Tudo começou a desandar quando soubemos, logo em janeiro, da morte de
David Bowie dois dias após lançar seu álbum derradeiro – uma ode à
própria morte. Seria, de fato, um ano de baixas.
Mundo afora,
Spotlight, sobre a equipe de jornalistas responsáveis por investigar a
rede de pedofilia e crimes acobertados pela Igreja Católica, vencia o
Oscar de Melhor Filme e desbancava A Grande Aposta, também baseado em
fatos reais, também uma aula sobre apuração, observação de sinais,
desconstrução de discursos e mensagens oficiais, desta vez sobre a bolha
do mercado imobiliário. A ironia é que o dicionário Oxford escolheria a
expressão “pós-verdade”, que, entre outras artimanhas, ajudou a definir
o Brexit e a eleger
Donald Trump nos EUA com a divulgação de notícias factíveis e não factuais pelas redes, como a palavra do ano.
Pós-verdades,
obituário e escândalos domésticos competiam por nossa atenção logo nas
primeiras horas de 2016. Um dia era a ex-amante que acusava o
ex-presidente de pagar mesada com ajuda de uma empresa amiga de sua
gestão. No outro, o marqueteiro da campanha de Dilma Rousseff (e Michel
Temer) era preso, suspeito de receber dinheiro oriundo de propina na 23ª
(vi-gé-si-ma-ter-cei-ra) fase da Lava Jato.
Em março, Eduardo
Cunha (PMDB-RJ), o presidente da Câmara responsável por dar início ao
julgamento de Dilma entre os deputados, virou réu no STF sob acusação de
corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
No mesmo mês, promotores
de São Paulo pediram a prisão do ex-presidente Lula, mas o que chamou a
atenção foi a confusão entre os pensadores Hegel e Engels. Lula não
chegou a ser preso, mas foi conduzido coercitivamente à PF para prestar
depoimento.
Ainda em março, uma multidão foi às ruas contra o
governo petista, liderados por um jovem militante que, naquele domingo,
comparava a luta contra a corrupção no Brasil com a luta imaginária de
sua infância contra os vilões dos Power Rangers.
Mas era outro
vilão, o Coringa do Batman, que o ex-senador Delcídio Amaral (PT-MS),
preso após tentar comprar o silêncio de um delator, evocaria ao anunciar
a sua própria delação: “sou o profeta do caos”. O caos era a ideia,
desenhada a cada nova denúncia, de que a quebra do silêncio era também a
quebra de um pacto frágil que nos fazia acreditar que, longe de nossos
olhos, as instituições funcionavam, eram independentes, democráticas,
republicanas.
O caos narrado ali desordenava o modelo vilões, mocinhos de HQs e seriados japoneses e
patos da Fiesp.
Citava, por exemplo, o herói do impeachment, Eduardo Cunha, nas
falcatruas e atribuía à perda de influência em órgãos públicos como a
origem da bronca contra a presidenta prestes a ser destituída.
Naquele
mesmo mês, Lula foi nomeado e desnomeado ministro antes de assinar o
papel do Bessias. O vai-não-vai tinha como pano de fundo a divulgação de
trechos de gravações entre ele e a presidenta, levando, possivelmente,
ao ápice do radicalismo entre apoiadores e opositores do governo. Um
ator chegou a interromper uma peça em Belo Horizonte para xingar tudo o
que se assemelhasse ao governo, inclusive um “nego qualquer”, grifo
dele, da plateia.

Ao mesmo tempo, estava sendo gestada a lista da Odebrecht com mais de 200 políticos de vários, se não todos, os partidos.
Foi nesse contexto que o PMDB decidiu romper com o governo que ajudou a eleger e governar até o abismo. Era o triunfo do achaque após levar os anéis e todos os dedos da partilha ministerial.
Estava
mais do que desenhado que o futuro presidente seria alguém que fazia
saudação em cartas em latim e conseguia enviar mensagem de voz de 15
minutos no WhatsApp. Totalmente conectado, portanto, com as ferramentas
para compreender um mundo de diversidades, velocidades e
compartilhamentos.

