quarta-feira, 22 de abril de 2009

“We are Motorhead and we play rock and roll”



Por Adelvan Kenobi

Eu defini minha ida ao Abril pro Rock 2009 ainda em dezembro de 2008, quando foi anunciada a presença do Motorhead. A partir dali, o que viesse era lucro: o festival já valeria a pena apenas para ver a legendária banda do Sr. Lemmy Killmister. Para minha surpresa, foram anunciados ainda shows do Iron Maiden e do Morbid Angel, duas outras bandas seminais em seus respectivos estilos, mais ou menos na mesma data, e no Hellcife (nunca esse apelido foi tão apropriado). Mas em nenhum momento eu pensei em trocá-las pelo Motorhead. Cheguei a cogitar ir ao Iron Maiden TAMBÉM, o que infelizmente não foi possível, mas o compromisso do dia 17 de abril era sagrado.

E eis que chega o dia. Vencidas as tradicionais nove horas de carro pela BR 101 lotada de caminhões carregados e lentos e obras de duplicação e recapeamento, lá estávamos nós, em frente ao Chevrollet Hall. A aglomeração de camisetas pretas, headbangers ensandecidos bebendo e batendo cabeça ao lado de carros de som e camelôs vendendo souvenirs ainda era discreta, o que é natural, pois a maioria chega mais tarde, para ver apenas as atrações principais. Já a quantidade de cambistas era considerável, de onde se intuía que esperavam um bom publico para aquela noite.

Chegamos cedo mas ainda assim atrasados, pois perdemos a primeira banda, o AMP. Quando adentramos no recinto o palco secundário estava ocupado pelo Black Drawing Chalks, de Goiânia. Boa banda, esporrenta, garageira e com letras em inglês, na melhor tradição do rock independente que é feito na Capital de Goiás. Mas o que chamou mesmo a atenção foi o palco em si, que foi montado no local onde originalmente fica um dos telões. Como opção estética foi positivo, pois ficou interessante de ver, de um lado, um telão mostrando o show, e do outro, onde estaria o outro telão, o show propriamente dito. O único inconveniente é que ficou muito alto, distante do publico. Dava a impressão de que a banda estava tocando numa gaiola.

Na seqüência o palco principal, que já ostentava um belíssimo pano de fundo reproduzindo a capa de Motorizer, ultimo disco do Motorhead, foi tomado pelo Matanza – mais uma vez sem Donida (guitarrista e mentor da banda), o que me deixou surpreso, pela carga simbólica do momento – pelo menos eu imagino que seja bastante interessante, para qualquer banda, abrir um show do Motorhead. Mas enfim, o vocalista Jimmy faz as honras da casa dando “a César o que é de César” e falando ao microfone que “todos vieram aqui para ver a melhor banda de rock and roll do mundo, mas antes vamos dar para vocês um pouco de Matanza”. E tivemos um show do Matanza, igual a todos os outros shows do Matanza. Como eu já tinha visto dois recentemente aqui mesmo em Aracaju, aproveitei o momento para visitar as já tradicionais barracas de souvenirs e demais produtos “alternativos”. O Abril pro rock já foi bem melhor nesse quesito, mas até que a noite estava razoavelmente bem servida: stands de camisetas, revistas, de uma “comic shop” (na qual eu presenciei o figuraça Carlos Eduardo Miranda comprando DVDs piratas de clássicos da Hanna Barbera como Might Thor, Herculoides e Space Ghost) e o maravilhoso e persistente stand da Monstro Discos, com sua incrível quantidade e variedade de discos independentes, em Cd, e alguns (poucos) também em vinil. Uma tentação.

