domingo, 24 de agosto de 2014

60 Anos Hoje

Pelo telefone, claramente emocionado, o ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, leu para a Rádio Nacional a carta-testamento encontrada na mesinha de cabeceira do presidente morto: “Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada temo. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. O relógio indicava que faltavam 15 minutos para as 9 da manhã daquele 24 de agosto de 1954. Nunca o país assistira a tamanha comoção popular como a que veio logo após a divulgação da notícia: Getúlio Vargas se matara, em seu quarto, por volta de 8h30, com um tiro no peito.

Multidões saíram às ruas. Enfurecidos, manifestantes depredaram a sede da Tribuna da Imprensa, o jornal de Carlos Lacerda, mais furibundo dos adversários de Getúlio. Uma massa humana de 100 mil pessoas, a maioria em pranto incontrolável, desfilou diante do caixão do presidente, velado no próprio Palácio do Catete, sede do governo federal, no Rio. A imprensa noticiou que cerca de 3 mil pessoas presentes ao velório, vítimas de desmaios, mal-estares, crises nervosas e problemas de coração, precisaram ser atendidas pelo serviço médico do palácio. Na enfermaria, o estoque de calmantes esgotou-se em minutos. O país inteiro quedou em estado de choque. Ninguém esperava por aquele desfecho para a crise que se abatera como uma nuvem negra sobre o governo, apesar de o próprio Getúlio ter dito, dias antes, com todas as letras: “Só morto sairei do Catete”.

A pergunta que se fez à época, e que até hoje ecoa, exatos 50 anos depois, é uma só: afinal, por qual motivo Getúlio se matou? O que levou o presidente a puxar o gatilho de seu revólver, após apontá-lo contra o próprio coração? Que sentimentos insondáveis povoavam o homem Getúlio Vargas no instante daquele gesto que mudaria a história do Brasil?

Como sempre ocorre, boa parte das possíveis respostas e certezas morreu junto com o próprio suicida. Mas, reconstituindo os fatos daquele aziago mês de agosto – mês de desgosto, no imaginário popular brasileiro –, é possível esclarecer os últimos momentos de Getúlio. Entre as tantas hipóteses, conjecturas e análises divergentes, uma coisa pelo menos é certa: o governo Vargas começou a morrer 20 dias antes, alvejado por outro tiro, este ironicamente disparado contra seu arquiinimigo Carlos Lacerda. Entre os dois tiros, um que atingiu o pé esquerdo de Lacerda, o outro que se alojou no peito de Getúlio, estão as respostas para a pergunta que não quer calar.

Na madrugada de 5 de agosto, pouco depois da meia-noite, Carlos Lacerda havia sido vítima de um atentado diante do portão do prédio onde morava, na rua Tonelero, em  Copacabana. Dois disparos atingiram seu acompanhante, o major da Aeronáutica Rubens Vaz, que não resistiu aos ferimentos. Foi impossível não ligar o atentado da Toneleros às críticas virulentas disparadas diariamente por Lacerda contra o governo pelas páginas da Tribuna da Imprensa. Com a linguagem destemperada de sempre, Lacerda chegara a chamar o presidente de “monstro”, o deputado Lutero Vargas de “filho rico e degenerado do Pai dos Pobres” e Oswaldo Aranha de “mentiroso e ladrão”.

Carlos Lacerda escapou, por pouco, do atentado. Naquele mesmo dia exibiu, em seu jornal, as fotos de um ferimento a bala em seu pé esquerdo – ferimento cuja veracidade seria contestada depois. O prontuário do Hospital Miguel Couto, onde fora atendido, sumiria misteriosamente. Mas o estrago, àquela altura, já estava feito. “Acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá a audácia para atos como o desta noite. Esse homem é Getúlio Vargas”, escreveu Lacerda. A oposição tinha agora um cadáver, o do major Vaz, e seu principal representante, antes já suficientemente feroz, passara a agir a partir de então como um animal ferido.

“Esses tiros me ferem pelas costas”, reconheceu Getúlio. As principais suspeitas recaíram sobre Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente. Na manhã do dia 5, Getúlio chamou Gregório e indagou-lhe se tinha participação no episódio. Ele negou. À tarde, no Congresso, o líder da maioria, Gustavo Capanema, leu uma declaração assinada por Vargas: “Até agora considerava Lacerda meu principal inimigo. Mas agora o considero meu inimigo número 2; o número 1, aquele que causou o maior prejuízo ao meu governo, foi o homem que atentou contra sua vida”.

Contudo, os indícios e as investigações da trama logo apontaram para os corredores do Palácio do Catete. O fio do novelo começou a despontar logo no primeiro dia, quando um motorista de táxi que trabalhava próximo ao palácio apresentou-se voluntariamente à polícia e afirmou que levara, na noite anterior, um membro da guarda presidencial, Climério de Almeida, ao local do crime. Manifestações de protesto civis e militares pipocavam na capital federal, deixando o governo cada vez mais acuado. Cerca de 5 mil pessoas compareceram ao enterro de Vaz, enquanto Climério, em vez de prestar esclarecimentos, tratou de desaparecer do mapa.

No dia 8, com as acusações desabando sobre sua mesa de trabalho, Getúlio resolveu dissolver a guarda pessoal e franquear as dependências do Catete para as investigações. Tal atitude não satisfez a ira dos adversários. No Congresso, deputados da conservadora UDN (União Democrática Nacional), agrupados na chamada “Banda de Música” – assim conhecida pelo barulho que provocava em plenário com seus discursos inflamados e orquestrados –, passaram a exigir a renúncia de Vargas. Da Aeronáutica, a crise logo se alastraria para as demais corporações armadas. Durante todo o seu governo, Getúlio enfrentara a oposição dos militares, especialmente após ter nomeado, no ano anterior, João Goulart, o Jango, no cargo de ministro do Trabalho. Jango, considerado pelos quartéis um notório esquerdista, propôs um aumento de 100% no salário mínimo e acabou derrubado do cargo, por pressão dos militares.

A saída de Goulart do governo não afastara a desconfiança dos quartéis ou das forças políticas e econômicas mais conservadoras, que diagnosticavam no nacionalismo de Vargas uma perigosa “guinada à esquerda”. Assim, naqueles dias tormentosos de agosto, as forças civis e militares insatisfeitas com os rumos do governo vislumbraram a ocasião propícia para afastar, de uma vez por todas, Getúlio do poder. Fazendo coro à “Banda de Música” udenista, membros do Alto Comando das Forças Armadas decidiram bombardear a resistência do presidente. No dia 12, data da missa de sétimo dia do major Vaz na Candelária, foi instaurado na Base Aérea do Galeão um inquérito policial-militar, um IPM, sob o comando do coronel Adil de Oliveira. Apelidado de “República do Galeão”, o IPM deteve suspeitos, convocou testemunhas e, em poucos dias, selaria o destino do presidente.

Enquanto o IPM era instalado e o comércio do centro do Rio fechava as portas para celebrar o luto pelo major Vaz, Getúlio decidiu viajar para Minas Gerais, onde foi recebido com pompa e circunstância pelo governador Juscelino Kubitschek. Na inauguração de uma siderúrgica em território mineiro, faria seu último e contundente discurso: “Advirto aos eternos fomentadores da provocação e da desordem que saberei resistir”, disse o presidente ao microfone, emocionado, ao lado de um sempre sorridente JK. No dia seguinte, de volta ao Rio, encontrou o cenário ainda mais turbulento. Um pistoleiro, Alcino do Nascimento, havia sido preso e confessara ter atirado contra Lacerda por encomenda de Climério, ainda foragido. Mas o pior ainda estava por vir: pelo depoimento de Alcino, as suspeitas da autoria intelectual do atentado recaíam agora sobre Lutero Vargas, ninguém menos do que o filho do presidente.

Lutero, por recomendação expressa de Getúlio, apresentou-se espontaneamente ao IPM e renunciou à sua imunidade parlamentar, pondo-se à disposição das investigações. “Estou sendo vítima de uma torpe difamação”, diria ele ao país, por meio de uma rede oficial de emissoras de rádio. Mas, nos dias seguintes, uma sucessão de acontecimentos abalaria ainda mais as estruturas do Catete. Em 16 de agosto, com a tropa fora de controle, o ministro da Aeronáutica Nero Moura pediu demissão. No dia 18, Climério foi preso e confessou ter recebido ordens de Gregório Fortunato, cuja prisão já havia sido determinada pelo IPM no dia 15.

Há quem afirme que Fortunato, após sustentar outras versões, acabou assumindo a culpa pelo atentado contra Lacerda para proteger aquele que seria o verdadeiro culpado do crime, Benjamin Vargas, o “Bejo”, irmão caçula de Getúlio. O jornalista José Louzeiro, por exemplo, foi um que defendeu a hipótese em seu livro O Anjo da Fidelidade: A História Sincera de Gregório Fortunato. Segundo seu biógrafo John W.F. Dulles, Lacerda também tinha a firme convicção de que Bejo seria o mandante do crime. Seja como for, outras revelações do IPM, levadas a público no dia 18 de agosto, apontariam novas e suspeitas ligações de Fortunato com familiares do presidente. De acordo com documentos apreendidos no porão do Catete, no arquivo pessoal de Fortunato, o filho mais novo de Getúlio, Manoel Antônio Vargas, o Maneco, vendera ao Anjo Negro uma fazenda por 3 milhões de cruzeiros – quando o salário de Fortunato não passava de 15 mil cruzeiros mensais. Era a gota d’água. “Estou mergulhado em um mar de lama”, foi a frase atribuída a Getúlio naqueles dias de tensão sem trégua.

A revelação alquebrou as forças do presidente. Segundo o jornalista Glauco Carneiro conta em seu livro Lusardo, o Último Caudilho, Oswaldo Aranha encontrou Getúlio debruçado numa janela do Catete, de óculos escuros, procurando esconder os olhos vermelhos. “Reaja, você é um homem forte”, Aranha ainda tentou animá-lo. Mas o cerco se fechara. No dia 21, o presidente recebeu no palácio o seu vice, Café Filho, que dez dias antes havia se reunido secretamente com Carlos Lacerda e aderido à conspiração. Café propôs a Getúlio o que havia combinado anteriormente com Lacerda: a tese da renúncia conjunta do presidente e do vice. Getúlio, porém, desconversou. No entanto, seus dias de governo – e de vida – já estavam contados.

Em 22 de agosto, um grupo de brigadeiros divulgou um manifesto que exigia a renúncia imediata do presidente. Os almirantes se disseram solidários aos colegas da Aeronáutica e também pediram a cabeça de Getúlio. A posição do Exército viria logo depois, no dia 23. Um documento assinado por 27 generais circulou pelos quartéis e passou a ser entendido como uma espécie de ultimato: “Os abaixo-assinados (…) declaram julgar como melhor caminho para tranqüilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas a renúncia do atual presidente da República”.

