sexta-feira, 31 de agosto de 2007

A Base

Na foto, banda de Black metal MYSTICAL FIRE, de Aracaju, da qual Bilal foi um dos membros-fundadores.

Hail, Satan !


Bilal, “A Base de tudo!”.


por Adelvan Kenobi.


Bilal, o rei do metal, é o mais autêntico “rocker” de Aracaju. Pode ser encontrado sempre à noite vagando pela cidade ou nas escadarias da Catedral, no centro, antigo ponto de encontro dos roqueiros e malucos em geral, sempre agilizando a arrecadação de uma cotinha para a aquisição do “kit Tubiacanga” (como Rás, outro maluco clássico da city, chama o local), que vem a ser um litro de 21 mais um refrigerante qualquer, geralmente o já “crássico” Nat cola, uma tubaina local. Recentemente Bilal tomou finalmente coragem para pisar novamente em solo baiano, depois de um longo período longe daquelas plagas, ausência esta motivada por constantes atritos entre a “barca” black metal de Aracaju, na qual se inclui, e ícones do metal baiano, as bandas Malefactor e Mystifier. Pois bem, garantida a retaguarda (pelos auto-denominados black metal “reais” soteropolitanos, que também não simpatizam com as bandas citadas), segue nosso herói para a capital mundial do acarajé em busca de sexo, álcool e rock and roll. Os dois últimos ítens ele teve de sobra, já que o primeiro fica difícil garantir com sua boca banguela e seu visual casca grossa. Numa de suas aventuras, Bilal, vulgo Lorde Astovidatu, ou Gabirina “alguma coisa aí” (pseudônimo de black metal é complicado pra caralho) foi apresentado por Cadáver, notório representante do que há de mais radical na cena metal baiana, a um indivíduo que era o rei de uma quebrada escondida por trás da fachada pra turista ver do Dique do Tororó, um fim de mundo desses que você se depara ao virar algumas esquinas ou entrar em alguns becos da Cidade do Salvador. Era um negão casca-grossa, já meio coroa, que atendia pela alcunha de “A Base”. “A Base” porque ele era “A base de tudo” ali naquela área, como veio a saber nosso herói mais tarde, depois de passar uma tarde na companhia do malandro. Este intimava todos os desconhecidos que se aventuravam pela sua área, aos gritos de: “ô, uns e outro, ta indo pra onde ??!!” – “To indo ali na casa de fulano, Base”, “Ah! Ta ligado com quem ta falando, né???” . “Claro, com A Base” “é isso aí, a base de tudo aqui nessa porra”. No principio a Base ficou meio invocado com o visual de nosso herói do rock casca grossa sergipano, se chegou pra Cadáver e perguntou: “ô Cadáver, que porra é essa que tu trouxe pra cá pra área?”, no que foi tranqüilizado, porque esse era Bilal, brother de Aracaju, autêntico Black metal. Consta que A Base não entendeu porra nenhuma, mas ficou tudo bem. Impressionado com a moral do “garoto”, Bilal questiona Cadáver: “ô Cadáver, que porra é que esse maluco faz aqui pra todo mundo respeitar ele?”, no que Cadáver retrucou: “Meu irmão, não queira nem saber!”. Ficou tudo bem até que A Base chamou-os para bater um rango e tomar umas cervas, foram até um barzinho e ele foi logo ordenando “ô umas e outras, coloque aí três hamburgers e três guaranás aqui pros meus chegados, porque tu sabe com quem tu ta falando, né ?” “Com A Base”, respondeu a dona do bar de trás do balcão, no que ele completou: “isso mesmo, A Base de tudo aqui nessa porra !!!”. Comeram pra caralho, beberam, Bilal crente que A Base ia pagar o rango, até que ele se vira pra eles e sentencia: “Meu irmão, eu vou é pinotar dessa porra !!!”, e sai correndo como um louco na chuva, deixando pra trás os dois atônitos e a mulher que resmungava: “porra, A Base é foda, come, bebe, pinta e borda, mas pagar que é bom, nada ... Vocês dois aí “... “Vamo nessa, Bilal”, alertou Cadáver, e lá se vão os dois de pinote em sentido contrário ao dA Base ... A Base de tudo !Alguns dias mais tarde, Bilal volta a Salvador, dessa vez para embarcar num ônibus cheio de Black metaleiros com destino a um show de puro e autêntico Black metal em Jacobina, no sertão baiano, distante 8 horas da Cidade do Axé e do amor. Consta que, no meio do caminho, teve até um doido que suplicou “to com sede, alguém trouxe água aí”, no que foi respondido que “liquido aqui nesse ônibus só cachaça e mijo”, “Então eu vou beber é mijo mesmo”, replicou o indivíduo, que era um roqueiro radical novo no pedaço e precisava demonstrar atitude diante da barca casca-grossa das antigas ali presente. Como todos duvidaram de suas palavras, consta que ele foi até o vaso sanitário, espalhou um pouco a nata de vômito que estava por cima, pegou um pouco de mijo com a mão em forma de concha e o sorveu, diante dos olhares incrédulos das criaturas negras que tinham se juntado ao seu redor para registrar o fato inusitado. Mas isso é outra história. Passe um dia à noite na frente da Catedral, ajude na cotinha pra comprar o kit e pergunte a Bilal os detalhes de sua empolgante viagem a Jacobina. É mais provável que ele mande você tomar no cu ou alguma coisa parecida, mas ele pode, porque ele é A Base de tudo aqui nessa porra dessa Aracaju ..