No Planalto, ministros começam a jogar a toalha
já em abril. Era uma boa notícia para quem via no governo petista o
símbolo da corrupção, da fisiologia e da incompetência. A má notícia era
que os antigos sócios da parceria - e protagonistas do mesmíssimos
escândalos que todos juram combater – seriam promovidos.
Nos
jornais, uma rede de fast food iniciava “um movimento de democratização e
acessibilidade a todos” em direção a esfihas vendidas por um real.
Dizia que a “queda”, um trocadilho com o momento político e o preço da
iguaria, seria boa para todos. Era um retrato bem-acabado daqueles dias,
quando até a vergonha virava oportunidade de negócios.
Até que
chegou o dia da votação do impeachment na Câmara. O primeiro voto, de
Abel Galinha, mobilizou esforços de tradutores da mídia estrangeira que
concentrava as atenções sobre o futuro político do Brasil. Em diversos
veículos, os colegas tentavam explicar como acusados notórios de
corrupção poderiam comandar o julgamento de um governo acusado de
corrupção, embora este não fosse exatamente o mérito do pedido de
impeachment.
Na sessão, Jair Bolsonaro prestou duas homenagens;
uma, ao torturador da ditadura Carlos Brilhante Ustra, e outra a Eduardo
Cunha, pela condução dos trabalhos. Segundo o deputado, os derrotados
no processo “perderam em 64, perderam em 2016".
Cunha, por sua vez, pediu para que Deus tivesse misericórdia da nação.

Em
outro momento magnífico, a deputada Raquel Muniz (PSD) disse que o
“Brasil tinha jeito” ao votar pelo afastamento de Dilma e citou como
exemplo seu marido e prefeito de Montes Claros, Ruy Borges Muniz (PSB),
que seria preso menos de 24 horas depois.
Enquanto os deputados
falavam em nome de Deus, o futuro governo já encaminhava com
representantes da indústria, da agricultura e do comércio uma série de
concessões, entre elas menos controle de retorno das concessionárias de
serviços públicos, a permissão para negociações diretas entre
empregadores e empregados, e a liberação de milhões em recursos.
Alguém
lembrou de atualizar a expectativa em relação ao país de alguns anos
atrás: de candidato a um assento permanente no Conselho de Segurança da
ONU a uma cadeira rotativa da Presidência.

