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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

BACURAU

Assim como Aquarius, a recepção de Bacurau parece comprometida pela expectativa, compartilhada por apoiadores e críticos, de que o filme seja uma análise da conjuntura presente. No caso de Bacurau, a confusão começa já na questão sobre o registro em que devemos lê-lo. A suposta influência de Tarantino é enganosa: não se trata de uma película ao estilo do diretor americano, mas que explora um gênero cultivado por ele e Robert Rodriguez –– algo que poderíamos descrever como filme B de fantasia de vingança coletiva. Bacurau não seria, assim, uma tentativa de copiar, mas de fazer a mesma coisa por outros meios, com referências predominantemente não-hollywoodianas: Punishment Park (Peter Watkins), The Wicker Man (Robin Hardy) e Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr.), para arriscar algumas. É quando o lemos como filme de gênero que vários traços do filme, como sua violência estilizada, começam a fazer sentido.

O que Tarantino descobriu a partir de Death Proof é que aderir às convenções do filme B lhe permitia ser maniqueísta e didático ao falar de política. Há, claro, uma grande ironia aí: em tempos em que o próprio fim do mundo pode ser assistido com distanciamento irônico, é como se só o distanciamento propiciado pelo artifício e o absurdo nos desse o direito de ir direto ao ponto. Dito de outro modo, é como se a condição necessária para dizer a verdade sem rodeios –– e nada é mais verdadeiro que uma fantasia de vingança –– fosse a inverossimilhança. Porque a verdade, no fim, está menos na caracterização dos personagens ou na plausibilidade da trama que na catarse que o filme provoca ao realizar na tela uma fantasia de vingança –– de mulheres, em Death Proof; judeus, em Bastardos Inglórios; negros, em Django Livre e Os Oito Odiados; e latinos, em Machete.

Sob este aspecto, acusar de didatismo uma cena como aquela em que os estrangeiros humilham os paulistas que os levam à Bacurau é não entender a piada. O esquematismo e a falta de sutileza não estão ali a serviço da mensagem, mas do efeito catártico que a cena proporciona: a vingança é um prato que se come lambuzando-se. Não por acaso, a cena parece ter incomodado especialmente os críticos do sudeste –– o que sem dúvida só faz aumentar o prazer que o público nordestino pode extrair dela.

Mas se Bacurau é uma fantasia de vingança, quem são os vingados? Reduzir o filme a uma revanche do #elenão é a leitura mais superficial que se pode fazer, seja contra ou a favor. Tampouco podemos dizer que trata apenas dos nordestinos ou sertanejos. Basta projetar sobre o filme um pouco de economia política, porém, e ele se torna bem menos metafórico e bem mais literal. A violência que o filme vinga, passada, presente e futura, é aquela que existe nas fronteiras do capitalismo e do Estado. É a violência a que estão expostos aqueles que, sem nunca serem incluídos por completo nem nos serviços públicos nem no mercado, podem a qualquer momento se tornar objetos do poder político ou do interesse econômico. É a violência que ronda os “involuntários da pátria”, na expressão certeira de Eduardo Viveiros de Castro: indígenas acossados pela fronteira extrativa, camponeses cercados por posseiros e jagunços, favelados ameaçados pela especulação imobiliária, pela polícia, pela milícia. É a violência através da qual o sistema capitalista se expande e se defende; aquela que se manifesta na busca por mão-de-obra e natureza baratas, nos processos de acumulação primitiva e na gestão das populações “excedentes” (leia-se: desprovidas de funcionalidade econômica). Esta violência não é uma metáfora; ela está acontecendo neste exato momento em alguma terra indígena, periferia ou fronteira que, de um ponto mais central das redes que dela se alimentam, nós não vemos ou preferimos não ver.

A transformação de Bacurau numa zona de caça para turistas, mediada pela elite local (o prefeito) e nacional (os paulistas), não é, assim, uma alegoria do imperialismo tirada de alguma cartilha dos anos 60, mas outra coisa. O que o filme faz é tomar um traço do presente e estendê-lo até o futuro –– que é, afinal, onde ele se passa. O resultado é a projeção bastante lúcida de um cenário cada vez mais possível, em que as fronteiras e a violência que as acompanha proliferam e podem aparecer em (quase) qualquer lugar a qualquer hora. Em que há cada vez mais bolsões de pessoas deixadas às margens, sem acesso aos benefícios do desenvolvimento, mas sempre sujeitas a terem uma última gota de rentabilidade extraída de si (o abastecimento de água cortado, o safári humano como serviço de luxo). Em que as populações “excedentes” se tornaram tão numerosas que seu manejo é feito ao ar livre, em execuções em massa exibidas pela televisão. Em que extrativismo e exterminismo finalmente tornaram-se inteiramente reversíveis.

Quem viu os discursos de Donald Trump e Jair Bolsonaro na ONU reconhecerá este cenário. O negacionismo climático não é burrice, mas a aposta de setores que já assumiram que a manutenção de suas condições atuais de vida tornou-se incompatível com a sobrevivência da grande maioria. O antiglobalismo não é um desvario, mas a justificativa ideológica de quem já percebeu que, sem uma correção radical de rumo –– justamente o que eles querem evitar ––, o capitalismo não dá mais para todo mundo. O resultado disso só pode ser, de um lado, o caos crescente causado pela crise ambiental, pela extinção de qualquer rede de proteção social, pela automação do trabalho e pelo empreendedorismo predatório; e, de outro, a formação de enclaves fortemente protegidos. Morador da Barra da Tijuca, Bolsonaro pode, pelo menos nesse sentido, dizer que vem do futuro.

Famosamente, Michel Foucault chamou de “biopolítica” um acordo tácito entre governantes e governados estabelecido a partir do século XVIII. Em troca de potencializar a utilidade econômica dos governados, os governantes assumiam o dever de fazer viver (através de políticas de saúde, seguridade, legislação trabalhista...), reservando para ocasiões extraordinárias o direito de deixar ou fazer morrer. Esta biopolítica sempre foi inseparável, nas suas fronteiras, de uma violência letal: para que algumas populações vivessem dentro de certos parâmetros, era preciso que outras fossem exploradas até à morte. O nazismo apenas levou esta lógica às últimas consequências.

O cenário que Bacurau e a extrema direita mundial projetam aponta para a dissolução deste pacto e uma virada abertamente necropolítica do capitalismo. Num mundo de concentração de renda astronômica, degradação ambiental crescente, recursos cada vez mais escassos e aumento das populações excedentes –– desempregados estruturais, refugiados climáticos, população carceral ––, o Estado tende a eximir-se da responsabilidade de fazer viver e a privatizar –– para empresas de segurança, “empreendedores” e “cidadãos de bem” –– o direito soberano de fazer morrer. Vista assim, a combinação de ultraliberalismo e culto da violência de Trump e Bolsonaro faz perfeito sentido.

Se Bacurau pretendia ser uma previsão do futuro próximo, aliás, aí está seu maior deslize. Na figura de Tony Jr., o típico político moderno filho do latifundiário local, Bacurau parecia apostar que quem se beneficiaria da crise econômica e política seria a direita liberal que historicamente cumpre no Brasil a função de ser o lado civilizado da família dos coronéis e senhores de escravos. Como muita gente, Kleber Mendonça não foi capaz de imaginar que, não achando um candidato viável entre o quadro de sócios do Country Club, a elite brasileira optaria por botar o capataz da fazenda na presidência.