Circulando pelo Chevrollet Hall, também como era de se esperar, me deparo com vários amigos de Aracaju, a maioria Headbangers, mas não só – o Motorhead sempre teve esse poder de “unir as tribos do rock”. Para minha surpresa, me deparo com a presença de Roberto Aquino, um dos proprietários da Distúrbios Sonoros (primeira loja de discos independentes de Aracaju) e produtor do “Rock Revolution”, um programa de rádio que ia ao ar nos anos 80 pela Atalaia FM e que foi muito importante na minha formação musical, já que foi lá que ouvi, pela primeira vez, bandas seminais como Mutantes, Casa das Máquinas e Fellini. E lá estava ele, que não é muito de ir a shows (pelo menos não o vejo com muita freqüência nos shows de Aracaju), com o filho já adolescente. É o rock unindo gerações. Na gaiola (também conhecida como palco secundário), Decomposed God, legendária banda de Death Metal pernambucana, na ativa já há 17 anos – e tem que ter muita convicção, persistência e competência para completar 17 anos fazendo Death Metal em Pernambuco e ter sobrevivido à onda avassaladora de “pernambucanidade” desencadeada pelo movimento Mangue Beat nos anos 90. Houve um tempo, nessa época, em que o que menos se ouvia no Abril pro rock era rock, pois o Festival havia sido tomado por derivações medíocres do “mangue” (das bandas originais e fundadoras eu gosto, e muito) e por grupos folclóricos, especialmente Lia de Itamaracá, que foi praticamente adotada pelo Festival. Era uma tortura ficar ouvindo aquelas cirandas intermináveis. Tudo bem, eu respeito e até gosto de algumas canções folclóricas (embora ache a maioria muito chata e repetitiva), mas supõe-se que quando a gente vai a um festival chamado Abril pro rock a gente vai ouvir rock. Por mim teria mudado o nome para Abril pra Ciranda e pro Maracatu, mas o que importa é que nos últimos tempos o Festival voltou a ser para “roqueiro que gosta de rock”, para citar uma definição curiosa que ouvi recentemente de Fabio Capilé, do Calango, numa entrevista ao programa Coquetel Molotov. Mas voltemos ao Decomposed God. Foi um show ... Death Metal. Esporrento e barulhento ao extremo, sem concessões. Excelente – para quem gosta do estilo, claro. Essas variações extremas do rock são como filme pornográfico: pra quem gosta e/ou se identifica, é maravilhoso. Para todos os demais, é tudo a mesma coisa.

Terminada a apresentação da Decomposed, fecham-se as cortinas e instaura-se a expectativa para os donos da noite. Nesse momento me encontro com uma grande amiga de Aracaju que estava morando em Campina Grande e me distraio colocando o papo em dia. Fomos subitamente interrompidos pelo alvoroço da multidão: as cortinas do palco principal haviam sido abertas e, para surpresa de todos, os três cavaleiros do apocalipse já estavam lá, a postos. Sem mise-em-scene, sem frescuras, sem apresentadores “enxamistas” ridículos. Lemmy dá umas palhetadas no seu bom e velho Rickenbaker pra conferir se a distorção está em ordem e ele mesmo faz as honras da casa com a já célebre frase que introduz todos os shows da banda: “We are Motorhead and we play rock and roll”. Dito isto, o caos se instaura ao som de “Iron Fist”, seguida de “Stay Clean”. Eu havia sido puxado para a frente por minha amiga e estava no olho do furacão. Pancadaria generalizada. As coisas só começam a se acalmam a partir da terceira musica, mais lenta, e segue assim por um bom tempo – o Motorhead tem muitas musicas pesadíssimas porém com um andamento mais arrastado, e eles parecem ter resolvido toca-las todas, na seqüência. O publico parou de se debater e ficamos todos hipnotizados por aquela imagem icônica de Lemmy erguendo a cabeça para alcançar o microfone enquanto um ventilador estrategicamente localizado levanta sua cabeleira – ainda longa e negra, certamente ä base de tintura, o que, definitivamente, não vem ao caso. As musicas se sucedem e a platéia acompanha a tudo extasiada, ganha desde o primeiro acorde. Solo de guitarra, muito bom. Solo de bateria, melhor ainda – sensacional até, eu diria, e olha que eu nunca fui muito fã de solos de bateria. Foi bem perfomático, com uma erupção de gelo seco E DE BAQUETAS – num determinado momento Mikkey Dee, começa a jogar as baquetas para o alto uma atrás da outra, num resultado visualmente fantástico que eu até me esforcei para que minha amiga, agoniada por ser baixinha, visse melhor, erguendo-a nos braços. Excelente. Lemmy e Phill Campbell, o guitarrista, se comunicam bastante com a platéia. Por volta de 1 hora e 20 minutos de show eles anunciam que aquela era a ultima musica, mas que se a gente gritasse bastante eles voltariam. E voltaram, claro. Voltaram tocando um blues minimalista, com direito a intervenções de gaita tocada por Lemmy, como introdução para a matadora seqüência final que incluía, evidentemente, “Ace of spades”. Como o próprio Lemmy bem disse numa entrevista, quem compra um “ticket” para um show do Motorhead já sabe exatamente o que vai ver e ouvir. Eu, particularmente, fiquei levemente decepcionado pela não inclusão de nenhuma musica do Orgasmatron, e pouquissimas do Ace of Spades e do 1916, meus discos preferidos. Mas isso é normal numa banda com uma discografia tão grande. O importante é que, terminada a primeira noite do Abril pro rock, o saldo é pra lá de positivo, inclusive em termos de publico, infinitamente maior do que o da principal noite do ano passado, que também teve atrações internacionais de peso, no caso, o Bad Brains e o New York Dolls. Acho até que caso não tivesse havido um outro show do Motorhead no nordeste, em Fortaleza, e o Iron Maiden lá mesmo em Recife há pouco mais de 15 dias, o que deve ter deixado muita gente “quebrada” pelo resto do mês, teria havido problemas, pois imagino que o Chevrollet Hall não suportaria a multidão que seria, com certeza, bem maior. Do jeito que foi foi tranqüilo – lotado, mas não superlotado. Voltamos nós para nosso hotel para esperar pelo dia seguinte, enquanto meus amigos “Headbangers” voltavam para Aracaju mais do que satisfeitos, já que na segunda noite não haveria nada que os interessasse.

