. Mandar roubando é mandar dominando. Agora, se você manda ou governa obedecendo ao dono do poder, que é o povo, para a satisfação de suas necessidades, então irão diminuindo os níveis de corrupção política, econômica, ética, moral, que no fundo são a mesma coisa: a perda dos valores da política. É uma luta cultural de todos os dias. A burocracia é parte do que dizia Karl Marx: “Nada nasce do nada”. O estado novo, a sociedade nova, ele dizia, nasce contaminada pela velha. É a luta entre o novo e o velho e o velho sempre quer corromper o novo, é uma batalha corpo a corpo. Tem que se fundamentar. Eu dizia na Argentina, saindo de uma reunião socialista onde falei muito disso. A pessoa tem que ir como um soldado à batalha, com uma bússola. Saber direito aonde vai e qual é o caminho. E tem que ter sobretudo algo muito claro, um princípio tão sólido ou mais sólido que o aço: a lealdade a uma luta pelo povo, a lealdade a um povo. Quem não tenha isso bem sólido pode ir se corrompendo e se corrompe pelo caminho, e se converte em um burocrata, insensato, insensível e em um contra-revolucionário. Estejam muito atentos, todos os dias, em todas as partes.

Fasano: A informação, eu vejo assim, é o lado mais fraco da democracia venezuelana. Os meios na Venezuela não são representativos das distintas forças sociais que compõem a nação. Vocês vivem a apropriação fraudulenta, de caráter privado, de um bem comum à sociedade, a qual é excluída dos direitos cidadãos. Este simpático discurso liberal confundiu deliberadamente a liberdade de expressão da sociedade com a liberdade de possuir meios de comunicação. E quem te fala é um dono de meios de comunicação, portanto legitimado para dizer essas coisas. E esse discurso liberal também confundiu a liberdade de difusão das ideias com a liberdade de difusão do meio, assim como a liberdade de informação com a liberdade do informador. Qual é a estratégia de vocês ante a injusta situação da Venezuela? A questão midiática, a disputa dos meios.

Chávez: Eu sei que você conhece esse assunto. Creio que é um dos problemas mais graves que existem hoje, não só na Venezuela e em nossa revolução bolivariana, senão no mundo. Olhe o que está passando na Líbia. Há uma guerra civil, e o poder ianque e seus aliados europeus, com todas as redes que detêm a comunicação, foram preparando o terreno, para, como disse Fidel Castro desde o primeiro dia, a inevitável guerra da OTAN contra a Líbia, pelo petróleo da Líbia. Então agora querem convencer o mundo que, para salvar a Líbia, é preciso bombardeá-la. Nós nos deparamos com essa problemática desde o primeiro dia. Primeiro, você sabe, houve uma lua-de-mel, me rodeavam, mas quando se deram conta de que eu ia firme por uma direção, veio a guerra midiática e montaram um golpe abertamente pelas televisões privadas, os grandes jornais da burguesia. Hoje seguimos na batalha, mas a situação ou a correlação de forças vem mudando. Já não há uma plena hegemonia como havia. Temos a TeleSur, uma grande conquista. Temos na Venezuela, nasceram como uma explosão ruidosa, os meios de comunicação alternativos, que eram perseguidos, chamados ilegais. Agora tem uma lei e o Estado os apoia com recursos técnicos, financeiros. Milhares de emissoras comunitárias, de pequeno alcance, médio alcance, jornais comunitários, televisões comunitárias. Temos ainda o canal do Estado que estava no chão, do ponto de vista tecnológico, moral, e agora é um dos principais canais do país. Recuperamos este canal. O espaço eletromagnético é de propriedade social, é bom que saibam as pessoas. Só que se concede a uma empresa para que o explore. Bom, terminou a concessão de uma empresa que fez bastante dano ao país, e logo o Estado a recuperou e agora se converteu na principal televisão venezuelana social, a que tem maior cobertura no país. Enfim, estamos enfrentando como tem que ser feito, com liberdade e com uma tolerância infinita. Sobre mim disseram cada coisa na televisão, cada insulto, cada injúria que não seria permitida num Estado de Direito. Me acusam de ser um tirano, mas imagine que às vezes vão pensadores da direita mundial serem entrevistados pela televisão e diante das câmeras dizem: estamos na Venezuela, aqui não se pode falar, isto é uma tirania sangrenta. Dizem isso na televisão, ao vivo, no centro de Caracas! É melhor rir.

Fasano: Um calcanhar de Aquiles da Revolucão bolivariana parecem ser os sindicatos de trabalhadores tradicionais, corrompidos, os estudantes manipulados e a deserção dos intelectuais. Como pensa reverter esta situação? Porque o clássico era que operários e estudantes estivessem participando. E alguns setores intelectuais, que servem melhor aos mandarins do que ao povo que deveriam servir, também se afastaram do projeto histórico. Ou isso está mudando?

Chávez: Sempre existe o interesse, também midiático, de que as pessoas acreditem exatamente nisso, que a juventude venezuelana, que os estudantes, são contra a revolução, que os sindicatos são contra. Não é bem assim. Os velhos sindicatos, claro. Mas apesar de todo o poder da burguesia nos anos precedentes, todo esse chamado a greves gerais, a sabotar o país por greves, fracassou. Existe também uma confederação de trabalhadores totalmente livre, crítica com o governo, mas que apoia a revolucão e critica o que tem de criticar.

Fasano: Independência de classe e….

Chávez: Claro… E com consciência operária. E isso vem evoluindo, o mesmo acontece com o setor estudantil e a juventude. Há uma parte da elite burguesa que muitas vezes inventa coisas para chamar a atenção. A CNN lhes dá destaque. No entanto, os meninos dos bairros, que são milhões, que estão estudando, que estão com a revolução, configuram o perfil de uma juventude revolucionária. A cada dia você vai ver com maior claridade na paisagem os trabalhadores, os estudantes, as mulheres organizadas, que força têm essas mulheres! Os povos indígenas, movimentos sociais. Te juro, Federico, que sou o primeiro adversário de que o partido tome conta disso. Não, eles devem ser livres. Tem que nos interpelar, nos dar broncas, nos falar cara a cara. Gente sem moradia, sem casa, mas organizados e organizando-se. Organizai-vos, dizia Cristo, crescei e multiplicai-vos. Marx: trabalhadores do mundo, uni-vos.

Fasano: Já levamos quase uma hora e seus assessores olham para o relógio, mas quero perguntar pela questão militar. Revolução pacífica, porém armada. Allende nos mostrou que podemos ser os pacíficos que queiramos, mas se o projeto popular não se defende tudo está perdido. Você concorda com o grande revolucionário alemão Wilhelm Liebknecht, que dizia que a revolução social não se faz contra o exército nem sem o exército, mas com o exército? Qual é a política militar da revolução bolivariana?