Em Bastardos Inglórios, Tarantino inclui uma cena (o assassinato de Hitler) cuja função é lembrar-nos que aquilo é só uma fantasia. A droga que os moradores tomam em Bacurau talvez também deva ser interpretada assim. A catarse é um poderoso psicotrópico e cria um sentimento de comunhão inclusive com gente com quem há pouco em comum: muitos daqueles que se identificaram com Bacurau talvez defendessem em outras oportunidades a necessidade de uma aliança com Tony Jr. Passados os efeitos da droga, porém, continuamos no mesmo lugar. Como sair? É neste ponto que o filme foi mais criticado, a violência dos personagens sendo entendida como um apelo à radicalização num momento em que seria preciso desarmar a polarização política. Mas enquanto a questão se resumir a “é preciso radicalizar ou deve-se dialogar com o centro?”, o problema estará mal colocado.

Primeiro, porque carece de conteúdo concreto. Radicalizar como? Em relação a quê? Dialogar sobre o quê? Em quais bases? Com qual centro? É isto que falta responder. Segundo, porque parece supor que sair da polarização envolveria tirar a média aritmética dos extremos existentes. Mas quando os extremos são o reformismo fraco do PT e a terraplanagem bolsonarista, o meio-termo fatalmente estará bem aquém do necessário. O erro implícito aí é, terceiro, tratar centro e extremos como coordenadas que estão dadas, quando o objetivo da política é justamente transformar as coordenadas –– ou, como entendeu o ideólogo conservador Joseph Overton, fazer com que o centro se desloque em nossa direção. É exatamente isso que a extrema direita tem sabido fazer, e não foi com “bom senso” que eles ocuparam esse lugar.

Quarto, porque supõe que bom senso era o centro do debate político tal como este existia até alguns anos atrás, e que é a este centro que deveríamos voltar, contra extremos irreais. O que este realismo não entende é que as condições materiais e políticas para aquele consenso deixaram de existir: não há retorno possível. O único caminho possível hoje é na direção de redefinir o centro, criar um novo consenso –– e, novamente, foi a extrema direita quem entendeu isso primeiro, mas para propor um projeto que é sustentável apenas para os muito poucos. Por último, o problema é mal posto porque, como a menina Greta Thunberg tem mostrado, diante de questões como o aquecimento global ou o futuro que a extrema direita prepara, não há mais tempo ou espaço para soluções de compromisso: ou diz-se um não definitivo à barbárie, ou não se está dizendo rigorosamente nada. A este não ainda é preciso, sem dúvida, dar a forma concreta de programas, propostas, ações. Mas ou se faz isso ou não se faz nada: fingir que tudo pode continuar como está é a posição menos realista a essa altura.

por Rodrigo Guimarães Nunes


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quarta-feira, 13 de junho de 2018

50 Anos de 2001 - Uma odisséia no espaço

No fim de março de 1968, as primeiras cópias de 2001: Uma Odisseia no Espaço começaram a ser projetadas para integrantes das elites do cinema de Hollywood e do jornalismo cultural dos Estados Unidos, e produziram um retumbante fracasso.

Ninguém tolerou a visão de futuro do nova-iorquino de ascendência judia Stanley Kubrick, nem mesmo o cientista e escritor inglês Arthur C. Clarke, que trabalhava havia quatro anos, em parceria com o cineasta, na versão literária do filme, que seria lançada logo a seguir.

No livro recém-lançado 2001: Uma Odisseia no Espaço – Stanley Kubrick, Arthur C. Clarke e a Criação de uma Obra-Prima, o escritor e cineasta Michael Benson, nascido seis anos antes da estreia, narra com gozo as circunstâncias agudas daqueles dias de 50 anos atrás.  

Nas pré-estreias, Clarke, executivos do estúdio MGM e críticos de cinema se irmanaram naquilo que a viúva de Stanley, Christiane Kubrick, descreve no livro como o “prazer em ver a dor alheia” estampada no rosto do cineasta.

Acontecia ali um daqueles fenômenos em que as elites de um determinado tempo se divorciam completamente da realidade e entendem um fato pelo contrário simétrico do que ele significa. Desesperado pela rejeição inicial, Kubrick encurtou 19 minutos do filme (restaram 139 minutos para a posteridade).

Em lépidos 16 dias, um dos inúmeros críticos que apontaram os “erros” de 2001 produziu a primeira reavaliação, de mea-culpa, sobre o filme, e o apontou como “obra-prima”. Amparado pelas plateias mais jovens, 2001 se transformaria no filme mais lucrativo de 1968 e num dos épicos cinematográficos indeléveis do século passado.

Estima-se que a MGM, que embolsara algo como 12 milhões de dólares com 2001, foi recompensada com uma bilheteria de até 190 milhões de dólares. Antes que 1968 terminasse, a nave Apollo 8 fez o primeiro voo ao redor da Lua; em julho de 1969, a vida imitou Kubrick e fez um terráqueo pisar pela primeira e única vez o solo do satélite artificial do planeta que 2001 gostaria de suplantar.

De modo análogo ao que Kubrick fez ao explorar por dentro as espaçonaves e o robô com (maus) sentimentos humanos HAL 9000, o livro de Benson penetra as entranhas da produção de 1964-68 para explorar minuciosamente o futuro do pretérito que é a substância de 2001.

O que emerge é a colisão criativa sem tréguas entre passado e futuro, memória e invenção, o peso do tempo e a leveza do vento. É flagrante o desespero financeiro de Arthur Clarke diante da relutância de Kubrick em liberar o lançamento da versão literária de 2001.Ao longo da produção, o diretor vai extirpando as palavras da versão audiovisual.

Quando o livro vem à tona, o texto passa a servir de guia auxiliar de decifração para os enigmas não verbais do filme – o monólito alienígena que atravessa milhões de anos entre a Terra e a Lua e Júpiter e além, o salto humano entre o berço terrestre e o infinito intergaláctico, o astronauta que envelhece e volta ao útero materno ao percorrer o Portal das Estrelas imaginado por Clarke, e assim por diante.

Na tensão entre opostos complementares, é como se Kubrick compusesse a melodia da sinfonia que adornaria (ou melhor, ocultaria) as letras de Clarke para um épico folk-rock de Bob Dylan (a certa altura, o diretor cogita, não se sabe se a sério ou zombeteiramente, entregar a encomenda da trilha sonora para os Beatles).

Na contramão das trilhas especialmente compostas para filmes de grande orçamento, Kubrick queria impor à MGM o uso de peças eruditas – do ribombante e nietz-schiano Also Sprach Zarathustra (1896), do alemão Richard Strauss, ao manjado e “cafona” Danúbio Azul (1867), do austríaco Johann Strauss.

Ao vencer a peleja, o diretor impôs à indústria canibal um paradoxal balé futurista banhado por sons compostos mais de um século antes de 2001. Contraste ainda mais chocante era produzido pela cena de envelhecimento do astronauta, ambientado num quarto de hotel interestelar decorado à moda Luís XV.

O arco de ambição da odisseia homérica e joyciana de Kubrick para longe da ave-mãe Terra ajuda a explicar a repulsa da elite que primeiro teve acesso ao filme, e faz o diretor retroceder a hominídeos de milhões de anos atrás, no prólogo A Aurora do Homem.

Combustível fóssil abastece e incendeia a narrativa de Benson sobre o processo de caracterização dos neandertais coreografados pelo mímico Daniel Richter. Ele também acabaria por interpretar Moonwatcher, o homem-macaco namorado da Lua que, após vislumbrar o monólito, aprendia a usar ossos como armas e tornava a espécie carnívora e ereta. 

Ao atirar aos céus o fêmur animal que, na montagem, se convertia numa espaçonave em forma de espermatozoide capaz de furar a Via Láctea, Moonwatcher metaforizava o raio de alcance almejado por 2001.

