domingo, 10 de abril de 2011

Abutres em Realengo

          Os Abutres têm fome, e é um apetite insaciável. Não respeitam a dignidade humana nem a dor de mães que acabaram de perder seus filhos da forma mais cruel e sem sentido. Dizem agir com uma missão, a princípio, justa e legítima: levar a informação ao cidadão. Mas numa sociedade regida pela “mão invisível” do mercado (termo fora de moda, mas como não sigo modas, continuo usando), o que se leva é um produto/mercadoria (a notícia) ao consumidor (o público pagante que consome os jornais, seja de forma direta, ao comprar as edições impressas nas bancas, ou indireta, ao bancar a audiência que atrai anunciantes nas emissoras de rádio e televisão abertas).

          Foi de uma coincidência macabra que um dos fatos mais violentos e aterrorizantes da História recente do Brasil, já tão cheia de fatos violentos e aterrorizantes, tenha acontecido justamente no Dia do jornalista, 7 de abril de 2011. No entanto me recuso a afirmar, como alguns fizeram, que o ocorrido tenha servido para “separar o joio do trigo”, porque algo tão ultrajante e sem sentido não pode servir para absolutamente nada, a não ser para mostrar mais uma vez que, em busca do “furo” jornalístico, os abutres não hesitam em voltar a se amontoar sem piedade em torno da desgraça alheia para produzir sandices como a de que o maluco atirador era um suposto “terrorista muçulmano”. Uma vez descoberta a carta do suicida, com referências a Jesus Cristo, no entanto, ninguém passou a chamá-lo de “terrorista cristão”. Calaram-se - ou melhor, limitaram-se a continuar expondo pornograficamente imagens da tragédia e o sofrimento das famílias, acompanhados dos indefectíveis diagnósticos psiquiátricos forenses também repletos de suposições.
          Em meio ao oba-oba sensacionalista, salva-se a quase falta de cobertura feita pela revista Carta Capital desta semana, que não deu chamada de capa nem repercutiu nenhuma teoria mirabolante. Apenas lamentou profundamente o ocorrido, tanto o fato em si quanto o tratatamento dado ao mesmo pela chamada “grande mídia” – e mencionou, muito apropriadamente, o clássico “A Montanha dos sete abutres”, genial filme de Billy Wilder lançado em 1951 e com tema, desgraçadamente, ainda atual.
          A exibição deste filme deveria ser obrigatória em cursos de jornalismo. Seria também de bom gosto exibi-lo na televisão aberta pelo menos no dia dia dedicado ao profissional da notícia, mas aí é pedir demais nestes tempos regidos pela ganância: trata-se de um filme esquecido, porque foi um fracasso de público, além de ser em preto e branco. Fracassou com o público, muito provavelmente, porque as pessoas devem ter se sentido incomodadas ao verem-se retratadas como consumidores de carniça. Outro motivo pode ter sido a má repercussão na imprensa da época, que também não deve ter gostado de se ver na tela como fornecedora de tão questionável mercadoria.
          Trata-se, no entanto, de uma verdadeira pérola do cinema norteamericano, apontado por muitos como o melhor filme feito pelo diretor Billy Wilder. Conta a história de um jornalista desempregado por má conduta nos grandes centros que busca refúgio numa pequena publicação provinciana em Albuquerque, Novo México. É um refugio temporário, como ele deixa bem claro, e a chance de se catapultar de volta aos holofotes acontece quando, a caminho do registro de mais uma reportagem banal, se depara com um homem soterrado num buraco em velhas ruínas indígenas, justamente na Montanha dos Sete Abutres que dá título ao filme em português – até mais adequado que o original, "ace in the hole".
          Para valorizar o material que tem em mãos, Charles 'Chuck' Tatum, o tal jornalista (interpretado por Kirk Douglas), usa de todos os artifícios, como convencer a empresa responsável pelo resgate a usar um método mais demorado, dando tempo para que a notícia se espalhe pelo país, e a Lorraine, a mulher de Leo, a vítima, a se fazer passar por uma esposa arrasada, quando na verdade ela estava prestes abandonar o marido nesse trágico momento. Tatum a faz notar que ela pode ganhar um bom dinheiro em sua lanchonete quando as pessoas começarem a chegar para ver o que está ocorrendo. Tudo em nome do que ele teria aprendido não na faculdade, mas nas ruas, como entregador de jornal: a notícia que interessa é a notícia que vende, não importa se verdadeira, manipulada ou, simplesmente, inventada.
          O final é redentor, "pero no mucho". Ao se ver confrontado com um desfecho trágico, fruto de suas manipulações inconsequentes, Tatum questiona seus métodos de trabalho - um pouco tarde demais para ele mesmo, mas melhor não entrar em detalhes para não estragar a surpresa. Já os outros jornalistas presentes lamentam apenas o fato de que suas articulações tenham lhe dado acesso privilegiado às fontes. Todos voltam pra casa e, como podemos ver claramente ao nosso redor (tenho aqui em minha mesa uma edição do jornal Cinform com mais uma foto de um cadáver na primeira página), tudo volta a ser como antes "no quartel de abrantes".
Assista.

A.

Um comentário:

leonardobandeira disse...

ótimo post... é revoltante ver como tratam o fato com suposições sem qualquer fundamento ou como dramatizam a vida das pessoas. Mesmo os jornais mais "respeitaves" têm postado manchetes asquerosas, ou recortando palavras de efeito dos depoimentos de bons profissionais e colocando-os fora do contexto da frase para chamar atenção