sexta-feira, 10 de julho de 2015

OXI

Pode ter sido um voto emocional e apenas simbólico, mas o que simbolizou foi histórico. Votando “não” (“oxi”) num plebiscito que endossou a rebeldia do seu governo diante do capital financeiro da Europa os gregos foram os primeiros a desafiar, oficialmente, a ditadura da Austeridade, que há quase oito anos — contados a partir da crise bancária de 2008 — martiriza populações inteiras sem mostrar nenhum resultado, a não ser aumentar o poder dos credores. Tudo em nome de uma “responsabilidade” fiscal amoral, que ignora o custo humano do arrocho.

O economista Pauld Krugman, que tem sido o crítico mais constante da Austeridade, compara a sua receita para acabar com a crise com a dos médicos medievais cuja cura para qualquer doença era a sangria. Se a sangria não desse certo eles só tinham um recurso: mais sangria. Contra todas as evidências de que a Austeridade não está dando certo e só continua porque favorece os donos do dinheiro e, como um brinde aos neoliberais, desmonta, sob o disfarce da “responsabilidade”, as estruturas do bem-estar social da Europa que eram um exemplo para o mundo, dê-lhe sangrias.

O “oxi” não vai reverter esta situação e talvez a piore, dependendo da punição que vem aí para a malcriação grega. Mas o exemplo está dado. A única diferença entre a rebeldia grega e a inconformidade com o arrocho que tem enchido as ruas na Europa, até na Inglaterra, é que o “oxi” veio de uma consulta ao povo organizada pelo governo, enquanto os protestos em outros lugares são organizados, ou desorganizados, extra-oficialmente. Nenhum país devedor se arriscaria a imitar a Grécia e só se pode especular sobre o resultado de um plebiscito parecido na Espanha, por exemplo. Lá o movimento chamado Podemos não quer outra coisa senão a oportunidade de também oxidar como os gregos.

O Brasil de Joaquim Levy adotou a sangria como tratamento. Sem consultar o paciente, a não ser que se considere a eleição da Dilma para seu segundo mandato como uma espécie de plebiscito. Neste caso, o resultado da consulta não foi respeitado. A maioria disse “oxi”, a Dilma ouviu “sim”. E chamou o Levy.

Verìssimo.

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quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Maori e a difícil arte de se manter uma cena alternativa viva e ativa

O turista – ou mesmo o “local” - desavisado que se desviasse, por algum motivo, da área onde acontecia o “Arraiá do povo” na Orla da Atalaia durante os festejos juninos e se bandeasse para os lados da “orlinha”, cantinho da praia quase na curva do farol, provavelmente se depararia com uma cena inusitada para os padrões habituais da noite aracajuana: Ferdinando, guitarrista prodígio de Itabaiana, cidade serrana situada no agreste do estado, passeando entre as mesas de um bar, provocando o público com seu blues endiabrado com gosto de cebola e cachaça. Ou, quiçá, com o projeto“Bicho do mato”, que reuniu algumas feras do rock local executando um repertório rebuscado, calcado em canções mais obscuras de bandas “cult” da década setenta. Era o Maori, reduto da boemia mais “antenada”, aquela que vai além dos pratos requentados servidos no dia-a-dia das programações oficais e comerciais de nosso combalido cenário cultural, dando seus últimos suspiros de vida ...

Funcionando desde novembro de 2013, o Maori vinha se firmando como uma boa opção de programação cultural alternativa na noite sergipana. Com uma proposta inovadora, oferecia ao público e aos artistas locais a oportunidade de congraçamento, sem portaria nem bilheteria e, a princípio, sem barreiras de “tribos”. As apresentações aconteciam numa estrutura simples e o financiamento era providenciado ali mesmo, na hora, literalmente passando o chapéu. Não era nada demais, em termos estruturais, já que o valor arrecadado não permitia grandes produções, mas era meio que unânime, entre os músicos, a opinião de que o que eles conseguiam com uma “tocada” por lá não era muito diferente do que obtinham no esquema tradicional. Com a vantagem de que o “clima”, devido à facilidade de acesso que propiciava uma maior proximidade entre as pessoas, era quase sempre muito bom. Para o bar, em si, ficava a renda da venda de bebidas e petiscos, e assim terminavam todos felizes. Para sempre?

Infelizmente não. No dia 24 de maio deste ano a casa soltou uma nota em sua página numa rede social informando que o mês de julho será o último em que estarão em atividade. Foram vencidos pelos fatos: multidões se aglomeravam nos arredores, mas o consumo no balcão não era suficiente, já que a turba acabava trazendo sua bebida de casa ou consumindo dos ambulantes que, inevitavelmente, passaram a bater ponto por ali. Apostaram na consciência, no comprometimento e no espírito coletivo de quem freqüentava o local em busca, imagina-se, de uma alternativa à mesmice, e perderam a aposta.

A notícia caiu como uma bomba na rede e desencadeou um verdadeiro mural de lamentações, com opiniões quase unânimes no sentido de chorar a perda de mais um espaço diferenciado na cidade. Um dos poucos a navegar contra a maré foi o jornalista Rian Santos, que publicou um texto bastante duro significativamente intitulado “Nem uma lágrima pelo Maori”(leia AQUI). Tocou em algumas questões pertinentes, como a falta de sentido de se culpar exclusivamente o público (que, nos final das contas, é sempre uma entidade abstrata cujo comportamento é quase sempre difícil de se antecipar) e, mais ainda, a presença dos vendedores ambulantes (sobre os quais uma suposta “culpa” fica subentendida na mensagem de despedida da casa, que você pode ler na íntegra AQUI). “Ambulante também é gente”, muito bem lembrou o escriba. Devo dizer, no entanto, que apesar de concordar com a defesa do direito à liberdade de escolha das pessoas (“faz o que tu queres, é tudo da lei”), acho também justo que se cobre um mínimo de comprometimento com a construção de um projeto coletivo que, caso contrário, se inviabilizará. Simples assim: se você não quer gastar nem um mísero tostão de seu suado dinheirinho no balcão de um estabelecimento que está abrindo suas portas para uma programação alternativa, tão escassa na cidade, o estabelecimento vai fechar e você que se vire para beber num lugar que toque uma musica decente. Ou melhor: FAÇA VOCÊ MESMO! Just do it ...