Chávez: Concordo que a revolução social deve saber defender-se e a história o comprovou. Eu e Fidel nos telefonamos, nos escrevemos, eu o visito sempre que posso, é como o grande pai. Estávamos comemorando 19 anos de nossa rebelião. Saímos de 20 quartéis. A juventude militar nas ruas. Era um movimento como quixotesco. E Fidel me dizia: “Chávez, vejo que aquilo foi como Moncada (assalto ao Quartel de Moncada por Fidel em 1953), mas ao contrário, multiplicado por 100. Isto é, eles se foram e um grupo de jovens quixotes tomou o quartel. Você tomou o quartel, mas por dentro. E saíram dos quartéis.” Ele, observador e sábio. Então certamente não se pode fazer uma revolução profunda e plena sem um exército. Fidel teve que criar um exército novo, algumas pessoas de (Fulgencio)Batista se integraram. Mas foi o exército, o exército rebelde, o campesino, o de Che Guevara, todos aqueles. Eles foram e criaram um exército. No caso venezuelano, por distintas circunstâncias da vida, nós estávamos no exército. Eles não aspiravam a ser soldados, eu queria ser militante. Queria ser desportista de beisebol e vim a Caracas faz 40 anos para prestar os exames de admissão para a Escola Militar. E consegui entrar. Sou um camponês. E, bem, no caminho, me fiz revolucionário. (O jornalista) Ignacio Ramonet fez uma entrevista comigo muito longa e falou: ”Dizem por aí que quando você entrou na Escola Militar em 1971 já entrou com o livro de Che Guevara debaixo do braço”. E eu lhe disse que não foi assim. Entrei com um bastão de beisebol e uma bola debaixo do braço. Tinha 16 anos. Mas o que você pode escrever é que quando saí, quatro anos depois, saí com o livro do Che sob o braço. Eu me fiz revolucionário nas fileiras militares. Comecei a me identificar com o exército de Bolívar, de Artigas, e com a história desse Bolívar soldado que disse: “Maldito o soldado que volte as armas contra seu povo”. Esse Bolívar que disse: “Sigo a gloriosa carreira das armas só para lograr a honra que elas dão de libertar a minha pátria e merecer a bendição do povo”. Esse Bolívar em Santa Marta, solitário, expulso e moribundo que disse em seu último discurso: “Os militares deverão desembainhar sua espada, mas sempre para defender as garantias socais”. Esse Bolívar se transformou em nosso líder. Nos anos 1970 quase fui para a guerrilha porque, recém-graduado, me mandaram, no ano de 1975, a um batalhão antiguerrilheiro. Rodríguez, hoje meu ministro da Energia, estava ainda na guerrilha e havia uns grupos guerrilheiros na Venezuela. Me mandam para lá e eu entro em contradição e quase vou embora com eles. Afortunadamente não ingressei porque por aí não havia caminho, mas me convenci, em contato com alguns velhos guerrilheiros, com meu amigo Adán, meu irmão mais velho, e revolucionários da universidade. Me dei conta que tinha de começar a criar células bolivarianas dentro do Exército. E passamos nisso quase 20 anos, até a rebelião de 4 de fevereiro (de 1992, contra Carlos Andrés Perez). Hoje, as forças militares venezuelanas são umas forças que se definem com orgulho como anti-imperialistas, revolucionárias, socialistas. Sem eles seria impossível avançar. Veja o que ocorreu no dia 11 de abril (de 2002, quando tentaram um golpe contra Chávez). O império fracassou, a burguesia venezuelana fracassou. Me sequestram. Me tiram o poder de mando. Desestabilizam meu país. Lembra de José Vicente Rangel, que era meu ministro da Defesa? Estamos os dois sozinhos, 3 da manhã. Que fazemos? Ao amanhecer, o golpe em plena marcha. E de repente digo a José Vicente: vou para lá. “Como você vai?” Vou me entregar aos golpistas, aos generais golpistas –eu os conhecia a quase todos. Vou ver se a vida valeu a pena. Se eu morro hoje ou me expulsam do país e isso se acaba, perdi a minha vida. Mas vou ver se ter investido 30 anos da minha vida no exército valeu a pena. Fui. O que querem? Eram cerca de 100 golpistas. E detrás deles os ianques e a burguesia. O golpe desmoronou. Os capitães ficaram a meu lado, os soldados me liberaram e se uniram ao povo. Mandaram dizer ao povo, que começou a rodear os quartéis. Não houve um só soldado venezuelano que disparasse contra o povo. Ficaram com o povo e os golpistas se foram. Ou seja, é possível. Allende tentou, mas olhe como terminou Allende, um presidente mártir. Ele, que era médico. Nós vimos no vídeo, ele foi seu próprio soldado com aquele capacete e uma metralhadora velha que lhe deu Fidel. Ficou sem soldados, foi seu próprio soldado. Nós não, nós temos soldados. É uma revolução pacífica e continuará sendo pacífica.

Fasano: Hugo, todo mundo se preocupa com a sua segurança. Os filósofos do século 18 acreditavam que era o gênio individual que mudava a história, não? Mais que a subjetividade das massas insatisfeitas… Há uma espécie de lenda que diz que Chávez é a revolução bolivariana. O que acontece se Chávez não está mais? O que acontece se desaparece o condutor? Vocês trabalharam para deixar estruturas sólidas, firmes, que suportem a ausência do caudilho?

Chávez: Entendo o que você diz. Agora, triste da revolução que depende de um só homem. Na realidade, não é uma revolução, é demasiado frágil para pretender ser uma revolução. Na Venezuela é uma situação sui generis. Eu não me creio imprescindível. Não existem imprescindíveis. Um dia quase me afoguei em um rio, e me salvou um cadete. Se ele não viesse e me agarrasse, o mais provável é que eu me afogasse aos 18 anos. E se eu tivesse me afogado, a revolução bolivariana teria surgido da mesma maneira. Agora, o homem, o indivíduo dá seu toque, seu ritmo, seu toque de líder, seus toques pessoais, a uns processos que não dependem de um homem, porque são processos de um processo. Há vários anos, quando Fidel quase morreu, fui vê-lo. Quase não podia falar, estava muito grave, perdera muito sangue. E os médicos me disseram: Chávez, por favor, um minuto. Mas ele queria me ver. Recordo sua mão, me agarrou muito forte e disse: “Chávez, estou pronto para morrer se tenho que morrer, mas você não pode morrer”. Isso ele me dizia na época. Avançamos neste tema, estamos fazendo um esforço muito grande para promover o poder popular, organizações populares, o partido socialista unido. Aliado com outros partidos e os movimentos sociais, um projeto muito mais entendido pelas pessoas. Uma juventude participativa protagonista. Essa é a garantia de uma revolução, jamais será um ser humano, por mais gênio que possa ser.

Fasano: Quando chegar o último minuto da tua vida… Esperamos que demore muito, mas como gostaria que o recordassem?

Chávez: Pelo que fui sempre até chegar o momento último da minha vida. Eu sou dos que dizem, como o poeta, “confesso que vivi”. Se me recordassem pelo que fui… Sobretudo que me recordem como um soldado. Se alguém disser: “Chávez foi um soldado”, é o suficiente.

Fasano: Uma última. Marx dizia que a humanidade só se coloca tarefas que está em condições de resolver. As tuas parecem ser enormes, com a magnitude e a utopia que te guia. Você crê que poderá com elas? Não acha que, lembrando Simón Bolívar, está arando no mar?

Chávez: Não. Temos que ir sempre assumindo o desafio e a carga do tempo histórico e isso se pode concretizar com aquela máxima de Marx: “É necessário, é imprescindível ascender do abstrato ao concreto”. Uma revolução tem que ser científica ou não é. Quer dizer, tem que se fundamentar no estudo profundo das condições e deve, a partir desse estudo ou diagnóstico, estabelecer seus limites da maneira mais acertada possível. Se caímos nos terrenos da utopia estaremos condenados a repetir Bolívar: “aramos o mar”. Nós cremos, e eu cada dia mais, que na Venezuela estamos arando em terra fértil. Porque há com o que arar. Há povo, há força, há amor, há paixão, há condições.

