sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CARMINA BURANA, de Carl Orff, pela ORSSE - Orquestra Sinfônica de Sergipe

"Não gostei dessa Carminha Piranha que você gravou não, chato pra cacete" - Assim falou meu amigo Chorão 3, então vocalista da Gangrena Gasosa, em resposta ao presente que havia mandado pra ele. Eu gosto, apesar de um dos seus cantos, "O Fortuna", já ser um verdadeiro "arroz de festa", tendo sido usado como abertura para todo tipo de música, de um dos primeiros álbuns toscos do Sepultura a um dos volumes da Calcinha Preta. Este mês teremos uma rara oportunidade de ouvir esta obra-prima do cancioneiro erudito mundial Ao Vivo, executado pela competentíssima Orquestra sinfônica de Sergipe. Tá dada a dica, não perca !
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(Wikipedia) Os carmina burana (do latim carmen,ìnis 'canto, cantiga; e bura(m), em latim vulgar 'pano grosseiro de lã', geralmente escura; por metonímia, designa o hábito de frade ou freira feito com esse tecido) são textos poéticos contidos em um importante manuscrito do século XIII, o Codex Latinus Monacensis, encontrados durante a secularização de 1803, no convento de Benediktbeuern - a antiga Bura Sancti Benedicti, fundada por volta de 740 por São Bonifácio, nas proximidades de Bad Tölz, na Alta Baviera. O códex compreende 315 composições poéticas, em 112 folhas de pergaminho, decoradas com miniaturas. Atualmente o manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional de Munique.

Carl Orff, descendente de uma antiga família de eruditos e militares de Munique, teve acesso a esse códex de poesia medieval e arranjou alguns dos poemas em canções seculares para solistas e coro, "acompanhados de instrumentos e imagens mágicas”.

O códice encontrado em Benediktbeuern continha poemas dos monges e eruditos errantes — os goliardos —, quase todos escritos em latim medieval, exceto 47 versos, escritos em médio-alto alemão vernacular e vestígios de frâncico. Um estudioso de dialetos, Johann Andreas Schmeller, publicou a coleção em 1847, dando-lhe o título de “Carmina Burana”, que, em latim, significa “Canções de Benediktbeuern”.

Acredita-se que todos os poemas fossem destinados ao canto mas os copistas responsáveis pelo manuscrito, nele não indicaram a música de todos os carmes, de modo que só foi possível reconstruir o andamento melódico de 47 deles. O códex é subdividido em seis partes:

-Carmina moralia et satirica (1-55), de caráter satírico e moral;
-Carmina veris et amoris (56-186), cantos primaveris e de amor;
-Carmina lusorum et potatorum (187-228), cantos orgiásticos e festivos;
-Carmina divina, de conteúdo moralístico-sacro (parte que provavelmente foi adicionada já no início do século XIV).
-Ludi, jogos religiosos.
-Supplementum, suplemento com diferentes versões dos carmina.

Os textos são muito diferentes entre si e mostram a diversidade da produção goliardesca. Se, de um lado, há os conhecidos hinos orgiásticos, as canções de amor de alto conteúdo erótico e as paródias blasfemas da liturgia, de outro emergem a recusa moralística da riqueza e a veemente condenação à Cúria Romana, por ser voltada apenas à busca do poder. Assim diz o carme n°. 10:

A morte agora reina sobre os prelados que não querem administrar os sacramentos sem obter recompensas (...) São ladrões, não apóstolos, e destroem a lei do Senhor.

E o carme n°. 11:

Sobre a terra nestes tempos, o dinheiro é rei absoluto (...) A venal cúria papal é cada vez mais ávida dele. Ele impera nas celas dos abades e a multidão de priores, com as suas capas negras, só a ele louva.

Os versos mostram que os chamados clerici vagantes não se dedicavam somente ao vício, mas que se inseriam entre os adversários do crescente mundanismo da Igreja e da conformação monárquica do Papado, ao mesmo tempo que defendiam uma ideologia progressista, distante da clausura da vida monástica.

Além disso, a variedade de conteúdos do manuscrito é também indiscutivelmente atribuída ao fato de que os vários carmina tenham autores diferentes, cada um com seu próprio caráter, as próprias inclinações e provavelmente a própria ideologia, não se tratando de um movimento cultural literário compacto e homogêneo no sentido moderno do termo.

Os textos originais são entremeados por notas morais e didáticas, como se usava no primeiro Medievo, e a variedade dos assuntos - especialmente de natureza religiosa e amorosa, mas também profana e licenciosa - e de línguas adotadas, expressa o estilo de vida e o pensamento dos autores, os clerici vagantes ou goliardos, que costumavam deslocar-se pelas várias universidades europeias nascentes, assimilando-lhes o espírito mais concreto e terreno.

