
Por uma dessas coincidências cabalísticas do destino, o “Cidadão do Mundo” fica em São Caetano, cidade para a qual eu já iria me dirigir, de qualquer jeito, para visitar meu já citado amigo Marlio, ex-baixista da Karne Krua e da Câmbio Negro HC, que mora lá. Para deixar a mão ainda mais na roda, fica pertinho da casa dele – mas perto mesmo, tipo, desci da Estação de trem, andei uma quadra, bati um rango massa que incluiu o bom e velho cuscus com leite (valeu Tânia!) na casa de Marlio, voltei mais umas duas quadras e voilá – estávamos lá.



Não poderei relatar em detalhes o que aconteceu logo a seguir justamente porque estava aproveitando aquele raro momento para conversar com o pessoal, mas vi alguns trechos de
alguns shows, dentre eles o primeiro, de uma banda de Hardcore de Santos que conta com membros do no Sense na formação, e o do Zefirina Bomba, da Paraíba, que tem as manhas de tirar uma distorção irada de um violão. De fora, ouvi também ecos de algo que parecia com planet Hemp (perdidos no tempo, os caras) e uma outra banda que, ao que parece, cantava em espanhol. Lá fora, conheci uma figura: Fralda, ex-Ratos de Porão e Forgotten Boys. O cara tá com um visual cabuloso, total stoner rock podrão, cabeludo e barbudo, e é muito gente fina. Ele toca no Lobotomia e nos falou que iríamos nos surpreender com o novo guitarrista deles, um moleque novinho, de 15, 16 anos, que precisava inclusive de autorização dos pais para viajar, mas que tocava pra caralho. Era esperar para ver.



Depois da queda o coice, já diziam os Paralamas do Sucesso (quem?). O show do Lobotomia foi absolutamente matador e nos surpreendeu, já que, confesso, não estávamos botando muita fé numa banda tão descaracterizada – creio que apenas o baterista era da formação original. Era, pelo menos, o único que já ostentava cabelos grisalhos. Foi foda: o vocalista, também novo, segurou bem a onda, assim como o batera. Fralda tem uma presença de palco muito boa, é um rocker, totalmente old school, e o guitarrista, puta que pariu! Sensacional! Simplesmente detonou, mandando altos riffs e solos matadores, com um estilo, tanto visual quanto musical, totalmente metal. Muito bom. Um dos melhores shows de Hard Core que vi em muito tempo – e olha que até que tenho visto bons shows de Hard core ultimamente ...

São Paulo é foda: vi Morrissey, No Sense e Lobotomia, mas perdi Sisters of Mercy, que estava na cidade e iria se apresentar naquela mesma noite no Via Funchal (não fui porque não tenho uma plantação de dinheiro no quintal de casa), e o Ugra Zine Fest, evento no qual foi lançada a segunda parte do documentário “Fanzineiros do século passado”, do meu camarada Márcio Sno, e no qual também esteve presente outro amigo de correspondencia de longa data, o cyberpunk gaúcho Law Tissot, além de várias outras figuras antológicas do meio alternativo nacional como Marcelo Viegas e Flavio Grão. Perdi também, e isso só é perdoável porque eu não poderia me dividir em vários como o Multi-homem, dos Impossíveis, um show da lendária banda brasiliense Death Slam, do meu camarada Fellipe
CDC, que estava se apresentando em São Paulo na época. Tudo isso no mesmo dia, na mesma noite. Na noite seguinte eu poderia ter ido depois do show de Morrissey com outro amigo, Andye Iore, de Maringá, Paraná, a um show de monobandas que haveria na Augusta, onde eu estava hospedado, mas cadê a coragem? Preferi bater uma pizza com os camaradas Viegas e Grão e depois se jogar nos braços de Morfeus (ui, poético). São Paulo é realmente foda – possui um incrível efeito aglutinador (todo mundo, uma hora ou outra, passa por lá) e é quase sempre tudo ao mesmo tempo agora, e pra já. Eu sei, a vida é feita de escolhas, mas assim fica difícil ...

Fora este lado “alternativo” da empreitada, teve a viagem em si que, por si só, já é bem legal. Fui com a patroinha e ela não perdeu tempo: chegamos na sexta, dia 09 de março, por volta das 3 da tarde, deixamos a mala no hotel “5 cruzes” no qual costumo me hospedar (ela merecia algo melhor, mas teve que compreender, Morrissey nos quebrou – e o hotel era simples porém decente, no final das contas), batemos um rango e já estávamos no metrô, a caminho do Mercado
Municipal, que ela queria conhecer e eu nunca havia visitado. No caminho, passamos pela 25 de março e foi uma loucura: a baixinha ficou louca com a quantidade de bijouterias à venda por preços pra lá de camaradas. Algumas bem bonitas, como um bracelete que ela comprou, mas ficar de “role” por lojas de bugingangas da 25 não é exatamente o MEU tipo de programa, então fomos ao mercado com a promessa de voltarmos lá depois com mais tempo (acabamos não voltando, porque o dinheiro tinha acabado e o cansaço tomado conta).

É muito bonito, o Mercado Municipal de São Paulo. Altas frutas exóticas, como os gigantescos morangos americanos que um feirante esperto convenceu minha senhorinha a comprar por absurdos 25 reais (depois, no hotel, quando fomos comê-los, ficamos um pouco menos arrependidos da compra, pois eram realmente enormes e deliciosos), e o famoso sanduíche de mortadela, supostamente o mais famoso da cidade. Comi. É bom, mas é grande demais! E enjoado. Muito gorduroso. Ficou a desejar ...

Visitei também, desta vez sozinho, a Galeria Nova Barão, que reúne, principalmente, lojas especializadas no bom e velho vinil. É de babar! Poderia ficar horas ali só olhando aqueles bolachões lindos e suas capas e encartes grandes e maravilhosos, mas como estava sem grana (oh! Céus! De novo?), era “olhar com os olhos e lamber com a testa”, portanto nem me demorei tanto ...

Também lá, no MASP, pude ver, Ao Vivo e a cores, um quadro de um de meus artistas plásticos favoritos: “As tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch. Sensacional. Haviam também vários outros de pintores igualmente famosos, como um esboço de Salvador Dali – mas nada de muito célebre, apenas “lados B”, como bem definiu Viegas, que me acompanhou na visita.

A lamentar ainda, no quesito “poderia ter visto mas não deu”, uma Mostra de trabalhos de Angeli que estava em montagem no Instituto Itaú Cultural. Também na paulista. Como deu pra notar, praticamente nem saí daquela região, e mesmo assim não consegui dar conta do que havia por lá.
São Paulo é foda. Um lugar do caralho.
Por Adelvan
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