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terça-feira, 4 de março de 2014

PREACHER

"E aí?". "Como assim, e aí?". "E aí, vai me contar o que aconteceu em Masada?". "Ah, bom, deixe-me ver: tinha um anjo, uma puta, um eunuco, várias dúzias de idiotas, um irlandês que não morria, um Homem-Holocausto com um sobretudo, um ou outro banquete de 20 pratos em nome da mãe de todos os fodidos glutões, relações incestuosas, desentendimentos familiares, bulimia, uma criança retardada - o que é sempre bom para dar risada - e a destruição absoluta de nosso altar mais sagrado e retiro secreto com a detonação de uma bomba de 50 toneladas. E tinha também Jesse Custer ...

Jesse Custer, personagem principal da série "Preacher", minha História em quadrinhos favorita do meu selo favorito, Vertigo, é um pastor possuído por uma entidade nascida do cruzamento entre um anjo e um demônio capaz de meter medo ao próprio Deus pai todo-poderoso - que é um grandessíssimo filho da puta, diga-se de passagem - que roda o mundo a partir do Texas acompanhado de sua namorada especialista em armas, Tulipa, e de seu amigo vampiro irlandês, Cassidy. À procura Dele - Ele mesmo, EL, ELOAH, ELOHIM, EL SHADDAI, ADONAI, YHWH / YAHWEH / JEOVÁ, JEOVÁ-JIRÉ - que abandonou o paraíso, ele se depara com o Cara de Cu, um garoto reprimido com sérias sequelas de uma tentativa de suicídio motivada pelos abusos que sofreu de seu pai, um xerife durão, e pelo exemplo de Kurt Cobain; o Santo dos Assassinos, um pistoleiro do velho oeste ressuscitado; a família que o criou à base de castigos como ficar submerso num caixão no pântano da Louisiana apenas por falar palavrões; e Herr Starr, protagonista do diálogo acima, que é membro de uma seita superpoderosa encarregada de resguardar a linhagem do cordeiro, manifesta num garoto retardado descendente direto de Jesus Cristo destinado a ser o novo Messias.


Preacher está prestes a ser adapatado para a TV pela mesma emissora responsável pelos grandes sucessos de crítica e público "Breaking Bad" e "The Walking Dead" - esta última igualmente originária de uma série em quadrinhos. É publicada atualmente no Brasil de forma impecável, em capa dura e papel couchê com impressão de primeira, pela Panini Comics.

Desnecessário dizer que recomendo muito.

A

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Eu tento, mas não dá ...

Eu juro que tento acompanhar as notícias de meu estado, porque às vezes tenho a impressão de que sei o que se passa na Ucrania - pra ficar num país "obscuro" mas que tá "na moda" - mas não tomo conhecimento do que acontece aqui do meu lado. Para tanto, às vezes "caio na besteira" de gastar alguns míseros porém sempre suados trocados comprando algum jornal local. Ou algum precioso tempo do pouco que me resta assistindo aos "Sergipe notícias" da vida na televisão aberta ...

Quase sempre me arrependo, infelizmente. Para além da tristeza com a mediocridade e a mesquinhez do cenário político em si, que, se já era mal cheiroso, se transformou num verdadeiro esgoto a céu aberto - e a tendência é piorar, à medida que se aproxima a data de mais uma enganação - perdão, "eleição" - a "onda" agora é a publicação de textos evidentemente produzidos com fins publicitários sem menor consideração em informar aos leitores de que aquilo se trata de uma propaganda. O mais estarrecedor, a meu ver, é que a saudável inscrição "Informe publicitário", tão necessária à credibilidade de qualquer veículo de informação que se proponha a ser algo mais que um mero panfleto - o "Correio de Sergipe", portanto, não entra na conta - não sumiu de uma vez, o que deixa o leitor ainda mais confuso diante de matérias como as que cobrem a inauguração do Complexo viário Gov. Marcelo Déda pela Prefeitura de Aracaju, publicada esta semana no Cinform, e a comemoração dos 34 anos do PT, que saiu hoje no Jornal do Dia. Se não foram produzidas por alguma assessoria de imprensa com fins propagandísticos, é ainda mais vergonhoso, pois os textos esmeram-se no "puxa-saquismo". Assim fica difícil! Para ilustrar o que digo, reproduzo alguns trechos abaixo. Para a sua apreciação - #sqn ...

"João Alves tem a paixão pelas grandes obras como uma de suas fortes peculiaridades. (...)Na noite de inauguração, a satisfação em poder realizar mais um sonho para os aracajuanos era perceptível nos olhos do prefeito. Desde que assumiu a prefeitura, João Alves entendeu a importância da obra, que sofreu sérios problemas estruturais: precisou ser paralisada e somente depois de reestudo e de um novo aproveitamento aprofundado teve seu início efetivo em janeiro de 2013 (NOTA: ou seja, tava tudo errado antes, e as coisas só começaram a andar de forma correta depois que o Dr. João, que é inteligentíssimo, assumiu o comando do governo municipal. SÓ QUE NÃO! Mal foi inaugurado e o elefante branco já tá causando uma série de transtornos. A prefeitura responde mais uma vez colocando a culpa na gestão anterior, mesmo depois de afirmar com todas as palavras que já tinha feito todas as correções necessárias no projeto.) "PMA inaugura complexo viário. faz homenagens e garante mobilidade". Cinform Edição 1611, página 8 do Caderno 1 - Cidade.

"Milhares de militantes da capital e do interior de Sergipe deram uma demonstração da força popular e social que é a marca do Partido dos Trabalhadores na noite de segunda-feira, 24. (...)"Honrando a sua história de partido que se faz coletivamente pela luta de homens e mulheres de várias gerações, a atividade teve início com uma homenagem a dezenas de lutadores e lutadoras do povo que deram uma contribuição fundamental para a construção do PT em Sergipe" (NOTA: Não veria nada de mal nesse texto, desde que viesse impresso em algum panfleto partidário, e não como notícia num jornal diário pretensamente apartidário e/ou que não se assume como veículo de informação de nenhuma agremiação política específica). "Posse da Executiva do PT celebra importância do partido para a democracia". Jornal do Dia Edição 3.218, de 26 de fevereiro de 2014. "política", página 6.

por Adelvan

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A serviço do "Grande irmão"

“Enxergar o que realmente se passa debaixo de nossos narizes exige um esforço constante.” A frase é de George Orwell, dita por Winston Smith, personagem central de seu célebre romance “1984”, mas cai como uma luva para o que vemos diariamente na cobertura das manifestações de rua pela grande mídia. Anteontem, por exemplo, no Jornal Nacional, numa reportagem sobre a invasão da sede de um partido de oposição na Venezuela pela “polícia política” – palavras dele – do governo “chavista”, Willian Bonner fez questão de ressaltar que “a polícia agiu com a truculência costumeira”. E é verdade. Mas é verdade, também, que os que reprimem as manifestações, no Brasil, também costumam agir com brutalidade. Não é o que parece, a julgar pela cobertura da mídia. Agora a pouco, no Jornal Hoje, Sandra Annemberg nos informou que a Tropa de Choque incumbida de cumprir uma ordem de despejo, em São Paulo, foi recebida a pedradas por VÂNDALOS protegidos por barricadas. No mesmo telejornal, logo em seguida, somos informados de que MANIFESTANTES voltaram a entrar em confronto com as tropas oficiais na Ucrânia. Para ilustrar, a imagem de um MANIFESTANTE arremessando uma bomba de fabricação caseira. Provavelmente um dos mesmos que foram mostrados ontem, numa reportagem do Jornal da Globo, fabricando alegremente coqueteis molotov, ao lado de outro que mostra, sem nenhum constrangimento, o fuzil que guarda na mala do carro. E dos que arrancavam pedras do calçamento para lançar na polícia, igualzinho ao que os “vândalos” fazem aqui. Porque aqui são desordeiros impedindo o cumprimento da lei. Lá, eles estão apenas se defendendo e defendendo o direito à liberdade, ou, em outras palavras, o direito de exigir que seu país adira alegremente ao bloco falido da União Européia em crise.