A notícia do Manifesto dos Generais, junto com a informação de que se tornara praticamente impossível controlar a agitação na caserna, chegou a Getúlio por volta de 0h daquele trágico 24 de agosto. A informação seria levada ao Catete pelo ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, e pelos também generais Mascarenhas de Morais e Odylio Denys. Exausto, Getúlio disse-lhes que convocaria uma reunião ministerial no dia seguinte para discutir a gravidade da situação. Mas o general Mascarenhas, apreensivo, aconselhou ao presidente que, mesmo levando-se em conta o adiantado da hora, era melhor que todos os ministros fossem tirados da cama e convocados imediatamente ao palácio. Getúlio compreendeu a urgência do caso, acatou a sugestão e ordenou que os assessores se concentrassem na tarefa de acordar o ministério com telefonemas disparados no meio da madrugada.

A tal reunião se arrastou, lenta, até depois das 4 da manhã, sem chegar a nenhuma conclusão. Alguns ministros sugeriram a resistência, apoiados pela palavra firme da filha do presidente, Alzira Vargas, que mesmo não sendo convidada invadira o salão ministerial e fizera questão de participar da reunião. Outros, a exemplo de José Américo de Almeida, ministro das Viações e Obras Públicas, afirmaram que a melhor saída, para evitar derramamento de sangue, seria mesmo resignar-se e submeter-se à renúncia. Impaciente, Getúlio abriu a agenda pessoal e rabiscou a seguinte nota: “Já que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir. Determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for mantida, entrarei com um pedido de licença. Em caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver”.

Aquela última frase da anotação, logo se saberia, não significava um esforço retórico, uma mera frase de efeito. Dias antes, em 13 de agosto, Alzira Vargas já encontrara um rascunho, escrito a lápis pelo pai, no mesmo tom: “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte”. No dia 23, véspera da reunião ministerial, o jornal getulista Última Hora, de Samuel Wainer, publicara uma manchete que também se anunciaria profética: “Getúlio ao povo: Só morto sairei do Catete”.

Após a reunião, sozinho em seu quarto, Getúlio não conseguiu pregar o olho. Foi procurado pelos familiares pelo menos três vezes entre o final da madrugada e o começo da manhã. Primeiro, Alzira levaria a ele a nota oficial redigida pelo ministro da Justiça, Tancredo Neves, anunciando a decisão presidencial de licenciar-se do cargo até que todas as acusações fossem devidamente apuradas. Getúlio não quis ler a mensagem e pediu para que o deixassem sozinho. Poucos minutos mais tarde, em duas ocasiões, o irmão Benjamin foi também até o quarto, agora para dar-lhe duas más notícias: o IPM estava convocando Bejo para depor imediatamente e os militares não haviam aceitado a idéia de uma simples licença. Os quartéis insistiam no afastamento definitivo do presidente.

Às 8h30 da manhã, ouviu-se um tiro. Os familiares encontraram Getúlio agonizante, o corpo sobre a cama, o buraco da bala pouco acima do monograma “GV” gravado no bolso do pijama, por onde o sangue corria aos borbotões. “Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada da resistência”, diria certo trecho da carta-testamento. Há quem diga que o texto não era de Getúlio e sim do jornalista José Soares Maciel Filho, que o escrevera sob encomenda. Porém, nesta história cheia de controvérsias, pontos obscuros e detalhes nunca esclarecidos, a autoria da carta é o que menos importa.

O fato é que, se houvesse sucumbido à renúncia, tendo em vista a sanha de seus adversários e as graves acusações que recaíam contra si e seus familiares, Getúlio teria sido alvo de um linchamento moral sem precedentes. “Getúlio tinha uma profunda consciência de seu significado como personagem histórico. Seu último e trágico gesto precisa ser compreendido dentro dessa dimensão”, afirma o historiador Jaime Pinsky, professor da Unicamp. Quer dizer: o suicídio foi um ato político. “Ele preferiu protagonizar um teatro de tragédia a submeter-se à humilhação e ao teatro patético que os adversários encenariam com sua renúncia”, diz.

Segundo o historiador Marco Antônio Villa, autor de Jango, um Perfil, e que atualmente trabalha na biografia política de Vargas, aos 72 anos ele apresentava um certo cansaço e uma indisfarçável solidão. “Durante todo aquele mês de agosto, ele se sentiu abandonado pelos antigos aliados. Com toda a sua história de vida, ele não se submeteria mais à renúncia ou à derrota final do exílio”, diz. Para o presidente, a única forma de impedir a humilhação de uma devassa em sua vida era o suicídio.

Outro ponto pendente é que, vivo, Getúlio, ou pelo menos sua família, teria de enfrentar a Justiça. “A chamada ‘República do Galeão’ prosseguiria fustigando-o, num processo que talvez culminasse com sua prisão ou a prisão de gente muito próxima a ele”, diz Marco Antônio. De fato, menos de um mês depois da morte do presidente, o IPM que investigava o atentado a Lacerda foi encerrado e o irmão de Getúlio, Benjamim, e o filho, Lutero, inocentados. O único culpado foi Gregório Fortunato.

Com o suicídio e a comoção nacional que se seguiu, Getúlio transformou seu nome em mito. “Não foi uma decisão fácil, mas a percepção que Getúlio tinha de si mesmo, de seu papel histórico, transcendia sua própria existência terrena, de carne e osso”, diz Jaime Pinsky. Assim, os que conspiraram contra ele tiveram que esperar dez anos para, só então, concretizar seus planos. Antes disso, apesar de algumas tentativas, não houve clima político nem apoio popular para tal. Só exatamente uma década depois a “Banda de Música” udenista e os mesmos militares que assinaram o Manifesto dos Generais conseguiriam chegar ao poder, após derrubarem o herdeiro direto do getulismo, João Goulart. Afinal, o golpe de Estado que o país assistiria em 1964 foi, em edição revista e atualizada, o mesmo que Getúlio adiou, em 1954, ao apontar contra o próprio peito o cano frio do Colt calibre 32 com cabo de madrepérola.

(Texto publicado originalmente na revista Aventuras na História, agosto de 2004)

por Lira Neto

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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Amélia, que era mulher de verdade ...

Eu morava numa favela de Vitória, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na época, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir à praia do Canto, próxima ao centro da capital. Acordei para ir à praia e acabei presa na Prainha. É o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa construção bonita do século 17. Ali está instalado o quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, do outro lado da baía.

Eu tinha dado quatro plantões seguidos na redação da rádio Espírito Santo e já tinha quase um ano de profissão. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquíni vermelho. Caminhando pela Rua Sete em direção à praia, alguém gritou de repente: "Ei, Marcelo?"

Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa direção com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente à Polícia Federal. Meu ônibus sempre passava em frente à sede da PF e eu tentava guardar os rostos. "É a Polícia Federal" - avisei ao Marcelo...

Em instantes estávamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar: "O que está acontecendo?" Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o camburão. Era uma camionete Veraneio, sem identificação. Eu tive uma reação curiosa: antes que me empurrassem sentei no chão da calçada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a atenção das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manhã de domingo, havia pouca gente circulando. Achava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justiça na cabeça, reclamei: "Moço, cadê a ordem de prisão?" O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta: "Esta serve?"

As algemas eram diferentes, eram de plástico, e estavam muito apertadas, doíam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em direção a Vila Velha, onde fica o quartel do Exército. Eu ainda achava que não era nada comigo, que o alvo era o Marcelo. Ele estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a única greve de estudantes do país daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vitória e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Achei que estava presa só porque estava indo à praia com o Marcelo.

A Veraneio entrou no pátio do quartel, o batalhão de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu. Sobre mim jogaram cães pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: "Terrorista, terrorista!". Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita.

De repente, os soldados que me cercavam começaram a cantar aquela música do Ataulfo Alves: "Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade". Só então percebi que minha prisão não era um engano. "Amélia" era o codinome que o meu chefe de ala no PC do B tinha escolhido para mim: "Você, a partir de agora, vai se chamar Amélia". Quis reagir na hora, afinal não tenho nada de Amélia, mas não quis discordar logo na primeira reunião com o dirigente.

O comandante do batalhão era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo Cândido Sequeira, que exerceu o comando do 38º BI entre 10 de março de 1971 a 13 de março de 1973], que fingia que mandava, mas não via nada do que acontecia por lá. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capitão Guilherme, o único nome que se conhecia dele. Ele era o chefe do S-2, o setor de inteligência do batalhão. Todos os interrogatórios e torturas estavam sob a coordenação dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofetão só porque eu o encarei. "Nunca mais me olhe assim!" - avisou.

Fui levada para uma grande sala vazia, sem móveis, com as janelas cobertas por um plástico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de pé e me mandaram não recostar na parede. Chegaram três homens à paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japonês. Mandaram eu tirar a roupa. Uma peça a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu: "A roupa! Tire toda a roupa."

Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. O homem de cabelo preto falou: "Posso dizer a todos eles para irem para cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim."

Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas é relativo, não sei quanto tempo durou essa primeira ameaça. Viriam outras.

Eles saíram e o homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu não conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento. Então, fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta.

_Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera, ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo doía.
Não sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque não via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto. Não sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu não ouvia nada, não via nada. Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra._

Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro. Lembro que quando aqueles três homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situação. Eu pensava que era só sadismo. Não sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que além de tudo tinha o apelido de Míriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso. Míriam e Míriam, juntas na mesma sala. Essa era a graça, imagino.

Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo. Ninguém tratou de minha ferida, não me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capitão Guilherme, eu deixei cair no chão. Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento.

Só três dias após minha prisão é que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema anônimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa. Ele procurou muito e só conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas só ao final de três semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.

Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, saí três meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei lá com um mês de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu bebê. Foi o que médico me disse, quando saí de lá, com quatro meses de gestação. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, anêmica, com carência aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu bebê na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o médico. "A má notícia eu já sei, doutor, vou procurar logo um médico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho."

Mas isso foi ao sair. Lá dentro achei que não havia chance alguma para nós. Eu era levada de uma sala para outra, numa área administrativa do quartel, onde passava por outras sessões de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimidação. Na noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sessão de interrogatório pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me ameaçando de estupro, dizendo que iam me matar.

Um dia achei que iria morrer. Entraram no meio da noite na cela do forte para onde eu fui levada após esses dois dias. Falaram que seria o último passeio e me levaram para um lugar escuro, no pátio do quartel, para simular um fuzilamento. Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e fuzis, e pensei: "Eu sou muito nova para morrer. Quero viver".

