Chávez provocou amor e ódio, idolatria e nojo
POR BOB FERNANDES - Foi redator-chefe de CartaCapital. Trabalhou em IstoÉ (BSB e EUA) e Veja. Repórter da Folha de S.Paulo e JB, fez "São Paulo, Brasil" no GNT/TV Cultura. Comentarista da TVGazeta e Rádio Metrópole (BA)

Longas conversas no Palácio Miraflores e na Casona, a residência oficial. Conversas com um homem inteligente, arguto, sereno, ao contrário do que projetavam em sua imagem pública. Alguém assim definido pelo velho general, e mestre na Academia Militar, Jacinto Perez Arcay:

Chávez foi um homem que provocou tudo por onde passou, atuou e viveu. Provocou tudo, menos indiferença. Uma porção da Venezuela o seguiu, o amou, o idolatrou, e assim seguirá sendo. A partir de agora ainda mais, como tão comum entre humanos. Mas teve e tem adversários. Adversários porque pensam diferente, porque nele enxergavam e enxergam uma sucessão de equívocos e erros. Outra porção o odiou com todas as forças. Assim como os que nele viam um igual, um próximo, não poucos entre os adversários antes de mais nada sentiam asco, nojo de Hugo Chávez.
Sentiam o mesmo que, em outras plagas, sentem em relação a Evo Morales, a Lula. Um sentimento que está quase aquém, ou além da ideologia, da política -quando entendidas, tais expressões, no seu sentido apenas usual, pedestre. Asco, nojo, porque um sentimento que nasce da rejeição étnica, antes de tudo. Uma questão de pele.
Chávez era descendente de negros, índios e brancos. Um “zambo”, portanto, como se diz na Venezuela, tantas vezes com escancarado desprezo. Como se diz “um índio”, quando se trata de Evo Morales na Bolívia. Como se diz “um nordestino”, como se dizia, e ainda se diz em certas partes do Brasil, “um baiano”, um “paraíba”.

Haverá o tempo e a hora de falar, de relatar seus grandes erros, suas grandes vitórias. Mas, para quem com ele conviveu, é tempo de ainda começar a buscar a entrada no labirinto que leva a tão complexo e rico personagem. Não esse personagem que pulava de manchete em manchete ao sabor dos editores e dos interesses – inclusive os seus. Não esse personagem para uso e desfrute de quem apenas busca a psicanálise neste imenso consultório sem divã, e sem terapeuta, a rede social. Não o líder que tanto incomodava por ter sob controle uma das maiores reservas de petróleo do mundo, e reservas para pelo menos um século.

Venceu porque conhecia profundamente sua gente -aí incluídos os adversários, e os inimigos da sua Revolução Bolivariana. Venceu porque conhecia os caminhos, os atalhos, becos e quebradas da Venezuela que tanto amou. Inclusive os caminhos difíceis de percorrer, os do Poder, tantas vezes sujos. Sujos aqui, lá ou acolá.

- Mulher, esta noite eu te darei o que é teu…
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