No dia seguinte, como de costume, perdemos as primeiras atrações, os locais Johnny Hooker e Candeias Rock City e The Keith. Quando entramos o palco já estava tomado pelos baianos no Vivendo do Ócio. Boa banda, pegada vigorosa, rock and roll básico, lembrando o Strokes em vários momentos, mas com personalidade na maior parte do tempo. Desta vez a arrumação dos palcos foi diferente, com o “Main stage” dividido em dois. Melhor assim. Os Retrofoguetes, que entraram a seguir, dividiram o mesmo palco com seus conterrâneos. Excelente, como sempre. Surf music instrumental de primeiríssima, grande perfomance do trio de malucos Morotó Slim, Rex e CH. No outro palco, Heavy Trash, a nova banda de John Spencer do Blues Explosion. Sensacional. Arrumação do palco bem intimista, todos aglomerados no centro mandando ver num rockabilly com pitadas de country e garage rock. Assisti bem de perto e foi maravilhoso presenciar assim as loucuras de John Spencer que é, sem sombra de duvidas, um dos maiores perfomers da historia do rock, chegando a lembrar, em muitos momentos, o já saudoso Lux Interior, do Cramps. E a banda, como não poderia deixar de ser, competentíssima, com direito a um magnífico baixo acústico tocado por um figura que era, pelo menos visualmente, um americano do meio-oeste típico: loiro, de bigode e vestindo calça jeans e camisa xadrez de botões.

A banda seguinte foi a Volver, local. E ovacionada pelo publico, majoritariamente local, também. Não chega a ser ruim, mas emula demais muita coisa “hypada”, especialmente o Little Joy que, por sua vez, soa como uma mistura de Los Hermanos com Strokes – o que, no caso, é, no final faz contas, já que é formada por um membro de cada banda. Não é o caso do Volver que, apesar da falta de originalidade, tem algumas boas composições. Aliás o volver parece ser, por si só, o hype do momento na cena “indie” pernambucana, dada a recepção um tanto quanto exagerada do publico. Depois deles tivemos o Vanguart, outro grande hype que, confesso, nunca me disse muita coisa e continua sem me dizer. Uma boa banda, pendendo para o razoável. Talvez seja porque não é exatamente o tipo de som pelo qual eu morra de amores, esse folk pop baladeiro “tchubaruba”, mas a verdade é que acho a maioria das suas composições chatas e o vocalista um tanto quanto afetado e cheio de maneirismos vocais irritantes. Assisti de longe com o sono começando a bater. Móveis Colonias de Acaju, a banda seguinte, não é ruim, mas também não é essa cocada toda. O publico, mais uma vez, foi ao delírio. Devo confessar que eles sabem como levantar a massa, fazem um show ultraperfomático (já tinha visto antes aqui mesmo em Aracaju, na Rua da Cultura), com uma excelente movimentação de palco, algo não muito fácil, dada a quantidade de músicos que compõe a banda. Mas é muito barulho pra pouca musica. Têm algumas composições simpáticas, boas até, mas a maioria é meio insossa, em parte por conta do vocal, que é “bonitinho mas ordinário”, ou seja, um tanto quanto domado, empostado demais. Em todo caso, foi um bom show, animado e agitado. Se fosse uma banda de ska de verdade, e não uma banda de MPB (ou algo parecido) travestida de ska, teria sido sensacional. Destaque para a decoração diferenciada do palco, com alguns adereços simples fazendo as vezes de lustres que resultaram num impacto visual bacana.