Richter só foi creditado como ator, porque Kubrick não admitia que ninguém, além dele, acumulasse mais de um crédito nos letreiros. De olho nas estatuetas danúbias do Oscar, o diretor engoliu a equipe de efeitos visuais e assinou a autoria desse setor que era um dos monólitos de inovação do filme.

Os efeitos visuais renderam o único Oscar para 2001 e para Kubrick, diretor também de outros clássicos pop-rock do cinema mundial, como Dr. Fantástico (1964), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980). Idealizador de epopeias de época, guerra, terror e thriller sexual, Kubrick jamais dirigiu um faroeste.

Para Benson, 2001 marca o encerramento do ciclo do cinema de Velho Oeste e a substituição dos épicos sertanejos e caipiras pelo breu interestelar. Psicodélico na travessia do Portal das Estrelas, 2001 o filme saiu da mente de um diretor que evitava religiosamente as drogas, por medo de que lhe sabotassem o fluxo criativo.

Embora um semideus se consolide na narrativa de Benson, biógrafo não perdoa os traços mui humanos do mito que brinca de deus. Em diversas passagens, Kubrick é retratado como limítrofe à ética, e 2001 assoma como resultado da predação do artista que, à maneira das personagens, aprendeu a usar ossos e espaçonaves como armas de destruição em massa (não seria Hollywood se assim não fosse).

Kubrick exigiu da equipe o transplante de árvores africanas em extinção para cenário mais adequado, e depois do uso as silhuetas vegetais pré-históricas extraídas clandestinamente foram serradas e destruídas, simples assim.

Trabalhadores acidentados no exercício da filmagem foram sumariamente demitidos. Além do estúdio hipercapitalista, também o cineasta aparece como obcecado por planilhas, cálculos, lucros, luxo. Ele, afinal, também pertencia à vanguarda que inicialmente rejeitou sua obra-prima.

Kubrick não quis esperar para ver a realidade concretizar (em tablets e internets) e desmentir (na conquista humana tímida do espaço) sua projeção de 2001. O homem que, entre os 36 e os 40 anos, orquestrou uma visão transcendental de futuro morreu de infarto, em 1999, aos 71 anos.

por Pedro Alexandre Sanches


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quinta-feira, 17 de maio de 2018

o processo

Compareci no último sábado à pré-estréia do filme "O Processo" em Aracaju. É sempre bom ver o pequeno e charmoso Cinema Vitória lotado - e neste caso não se trata de força de expressão, quem chegou atrasado teve imensa dificuldade de achar onde sentar. Trata-se, como todos já devem saber, do documentário que Maria Augusta Ramos , conhecida por seus filmes sobre o sistema de (in)justiça, fez sobre o processo de impeachment da presidentA Dilma Rousseff - não entendi porque no filme ela á tratada como presidentE ...

O filme começa com um sobrevoo sobre uma Brasília literalmente dividida entre vermelhos e verdeamarelos, mortadelas e coxinhas. Aquele tipo de imagem que ficará para a história e será vista e revista provavelmente para sempre nos anos que virão. Todo o filme, aliás, se presta a isso: ser um registro precioso para a história. Segue mostrando a igualmente já célebre votação na câmara dos deputados, aquela cena dantesca onde o Brasil mostrou sua cara de forma nunca antes vista - escancarada, despudorada. Daí parte para "o processo" propriamente dito, supostamente judicial mas, por acontecer no senado, eminentemente político - e farsesco.

A diretora teve acesso aos bastidores das reuniões e do dia-a-dia da minoria, que defendia a presidentA. Faz falta o mesmo olhar para o outro lado, mas não há nada que se possa fazer a respeito já que o acesso lhe foi negado. Intercala, então, imagens públicas e já conhecidas dos debates transmitidos pela TV Senado com discussões a principio privadas. Não há entrevistas, apenas o registro e a edição de imagens. Toda edição, evidentemente, revela o olhar do autor e se converte num comentário, numa opinião. A diretora tem consciência disso, já vi declarações suas afirmando que nunca teve a intenção - que na verdade seria uma ilusão - de fazer um filme "imparcial". Mas há sempre, também, a possibilidade da acusação de manipulação, e foi o que parece ter acontecido no debate que se seguiu à exibição do filme naquela tarde, quando um dos espectadores afirmou ter achado de mal gosto uma edição que mostra a Dra. Janaína Paschoal tomando um Toddinho logo após cenas em que destila sua costumeira fanfarronice. Disse que não gostou porque foi uma piada "fácil" que o fez ficar com um "pé atrás" com relação ao filme. Eu, particularmente, não tenho nada contra piadas "fáceis" e ri bastante com a cena. Pra mim funcionou como um alívio cômico necessário diante do tema pra lá de árido e espinhoso. Há pelo menos outras duas que se prestam ao mesmo serviço, a cena da troca da campainha e a da troca de ironias e sorrisos nervosos entre a presidentA Dilma e o senador Cássio Cunha Lima, um dos diversos CANALHAS, CANALHAS, CANALHAS - palavras de Tancredo Neves durante o golpe de 1964 oportunamente lembradas pelo senador Requião em 2016 - que atuaram de forma cínica e dissimulada naquela verdadeira ópera-bufa.

Para mim, particularmente, o filme teve um efeito parecido com o dos "Dois minutos de ódio" que era exibido aos cidadãos da Oceania em “1984” de George Orwell: impossível evitar o asco diante de tantos CANALHAS expostos em tela grande. Isso porque a diretora fez questão de mostrar - corretamente, evidentemente - todos os argumentos, contra ou a favor do impeachment, utilizando imagens publicas de discursos proferidos em plenário e nas sempre tensas e tumultuadas comissões. Janaína, felizmente, se permitiu ser filmada, o que nos proporcionou algumas deliciosas cenas "extras" - dela se alongando ou se congraçando com seus admiradores da direita hidrófoba - além dos muitos momentos patéticos já mostrados na televisão, como o episódio em que ela arma um verdadeiro barraco numa sessão do Senado para tirar satisfações pessoais. Não se pode "culpar" a diretora por nada disso, evidentemente: com relação ao ódio gerado pela situação absurda cujas consequencias estamos todos sentindo na pele trata-se de uma percepção totalmente pessoal, baseada em minhas convicções - sim, tenho algumas. Boa parte dos presentes à sessão de pré-estreia parece ter sentido pudor de se entregar a este sentimento - catártico, purificador, recomendo - a julgar por alguns  comentários proferidos durante o já citado "debate" - confuso, pouco produtivo - que se seguiu à exibição. Me deu a impressão de que alguns dos que se manifestaram ainda estão empenhados em perseguir aquele ideal jornalístico inalcançável de isenção e imparcialidade. A meu ver, o ideal a ser perseguido é o da honestidade intelectual, e isso a diretora demonstrou ter de sobra, a julgar pelo que foi visto na tela.

Gostei bastante do filme. E tenho certeza que gostarei ainda mais ao longo do tempo, com o distanciamento histórico. Será muito bom relembrar, especialmente, a figura patética da "Doutora" Jana e suas caras e bocas e discursos involuntariamente cômicos, e o verdadeiro "tapa na cara" em forma de autocrítica registrado na fala de Gilberto Carvalho em uma das reuniões petistas. Só espero que isso aconteça numa situação ideal, no momento utópica, em um Brasil que superou a crise pela esquerda e se tornou um país mais justo, e não distópica, num país destroçado pelo avanço implacável da insensatez. Quem viver, verá.

