terça-feira, 19 de abril de 2011

Noite preta (pretíssima!)

15/04/2011, Abril pro Rock, Recife, Chevrolet Hall. Contra-tempos (BR 101, terrível*) me fizeram perder uma das bandas que mais gostaria de ver ao vivo, o Facada. Furia, me perdoe. Perdi também uma tal de "Cangaço" mas, pelos comentários que ouvi ( o mais insistente era "é roque pesado com influência de regional" ), não perdi nada. Cheguei no Desalma, banda local. Pesadíssima. Death metal com algo a mais e a menos, mas não consegui definir muito bem o que, pois ando meio sem paciência pra analisar bandas que não me fisgam logo de cara e foi este o caso, muito embora a competencia dos caras seja evidente.

O show começou mesmo (para mim) com a banda seguinte, Violator, de Brasilia. "A noite vai ser boa", diria Cladio Zoli. Espécie de Nuclear Assault tardio (antes tarde do que nunca) tupiniquim, os caras são muito, muito, muito bons de palco. Compensam com gloria e galhardia sua principal deficiência, a falta de músicas REALMENTE marcantes no repertório, com uma energia insana e um astral muito legal, além de muita competencia na execução. E são muito simpáticos: o baixista/vocalista fala o tempo todo entre uma musica e outra e não fica chato, muito pelo contrário: tem um carisma de moleque roqueiro doido porém "do bem", bem intencionado, que contagia a todos. Até quando fala contra "essas igrejas de merda que querem ocupar nosso espaço, fodam-se, foda-se o white metal" ele fala, não vocifera. O mesmo para um auto-elogio que o cara fez que na boca de outro soaria pedante, apesar de verdadeiro: "nós somos responsáveis, por aqui, pelo revival do thrash metal na década passada, pela valorização da diversão e da espontaneidade, então nada de ficar se exibindo com cara de mal ou servindo de progaganda para marca de xampo". Sensacional. Deu vontade de virar amigo do cara na hora, oportunidade que eu e qualquer um que quisesse teria, era só ir lá bater um papo com eles num stand que vendia mechandising oficial do DRI e do Misfits, além de algumas péreolas "underground" como um CD do Quebra-queixo, banda do Evandro, ex-vocalista do macakongs 2099, acompanhado do melhor "encarte" que eu já vi em toda a minha vida, em formato de revista em quadrinhos grandona impressa em papel couchê e com capa-dura ! Em termos de produção, superou até o "Music for antropomorphics", disco conceitual do Mechanics que também vinha com uma revista em quadrinhos encartada. Tudo isso por apenas 30 reais ! Inacreditável. Claro que comprei, ouvirei, lerei, resenharei (se a preguiça permitir) e tocarei no programa de rock (se for bom, né, mas boto fé que seja). Ao lado da mesinha do Evandro, uma surpresa: o disco novo do plastique noir, de Fortaleza! Vendendo-o, Babuê, figura gente fina que tá sempre agitando as coisas por lá. Ele me deu o disco de presente, agradeço muito.

Mas já que mencionei o DRI, voltemos ao show do Violator: o baixista da banda texana, Harald Oimoen, estava o tempo todo ao lado do palco, fotografando, durante o show dos candangos, mas a gente só soube quem ele era quando o vocalista, Pedro "poney", falou que era um prazer tocar ao lado de uma das bandas que mais os influenciaram. Ressaltou, inclusive, que sua primeira tattoo foi o célebre bonequinho pogando, símbolo do DRI. Falou isso também em inglês se dirigindo a Harald, o que foi a deixa para que este fosse ao microfone e dissesse: "DRI was my first tottoo too, and Violator is amazing, old school fucking thrash metal". Dito isso o pau continuou a comer na casa de noca, os violadores continuaram agitando pra caralho e instigando as rodinhas com os dedos indicadores em circulos e foi todo mundo feliz - eles, o público, que agitou MUITO, e "Poney", que saltou na platéia duas vezes - numa delas teve, inclusive, um atrito com um segurança que atingiu na cabeça, fato pelo qual se desculpou publicamente no microfone. Grande show - o maior da carreira da banda, como eles mesmos enfatizaram no palco. Para se tornar uma banda perfeita, só falta mesmo composição - mas ressalto que as musicas não são ruins, são apenas banais, clicherosas, sem nenhum refrão ou passagem especialmente marcante.

A quinta banda (terceira para mim) foi o Torture Squad. Uma grande banda, sem sombra de dúvidas. Pesada, precisa, técnica, e "metálica", acima de tudo. Fizeram um grande show (destaque para os solos de guitarra, matadores), mas que eu não vi direito - fiz uma análise mental e percebi que aquela era a que menos me interessava na noite e aproveitei para dar o tradicional rolê pelo espaço, não sem antes comer uma fatia de pizza com preço salgado e procurar a já célebre latinha de pitu personalizada do festival. Não achei, mas soube depois que estava a venda apenas em pequena quantidade no stand da Astronave, a produtora. Uma pena, seria um souvenir curioso para a posteridade.