Furia por ele mesmo



uma enttrevista com Furia por Maíra Ezequiel para o site overmundo.
Do dicionário: Fúria s. f.: acesso violento de loucura; braveza, cólera; ira; sanha; raiva; inspiração; estro; entusiasmo; fervor; pessoa furiosa; mulher desgrenhada; divindades infernais, na mitologia pagã. Em Aracaju – pelo menos no meio artístico, cultural – há mais um sentido para essa palavra. Furia é uma pessoa, um cara. Melhor. Um artista plástico, autor de colagens incríveis, de clara inspiração quadrinística. Um pensador marginal, um intelectual (por que não?), que apesar da pouca escolaridade, já leu bem mais que muitos professores universitários. Aventureiro da música e da literatura. Alguém cujos “acessos violentos de loucura” se transformam em “inspiração” para produzir arte; que consome e produz cultura com “fervor” e “entusiasmo”. Alguém, enfim, comum. Mas cuja “cólera”, “ira”, “raiva” da mediocridade e do senso-comum o movimentam para fazer a diferença. Ainda que ninguém veja. De fato, a alcunha lhe cai muito bem. A seguir, conheça O Fúria.
Quem é você?
Sou João Antônio do Nascimento nascido em 15 de junho de 1974. Gosto de bons livros e boa música. Sem radicalismos. Gosto de cinema. Uns dizem que sou extremamente chato. Sou artista plástico. Espanco bateria de vez em quando. Não tenho nenhuma pretensão de ser músico. Sou extremamente inconstante.
Por que Fúria?
No fim do anos 80 tinha uma banda de funk do Rio de Janeiro chamada Fúria. Esse grupo tinha uma música que emplacou sucesso nacional. Na época, meu visual era completamente punk. E um dos moleques da minha sala botou na cabeça que punk e funk eram a mesma coisa. Então tentei explicar que não era. Enfim terminou numa briga de sete pessoas na sala de aula. No outro dia o colégio inteiro estava me chamando de Fúria. Sem querer proclamei esta alcunha que hoje prefiro invés do meu nome.
O que te deixa furioso?
A raça humana e sua tão pretensa inteligência. Tanta racionalidade e um futuro de caos é o presente para as novas gerações.
O que você faz e já fez da vida?
Trabalho numa livraria e num bar ao mesmo tempo. No turno da tarde trabalho na livraria. No turno da noite trabalho no bar fazendo de tudo. Desde os drinks até servir. Já trabalhei em vários lances. Já fui mestre de cerimônia em festival de rock, servente de pedreiro, entregador de jornal, atendente de loja de música, roadie de banda. E trabalhei muito de graça em produções locais. Já viajei a metade do país de carona. Enfim nada demais.Me fale sobre suas colagens.Meu trabalho consiste no remanejamento de lixo publicitário, revista, chapas de radiografia, cola e o que pintar na cabeça. Dei início ao processo criativo nos meados de 1987. Foi nessa fase que estava mergulhado na produção de fanzines, art pop, vídeo clipes, quadrinhos etc e tal. Meu processo criativo é muito inconstante. São surtos! Pra mim é um ato quase fisiológico, necessário. Pode ser uma imagem que vejo na rua, uma frase que ouço dentro do ônibus e desperta um turbilhão. Então ponho discos na vitrola e deixo me levar pela força da criação. Minha inspiração vem de tudo que tá ao meu redor. Expus em 2000 na Galeria J. Inácio uma individual com 46 obras, o detalhe é que foi minha primeira exposição oficial, em 1997 expus na galeria da biblioteca de Universidade Federal de Sergipe; ainda em 2000 participei de uma coletiva na Galeria Álvaro Santos, em 2003 expus na Casa laranja, e por último fiz um curso de xilogravura com o professor Elias Santos que resultou numa coletiva na Sociedade Semear. Depois não fiz mais nada. Ando meio morto.
Por quê?
Não tenho mais espaço para armazenar; a política sergipana não tem um direcionamento responsável e expor do próprio bolso é oneroso demais; e não tenho mais tanto tempo como outrora.
Além das colagens, que outras atividades artísticas desenvolve ou já se arriscou?
Já cantei em banda de trash metal, toquei percussão num projeto maluco que nunca rola ensaio. E fiz tanta jam session que perdi as contas. Fui um dos fundadores de uma das bandas mais porrada da história do underground sergipano: Camboja. Fiz participação na ExTxC... uma das coisas mais bizarras daqui da cidade. Atualmente a única atividade que me consome por completo é o trabalho. Tem meses que não crio nada. Também faço desenhos horríveis, nem penso em expor. Só.
Você já leu muito e de tudo. De onde veio a paixão pela leitura?
Veio dos quadrinhos. De Turma da Mônica a Moebius. Todos eles me transportaram para o universo fantástico da leitura. Muita coisa. Virginia Woolf, James Joyce, Richard Farina, John Fante, Fernando Pessoa, Paul Auster, Balzac, são tantos que passaria dias enumerando.
O que você tem orgulho de ter lido? Com o que mais se identificou?
Me identifiquei com um autor alemão: Anton Enrhezweig – A Ordem Oculta da Arte ou Psicologia da Imaginação Artística, é um livro que trata da vida e independência da obra de arte. Recomendo.
O que detestou?
Detesto best-sellers. Procuro me afastar do que não presta. É tanta coisa boa e obrigatória pra ser lida que não dá pra perder tempo com o monte de lixo exposto na praça.
Qual seu grau de escolaridade?
Fundamental. Sou o semi-analfabeto ousado. Não me incomodo com tal fato. Tudo que aprendi foi de maneira lenta e deliciosa.
Pensa em cursar a universidade?
Não penso em cursar nenhuma escola superior.
Por quê?
Não tenho paciência para uma metodologia que mais parece uma colcha de retalhos. Uma imensa fábrica de sofistas. E nunca foi uma coisa que passasse pela minha cabeça.
O que tem feito ultimamente?
A escrita tem sido uma fuga mais corriqueira, mas a imagem sempre está atrelada ao meu ato criativo mesmo escrevendo; poderia classificá-la como prosa poética.
Como você se definiria?
Depressivamente eufórico. Devorador voraz de cultura e contra-cultura. Autodidata. Sincero. Anti-reprodução. Desleixado. Mas sou responsável quando me envolvo em qualquer trabalho.
“Anti-reprodução” não é uma contradição pra quem trabalha com colagens?
Contradição é sinônimo de inteligência.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Jamson Madureira - perfil de um artista underground