Não se trata de maniqueísmo nem de tentar tapar o sol com a peneira. Compreendo perfeitamente o sentimento dos ucranianos, historicamente oprimidos pelo imperialismo russo, mesmo no tempo dos soviéticos que, a princípio, prometeram ampla autonomia – promessas solenemente esquecidas assim que o “czar vermelho” Joseph Stalin assumiu o poder, numa tradição autocrática e autoritário que persiste ainda hoje, sob o tacão do “neoczar” Vladimir Putin. Na verdade, muito por conta disso, não tenho uma opinião formada sobre a situação por lá, muito embora tenha certeza de que a adesão à União européia não pode ser, a médio e longo prazo, uma solução para os males do povo. Já sobre a Venezuela, apesar de reconhecer que o atual presidente não é um cara “maduro”(desculpem o trocadilho infame, não resisti), com suas bravatas machistas e/ou homofóbicas e sua tentativa patética de induzir a população a um culto messiânico do líder falecido, fica patente a ideologização da cobertura midiática, que teima em não reconhecer os avanços sociais conseguidos pelo “chavismo”, focando apenas no que é negativo, como a inflação e a escalada da violência urbana. Ideologização que eu até aceitaria caso fosse declarada, honesta, e não encoberta sob um falso manto de imparcialidade. Do jeito que está, não é jornalismo “isento”. É propaganda, proselitismo.

Fique atento, portanto, à forma na qual a notícia chega até você. Não absorva de forma acrítica tudo que vê para depois regurgitar idéias distorcidas nas redes sociais.

Fique atento às palavras!

Semântica é tudo.

A.

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Um filme que todo mundo deveria ver ...

"O Dia que durou 21 anos" detalha atividades norte-americanas no país antes e durante o golpe que vai completar 50 anos


Início de abril de 1964. O presidente constitucional, João Goulart, já foi derrubado e substituído pelo marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Na Casa Branca, um assessor (McGeorge Bundy) fala com o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, sobre o tom da mensagem de apoio ao recém-instalado governo brasileiro. O assessor lembra que o embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, prefere um texto amistoso, mas sugere um tom mais cauteloso, porque os novos donos do poder já estavam prendendo civis.

“Acho que algumas pessoas precisam ir para a cadeia. Aqui nos Estados Unidos e no Brasil também. Não estou numa cruzada contra eles, mas gostaria que muitas pessoas tivessem sido presas, antes de perder Cuba”, responde o presidente. O assessor insiste em uma mensagem padrão. “Prefiro enviar uma mensagem bem calorosa”, diz Johnson, fechando a questão

Kennedy e Gordon: articulação pelo golpe no Brasil foi gravada
O diálogo acima, documentado em áudio, é um trecho significativo do filme O Dia que durou 21 Anos, de Camilo Tavares, lançado no ano passado e agora disponível em DVD e blu-ray. A obra traz documentos e áudios e expõe com clareza um assunto que durante muito tempo foi negado, omitido ou pouco falado na historiografia sobre o golpe que está completando 50 anos: a participação norte-americana no movimento que depôs Jango, sob o pretexto básico de influência comunista no Brasil.

Assessor do embaixador, Robert Bentley, um dos entrevistados no filme, estava no gabinete presidencial quando o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República – mesmo com João Goulart ainda em solo brasileiro. Lyndon Johnson quer saber se a operação foi feita legalmente, e Bentley recorda ter dito: “Parece que foi legal”.

Não foi. Jango ainda era presidente. A ilegalidade foi observada pelo próprio Lincoln Gordon, em livro publicado no Brasil em 2002: “Embora sem a sanção constitucional apropriada, o presidente do Senado declarou vaga a Presidência e acompanhou o sucessor constitucional – Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados – a uma cerimônia improvisada no prédio do Supremo Tribunal Federal, onde Mazzilli foi empossado como presidente em exercício”. Em 15 de abril, assume o primeiro dos presidentes militares do período 1964-1985, Castelo Branco.

Surpresa

Em seu A Segunda Chance do Brasil – A Caminho do Primeiro Mundo, o embaixador também admite surpresa pelo que viria logo depois: “Naquele momento ninguém podia prever o que aconteceria, embora ninguém imaginasse que o governo militar duraria 21 anos”. Ele dizia acreditar que a “ordem constitucional civil” fosse restaurada já em 1965, com a eleição de um novo presidente, “provavelmente Juscelino Kubitschek”. Isso aconteceria apenas em 1985, com uma eleição presidencial ainda indireta. E em 18 de dezembro do ano passado, o Congresso “devolveu”, simbolicamente, o mandato a João Goulart. Com a presença de Dilma Rousseff, de chefes das Forças Armadas e de João Vicente­, filho de Jango, o Parlamento anulou a sessão de 2 de abril de 1964, que declarou a vacância do cargo.

A preocupação norte-americana com os rumos do Brasil não surgiu de uma hora para outra. Outra gravação incluída no filme mostra um diálogo, em abril de 1962, entre o presidente John Kennedy (assassinado no ano seguinte) e Gordon. “Podemos fazer algo contra Goulart?”, pergunta o presidente. “Sim, acho que podemos”, responde o embaixador.

“Os Estados Unidos, depois da Revolução Cubana, voltaram suas atenções para a América Latina, com a decisão de impedir a qualquer custo o que eles chamavam de segunda Cuba”, diz o pesquisador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos entrevistados para o filme de Tavares. As ações norte-americanas incluíam financiamento de campanhas para as eleições de 1962 e “um serviço de informações muito antenado em relação ao que acontecia aqui”.

Segundo ele, Lincoln Gordon tornou-se personagem de nossa história política, ao convencer o governo norte-americano de que haveria um “risco comunista” no Brasil. Um risco improvável. “Que havia apoio da esquerda (a Jango), inclusive dos comunistas, é fato. Agora, que Goulart pretendia dar um golpe não há nenhuma evidência empírica. Foi uma iniciativa pautada pelo equívoco.” Estudioso de assuntos brasileiros, Gordon foi embaixador de 1961 a 1966. Morreu em 2009, aos 96 anos.

Em relato ao Departamento de Estado, Gordon também cita o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola: “Minha conclusão é que as recentes ações de Goulart e Brizola para reforma agrária levarão o Brasil a um governo comunista similar ao de Fidel Castro em Cuba”.

O historiador norte-americano Peter Kornbluh, analista-sênior do National Security Archive, organização não governamental criada em 1985 por jornalistas e estudiosos, observa no filme: “Os Estados Unidos queriam apresentar Goulart como um presidente de extrema-esquerda. A reforma agrária pela qual Goulart realmente lutava era mais um pretexto para apoiar esse argumento”. Ele fala em um “plano de contingência” prevendo inclusive ação armada, em caso de resistência – que não houve.