Voltei a dar atenção ao que rolava nos palcos com a apresentação do Musica Diablo já começada. Grande banda, pesada, precisa, técnica, "metalica" e blah blah blah. Os caras mandam muito bem no instrumental, mas também falta composição e ... vocalista. Não tem jeito, não consigo gostar de Derrick Green como vocalista. É muito "feijão com arroz", sem personalidade. Qualquer um com um mínimo de potencia vocal e disposição para se esgoelar por algumas horas faz o que ele faz. Chega a ser incrível saber que ele ocupa há tanto tempo o posto na principal banda de metal brasileira, uma das maiores do mundo. Isso sem falar do papo furado em português capenga cheio de gírias paulistanas entre uma musica e outra. Não foi um show ruim, longe disso, mas não foi nada comparado ao que viria a seguir ...

DRI! Gente, eu estava num show do DRI, a banda mais "pogante" de todos os tempos. Mas não "poguei" (eu sei, eu sou um verme). Até deixei todos os meus "apetrechos" nas mãos de minha companheira, que preferiu ver tudo lá de trás, prevendo um apocalipse particular, minha já tradicional incorporação do caboclo adolescente headbanger que ainda insiste em viver em mim, mas as quase 10 horas na estrada (nunca demorei tanto para chegar em Recife!) coroadas com um engarrafamento monstro na hora do rush começaram a cobrar seu preço. Me recusei a "morgar", no entanto - pelo menos por enquanto. Fiquei lá, logo atrás da "ciranda-cirandinha", como gosto de chamar, em tom assumidamente depreciativo, a roda (literalmente falando) de "pogo" local, que mais parece um passeio entre amigos. Foi um verdadeiro desfile de pérolas em forma de musica pesada desferido por uma das mais influentes bandas do estilo (na verdade DOS estilos, já que eles mesclam com perfeição Hardcore ao thrash metal e não por acaso são considerados os inventores do "crossover"**). Um pedrada depois de outra. Kurt Brecht continua com um vocal muito bom e original e Spike Cassidy, o guitarrista e outro único membro da formação original (ele nem parece tão velho) simplesmente destroi nos riffs, ABSOLUTAMENTE matadores. Infelizmente não resisti e precisei descansar um pouco, sentado, justamente quando começou uma das sequencias mais matadoras da história da música pesada mundial, "violent pacification" e "Five years plan" com seu mantra "I lose/you win/I win/you lose" que ecoaria em nossas cabeças por todo o final de semana seguinte. Vi tudo pelo telão, mas não vi que o baixista maluco tinha descido do palco. Tomei um susto quando ele passa por mim correendo, com o instrumento ainda em punho. Memorável. E puta que pariu, como os prórios caras do DRI enfatizavam o tempo todo no palco, a gente ainda iria ver os Misfits !!!

Corta pro telão: Imagens belíssimas e coloridas, produzidas pelo coletivo goiano "Bicicleta sem freio", ilustram a narração: "Petrobras apresenta: Abril pro rock 2011. E agora, diretamente dos Estados Unidos, The Misfits!". Denecessário dizer que a turba ensdandecida (que por sinal compareceu em peso, o Chevrolet Hall estava lotado, uma coisa bonita de se ver) veio abaixo. As cortinas se moveram ao som de um pianinho tenebroso e voila: lá estavaM eles, um dos mais matadores "power trios" em atividade na face da terra, neste momento. Na verdade o trio foi tão "power" que todo mundo (sei que não foi apenas eu, pelos comentários que ouvi depois) ficou meio atordoado, sem saber direito o que estava acontecendo. Uma música emendada na outra em velocidade acelerada (e olha que as versões originais já são bem rapidinhas) com o "Big Boss" Jerry Only dividindo os vocais com Dez Cadena, o guitarrista. Ficava até difcil identificar o que eles estavam tocando, algo que só ficou mais claro quando Only anunciou o primeiro grande clássico da noite, "Astro zombies", com um daqueles tradiconais "ÔÔÔ" feitos sob encomenda para serem acompanhados pelo público. E o publico acompanhou e participou, e muito !

A primeira pequena "pausa" serviu para que Cadena perguntasse se alguém ali conhecia uma banda chamada Black Flagg. Ele explica que iriam tocar "six pack" e a dedica "for you. Yes, you!", apontando para alguém na plateia. Os telões não focalizaram o felizardo, mas creio que deveria ser alguém com alguma camiseta de sua antiga banda. O Misfits toca com essa formação desde 2001, o que não impediu algumas "atravessadas", possivelmente motivadas por algum problema de equalização no início do show, quando a caixa da bateria estava muito alta e os vocais praticamente inaudíveis.