Preciso dizer, também, que meu amigo Rian, a quem muito admiro como pessoa e como profissinal da palavra, foi injusto, a meu ver, ao acusar os proprietários do estabelecimento de “explorar o ganha pão suado de uns para vender cerveja gelada aos outros”. Sem querer fazer a defesa de ninguém, que eu não sou advogado nem de Deus nem do diabo, mas conversei com vários músicos que se apresentaram por lá e nenhum deles manifestou, nem de longe, o sentimento de terem sido explorados. Muito pelo contrário: a esmagadora maioria é só elogios ao tratamento que receberam, sempre claro e honesto em relação ao papel de cada um dos envolvidos na empreitada.

E foram muitas, as empreitadas. As últimas foram duas festas de despedida. A primeira aconteceu na terça-feira do dia 07 de julho último, uma véspera de feriado, com duas apresentações concorridíssimas – até demais, eu diria, já que estava tão lotado que se tornava difícil respirar e circular por lá, em alguns momentos – das duas melhores bandas de rock do estado, The Baggios e Plástico Lunar. Choveu e a lama tomou conta do entorno e choveu mais e o povo quis se abrigar dentro do bar e não dava, não cabia tanta gente. Espremido no palco pequeno, decorado com temas que remetiam à viágem à lua de Meliés, The Baggios pedia "one more cup of coffee". Plástico, "pra variar", demorou demais a começar a tocar, pois um deles estava atrasado. Não tive paciência de esperar e fui embora, mas foi massa ...

Devo dizer, por fim, que para mim, que venho acompanhando o cenário há quase 30 anos, não foi nenhuma surpresa, a notícia do fechamento. Ali mesmo, naquela região, existiu, na década de 1980, o “Submarino Amarelo”, um espaço mítico de congraçamento entre os “loucos” e antenados da cidade que teve vida curta: foi tragado, literalmente, pelo mar. Não se pode, portanto, culpar a falta de espírito coletivo das pessoas pelo seu fim prematuro, mas o fato é que acabou. Poderia ter sido transferido para outro local – ficava na antiga “praia dos artistas”, que não existe mais, foi engolida pelas marés – como no célebre caso do Circo Voador do Rio de Janeiro, que começou na praia mas se transferiu para a Lapa e lá está até hoje. Mas não foi. Morreu. Como morreu, aliás, a nossa versão da lona carioca, o Circo Amoras e Amores.

Para ficar num exemplo mais próximo não apenas no espaço como também no tempo, morreu, também, a movimentação que acontecia na porta do Capitão Cook, um pub simpático incrustado entre as pedras do molhe e o farol da Coroa do meio que foi, por mais de uma década, um pouso seguro para os apreciadores de música diferenciada. Padeceu do mesmo mal: cansei de chegar lá e imaginar que o evento estava “bombando”, tamanha a aglomeração na porta, apenas para constatar que havia uma multidão fora, papeando e bebericando, e quase ninguém dentro, prestigiando as apresentações – algumas delas antológicas. Assim não há “cena” que resista. Por menor que seja o gasto, ninguém vai ficar tomando prejuízo a vida inteira apenas para produzir um ambiente propício ao encontro de gente que não tem o menor interesse no que está sendo produzido – e apresentado.

A desculpa de muitos para este comportamento predatório é a de que os locais, em geral, nunca têm uma estrutura adequada, com o mínimo de conforto e atrativos para estimular a tal “cadeia produtiva”. Discussões infinitas já foram travadas na internet em torno dessa questão: o povo não valoriza porque a "cena" não oferece estrutura ou a "cena" não tem estrutura porque o público não valoriza? Qual será o segredo de Tostines? Eu, particularmente, já desisti de tentar entender. Até porque já existiram, por aqui, locais razoavelmente estruturados que abriram espaço, em suas dependências, para eventos alternativos. Geralmente em dias e horários igualmente “alternativos”, mas era sempre melhor do que nada. Já vi, por exemplo, Blaze Bayley (ex-vocalista do Iron Mainden) e Marky Ramone no Tequila Café; Pato Fu (em início de carreira), Planet Hemp (idem) e Mundo Livre S/A (lançando seu primeiro disco) no Batata Quente; Bambix – banda de punk rock holandesa – no Etnia; Eddie e Nação Zumbi no “Los Gatos” – um “pico” de pagode que terminou abrigando shows underground, inclusive de Black Metal! -, e Sepultura no Espaço Emes. Nenhum deles – com exceção do Emes – existe mais. Mas mesmo o Emes, hoje em dia, só que saber do que pode dar certo – como diziam os Titãs – e sobrevive, basicamente, de festas de formatura e esporádicos shows de “medalhões” da MPB e do rock “mainstram”. Como os Titãs.

Emes que já abrigou, também, edições antológicas de festivais importantes e que marcaram época - mas que, “pra variar”, não tiveram continuidade. Foi o caso do Rock-se e do Punka, em suas últimas encarnações. É um drama a parte, o dos festivais: nenhum, por aqui, conseguiu ter vida longa e se firmar no calendário de eventos da cidade. O que teve mais edições foi o Punka, porque começou pequeno e foi crescendo aos poucos, ao contrário do Rock-se, superdimensionado já em sua primeira encarnação. Mas morreu na oitava edição, de 2004 - justamente a que ostentava o lema “independência ou morte”. Tentou, na ocasião, dar um salto, fez apostas arriscadas, e bateu de frente com o muro invisível que parece impedir as iniciativas independentes e/ou alternativas de crescer por aqui ...