Brother Sam

A ação norte-americana sempre foi contestada pelos militares e pelo próprio Lincoln Gordon, ao escrever em seu livro que “a derrubada de Goulart foi obra dos militares brasileiros, sem assistência ou aconselhamento dos Estados Unidos”. Ele admite a existência da Operação Brother Sam, que consistia no envio de uma frota armada para a costa brasileira em março de 1964. “Nenhum brasileiro, militar ou civil, teve conhecimento dessa força-tarefa naquele momento”, assegura Gordon. Segundo o embaixador, um dos objetivos era “exercer pressão psicológica a favor do grupo que se opunha a Goulart”. Quaisquer que fossem os motivos, não houve necessidade de usar as forças armadas, porque o golpe foi consumado sem maior resistência.

“Ninguém admitiria (a presença dos Estados Unidos), porque seria um crime de traição à pátria. Mas os documentos disponíveis hoje mostram que os militares estavam acompanhando a Operação Brother Sam”, diz Carlos Fico, que aponta o general José Pinheiro de Ulhoa Cintra, homem de confiança de Castelo Branco, como contato brasileiro com os norte-americanos.

Em depoimento prestado para uma coleção intitulada História Oral do Exército – 1964/31 de Março, o coronel, ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho é um dos que contestam a versão de ­auxílio externo para o golpe. “Trata-se de uma velha mentira. Não chamo calúnia, porque não é crime, mas é uma injúria que o grupo comunista jamais abriu mão, tentar transformar em verdade à força de repetir”, afirma, em livro de 2003. “Não houve, em nenhum momento, a atuação dos Estados Unidos, em termos militares, de apoio à derrubada de Goulart. Havia preocupação com João Goulart, mas a maior preocupação era com Allende, como comprovaram mais tarde”, acrescentou, referindo-se ao presidente do Chile Salvador Allende, deposto pelos militares em 1973.

Passarinho admite, no entanto, possíveis conversações entre Gordon e o então governador de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto. “É provável que o Magalhães Pinto tenha mantido algum entendimento com o próprio embaixador Lincoln Gordon para o caso de a nossa ação militar durar muito tempo. Não teríamos porto para receber suprimentos para as tropas de Minas, a fim de prosseguir numa luta que assumisse contornos de guerra civil. Isso então, sim, teria explicado o famoso Brother Sam: embarcações americanas preparadas para vir ao Brasil, trazendo combustíveis para que as forças revolucionárias contra o Goulart não minguassem sem esse suprimento. É a única coisa em que acredito, e que pode ter ocorrido.”

Para Camilo Tavares, a descoberta da participação de Kennedy na “conspiração civil-militar” contra Jango é a “grande revelação” do filme, que consumiu cinco anos de pesquisa e um trabalho de garimpo que incluiu ouvir fitas do ex-presidente norte-americano ainda sem transcrição. Em circuito comercial, o longa de 77 minutos foi assistido por 30 mil pessoas em dez estados, o que ele considera bom resultado para um documentário. A preo­cupação, agora, é organizar um circuito de exibições em escolas e universidades, inclusive nos Estados Unidos.

Público jovem

Em novembro, o filme foi visto em Harvard, com a presença do diretor do filme e do historiador brasileiro Nicolau Sevcenko, que lecionava naquela universidade. “Pelo fato de o filme não ser maniqueísta, acho que provocou um debate interessante lá”, diz Camilo. “O desafio é chegar no circuito educativo. O filme tem essa característica de falar com o jovem.” Por enquanto, exibições estão previstas nas universidades Brown e de Columbia, além do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês).

Prestes a lançar um livro sobre o período, o jornalista Flávio Tavares, pai de Camilo, era colunista político do jornal Última Hora, “o único que apoiava as reformas de base”. Mesmo acompanhando Jango desde o período da chamada Cadeia da Legalidade (movimento liderado por Brizola no Rio Grande do Sul para garantir a posse de Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961), ele disse ter se surpreendido com informações divulgadas no filme, embora a ação norte-americana fosse conhecida. “Eu estava em Brasília e não conhecia a dimensão do golpe. Para mim, que estava no olho do furacão, foi mais surpresa ainda.”

A professora e historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP), cita uma obra de Moniz Bandeira (Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil) para lembrar que a questão da presença norte-americana vem sendo estudada pelo menos desde a década de 1970, mostrando com clareza “a intenção de agir” dos Estados Unidos em relação ao Brasil. “E temos também uma participação muito forte através de duas instituições de fachada, o Ipes e o Ibad, que tinham como exclusiva proposta desestabilizar o governo João Goulart”, acrescenta.

O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) foi criado em 1962 e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), em 1959. No filme, a jornalista e escritora Denise Assis afirma que o Ipes foi montado “para ser o ovo da serpente do golpe”. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chegou a ser criada em 1963 para investigar as atividades dos institutos, suspeitos de financiar deputados contrários a Jango com recursos vindos do exterior. O vice-presidente da CPI era Rubens Paiva, que seria sequestrado e morto durante a ditadura.

Também no filme, Plínio de Arruda Sampaio, à época eleito deputado e relator do projeto sobre reforma agrária, conta ter sido procurado por uma pessoa que lhe ofereceu dinheiro para a campanha eleitoral de 1962. Segundo Sampaio, seu interlocutor explicou: “Só queremos que o senhor defenda a democracia”. “Para isso não preciso de dinheiro”, replicou Plínio. Em depoimento para o documentário, o historiador James Green, da Brown University, chega a comparar: “Imagine se o governo brasileiro tivesse financiado Barack Obama (…) Imagine o escândalo”.

Maria Aparecida observa que a política norte-americana em relação ao Brasil só começaria a mudar de fato com a posse do presidente Jimmy Carter, em 1977. “Vai causar um mal-estar muito grande nos militares, porque vem com uma política de direitos humanos. Portanto, uma mudança de inclinação só acontece no final da década de 70”, diz a professora. Pouco antes disso, estava em curso a chamada Operação Condor, de colaboração entre governos autoritários na América Latina. O diplomata chileno Orlando Letelier, por exemplo, foi assassinado em Washington, em 1976. E há suspeitas sobre as circunstâncias que envolvem as mortes de Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino Kubitschek entre 1976 e 1977.

Estavam em questão, também, interesses de empresas norte-americanas no Brasil. Camilo Tavares lembra que o então governador Leonel Brizola já havia irritado os Estados Unidos ao encampar duas empresas, subsidiárias da ITT (telefonia) e da Amforp (energia elétrica). Outro episódio considerado “inaceitável”, desse ponto de vista, foi a regulamentação, sob a gestão João Goulart, da lei de remessa de lucros. “A legislação é totalmente justa, dá garantia de que parte do capital não vá para a matriz. Procura regulamentar os lucros das multinacionais”, diz Maria Aparecida de Aquino. “Isso não é ser contra os Estados Unidos, mas a favor dos interesses do Brasil. É uma lei de proteção que qualquer país precisa ter. Os Estados Unidos têm uma lei protecionista violenta.”

Para Carlos Fico, a “a equação da época” já é conhecida pela historiografia. “O que vai acontecer é a divulgação de nomes e detalhes, se trata da incorporação de detalhes e responsabilidades.” Ele vê um certo aspecto “perverso” na divulgação paulatina de documentação sigilosa. “Já se passaram muitos anos, e qualquer possibilidade de justiça ou responsabilização cai por terra.