A penúltima apresentação da noite foi do Mundo Livre S/A, num show que, supostamente, iniciaria as comemorações pelos 25 anos da banda. Mas que comemoraçãozinha chinfrim, heim. Não pela banda em si, que foi muito boa, como (quase) sempre, mas pela duração. Imaginei que duraria pelo menos uma hora e meia, mas não passou dos 45 minutos. Em todo caso, deram o recado. A formação está bem diferente da ultima vez que vi (confesso que não tenho acompanhado como deveria a carreira deles). A meu ver faltou mais uma guitarra – e em “Samba esquema noise” essa ausência foi gritante. O encarregado pelos teclados e programação eletrônica tenta suprir essa falta com alguns samplers, nem sempre com sucesso, como na musica citada. Mas no geral os novos arranjos ficaram bacanas, climáticos e criativos. Vida longa a Fred 04 e ao Mundo livre S/A, um grande artista, e uma grande banda, competente e originalíssima.

O ultimo show foi do dromedário. Eu já estava morrendo de sono, mas mesmo assim ainda estava disposto a dar um a conferida em pelo menos umas 3 a 4 musicas – até porque sua banda de apoio é o Hurtmold, grande formação “post-rock instrumental de São Paulo. Mas quando vi o figura pra lá de blasé entrando sozinho no palco e dedilhando no violão uma melodio desleixada e ridícula, decidi ir embora. Quando eu já estava na porta de saída a banda finalmente sobe ao palco – ahhh, ta, era só uma introdução aquilo lá, então vamos ver qual é. Começa a primeira musica “pra valer” e eu continuo achando muito chato e blasé. Tomar no cu, vamos dormir que é melhor. Ou terminar a noite no “inferninho” que tem do lado do “Hostel”. Preferi ir dormir. Sou asmático, estou ficando gordo e velho. Melhor dormir. “Dance with the dead in my dreams”.

Depois de ver Motorhead ( e Iron Maiden !!! ) pela primeira vez em solo nordestino, o inferno é o limite. Está lançada a campanha:

SLAYER NO ABRIL PRO ROCK 2010.

Clique AQUI para ler a resenha do Abril pro rock do ano passado.

Set list do show do Motorhead:

1. Iron Fist
2. Stay Clean
3. Be My Baby
4. Rock Out
5. Metropolis
6. Another Perfect Day
7. Over the top
8. One Night Stand
9. You Better Run
10. I Got Mine
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Solo de guitarra – Phil Campbell
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11. The Thousand Names Of God
12. In The Name Of Tragedy
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Solo de bateria – Mikkey Dee
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13. Just 'Cos You Got The Power
14. Going To Brazil
15. Killed By Death
16. Bomber
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Bis:
17. Whorehouse Blues
18. Ace Of Spades
19. Overkill

Um comentário:

Rodrigo Amaral disse...

Bela resenha, Adelvan! Pra falar a verdade, bem melhor que muita coisa que andei lendo na imprensa local. Parece que viram outro show...

Ainda bem que nos últimos anos parece que está rolando uma "depuração" do APR em termos de "pernambucanidade", inclusive tá rolando o tal do Quintal PE nesse final de semana seguinte ao Abril. Realmente não faz sentido "contaminar" o APR com sons que podem ser vistos todo dia e toda hora por aqui.

E tamo junto na campanha: SLAYER NO APR!!!