Uma exceção em toda essa história de fugacidade é o Clube ATPN, da Atalaia. Que não exercia, propriamente, a atividade de promoção eventos, mas que foi, durante muito tempo, uma espécie de porto seguro para os que se aventuravam pelos caminhos tortuosos da produção “underground”, abrigando em suas dependências toda uma geração que cresceu vendo apresentações antológicas de importantes nomes da cena local ao lado de ícones consagrados nacionalmente, como Ratos de Porão, Autoramas, Júpiter Maçã, Headunter DC, André Matos, Jason e Dominatrix. Fez história. Mas já encerrou seu ciclo. Foi demolido.

Eu poderia estender infinitamente esta narrativa, tamanha a quantidade de histórias que teria para contar sobre o que vi e ouvi no Mahalo, no Cotinguiba, no 799, no U-show-a, no Little Hell; na Kxaçaria, onde me apresentei com minha banda de grindcore pornográfica com o mitológico Silvio Campos na guitarra, Gabbirin Naggal Gibborin Villas Parakas, AKA Bilal, o “rei do metal”, na bateria, e Agapito, o “mendigo rico”, na gaita e no streap tease – tosco! -; no Vasco, onde o Krisiun tocou pela primeira vez por aqui - com sonorização de "Paquito"(Tá CD!); na Casa de Rato, onde esmigalhei meu cotovelo “pogando” num show da Inkoma, a antiga banda de Pitty, ao ponto de ter que fazer duas cirurgias e uma infinidade de sessões de fisioterapia para me recuperar; no “Castelo Rá-Tim-Bum” do DCE da Praça Camerino e no Porão do Cultart; no “fedor de merda”, apelido “carinhoso” que demos a uma associação de moradores abandonada no conjunto Dom Pedro que os punks usavam como local de “gigs”; no Auditório Lourival Baptista, onde aconteceu o III Festcore, e na quadra do Batistão, onde aconteceu o primeiro Rock-se; no Sindipetro; no Estúdio de Fabio e Chacal que ficava no calçadão da João Pessoa e que eles usavam para shows e festas; no Teatro Engenho & Arte, de Paulo Lobo, onde encerrei minha carreira de “produtor”, há exatos 20 anos; na Casa do Rock e na Cultiva; no Gonzagão e no Gonzaguinha; no Centro de Criatividade; no Rock Sertão de Glória, no Clube Altemar Dutra de Canindé, numa chácara em Lagarto, na Boate da Atlética, no Aruanda e no Casa Grande, em Itabaiana; no Tio Maneco;  na Casa Laranja; na finada Rua da Cultura e na vivíssima Casa Rua da Cultura; numa infinidade de garagens e buracos e lugares cujos nomes eu nem me lembro mais e, por fim, no Saloon (recém- fechado); embaixo do viaduto no Sarau de Baixo e por aí, nos Clandestinos; no Che e na Caverna, que ainda resistem ...

Poderia estender infinitamente a narrativa, mas vou parar por aqui. Sem conclusões, mas com a certeza de que, apesar das dificuldades, a chama da criatividade humana nunca se apagará, porque é a arte que nos dá alguma esperança de transcendência e de sublimação das dores do mundo.

Especialmente a música. “Sem música, a vida seria um erro”.

A.


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quinta-feira, 18 de junho de 2015

São Leibowitz, ora pro nobis

Os fãs da literatura de ficção científica no Brasil têm todos os motivos do mundo para louvar e incensar – além de COMPRAR os livros, claro  - da editora Aleph, que vem fazendo um belíssimo trabalho nesta seara. Seja relançando clássicos conhecidíssimos, como “2001 – uma odisséia no espaço”, “Eu, robô”, “Neuromancer”, “Laranja Mecânica” (em belíssima edição comemorativa), “O Planeta dos Macacos”, “Duna” – e suas seqüências - e “Andróides sonham com ovelhas elétricas” (AKA Blade Runner), de nomes consagrados como Phillip K. Dick, Isaac Asimov, Frank Herbert e Arthur C. Clark; seja colocando na praça a nova leva de títulos da franquia Star Wars.

Ou resgatando pérolas esquecidas, há muito tempo fora de catálogo, como o obscuro – por aqui - “Um Cântico para Leibowitz”, do norte-americano Walter M. Miller Jr. Publicado originalmente em 1959, no auge da guerra-fria, narra uma rebuscada aventura que se passa num futuro pós-apocalíptico onde a humanidade passa a rejeitar o progresso científico que a levou à autodestruição. Rejeição que a leva a uma nova idade das trevas, mas que não impede o renascimento. Renascimento que, no entanto, a conduz, novamente, à beira da aniquilação, num círculo vicioso que ilustra o ditame de que aqueles que falham em aprender com a história estão condenados a repeti-la.

Entrou numa lista dos dez melhores do gênero que a mundialmente prestigiada revista Time publicou em 2010. Não se trata, no entanto, de um reconhecimento tardio: já na época de sua publicação ganhou o prêmio Hugo como melhor romance, em 1961. Graças, em grande parte, à originalidade da trama, que tem início seiscentos anos depois do chamado Dilúvio de Fogo, no qual a maior parte da população mundial foi dizimada, e é dividida em três partes – Fiat Homo, Fiat Lux e Fiat Voluntas Tua - nas quais Miller desenvolve uma narrativa brilhante que se desenrola ao longo de quase dois milênios, com saltos temporais brutais que, no entanto, não prejudicam a fluidez do texto. São, na verdade, três Histórias distintas que giram em torno de uma abadia na qual monges se dedicam a preservar a “memorabília”, o que restou da devastação nuclear e da “simplificação”, a caça às bruxas que veio a seguir. “Bruxas” encarnadas, no caso, nos doutores detentores do saber, como professores e cientistas. A ordem que ocupa a abadia é, por sinal, consagrada a um destes “doutores”, um tal Leibowitz, que se tornou um mártir – e santo da igreja católica! – ao dar sua vida pela preservação do conhecimento.