Um dia, um outro militar, que não era nenhum daqueles três, botou um revólver na minha cabeça e falou: "Eu posso te matar". E forçou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solidão, de abandono. Eu me senti absolutamente só no mundo. Pela falta de notícias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer também e que ninguém saberia da minha morte, pensei. Mas não quis demonstrar medo. Lembro que o homem do revólver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: "Sim, você pode pode me matar". E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: "Sim, você pode!"

Um dos interrogatórios foi feito na sala do capitão Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele não estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biquíni e a camisa, era a única roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.

Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou. Ignoraram a revelação e minha condição de grávida não aliviou minha condição lá dentro. Minha cabeça doía, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava. Eu não podia me lavar, não tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, à noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alemães latindo na minha cara. Não mordiam, mas pareciam que iam me estraçalhar, se escapassem da coleira. E, para enfurecer ainda mais os cães, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: "Terrorista, terrorista!"

As primeiras três semanas que passei lá foram terríveis. Só melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi então que eles não pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, é o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: "E aí, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer lá" Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Exército, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.

Quando o trio voltou para o Rio, a situação ficou menos ruim. Eles já não tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte não havia janelas, a porta era inteiriça e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.

Até que chegou o dia de assinar a confissão, para dar início ao IPM, o inquérito policial-militar que acontecia lá mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capitão Guilherme, o S-2, e levei um susto. Lá estava o Marcelo, que eu pensava estar morto. Os militares saíram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi até a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones lá atrás. Era tudo grampo.

Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e lá ficou nove meses numa solitária. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ninguém para conversar. Foi colocado lá para enlouquecer. Nove longos e solitários meses Nós, todos os presos, e os que já estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que eles chamam de sumário de culpa, o único momento em que o réu fala. Eu com uma barriga de sete meses de gravidez.

O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PC do B no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.

Nunca mais vi o capitão Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, após a prisão, e virou jornalista. Fomos para Brasília em 1977. Por ironia do destino, Marcelo só conseguiu vaga de repórter para cobrir os tribunais. E lá no STM, um dia, ele reviu o capitão Guilherme. Depois disso, não soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda está vivo.

O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.

Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.

Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país.

por Míriam Leitão

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domingo, 3 de agosto de 2014

O VINHO DA HISTÓRIA

Foto por Thiago Souza Santos
O tempo é um filtro poderosíssimo! Sob sua ação, vão-se os “embalistas” – termo bastante usado pelos punks locais nos anos 1980/90 para definir os que entravam no movimento de forma passageira, “no embalo” – e ficam os que realmente têm dentro de si a essência da coisa. Na ultima sexta-feira, dia 01 de agosto do ano da graça de 2014 da era cristã, houve um memorável encontro das duas bandas mais importantes da cena punk/Hard Core sergipana. Foi também um encontro de gerações, tanto no palco(que não existe) quanto no público – numeroso!!! - que veio prestigiar seus heróis suberrâneos, underground. O trigo, separado do joio – que preferiu ficar em casa ou nem sequer tomou conhecimento do evento(falo, evidentemente, dos que puderam ir e preferiram não faze-lo).

Foto por Thiago Souza Santos
“Viva Macaô!”*, bradou Silvio em “O vinho da história”. E eu estava bem ao lado da filha de Macaô, hoje já bem crescidinha. À minha frente, crianças pequenininhas, filhas de ilustres figuras da “cena”, acompanhavam tudo num animado ritmo “galinha preta pintadinha do capeta” (lembre-se, o diabo é o pai do rock). A imagem, que eu vi com meus olhos que a terra há de comer mas que espero que você possa visualizar em sua mente a partir do meu relato, é um retrato perfeito do que estou tentando transmitir sobre o que foi aquela noite: uma celebração da arte transgressora que passa de geração a geração.

Foto por Snapic
Tudo começou quando se confirmou uma nova reunião da Triste Fim de Rosilene para o show comemorativo dos 15 anos do selo Estopim, em Salvador. A partir daí se desencadeou uma pressão latente para que eles se apresentassem também em Aracaju. O resultado foi uma noite inesquecível, para entrar nos anais (ops!) da História do rock sergipano, com a mais que acertada decisão de concretizar o feito em mais uma edição do vitorioso projeto “Clandestino” e com a presença da Karne Krua, verdadeiro patrimônio histórico – História viva, ativa e pulsante - da cena local. E mais: com a participação, no show da Karne, de DOIS bateristas – o atual, Oitchi, discípulo brilhante e aplicado, e o mestre, Thiago Babalu. E MAIS: OS DOIS TOCANDO AO MESMO TEMPO E SE REVEZANDO, DIVIDINDO O MESMO BUMBO. Quando cheguei ao local, um half de skate abandonado na belíssima área verde – coisa rara, em Aracaju – que margeia o rio Poxim no Inácio Barbosa e vi que seria assim, imediatamente intuí que aquela noite seria ainda mais especial do que eu já esperava que fosse ...

Foto por "Cabelera"
E foi! O show da Karne Krua foi matador! O “clone” drum, quando simultâneo, não foi exatamente preciso – pouco ensaio, compreensível – mas a energia gerada por aquela dupla de britadeiras humanas impulsionou banda e publico na direção de uma catarse poucas vezes vista. Nem as panes da aparelhagem estragaram a festa – muito pelo contrário, deram um “charme” especial à apresentação, já que o povo seguia cantando junto com Silvio, Babalu e Oitchi quando o som sumia. Antológico!

Um publico considerável, que ia chegando à medida que a noite avançava, já se aglomerava pelos arredores enquanto a Triste Fim rearrumava o kit de bateria e plugava seus instrumentos. Coisa linda de ver! Bem familiar, inclusive, com a presença de várias crianças. A se lamentar, apenas, o desleixo de alguns presentes que jogavam despreocupadamente suas latinhas no chão bem ali, do lado do mangue. É como se dissessem “foda-se, quem teve a idéia que limpe meu lixo depois, ou deixe aí, pro poder publico mandar limpar – se limpar”. Estão precisando prestar um pouco mais de atenção ao que dizem as letras das músicas que foram ali ouvir – se é que foram ali para ouvir musica, vai saber. O espírito da “balada” hedonista e egoísta – que é do que eventos como o clandestino busca distancia, afinal – é onipresente, infelizmente. Espero que alguns deles tenham, pelo menos, tido a decência de contribuir com a caixinha voluntária que estava sendo passada de mão em mão ...

Foto por Thiago Souza Santos
Talco no salão – Estava distraído circulando e batendo papo e fui pego de surpresa com o inicio brusco do show da Triste Fim, sob uma chuva de talco arremessada por um dos presentes – isso é “armada” de Iuri! Não estou reclamando, ficou legal, até porque não fui “atingido”. Banda entrosadíssima, parecia que eles nunca tinham parado, tal a precisão na execução das músicas, rapidíssimas e gritadíssimas por uma Daniela endiabrada – musa total, sensacional! Mas veja bem: outro tipo de "musa". Despojada, sem pedestal, no mesmo nivel, gente como a gente. Do tipo que vira musa porque incorpora idéias com as quais muita gente se identifica. Uma musa punk, no melhor sentido da palavra. Muito por conta disso - da mensagem - boa parte do público, em êxtase, acompanhava cantando junto e “agitando”, com cuidado para não esbarrar nas crianças. Destaque para Ravi, filho de Fúria e Jaqueline, solando altos “air guitars” na frente do palco.

O show foi curto, mas intenso – como deve ser. Tudo devidamente registrado em fotos e vídeos, de forma igualmente espontânea, da parte do público, para a posteridade. Abaixo, links para alguns destes registros, que ajudam a eternizar uma noite que não devia ter terminado ...

* Nagir Macaô era fanzineiro, poeta e capoeirista.

Vídeo por Faz o que pode produtora
Karne Krua por Diários Cozidos
Triste Fim por Diários Cozidos
Karne Krua por Snapic
Triste Fim por Snapic

por Adelvan

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Foto por Thiago Souza Santos

domingo, 27 de julho de 2014

DON´T MAKE MUSIC, MAKE NOISE !!!!!!!!

“Isso não é coisa de Deus não”, foi o que me veio à cabeça quando a cabecinha vermelha do braço do meu pick up repousou sobre a bolachinha de vinil também vermelha que me foi enviada por minha amiga de longa data Marli, do No Sense. Os sulcos transmitiram aos alto-falantes o monstruoso som de uma banda cearense da qual já tinha ouvido falar, mas nunca ouvido o som: Obskure. “Uterus and grave”, sua primeira demo-tape, de 1990, foi relançada em vinil num belíssimo split com o “debut” dos pioneiros do grind core de Santos, “Confused Mind”.

As capas e encartes reproduzem fielmente o design original xerocado – com uma ligeira adptação ao novo formato, evidentemente – obra do gigante George Frizzo! Como a do Obskure ficou na frente, consideirei-a o lado A e ouvi primeiro. Me impressionei: trata-se de uma musica sombria e extremamente barulhenta, com três faixa relativamente longas – para o padrão do “grind” – que combinam um instrumental poderoso a letras opressivas vociferadas por um vocal pra lá de gutural.


Já a do No Sense, do mesmo ano, é uma velha conhecida, mas que tomou uma nova dimensão ao ser ouvida assim, em pleno século XXI e em glorioso vinil colorido. Tem 20 faixas(!!!!), sendo as 10 primeiras barulhinhos “from hell” intitulados “noise song”. A primeira coisa mais parecida com uma musica é a faixa título, “confused mind”, na qual já podemos sentir o vocal de Marly ainda “verde” – se comparado aos dias de hoje e mesmo ao que foi gravado na época, posteriormente – e com uma pronuncia em inglês pra lá de tosca, beirando o risível – “Devastation and massacre”, em suas palavras, virou “devastation and massêicre”! Normal, ela tinha apenas 13 anos quando gravou esta pérola! Era, aliás, uma das peculiaridades que mais contribuíram para chamar a atenção para a banda, na época. Isso e o fato de que eram REALMENTE bons, com um som que fugia do barulho óbvio e monocórdico, como pode ser constatado na própria faixa citada, um pequeno clássico que se destacava do conjunto por ter um ritmo mais cadenciado e uma melodia mais reconhecível.

Grande resgate de uma página gloriosa – e obscura! – de nossa música feita à margem dos padrões pré-estabelecidos pela ditadura do “bom gosto” – ênfase nas aspas. Por obra e graça de um selo alemão, “Winter productions”, sediado em Hamburgo.

DON´T MAKE MUSIC, MAKE NOISE !!!!!!!!