Em tempo: o final é sensacional, avançando no tempo para registrar imagens da gigantesca manifestação contra a reforma da previdência um ano depois do impeachment. O filme, que havia começado com a imagem do sobrevoo sobre a cidade dividida, termina com a fumaça do incêndio de um dos ministérios tomando conta da tela ...

“O Processo” está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

Em Aracaju, no Cine Vitória.

Vá e veja.

A.

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sábado, 12 de março de 2016

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

Patricia Piccinini "Com Ciência"
O melhor filme do ano passado foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas o favorito para levar o oscar era “O Regresso”. Ganhou “Spotlight”, que joga luz sobre os casos de pedofilia envolvendo padres católicos. Menos mal: nem um, nem outro. Fez-se a justiça de Salomão. /////////////// Em todo caso, Mad Max sagrou-se como o grande vencedor em números absolutos, com a conquista de seis estatuetas, em sua maioria nos quesitos técnicos, como som e montagem. Justíssimo! Só acho que deveria ter levado também, pelo menos, o prêmio de direção: George Miller, aos 71 anos, deu uma verdadeira aula. Seu filme é cinema de ação como há muito tempo não se via – nunca mais tinha tido aquela curiosa sensação de satisfação e desconforto por perceber que a projeção estava chegando ao fim. Queria mais! Tomara que tenha continuação.

Fury road
“O Regresso” mereceu muito o prêmio pela fotografia, realmente primorosa. E só. O filme é bom, tem um bom ritmo, mas convenhamos: é “clicheroso” e, em termos de roteiro, praticamente se resume a mostrar DiCaprio correndo, arfando, sendo atacado e fugindo por duas horas e cacetada. Se bem que o ataque do urso é realmente um espetáculo, daquelas cenas que ficarão marcadas nas retinas dos olhos de quem viu no cinema, em tela grande - como deve ser – para sempre. /////////// O que não quer dizer que eu ache que a academia tenha sido injusta ao dar o oscar de melhor atuação para Leo, só acho que demorou. Ele devia ter recebido por “O Lobo de Wall Street”. /////// Foi muito bom também ver a belíssima animação brasileira “O Menino e o mundo” no páreo. Uma grande vitória. Ganhar, mesmo, era uma missão praticamente impossível, já que “Divertida Mente” é uma obra-prima. Mais uma, da Pixar. Que andava patinando. Tomara que tenha voltado aos trilhos.

O carioca Leonardo “Panço” é gente que faz: compositor e guitarrista, tocou nas bandas Soutien Xiita e Jason, com a qual rodou a Europa e o todo o Brasil, de norte a sul, inúmeras vezes, com direito a várias passagens por solo sergipano, onde tocou até no interior, em Itabaiana – feito raro para bandas “de fora”.Com sua gravadora “Tamborete” lançou um catálogo de respeito, com direito a alguns nomes de peso do underground, como o Zumbi do Mato e a Gangrena Gasosa. Hoje se dedica à escrita e a uma promissora carreira solo que começou com “Tempos”, de 2014, e segue firme com “Superfícies”, do ano passado. “Superfícies” une música e literatura: é um livro, ilustrado por fotos do próprio autor, com um disco de trilha sonora. O livro é, na verdade, uma espécie de “encarte de luxo”, já que, a meu ver, não funciona muito bem, isoladamente. Mas o disco, totalmente instrumental, é uma pequena obra-prima! Belas melodias em texturas e arranjos riquíssimos. Foi todo gravado, como sempre, na base da “brodagem”, com a ajuda dos amigos – dentre eles os sergipanos Thiago “Babalu”, nas baquetas, e Rafael Findas, nas quatro cordas. Vale muito a pena conhecer. É vendido diretamente pelo autor, que pode ser encontrado no facebook no seguinte endereço: https://www.facebook.com/leonardo.p...

Renegades of punk "na brasa", por David Doria
Ainda há público para shows de rock em Aracaju? Fecharam dois espaços que abriam para o estilo, a Caverna e a Casa Rua da Cultura. Sábado passado apenas alguns gatos pingados foram ao Rancho da Aruana ver a segunda festa Viva La Brasa, enquanto um samba no CHE tava lotado, com tanta gente que a rua em frente ficou praticamente interditada. Nada contra o samba, evidentemente. Só acho uma pena que uma banda como a Necro tenha tido tão pouco público nas duas últimas vezes que vieram tocar por aqui. Em todo caso, o rock segue em frente, porque é teimoso: ontem, dia 11/03/2016, rolou o lançamento do novo disco da excelente Penny Mocks. Próxima sexta tem Punk rock e Hard Core na pista de skate Cara de Sapo, com os paulistas da Mar Morto, os pernambucanos da Johnny 13 e os sergipanos Ideal e The Renegades of punk. Amanhã, dia 13, tem o SOS UNDERGROUND 2 no Conj. Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, com Rasga Mortalha, Mophinum, Anhan e outra que não consegui ler o nome no cartaz. Já dia 20/03, em São Cristóvão – terra da The Baggios, que acabou de tocar no Lollapalooza, em sp – rola Executor, Casca Grossa, Suicídio Coletivo, Pôdi pa caraio, Toxofobia e Enterrados de Forma Banal. Por fim, dia 16/04 tem UNDEGROUND ATTACK no parque dos cajueiros, com Cruz da Donzela, Executor, Serial, Eyeless e Mentes suicidas.

Chega a ser comovente a verdadeira saga da Editora Conrad para completar, no Brasil, a publicação do emocionante mangá “Gen:Pés descalços”, um clássico que conta a história de um sobrevivente da bomba de Horoshima. Os quatro primeiros volumes foram lançados nos anos 2000 e 2001, mas a publicação só foi retomada recentemente e atualmente está no volume nove, de um total de 10. Um sinal de que, apesar da ótima fase, a publicação de quadrinhos no Brasil segue sendo uma atividade de risco. /////// Ótima fase que foi coroada este ano com a premiação do niteroiense Marcelo Quintanilha no Festival Internacional de Angoulême, na França – uma espécie de Festival de Cannes da “banda desenhada”. O oscar é o “Eisner Awards”, americano. Ganhou por “Tungstênio”, um bom conto policial curiosamente ambientado em Salvador, Bahia, mas sua obra-prima é “Talco de Vidro”, uma verdadeira “tour-de- force” pela mente de uma dentista de classe média alta de sua cidade natal, Niterói, corroída pela inexplicável inveja que sente de sua prima suburbana. Impressionante! Lembra “Crime e Castigo”, de Tolstoi. Angustiante. Nem um pouco divertida, esta mente.

Shine on, you crazy diamond
A passagem dos anos de 2015 para 2016 vai ficar na história do rock and roll - de forma negativa, infelizmente. O baixo astral por aqui, nas terras do Cacique, começou com a notícia do falecimento de Levi Marques, que desistiu da vida no fim do ano passado e deixou sem chão uma legião de amigos. Era um jovem talentoso, cantor e compositor, “performer” de primeira. E, acima de tudo, um cara “do bem”. Faz muita falta e nunca será esquecido. O mal-estar prossegue com a passagem “desta para melhor” (???!!!) de Flavio Basso, o eterno Júpiter Maçã, astro do rock underground tupiniquim que fez história em carreira solo e com a seminal banda gaúcha Os Cascavelletes e parecia ter chegado ao auge com o falecimento de Lemmy, do Motorhed, quando nos chega a notícia, nos primeiros dias do mês de janeiro do ano corrente, de que David Bowie não era, afinal, um ser imortal! Pelo menos não no plano físico, biológico. Já era difícil imaginar um mundo sem Lemmy. Sem David Bowie, é tarefa quase impossível. Seguimos vivendo, claro, mas não é mais a mesma coisa. Não mesmo.