“Um Cântico para Leibowitz”  foi o único livro publicado em vida por Walter M. Miller Jr. Reflete sua visão de mundo, marcada por um forte componente religioso – converteu-se ao catolicismo em 1947, aos 25 anos de idade, depois de uma passagem traumática pelo exército durante a Segunda guerra mundial na qual esteve presente em cerca de 53 bombardeios sobre a Itália e os Bálcãs. Num desses ataques foi destruído o Mosteiro Beneditino de Monte Cassino, o mais antigo do mundo ocidental. Sofreu de depressão por décadas e tornou-se patologicamente recluso. Suicidou-se, com tiro de revólver, em 11 de janeiro de 1996, em Daytona Beach, Flórida, poucos dias antes de completar 73 anos. Não havia muito, tinha começado a seqüencia do “Cântico’’, “Saint Leibowitz and the Wild Horse Woman”, que foi terminada pelo “ghost writer” Terry Bisson, a seu pedido.

Uma crítica ácida à perseguição ao conhecimento e à livre expressão, a obra de Miller é aclamada no mundo e merece muito ser redescoberta em nosso país. Inclusive porque os questionamentos por ele levantados continuam atuais – basta olharmos a realidade que nos cerca, com a ascensão do Estado Islâmico no Oriente Médio e a intolerância ideológica e religiosa grassando entre os bits e bytes da tecnologia de ponta ocidental. A Editora Aleph está de parabéns pelo resgate – caprichado, com direito, inclusive, a um glossário de termos  e textos em latim utilizados pelo autor.

Um cântico para Leibowitz / Walter M. Miller Jr. / Aleph/ 400 p. / R$ 49,90 / www.editoraaleph.com.br

quinta-feira, 11 de junho de 2015

ZONS NA ILHA

Gravado na Barra dos Coqueiros num cenário idílico, em meio à exuberante natureza local, “na Ilha”, o novo filme do projeto ZONS, mostra cinco nomes dos mais representativos da cena musical independente sergipana capturados pelas lentes sempre atentas de seus talentosos realizadores, comandados por Victor Balde e Edezio Aragão. Mais um valioso registro da riqueza de ritmos que temos por aqui.

Alex Santana abre – literalmente – os portões da casa “engolindo sapo” com sua MPB de letras ácidas. É seguido pelo punk rock “nervoso” da Renegades of punk e pelo reggae roots “classudo” da Reação, convocando a todos para um “Boicote geral”; na seqüência temos o interessante mix entre a modernidade – via batidas eletrônicas – e a tradição dos ritmos populares cometido pela Coutto Orquestra e um “ijexá” estilizado muito bem interpretado pela perfomática Patricia Polayne e por uma banda afiadíssima, com destaque para o diálogo perfeito entre os teclados de Leo Airplane e a percussão comandada pelo maestro Pedrinho Mendonça e sua “Burundanga”. Por fim, o sensacional rock psicodélico da Plástico Lunar. E um belíssimo plano aéreo que revela, ao fundo, a “mata”, ou o bosque – falar selva acho que seria exagero – de concreto da cidade de Aracaju ...

O resultado foi perfeito, com talento transbordando por todos os lados: da edição, primorosa, à captação de som – Luiz Oliva, coisa nossa – e aos artistas perfomáticos que enriqueceram com sua presença o conjunto da obra. Destaque – sempre! – para o sempre presente Leo Airplane, provavelmente o mais versátil e talentoso músico sergipano.

O filme foi lançado em grande estilo na tela grande, com sessões no Cine Vitória, no centro de Aracaju. Está disponível num pendrive personalizado que pode ser adquirido no site www.zons.art.br

A.


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terça-feira, 9 de junho de 2015

A MORTE DE STÁLIN

A Editora Três Estrelas, selo do grupo Folha de São Paulo, que já havia nos presenteado com a quadrinização da história da criação da primeira bomba atômica, agora lança “A Morte de Stálin”, graphic novel francesa com roteiro de Fabien Nury e desenhos de Thierry Robin. Uma tragicomédia de erros baseada em fatos reais que narra, de forma romantizada, a luta pelo poder iniciada com a morte do tirano que governou a União Soviética com mãos de ferro por cerca de 30 anos. Vale especialmente pelo preciosismo da edição e pelo talento do desenhista, que reproduz pessoas e acontecimentos de forma rebuscada, com atenção para os mínimos detalhes – destaque para as cenas da grandiosa cerimônia de sepultamento do líder, habilmente reproduzidas a partir de imagens de arquivo.

Quanto ao roteiro, começa bem, com uma boa dosagem de fatos reais e fictícios. Utiliza como ponto de partida uma história divertida e inventiva que gira em torno de um suposto telefonema do “generalíssimo” à rádio estatal solicitando a gravação de uma peça clássica que acabara de ser executada ao vivo. O caos se instala, já que a perfomance não havia sido registrada. Tudo teria que ser refeito! Os músicos, apavorados, conseguem se reunir para uma nova execução. Temem, no entanto, que “Koba” perceba o improviso, fruto dos percalços da empreitada. Mas são “salvos pelo gongo”: o Camarada Stalin, “guia genial dos povos”, tem um derrame cerebral, do qual não se recuperará. Naquela mesma noite começam as conspirações para sucedê-lo, encabeçadas por Lavrenti Béria e Nikita Kruschev – muito bem caracterizados, diga-se de passagem. A caracterização dos personagens, reais ou fictícios, é um dos pontos fortes da obra. 