A.


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EVACUEM ESSA ÁREA !!!!!!

Câmbio Negro HC., pioneira banda punk/Hard Core recifense, já tinha 7 anos de formada quando conseguiu, finalmente, gravar e lançar, em 1990, seu primeiro LP, "O Espelho dos deuses". Que foi, também, o primeiro disco (EM VINIL) de Hard Core lançado por uma banda nordestina ... 

Eram outros tempos, claro. Tecnicamente, ainda estávamos na década de oitenta do século passado. Nada de internet e todas as facilidades de gravação e comunicação que temos hoje em dia. Tudo era feito na raça, na base da força de vontade pura e simples. O disco, lançado de forma independente pela banda, sem nenhum suporte de gravadora, foi totalmente produzido no Recife e é uma verdadeira pedrada! A potencia de sua sonoridade permanece, mesmo quando ouvido hoje, tanto tempo depois. É um clássico, portanto. Não fosse um produto de "fora do eixo" - de um tempo em que o termo ainda não havia sido apropriado por entidades de procedência e finalidade duvidosa - constaria, sempre, de todas as listas, ao lado de outros clássicos do cancioneiro punk nacional, como os discos do Cólera, coletâneas como "Sub" e "crucificados pelo sistema", do Ratos de Porão.

Ratos de Porão é, aliás, a influência mais óbvia, até mesmo pela presença do vocalista "Pesado", que não tinha esse apelido por acaso. Seu som era, no entanto, bem mais elaborado - do que o do Ratos dos primórdios. Graças, principalmente, à excelência de seus músicos, o guitarrista Pedrito, o baixista Ricardo "Paredes", e Nino, na bateria. Pesado tinha um vocal bastante característico, potente sem ser gutural ou excessivamente gritado. E o mais importante: eles sabiam COMPOR! As músicas são todas ótimas, com refrões fortes e um excelente senso de ritmo e melodia. Nas letras, o de sempre: críticas às principais instituições que regem o destino dos homens, como a igreja, o exército, a polícia e a política. Mas feitas de forma pensada, inteligente, sem o panfletarismo pueril presente em muitos de seus pares.

O disco tem pelo menos dois clássicos absolutos do Hard Core nordestino, as músicas "Meu Filho" e "A Ordem". Dois verdadeiros "hits" subterrâneos - quem viveu a época e teve a oportunidade de vê-los ao vivo sabe a catarse que a frase "Evacuem essa área", berrada a plenos pulmões por Pesado depois da abertura com um riff básico porém pra lá de eficiente, provocava na audiência. Mas TODAS as faixas, sem excessão, são muito boas. Da "pancada" que abre o disco, "programados pra morrer", até o final, com "consciência inválida", passando por momentos antológicos e de forte apelo imagético, como na letra de "vaticano", que sentencia: "o vaticano late e o povo levanta as mãos pro céu". Ou em "O ecologista morto", um belíssimo libelo em memória de Chico Mendes - chega a ser arrepiante a intensidade com que seu nome é pronunciado na música, em tom de lamento e, ao mesmo tempo, exaltação.

A Câmbio Negro gravou um segundo disco - "Terror nas ruas" - mais bem produzido - por Redson, do Cólera - porém mais fraco, irregular, dois anos depois. Depois, só mais uma demo-tape, "De volta às ruas", de 1997, que parecia prenunciar bons ventos para o futuro. Prognóstico que, infelizmente, não se confirmou. A banda acabou pouco tempo depois. De vez em quando ensaiam uma volta, mas nada de concreto até o momento. Uma pena. Deixaram, no entanto, uma herança poderosa que segue viva na memória de todos, personificada, principalmente, nas 14 músicas que integram seu primeiro álbum.

por Adelvan

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domingo, 20 de julho de 2014

VIVA JOÃO UBALDO RIBEIRO

O único livro que li dele foi "O Sorriso do lagarto". Adorei. Lembro de um personagem que tinha câncer no cu. Homosexual, num determinado trecho da narrativa ele descreve a primeira vez em que deu o rabo com uma riqueza de detalhes tão impressionante que pensei: "não é possível, esse cara já deve ter dado, pra descrever a sensação de forma tão realista". Depois, numa entrevista, acho que na Caros Amigos, vi que não fui só eu que tive essa impressão, já que os entrevistadores lhe fizeram o mesmo questionamento. Sua resposta foi ótima: "já me disseram que eu descrevo muito bem a morte, e no entanto nunca morri".

Bom, agora ele está morto. Como homenagem, reproduzo abaixo uma entrevista conduzida por Luiz Rebinski Jr. e publicada originalmente no "CÂNDIDO - JORNAL DA BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ". Quando ele estava vivo, evidentemente. Com 71 anos. Morreu com 73.

João Ubaldo Ribeiro conseguiu o que no Brasil parece pouco provável a um escritor: conciliar sucesso de público com a boa recepção crítica de sua literatura. O que não é pouco em se tratando de um escritor cujo maior sucesso editorial é um livro de 700 páginas que faz um recorte de quatro séculos na história da Bahia, em um texto que mistura história, memória e leves toques de literatura fantástica. Trata-se de Viva o povo brasileiro, romance com uma trajetória de quase três décadas e que se mantém atual, estudado e discutido. Ainda assim o romancista prega cautela àqueles que tratam Viva o povo brasileiro como um clássico da literatura brasileira. “Acho um pouco prematuro chamá-lo de clássico. Mas é um livro que dura desde que saiu, portanto já está durando uns 30 anos”, diz o escritor em entrevista exclusiva ao Cândido.

Autor de outros romances célebres, como Sargento Getúlio e O sorriso do lagarto, João Ubaldo também deve parte de seu sucesso com o público à sua marcante presença como cronista na imprensa brasileira. Desse trabalho, resultaram livros como O rei da noite e Um brasileiro em Berlim. A crônica como uma fonte de renda aos romancistas é uma dos assuntos abordados aqui pelo escritor, que gravou as respostas em um arquivo de áudio e as enviou à reportagem, o que permitiu ao autor divagações a cerca dos temas que lhe foram sugeridos, como a tradução que fez para o inglês de seus próprios livros, a repercussão de sua obra no exterior e sua formação como intelectual na Bahia, ao lado de figuras como Glauber Rocha.

Eloquente, João Ubaldo dá à entrevista um caráter de bate-papo com o leitor, que pode conferir um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos respondendo questões de forma franca e sem rodeios.

Nos últimos anos, o senhor tem lançado muitos livros de crônica, sempre intercalando com os romances. A crônica, além de ser uma de suas fontes de renda, é um gênero que lhe ajuda enquanto escreve romances?
Os livros de crônicas são meus porque eu escrevi essas crônicas, mas a ideia de cada volume, a data de publicação e a própria seleção das crônicas, é feita pelas editoras. Geralmente mandam me consultar sobre a seleção, mas eu tenho preguiça de ficar lendo aquele negócio todo que escrevi, e que às vezes eu gostaria de meter a mão e melhorar, porque acho que saiu ruim, mas também não quero ter esse trabalho, afinal de contas já foi publicado, então deixa como está mesmo. Enfim, não sou eu que programo meus livros de crônicas, são as editoras. Agora, se escrever crônicas é bom para um romancista? Não deixa de ser, pois haja ou não a chamada inspiração — a qual, aliás, eu não acredito muito, talvez até por causa da experiência do jornalismo —, a crônica tem que sair. Você não pode dizer “prezados leitores, ontem não aconteceu nada” e sair com um jornal em branco. É bom escrever crônica, por um lado, para quem é romancista, porque o sujeito fica sempre com a redação apurada, a intimidade com as palavras sempre aguçada pelo uso. Enfim, é bom. Mas,
claro, a felicidade não pode ser comprada, às vezes ou frequentemente, quando se está escrevendo um romance, a obrigação de interromper a concentração, quando se está absorvido pela história, em vigília ou acordado, é ruim.

Seus livros já venderam mais de 3 milhões de exemplares em um país em que nos acostumamos a dizer que não se lê. Como o senhor chegou a esses números em uma nação de poucos leitores?
Não sei como esses livros venderam tanto, não faço ideia, as coisas não acontecem repentinamente. Estou com 71 anos, escrevo há praticamente cinco décadas, até mais na verdade, porque acho que meu primeiro conto foi publicado quando eu tinha 17 anos, em 1958, não tenho certeza. Mas, de qualquer forma, são 50 anos. Então nada acontece subitamente.
Para quem tomou conhecimento de minha existência agora, parece que as coisas aconteceram rápido. Para quem lê biografias também. Fulano de tal nasceu em tanto de tanto de tanto, aos 18 anos ingressa na faculdade de tal, forma-se... Mas o que tem no meio do caminho as pessoas não leem, parece tudo fácil, uma transição não traumática. Enfim, eu não sei, não aconteceu de repente, então, nunca houve impacto. Sempre gostei que meu livro vendesse, mas nunca fui um sucesso estrondoso, acho eu. Aliás, acho não, nunca fui. Então, já tive livros que ficaram muitos anos em listas de mais vendidos — mas não estourando. Tenho essa sensação, que estouro nunca fui. Mas talvez por eu escrever em jornal, isso me popularize um pouco, amplie o número de leitores, não sei explicar.

Além das vendas expressivas de seus livros, seu romance mais famoso, Viva o povo brasileiro, é um tomo de setecentas páginas, com uma narrativa entrecortada que conta quatro séculos da história baiana. Certamente não é a sinopse de um previsível best-seller. Em sua opinião, por que o livro se tornou um clássico?
É, realmente, Viva o povo brasileiro é um livro considerado difícil. Não acho tanto assim, mas talvez, pelas circunstâncias do Brasil, seja um livro difícil. Não tenho muita condição de avaliar. Agora, acho um pouco prematuro chamá-lo de clássico. É um livro que repercute desde que saiu, portanto já está durando uns 30 anos, não tenho certeza. E até hoje é estudado, vende bem, é adotado em vestibulares, etc. Até tenho medo de os meninos ficarem com raiva de mim pelo resto da vida. Mas chamá-lo de clássico, acho um pouco prematuro, aliás, acho bastante prematuro.