Em todo caso, e apesar da crise, consegui fazer uma viagem a São Paulo no fim do ano. Foi por motivos de família – levar minha mãe para fazer uma visita a uma tia querida - mas aproveitei, evidentemente, para tomar um “banho de cultura” daqueles que só grandes metrópoles são capazes de proporcionar: Vi o show de David Gilmour, maravilhoso, no estádio do palmeiras – e lembrei de Levi quando recebi um telefonema de sua namorada querendo saber se o programa de rock poderia render-lhe alguma homenagem justo na hora em que o sublime guitarrista homenageava Syd Barret, o falecido fundador do pink Floyd, com a música “Shine on you crazy Diamond” – e vi as exposições de Zé do Caixão no Museu da Imagem e do Som – as montagens das exposições do MIS são sempre um espetáculo à parte: aqui, em formato de labirinto expressionista – e da australiana Patrícia Piccinini no Centro Cultural Banco do Brasil. “ComCiência” é uma impressionante exposição de esculturas ultrarealistas feitas de silicone, fibra de vidro e cabelo humano apresentando, em sua maioria, criaturas bizarras porém simpáticas, afetadas por mutações genéticas. Patricia, que se considera mãe de todos esses seres e se ofende quando os criticam, diz que se preocupa com eles e pode contar com precisão a origem de cada um. Ela cresceu acompanhando a progressão do câncer de sua mãe, morta em 1992, e sonhava que a ciência pudesse ajudá-la com a cura. "Não me importo se a medicina é natural ou se usa órgãos de porcos, por exemplo. Só quero que funcione". Nasceu daí sua fascinação pelo tema. O realismo de suas obras e o material que utiliza para confeccioná-las a aproxima do australiano Ron Mueck, cuja exposição no início deste ano na Pinacoteca de São Paulo atingiu 400 mil – eu vi e contei como foi aqui*, lembram? "Nós usamos o mesmo material, mas não estamos interessados nas mesmas coisas", diz a artista, que se diz mais surrealista do que realista. A exposição está atualmente em Brasília e depois segue para o Rio, sempre no CCBB. Se tiver a oportunidade, não deixe de ver.

* publicado originalmente no jornal Folha da Praia

A.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Despertar da Força

Comecei a freqüentar o cinema pra valer no início da década de 1980. Lembro bem de ter visto, na tela do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, Sergipe, onde nasci e “me criei” – morei lá até os 18 anos – clássicos e pequenas pérolas “cult” da época, como “Conan, o Bárbaro”, "Robocop", "Uma Noite Alucinante", “O Exterminador do Futuro”, “Guerreiros do Bronx” (uma espécie de mistura italiana de "Fuga de Nova York" com "Warriors - Os Selvagens da Noite"), "Piranha 2 - Assassinas voadoras", de James Cameron, e “Conquista Sangrenta”, de Paul Verhoeven. Um dia fiquei sabendo que ia passar a continuação do primeiríssimo filme que vi, há muito tempo atrás, mas naquela mesma galáxia e naquele mesmo cinema. Era “O Retorno do Jedi” (me recuso a falar DE). Fiquei animadíssimo, pois tinha ótimas lembranças de “Guerra nas Estrelas” – tinha visto ainda criança, não sabia nem ler, e naquele tempo não existia filme dublado no cinema.

Pois bem: fui ver “O Retorno” e só lá, na sala escura, me dei conta que aquela era, na verdade, a terceira parte! Sério, passei batido pelo “Império Contra-ataca”. Normal, eu era criança e vivia no interior de Sergipe, numa época em que internet não era nem coisa de ficção científica – nunca soube de nenhuma FC que tenha previsto a rede. Desnecessário dizer que fiquei mais perdido que cego em tiroteio. Como assim, Luke é filho de Darth Vader? E que diabos aconteceu com Han Solo? Em todo caso, adorei. O filme reacendeu a chama, e logo voltei a ser um fanático por Star Wars. “O império contra-ataca” vi primeiro em VHS, e depois no cinema, na época da restauração e do relançamento, no final da década seguinte.

Desde o fim da terceira – que na verdade era a sexta – parte ficamos todos na expectativa da seqüência daquela história, que pudemos ver finalmente hoje, 17/12/2015, 32 anos depois. Valeu a pena a espera ...

“O Despertar da Força” é basicamente uma recriação do primeiro filme. A história é praticamente a mesma: jovem que vive uma vida medíocre num planeta desértico da periferia da galáxia é pego(a) de sopetão numa encruzilhada do destino por uma guerra entre rebeldes e forças “oficiais”, se descobre herdeiro(a) de uma tradição mística poderosa e ajuda a derrotar o lado negro da “força”, personificado numa figura sinistra e mascarada em trajes pretos e numa superarma a serviço de uma organização totalitária e fascista.

Isso é ruim? Depende do seu tipo de expectativa. Se é pela volta da saga aos trilhos, depois dos escorregões da trilogia “prequel”, sairá do cinema plenamente satisfeito. É uma espécie de recomeço, que te pega pela emoção ao mesclar com perfeição a apresentação de novos personagens com o retorno de velhos conhecidos. Mais importante: gera muita expectativa pelo que vem por aí ...

Prós e contras: O ritmo do filme é perfeito, com cenas de ação absolutamente fantásticas, mas o roteiro, além de excessivamente derivativo, peca pelo subaproveitamento de pelo menos uma personagem nova, a Capitã dos Stormtroopers Phasma – isso mesmo, uma mulher - e outra "clássica", a Princesa Leia, que fala pouco e muito pouco aparece. Há que se dar também, para uma plena apreciação do conjunto da obra, vários descontos pela forçação de barra de algumas soluções dramáticas, como o fato de que o império, representado aqui por uma falange fascista sucessora, continua bastante carente de engenheiros competentes, já que suas estações armadas supostamente indestrutíveis continuam assustadoramente vulneráveis aos ataques dos rebeldes ...

Adorei o sotaque britânico acentuado da protagonista, aliás muito bem interpretada por Daisy Ridley – excelente atriz. Já o Finn de John Boyega eu achei um tanto quanto exagerado e caricato – mas nada que comprometa irremediavelmente a atuação. BB8, o dróide que emula RD-D2, é perfeito. E Han Solo continua o mesmo – só que BEM mais velho, evidentemente. Ele parece ter se divertido com a possibilidade de voltar ao personagem, apesar dos diálogos sofríveis e das cenas soporíficas com Carrie Fischer. Já a interação com Chewbacca, o parceiro velho de guerra, segue divertidíssima.

O vilão era meu grande temor. A primeira impressão que tive, ao ver as primeiras imagens, foi de uma “recauchutagem” vagabunda do visual do Darth Vader, o que não deixa de ser verdade. Só que a idéia era justamente esta, e é ótima: Kylo Ren é uma versão “vacilante” do grande ícone Sith. O desenvolvimento psicológico do personagem é primoroso, conferindo ao mal uma nova face, para além da dicotomia binária e maniqueísta. Sua fraqueza é, paradoxalmente, o que o torna, realmente, perigoso.