É lamentável, no entanto, que o roteirista, a partir de determinado momento da trama, tenha errado a mão e enveredado por delírios fantasiosos desnecessariamente exagerados e dignos de uma comédia “pastelão” da pior espécie, extrapolando o necessário e justo romanceamento da narrativa para resvalar na falsificação histórica pura e simples. É o caso, por exemplo, da cena em que o filho de Stálin, bêbado, confunde a autópsia com um suposto flagrante do assassinato de seu pai! Ou a transposição para a época retratada de um episódio terrível e dramático que realmente aconteceu, mas nos tempos do czar, o que leva os que fazem uma leitura apressada, sem conhecimento dos fatos, a crer que o governo soviético havia mandado abrir fogo contra a turba descontrolada que invadiu Moscou para prestar suas homenagens.

O autor tenta se explicar, num posfácio: diz que utilizou-se de metáforas para emular a peculiar noção de “verdade” dos soviéticos. As mortes decorrentes dos tumultos gerados pelas trapalhadas burocráticas da "nomenklatura" atordoada com a súbita ausência de seu líder seriam equivalentes, portanto, às que aconteceram durante o "Domingo Sangrento", quando as tropas do czar dispararam covardemente sobre uma multidão desarmada. E o que Vassili, o filho bêbado e fanfarrão, não fez - como atirar nos médicos e convocar a imprensa estrangeira para denunciar um complô para matar seu pai - poderia ter feito - não saberíamos, em todo o caso, pois seus atos seriam certamente encobertos pelo véu da censura.

A mim não convenceu, esta explicação. Achei a abordagem absolutamente desnecessária. Porque, neste caso, a realidade dos fatos que é pública e notória e faz parte da História já é mais do que suficientemente cheia de tragédias e situações farsescas. Desnecessária e inconveniente – pra não dizer desonesta – em se tratando, também, de uma publicação de um selo que se propõe a publicar apenas livros de não ficção, segundo consta no release do site da editora. Em nome de uma suposta liberdade artística e de um perseguido - sem sucesso, a meu ver - tom farsesco - a ironia começa pelo subtítulo, "Uma História Soviética Real - o que temos é uma verdadeira falsificação da história. Típica, aliás, das práticas abomináveis do personagem - e do regime - retratado.

Em todo o caso, é sempre muito bom ver publicadas no Brasil histórias em quadrinhos que fogem do esquema comercial viciado dos super-heróis norteamericanos ...

Título: A Morte de Stálin
Subtítulo: Uma História Soviética Real
Autor: Fabien Nury, Thierry Robin
Tradução: Paulo Werneck
Especificações: Brochura | 152 páginas
ISBN: 978-85-6849-307-6
Dimensões: 310mm x 230mm
Editora: Três Estrelas
Idioma: Português
Peso: 710g



sexta-feira, 5 de junho de 2015

SERES URBANOS

Temos assistido, nos últimos anos, a um precioso resgate da produção alternativa da década de noventa do século passado, com o relançamento, agora em edições mais caprichadas, de trabalhos de gente como Alberto Monteiro, Joacy Jamys, Henry Jaepelt e Law Tissot. Todos publicados, originalmente, em fanzines xerocados e distribuídos de mão em mão ou via correios.

Estes “fanzineiros” eram, na sua maioria, artistas “solo”, encarando de forma solitária a tarefa de produzir, reproduzir e distribuir suas publicações para o Brasil e o mundo. Haviam, no entanto, os que preferiam se unir em grupos, muito antes do termo “coletivo” entrar – e sair – da moda. No nordeste brasileiro destacavam-se dois, ambos dedicados, principalmente, à produção de Histórias em quadrinhos: o “Grupo de risco”, do Maranhão, que editava a revista “Singularplural”, e os “Seres Urbanos”, de Fortaleza, Ceará, que colocaram na praça, entre os anos de 1991 e 1998, uma série de publicações antológicas, em edições caprichadas, muito acima do padrão vigente.

Uma boa parte desta produção está agora compilada no livro que leva o nome do grupo e que foi lançado com o apoio da Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Ceará. São 100 páginas de quadrinhos existencialistas impressos de forma impecável em papel de primeira qualidade, apresentando uma produção com uma impressionante diversidade de estilos, além da diagramação e experimentação gráfica primorosa e ousada – numa das páginas, por exemplo, um personagem de quadrinhos é esfaqueado pela perna de um balão de diálogo! Noutra, vemos o resultado de um projeto de arte postal coletiva em que Lupin, um dos “Seres” – que na verdade já produzia antes mesmo da criação do grupo - enviou cópias de uma imagem aleatoriamente para várias partes do mundo solicitando que quem as recebesse enviasse de volta com algum tipo de intervenção. Trabalho de gente extremamente talentosa, que merece muito este resgate ...

O espanto começa pela capa, com um belíssimo desenho de Weaver, e prossegue à medida que vamos avançando nas páginas e mergulhando no universo dos caras, repleto de reflexões e angustias que mesclam de forma perfeita o quotidiano das pessoas mais comuns com o dos “outsiders”, dos “rockers” ao típico cidadão trabalhador, do “underground” ao senhor que se ressente da falta da esposa que preferiu ficar em casa assistindo televisão a acompanha-lo numa trivial ida ao centro da cidade para levar um relógio para consertar. Das tiras tirando sarro do jeito cearense de ser aos tipinhos presentes nas festinhas do submundo, sempre com textos afiados e cheios de grandes sacadas. Angustia e bom humor de mãos dadas. Celebração e decepção, lado a lado.