A política é um traço marcante em sua literatura. De Sargento Getúlio a Diário do Farol, as ações dos personagens e as tramas sempre dão margem para uma leitura mais politizada. Há alguns anos, o senhor escreveu um ensaio sobre o tema, chamado Política. Depois de um período de repressão, mas também de bastante engajamento, hoje, com a democracia, tem-se a impressão de que viramos apolíticos. Em sua opinião, melhoramos ou pioramos nos últimos 30 anos em relação à nossa participação nas questões nacionais?
Acho que não estamos menos politizados, não. De certa forma, essa é uma pergunta muito complicada, porque envolveria uma conversa de horas ou dias, ou até mesmo um seminário sobre as contradições e os enigmas brasileiros de que nós sempre ouvimos falar e que nunca conseguimos destrinchar, nunca conseguimos compreender, por mais que grandes interpretes tenham tentado, como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre. Mas nós, até hoje — é meio deprimente constatar isso —, nos comportamos muito mais como súditos do que como cidadãos.
Nos acostumamos, inclusive, à tutela do governo, a aspirarmos ao funcionalismo público no sentido mais lato da palavra, como segurança e garantias de benefícios muitas vezes descabidos e não encontradiços em outros países. Nós aprendemos a ser apáticos, dominados e a ter pouco senso de comunidade, ou seja, pouco senso de interesse coletivo. Nós temos uma formação que eu não sei de que buraco saiu, não tenho vontade de fazer grandes análises, mas temos uma tradição, até hoje presente, com pequenas variações, aqui e ali, de individualismo.

O senhor costuma dizer, assim como seu colega Luis Fernando Verissimo, que escreve por dinheiro. Muitos autores acham isso um sacrilégio. Esse tipo de postura denota certa falta de profissionalismo de nossos escritores?
Acho que pouca gente hoje tem essa opinião. Porque se escrever por dinheiro não tivesse importância, então só podiam escrever aqueles que tivessem recursos suficientes para dedicar seu lazer à obra literária, ou seja, escreveria quem pode, de certa maneira isso seria uma coisa discriminatória. Não conheço nenhum contemporâneo que, como aqueles poetas russos da União Soviética, como [Yevgeny] Yevtushenko, que era extraordinariamente popular, viva da poesia. Mas no mundo todo, os poetas são geralmente professores universitários, bibliotecários, enfim, exercem outras profissões porque a poesia não costuma dar camisa a ninguém. Mas os escritores de ficção, de prosa em geral, são cada vez mais remunerados, embora haja agora esses problemas de direito autoral por causa da internet, mas isso já é outra conversa. Também não acho que é falta de profissionalismo não, porque acho que cada vez mais há essa consciência dos escritores de que eles têm que ser pagos, não é nenhum favor.

Mas há certo preconceito com livros feitos por encomenda, não?
Quando digo que escrevo por dinheiro, em primeiro lugar, estou seguindo uma tradição e uma norma. Norma não, mas um exemplo, digamos assim, muito dignificante, porque foi assim que viveu [Charles] Dickens, foi assim que viveu [Honoré de] Balzac, foi assim que viveu Walter Scott. As pessoas acham que encomenda é uma coisa aviltante, quando, na verdade, a encomenda é regra. Sempre lembro isso, toda a arte da Renascença foi feita por encomenda dos mecenas da época, pelos papas, pelos homens fortes das várias repúblicas e ducados e outros tipos de organização política em que se dividia a Itália antes da unificação. Isso é uma tradição meio atrasadinha do Brasil, que já está saindo disso. É uma tradição meio romântica, e meio inspirada em tragédias chorosas, sejam escritas, sejam no cinema ou teatro, em que sempre tem aquele poetazinho tuberculoso definhando numa água furtada úmida, num frio horroroso e morrendo aos 23 anos, deixando a desiludida amada, aliás, a ingrata amada, melhor ainda, casada com um fidalgo de boas posses. Na realidade, escritor, como qualquer pessoa, gosta de dinheiro e quer.

O romance Liberdade, do escritor Jonathan Franzen, tem feito sucesso por, supostamente, ser um livro-mural, que resgata a estratégia de romancistas clássicos como Tolstói e constrói um painel de nossa época (os anos 1990 e 2000, principalmente). Entre as várias discussões que o romance suscitou, uma se refere à falta de romances similares no Brasil. Acha que faltam livros com esse tipo de ambição — como é Viva o povo brasileiro — em nossa história literária?
Não li esse romance. Tenho um problema, porque fico lendo as mesmas coisas o tempo todo, meu pai dizia que isso era um claro sintoma de loucura. Às vezes, passo lendo as mesmas páginas, dos mesmos autores, durantes meses. Então é como se eu não tivesse tempo de ler esses negócios. Acredito, também, que não ia ficar muito fascinado com esse livro. As pessoas não acreditam, mas já contei essa historia várias vezes, a gênese de Viva o povo brasileiro surgiu de um encontro casual que tive com Pedro Paulo de Sena Madureira, que na época trabalhava na Nova Fronteira, que era minha editora. Ele brincou comigo, estava saindo o Vila real [romance de João Ubaldo publicado em 1979] e ele falou assim: “vocês, escritores brasileiros, só escrevem esses livrinhos fininhos para ler na ponte aérea, que a gente traça num instante”. Aí brinquei com ele: “agora você vai ver, vou fazer um livro grosso”. A primeira coisa que pensei, claro, não foi fazer Viva o povo brasileiro, que eu não tinha na cabeça, mas fazer um livro grosso. Talvez, então, inconscientemente, eu tenha passado desse dia em diante, a construir na cabeça, sem notar, sem saber, um livro grosso, que viria a ser Viva o povo brasileiro. Mas eu não sei se faltam livros com esse tipo de edição, não sei se eles são necessários, não acompanho essas coisas.

Ainda sobre essa questão da identidade como tema de nossa ficção, o senhor consegue perceber a influência de Viva o povo brasileiro em livros que vieram depois dele?
Acho que influência mesmo, não. Tem um livro [Um defeito de cor, da autora mineira Ana Maria Gonçalves], que é enorme, acho que até maior que o Viva o povo brasileiro, em que aparecem personagens meus. Evidentemente, tomei isso como uma homenagem, uma citação, não como plágio, porque ela fala, se não me engano, em Amuleto, que é personagem meu, fala no barão de Pirapuama, que também é inventado por mim. Mas isso não chega a ser uma influência. De resto, eu nunca notei nada não, acho que nunca influenciei ninguém.

Um fato interessante em sua carreira é que o senhor traduziu uma de suas obras, Sargento Getúlio, para o inglês. Qual é a história por trás desta tradução: foi falta de confiança nos tradutores estrangeiros ou algo inusitado?
Não, eu traduzi dois. O Sargento Getúlio foi o primeiro livro traduzido, é uma história muito comprida, mas acabou batendo em uma editora que, acho eu, nem mais existe, a Houghton Mifflin, de Boston, uma editora respeitada, mas que fechou. Fechou não, foi absorvida por outra, sei lá. Essa editora encomendou uma tradução, aí me mandaram as 30 primeiras laudas, e estava uma coisa terrível. Então, como era meu primeiro livro no exterior, e logo nos Estados Unidos, após assinar o contrato com eles, choveram propostas do mundo todo para publicar o livro, e eu naquela empolgação, tinha 20 e poucos anos. Aí não resisti e me ofereci para fazer a tradução. Não tinha nenhum prestígio para eles pagarem um tradutor altamente qualificado, e assim mesmo era difícil de achar, porque aquele livro é difícil até para muitos brasileiros, quanto mais para um americano, mesmo que saiba bem português. Aí fiz a tradução, foi terrível, mas fiz. Em seguida, por uma razão semelhante, fiz a tradução de Viva o povo brasileiro. Não se achava tradutor para aquilo, e meu agente, que é muito amigo meu, Thomas Colchie, me convenceu que talvez eu fosse a única pessoa capacitada a traduzir aquilo, e aí acabei traduzindo, mas não gosto não. Passei mais tempo traduzindo o Viva o povo brasileiro do que escrevendo o romance.

A vida literária hoje se intensificou. Os escritores quase não param: são convidados para bate-papos, escrevem para jornais e revistas e participam de programas de TV. O senhor certamente foi afetado por esse assédio. Como se organiza para que sua vida de escritor não se torne um problema para a criação?
Recebo de um a dois convites por dia, e tem uns que tenho vergonha de recusar, mas é humanamente impossível. Humanamente impossível não, é até desumanamente impossível, enfim, é terrível, as pessoas não compreendem, ficam ofendidas quando recuso, insistem, insinuam discriminação, dizem que eu só quero ir à Europa ou a grandes centros, ficam chateadas. Hoje mesmo me enviaram uns dois convites, um de Ribeirão Preto e o outro de Pernambuco. E este ano, o grande Jorge Amado, meu compadre e amigo, faria 100 anos, e aí eu não posso recusar uma porção de convites para comparecer a eventos, em reverência à memória dele.
Vou viajar pelo mundo todo, com exceção do Japão e da China — lugares que tenho certa relutância de ir —, mas à Europa eu com certeza vou. Mas isso é complicado, no ano passado não consegui escrever, e neste ano também não vou conseguir. O romance, se a gente deixar, abandonar, na volta desanda, perde-se o livro. Quem me ensinou essa expressão foi o Rubem Fonseca, que é muito amigo meu. E ele tem toda razão. No ano passado, escrevi não sei quantos começos de romance, desandou tudo, era uma interrupção atrás da outra. No ano que vem, acho que vou ter que me esconder.

Recentemente o senhor disse que não gosta do “papo literário”. Em outras palavras, a literatura é fascinante, o que estraga são os escritores (quando resolvem falar fora de seus livros, em suas confrarias)?

O papo literário a que eu me refiro não é o papo com escritor, é papo com amador. Não que eu tenha algo contra, evidentemente que não, mas essa chatice raramente ocorre com profissionais. Por exemplo, não entra na cabeça de algumas pessoas que eu não tirei da vida real aqueles personagens, ou como diz aquela expressão que eu detesto, que me inspirei em alguém. É que acontece o seguinte: se meus personagens são verossímeis, é natural que eles sejam parecidos com alguém. Se estou caracterizando um personagem pão-duro, muita gente se enquadra nesse perfil. Daí porque conhecem alguém de Itaparica, ficam falando isso.
É um saco, insuportável. Outra coisa que acontece é gente que fica alugando para sugerir assuntos. A pessoa não compreende que não sai dessa forma, não vem de fora para dentro. É uma maneira meio barata de se dizer, mas não me resta outra maneira de dizer. Então, ficam dizendo “você podia escrever sobre não sei quem”. Ou acham que eu recolho histórias.