Os clássicos foram se sucedendo e o publico assimilando e enlouquecendo. Tudo muito acelerado, um verdadeiro rolo compressor. Só foi possivel respirar em "Helena", uma "quase" balada, mas o pau voltou a comer logo em seguida. "Dig up her bones" ficou quase irreconhecível devido à velocidade em que foi tocada mas o refrão, como não poderia deixar de ser, foi cantado a plenos pulmões por todos. Até eu, que estava exausto, consegui esboçar um sorriso mais entusiasmado e levantar o braço em sinal de aprovação. Only não parava nem para se refrescar ou trocar o chiclete que ele mastigava o tempo inteiro: havia um carinha agachado dedicado, aparentemente, unicamente a satisfazer estas suas "necessidades", espocando umas bolinhas de gelo (ou seria água ensacada?) nos "spikes" de sua jaqueta ou entregando outra goma de mascar ao menor sinal do "mestre". Por falar em jaqueta o visual de Jerry Only é, por sinal, uma atração a parte, um verdadeiro ícone de uma determinada subcultura pop norte-americana, com aquele topete escorrido despencando entre os olhos e culminando no nariz. Guitarrista e baterista, por outro lado, foram mais "comedidos": o primeiro ostentava uma face esbranquiçada entre os longos cabelos esvoaçantes enquanto o segundo "apenas" desenhou dentes enormes em seu maxilar, numa operação simples porém com um resultado excelente. O cara ficou parecendo um monstro pré-histórico.

O show "terminou" mas o bis não demorou. Veio com “We Are 138" e, surpresa, outra do Black Flagg, "rise above", que foi acompanhada pela maioria do publico, uma surpresa maior ainda para mim, que não sabia que a clássica banda underground californiana era tão popular. Fechando os trabalhos e para acabar de vez com tudo, o mundo inclusive, "Die Die, my darling". Puta que pariu, uma verdadeira aula de punk rock numa unica canção: curtinha, com refrão certeiro e batida martelada e minimalista. Fim de festa, cortinas fechadas, pianinho sinistro de volta aos auto-falantes e a volta pra casa com energias renovadas.

O Misfits conseguiu um grande feito em 1995: voltaram depois de 12 anos paralisados por um pendenga judicial envovendo Only e Danzig em torno dos direitos do nome da banda e fizeram um sucesso ainda maior, embalados por uma formação matadora que contava com o excepcional vocalista Michale Graves ( que, veja só, nunca tinha ouvido falar dos Misfits, apenas soube do teste por um amigo e foi lá "pra ver qual era") em clipes sensacionais veiculados à exaustão pela MTV. Na verdade experimentaram um sucesso que nunca haviam tido antes, mas tudo viria abaixo no ano 2000, quando Graves e o baterista Dr. Chud deixaram a banda sem nenhuma explicação aparente. A porca torceu o rabo de vez quando Doyle, o irmão de Jerry, também o abandonou às vésperas da turnê comemorativa dos 25 anos - aqui o motivo parece ter sido uma briga devido a suas aparicções em shows do Danzig tocando clássicos do Misfits. Mas quem tem moral, tem: o baixista remanescente não entregou os pontos e chamou dois ex-membros do Black Flagg, Cadena e Robo, para escudá-lo, e segue fazendo tours mundo afora até hoje. Também gravou e excursionou com Marky Ramone na bateria durante o "project 195o", um álbum de covers de musicas da "década de ouro"do rock and roll. Na tour, que deve ter sido antológica, além das musicas gravadas para o disco, clássicos do repertório de ambas as bandas, Misfits e Ramones.

UMA CURIOSIDADE: Em 27 de fevereiro de 1996 foi lançado um box set contendo quatro CDs com todas as músicas gravadas pela formação clássica do Misfits. Os CDs vinham num caixão e foram feitas poucas unidades. Atualmente esta fora de catálogo. Detalhe: eu tenho este box, comprei baratíssimo numa loja do Rio de Janeiro em 1998, e estou contando isto aqui unica e exclusivamente para te fazer inveja.

OUTRA CURIOSIDADE: Jerry Only é cristão assumido e, aparentemente, praticante. Chegou a ter, inclusive, um projeto gospel com o irmão na época em que o Misfits estava parado, o "Kryst the conqueror".

* A BR 101 está sendo duplicada e isto causa um transtorno imenso, pois além da tradicional dificuldade de trafegar por lá por conta do intenso movimento de veículos de carga, há as obras, que atrapalham, e muito. Mas que valerão a pena, a julgar pelo delicia que é deslizar pelo tapete que já está ponto. A lamentar, apenas, este monumental erro histórico da politica econômica de nosso país, que prioriza o tranporte rodoviário em detrimento do ferroviário, mais econômico e eficiente para paises de dimensões continentais.

** Há o English Dogs, da Inglaterra, que é anterior e já misturava punk rock com Heavy metal, mas aí a discussão vai longe e, infelizmente, ninguém lê textos muito longos na internet.

por Adelvan Kenobi

Um comentário:

A wild Garden disse...

Saudade do jeito tranquilo e amigo do Jerry, que quando esteve aqui no sul teve dois shows cancelados prla prefeitura da curitobas, capital do axé-pagode.