É o que vemos, também, na grande “autoentrevista” reproduzida no final, onde os caras passam a limpo sua trajetória e explicam – ou não – suas motivações e as circunstancias que fizeram com que as coisas tivessem acontecido da forma que acontecerem – a qualidade das cópias, por exemplo, se explica pela oportunidade oferecida por uma copiadora, que cedeu uma sala para o grupo em troca de parte de sua força de trabalho. Nada “de graça”, portanto. Nada “de mão beijada”: o que conseguiram, foi porque foram atrás – até porque não tinha ninguém nascido em berço de ouro ali, eram todos oriundos da periferia da cidade, que crescia – e cresce! – verticalmente e vertiginosamente.

Para o que não conseguiram, paciência. Ou um grande “foda-se” – com a consciência de que parte dos motivos foi sua própria falta de noção, como da vez em que tentaram vender para uma campanha antidrogas uma “cartilha” totalmente politicamente incorreta que se chamava LSD – Leitura Sobre Drogas. A outra parte vai pra conta da dificuldade natural que uma empreitada desse porte encontra numa cidade “solar”, centrada na indústria do turismo, que tende sempre a dourar a pílula da realidade e fechar os olhos para a diversidade cultural, punindo com o ostracismo aqueles que teimam em ir além do sonho tropical.

Os “Seres Urbanos” são Weaver, Marcílio, Elvis, Lupin, Kaos (in memoriam), Galba e Mychel. Estão na rede, aqui. O livro é fundamental, imperdível, e pode ser adquirido AQUI. AQUI, uma matéria sobre o lançamento, em vídeo. Abaixo, uma pequena seleção pessoal de trechos dos textos, sempre ácidos e certeiros. Só pra que vocês tenham uma idéia do que eu estou falando ...

“Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram”

“Sempre que sinto falta de algum conforto eu me lembro dos golfinhos: se eles possuem um cérebro desenvolvido e passam a vida brincando, então nós humanos estamos fazendo algo errado”

“Estou ansiosa para crescer e sair da escola” “Crescer? A verdade é que sua geração terá que trabalhar em tempo integral e fazer cursos de atualização de computação, um após o outro, durante toda a vida, pra não se tornar um profissional defasado. O único contato de sua geração com o mundo será de forma artificial, através da TV.” “Em compensação, a TV terá milhares de canais.”

“O que nos preocupa no mundo não é ele ser tão grande, e sim a natureza humana ser tão pequena”

“Lili voltou dos states magérrima. “Que são esses xis nas suas mãos, Lili?”, perguntou Rita. – Mulher, agora eu sou straight edge.  – istrei o que ???!! Perguntou Wanda fazendo careta e levando todas a gargalhar. Lili deu um pequeno sorriso sem graça e se sentiu mais uma vez solitária entre suas amigas de infância.”

“Ed acordou e sua esposa havia partido. Vários pedaços dela estavam espalhados pela casa. “Devia ao menos ter deixado meu café feito”

“No início da noite do dia 29 de agosto de 1995, após um dia como outro qualquer de trabalho, Juvêncio Colares parou estático no meio da rua. E ficou lá parado pelo resto de sua vida.”

“Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê-lo.”

“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”

A.


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sexta-feira, 22 de maio de 2015

A Fúria ...

(*) Não gostei do novo Mad Max - o ator, Tom Hardy. Fraquinho. Mas seu desempenho não compromete o resultado final, porque a verdadeira protagonista é a Imperatriz Furiosa interpretada de forma magistral por uma Charlize Theron ainda linda, apesar de praticamente irreconhecível. O filme é absolutamente sensacional! Uma obra-prima! Provavelmente o melhor do gênero – ação! - que eu já assisti em toda a minha vida. Nunca mais eu tinha torcido tanto para que uma projeção não acabasse, e depois do fim fiquei imaginando como seria, por exemplo, a cidadela/refinaria para a qual Furiosa originalmente se dirigia, antes de iniciar sua fuga. Ou o que aconteceria a seguir - aguardemos, pois há notícias de que haverá novas sequencias. Me fez lembrar, também, o tempo em que eu, garotão, voltava pra casa a pé, depois das sessões do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, com uma metralhadora imaginária nas mãos, depois de ver o primeiro Rambo; ou com uma espada, vagando pela Ciméria, transformado em Conam, o Bárbado; ou voando como o Superman de Christopher Reeve; ou andando feito o cyborg do Exterminador do futuro; ou esperando cruzar com um velociraptor na primeira esquina que cruzasse – aí já em Aracaju, no cinema que ficava na Rua de Laranjeiras, em frente à igualmente saudosa Charutaria Chic. Hoje é um estacionamento. E no lugar do Cine Santo Antonio, em Itabaiana, há agora um supermercado ,..

Abaixo, dois textos muito bons que destrincham o que há nas entrelinhas do "fiapo de roteiro" ...

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(**) Longe de ambicionar uma cronologia ou um estudo de personagem - embora tenhamos acompanhado um fim do mundo gradual com Mel Gibson  por três filmes - os Mad Max constróem, acima de tudo, uma mitologia australiana a partir de subgêneros do faroeste. Não é diferente com Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road, 2015), a volta da franquia ao cinema depois de 30 anos.

O primeiro filme, de 1979, ecoava Rastros de Ódio (1959) e outros westerns de vingança na trama do cavaleiro solitário que caçava os "índios" que dizimaram sua família. Dois anos depois, Mad Max 2  aderia ao subgênero da defesa do forte, com Gibson integrado a um grupo de colonos do futuro. Ao servir de gladiador de aluguel em Além da Cúpula do Trovão (1985), Max não se diferenciava muito dos pistoleiros como o Shane de Os Brutos Também Amam (1953), que se veem no meio de um confronto pelo controle de um oásis próspero no deserto.

No entanto, enquanto os temas que atravessam os faroestes americanos ecoam a busca de uma unidade para o país, nas suas jornadas de redenção e de construção de uma civilidade na Conquista do Oeste, os filmes de Mad Max são absolutamente australianos no seu caráter de penitência. Ao criar uma mitologia que tem na estética sadomasoquista sua constante e na violência extremada o seu processo de purgação, George Miller se filia a uma tradição da literatura e do cinema australiano que se especializou em trazer para o Outback do século 20 - e para o futuro - todo o peso do passado desse país que foi concebido no século 18 como uma colônia penal do império britânico.