O compositor alemão Carl Orff musicou alguns dos Carmina Burana, compondo uma cantata homônima. Com o subtítulo "Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae", a obra, por suas características, pode ser definida também como uma "cantata cênica". Estreou em junho de 1937, em Frankfurt e faz parte da trilogia "Trionfi" que Orff compôs em diferentes períodos, e que compreende os "Catulli carmina" (1943) e o "Trionfo di Afrodite" (1952).

A cantata é emoldurada por um símbolo da Antiguidade — a roda da fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana exposta a constante mudança, mas não apresenta uma trama precisa.

Orff optou por compor uma música inteiramente nova, embora no manuscrito original existissem alguns traços musicais para alguns trechos. Requer três solistas (um soprano, um tenor e um barítono), dois coros (um dos quais de vozes brancas), pantomimos, bailarinos e uma grande orquestra (Orff compôs também uma segunda versão, na qual a orquestra é substituída por dois pianos e percussão).

A obra é estruturada em prólogo e duas partes. No prólogo há uma invocação à deusa Fortuna na qual desfilam vários personagens emblemáticos dos vários destinos individuais. Na primeira parte se celebra o encontro do Homem com a Natureza, particularmente o despertar da primavera - "Veris laeta facies" ou a alegria da primavera. Na segunda, "In taberna", preponderam os cantos goliardescos que celebram as maravilhas do vinho e do amor(“Amor volat undique”), culminando com o coro de glorificação da bela jovem ("Ave, formosissima"). No final, repete-se o coro de invocação à Fortuna ("O Fortuna, velut luna”).

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ORSSE ENCERRA COM GRANDIOSIDADE A TEMPORADA 2010: CARMINA BURANA

Fonte: Divulgação

Durante a Temporada de Concertos 2010, a Orquestra Sinfônica de Sergipe (ORSSE), sob a direção do maestro Guilherme Mannis, conseguiu com orgulho e responsabilidade difundir o que fez pela cultura em solo sergipano e nacional. Apresentou a ópera Aïda, em forma de concerto, que englobou grandes talentos do Estado - a Lira Sancristovense, solistas da nossa terra, e o Coro Sinfônico -, o que resultou em um espetáculo único que lotou o Teatro Tobias Barreto e lançou uma nova semente para futuras produções do mesmo tipo. Regentes de vigor internacional passaram pela orquestra, como Roberto Tibiriçá, Isaac Karabtchvesky, Marcelo de Jesus, entre outros que, com suas novas idéias, coroaram ainda mais o trabalho musical no Estado.

Inúmeros solistas passaram por aqui, a começar pelo grandioso Nelson Freire, considerado, pela crítica especializada, como um dos 10 maiores pianistas do século. Além de nomes como Gilberto Tinetti, Pavel Gomziakov, Ricardo Castro, Daniel Guedes, entre outros.

O talento sergipano não ficou de fora nessa jornada: Eduardo Garcia, Cláudio Alexandre, Jonatas Matias, Manoel Vieira Jr. foram destaques, e ainda execuções de composições e arranjos do pianista e regente do coro sinfônico, Daniel Freire.

Outro grande triunfo do grupo foi a participação no 41° Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, o maior e mais importante festival de música da América Latina. Neste evento, pode-se dizer que a ORSSE foi a embaixatriz da cultura do Nordeste: nos últimos 20 anos nenhuma orquestra profissional da região havia se apresentou no aclamado Festival.

Além de inúmeras apresentações no Teatro Tobias Barreto, a Orquestra, a exemplo dos anos de 2007, 2008 e 2009, realizou uma produção de caráter pioneiro em Aracaju com a série de Concertos na Catedral Metropolitana e magníficas apresentações pelo interior de Sergipe, na série “Orquestra na Estrada” no total de oito cidades, que através de concertos didáticos e com repertório adequado, os cidadãos puderam conhecer e se orgulhar de terem uma orquestra.

“Todo este trabalho é fruto de muita dedicação e profissionalismo de nossos músicos, o carinho e emoção de nosso público e, sobretudo, o compromisso que o Governo do Estado de Sergipe tem com a cultura do seu povo, através da Secretaria de Cultura e o apoio vital do Instituto Banese. Por isso, podemos com sinceridade e trabalho honesto, vivenciar nosso legado e fazer com que nossos jovens tenham um futuro musical como perspectiva. Temos certeza de que este trabalho beneficia toda a sociedade, de forma que Sergipe está hoje incluído nos roteiros das turnês de importantes orquestras e outros espetáculos musicais. A ORSSE proporcionou um reconhecimento nacional da música produzida no Estado. O Brasil abraça Sergipe, e nós aplaudimos de pé todo incentivo e apoio dado ao grupo, fazendo votos de que perdure por muitos anos. Cidadania, música e inclusão é o futuro que visualizo para o nosso segmento daqui em diante”, compartilha o maestro Mannis.