Campanha deslavada

A pesquisadora Maria Aparecida de Aquino não vê consistência nem paranoia nos argumentos que justificaram a ação contra o governo João Goulart, classificada como “golpe preventivo” por muitos militares. “É má-fé”, reage, para então comentar o papel da imprensa. “Excetuando-se o Última Hora, de Samuel Wainer, todos os jornais faziam a campanha mais deslavada possível contra a autoridade presidencial.”

O caso do Correio da Manhã, “o mais prestigiado jornal da época, fundado em 1901”, também é lembrado. “Foi um dos mais virulentos contra Goulart”, diz Maria Aparecida, citando os editoriais “Basta!”, publicado em 31 de março de 1964, e “Fora!”, de 2 de abril. Mas praticamente em seguida o Correio já se posiciona contra os rumos do novo governo, “e por conta disso vai pagar muito caro”. O jornal vai mudar de mãos, definhar e fechar em 1975.

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Encontro com ex-carcereiro
Uma das passagens curiosas do filme é o diálogo entre Flávio Tavares e Newton Cruz. O general fala sobre a situação pré-golpe, com presença de bandeiras comunistas nas ruas, do CGT (entidade sindical), da UNE. Ao que o jornalista contrapõe: mas isso não é normal em uma democracia? E ouve um enfático “não”, não é normal. Mas o militar também comenta que ninguém leva 20 anos para “arrumar a casa”, referindo-se ao período autoritário.

“Foi um encontro cordial, muito franco”, afirma Flávio Tavares. Também foram assim as conversas com o almirante Júlio de Sá Bierrenbach e o coronel Jarbas Passarinho. Com algumas recordações. “Bierrenbach foi meu carcereiro na Marinha. Só que esse homem se portou muito bem comigo já na ocasião. Foi o único (nas prisões) a se portar com dignidade”, conta. Torturado em outros locais, Tavares diz ter recebido – pelo menos naquela ocasião – tratamento rígido, mas correto. O jornalista foi um dos presos políticos libertados em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. Camilo nasceu durante o exílio do pai, em 1971, no México.

Com Robert Bentley, o jornalista fala sobre tortura e deixa o ex-assessor de Lincoln Gordon constrangido. “Isso é difícil de justificar oficialmente. Mas lamento, lamento, de qualquer maneira”, reagiu.

No final do encontro com Passarinho (“Grande articulador político, não é um homem bronco”) para a gravação do depoimento, Tavares recorda que o militar foi quem assinou o decreto suspendendo seus direitos políticos. Ele já não se lembrava. O jornalista cita outro detalhe histórico: já na condição de ministro do Superior Tribunal Militar, Bierrenbach votou pelo desarquivamento do inquérito do Riocentro. Em 1981, uma bomba estourou dentro de um carro no estacionamento do centro de eventos, matando um sargento e ferindo um capitão – seria mais uma operação para minar o processo de abertura política. O almirante foi voto vencido, mas chamou o caso – que seria tentativa de atentado a um show de 1º de Maio – de “crime nefasto”.

por Vitor Nuzzi

RBA

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O cineasta pernambucano

O que me nutre é o sêmen dessa urbe anônima e brutal, repleta de pequenos burgueses que tremem de medo detrás das grades de seus condomínios de merda, enquanto tentam desviar os olhos das vísceras expostas desse Brasil que meu cinema denuncia e condena. Me chamo Pedro Ivo e o Recife entrou na minha corrente sanguínea como uma catuaba selvagem, expandindo a minha mente e aguçando a minha sensibilidade. O bom gosto me enoja. Não tenho medo de chafurdar no pântano e me lambuzar de sangue e bílis. O cinema da minha terra é tão autoral e criativo que inventei um novo gênero: a cineautobiografia visceral. Antecipo o roteiro de Soluço Líquido, enquanto espero o resultado do Funcultura.





ATO I – O CANTO GUTURAL DE UM FREVO

Cena caseira filmada, em super-8, com os mesmos movimentos de câmera usados em Terra em Transe.

Uma mulher em trabalho de parto declama Uma Mulher Vestida de Sol,de Ariano Suassuna, aos berros, para se acalmar. O parto normal não caminha bem, mas o médico não sabe o motivo. O bebê não consegue sair. Decide fazer cesariana. Ao retirar a criança, o médico fica visceralmente estupefato.

MÉDICO: Descobri o que estava acontecendo. Seu filho nasceu de pau duro.

O pequeno cabra recebe a palmada e, em vez de chorar, entoa um trecho de O Barbeiro de Sevilha em ritmo de manguebeat.

MÉDICO: Parabéns, dona Armelinda, é um cineasta!

Dona Armelinda vai para o quarto e permanece estática. Num plano silencioso de quinze minutos, olha pela janela e reflete sobre as mudanças urbanísticas sofridas pelo Recife nesses últimos vinte anos.

MONTAGEM PARALELA

Corte seco: um tatuí é pisoteado no asfalto quente.

MONTAGEM PARALELA

Num puteiro, um latifundiário usa a primeira edição de Casa Grande & Senzala para seviciar uma puta. (Ponto de vista da lombada do livro.)

Inserção gratuita de entrevista de Lars von Trier, em dinamarquês sem legenda.



ATO II – A VALSA DA CARNE CRUA

Plano fechado de xoxota, imagem consagrada do cinema pernambucano. Fui eu, Pedro Ivo, que a incluí na Carta Visceral, nossa versão do Dogma 95, um conjunto de regras compilado pela Associação de Cineastas Viscerais de Boa Viagem.

A dita-cuja está com um baseado preso aos lábios. A brasa morre.

VAGINA (voz em off, sotaque pernambucano): Ô, Pedro Ivo, tu tem fogo?

Pedro Ivo, um jovem de 11 anos, abre o zíper.

PEDRO IVO: Serve?

A vagina não responde.

Magoado com o descaso, Pedro Ivo retalha o rosto com um canivete enferrujado, deixando uma cicatriz visceral que o acompanhará pelo resto da vida. Durante a cena, usa o próprio sangue para escrever na parede os nomes de John Cassavetes e Charles Mingus.

Pedro Ivo grita que o mar virará sertão até estourar cinco cordas vocais. Veste então uma camisa vermelha estampada com o rosto de Apichatpong Weerasethakul, ajeita o cabelo na boina cubana e, com um gesto visceral, pega o baseado, bate a porta e sai para desafiar o mundo. Está com uma ereção.



ATO III – EROS CICATRIZANTE

Bar Central. Cercado por críticos e donos de cineclube, Pedro Ivo, agora com 20 anos, bebe um coquetel de Natu Nobilis com benzina. Está com uma ereção. Quem o serve é uma garçonete sem calcinha com sotaque levemente francês.

CINECLUBISTA: Pedro Ivo, viste Tropa de Elite 2?

PEDRO IVO: Mais um desbunde de um bacana classe média que adora pobreza em contraluz. Coisa de caboclo que quer ser Hollywood, né, velho?

CINECLUBISTA: E O Palhaço?

CRÍTICO: Sentimentalismo burguês mascarado de filme de arte. Filme-anestesia, filme-Valium, filme-band-aid. Onde estão as entranhas, velho? O soco, o murro, o vômito?

Pedro Ivo vomita em cima do crítico.

CRÍTICO: Obrigado, velho.

CINECLUBISTA:O Cheiro do Ralo?

PEDRO IVO: O pior do lote. Estética radical chique, fingindo estar sob o cabresto de Tânatos quando não passa de angústia cheirosinha. Um Bukowski
de convento carmelita. Cinema é ereção, cacete. É uma vontade, uma necessidade. Glauber dizia que o cineasta verborrágico tem de estar no topo da cadeia alimentar de um povo. É um processo de seleção natural que Darwin descreveu a 24 quadros por segundo. Recife une o talento de Florença à tecnologia do Vale do Silício.