Na Austrália, todos são párias. Se Miller faz questão de enquadrar os quatro filmes de Mad Max no formato mais retangular do CinemaScope para valorizar horizontes, como em westerns clássicos, isso só faz de seus cenários arenas mais extensas para toda sorte de desajustados, deformados, sádicos e justiceiros. Em Estrada da Fúria, ele organiza as gangues em estratos econômicos e sociais aparentemente mais complexos, combinando industrias e religiosos messiânicos numa harmonia possível no caos (o mundo certamente vai acabar antes do capitalismo), mas a grande magia de Mad Max é que a arena os iguala.

E dentro dela, nesta volta da franquia ao cinema, Miller não economiza na catarse. Se mesmo alguns dos seus filmes mais subestimados, como As Bruxas de Eastwick (1987), de alguma forma lidam com a purgação pelo castigo, é em Mad Max que o diretor coloca pra fora os seus demônios. Algumas cenas de perseguição de Estrada da Fúria levaram meses para serem filmadas, depois de outros tantos meses de veículos sendo construídos nos sets na Austrália e na Namíbia, e essa obsessão se traduz gloriosamente na tela. O verdadeiro culto pagão de Mad Max, a fé nos automóveis (cujo simbolismo beira o óbvio no novo longa, com o volante transformado em totem), chega ao espectador num misto de missa roqueira, exorcismo e bacanal.

Nem todos os veículos, porém, são pensados como extensões da iconografia sadomasoquista e feitos para penetrar uns aos outros em incontáveis colisões. Porque o subgênero de western eleito por Miller em Estrada da Fúria é o da travessia do comboio, e desde sempre as diligências trazem consigo uma noção de feminilidade. Quantos faroestes já não mostraram no passado carroças que transportam mulheres grávidas, entre famílias que são protegidas pelos homens solitários a cavalo? A diligência é a esperança em marcha, sintetizada na fertilidade da mulher, e dela irradia o senso de proteção da civilidade que marca esses faroestes. A ideia antropomórfica de o caminhão-pipa de Mad Max "dar leite" na sua torneira é a expressão máxima dessa representação.

Sob essa ótica, parece não só justo mas necessário que George Miller escolha uma mulher, Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), como "mãe", dona do caminhão-pipa. No futuro será muito interessante formar sessões duplas entre Mad Max - Estrada da Fúria e faroestes de comboio que também efetivam um ponto de vista feminino, como o recente Dívida de Honra (2014), com Hilary Swank, e principalmente Meek's Cutoff (2010), a obra-prima de Kelly Reichardt estrelada por Michelle Williams. De resto, desconfie de quem acha que "falta roteiro" neste Mad Max: westerns de comboio são exatamente assim, enxutos e pautados pela ação, pelo menos desde 1939, ano de No Tempo das Diligências.

Mas que papel cabe ao Max de Tom Hardy nessa história, diminuído não só por Furiosa mas também pelo arco dramático de Nicholas Hoult? Não bastasse a responsabilidade de substituir o ator titular - e nessa hora fica muito latente como o carisma de Gibson sempre foi o motor do personagem - o Max de Estrada da Fúria ainda precisa lidar com o ocaso da sua masculinidade. No passado, John Wayne conseguia expressar muito bem a fragilidade de homens violentos que se percebiam deslocados num mundo em transformação. Com seu jeito de ator do método que nunca soube ouvir aquele famoso conselho de diretores impacientes ("apenas atue"), Hardy segue a receita desse tipo de papel monossilábico e introspectivo, mas ele não é Mel Gibson - nem John Wayne.

É curioso que, em entrevistas, George Miller associe Max a James Bond, para justificar a troca de atores. Seriam dois casos de personagens que, em nome de uma longevidade, sempre permanecem alheios ao mundo ao seu redor, capazes de sobreviver à base das suas manias, orbitando a ação, sem se afetar pelo contexto. Pois Estrada da Fúria - um filme cujo nervo não está na ação e sim numa mudança de paradigmas - atesta justamente a obsolescência do "caubói". Aquela comparação com Meek's Cutoff vem a calhar aqui porque é um filme muito forte sobre empoderamento feminino e transmissão de responsabilidade, e que torna evidente a incapacidade que George Miller tem de descartar seu mocinho sem de fato se despedir dele.