Para o encerramento desse ciclo, no dia 22 de dezembro, quarta-feira, às 20h30, no Teatro Tobias Barreto, o programa foi especialmente dirigido às comemorações de final de ano. O Concerto nº23 para Piano e Orquestra do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, considerado um dos mais belos do gênero, será executado pelo pianista Amaral Vieira. Grande amigo da orquestra, Amaral escolheu pessoalmente o piano Steinway da ORSSE, em Nova York. Além de pianista, é também profícuo compositor presente nos palcos de todo o mundo, e recentemente acaba de chegar de uma auspiciosa turnê no Japão.

O Gran Finale das atividades da ORSSE neste ano será a apresentação inédita no Estado da cantata cênica Carmina Burana, do alemão Carl Orff, com a participação do Coro Sinfônico, o Coro Infantil da ORSSE e os solistas Gabriela Pace, soprano, Marconi Araújo, contratenor, e Sebastião Teixeira, barítono.

“Carmina Burana é uma peça que muito tem a acrescentar e dizer sobre a vida de nossa orquestra e de nossas vidas: é uma cantata cujos textos e símbolos emolduram a medieval Roda da Fortuna, que por estar eternamente girando nos remete ao destino, à reflexão e que tudo acontece ao seu tempo. Neste sentido a Roda da Fortuna é uma parábola da vida humana exposta às mudanças constantes de seus sentimentos. Além disso, Carmina Burana exprime um mundo neutro, ou melhor, um mundo equilibrado onde o Mal não existe sem o Bem, e a Fé não existe sem o Profano” explica Daniel Nery, regente assistente da ORSSE.

Nesse aspecto de constantes vitórias e amadurecimentos, a ORSSE, uma realização da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Sergipe, firmou-se ainda mais no ano de 2010, como um dos importantes grupos sinfônicos do país, exemplo de determinação para toda a classe musical do Brasil. Uma orquestra democrática, que populariza o acesso e respeita o cidadão, com solistas, maestros, e apresentações de alto nível, só poderia ser assim: DE TODOS!

Um Feliz 2011!

ORQUESTRA SINFÔNICA DE SERGIPE

Patrimônio Cultural do Povo Sergipano

SERVIÇO

Orquestra Sinfônica de Sergipe

Encerramento da Temporada 2010

Quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Teatro Tobias Barreto 20h30

Ingressos à venda na Bilheteria do Teatro, R$ 5 e R$ 10

(79) 3179.1496, 13h-20h, 3179.1491, 08h-13h

Programa

GUILHERME MANNIS, regente

AMARAL VIEIRA, piano

GABRIELLA PACE, soprano

MARCONI ARAÚJO, tenor

SEBASTIÃO TEIXEIRA, barítono

CORO SINFÔNICO DA ORSSE

DANIEL FREIRE, regente

CORO INFANTIL DA ORSSE

EZEQUIEL OLIVEIRA, regente

Wolfgang Amadeus MOZART (1756-1791)

Concerto para Piano em Lá Maior KV 488

1. Allegro

2. Adagio

3. Allegro assai

Carl ORFF (1895-1982)

Carmina Burana

O Fortuna (tradução)

O Fortuna, Ó fortuna,
como a lua
és variável,
sempre crescendo
e decrescendo;
vida detestável
agora oprimes
depois alivias
brinca com as mentes,
pobreza,
poder
dissolves como gelo.

Destino monstruoso
e vazio,
tu roda volúvel,
és malevolente,
bondade em vão
que sempre leva a nada,
obscura
e velada
também me amaldiçoaste;
agora - por diversão -
trago o dorso nu
à tua vilania.

O destino da saúde
e virtude
me é contrário,
dás
e tiras
sempre escravizando;
então agora
sem demora
tange essa corda vibrante;
já que o destino
extermina o forte,
chorais todos comigo.

3 comentários:

Samara Peixoto disse...

Porra perdi! Se tivesse me atentado antes iria dar um jeito de ter ido ver. Amo Carmina Burana, apesar da abertura ser demasiadamente usada em tudo, tem até numa música do The Doors se não me engano. Faz um tempinho que não ouço até... Uma pena, porque é uma obra linda e merece ser ouvida, e muito mais ainda, vista executada ao vivo.

Adelvan disse...

Não perdeu ainda, é hoje.

Samara Peixoto disse...

É o que dá ficar lendo blog de madrugada morta de sono. Mas isso foi ótimo, e eu vou! ^^