Um de seus livros de crônicas, O rei da noite, é quase todo inspirado em causos de sua época de boemia. Mas há muitos anos o senhor não bebe mais. Nesses anos de abstinência, o escritor João Ubaldo chegou a sentir saudade da bebida? Ou seja, a bebida, como tema, lhe faz alguma falta?
Não. Passei não sei se 11 ou 12 anos sem beber, não bebia absolutamente nada. Hoje não tenho mais vontade de beber uísque. Mas antes, só não bebia dormindo, mas bebia o tempo todo. Mas de um tempo em diante começou a me prejudicar de uma forma avassaladora, daí parei. Quer dizer, não foi fácil, não foi num estalar de dedos, foi aos trancos e barrancos, mas acabei parando. E fiquei 12 anos sem tocar em álcool. Hoje, não tenho vontade nenhuma de beber como bebia antigamente, a mínima vontade, nem conseguiria. Mas nos fins de semana, às duas da tarde de sábado e às duas horas no domingo, me junto com minha turma de boteco aqui no Rio, que por acaso não tem literato nenhum — podia ter também, não sou contra a presença de gente do mesmo ramo, mas não tem literato nenhum. Aí eu tomo de quatro a seis chopes, acho eu, no sábado, e outros quatro a seis no domingo. De resto, não me faz falta não. Também não sou mais notívago.
Mas isso, claro, também é da idade. Vivo dentro de casa, não gosto de sair, estou casado há 30 e poucos anos, eu e minha mulher nos damos muito bem, conversamos muito, batemos papo, e aí não posso mais ser chamado de boêmio.

Seus livros foram traduzidos para vários idiomas, mas nossa literatura ainda é pouco lida fora, no mercado de língua inglesa, principalmente nos Estados Unidos. Como tem sido a recepção de seus livros fora do país? Quais são os lugares em que sua literatura é mais aceita?

A recepção dos meus livros, criticamente, geralmente é boa, com exceção do Viva o povo brasileiro nos Estados Unidos. O Viva o povo brasileiro já nasceu um pouco errado, porque não se pagam as resenhas pelo número de páginas do livro, então acho muito compreensível que um americano, numa quinta-feira em Nova York receba, para escolher para resenhar, vamos dizer, oito livros, só podendo resenhar um. Ele olha aquele tijolo — vindo de um país cuja capital é Buenos Aires e onde se fala também francês — e na sua mesa tem outro livrinho ótimo, de um alemão fantástico que está na moda em Berlim, de 180 páginas. Você acha que ele vai encarar as 700 páginas do Viva o povo brasileiro? O pagamento é igual, então ele não encara. E, além de tudo, não gostaram do livro. Enfim, meus livros nos EUA não fizeram o mínimo sucesso, inclusive o New York Times Book Review deu uma esculhambada no romance, o que fez o deleite de muitos brasileiros. É engraçado isso, de vez em quando alguém me dizia assim, com uma cara compungida, “seu livro foi esculhambado no New York Times, que coisa”. Eu ouvi isso umas três ou quatro vezes e aí elaborei uma respostinha. Quando sentia essa hostilidade velada, esse veneno quase explícito, eu dizia “é verdade, mas e você, quantas vezes foi esculhambado no New York Times?” Dá um certo status. Mas, engraçado, meus livros se dão muito bem em países nórdicos. Na Holanda, já ganhei até prêmio, homenagens, saiu praticamente tudo que escrevi, em varias edições. Viva o povo brasileiro lá, que se chama Brazilië, Brazilië, sai reeditado praticamente todo ano, o que é uma coisa raríssima. Um dos personagens do livro, o caboclo Capiroba, meu personagem antropófago, acha muito melhor comer holandeses de que comer portugueses e espanhóis. Prefere muito a carne holandesa, e os holandeses adoram essa historia deles serem mais gostosos para comer, literalmente, do que os portugueses e espanhóis, de quem, aliás, eles nunca gostaram. Na Alemanha também, meus livros são bastante editados e lidos. Na França, sou conhecido pelo mundo acadêmico, editado prestigiosamente pela Gallimard. Enfim, minha obra está no mundo todo, está na Europa inteira, acho que só não na Grécia e no leste europeu. Mas os lugares onde meus livros são mais aceitos são Alemanha e Holanda e, criticamente, na França.

O senhor foi amigo de Glauber Rocha e é uma das principais fontes de A primavera do dragão — A juventude de Glauber Rocha, livro de Nelson Motta. O livro recebeu muitas críticas a respeito de erros sobre datas e nomes equivocados. Leu a biografia, o que achou?
Eu li mais ou menos o livro, o Nelsinho é amigo meu, gosto dele, já foi meu companheiro de viagem à Copa, em pelo menos uma ou duas, eu o conheço há muitos anos. Enfim, me dou muito bem com ele e ele realmente me ouviu sobre muita coisa. Ele misturou uns troços lá, mas acho que isso não é grave. Quer dizer, não sei, os meus contemporâneos, amigos do Glauber e meus também, ficaram indignados com o livro. Eu não fiquei. Passei os olhos, não li com muita atenção, mas ele cometeu uns enganos. Acho que ele queria fazer um retrato colorido da juventude de Glauber, onde esses detalhes não são tão essenciais quanto seriam numa biografia historiográfica com mais cuidados acadêmicos. Mas eu era amigo de Glauber, sou amigo de Nelsinho, quero paz, amor, essas coisas.

Aliás, o senhor fez parte da geração Mapa, que atuou na literatura, nas artes plásticas, no cinema e no teatro nos anos 1950 e 1960. O que mais o marcou nesse período, além de sua amizade com Glauber Rocha?
Fiz parte da geração Mapa, mas com reservas, porque nunca publiquei nada na revista Mapa, em nenhum dos dois números. Mas era amigo, sou amigo de todos, acho que muitos continuam vivos, graças a Deus. Era um período de grandes ilusões de juventude, período de efervescência cultural na Bahia, criação de escola de teatro, criação de seminários de música, colóquios internacionais, a Bahia era uma festa cultural nessa época. Grande parte devido à ação do reitor Edgar Santos, que foi certamente o reitor mais notado da história da Universidade Federal da Bahia. Essa época é ainda época da juventude cheia de ilusões, de ideais, grandiloquente, às vezes radical, cheia de planos para o futuro, esperança, projetos, amores, leituras, debates, paixões, era um tempo bom, claro que era. Mas ter 71 anos também é bom.





Sargento Getúlio foi lançado em 1971 e ganhou o Prêmio Jabuti de 1972. Ambientado no Nordeste dos anos 1950, o romance narra a história de Getúlio Santos Bezerra, homem de confiança de um poderoso coronel de Sergipe, que precisa levar um preso político de Paulo Afonso até Aracaju.

Setembro não tem sentido é o primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro, escrito quando o autor tinha pouco mais de 20 anos de idade, mas que já revela características que o consagrariam como mestre da literatura contemporânea.

Um brasileiro em Berlim é composto por 16 crônicas escritas durante os 15 meses em que João Ubaldo permaneceu na Alemanha. O livro aborda os estereótipos associados ao brasileiro como um povo sexualmente libertino e o contrapõe à sisudez, também estereotipada, do alemão, lembrando que na Alemanha a nudez pública é tratada com mais naturalidade do que em terras tupiniquins.

Viva o povo brasileiro se desenvolve em grande parte no século XIX, mas avança até 1977. Nele, realidade e ficção se misturam para criar um épico brasileiro com passagens heroicas e cômicas, tendo como pano de fundo momentos decisivos para a história do país, como a Revolta de Canudos e a Guerra do Paraguai

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A Farra do Circo

A farra continua ...
A imagem ao lado é recente e retrata uma típica noite de rock no Circo Voador, lendária casa de espetáculos carioca cravada ao lado dos arcos da lapa. Tem muita história. Está em cartaz, nos cinemas – em Aracaju no Cine Vitória, simpática sala com uma programação diferenciada, alternativa, localizada na Rua do turista, no centro da cidade – um precioso resgate do início, revolucionário, dessa história ...

“A Farra do Circo”, documentário dirigido e magnificamente montado por Pedro Bronz e Roberto Berliner inteiramente a partir de fotos e imagens em VHS filmadas por este último na época – 1982 a 1986 –, nos dá a perfeita dimensão do que foi aquela verdadeira versão brasileira do “verão do amor”, quando uma trupe de malucos resolveu montar um circo cultural libertário e anárquico em plena praia do arpoador. Foram expulsos, mas se transferiram para o bairro boêmio da Lapa e estão lá, até hoje.

Foi importantíssimo para o surgimento e fortalecimento da geração anos 80 do rock nacional, mas sua proposta ia muito além. Sempre teve de tudo, no circo, e o filme deixa isso muito claro, com trechos de apresentações de Alceu Valença, Paralamas do Sucesso – tocando “Veraneio Vascaína”, do Aborto elétrico, depois gravada em disco pelo Capital Inicial -, Dercy Gonçalves, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Sergei, Orquestra Tabajara, Blitz, Eduardo Dusek, Claudio Zoli e João Penca e seus Miquinhos Amestrados (com Leo Jaime na formação). Registra também a colaboração dos hoje consagrados Gringo Cardia e Deborah Colker, além da realização de recitais de poesia com Chacal e Paulo Leminsky e apresentações de diversos grupos de dança e teatro, dentre eles, e principalmente, o Asdrúbal trouxe o trombone, mítica trupe que revelou Evandro Mesquita, Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé – que aparece, inclusive, numa das cenas, com deliciosos e durinhos peitinhos à mostra, em cima do palco ...

Ratos no circo ...
A nudez é freqüente e tratada com naturalidade – muito embora, em determinados momentos, a platéia se mostre surpresa, como quando Andréa Beltrão anuncia um streap tease e, para supresa de todos, rola mesmo, um streap tease. Não dela. Interessante também notar como os tempos eram outros, em termos de exigências quanto à segurança nos espetáculos: em vários momentos o circo é mostrado nitidamente superlotado, como num show de Gilberto Gil que parte do publico assiste perigosamente empoleirado nos diversos andaimes que sustentam o teto. Impossível não traçar um paralelo com os dias atuais, até mesmo porque um dos trechos mais interessantes é justamente o que mostra o conflito que se instaurou entre a trupe, convidada para a Copa do México de 1986, e algumas das instituições patrocinadoras do evento – a coca-cola e a prefeitura da Cidade de Guadalajara. Elas prontamente retiraram o patrocínio ao se chocar com o caos criativo porém anárquico e desorganizado protagonizado por Perfeito Fortuna e seus asseclas. Seu depoimento sobre o episódio é emblemático e merece ser reproduzido:

“Esse lance da gente com as empresas, multinacionais, toda a coisa de patrocinador, a gente nunca se entendeu direito, a gente nunca combina, pois são ideologias muito diferentes. É verdade. A gente não está atrás da grana. A gente é mais um risco no papel, não sabe direito o que vai acontecer no fim. Então é evidente que a gente não dá o resultado esperado, tudo certinho no papel. A gente tem prazer, e as organizações não têm a volta desse prazer. Então elas não estão erradas: a gente quer uma coisa, tem um objetivo, e elas têm outro. Estou totalmente de acordo que elas tenham saído fora. De verdade, acho mesmo, acho certo. A gente não vai dar aquilo que elas querem. O Circo Voador é uma energia que está no ar. Por mais que tirem nosso tapete, a gente nunca cai, porque a gente voa, ou a gente cai na nossa mãe, que é a Terra, que está voando, num salto no vazio, um salto pro desconhecido, que é o que nos interessa, não interessa fazer o que a gente já sabe.”