Por Fabinho “snooze” e Adelvan “kenobi”

Lá pelos idos de 96 o nome Jamsom Madureira aparecia na cena artística underground sergipana como líder de uma banda industrial/ minimalista chamada Camboja. A banda já existia desde o inicio da década, e foi formada por amigos que moravam no conjunto Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, região metropolitana de Aracaju, com o intuito de fazer um som grind core. Os shows dos caras eram um caos, mas o que chamava mesmo a atenção (além da perfomance alucinada do vocalista Fúria) era a arte que emoldurava o material “promocional” da banda, releases e capinha da fita demo. Era um traço estilizado, com uma excelente utilização do contraste claro/escuro e óbvia inspiração no que de melhor existia nos quadrinhos alternativos da época. A arte de Jamson Madureira aparecia para o mundo, via circuito “underground”, leia-se troca de zines e demos pelo correio. A formação da banda começou a mudar, mas isso não importava. Era a típica banda-de-um-homem-só. Ecos de grind-core nos vocais berrados e a guitarra velha extremamente suja e desafinada, tocada “com vontade”, era o que importava. Após a saída de todos os primeiros componentes, depois do lançamento da primeira demo, “Grind to grind”, Jamson abandonou as baquetas e passou a assumir vocais e guitarras, revelendo-se um exímio criador de riffs matadores e de melodias grudentas que compunham uma musica minimalista ao extremo, na maioria das vezes se resumindo à repetição de uma frase pro cima de um riff de guitarra. Isso após um breve período acompanhado por uma bateria eletrônica primitiva e tosca, que ele abandonou para recrutar, para a bateria, Wesley, já velho conhecido de bandas punk/hc/grind como ETC e Lipofrenia, e o “velho guerreiro” Sylvio Suburbano, fundador da Karne Krua, para a outra guitarra. Sem contrabaixo, “pra não atrapalhar”, nas palavras de Madureira. Gravaram mais uma demo caseira que se tornou um pequeno clássico “udigrudi”, intitulada “Lies about freedom”, e em seguida entraram finalmente em estúdio paras uma terceira demo, dessa vez acompanhados por um baixista, por pura insistência do mesmo, que vinha a ser Marlio, baixista da Karne Krua e outro fiel colaborador, sempre colocando sua casa a disposição nos fins de semana para os ensaios. Seguiram tocando e gravando por aproximadamente 4 anos, shows no volume Maximo, com bateria cadenciada marcando os espasmos guitarristicos e vocais gritados de Madureira emoldurados por pelos efeitos sonoros da guitarra de Sylvio que, espertamente, captou no ar que a sinfonia repetitiva de riffs criada por Madureira não precisava de mais do que isso para preencher os naturais vazios que a formação pra lá de enxuta produzia.