“O Despertar da Força” não é uma obra-prima, mas chega perto! Seus deslizes e imperfeições estão perfeitamente inseridos na tradição da própria saga, que nunca primou por atuações impecáveis ou diálogos rebuscados – é sempre bom lembrar que uma das principais fontes de inspiração de “Guerra nas Estrelas” são as séries cinematográficas de óperas espaciais populares do início do século passado, como Flash Gordon e Buck Rogers, igualmente charmosas, também, por seus exageros. O novo filme cumpre com louvor o que se propõe: nos trazer de volta aos primórdios. Nos fazer sentir mais uma vez, na medida do possível, descontada a passagem inexorável do tempo, como quando vimos e ouvimos pela primeiríssima vez aquela trilha sonora explosiva e aquelas imagens e personagens absolutamente fascinantes.

De Zero a dez, acho que cravo uns 8,5 de nota.

A

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Contagem regressiva ...

“Como assim, ela é uma princesa? Ela não se veste nem se comporta como uma princesa! Cadê a coroa? Esse cabelo esquisito é a coroa?”. Era eu, com 6, 7 anos de idade, pedindo pra minha irmã mais velha, que havia me levado ao Cine Santo Antonio, em Itabaiana(Sergipe), para assistir àquele filme que todo mundo estava comentando – até o padre, na homilia da missa, havia recomendado, mais por conta do cinema funcionar num prédio alugado à igreja – me explicar o enredo, já que eu ainda não sabia ler e naquela época ainda não passava filme dublado no cinema.

Ela me explicou e eu finalmente entendi melhor depois, já alfabetizado, a partir dos textos do álbum de figurinhas que eu colava com uma goma caseira tosca. A experiência me marcou profundamente, como pode-se notar pelo “codinome” que adotei na internet – Adelvan “Kenobi”.

“Guerra nas Estrelas” volta ao cinema em dezembro, dia 17. Sob a batuta de J.J. Abrams, o criador de “Lost” – e “recriador” da principal série “rival”, “Jornada nas Estrelas”.

Promete!

Muito!

A

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Relembrando "O Dia Seguinte"

Há 70 anos o mundo acordou para uma nova era: no dia 06 de agosto de 1945, exatamente às 8h15 da manhã, o "Enola gay" entregou a “little boy” de presente para os habitantes da cidade japonesa de Hiroshima. E a humanidade de repente se deu conta de que poderia ser simplesmente varrida da face da terra por força e obra de sua própria insanidade. Porque, previsivelmente, o bombardeio deflagrou uma corrida armamentista desenfreada que quase pôs fim à civilização como conhecemos em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba - “Eu quero que Cuba lance/eu quero é ver Cuba lançar”, provocaram os brasileiros. Corrida maluca que só foi interrompida com o colapso do bloco socialista, no final da década de oitenta do cada vez mais distante século passado.

Eu não era nem nascido quando os dois episódios mais tensos dessa história aconteceram, mas lembro bem do clima literalmente apocalíptico que pairava sobre o mundo durante minha infância e adolescência. Principalmente a partir da eleição de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos, com uma retórica radical de confronto, taxando a Rússia de Império de mal e propondo levar a corrida armamentista até as estrelas! Por trás da cortina de ferro, a situação não era muito melhor: a instabilidade batia à porta de forma ameaçadora, com uma sucessão de falecimentos de velhos líderes da “nomenklatura” escancarando a verdade de que aquela estrutura monolítica de poder estava finalmente rachando ...

Em meio a este cenário sombrio, foi marcante a decisão de uma rede de TV norteamericana, a ABC, de produzir um filme que mostrasse, de forma realista, as consequencias de uma guerra nuclear generalizada. O Departamento de Defesa se opôs fortemente, mas acabou sendo convencido a colaborar, com a condição de que o roteiro mostrasse os russos atacando primeiro. O filme, dirigido por Nicholas Meyer, de “jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, foi um verdadeiro acontecimento, batendo todos os recordes de audiência - 100 milhões o assistiram na noite de estréia. Até abril de 2006 era o telefilme de maior audiência na história da TV americana, excluindo mini-séries. Para que se tenha uma ideia do alcance emocional da empreitada – vale lembrar que a ABC é a maior emissora do país e do mundo - nenhuma empresa quis comprar espaço comercial após o trecho em que os mísseis nucleares atingem os Estados Unidos, o que fez com que sua metade final fosse exibida sem qualquer intervalo, e a emissora disponibilizou várias linhas telefônicas especiais destinadas a acalmar as pessoas durante e após a premiére, que foi sucedida por um debate acalorado, transmitido ao vivo, sobre o tema, com as presenças do cientista Carl Sagan, contrário à existência das armas nucleares, e do escritor e comentarista conservador William F. Buckley Jr., advogando a favor.

Como não poderia deixar de ser, a polêmica se espalhou pelo mundo. Chegou, inclusive, ao pé da serra, na cidade de Itabaiana, onde eu morava. Lembro bem de ter visto um especial do Globo Repórter sobre o filme que me deixou apavorado – eu tinha apenas 12 anos de idade mas já começava a despertar para as angustias existenciais. No Brasil, “O Dia seguinte” foi exibido nos cinemas, e eu assisti “Na Tela do Cine Santo Antônio”, fazendo “indiagem” (termo pejorativo para bagunça muito usado na época) com os amigos para disfarçar a tensão ...

Pouco tempo depois as múmias do Kremlim foram finalmente e definitivamente enterradas e uma lufada de vento fresco, diferente dos ares radioativos que de lá emanaram com o acidente da usina nuclear de Chernobyl, soprou do leste, com a ascensão de Mikhail Gorbachev ao cargo de Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética. Fez-se a distensão e o mundo pôde, enfim, respirar aliviado ...

Ou não! Não existe mais aquela polarização de antes, mas é cedo demais para achar que estamos livres do perigo: a qualquer momento uma ogiva nuclear, ou mesmo uma bomba “suja”, pode cair nas mãos de um grupo fundamentalista insano como o ISIS, ou o Taleban, ou a Al Qaeda, ou algo do tipo, provocar uma das potencias nucleares ainda existentes – e elas são muitas: EUA, Reino Unido, Rússia, China, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte – e sabe-se lá o que será de nós ...

Continuamos no fio da navalha.

A.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Coming soon ...

Drew Struzan é aquele ilustrador de traço fino e hiperrealista que transformou a safra de filmes que inventaram o conceito de blockbuster nos anos 80 em clássicos do cinema a partir de seus pôsteres. De Volta para o Futuro, o primeiro Rambo, Um Príncipe em Nova York, Blade Runner, Loucademia de Polícia, Indiana Jones, Negócio Arriscado e Goonies são apenas algumas produções que levam sua assinatura visual. Esta safra foi iniciado com o pôster do primeiro Guerra nas Estrelas, o Episódio IV, de 1977, uma parceria que atravessou todos seis filmes da série já lançados.

Durante o D23 Expo 2015 – o evento anual da Disney que aconteceu em Anaheim, no estado norte-americano da Califórnia, em que foram reveladas uma série de novidades sobre o filme deste ano da saga -, Struzan apresentou o primeiro pôster do Episódio VII e contou como foi convidado para fazer a arte do novo longa e o que achou da história. Abaixo, um trecho, traduzido (por Alexandre Mathias) da entrevista publicada no site australiano Movie Weekly:

“Bem, começou mais ou menos a um ano, um ano e meio atrás. Eu recebi uma ligação do J.J. Abrams, que eu nunca havia conhecido, e ele estava na Inglaterra, filmando, e disse 'Oi, eu sempre amei seu trabalho' e blá-blá-blá, soando como, você sabe, um fã (ri). E nós estávamos conversando e ele simplesmente pergunta 'bem, você gostaria?' e eu disse '…se me convidarem.' E assim foi a conversa (ri). No final, não havia mais palavras. Então um ano depois, nós nos reunimos e ele disse que estaria trabalhando com todas as pessoas do começo – John Williams, Kasdan, Harrison Ford, todo mundo está lá e todo mundo está escrevendo e fazendo música e temos que fazer nossa arte pra que tudo seja de verdade. Então, claro, eu tenho que fazer isso pelo George e tenho que fazer isso por Guerra nas Estrelas.