O filme não tem narração. Não precisa. A história é bastante conhecida. Só faltava mesmo o que está lá: ver, finalmente, as imagens – toscas, em termos de qualidade técnica, é verdade, mas bem filmadas, de forma dinâmica e com enquadramentos inventivos, por Roberto Berliner. De todo aquele povo criativo e feliz fazendo arte sem amarras, sem barreiras estéticas, culturais ou morais.

Ao final, Perfeito Fortuna anuncia para o domingo seguinte a presença de Agnaldo Timótio, não sem antes lembrar a todos que no dia seguinte Raul Seixas se faria presente.

Antológico!

Clique AQUI para ler meu relato sobre a primeira e, por enquanto, única vez em que estive no Circo Voador ...


Informações Técnicas
2014 | 01:34:00
Créditos:
Direção Pedro Bronz
produção executiva Rodrigo Letier
montagem Pedro Bronz, edt
coordenação de produção Lorena Bondarovsky e Leo Ribeiro
pós-produção Anna Julia Werneck
imagens Roberto Berliner
pesquisa Patricia Pamplona
finalização de imagem Hebert Marmo
edição de som e mixagem Denilson Campos

co-produção Canal Brasil
patrocínio SEC/RJ e Riofilme
apoio Pavê

A.

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quarta-feira, 16 de julho de 2014

DEP (*) Roberto Nunes

Ele passou mal durante a madrugada e foi ao hospital, mas se recusou a ficar internado. Apresentava um caso grave de hemorragia no sistema digestivo, e só saiu de lá depois de assinar um termo de responsabilidade. O quadro piorou quando ele voltou pra casa e em duas horas precisou voltar ao hospital, já vomitando sangue, segundo relatos de amigos. Tarde demais. O produtor cultural Roberto Nunes, responsável pela programação nacional das Sessões “Cine Cult”, do Cinemark, faleceu em Natal, Rio Grande do Norte – onde estava morando – na madrugada do último dia 15.

Não posso dizer que me surpreendi com a notícia, infelizmente. Roberto bebia e comia muito, de tudo, e não controlava nem a diabetes nem a hipertensão. Cansei de recusar convites para acompanha-lo nas madrugadas de Aracaju por botecos e biroscas. Aceitei alguns, como na noite em que degustamos uma deliciosa macaxeira com carne ensopada num treiler ao lado da rodoviávia velha, no centro, de madrugada – quem conhece o “pico” sabe que não é um ambiente freqüentado pelas famílias da alta sociedade sergipana ...

Apesar dos pesares – e foram muitos, oriundos principalmente de sua cabeça dura e instransigência que, se por um lado fazia com que as coisas acontecessem, mesmo que na marra, por outro inviabilizavam a continuidade dos projetos – ele deixou sua marca no cenário cultural da cidade que adotou e com a qual tinha uma relação conturbada, de amor e ódio. Foi aqui, em Aracaju, que o o Cine Cult nasceu. Fez tanto sucesso que acabou sendo adotado “oficialmente” pela rede cinemark e estendido para salas de cinema de todo o Brasil. Foi aqui, também, que ele desenvolveu projetos pioneiros como as sessões “Notívagos”, onde bandas de renome do cenário alternativo local e nacional se apresentavam no saguão do cinema – que fica no interior de um shopping center! Por lá passaram, dentre outros, Cidadão instigado, Eddie, Pata de Elefante, Retrofoguetes, Do Amor, Karne Krua, Plástico Lunar, The Baggios e Mamutes. Trouxe também para a cidade a “Virada Cinematográfica”, na qual três filmes eram exibidos na seqüência a partir da meia-noite. Ao final, éramos brindados com um delicioso café da manhã de confraternização. Inesquecível!

A última vez que o vi foi em mais um aniversário do Cine Cult, no qual foi exibido o clássico de Alfred Hitchcock, “Os pássaros”. Estava acompanhado de sua ex-esposa, uma pessoa queridíssima que conheci pouco, mas pela qual tenho uma grande estima. Gostaria muito de lhe transmitir meus pêsames por notícia tão triste. Deixo aqui minha pequena homenagem, com meu depoimento e o de alguns amigos que recolhi pela net. Ao final, nas palavras dele mesmo, um relato de seus últimos dias, na terra do sol. Parecia feliz. Quero crer que sim.

(*) Descanse em paz, Roberrrto ...

“Conheci o Roberto no Psicodália de 2009 pra 2010. Desde então, quando coincindíamos presença em Aracaju, tentávamos combinar algumas geladas ou uma refeição em um dos lugares de seu roteiro gastrobotequeiro. A última vez que nos encontramos foi em fevereiro,em um show do Rafa's Trio no Maneco. Depois seguimos pra porta do Cook, onde ficamos papeando sobre alguns dos nossos assuntos mais recorrentes: cinema brasileiro e uma parceria que um dia faríamos em algum projeto em Porto Alegre. De lá, segui pra casa e ele pra uma das tantas saideiras. É uma pena vê-lo fechar a conta tão cedo. Para quem o conheceu, a Plástico Lunar será sempre a PRástico.”

Fred Nicholson

“Dia 4/7 treze anos que a mãe partiu, deixando um buraco imenso, e vc Roberto Nunes, por motivos tão seus, resolveu ir embora de Bauru, se afastando de todos, ficamos anos sem ter noticias suas, até que por um site de pessoas desaparecidas finalmente tivemos noticias suas, ai podiamos seguir mesmo a distâncias as peripecias suas no cinema, coisa que vc transformou em sua vida, vc vivia pro cinema, vc vivia pro que acreditava, ai hj recebemos a noticia do seu falecimento, vc partiu se juntou a mãe ao pai e aos seus irmãos, o que poderia te dizer hj, que ficou a saudade dos tombos que te dava quando pequeno, das surras que eu dava nos meninos no caminho da escola quando mexiam com vc, e até do dia que fiz o pai te bater, por causa do maracuja que jogou em mim e nem tinha doido kkkk, vc foi cedo dia 31 agora ia fazer só 46 anos, mas espero que sua vida tenha valido a pena, descanse em paz meu irmão, mesmo não estando ai pra te dar o ultimo adeus, mas vc era meio aveso a vélorios, então mais uma vez descanse em paz e fique com Deus.”

Bel Nunes

“Num rodízio de massas no final da Rua Augusta, na Cantina Piolin, Roberto Nunes me pede algumas artes. Iria aplicar em camisetas comemorando os 6 anos do Cine Cult.
Achou estranho pq não cobrei o serviço. Falei que tava precisando elaborar um portfolio com artes mais conceituais e que pra mim bastava assinar as ilustrações. Pedi apenas pra ele me indicar como designer gráfico enquanto eu estivesse em SP. Alguns meses depois, nem camisetas, nem portfolio, nem porra nenhuma, apenas uma amizade gorducha, regada a base de cerveja e feijoada no Arouche. Não qualquer feijoada, a melhor feijoada que comi em São Paulo. Quando voltei pra João Pessoa, ele ficava me mandando fotos na hora do almoço no sábado, alimentando minha inveja. Também mandava fotos dos Bolinhos de Risoto do Boteco Dona Teresa. Safado.

É cara, só foi 1 ano de troca, de conversas engraçadas e encontros ligeiros.
A saudade vai durar bem mais tempo. Pode ter certeza.”

Jonathas Pereira Falcão

“Hoje partiu um dos melhores produtores culturais que tive o prazer de conhecer. Roberto Nunes foi o responsável por levar a Tess, eu e o Fabio à Natal/RN, para um debate com o público do Cine Cult Natal-rn após a exibição do longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Muitos já tinham pedido que fôssemos à Natal e foi ele quem viabilizou nossa ida até lá. Fomos recebidos por ele com um largo sorriso (às 4h30am), e assim foi o fim de semana que passamos em Natal. Conhecendo pontos turísticos, passeando na praia e curtindo ao máximo. E Roberto fazia questão que estivéssemos bem e confortáveis. Mal dava tempo de sentir falta de alguma coisa, pois ele providenciava tudo antes que houvesse a necessidade de pedir.

Além disso tudo, além do conforto e praticidade, as conversas. Variados temas, com alto respeito a opiniões contrárias às dele. Ironizava sem ridicularizar, contra argumentava sem faltar com respeito. Um exemplo de como tratar seus convidados.

Descanse bem. E Vida Longa ao CINE CULT!!
Guilherme Lobo

“Meu querido amigo Roberto Nunes. Grande amante do cinema, da música, da vida, da Boemia, dos bons papos. Seu amor pela arte e pela estrada sempre foi contagiante e inspirador. Idealizadou e coordenou com paixão o belo projeto Cine Cult. Vimos muitos filmes no cine. Curtimos muitos shows. Biritas & Filosofia. Assistimos juntos nosso Corinthians ser campeão da libertadores. Sua paixão pelo cinema, pela música e pela estrada inspirará a gente pra gente.

Descanse em paz meu querido amigo

Tatá Aeroplano

“Eu tenho um saco cheio de histórias pra contar sobre Roberto Nunes. A maioria não fala bem do personagem. Roberto era capaz de acordar um amigo com os punhos na porta do apartamento em plena madrugada. A mulher o havia expulsado de casa mais uma vez. Mulher desalmada. Numa segunda-feira. Nesse ritmo, eu acabaria sem teto também.

Não me arrependo de ter mandado Roberto tomar no cu, pagar a conta e sair sem olhar pra traz. Foi ele, no entanto, quem me apresentou à cidade de meus pecados e minha vida inteira. O bicho tinha faro. Macaxeira com carne na rodoviária velha; leitão à pururuca, com direito a baralho, jogo de truco e cachaça pingada de um barril de madeira depois de o restaurante fechar as portas, na Atalaia. Posso dormir o resto de meus dias e não vou recuperar as noites que perdi e ganhei ouvindo Roberto reclamar da vida e dos homens num trailer enferrujado, ao lado da catedral.

Roberto era um cara passional. Só assim pra aturar a relação complicada, pontuada por tantos conflitos de interesses, que o homem por traz do Cine Cult mantinha com o Cinemark. Só assim pra amargar os prejuízos recorrentes da Sessão Notívagos. Era investimento na marca da produtora, mas parecia filantropia. Ele ficava devendo a Deus e o mundo (a mim, sempre pagou direitinho), mas botava as caras e fazia.