(***)Evidentemente não existe filme feminista feito por homem, mas as simbologias que George Miller organiza não deixam muito espaço para dúvida: é numa reserva psíquica “matriarcal” que o filme diz que a humanidade tem ainda alguma chance. A nossa melhor jornalista de cinema, Ana Maria Bahiana, não escondeu seu entusiasmo neste texto (e aqui neste complemento ela explica como se desenvolveu o projeto ao longo dos anos). Também é dela a dica desta análise, em que Katie McDonough fala dos limites dentro dos quais um blockbuster (não) pode ser “feminista” (esse está em inglês, e é cheio de spoilers – este meu aqui aliás também tem alguns, já aviso).
Katie explica a consultoria que Eve Ensler, a autora dos Monólogos Da Vagina e ativista, deu para o filme – e dá uma sacaneada no que seria a perspectiva do diretor-roteirista (diz ela que uma mensagem da obra é “uma velha motoqueira misândrica com um saco cheio de sementes mofadas é a melhor coisa que você poderia ser”, em livre tradução). Aqui um outro texto interessante, de um homem, naturalmente, que vai no sentido contrário, saudando o feminismo no filme.
Eu sou mais otimista que Katie no seguinte aspecto: este Mad Max é sim um “filme de menino”, na ação intensa, gigantesca e incessante, quase sem respiros. Esse exibicionismo yang, no entanto, não se esgota em si mesmo, não está a serviço de nada, como nos filmes de um Michael Bay, por exemplo. Não é simplesmente Charlize Theron sendo mais macha que o macho, mandando (e fazendo) Tom “Mad Max” Hardy ficar quieto.
Assim como o caminhão dirigido por Charlize contrabandeia mulheres para fora do cativeiro, assim como para lá do deserto conhecido há um clã de velhas feiticeiras, assim como no coração cínico de Mad Max há uma aflição com o fantasma do que poderia ter sido, essa ação toda se dá em busca de algo perdido. Que, afinal, são sim sementes mofadas – não há o menor problema com sementes mofadas, se elas germinarem (a extinção da água potável pela humanidade, aliás, é o outro subtema).
O veterano George Miller é um cara sagaz com as relações conturbadas entre os gêneros. O maravilhoso As Bruxas De Eastwick (1987) é um estudo sobre como o sedutor perfeito (que é o diabo, e é Jack Nicholson) se vira. Ou melhor, não se vira e enlouquece, quando seu harém (Cher, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon), que ele havia tirado da mesmice da classe média, desenvove laços de sororidade e começa a demonstrar traços de independência… em relação a ele mesmo.
Uma leitura possível deste Mad Max é que ele discute os limites do que um homem pode fazer para “ajudar”, no momento em que o resgate da humanidade é necessariamente o resgate do feminino.(Entrando nos spoilers:) Faz sentido que no fim, Max, que poderia até ser o novo imperador, caia sozinho de volta na estrada – e pior, caia “castrado”, já que seu carro, o Interceptor, foi destruído na perseguição.
O nome da personagem de Charlize, Imperator Furiosa, tem um quê de lilithiano: o da imperatriz que rompe com seu imperador (Immortan Joe), para se juntar às hostes infernais. A principal tarefa de Max nem é tanto pilotar, já que ele dirige o caminhão pior do que ela, e pior até do que o “warboy” Nux. Acaba sendo – contra todas as expectativas – o do bom senso. É Max quem vai propor inverter a lógica lilithiana, de ir cada vez mais para longe do opressor, e identificar o momento em que o mecanismo da opressão coloca em risco a ela mesma, abrindo um flanco para a retomada (feminina) do poder.
Este Mad Max é um filme ambivalente. Como notou Sérgio Alpendre, ele é “estrondoso”, mas contém um comentário em sua própria narrativa sobre esse estrondo. O caminhão sound system que leva um guitarrista pendurado é o tipo de imagem que vai deixar um metaleiro extasiado – e ao mesmo tempo divertir quem odeia heavy metal.
Nesse sentido, os warboys são uma provocação inusitada. Soldados perfeitos, em busca da glória e do portão de Valhalla (e de um spray de cromagem na fuça), não são machos toscos. Pelo contrário, brancos, magros e chamados de “meia vida”, parecem-se com guerreiros eunucos – ou com modelos gays urbanos.
Se entregam à morte gritando por “testemunho”, como evangélicos. Mas, no fim, são eles que reagem positivamente à volta das matriarcas – enquanto Nux se transforma, por influência de uma das beldades liberadas. É esse warboy, o ator Nicholas Hoult, a bem da verdade, quem cumpre o arco dramático que o próprio Max não cumpre. Max está só à espera da oportunidade de desaparecer na poeira de novo, e Tom Hardy não tem nada a fazer a não ser exalar algum charme discreto. Mais discreto que o velho Mel Gibson, by the way.
Os veículos são um aspecto bacana. Tem um quê cronenberguiano, não na fusão do ser orgânico com o mecanismo (Videodrome, A Mosca, Crash) mas na composição frankensteiniana das máquinas, feitas de camadas e mais camadas de veículos antigos: o carro de Immortan Joe, no qual as mulheres voltam, é praticamente um cadillac cubista com rodas de monster truck. Importante resaltar que Miller evitou ao máximo a computação gráfica. Sempre que possível, o que se vê na tela é real (e o grande momento em CG, como anota Ana Maria, é a tempestade de areia).
Uma das fontes remotas de Mad Max, o filme de outro australiano, Peter Weir, The Cars That Ate Paris/ Violência Por Acidente, é homenageado no ataque dos carros-espinho, citação direta do famoso fusca-espinho de 1974. Outra fonte remota é a distopia atômica O Menino E Seu Cachorro, do diretor e ator LQ Jones – esse cult barato e quase trash de 1975, na ponta oposta do espectro de custos e facilidades tecnológicas, merece uma olhada (não tem feminismo, muito pelo contrário, mas tem um cachorro mutante falante que é um brother maneiro).
É notável que, quanto às motos das matriarcas, o clã das Vuvalini (cujo nome ecoa vulva e o despertar da kundalini, a “serpente” que transmuta a energia desta dimensão em energia superior), Miller contenha o fetiche. São motos simplinhas, meros veículos de transporte – e eu não creio que sejam pelas razões erradas. Assim como não é propriamente charmoso o braço mecânico de Charlize (que guarda alguma relação com a asa cortada de Angelina “Malévola” Jolie na adaptação de A Bela Adormecida).
E mesmo o fetiche tem pontos interessantes, como o fato dos volantes decorados serem pessoais e retirados dos veículos. Parece algo que faria sentido para alguém tipo um motorista cholo, um lowrider, mais do que para um playboy. Enfim. Mad Max – Estrada Da Fúria não é um filme feminista, mas sim um fantástico filme de ação. Que consegue ao mesmo tempo embarcar simbologias inusitadas que darão aos rapazes uma camada adicional para elaborar, enquanto torcem, gritam e suam de emoção.

*** por Adelvan "Kenobi"
** por Marcelo Hessel, no Omelete
* por Alex Antunes, em seu Blog
Omelete

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