Mais tarde, por volta de 1998, Madureira revelou-se também artista plástico. Seus quadros foram exibidos durante o festival Rock-SE, realizado no fim de outubro daquele ano. O estilo arrojado e altamente influenciado por quadrinhos me deixou sem chão. Como assim esse cara é de Sergipe sendo aquele mesmo doido do Camboja? Bananeiras, retratos de igreja e natureza morta, além de cavalos, muitos cavalos, eram minha idéia de arte sergipana. Porém, a arte de Jamson não tem raiz alguma com o que já se fez no Estado. Como já disse, quadrinhos são a grande referência. Nada no estilo super-herói, é claro. As reverberações vão de Bill Sienkiewicz (da clássica mini-série Elektra Assassina), a viagens quadrinísticas em forma de graphic novel, como “Blood” ou “Ás Inimigo – Um Poema de Guerra”, este último de George Pratt. Mesmo assim, essa tentativa de aproximação em nada resume a dimensão da arte de Jamson. O caos de 68, poemas dadaístas e a música de John Cage talvez ajude. Ou melhor, não é nada disso. Não há nada tão abstrato num elefante. Ou uma colher. O que importa é o traço, ou garrancho, ou simplesmente as partes do quadro perfuradas por algum instrumento estranho aos manuais de artes plásticas. Sua arte pintada seguia de um certo modo a mesma concepção de sua musica, minimalista, feita de signos e de imagens urbanas, paranóias e fixações. Experimentalismo, talvez seja por aí.


Aos poucos, mesmo sem nenhum esforço pessoal do artista, a arte de Madureira foi chamando a atenção de mais e mais pessoas, inclusive daaquelas distantes do mundinho do rock onde vivia, o que o levou a produzir de capa de disco pra banda de rock (snooze, “waking up waking down) a ilustrações de livros de poesia (de Araripe Coutinho e do hoje ministro do Supremo Tribunbal Federal Carlos Ayres de Brito). Depois de um tempo pintando sem parar, cansou dessa vida de exposições conjuntas em Assembléias Legislativas, galerias de arte convencionais e “mercados pop”. Parou de pintar. Assim como o Camboja se dissolveu bem antes, com três demo-tapes servindo de legado. Eventualmente ele apareceu com outra banda, a Madame Tubarão, com um som meio “surf garageiro”. No mínimo, autêntico.Madureira voltou a exibir seu talento distribuindo fanzines – mesmo sendo já coisa do passado, da era pré-Internet –, apresentando sua criação para o mundo dos quadrinhos. Automazo e a Amante do Mutante foi feita e desenhada a mão, xerocada e distribuída pra quem ele bem entendesse. Sortudos os que guardam suas cópias. Uma versão em html chegou a ser feita, mas não tenho notícia de ter sido posta na net. O estilo apresentado é típico Madureira, versão HQ. O texto, uma linguagem solta e inspirada, em cima de argumento beirando o surrealismo. A série perdura até hoje. Quando você menos espera lá vem Madureira com mais algumas historinhas em quadrinhos simples e ao mesmo tempo herméticas, rebuscadas e rabiscadas, xerocadas e distribuidas sem nenhum compromisso a não ser o mais nobre, a necessidade de se comunicar, mesmo que de forma torta, enviezada e deliciosamente anacrônica. Camisas foram feitas com o personagem. Jamsom até voltou a exibir em galeria de arte, usando os originais dos fanzines, foi tema de matéria em jornal local e foi, inclusive, esse ano, convidado a participar, como único representante do estado de Sergipe, de uma mostra nacional de novos (novos? Melhor dizer “desconhecidos”) talentos na Funarte, no Rio de janeiro. Resta a nós, pobres mortais, esperar e torcer pelo próximo passo do mestre.

publicado originalmente no site "overmundo"