Quem leu ou reler o
“Admirável Mundo, de Adous Huxley, naquela época, poderia imaginar que
chegara o tempo em que os regimes totalitários já não precisariam do
cassetete para impor uma estabilidade à força. Bastaria convencer a
população de que ser oprimido era um bom negócio.
Para
isso era preciso conter a consciência e a capacidade de auto-reflexão
dos indivíduos com uma jornada de trabalho alienante (não pense em
crise, trabalhe), uma mega exposição a programas de
entretenimento infantilizadores, pílulas da felicidade ao menor sinal de
sofrimento e o descarte da literatura e de qualquer arte de
questionamento como itens de inutilidade.
O Brasil de 2016 se tornava um case de sucesso nas previsões de todas as distopias literárias.
Temer,
que já na época era apontado como a melhor solução para o país por
apenas 8% do eleitorado, segundo o Ibope, governaria com o apoio do
PSDB, que se tornaria aos poucos no PMDB do PMDB.
Em maio,
enquanto o futuro presidente se trancava nos bastidores para decidir o
futuro e deixar tudo ficar como estava, com os mesmos atores que levaram
o governo à ruína, no Brasil real estudantes secundaristas se
mobilizavam em outras salas para reivindicar o presente. Seriam eles os
acusados de provocar desordem e tumulto em um país que já não sabia o
rumo.
Amigo de alcova do novo presidente, Cunha foi afastado em
maio do mandato de deputado via STF. Voltaria a operar e vagar feito
alma penada pelo submundo de onde surgiu até ser preso.
Waldir Maranhão (PP-MA) assumiu o lugar de Cunha prometendo surpreender e não desapontou:
tentou melar a votação do impeachment e promoveu o maior cai-não-cai na
história recente da República. As definições de modernidade líquida
acabavam de ser atualizadas pela política brasileira.
Até que o
Senado finalmente pôde votar, e confirmar, o afastamento, então
provisório, de Dilma. Por ironia, no dia em que seria alçado a
presidente interino, quem caiu foi Temer: caiu na pegadinha de um
radialista argentino que telefonou para dar os parabéns fingindo ser o
presidente Mauricio Macri.
Desfeita a gafe, Temer montou um
ministério alinhadíssimo com o Congresso - majoritariamente masculino (e
branco e rico). Da nova equipe, 18 ministros colecionavam suspeitas ou
polêmicas. Um deles já assumiu dizendo: “não vamos conseguir sustentar o
nível de direitos que a Constituição determina”. Falava do SUS com a
autoridade de quem teve as contas da campanha para deputado bancadas por
operadoras privadas de saúde.
Temer sinalizava, sem dizer uma
palavra, que diversidade e cultura não eram prioridades do primeiro
escalão, o que levou o pastor Silas Malafaia, coagido a prestar
depoimento à PF meses depois, a manifestar no Twitter a sua empolgação:
“Os esquerdopatas estão chorando porque Temer acabou com um dos seus
antros, Ministério da Cultura”.
Temer teve de se dobrar diante da
pressão dos artistas e desistiu de extinguir o ministério, cujo titular,
logo em seguida, pediria dispensa após ser pressionado por um colega a
liberar um empreendimento de seu interesse embargado pelo Iphan, o
instituto responsável por zelar pelo patrimônio histórico. O prédio do
Geddel, como ficou conhecido, expôs, segundo um grande observador da
cena, o embate entre o patrimônio histórico e o patrimonialismo
histórico.
Detalhe: após a pressão, o colega, um dos braços
direitos do presidente, tombou, assim como o ministro do Planejamento
que disse, em áudio vazado em delação, que a saída para conter as
investigações policiais era colocar Temer no poder.
Apesar das
tratativas de Jucá e companhia, a PF seguiu prendendo gente, entre eles
dois ex-governadores do Rio, empresários, ex-ministros e até mesmo o
Japonês da Federal, responsável por acompanhar os detentos famosos,
acusado de facilitar contrabando.
Nos novos dias de um novo tempo
que começou com o novo governo, o DEM voltaria ao comando da Câmara com
Rodrigo Maia, o rosto de um partido que se apequenou desde o fim do
governo FHC, da qual serviu como linha auxiliar, trocou de nome, viu sua
bancada encolher e passou os últimos anos tentando inviabilizar
projetos de ações afirmativas, como as cotas, a partir de um discurso
extemporâneo sobre meritocracia.

Nesses novos sonhos, uma atriz chegou a ser agredida, e chamada de puta, ao atravessar uma manifestação pró-impeachment.
Com
os ânimos exaltados, recebemos as Olimpíadas do Rio após uma cerimônia
que, se não foi capaz de apagar ou escamotear nossos conflitos e
contradições, conseguiu suspender por instantes nossos afetos pautados
pela dor e imaginá-los como uma harmonia possível.
Entre tantos
estrangeiros da festa, ninguém parecia mais fora de seu ambiente do que o
interino decorativo. O medo da vaia, que ao fim aconteceu, transformou
sua presença numa metáfora de sua condição: uma figura menor, deslocada
de seu povo, acuada na apropriação à força de uma autoridade que não
reconhece e nem é reconhecida como tal. Nesse retrato, até os aplausos e
os sorrisos soavam custosos, artificiais e distantes.
O constrangimento de um símbolo político que se cala menos por medo do que por nada ter a dizer é também parte deste retrato. Ainda
assim ele seria confirmado no cargo, confirmando em parte a sua verve
poética que, em um de seus muitos versos em tema livre, falava do
incômodo com um certo passarinho: “Morro eu ou ele/Os dois,
impossível/Começo a matutar/Contratarei pistoleiro”.
Entre ditos e
desditos, passamos a observar em tempo real, e pela cobertura da
imprensa, a construção de projetos que não duram as 12 horas da jornada
de trabalha proposta e “desproposta” pelos ministros temerários. Com
elas, Temer e sua equipe se tornaram a imagem do governante que queimou
as energias para subir na sela e, preocupado em se manter ali, já não
sabe para onde vai o cavalo.
Enquanto isso, Lula começou a acumular denúncias na Justiça, uma delas baseada em PowerPoint.
Tantas
denúncias fizeram estragos, nas disputas municipais, nas pretensões
eleitoras dos candidatos apoiados pelos principais nomes do sistema
político. De puxadores de votos, Lula, Dilma, Aécio Neves e até Marina
Silva viram a candidatura afundar no palanque onde colocavam os pés. O
resultado imediato da ojeriza à política tradicional foi a ascensão de
outsiders (ou falso outsiders), como
João Doria em São Paulo e Alexandre Kalil em Belo Horizonte, ou de candidatos ligados a outras agremiações que não partidárias, caso de
Marcelo Crivella, ligado à Igreja Universal, no Rio.
Passamos
a apostar na Justiça como a saída para todas os vícios políticos, sem
atentar para casos em que o desembargador que mandou anular as
condenações pelas mortes no Carandiru era o mesmo que determinava a
prisão de ladrões de salame.