Os amigos fazem um brinde – “Foda-se o eixo Rio–São Paulo!”. Em seguida, pedem uma porção de coração de galinha. As aves são trazidas vivas e têm seus corações arrancados à mão diante de fregueses pequeno-burgueses.

Olhos pulando do rosto aterrorizado das galinhas para a bunda carnuda da garçonete, Pedro Ivo tem uma epifania e decide fazer seu primeiro filme.



ATO IV – A NOITE DA VAGINA LOUCA

Com a verba arrecadada com a rifa de suas vísceras, Pedro Ivo compra um DKV Vemag e viaja pelo interior do estado com uma câmera na mão e centenas de ideias na cabeça. Sem gasolina, abastece o carro misturando esterco com sua testosterona. No trajeto, descobre as entranhas do Brasil profundo. Há muita prostituição pelo caminho. Num ambiente eivado de miséria e prazer carnal, Pedro Ivo abandona todo resquício de moral burguesa e se envolve sexualmente com um liquidificador Arno, ao qual chama de “minha cabrita”. Na bem-aventurança que se segue ao coito, Pedro Ivo ouve uma batida de maracatu e, num milagre, é recompensado com a devolução de suas vísceras.

Ao retornar ao Recife, Pedro Ivo se depara com uma cena dantesca: uma placa na porta do cinema da Fundação Joaquim Nabuco anuncia que o local será demolido para dar lugar a um edifício projetado por Hans Donner com fachada de Romero Britto.

Irandhir Santos, Hermila Guedes, Dira Paes, Matheus Nachtergaele, João Miguel, Leona Cavalli e Chico Diaz se chicoteiam em torno do edifício. Pedro Ivo lidera um levante para ocupar a Fundação, no qual todos os invasores usam máscaras de Falconetti em A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer.

Preso e torturado pela polícia de Eduardo Campos, Pedro Ivo termina seus dias crucificado no alto de uma árida colina em Garanhuns. A seus pés, brota um pé de maconha.

Corte para preto e legenda: FINAL, PORRA.

por Renato Terra

piauí

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

SOMEWHERE IN TIME

Uma tia que mora em São Paulo nos visitava pela primeira vez com a família em Itabaiana e eu resolvi testar se meu primo cabeludo era “metaleiro”. Saquei meu vinil do Somewhere in time do iron Maiden e, como quem não quer nada, coloquei pra tocar. A reação foi imediata: ele saltou do sofá e veio me perguntar, empolgadíssimo, se eu curtia. E assim nasceu uma grande amizade que, infelizmente, durou pouco, pois ele morreu num acidente de trânsito pouco tempo depois. Mas deu tempo de irmos juntos ao Rock In Rio II, no Maracanã, onde vimos Sepultura lançando “Arise”, Megadeth lançando “Rust in peace” e Judas Priest na turnê do “painkiller”. Inesquecível ...

Era assim nos anos 1980: você saía praticamente à caça de alguém com quem pudesse conversar e compartilhar a paixão pelo rock – no meu caso, recém-adquirida. Somewhere in time era o mais novo lançamento do Iron Maiden e eu o havia comprado no Cine Foto Walmir, loja que marcou época ao trazer à cidade praticamente todos os lançamentos das gravadoras maiores – o “underground” ficava por conta da Distúrbios Sonoros e, posteriormente, da Lókaos, de Silvio “Suburbano”, vocalista da Karne Krua.

Eu e meu "precioso"
Sempre quis ter uma cópia decente em vinil de Somewhere in time, já que a que saiu no Brasil era ridícula: capa simples e encarte raquítico. Para minha surpresa encontrei recentemente na Freedom, a “nova” (ênfase nas aspas) loja de Silvio, a edição dos meus sonhos: com capa dupla, encarte em forma de envelope e vinil Picture – daqueles que vêm com uma imagem gravada. Material de primeiríssima: papel de alta qualidade o disco com som cristalino. Foi mais um sonho de adolescente realizado – alguns anos atrás eu realizei o maior deles, ver o Iron Maiden, finalmente, ao vivo, no “Hell”cife – para lembrar como foi clique aqui.

Somewhere in time é o penúltimo grande disco da melhor fase do Iron Maiden. Veio depois de “powerslave” e do disco duplo ao vivo que registrou sua turnê, “Live After Death”, e antes de “Seventh Son of a seventh son”. Começa com uma belíssima harmonia tocada em guitarras sintetizadas com som cristalino na faixa “Caught somewhere in time”, uma canção existencialista sobre a passagem do tempo. Um verdadeiro convite ao ouvinte para que embarque na viagem semiconceitual do álbum, que prossegue com o memorável single “wasted years” e sua letra ainda mais contestadora e reflexiva – “Então entenda: Não perca seu tempo sempre procurando aqueles anos perdidos”. Um “Mar de loucuras” vem na sequencia, ainda na mesma linha, cadenciada e melódica, até que a mais rápida “Heaven Can Wait” encerre com chave de ouro o lado A. As angustias existenciais persistem, aqui focadas na hora da morte, que chega para todos.

O Lado B começa de forma oposta com “The loneliness of the long distance runner”, cujo ritmo, no princípio, é lento, mas logo toma fôlego e segue assim, “martelando”, até o final. A melodia lembra a clássica “The trooper”. Já a letra é inspirada no conto de Alan Sillitoe que virou filme em 1962 e conta a história de Smith – Silva, um nome bastante comum na Inglaterra, assim como no Brasil - um adolescente membro de uma família disfuncional da classe operária que vive de pequenos furtos e tem poucas perspectivas para o futuro. É preso e começa a correr no pátio da prisão para passar o tempo, o que faz com que seja escolhido para representar a instituição numa corrida de “cross-country” entre alunos da rede pública. Caso vença, será libertado. O Iron Maiden sempre teve o mérito de levar ao metal um conteúdo culturalmente sofisticado, com muita referência a obras clássicas do cinema e da literatura, ou a fatos históricos – vide “Lord of the flies” (“O Senhor das moscas”, um clássico da literatura moderna), “The Wicker man” (no Brasil “O Homem de palha”, um dos melhores filmes de suspense e terror já feitos, estrelado por Christopher Lee) ou a própria “Alexander the great”, que encerra Somewhere in time contando a história do conquistador da Macedônia.

O disco segue com “Stranger in a stranger land”, que cita outro clássico da literatura num contexto pessimista – “No Brave New World”. A penúltima, “Deja vu”, mantém o clima “perdidos no tempo” – “Sinto como se tivesse estado aqui antes” – e então temos o grande épico, “Alexander the great (356-323 B.C)”, que eles, misteriosamente, nunca tocaram ao vivo. A letra é impressionante pois consegue, em poucas palavras – apesar da musica ser longa, tem quase nove minutos – resumir toda a trajetória do grande monarca com um nível de rebuscamento raro de ver entre seus pares – “ele espalhou o Helenismo por todo o mundo e pavimentou o caminho para o surgimento do cristianismo e do modo de vida ocidental”.

Por fim, a capa: a melhor de todas, na minha humilde opinião. Mostra um Eddie ciborgue, com suas carnes fundidas a estruturas artificiais, num cenário futurista a la Blade Runner repleto de referencias ao passado da banda e à cultura pop em geral. Até o Batman está lá!