Morreu como vivia: Cabeça dura. Dizem que os amigos de verdade nunca vão embora. Eu levantei da mesa e não me arrependi. Nunca mais bebemos juntos. Tinha de ser assim.

Rian Santos

“Roberto Nunes, produtor cultural. Idealizador do CINE CULT, projeto que há 7 anos inclui nas salas de exibição do Brasil os filmes que o "circuitão" deixa de fora - basicamente tudo que não for da Globo ou de Hollywood. Entusiasta do cinema autoral.

Paulista de Bauru, morou um tempo em Aracaju e promoveu na cidade belas noitadas regadas a cinema & música com as sessões Notívagos e Virada Cinematográfica. Quem foi lembra dos shows de Autoramas, Karne Krua e Banda Eddie, pra não citar títulos como "A Fita Branca", "Valsa com Bashir", "Gomorra" e tantos outros. Numa dessas, eu e Bebegás estreamos o clipe de "Gargantas do Deserto" da Plástico Lunar.

Robertão, meu amigo. Radicado em Natal (RN), fez questão que eu estivesse presente na pré-estreia do longa "Aos Ventos que Virão" aqui em Sergipe. Polêmico e considerado um cara "difícil" por muita gente, sempre teve todo meu respeito por não fazer média e produzir suas histórias através da iniciativa privada.

Acabo de saber que ele morreu nesta madrugada em decorrência de uma hemorragia interna. Tinha apenas 47 anos e vai fazer falta.

Fica em paz, irmão.

Adolfo Sá

“Reza a lenda que uma vez existiu uma história chamada: "Dias Difíceis no Suriname". A Plástico Lunar era Prástico, Julico (Julio Andrade) era Jurico, o Rei do Brues, os filmes eram da Grobo Filmes e o celular meu amigo, só podia ser da Craro.

Nesse longo rio da vida, passado nesse país fantástico, existiam filmes imprescindíveis e shows em num cinema, lançamento de clipes, pessoas fumando e provando que o sistema de incêndio precisava ser revisto e, principalmente, um louco, sim amigos um louco daqueles que era tão chato que arrumava confusão com você do nada.

Um cara daqueles que, por aprontar todas sendo como ele é, deixaria um dia uma série de histórias que você pode contar como a piada do tio chato da festa de Natal, sem que perca a graça: "Ah! Vai lá meo!" "O Júniorrrrrrr...." "Conrintxia mano!" "Se você for pra São Paulo leve sempre cuscuz, ninguém lá vai te ajudar".

Nesses dias difíceis e polêmicos no Suriname, existia uma alma desencontrada por gerações que vagava arengueiro por um certo circulo de jovens com idades aproximadas. Talvez ele fosse tão desencontrado que às vezes assumia posições bi-polares de idades discrepantes. E quem nunca se sentiu assim? Mas nesse lugar, com certeza, a mágica aconteceu e o rock era EXPROSIVO!

Vida longa ao Robeeerrrtto! (só vale ler isso com um sotaque bem característico).

Werden Tavares Pinheiro

“Pode-se dizer que o idealizador do Cine Cult, o cara que trouxe para Aracaju, a possibilidade dos cinéfilos sergipanos não ficarem tão desatualizados em matéria de estreias do dito “cinema independente” ou “de arte”, deixou uma parcela considerável de órfãos. Através da Cine Video Educação, iniciou suas atividades na capital sergipana, em setembro de 2005, quando implantou no extinto Moviecom, do Riomar Shopping, o Cinema de Arte. O projeto proporcionou ao público carente de bons filmes no cinema, o prazer de conferir produções da estirpe de “Dogville”, “O Leopardo”, “2046”, “Pai e Filho”, “Time”, entre outros, até 2007, quando o cinema fechou suas portas. Depois, Roberto Nunes levou a ideia ao Cinemark, que a abraçou. Nascia, assim, o Cine Cult, que deu tão certo na pequena Aracaju- a estreia por aqui foi com o filme “O Hospedeiro” de Joon-ho Bong – que aos poucos foi sendo levado para outras praças e, atualmente, contemplava 18 cidades e 26 complexos. Para quem pensava que a capital sergipana só tinha plateia para o cinemão, os projetos coadjuvantes que Roberto Nunes implementou- como a “Virada Cinematográfica” e a “Sessão Notívagos”- só mostrava o contrário. Quanto mais cinema, melhor. E foi assim, durante sete anos.


“Bubble”, “A Criança”, “A Culpa é do Fidel”, “Marie –Jo e Seus Dois Amores”, “O Fantástico Sr. Raposo”, “O Anti-cristo”, “Sede de Sangue”, “Incêndios”, “O Garoto da Bicicleta”, “O Homem que Grita”, “Amor”, “Moonrise Kingdom” , A Vida dos Outros”, “Infância Roubada”, “A Casa de Alice”, “A Via Láctea”, “Hércules 56”, “Vermelho como o Céu”, “O Pequeno Italiano”, “Amor”, “Pelo Malo” foram algumas das pérolas que tivemos a oportunidade de assistir e debater.


Mas algumas sessões foram emblemáticas como a do filme “O Violino” de Francisco Vargas, já que só existia uma cópia em 35 mm, circulando no Brasil e não foi fácil para Roberto Nunes consegui-la; “Do Começo ao Fim” de Aluizio Abranches, que teve sessões bem concorridas, sendo um dos filmes com maior número de espectadores do projeto, ainda que seja um desastre cinematográfico; a do filme francês “O Papel da Sua Vida” de François Favrat que teve direito até ao alarme de incêndio tocando, indevidamente, no meio da exibição; “Incêndios” de Denis Villeneuve que foi exibido no 4º aniversário do projeto, na sala 8 (a maior do complexo Jardins) e deixou muita gente “grudada” na poltrona após os créditos finais.


A troca de ideias podia ser com os frequentadores assíduos, logo após a sessão, ou com os convidados que o produtor trazia, a exemplo dos diretores Lina Chamie, Silvio Da-Rin e Vladimir Carvalho. Num dos últimos projetos que Roberto Nunes havia iniciado -“Conversas Cine Cult”- ele trouxe a Aracaju, em janeiro, o premiado diretor de “O Som ao Redor”, Kléber Mendonça Filho. Para esse segundo semestre, ele já havia sinalizado a possibilidade de trazer para cá, o cineasta Júlio Bressane.


Os últimos filmes em cartaz no Cine Cult Aracaju foram “Inch'Allah" de Anaïs Barbeau-Lavalette e “Que Estranho Chamar-se Federico!” de Ettore Scola. Torço para que a rede de multiplex não acabe com o projeto que deu tão certo e arregimentou um novo público frequentador das salas de cinema.


Notívago de “carteirinha”, workaholic, mal humorado prá uns e boa praça para outros, apreciador das obras de Bresson, Polanski e Bergman e leitor do sergipano Francisco Dantas,  Roberto Nunes deverá ser sepultado na cidade de Bauru (SP), onde nasceu.

Suyene Correia


O produtor cultural Roberto Nunes faz a alegria dos mais exigentes nas salas de cinema. Ele está à frente do projeto Cine Cult desde 2007, trazendo filmes do circuito não comercial para a rede Cinemark. Há 18 anos Roberto desenvolve projetos de exibição de filmes diferenciados para mostras, festivais, programações especiais para exibidores e institutos culturais. Paulista, workaholic idealista, veio passar um tempo em Natal e, como bom “turista”, resolveu estender o prazo. “No início do ano vim para acompanhar as sessões mais de perto, uma estadia prevista de dois meses já está no sexto mês...e sem prazo de terminar”, diz. A natureza de Natal é cinematográfica. 

“Moro na vila de Ponta Negra,  muito próximo ao mar. Ele está na minha varanda, e como durmo sempre das 8 às 10h, eu vejo o sol nascer no mar.... e ai está o meu passeio favorito, ver o sol nascer no oceano imenso que banha o Morro do Careca. Então é assim: eu trabalho até a madrugada,  desço para a praia para tomar um banho de mar, desses de quase se afogar, volto e durmo.

Pipa é um destino que gosto muito. Uma pousada que recomendo é a Chácara do Madeiro, boa para trilhas, descer na baia onde sempre aparecem uns golfinhos e vir caminhando até a Praia do Amor. Para um potiguar isso deve ser trivial, mas para quem vive em São Paulo, morando a duas quadras da Avenida Paulista, é outro mundo. 

Em Natal curto sempre dar uma passada pela Ribeira, tomar uma cerveja num bar sem nome, sempre com um bloco de anotações no bolso para registrar algum pensamento que será incorporado num livro que estou escrevendo - meio ficção, meio autobiográfico - sobre um mascate do cinema, tipo ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’ com o ‘L’uomo Delle Stelle’. 

Gosto de conhecer bares. O Bar do Ku, minha primeira referência em Natal,  cai bem com uma Heineken (nunca só uma), carne de sol com macaxeira, e a pimenta que é muito boa. Posso dizer que fui no Bar do Cobra Choca - a maioria nem sabe onde fica. Pesquisem no Google e se não tiverem frescuras peçam um  chambaril e se deliciem. Em Ponta Negra vou na Cipó Brasil quando quero uma pizza legal, e no  Galo do Alto para um jantar mais elaborado. No dia a dia prefiro minha cozinha, sou um amante das panelas.

Como passo bastante tempo em casa, vejo filmes. É trabalho e prazer juntos. Algumas dicas: Bergman, Bresson e Polanski são autores geniais, do primeiro indico sempre ‘Morangos Silvestres’, ‘Pickpocket’ de Bresson, e ‘Tess’ de Polanski, são sugestões que qualifica um olhar menos focado em efeitos especiais ou cinema pipoca. Também os nacionais, como ‘O Som ao Redor’ e ‘Febre do Rato’ merecem ser vistos, podendo ser acompanhados de filmes mais recentes como ‘Alabama Monroe’, ‘Tabu’ e ‘Philomena’.

Três dicas de livros que estão aqui, um terminando, outro iniciando e outro esperando: ‘Firmin’, de Sam Savage, ‘Caderno de Ruminações’, do Sergipano Francisco J. C Dantas, e ‘O Sonâmbulo Amador’, do pernambucano José Luiz Passos.

Em Natal tudo fecha muito cedo, e aí está um dos motivos que me impedem de sair mais. Deveria ter um belo pub, com várias cervejas e um rock inglês tocando até o dia amanhecer...uma Rua Augusta aqui em Ponta Negra seria pedir demais?”

FIM

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