Eu nunca trabalhei com J.J. antes e nós começamos a trabalhar juntos e ele me mostrou metade do filme e era apenas… um filme maravilhoso que sei que será grandioso. Eu li o roteiro e subsequentemente vi metade do filme e eu posso dizer pra você e para os fãs, honestamente, que é de longe o MELHOR Guerra nas Estrelas que você já viu. É lindamente realizado e tem uma história maravilhosa.''



sexta-feira, 22 de maio de 2015

A Fúria ...

(*) Não gostei do novo Mad Max - o ator, Tom Hardy. Fraquinho. Mas seu desempenho não compromete o resultado final, porque a verdadeira protagonista é a Imperatriz Furiosa interpretada de forma magistral por uma Charlize Theron ainda linda, apesar de praticamente irreconhecível. O filme é absolutamente sensacional! Uma obra-prima! Provavelmente o melhor do gênero – ação! - que eu já assisti em toda a minha vida. Nunca mais eu tinha torcido tanto para que uma projeção não acabasse, e depois do fim fiquei imaginando como seria, por exemplo, a cidadela/refinaria para a qual Furiosa originalmente se dirigia, antes de iniciar sua fuga. Ou o que aconteceria a seguir - aguardemos, pois há notícias de que haverá novas sequencias. Me fez lembrar, também, o tempo em que eu, garotão, voltava pra casa a pé, depois das sessões do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, com uma metralhadora imaginária nas mãos, depois de ver o primeiro Rambo; ou com uma espada, vagando pela Ciméria, transformado em Conam, o Bárbado; ou voando como o Superman de Christopher Reeve; ou andando feito o cyborg do Exterminador do futuro; ou esperando cruzar com um velociraptor na primeira esquina que cruzasse – aí já em Aracaju, no cinema que ficava na Rua de Laranjeiras, em frente à igualmente saudosa Charutaria Chic. Hoje é um estacionamento. E no lugar do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, há agora um supermercado ,..

Abaixo, dois textos muito bons que destrincham o que há nas entrelinhas do "fiapo de roteiro" ...

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(**) Longe de ambicionar uma cronologia ou um estudo de personagem - embora tenhamos acompanhado um fim do mundo gradual com Mel Gibson  por três filmes - os Mad Max constróem, acima de tudo, uma mitologia australiana a partir de subgêneros do faroeste. Não é diferente com Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road, 2015), a volta da franquia ao cinema depois de 30 anos.

O primeiro filme, de 1979, ecoava Rastros de Ódio (1959) e outros westerns de vingança na trama do cavaleiro solitário que caçava os "índios" que dizimaram sua família. Dois anos depois, Mad Max 2  aderia ao subgênero da defesa do forte, com Gibson integrado a um grupo de colonos do futuro. Ao servir de gladiador de aluguel em Além da Cúpula do Trovão (1985), Max não se diferenciava muito dos pistoleiros como o Shane de Os Brutos Também Amam (1953), que se veem no meio de um confronto pelo controle de um oásis próspero no deserto.

No entanto, enquanto os temas que atravessam os faroestes americanos ecoam a busca de uma unidade para o país, nas suas jornadas de redenção e de construção de uma civilidade na Conquista do Oeste, os filmes de Mad Max são absolutamente australianos no seu caráter de penitência. Ao criar uma mitologia que tem na estética sadomasoquista sua constante e na violência extremada o seu processo de purgação, George Miller se filia a uma tradição da literatura e do cinema australiano que se especializou em trazer para o Outback do século 20 - e para o futuro - todo o peso do passado desse país que foi concebido no século 18 como uma colônia penal do império britânico.

Na Austrália, todos são párias. Se Miller faz questão de enquadrar os quatro filmes de Mad Max no formato mais retangular do CinemaScope para valorizar horizontes, como em westerns clássicos, isso só faz de seus cenários arenas mais extensas para toda sorte de desajustados, deformados, sádicos e justiceiros. Em Estrada da Fúria, ele organiza as gangues em estratos econômicos e sociais aparentemente mais complexos, combinando industrias e religiosos messiânicos numa harmonia possível no caos (o mundo certamente vai acabar antes do capitalismo), mas a grande magia de Mad Max é que a arena os iguala.

E dentro dela, nesta volta da franquia ao cinema, Miller não economiza na catarse. Se mesmo alguns dos seus filmes mais subestimados, como As Bruxas de Eastwick (1987), de alguma forma lidam com a purgação pelo castigo, é em Mad Max que o diretor coloca pra fora os seus demônios. Algumas cenas de perseguição de Estrada da Fúria levaram meses para serem filmadas, depois de outros tantos meses de veículos sendo construídos nos sets na Austrália e na Namíbia, e essa obsessão se traduz gloriosamente na tela. O verdadeiro culto pagão de Mad Max, a fé nos automóveis (cujo simbolismo beira o óbvio no novo longa, com o volante transformado em totem), chega ao espectador num misto de missa roqueira, exorcismo e bacanal.

Nem todos os veículos, porém, são pensados como extensões da iconografia sadomasoquista e feitos para penetrar uns aos outros em incontáveis colisões. Porque o subgênero de western eleito por Miller em Estrada da Fúria é o da travessia do comboio, e desde sempre as diligências trazem consigo uma noção de feminilidade. Quantos faroestes já não mostraram no passado carroças que transportam mulheres grávidas, entre famílias que são protegidas pelos homens solitários a cavalo? A diligência é a esperança em marcha, sintetizada na fertilidade da mulher, e dela irradia o senso de proteção da civilidade que marca esses faroestes. A ideia antropomórfica de o caminhão-pipa de Mad Max "dar leite" na sua torneira é a expressão máxima dessa representação.

Sob essa ótica, parece não só justo mas necessário que George Miller escolha uma mulher, Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), como "mãe", dona do caminhão-pipa. No futuro será muito interessante formar sessões duplas entre Mad Max - Estrada da Fúria e faroestes de comboio que também efetivam um ponto de vista feminino, como o recente Dívida de Honra (2014), com Hilary Swank, e principalmente Meek's Cutoff (2010), a obra-prima de Kelly Reichardt estrelada por Michelle Williams. De resto, desconfie de quem acha que "falta roteiro" neste Mad Max: westerns de comboio são exatamente assim, enxutos e pautados pela ação, pelo menos desde 1939, ano de No Tempo das Diligências.

Mas que papel cabe ao Max de Tom Hardy nessa história, diminuído não só por Furiosa mas também pelo arco dramático de Nicholas Hoult? Não bastasse a responsabilidade de substituir o ator titular - e nessa hora fica muito latente como o carisma de Gibson sempre foi o motor do personagem - o Max de Estrada da Fúria ainda precisa lidar com o ocaso da sua masculinidade. No passado, John Wayne conseguia expressar muito bem a fragilidade de homens violentos que se percebiam deslocados num mundo em transformação. Com seu jeito de ator do método que nunca soube ouvir aquele famoso conselho de diretores impacientes ("apenas atue"), Hardy segue a receita desse tipo de papel monossilábico e introspectivo, mas ele não é Mel Gibson - nem John Wayne.