Se o mundo já estava suficientemente
maluco, faltava viver para ver, em plena Avenida Paulista, uma
manifestação em apoio a Donald Trump com bandeirinhas com a fotografia
de Hilary Clinton entre demônios e menções que a ligavam à “ditadura
anarco-petista” (sic). A manifestação terminou em pancadaria com grupos
antifascistas, que há tempos tentam demonstrar o elo entre discursos de
ódio e crimes como o ocorrido no Metrô Pedro 2º, ocorrida no apagar das
luzes deste ano.
Ainda neste ano, quando o mundo inteiro dava
demonstração de solidariedade, sensibilidade e (vá lá) união após a
queda do avião da Chapecoense, na Colômbia, dirigentes, não só
políticos, invertiam prioridades e escancaravam a preocupação em salvar a
própria pele durante a votação das medidas de combate à corrupção.
No
embalo, o presidente nota 3,6, segundo o Datafolha, conseguiu aprovar
um pacote de controle de gastos bancado por um Congresso rejeitado por
58℅ da população. A medida era rechaçada por seis em cada dez
entrevistados pelo instituto. A primeira conta é a mais elementar e não
fecha: a suposta estabilidade econômica tem como custo uma crise
política com risco de convulsão social.
O lema “as instituições
estão funcionando” teve, em 2016, o mesmo destino de outra frase famosa,
“a defesa brasileira é sólida”, de 2014.

Entrincheirado em
Brasília, Renan Calheiros se recusou a obedecer uma ordem judicial que o
mandava se retirar da presidência do Senado. A decisão provocou uma
onda de provocações e gentilezas verbais impronunciáveis entre juízes e
congressistas.
Pouco depois, a delação do ex-vice-presidente de
Relações Institucionais da Odebrecht serviu como um mapa até o subsolo
do funcionamento das instituições políticas e empresariais brasileiras.
Delatado, rejeitado e perdido: o retrato do governo Temer no Datafolha era o epílogo de uma falsa saída política.
NOTA DO BLOG: Eis que o ano que começou com a morte de Bowie termina se despedindo de outro ícone pop: Carrie Fischer, a eterna (MESMO) princesa Leia de Guerra nas Estrelas. Foi um ano triste, desanimador mesmo. Os poucos (imagino, mas na verdade não sei) que acompanham este blog devem ter sentido isso na quantidade reduzida de postagens -
especialmente de textos meus - olá, meu nome é Adelvan, prazer. Ando bem desanimado pra escrever, porque a impressão que tenho é que (quase) ninguém mais lê, tá todo mundo distraído nas redes sociais. Mas ok, deixa pra lá, não vou ficar me lamuriando aqui. Feliz ano novo para todos. Até breve - ou não ...
por Matheus Pichonelli
AQUI
FUI!
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