Somewhere in time é um disco subestimado. Sofreu na época do lançamento pela pressão de suceder álbuns que vinham levando a banda a níveis nunca antes alcançados e por ser o primeiro a usar sintetizadores, algo que, segundo os críticos, tirou parte do peso do grupo. A meu ver, no entanto, é perfeito. Melhor que seu sucessor, o aclamado “seventh son of a seventh son”, um excelente álbum conceitual no qual as composições, no entanto, parecem às vezes engessadas por terem que ser amarradas ao tema no qual se desenvolve a história.

O fato é que todas as músicas de Somewhere in time têm uma estrutura muito bem acabada, com melodias e refrões marcantes. Nos arranjos, algumas das melhores perfomances individuais dos membros da donzela de ferro, a exemplo dos solos de guitarra matadores presentes já na faixa de abertura, a devastadora “Caught somewhere in time”.

Redescubra-o! A hora é agora, com o sensacional relançamento em Picture disc. 

por Adelvan -----------------------------------------------------------------------------------

Abaixo, uma entrevista com Bruce Dickinson feita para a edição especial dedicada ao Heavy Metal da revista Bizz na época do lançamento de “Somewhere in time”:

            HEAVY - O que você pode nos contar do novo LP do Iron Maiden?
            BRUCE - O nome dele será Somewhere in Time (Em Algum Lugar no Tempo) terá oito faixas. A capa ainda não está pronta, mas já posso adiantar que o tema visual é bem futurista e o colorido ficará genial. Passamos dois dias em Los Angeles fazendo fotos promocionais.

            HEAVY - E a produção deste novo disco é de Martin Birch?
            BRUCE - Sim. As gravações de bateria e baixo foram feitas em Nassau, nas Bahamas. As guitarras e os vocais foram gravados nos estúdios Whitlord, na Holanda, e a mixagem foi feita no Electric Lady, em Nova York.

            HEAVY - Já foi programada alguma turnê de lançamento deste disco?
            BRUCE - No dia 10 de setembro começamos uma turnê européia. Partimos da Iugoslávia e passamos por Polônia, Hungria, Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, Noruega e Reino Unido.

            HEAVY - E quanto ao Brasil?
            BRUCE - Não temos nada programado para o Brasil, pelo menos nada em 1986. Depende se haverá ou não outro Rock in Rio.

            HEAVY - O que você achou do Rock in Rio?
            BRUCE - Achei fantástico, O evento foi muito bem organizado e as pessoas envolvidas foram muito simpáticas. Ficamos super impressionados com o público. O número de pessoas era inacreditável e a reação foi surpreendente. E, além do mais, nunca tínhamos visto tantas mulheres bonitas de uma só vez! Para o Iron Maiden o único problema foi não poder ter ficado mais tempo. Precisávamos voltar a Nova York, onde estava o maior frio! E, realmente, foi doloroso trocar o verão do Rio pelos 15 graus de Nova York.

            HEAVY - E, por falar em público, qual foi, até agora, o melhor público para quem o Maiden já tocou?
            BRUCE - Bom, para nós o melhor público é aquele que reage e responde áquilo que estamos vivendo no palco durante o show. Se estamos superenergéticos e até enlouquecidos, queremos que o público também fique energético ou enlouquecido. E certamente os brasileiros atendem a esta expectativa.

            HEAVY - E como se saiu a Donzela de Ferro (tradução de Iron Maiden) por trás da Cortina de Ferro?
            BRUCE - Muito bem. Foi um sucesso. Fomos muito bem recebidos pelo público. E, por isso, vamos repetir a dose com seis apresentações na Polônia, três na Iugoslávia e uma outra num festival em Budapeste.

            HEAVY - Em relação aos shows, o que vocês planejaram para esta nova turnê?
            BRUCE - Ainda não temos certeza, porque só começaremos os ensaios em agosto (a entrevista foi feita em julho -Ed). Mas é certo que tocaremos "Run of the Asian Manor" (NOTA DO BLOG: erro grotesco na transcrição, ele certamente se referia a “The Rime of the Ancient Mariner”), "Iron Maiden", "Number of the Beast", "Run to the Hills"... O que ocorre é que o novo LP está muito bom, tem músicas ótimas (que podem resultar muito bem) ao vivo e, portanto, estamos pensando em incluir cinco músicas do novo disco nesta turnê.

            HEAVY - Como é feita a escolha das músicas que entram para os shows?
            BRUCE - Tentamos escolher entre aquilo que estamos a fim de tocar e aquilo que sabemos que o público quer ouvir, tipo "Run to the Hills".

            HEAVY - Enquanto vocês estão trabalhando, entre gravações e turnês, como se mantêm em contato com o que acontece no mundo da música?
            BRUCE - Para ser sincero, eu, particularmente, não fico muito ligado. Não me interesso muito por esse novo tipo de som metal: trash metal, speed metal ou death metal. Acho que a única coisa que fazem é tocar música rápida. E mais nada. Mas tenho que ficar atento para qualquer coisa nova que possa me agradar.

            HEAVY - O que você costuma ouvir nas horas livres e o que tem ouvido ultimamente?
            BRUCE - Sem ser a fita de nosso LP - que escuto todos os dias, porque acho que está genial -, tenho ouvido o último disco do Judas Priest. Mas com menor freqüência, pois está um pouco pop demais para o meu gosto. Normalmente também escuto demo tapes de pequenos grupos europeus que as pessoas estão sempre me enviando.  

            HEAVY - E quanto à suposto ligação do heavy metal com cultos satânicos e coisas do gênero - que o Maiden parece usar para ironizar coisas como a literatura de Edgar Alan Poe? Você acha que para ser heavy metal um grupo precisa encarnar este tipo de ideologia?
            BRUCE - Não, acho que isso não Importa. O que interessa é que as letras das músicas representem alguma coisa para quem as escreve. Se a inspiração vem de um livro ou de uma vida cotidiana - como acontece com Bon Scott (ex-vocalista do AC/DC), que escrevia letras fantásticas sobre se embebedar e terminar a noite com alguma garota desconhecida -, não faz diferença. Tem muita gente tentando imitá-lo e se dando mal, porque na imitação a coisa sai sem sentimento.

            HEAVY - Você diria que existe hoje uma falsificação do heavy metal, através de grupos do tipo trash metal?
            BRUCE - Bom, acho que é apenas uma variante da música. Na verdade eu não tento definir um determinado som como sendo "falso" ou "verdadeiro". Eu escuto tanto um AC/DC quando um John Cougar Mellencamp. Quando estivemos em Los Angeles fomos assistir ao show do Buddy Rich e sua banda. É um grupo de jazz tradicional com uma tremenda presença e uma enorme energia no palco que, realmente, surpreende. No final é isso: se o som é feito com sinceridade, para mim está bom.

            HEAVY - Que tipo de carreira você seguiria se não fosse músico?
            BRUCE - Acho que seria ator.

            HEAVY - Sua coletânea com o Samson foi recentemente lançada aqui no Brasil. O que acha dessa época na sua carreira?
            BRUCE - Foi uma época de algumas dificuldades. Vivia em uma casa abandonada em Isle of Dogs (uma ilha inglesa) e até roubava comida nas festas. Apesar dos pesares, foi divertido. Quanto ao trabalho que fizemos naquela época, penso que é muito bom e que continua atual até hoje. Fico satisfeito em saber que foi lançado aí no Brasil.

José Augusto Lemos, por telefone
Fonte: BIZZ “HEAVY”

1986