É curioso que, em entrevistas, George Miller associe Max a James Bond, para justificar a troca de atores. Seriam dois casos de personagens que, em nome de uma longevidade, sempre permanecem alheios ao mundo ao seu redor, capazes de sobreviver à base das suas manias, orbitando a ação, sem se afetar pelo contexto. Pois Estrada da Fúria - um filme cujo nervo não está na ação e sim numa mudança de paradigmas - atesta justamente a obsolescência do "caubói". Aquela comparação com Meek's Cutoff vem a calhar aqui porque é um filme muito forte sobre empoderamento feminino e transmissão de responsabilidade, e que torna evidente a incapacidade que George Miller tem de descartar seu mocinho sem de fato se despedir dele.


(***)Evidentemente não existe filme feminista feito por homem, mas as simbologias que George Miller organiza não deixam muito espaço para dúvida: é numa reserva psíquica “matriarcal” que o filme diz que a humanidade tem ainda alguma chance. A nossa melhor jornalista de cinema, Ana Maria Bahiana, não escondeu seu entusiasmo neste texto (e aqui neste complemento ela explica como se desenvolveu o projeto ao longo dos anos). Também é dela a dica desta análise, em que Katie McDonough fala dos limites dentro dos quais um blockbuster (não) pode ser “feminista” (esse está em inglês, e é cheio de spoilers – este meu aqui aliás também tem alguns, já aviso).
Katie explica a consultoria que Eve Ensler, a autora dos Monólogos Da Vagina e ativista, deu para o filme – e dá uma sacaneada no que seria a perspectiva do diretor-roteirista (diz ela que uma mensagem da obra é “uma velha motoqueira misândrica com um saco cheio de sementes mofadas é a melhor coisa que você poderia ser”, em livre tradução). Aqui um outro texto interessante, de um homem, naturalmente, que vai no sentido contrário, saudando o feminismo no filme.
Eu sou mais otimista que Katie no seguinte aspecto: este Mad Max é sim um “filme de menino”, na ação intensa, gigantesca e incessante, quase sem respiros. Esse exibicionismo yang, no entanto, não se esgota em si mesmo, não está a serviço de nada, como nos filmes de um Michael Bay, por exemplo. Não é simplesmente Charlize Theron sendo mais macha que o macho, mandando (e fazendo) Tom “Mad Max” Hardy ficar quieto.
Assim como o caminhão dirigido por Charlize contrabandeia mulheres para fora do cativeiro, assim como para lá do deserto conhecido há um clã de velhas feiticeiras, assim como no coração cínico de Mad Max há uma aflição com o fantasma do que poderia ter sido, essa ação toda se dá em busca de algo perdido. Que, afinal, são sim sementes mofadas – não há o menor problema com sementes mofadas, se elas germinarem (a extinção da água potável pela humanidade, aliás, é o outro subtema).
O veterano George Miller é um cara sagaz com as relações conturbadas entre os gêneros. O maravilhoso As Bruxas De Eastwick (1987) é um estudo sobre como o sedutor perfeito (que é o diabo, e é Jack Nicholson) se vira. Ou melhor, não se vira e enlouquece, quando seu harém (Cher, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), que ele havia tirado da mesmice da classe média, desenvove laços de sororidade e começa a demonstrar traços de independência… em relação a ele mesmo.
Uma leitura possível deste Mad Max é que ele discute os limites do que um homem pode fazer para “ajudar”, no momento em que o resgate da humanidade é necessariamente o resgate do feminino.(Entrando nos spoilers:) Faz sentido que no fim, Max, que poderia até ser o novo imperador, caia sozinho de volta na estrada – e pior, caia “castrado”, já que seu carro, o Interceptor, foi destruído na perseguição.
O nome da personagem de Charlize, Imperator Furiosa, tem um quê de lilithiano: o da imperatriz que rompe com seu imperador (Immortan Joe), para se juntar às hostes infernais. A principal tarefa de Max nem é tanto pilotar, já que ele dirige o caminhão pior do que ela, e pior até do que o “warboy” Nux. Acaba sendo – contra todas as expectativas – o do bom senso. É Max quem vai propor inverter a lógica lilithiana, de ir cada vez mais para longe do opressor, e identificar o momento em que o mecanismo da opressão coloca em risco a ela mesma, abrindo um flanco para a retomada (feminina) do poder.
Este Mad Max é um filme ambivalente. Como notou Sérgio Alpendre, ele é “estrondoso”, mas contém um comentário em sua própria narrativa sobre esse estrondo. O caminhão sound system que leva um guitarrista pendurado é o tipo de imagem que vai deixar um metaleiro extasiado – e ao mesmo tempo divertir quem odeia heavy metal.
Nesse sentido, os warboys são uma provocação inusitada. Soldados perfeitos, em busca da glória e do portão de Valhalla (e de um spray de cromagem na fuça), não são machos toscos. Pelo contrário, brancos, magros e chamados de “meia vida”, parecem-se com guerreiros eunucos – ou com modelos gays urbanos.
Se entregam à morte gritando por “testemunho”, como evangélicos. Mas, no fim, são eles que reagem positivamente à volta das matriarcas – enquanto Nux se transforma, por influência de uma das beldades liberadas. É esse warboy, o ator Nicholas Hoult, a bem da verdade, quem cumpre o arco dramático que o próprio Max não cumpre. Max está só à espera da oportunidade de desaparecer na poeira de novo, e Tom Hardy não tem nada a fazer a não ser exalar algum charme discreto. Mais discreto que o velho Mel Gibson, by the way.
Os veículos são um aspecto bacana. Tem um quê cronenberguiano, não na fusão do ser orgânico com o mecanismo (Videodrome, A Mosca, Crash) mas na composição frankensteiniana das máquinas, feitas de camadas e mais camadas de veículos antigos: o carro de Immortan Joe, no qual as mulheres voltam, é praticamente um cadillac cubista com rodas de monster truck. Importante resaltar que Miller evitou ao máximo a computação gráfica. Sempre que possível, o que se vê na tela é real (e o grande momento em CG, como anota Ana Maria, é a tempestade de areia).
Uma das fontes remotas de Mad Max, o filme de outro australiano, Peter Weir, The Cars That Ate Paris/ Violência Por Acidente, é homenageado no ataque dos carros-espinho, citação direta do famoso fusca-espinho de 1974. Outra fonte remota é a distopia atômica O Menino E Seu Cachorro, do diretor e ator LQ Jones – esse cult barato e quase trash de 1975, na ponta oposta do espectro de custos e facilidades tecnológicas, merece uma olhada (não tem feminismo, muito pelo contrário, mas tem um cachorro mutante falante que é um brother maneiro).
É notável que, quanto às motos das matriarcas, o clã das Vuvalini (cujo nome ecoa vulva e o despertar da kundalini, a “serpente” que transmuta a energia desta dimensão em energia superior), Miller contenha o fetiche. São motos simplinhas, meros veículos de transporte – e eu não creio que sejam pelas razões erradas. Assim como não é propriamente charmoso o braço mecânico de Charlize (que guarda alguma relação com a asa cortada de Angelina “Malévola” Jolie na adaptação de A Bela Adormecida).
E mesmo o fetiche tem pontos interessantes, como o fato dos volantes decorados serem pessoais e retirados dos veículos. Parece algo que faria sentido para alguém tipo um motorista cholo, um lowrider, mais do que para um playboy. Enfim. Mad Max – Estrada Da Fúria não é um filme feminista, mas sim um fantástico filme de ação. Que consegue ao mesmo tempo embarcar simbologias inusitadas que darão aos rapazes uma camada adicional para elaborar, enquanto torcem, gritam e suam de emoção.

*** por Adelvan "Kenobi"
** por Marcelo Hessel, no Omelete
* por Alex Antunes, em seu Blog
Omelete

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